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sábado, 21 de março de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 120

Ainda no mesmo ano, o Grupo Musical e de Instrução comemorou o seu aniversário. Com um programa bastante variado, passando pela parte cultural, animação e desportiva, desde o passado dia 29 de Julho, que o Grupo Musical de Instrução Tavaredense iniciou as festividades comemorativas dos seus 90 anos de vida, que culminaram no último fim de semana, no decorrer de uma sessão solene, presidida pelo vereador Azenha Gomes, tendo como orador oficial Miguel Almeida.
Um dos pontos altos desta cerimónia, foi vivida na evocação feita a Augusto da Silva Jesus, sócio e dirigente durante 44 anos, a quem foi prestada uma justa homenagem, onde o seu trabalho árduo e dedicado foram bem vincados.       Já não é nos tempos de hoje e é do conhecimento público, as várias oscilações porque tem passado a agremiação tavaredense,cuja última década tem sido de alguma controvérsia.
Não foi difícil perceber tal situação, perante a lacónica intervenção do presidente cessante Paulo Medina: “tudo bate palmas, tudo é bonito, mas estamos a esquecer as formiguinhas pequeninas que trabalham aqui, sem importância nenhuma e a quem não ligamos, mas se fizermos casas e as fecharmos, apanham bolor e ninguém faz nada por elas. Se não forem os bichinhos, os pequeninos que passam pelas direcções, a fazerem um trabalho exemplar durante um ano e não são reconhecidos ‘ninguém os conhece!’... Gostava de dizer que sou um jovem de 35 anos, vivo o Grupo, e que fiquei cá neste mandato somente pela simples razão (a qual muita gente não sabe), que a colectividade estava para fechar as portas, sendo um grupo de amigos que se reuniu à última da hora durante o mês de Setembro, que fez a vida da colectividade continuar em frente. Esses sim, é que merecem os elogios e as tais referidas palmas”.
A terminar sublinhou: “em Tavarede não existe só uma colectividade, mas cinco. O que sucede por vezes, e que lamento, é o facto das entidades que estão à frente de Tavarede não tratem todas de modo igual, é só isto que pretendo dizer”, concluiu.

Também a associação carritente festejou o seu 80º ano de existência. Com muitas tradições culturais, principalmente nas áreas do teatro e da música, o Grupo Musical Carritense comemorou o seu 80º aniversário no decorrer de uma sessão solene presidida pelo vereador Azenha Gomes, em representação da Câmara Municipal, ao qual se associaram elementos de várias colectividades.
Um dos pormenores retidos nesta cerimónia, foi o facto da instituição aniversariante ter estado encerrada cerca de seis meses. Em relação a este impasse, o seu presidente Adelino Lopes, referiu as dificuldades por que tem passado a sua agremiação, queixando-se da falta de carolice de pessoas que efectivamente poderiam colaborar no prosseguimento das suas actividades, focando no entanto que é sempre bastante trabalhoso, requer bastante dedicação e sacrifício, o que leva as pessoas cada vez mais a afastarem-se, dadas as dificuldades muitas vezes presentes.Por outro lado deixou um recado a quem de direito, que se têm esquecido um pouco deles, relativamente à falta de apoios, que têm sido bastante limitados, frisou Adelino Lopes, deixando um apelo para a premente necessidade de ajuda, no sentido de se poderem fazer algumas obras de beneficiação na colectividade, cujo orçamento rondará os 3 mil contos.
A concluir, deixou no ar um enorme desejo: é nossa pretensão relançar novamente o teatro e a escola de música, chamando a atenção daqueles mais entendidos que devem comparecer a fim de se dar outra vida ao Grupo Musical Carritense, pois estas duas vertentes têm estado paralizadas.

As Jornadas do Teatro Amador de 2001, tiveram a participação do grupo cénico tavaredense, que apresentou as atrás referidas peças de Tchekov, num espectáculo realizado na sede do Sport Clube de Lavos.


Em Outubro, o Ateneu Alhadense efectuou um encontro associativo, no qual participou o grupo da SIT. “....Depois de um curto intervalo, chegou o momento tão aguardado pelos amadores da SIT. E foi o que se esperava: a representação do “Urso”, de Tchekov, em que a amadora (artista diria) e encenadora Ilda Simões deu conta do seu inegável talento contracenando com o consagrado José Medina, a confirmar o seu enorme traquejo nestas lides teatrais, correctíssimo também o difícil papel de “mordomo”.
 A assistência vibrou e aplaudiu de pé, mas Ilda Simões não dispensou de homenagear um alhadense que dedicou toda a sua vida ao Ateneu e que também prolongou a sua prestação à SIT – em representações em louvor da planta cheirosa, “o limonete”. Chamados ao palco os amadores do Ateneu e a numerosa embaixada de Tavarede, ali cantaram com entusiasmo em fim de festa a célebre música que Anselmo Cardoso escreveu para o seu amigo José da Silva Ribeiro”.

O aniversário comemorado em Janeiro de 2002 teve, no seu espectáculo de gala uma nova peça, O homem, a besta e a virtude. No seu 98º aniversário, a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT) levou e mantém em cena a peça “O Homem, a Besta e a Virtude” de Luigi Pirandelo, autor dos inícios do século XX. Não é fácil representar Pirandelo, mas os actores e actrizes da SIT já nos habituaram a não terem dificuldade em representar qualquer peça de teatro, por mais difícil que seja.
         Fernando Romeiro, o actor principal e que se mantém em cena todo o tempo, tem um desempenho excelente, no papel do professor Paolino que dá aulas particulares a vários jovens entre eles, o filho da senhora Perella com quem tem uma relação amorosa.
         Aquela personagem, a quem o marido, o capitão Perella não liga, mesmo quando vem a casa passados meses, é bem desempenhada por Rosa Paz que também já nos habituou com a sua presença em palco. Rogério Neves personifica muito bem o autoritário e machista capitão Perella.
         O bom desempenho de todos: o doutor Nino, por Valdemar Cruz; o senhor Tótó, farmacêutico, António Barbosa; Rosária, a governanta, Manuela Mendes; os estudantes, Gil e Abel, representados por José Miguel Pereira e Anselmo Cardoso; Nónó, João Pedro Paz; Graça, a criada, Maria Helena Rodrigues e o marinheiro, João José Silva, faz com que ao longo de aproximadamente duas horas se assista a teatro de qualidade, apanágio da SIT ao longo da também já sua longa existência, uma vez que está a dois anos da comemoração do seu centenário.


         Mas por trás dos bastidores toda uma equipa trabalha afincadamente, antes, durante e depois, dirigida e coordenada por Ilda Simões que tem feito um bom trabalho e que tem a seu cargo a encenação e direcção de cena, equipa composta por José Miguel Lontro, Nuno Pinto, José Maltez, Otília Medina, João Pedro Amorim, João Fadigas, José Manuel Cordeiro e Vitor Assis.
         Vocacionada desde sempre para o teatro, a SIT está a desenvolver um projecto a que concorreu, através da Delegação do Ministério da Cultura da Região Centro, tendo em vista a formação nos vários domínios, o adequado apetrechamento técnico e um arquivo documental ligado ao teatro, de forma a que possa vir a apoiar os outros grupos de teatro amador do nosso concelho, que é um exemplo no país e a testemunhar estão as 25ª Jornadas de Teatro Amador, organizadas pelos Lions Clube da Figueira da Foz e que irão decorrer a partir de 27 de Março, nas quais estão inscritos 26 grupos de teatro.

sábado, 14 de março de 2015

O Associativismo nas Terra do Limonete -

         E vamos agora ao último caderno desta recolha sobre o associativismo na terra do limonete. Duzentos anos decorreram desde que Tavarede, já liberta do jugo da família Quadros, que durante cerca de três séculos oprimiram e vexaram o povo local, iniciou um novo modo de viver, deixando de ‘vegetar’ como os seus Senhores o obrigaram. Os tavaredenses aprenderam, então, que a sua vida terrena não podia ser unicamente trabalhar. É que, por esses tempos, tinham acabado de aqui chegar, trazidos pelos ventos do leste, os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, provindos da França.

         Escrevemos, ao iniciarmos esta tarefa, que o associativismo teria tido os seus princípios, na nossa terra, na primeira década do século dezanove ou, talvez, na última do século anterior. Nas nossas buscas, não conseguimos encontrar uma certeza absoluta. Mas, embora o não possamos garantir, julgamos não estar afastados da verdade.

         Procurámos descrever o começo dos tavaredenses na busca da sua instrução. Foi o teatro o meio escolhido. Mas não foi a nossa terra a primeira. Ainda aqui imperava o despotismo dos fidalgos, já se fazia teatro em Maiorca, pois temos notícia da ida do morgado Fernando Gomes de Quadros àquela terra assistir a uma comédia e tentar ‘mimosear’ com pancada, o dono da casa onde teve lugar a representação. E, certamente, noutros lugares da região já se apresentava teatro.

         Já estamos bem longe dos velhos ‘cardanhos’, que Ernesto Tomás nos descreveu primorosamente, as tais sociedades dramáticas, que em Tavarede ‘vegetavam como tortulhos’. Também já pertencem à história as ‘célebres’ representações, em que o público, sem qualquer respeito pelos actores, fumava e cavaque ava na improvisada plateia, enquanto assistia ao desenrolar dos dramas, que até as pedras faziam chorar, e as comédias, que provocavam indigestões de riso. De igual modo, também em Tavarede se finaram as tão tradicionais representações dos Autos Pastoris e dos Reis Magos, de que o velho Joaquim Águas era tão entusiasta!

         Mas a verdade é que foram estes espectáculos que tiveram a maior importância para o desenvolvimento cultural e recreativo em Tavarede. Podemos dizer, que foi esta a semente que tão abundamentemente germinou e se reproduziu na pequena e velha aldeia. Claro que se não deve deixar de dizer que, se a semente e o terreno eram excelentes, também a sorte nos favoreceu, com um filho tavaredense que dedicou toda a sua longa vida ao associativismo, cultivando a abençoada semente do teatro, arte esta em que foi justamente considerado Mestre. Como alguém referiu, sem teatro Tavarede não seria a mesma, e nós acrescentamos, sem o Mestre José Ribeiro também o teatro de Tavarede não seria o mesmo.

         Mas esta introdução já vai longa e é tempo de regressar à nossa história. Sabemos o que foi o passado associativo, conhecemos, ou julgamos conhecer, o associativismo presente, mas ignoramos completamente como será no futuro. Ao iniciarmos o novo século, o vinte e um, existiam na freguesia cinco associações culturais e recreativas: a Sociedade de Instrução Tavaredense, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, o Grupo Musical Carritense, o Clube Desportivo e Recreativo da Chã e o Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro. E, facto digno de registo, todas as cinco instaladas em sedes próprias e todas desenvolvendo activamente a sua nobre missão.

         Damos o título do ‘Primeiro centenário’ a este capítulo, tendo em conta o caso de a Sociedade de Instrução, a mais antiga, comemorar os seus primeiros cem anos de existência logo nos anos iniciais do século.  E como simples informação, podemos dizer que, depois de consultarmos toda a imprensa local e todos os registos e arquivos da colectividade, a mesma efectuou 1.156 espectáculos, desde a sua fundação, em Janeiro de 1904, até ao final do século vinte. Uma média de quase doze espectáculos por ano, é um caso notável em grupos de amadores e numa terra tão pequena como a nossa.

O primeiro espectáculo desta colectividade no novo século, teve lugar no dia 27 de Janeiro de 2001, integrado no programa comemorativo do seu 97º aniversário. Levou à cena as peças de Tchekov Um pedido de casamento e O urso. E, no dia seguinte, antes da tradicional sessão solene, representou outra peça do mesmo autor, O canto do cisne. Relativamente ao espectáculo de sábado, encontrámos o seguinte apontamento. A SIT levou à cena no passado dia 27 duas peças de Anton Tchekov, dramaturgo russo e impulsionador do chamado “realismo psicológico”, que faleceu já no início deste século.
                 As peças, “Um pedido de Casamento” e “O Urso” integraram-se na comemoração dos 97 anos daquela colectividade. Com estas peças e mercê de um trabalho que se denota apaixonado e sério, a SIT está de novo a conquistar público, uma vez que a sala estava completamente cheia.
         Trata-se de duas comédias ligeiras, de costumes, que pedem tratamento naturalista quer na encenação, quer nos adereços e cenários. Este tipo de teatro vive essencialmente do bom desempenho dos actores e aqui os dois espectáculos contaram, no caso do “Pedido de Casamento”, com duas excelentes interpretações rubricadas por Rogério Neves e por Fernando Romeiro, este último, bastante seguro e mostrando ser um actor com escola; Já no “O Urso” estiveram em bom plano Ilda Simões e José Medina, não desmerecendo o discreto António Barbosa, num papel que parece fácil mas que, na realidade, não o é.
         A encenação consegue manter um ritmo adequado ao desenrolar da acção, sem quebras e prestável à atenção do público. Talvez, e tratando-se de teatro realista, uma ou outra articulação não estivesse bem, tal como o cenário de “O Urso”. Nesta matéria seria bom que a SIT deixasse de utilizar os “velhos” cenários que funcionam como uma parede no espaço cénico e partisse para novos moldes mais consentâneos com o teatro moderno.
         Uma nota para os folhetos de apresentação: simples, directos e informativos para o grande público.

A propósito deste aniversário, e num periódico figueirense, uma notícia foi publicada sobre a colectividade, na qual se incluia uma entrevista com a então presidente da direcção. Foi em 15 de Janeiro de 1904 que Tavarede viu nascer no seu seio a Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT).
         Tavarede, uma freguesia rural cuja população vivia exclusivamente da agricultura, onde os “cavadores” trabalhavam a terra de sol-a-sol, não havia tempo para a cultura e muito menos para a instrução. Tal facto levou a que um punhado de tavaredenses fundasse a SIT, cuja principal acção seria a criação duma escola onde os tavaredenses pudessem aprender a ler depois das tarefas da lavra.
         Poucos anos após a sua fundação, já se falava de teatro e foi de tal ordem o amor pela “arte de Talma” que ainda hoje, volvidos 97 anos, é o teatro a principal razão da existência da colectividade.
         Não se pode falar da SIT sem mencionar o nome de mestre José da Silva Ribeiro. Se a SIT hoje é o que é muito deve a mestre José Ribeiro que dedicou toda a sua vida ao teatro e soube incutir essa paixão aos tavaredenses, que ainda hoje sentem o orgulho pela sua SIT ser considerada a “catedral do teatro amador”.
         Várias gerações têm passado por aquela colectividade, todavia o exemplo daquelas que ao longo dos anos escreveram páginas brilhantes, de um historial que é orgulho dos tavaredenses, continua a ser seguido religiosamente por quem hoje dirige a agremiação.
         Há cerca de quatro anos, uma grave crise de dirigismo na SIT levou a que um grupo de jovens mulheres assumisse a liderança da colectividade. Na altura a notícia foi comentada quase a nível nacional, pois não havia memória de tal situação ter acontecido em território nacional. Daí para cá tem sido uma luta constante, o modelo tem persistido e na passada semana realizou-se a assembleia geral da SIT e mais uma vez fica a pertencer às mulheres a condução dos destinos da casa.
         Rosa Paz, uma jovem tavaredense, assumiu desde a primeira hora o modelo directivo da SIT. A massa associativa na última assembleia geral elegeu-a para presidir aos destinos da colectividade. Licenciada em Direito, Rosa Paz divide o seu tempo entre o escritório de advocacia, a sala de direcção e o palco da SIT, já que é também amadora teatral.
         Foi com Rosa Paz que O Figueirense conversou, tomando nota daquilo que ultimamente tem sido feito, bem como as perspectivas que se colocam no futuro, numa altura em que já se pensa nas comemorações do primeiro centenário.
         Eis as perguntas e respostas:
         - Como vai a SIT?
         - Dentro do possível vai bem. Tudo o que se faz nesta casa tem sempre a ver com o teatro. Consideramos que é a principal actividade da SIT. No dia que o teatro acabar, dá-me ideia que a razão de ser da SIT deixa de existir.
         - Isso quer dizer que o teatro absorve a SIT na totalidade?
         - Não é bem isso. Tentamos levar à prática várias actividades de acordo com as pretensões dos nossos associados. Todavia, o teatro constitui sempre prioridade. Nestes dois últimos anos definimos três obras prioritárias: as obras de remodelação do nosso bar, tendo em conta que o mesmo seja convidativo para que os nossos associados se sintam bem e venham com assiduidade à colectividade. Uma outra obra que iniciámos foi a construção de uma “régie” de forma a poder responder a algumas insuficiências no aspecto da montagem de peças de teatro. Finalmente a remodelação da instalação eléctrica. Esta última obra muito cara, obrigatoriamente tinha de ser feita até por questões de segurança, levando-nos a ter de fazer arranjos em termos da nossa sala de espectáculos e camarins.
         - Deduzo que as obras encerraram um ciclo de investimento...
         - As obras que enumerei representam um ciclo de prioridades, mas não ficaram por aqui os investimentos. Todos os anos temos levado à cena novas peças de teatro. Para quem está por dentro da situação a montagem de uma peça hoje é caríssima e nós não fazemos teatro para rentabilizar as finanças da colectividade. Pensamos que o teatro é uma função cultural e quando montamos as peças e as representamos não estamos a pensar que lucros eventualmente apuraremos. Quero dizer com isto que no nosso plano de investimentos tivemos de adquirir alguns equipamentos que permitam uma maior rentabilidade, de forma a que a montagem das peças saia mais barata e possamos ter em linha de conta melhores espectáculos. Refiro-me a equipamentos de luz e som.
         - Digamos que em termos de mandato anterior está tudo falado?
         - Quase tudo, mas ainda há algo que queria dizer. Em 1999, sob a direcção de Ilda Simões, quisemos homenagear um grande escritor português que é Bernardo Santareno, e levámos à cena a peça “O Pecado de João Agonia”. Foi um êxito de que muito nos orgulhamos. Por um lado a crítica foi unânime ao apoiar o nosso trabalho, todavia foi importante todo um conjunto de solicitações para representarmos a peça nos mais diversos locais, e acabámos por não aceder a muitas das solicitações, já que tinhamos necessidade de preparar outros trabalhos. Também procurámos ser gratos a quem tem dedicado a sua vida ao teatro e assim homenageámos em 1999 dois amadores da SIT que fizeram 50 anos de palco, José Luís Nascimento e a nossa muito saudosa Lourdes Lontro, que faleceu na véspera de um espectáculo.
         Ainda como ponto de referência, fomos os representantes do movimento associativo concelhio junto da Comissão de Protecção de Menores.
         Escola de Teatro: uma realidade – Foi no último sábado que se realizou a assembleia geral da SIT. Rosa Paz e seus pares foram reconduzidas para mais um mandato. Curiosamente, nas eleições da colectividade tavaredense não é necessário campanha eleitoral, já que a preocupação dos associados vem no sentido de saber “se as meninas continuam”.
         - Quais os grandes objectivos para 2001?
         - Nos últimos tempos tem sido uma preocupação constante a formação teatral. Para tanto, é uma necessidade premente a constituição de uma escola. Demos os primeiros passos no ano anterior e a escola de formação é já uma realidade através de um protocolo existente entre a delegação regional da Cultura do Centro, o Grupo de Teatro Profissional “A Escola da Noite” e a SIT, projecto denominado “Centro dos Amadores de Teatro”.
         - Tem havido boa receptividade da delegação regional da Cultura aos vossos projectos?
         - Mantemos com a delegada óptimas relações. Temos o cuidado de a convidar de forma a que possa assistir à nossa actividade cultural. Por outro lado, é um facto que nos apraz registar o reconhecimento do nosso trabalho e a confiança que em nós é depositada. Recentemente concorremos num universo de 115 colectividades para sermos considerados como pólo receptor e gestor de equipamentos teatrais. Fomos uma das quatro colectividades contempladas, e a partir daí partilhamos a nossa acção com sete colectividades concelhias.
         - Que tipo de colaboração existe entre a SIT e outras colectividades?
         - A colaboração normal entre colectividades. Recentemente realizou-se o fórum das colectividades e desde logo para além da nossa participação cedemos as nossas instalações. O nosso pavilhão desportivo tem sido cedido às mais diversas organizações, quer culturais quer desportivas. Em termos de teatro temos dado apoio a diversos grupos que a nós recorrem, desde a cedência de instalações, cenários e guarda-roupa.
         - Para além do teatro que outro tipo de actividade existe na SIT?
         - Ao longo do ano realizámos vários espectáculos culturais e outros de entretenimento para os nossos associados. Procuramos manter tradições muito antigas nesta casa, como os concursos de pesca de mar e rio, os campeonatos de sueca e a “Serração da Velha”.
         Tchekov aos 97 anos – A SIT comemora os seus 97 anos de existência durante o mês de Janeiro. Faz parte da tradição da colectividade a realização de uma récita teatral, inserida nas comemorações. Assim este ano, para não fugir à tradição, os amadores da SIT fazem subir à cena quatro peças.
         - Quais são as peças preparadas para este aniversário?
         - Julgo que pela primeira vez estamos em condições de representar quatro peças praticamente em simultâneo. Juntamente com Ilda Simões fizemos uma escolha criteriosa de autores e decidimos que este ano seria de Tchekov, um escritor nunca antes representado em Tavarede. “Um Pedido de Casamento”, “O Urso” e o “Canto do Cisne” são as peças que representaremos nos dias 27 e 28 do corrente. Para além destas, também queremos homenagear um grande autor português, José Régio, já que este ano se comemora o primeiro centenário do seu nascimento, pelo que também levaremos à cena a peça “O Meu Caso”.
         - Como conclusão final, com que apoios conta a SIT para toda esta actividade?
         - Temos a convicção que as entidades oficiais nos deveriam ajudar muito mais do que têm feito até aqui. De qualquer forma, temos tido ajudas. Todavia, temos o cuidado de apresentar os nossos projectos devidamente fundamentados e com  descrição das necessidades prementes para os levar a efeito. Nesta base, aguardamos o veredicto das entidades a quem recorremos e vamos realizando-os conforme as nossas possibilidades e as ajudas de que dispomos.
         A SIT tem de momento cerca de 700 sócios que contribuem com uma quotização anual da ordem dos 600 contos. Esta importância não dá por vezes para pagar o aluguer de um guarda-roupa para uma peça de teatro. Daí seria fácil ter uma colectividade aberta para funcionamento de um bar e se ocupar o tempo com jogos de cartas e dominó, como muitas outras que conhecemos. Não foi para isso que foi fundada a SIT. Consideramo-nos uma casa de cultura para fazer cultura. Só assim tem razão a nossa existência. No dia em que não nos for possível cumprir a tradição e a memória dos antepassados que fizeram a história desta colectividade, outra alternativa não nos resta do que fecharmos a porta.
         Estamos à beira de comemorar o nosso primeiro centenário, faltam três anos, mas já pensamos na constituição de uma comissão organizadora.
         Comemorações do 97º aniversário – As comemorações dos 97 anos da SIT tiveram o seu início no passado dia 15 com a realização de um jantar convívio.
         No último sábado realizou-se a assembleia geral, com as eleições para os corpos sociais relativos ao ano de 2001. A mesma noite, na SIT, foi preenchida com uma sessão dedicada ao fado de Coimbra, tendo actuado o Grupo “Saudade Coimbrã”.
         Momento alto das comemorações acontece este fim de semana. Assim, na noite de 27, pelas 21,45 horas, realiza-se um espectáculo de teatro pelo grupo cénico da SIT, com a apresentação de duas comédias de Tchekov: “Um Pedido de Casamento” e “O Urso”.
         No dia imediato, realiza-se a partir das 16 horas a tradicional sessão solene tendo como orador principal João Manuel Pedrosa Russo. No decorrer da sessão será apresentada a peça “O Canto do Cisne”.

         O teatro volta novamente à cena no dia 3 de Fevereiro, pelas 21,45, homenageando José Régio nas comemorações do primeiro centenário do seu nascimento, com a apresentação da peça “O Meu Caso”, estando ainda inserido no programa um recital de poesia e uma palestra sobre o escritor.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 118

        É ocasião de nos debruçarmos um pouco sobre o Clube do Saltadouro, que no dia 14 de Março de 1999, comemorou mais um aniversário da sua fundação. Revendo-se na obra erguida a pulso de bairrismo, onde esforço, sofrimento, muita carolice e uma indómita determinação serviram de argamassa à realidade que hoje (14 de Março) serviu de ponto de encontro às muitas pessoas que quiseram associar-se ao júbilo da 1ª sessão solene, realizada em casa própria, do Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro, Fernando Serra, à frente de um grupo de companheiros de aventura que acreditaram ser possível pôr Saltadouro (Tavarede) no mapa das colectividades concelhias, era bem a imagem de um homem feliz.
         É que, após aquela longamente dolorosa e incompreendida odisseia de 20 anos de “barraca clandestina” era reconfortante poder-se gozar a dignidade de um edifício que, apesar de inacabado, lhes permitia, pela primeira vez, comemorar condignamente o 20º aniversário daquele sonho de 11-03-1979.
         E com Fernando Serra a saudar os que tornaram possível a obra e a lembrar, emocionado, os que tombaram na caminhada – Albarino Maia ali tinha a cadeira vazia e Adelaide Oliveira o agradecimento pela sua doação à causa – se iniciou esta histórica sessão solene com Padre Matos a dar o abraço de felicitações pelo “dever cumprido” e a exaltar este salutar exemplo de convivência reforçado na vontade de servir.
         Também Sérgio Gouveia, servindo-se de Fernando Pessoa para realçar a lição de sacrifício dada por esta gente “que terá de ser compensada e retroactivos” pela grandeza desta obra que não poderá ser ignorada.
         Era uma vez 16 amigos que sonharam num clube para o Saltadouro. Dumas tábuas fizeram uma barraquinha e... na clandestinidade dessa iguaria se atreveram a entrar no atletismo com... camisolas ali confeccionadas; unidos pela “sueca” e “matraquilhos” aventuraram-se a uma... marchinha... a “ginástica”... juntaram boas-vontades para uma escola de música... outra para lutar contra o analfabetismo, numa ambição de crescer copiada da rã que queria ser tão grande como o i... que, aqui, não estoirou.
         Conseguiram terreno... mãos para abrir alicerces, erguer paredes tijolo a tijolo, regados com o suor dos rostos em sábados e domingos negados ao descanso até que a miragem dum telhado – 1600 contos – se atravessou no sonho, com a Câmara a não acreditar na determinação daquela clandestinidade que pela primeira vez erguia a mão a um subsidio.
         Só que tal sonho já estava tão enraizado que não havia obstáculo que pudesse cortar-lhe as raízes e à custa das “migalhas” do Rancho e o bater à porta de todos os vizinhos o tecto apareceu e a obra saiu do anonimato. Para hoje deixar o recado a todos aqueles que a podem ver com os próprios olhos.
         Aconteceu “milagre”, disse Fernando Serra.
         E foi orador oficial da sessão, Lídio Lopes, a voz que veio enaltecer o exemplo deste punhado de gente que tão bem soube mostrar quanto pode o bairrismo.
         Empregando uma metáfora para explicar a determinação dos responsáveis pela obra, Lídio Lopes diria mesmo que “haja quem lhes proporcione as sapatilhas e a pista para correr” e deixem o resto com eles numa alusão muito merecida ao facto de terem contado mais consigo que com a caça a subsídios, prática corrente dos nossos dias, tecla igualmente tocada por Simões Baltazar, o Presidente da Junta de Tavarede, que pôs os seus préstimos à disposição e Alice Mano que viu “na luz de esperança que todos traziam nos olhos o futuro risonho que a obra merece”.
         Miguel Almeida, o vereador vindo da Câmara, não foi insensível à obra realizada e na hora de intervir não frustrou as expectativas: saudou a determinação daquela gente, reconheceu o alcance da obra feita e prometeu ajuda para a Escola de Música, Rancho Etnográfico – hoje já embaixador da Figueira – e até uma Extensão Educativa.
         E porque a obra merece ser concluída para dar satisfação ao sonho, ali mesmo entregou 1500 contos com a promessa de que no próximo orçamento a obra não será esquecida, gestos saudados com grandes provas de regozijo, com direito a hino do Clube, pela primeira vez tocado/cantado pela Tuna de Tavarede que animou toda a sessão.
         E com a actuação (muito aplaudida) do “Rancho Etnográfico Cavadores do Saltadouro” e exibição duma classe de ginástica de Caceira se encerrou a histórica sessão solene, assinalada com foguetes e um grande lanche a todos os presentes.
         Valeu a pena tanto esforço!
         Viva o Clube Desportivo e Amizade do Saltadouro!

         E ainda recordaremos as comemorações do segundo centenário de Garrett, para transcrever um breve apontamento sobre o espectáculo. No Teatro Taborda de Brenha, uma sala de grandes tradições, teve lugar, em 21 de Maio, no âmbito das XXII Jornadas de Teatro Amador da Figueira da Foz, a representação a peça “Na Presença de Garrett” pela Sociedade de Instrução Tavaredense.
         Com a casa à cunha para poder apreciar essa arte reconhecida saída da escola de Mestre José Ribeiro, há que dizer que a expectativa não saiu defraudada, escrevendo-se naquele palco uma das páginas mais brilhantes das jornadas com a apresentação da peça com que Tavarede havia assinalado o bicentenário de Almeida Garrett, esse vulto do teatro português.
         E a primeira palavra, de muito apreço, vai para a sensibilidade artística que presidiu à escolha dos fragmentos das obras de Garrett – Viagens na minha terra; Fala verdade a mentir; O Arco de Sant’Ana; Folhas Caídas; Romanceiro e Frei Luís de Sousa – bem como na metodologia que serviu de fio condutor à sequência dos “quadros” que deram corpo à peça e deixaram na assistência uma visão da vida e obra de Almeida Garrett, trabalho meritório da responsabilidade de Ilda Manuela Simões a quem ficou a dever-se, igualmente, o enquadramento oportuno daquele desfiar de referências e no papel, determinante, de apresentadora/entrevistadora de Garrett.
         Outra distinção, igualmente, para o trabalho de direcção de palco pela forma profissional como se operaram as  mudanças de cena sem baixar o pano, aspecto de grande reflexo no êxito do espectáculo e que, só por si, define o alto nível do grupo.

        Na presença de Garrett (a que João José Silva emprestou aprumo e diálogo com a naturalidade e arte trazidas de muitos papéis) se passaram muitas situações a que deram vida artistas de créditos firmados, casos de Joaninha e da avó – uma cega cuidada ao pormenor do gesto -, o duplo de Garrett – José Medina, outra relíquia da escola de Tavarede – entre outros que com tanta arte completaram o ramo, naquela lição, ao vivo, de história onde o liberalismo de que Garrett foi percursor e por onde passaram José da Silva Ribeiro como referencial de Tavarede nesse movimento de esperança tão bem expresso naquele “E quem choramos nós” bem marcante na estátua de Manuel Fernandes Tomás com que a Figueira assinalou a sua vocação liberal ainda hoje actuante
         Escolhida para remate do espectáculo a obra mais representativa de Garrett, “Frei Luís de Sousa” foi devolvida à cena trinta e tal anos depois de em Tavarede ter obtido assinalável êxito; “exigida” por um espectador muito especial – outra relíquia da SIT, João Medina – que voltou a assumir o dramatismo de Telmo Pais naquela carga pesadíssima de emoção em que José Medina desempenhou com um realismo admirável o papel-chave de Manuel de Sousa Coutinho a que Maria Clementina (uma Madalena de nervos de aço) emprestou comoção entre uma Maria (Ana Filipa Paz Mendes) dimensionada à medida da tragédia, e a que Rogério Neves (um Frei Jorge à altura das circunstâncias) se juntou o dramatismo do Romeiro (José Luís do Nascimento) e a benção do Prior (José Silva).
         E porque a SIT é uma escola, lá estiveram alguns jovens a provar que o teatro tem... futuro.
         Para as jornadas ficou esta lição de bem representar e a certeza de que Tavarede continua a ter cátedra no Teatro Amador do Concelho e um exemplo a nível nacional.
         E, também, que esta feliz iniciativa do Lions Clube da Figueira não pode acabar!

         O Coral Lúcia Lima, parte integrante do Grupo Musical e que havia sido fundado tempos antes, deslocou-se a um festival em Arouca. Actuaram neste encontro: Coral Lúcia-Lima (Tavarede); Coral de S. Pedro de Aradas (Aveiro); Grupo Coral Alia Bravis (Cartaxo); e Orfeão de Arouca. 

O Coral Lúcia-Lima, actualmente com 20 elementos, interpreta sobretudo temas de música coral e popular, estando neste momento a reunir canções antigas da região da Figueira da Foz e as zonas do Mondego. É seu dirigente o
Professor Pedro Luiz Antunes.
A actuação da Tuna esteve cingida às seguintes interpretações: “Canção da Barquinha”, “As Velas Soltas”,”Coro das Maçadeiras”, “Deito Fora” e “Canção da Figueira”.

         Instantes de Teatro foi o espectáculo preparado para o aniversário da Sociedade de Instrução do ano 2000. Momentos de vidas passadas e presentes, testemunhos da dedicação que os tavaredenses têm pela terra onde nasceram e pelos homens que fizeram a sua história” foram a tónica da representação com que a Sociedade de Instrução Tavaredense encerrou as comemorações do 96º aniversário da colectividade.
         Escrevendo no palco (de tão ricas tradições) Gratidão, Homenagem e Dedicação num arranjo teatral denominado “Instantes de Teatro” que teve o condão de repor em cena muitos dos êxitos que contribuíram para o brilhante historial da Sociedade de Instrução Tavaredense, o grupo cénico soube estar à altura das responsabilidades com mais uma “peça” de magnífica concepção e actuações de grande brilho.
         Assumindo o risco enorme que era trazer a palco essa relíquia histórica que era “O Pranto de Maria Parda” a que a saudosa Violinda Medina emprestara uma realidade tão vicentina que arrancara do espanto desse conceituado homem de teatro que foi o Dr. Paulo Quintela a expressão de que aquela “Maria Parda era a mais conseguida de todas a que assistira, mesmo a nível profissional”, esta nova Maria Parda, encarnada pela drª Ilda Simões, não envergonhou os pergaminhos.
         Também essa outra dedicação que é  João José Silva, na pele do Vaqueiro, veio provar que é um valor do nosso tempo, um óptimo continuador da escola de Mestre José Ribeiro.
         E o “histórico” João Medina, o sofrido velho “palácio”, chaga viva de Tavarede, outro compêndio da arte de bem representar.
         Peça onde a graça se casava com as desventuras da história, ressuscitando o “capador” de tempos idos num diálogo em que José Medina partilhava talento e graça com outra revelação que é Rogério Neves no desempenho do carreiro; com a maledicência da Doroteia e da Escolástica e um  bom reviver do trabalho do campo onde a enxada ainda é “ex-libris” bem perpetuado na estátua da nova Avenida e a “viúva do fogueteiro” uma critica bem conseguida.
         Tudo numa ambiência onde a música (gaita de foles) servia de fundo aos grupos dos jograis e danças e cantares,  num reviver de tradições só possível quando as raízes dessa escola de teatro continuam a constituir o solo fértil propício a que outros valores peguem de estaca.

         Terminamos este caderno no final do século vinte. Bem sabemos que muito mais haveria a recordar relativo ao associativismo na terra do limonete, muito em especial na vida associativa, recreativa e cultural de todas as colectividades da freguesia. Seria impossível fazê-lo nestes cadernos, pois torná-los-iam demasiado volumosos e maçadores. Procurámos dar a conhecer aquilo que mais de significativo e importante se verificou no decurso destes anos todos. Estamos convencidos de que algo se aproveitará destas recolhas. Ainda nos falta mais um caderno. Chegámos aos centenários de duas das nossas colectividades. Esperamos ter ainda a oportunidade de o fazer.

         E para acabar este caderno, ainda vamos copiar mais um apontamento sobre a SIT. Foi a 15 de Janeiro de 1904 que um grupo de homens, todos de humilde condição, assinou na Casa de Ourão, no Largo do Terreiro, a acta de fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT). Esta associação tinha como objectivo criar uma escola para ensino de sócios e seus filhos. Depois resolveram formar um grupo cénico com o fim de divertir e ao mesmo tempo obter receitas que permitissem manter a associação.
         O teatro foi desde logo tomado como actividade principal da SIT na continuação de uma tradição antiga dos tavaredenses. Já em 1896, na Gazeta da Figueira, Ernesto Fernandes Tomás nos fala de Tavarede e dos seus teatros; “as sociedades dramáticas vegetavam em Tavarede como tortulhos”.
         Logo após a formação da associação, começou a funcionar uma escola nocturna, gratuita, que manteve as suas portas abertas cerca de quarenta anos e que só desapareceu em 1942, por força da política vigente.
         Ao falar da história da SIT, ter-se-á de referir forçosamente o nome de João José Costa, pois foi ele que transformou o prédio onde os amadores de Tavarede representavam num excelente teatro. Mais tarde, João dos Santos, seu herdeiro, pôs à disposição da colectividade, sem receber qualquer renda, o prédio do Largo do Terreiro, a fim de nele ser instalada a sede da SIT. Em 26 de Dezembro de 1941, o edifício é vendido à colectividade por Arménio Santos, filho do anterior proprietário.
         Os anos foram passando e a SIT foi crescendo, sendo preciso ampliar e remodelar as suas instalações. Foi a ajuda da Fundação Gulbenkian e de muitos amigos da casa que permitiram que em 8 de Maio de 1965 se inaugurasse o edifício onde ainda hoje se encontra a sede da SIT.
         A actividade desta colectividade tem sido intensa. Grandes dramaturgos ali têm sido representados. O grande dinamizador do teatro foi, sem sombra de dúvida, José da Silva Ribeiro, que dedicou à SIT e ao teatro toda a sua vida. José Ribeiro foi o mestre do grupo desde 1915 até 1984, ano da sua morte. Seguiram-se-lhe na direcção cénica João Oliveira Cordeiro mas, infelizmente, pouco tempo esteve à frente do grupo, devido a um acidente trágico que o vitimou. Depois foi a vez de Ana Maria Caetano.
         De momento, Ilda Manuela Simões é quem dirige a secção teatral com a ajuda e o empenhamento de todos aqueles que fazem um espectáculo.
         Os amadores de Tavarede continuam a ser fiéis ao espírito e aos ensinamentos de mestre José Ribeiro. Continua a ser sua intenção transmitir ao público um certo saber, mas também proporcionar a esse mesmo público o prazer de assistir a uma forma de arte, divertindo-se.
         Escola de formação teatral... urgente – Professora do ensino secundário, Ilda Simões nutre grande paixão pela arte de Talma. Algumas vicissitudes por que passou o teatro da SIT, levam esta amadora a assumir a direcção cénica do grupo, para além da encenação. Representar e esquematizar a montagem das peças nas suas várias vertentes, é outra das suas funções.
         Foi precisamente com Ilda Simões que O Figueirense quis fazer a radiografia do teatro que se vai fazendo em Tavarede.
         Como vai o teatro em Tavarede?
         O teatro caminha. Temos encontrado algumas pedras que nos fazem tropeçar de vez em quando, mas ainda não caímos e julgo que, neste momento, dada a enorme vontade de prosseguir que todos temos, já não iremos parar.
         Essas pedras de que fala referem-se exactamente a quê?
         A vários factores. A falta de jovens amadores é um dos problemas. Por vezes deparamos com situações complicadas, tendo de fazer até alterações às obras que queremos representar. A peça que temos em cena – O Pecado de João Agonia – constitui em desses exemplos. Eu precisava de um jovem de cerca de vinte anos e não o tinha, o que me levou a transformar esse jovem noutro de, digamos, quarenta anos.
         Mas também a inexistência de textos dramáticos actuais, a falta de formação em algumas áreas e a falta de dinheiro são outras tantas pedras.
         Qual a razão que a levou a encenar uma peça nunca antes vista nem representada em Tavarede?
         Uma das razões foi exactamente essa, nunca ter sido representada em Tavarede. Depois porque o tema é actual, interventivo. Embora a situação proposta por Santareno não fosse resolvida da mesma maneira, ainda há muita gente que afasta do seu convívio um homossexual.
         Como consegue conciliar a função de amadora (representar) e de encenadora?
         É bastante difícil. Contudo para dirigir este grupo de amadores, conto com a grande colaboração de João José Silva e de todos aqueles que querem dar a sua opinião. Ouço todos, mas não é um trabalho de que goste muito. Encenar é um desafio. Todo o processo criativo que se vai elaborando na minha mente à medida que leio e releio uma peça é algo que me fascina. Contudo, representar é aquilo que verdadeiramente eu gosto de fazer, estar em cima de um palco, vivendo outras vidas.
         Que projectos para o futuro?
         O Pecado de João Agonia continuará em cena até Setembro. Temos imensos pedidos para sair com esta peça, porém é impossível atender a todos. Não somos profissionais. Depois começaremos a ensaiar outra peça a estrear em Janeiro. À semelhança do que temos feito de há dois anos para cá, gostaríamos de ensaiar ainda outra peça em 2001, mas dado que em princípio iremos também fazer formação, não sabemos se será possível conciliar tudo.
         João Miguel Amorim: é necessário cativar os jovens – João Miguel, um jovem amador da SIT, é quase um veterano nestas andanças teatrais. Apesar dos seus 14 anos, pisou pela primeira vez o palco aos três anos de idade e nunca mais parou. Representa a quarta geração de amadores na família. Sua bisavó materna, Emília Monteiro, foi das primeiras amadoras da SIT; seus avós, João Pedro Amorim e Conceição Mota, ainda estão no activo e sua mãe também já pisou as tábuas do palco tavaredense.
         Frequenta o 8º ano de escolaridade. Os seus tempos livres divide-os entre o basquetebol e o teatro.
         João Miguel, apesar da sua juventude, tem ideias muito claras acerca do papel importante da cultura nos jovens: “Lamento que por vezes os jovens da minha idade não adiram às manifestações culturais, ou que venham para o teatro”.
         João Medina: o teatro na SIT está no bom caminho – João Medina é uma referência do teatro amador da SIT. Tem 68 anos de idade e representa desde os 16. Em 1999 foi alvo de várias homenagens que simbolizaram as suas bodas de ouro como amador teatral. Do seu currículo consta que já participou em mais de 60 peças.
         Sobre o que se vai representando tem ideias muito próprias: “Sem querer menosprezar o trabalho de ninguém, penso que a nível geral perdeu valor nos últimos 20 anos. Houve mudanças grandes na montagem das peças, nas adaptações dos originais, nos vários aspectos que envolve o teatro, contudo penso que antigamente existia mais representação e mais arte”.
         Como elemento mais antigo em actividade no grupo cénico da SIT, João Medina preconiza o futuro do teatro em Tavarede: “a SIT em minha opinião tem futuro assegurado. Talvez não tenha ainda atingido o valor que lhe foi imposto pelo saudoso mestre José Ribeiro, porém o que fazemos hoje em Tavarede não nos envergonha”.

         João Medina mostrou-se optimista: “é indispensável trazer a juventude ao teatro, assim como indispensável é a existência de escolas de formação, contudo não há melhor escola que o pisar das tábuas”.

                                                           José da Silva Ribeiro - Uma da últimas fotos suas

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O Associativismo na Terra do Limonete - 117

         Certamente que Alves Redol, o escritor que tirava da “tragédia de vida” o enredo para as suas obras, se reveria na representação memorável de João Medina, o Pai que, tiranizado pela revolta duma prepotência cometida sobre os bens familiares, transportou para a sua nova família o estigma dessa afronta onde a esposa (outro excepcional desempenho de Ilda Simões) e os filhos não passavam de simples peças daquele xadrez de sobrevivência que nem a iminência de mortes fazia vergar.
         Com João José Silva e António Silva a incarnarem os papéis de filhos na oposição à visão doentia de pseudo-dignidade do pai, activamente, o primeiro, ao optar pelo “salto” à forja e mais passivamente, o segundo, ao resignar-se ao jugo da dureza do trabalho e do tratamento que já matara o irmão Miguel (representado com segurança por Miguel Lontro), também a Mãe soube mostrar quanto vale a razão e o direito ao defender o filho mais novo (promissora estreia de Pedro Louro) das garras daquela “forja assassina” para onde o pai o empurrava em detrimento da Escola.
         Com Manuela Mendes (vizinha) a mostrar naturalidade e a Morte (Rosa Paz) a desempenhar “condignamente” o papel de diabo, não há dúvida que merece o maior realce o trabalho de encenação (Ilda Simões) sem esquecer a quota-parte que tiveram no brilho do espectáculo José Maltez e Jorge Monteiro Sousa (montagem de cenários), Nuno Pinto e José Miguel Lontro (luz e som), Otília Cordeiro (ponto), João Pedro Monteiro (contra-regra) e o coro (Alice Mendes, Susana Neves, Cristina Almeida e Vanda Oliveira).
         “Cátedra” de tão grande lição, aquele “palco da vida” passou a mensagem esperançosa de Alves Redol na medida em que, ao exaltar com tanta realidade o dom da vida, não deixou de realçar o peso dum ambiente familiar onde o diálogo aberto constitui obstáculo à prepotência doentia de “forjas” humanas, mensagem que humedeceu os olhos e contraiu corações.
         Fazer calar tantas vocações seria um atentado ao nome prestigiado daquela casa, uma afronta à memória de José da Silva Ribeiro, um crime de lesa Cultura.
         Que ninguém deixe fechar “aquela forja” do nosso Teatro Amador!

         Havia uma velha tradição na nossa terra quer caíra no esquecimento. Um grupo de amadores teatrais da SIT resolveu, em boa hora, fazê-la reviver. Preservando uma tradição que se perde no tempo, Tavarede fez reviver, no último sábado, essa encenação pública de sabor satírico-popular que é a “Serra a Velha”.
         Iniciada por “sinistro” cortejo sob o comando do Juiz seguido de luzido (muitas tochas) séquito a que a musica fúnebre e muitos embuçados emprestavam um ambiente pesado através das ruas que levavam da SIT às ruínas do Paço, aí teve lugar a “prisão da Velha Malvada” que, após sumário exame (de grande comicidade brejeira), foi conduzida a tribunal (palco do Teatro da SIT).
         Ali, numa representação espectacular, a Velha Ana Castanha Pilada fez delirar a assistência com um diálogo de excelente interpretação cómico-satírica em defesa da sua “honra” ameaçada e condenada.
         Seguiu-se a apoteose da realização: Leitura do testamento da malvada em versos (repletos de humor), que contemplavam quase todos os habitantes de Tavarede, momento marcado por prolongadas e sonoras risadas que atingiram o rubro no acto da serração da ré, sentença para a sua “vida malvada”
         Mais uma tradição reposta com grande sabor popular e elevado nível de execução, razões mais que suficientes para um maior interesse das pessoas de fora de Tavarede.
         As nossas palmas para todos os que continuam a apostar na preservação das tradições, e para a Sociedade de Instrução Tavaredense, responsável pela iniciativa.

         Em Maio de 1998, a Sociedade de Instrução recebeu a visita do então ministro da Cultura. Manuel Maria Carrilho e comitiva foram recebidos pelos acordes da Tuna de Tavarede. Muitos populares associaram-se festivamente à visita do Ministro da Cultura e do Governador Civil dr. Vítor Baptista, acompanhando-os num demorado contacto com a Sociedade de Instrução Tavaredense. Mereceu atenção a visita à exposição de cenários e adereços.
         No palco, uma lenda do Teatro Amador: o actor da SIT, João Medina, declamou um texto de Mestre José da Silva Ribeiro alusivo ao estado de degradação do Paço de Tavarede: “Triste sina a do Solar, que é hoje um mutilado”.
         Manuel Maria Carrilho, que durante 18 anos passou as férias de verão na Figueira da Foz, conhece a riqueza humana das colectividades do concelho. Para a instalação eléctrica concedeu 4.000 contos de subsídio (as obras orçam os 7.000 contos).
         Miguel Almeida, em representação da Edilidade, salientou que “é difícil apoiar cerca de 122 colectividades” e pediu a ajuda do Ministério da Cultura. Simões Baltazar lembrou que os vários executivos camarários não mostraram interesse em resolver o problema do Paço de Tavarede e entregou ao ilustre visitante um dossier completo sobre as soluções que poderão ser implementadas para o salvar da ruína completa.
         Manuel Maria Carrilho prometeu estudar o caso e continuou a visita ouvindo atentamente as explicações de Rosa Paz, que não se coibiu de manifestar o desejo da colectividade de criar um museu de teatro para expor e guardar o precioso espólio acumulado ao longo de décadas.
         O Ministro da Cultura foi contemplado com algumas lembranças sem esquecer peças de artesanato da terra do limonete e esperamos que volte em breve com a solução desejada para o Paço de Tavarede.

         O segundo centenário do nascimento de Almeida Garrett foi comemorado em Tavarede. A Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), à semelhança do que tem feito com outras figuras de relevo cultural, vai assinalar o bi-centenário do nascimento de Almeida Garrett, um dos grandes vultos da literatura portuguesa, numa data que será festejada pela SIT, e que se inicia com as festividades alusivas do 95º aniversário da colectividade, prolongando-se até ao 25 de Abril. Assim, são três comemorações culturais numa festa só.
         “Estas comemorações são para todo o concelho, nomeadamente para as camadas jovens”, explicava aos jornalistas Rosa Paz, presidente da direcção da SIT, quando apresentava a iniciativa que vai ter o apoio do município figueirense e que visa, entre outras coisas, promover um espectáculo cultural que inclua diversas facetas do escritor como dramaturgo, pois Garrett é um escritor estudado nas nossas escolas e “devorado com apetite”, dizia Ilda Simões.
         Integrado nas festividades do aniversário da SIT, nos dias 23 e 30 do corrente, vai ser apresentada a comédia “O Festim do Baltazar”, que terá na segunda parte “História Cantada de Tavarede”, uma peça que envolve cerca de 50 pessoas, ficando depois para Abril o grande espectáculo cultural alusivo a Almeida Garrett que, como disse Ilda Simões, é preciso “incentivar o gosto pelo teatro”. Mas os objectivos da iniciativa passam também por desenvolver atitudes de preservação e animação da cultura portuguesa; dar a conhecer a cultura teatral do concelho; desenvolver o espírito crítico e conhecer alguns modos de vida, pensamento e história do século XIX, contrapondo-os com os da actualidade.
         Mas ainda segundo Ilda Simões, para actuar nestes domínios, propõem-se realizar um espectáculo cultural que contemple diferentes facetas do grande escritor, porque “não é inédito em Tavarede comemorar-se datas marcantes da História da Cultura”, e por isso não vão deixar de o fazer agora no bi-centenário do nascimento de Garrett até porque, frisava a directora do grupo cénico da SIT, “Garrett é um grande vulto da nossa literatura; porque somos uma população rica em actividade teatral; porque há muitas crianças, jovens e até gente adulta que não conhece a obra de Garrett” e porque, como dizia o próprio Garrett, “o teatro é um grande meio de civilização, mas não prospera onde não o há”.
         O grande espectáculo cultural vai incluir excertos de algumas obras do homenageado, nomeadamente, “Folhas Caídas”, “Romanceiro”, “Viagem à Minha Terra”, “O Arco de Sant’Ana” e “Frei Luís de Sousa”, excertos da “Terra do Limonete”, de José da Silva Ribeiro, e textos de Maria Clementina Reis Jorge da Silva e Ilda Manuela Simões.

         Dado o interesse cultural do evento, o grupo promotor da SIT vai ser recebido pela Câmara Municipal para acertar as formas de apoio, nomeadamente levar o espectáculo às freguesias do concelho e trazer as crianças das escolas à Sociedade de Instrução Tavaredense para verem o teatro.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Aasociativiusmo na Terra do Limonete - 116

         Geminada com a Figueira da Foz, Gradignan recebeu uma representação do associativismo tavaredense. Foi a primeira internacionalização do nosso teatro e da nossa música, numa iniciativa da Câmara Municipal da Figueira. Levar o nome da Figueira até terras de Gradignan e fortalecer culturalmente os alicerces do projecto comum que aquela cidade francesa e a nossa resolveram solidificar através de uma geminação era, assim o entendemos, o objectivo das gentes de Tavarede.
         Geminação (a mais recente da Figueira e a única de Gradignan) que tem funcionado mais ao nível da troca de experiências profissionais entre técnicos dos dois municípios, usufruiu agora de um revigorante tónico, admiravelmente administrado pelos amadores tavaredenses, que na “cidade verde” se revelaram exímios embaixadores.
         E Gradignan, a meia dúzia de quilómetros de Bordéus, é uma cidade diferente, não apenas da nossa cidade praia, mas “anormal” dentro da própria França, num contexto muito geral.
         Chamamos-lhe cidade verde.
         E julgamos que com razão, pois as zonas verdes, cuidadas e vastas, são, desde logo, o que mais impressiona qualquer visitante, para além das suas vivendas, algumas delas antigos e conservados palácios e solares de vinhateiros do século XVII e XVIII.
         Gradignan possui nos seus 1570 hectares, mais de 400 totalmente arborizados. Por hábito, que se mantém, aquele que compra um terreno cede à Câmara quatro quintos do mesmo para zona verde e apenas utiliza o restante para uso próprio directo. Quer dizer, depois de feitas as contas, cada habitante de Gradignan dispõe de 65 metros quadrados de espaço verde!
         De Gradignan, antigo lugar de passagem num dos caminhos de Santiago de Compostela, se pode ainda acrescentar, neste comprimido cartão de apresentação, que 50 por cento da sua população tem menos de 25 anos, que mais de 20 por cento das suas habitações são consideradas sociais, que, ainda por curiosidade, nela existem oito campos de futebol, 12 campos de ténis, três enormes gimnodesportivos, diversos pólos universitários (com 2400 alunos), creches e lares para a 3ª idade, etc., etc. etc.
         Tendo a comitiva tavaredense partido poucos minutos antes da uma hora (da noite, claro) do dia 10, e após uma viagem de cerca de 1200 quilómetros, quase sempre atormentada pela irritante chuva, chegaria a Gradignn ao fim da tarde, à hora de se instalar no CREPS (um dos maiores centros de estágio desportivos da Europa), jantar e “xixi-cama”, sem que antes muitos procurassem telefonar para saber o resultado do Benfica-Boavista...
         Toda a embaixada havia sido recebida por Pierre Caune e Yves del Perugia, os “homens da Câmara” que durante toda a nossa estada representaram a cidade e fizeram as honras da casa com a maior eficiência, enquanto que a Câmara da Figueira esteve presente pelo vereador dr. Licínio Amaral.
         Sexta-feira, após um desportivo e racional pequeno almoço, começou no extraordinário Teatro das Quatro estações a montagem da cena para a “Tá Mar”.
         Entretanto, o nosso Jornal teve privilégios, e pode passar a manhã deambulando pelos vários serviços da Câmara, na companhia de Daniel Costa, um francês (português) responsável (em grande parte) pela geminação, e que em Gradignan, na sua máquina administrativa tem posição de bastante importância, concretamente no departamento informativo.
         Após o almoço que realizámos no “Hotel de Ville”, parte da delegação figueirense, na qual pontuavam os presidentes da Assembleia de Freguesia e da Junta de Tavarede bem como a drª Ana Maria, responsável do teatro na SIT, foi recebida pelo presidente da Câmara, em sessão solene de boas vindas.
         Cerimónia protocolar, mas em família, durante a qual se procederam à troca não apenas de cordiais mensagens de “reforço geminatório”, mas também de lembranças, sendo igualmente “O Figueirense” distinguido com a Medalha de Gradignan, uma imerecida honraria. 
         Entretanto, enquanto uns iam montando a “Tá Mar”, uma outra equipa de artistas, isto é, a Celeste, a São, e a Augusta, capitaneadas pelo sr. Carvalheiro, trabalhavam gostosamente no que seria o ponto alto da noite: o jantar que Tavarede ofereceu aos amigos franceses, concretizado num divinal bacalhau à Lagareiro. Cremos que só a água era francesa, pois tudo fora levado de Portugal, incluindo os vinhos servidos, antes, durante e depois.
         Sucesso gastronómico (e social) ao qual não faltaria o nosso tradicional arroz doce, e reforçado pelo “acto de variedades” que encerraria a noite de amizade. Um bem ensaiado grupo – vozes e instrumentos – deu a conhecer um conjunto de canções populares portuguesas, daquelas julgadas mais significativas, ao mesmo tempo que os músicos do mestre João Mendes (imparável de dinamismo), atroavam os ares por tudo onde era sítio com a nossa Marcha do Vapor, sempre aplaudida e por todos nós cantada.
         E para um culminar de sarau em beleza, o Vítor Costa, o António Simões (parabéns, presidente), o António Barbosa, a Augusta Duarte, o Pedro Antunes, a Celeste Fonseca, e o António Paz encheram o Prieuné de Cayac de portuguesismo fadista.
         No sábado continuou-se a lutar contra a chuva, mas que na parte da manhã fez tréguas com Tavarede, o que permitiu que todos – cinquenta e dois – se integrassem numa musicalíssima arruada, bem ao jeito nacional, que percorreu, com polícia a abrir caminho, as artérias principais e mais movimentadas da “cidade verde”.
         Era a manifestação de rua que levava os “gradignadenses” a inquirir do que se passava... e a baterem palmas.
         Claro que não faltaram as bandeiras nacional e figueirense... a Marcha do vapor!
         E só na tarde de sábado houve ocasião para pensar nos francos que “asfixiavam” nas carteiras. Após um passeio por Bordéus, sempre a andar (no autocarro, claro), houve a possibilidade de visitar Arcachon, terra de iates, de Casino e de muitas (e caras) lojas, o que proporcionou o bater de asas dos frangos, digo, francos, transformados em “souvenires”.
         A presença de Tavarede e dos seus amadores aproximava-se não apenas do fim, mas igualmente do seu momento mais elevado: nessa noite houve Teatro, na fabulosa sala das Quatro estações, uma maravilha da técnica na construção de teatros!
         Dizem os entendidos que foi uma das mais conseguidas representações das várias já efectuadas da “Tá Mar”, pela SIT e que mereceu os fartos aplausos dos assistentes no anfiteatro. Em nome da verdade se deve dizer que não eram muitos. Tavarede, nessa noite, teve sérios inimigos: a televisão final da Taça de França, com a equipa do português Artur Jorge; a impiedosa chuvada que durante horas se manteve; um jantar de portugueses da zona, que comemorava o 10 de Junho e ainda uma festa que a uma centena de metros Gradignan vivia.
         Mas Tavarede e os seus amadores cumpriram com toda a dignidade a missão que haviam aceitado. O nome da Figueira da Foz, os propósitos da geminação, a arte dos amadores – teatrais, musicais, gastronómicos,--- - que de Tavarede, da sua freguesia, levaram a Gradignan uma mensagem de amizade, --- tudo, tudo foi cumprido com a qualidade, dedicação, muito figueirentismo, espírito de sacrifício, por um punhado de gente que bem merece o prémio de Divulgação do Nome da Figueira da Foz.
         Parabéns, amadores de Tavarede.
         Uma felicitação final para a Junta de Freguesia de Tavarede, (à qual “O Figueirense” agradece as atenções recebidas) particularmente dirigidas ao seu presidente, António Simões, o grande e abnegado dinamizador deste acto cultural.

         No ano de 1994, por ocasião de mais um aniversário, foi inaugurado o pavilhão desportivo da Sociedade. E masi uma festa interessante, e que se pode integrar no associativismo local, ocorreu em Março de 1994, por ocasião dos festejos comemorativos dos 100 anos de vida da antiga amadora teatral Helena Figueiredo Medina. Se é certo que Tavarede nos tem habituado, desde sempre, ao chamado direito à diferença, não podemos, contudo, deixar de nos regozijarmos, uma vez mais, com a forte participação que os tavaredenses desenvolveram, no passado dia 23, na homenagem prestada a D. Helena de Figueiredo Medina, no dia em que comemorava 100 nos de vida.
         Nascida há um século, D. Helena Figueiredo Medina ainda hoje cultiva uma alegria de viver não usual naquela idade, sentimento que tão bem exprime nas canções – de outros tempos, certamente – que admiravelmente canta, embora as sequelas de 100 anos de vida se façam logicamente sentir nos longos períodos de quietude, durante os quais, talvez mentalmente deambule por um passado difícil, pelo historial de uma mulher que quando rapariga muito teve de lutar para sobreviver e apoiar a família.
         No começo da noite, D. Helena recebeu em casa de sua filha, com a qual há longo tempo mora, a visita de largas dezenas de tavaredenses que, para além de flores, de muitas flores lhe patentearam estima, admiração, respeito e amor.
         Recordamos que o presidente da Junta, emocionado, lhe entregou as suas flores e o seu abraço, as flores de Tavarede, o abraço de Tavarede, o mesmo tendo feito a drª Ilda Manuela, em representação da SIT.
         Talvez que D. Helena não se tenha apercebido do porquê de tanta gente. Cremos bem que não. Mas que os seus olhos adquiriram mais brilho e a sua voz mais alma, disso ninguém duvidou.
         E as suas canções, mesmo aquela mais apimentada de que tanto parece gostar, ecoou de forma diferente no coração dos que a escutaram.
         Como significativo foi o ouvir-se a Tuna de Tavarede, agrupamento musical criado pelo saudoso José Medina, marido de D. Helena, e um dos músicos mais prestigiados que a “capital da cultura concelhia” conheceu.
         Parabéns aos “velhos” tunos de Tavarede.


         Depois da visita de cumprimentos decorreu no Salão de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense  homenagem a D. Helena, embora sem a sua presença.
         E pelo palco tivemos uma agradável representação de “Os Amores do Coronel”, peça que marcou, em 1914, em 22 de Março, a estreia de Helena Medina como amadora (distinta) teatral, no papel de Rosina, uma camponesa irrequieta e apaixonada.
         Uma palavra de aplauso para a espantosa actuação do coronel, isto é, de Rogério Neves. “Um espanto”, como diria Jô Soares.
         E com uma casa praticamente cheia, ainda admirámos um vídeo (trabalho do dr. Rui Moura) que nos contou muito do passado e do presente da centenária Helena Medina.
         Por fim, numa terceira parte, tivemos pequenos quadros de algumas peças nas quais D. Helena Medina actuou, quando jovem.
         Se os parabéns vão inteirinhos para a Mulher e para a Amadora Teatral chamada Helena Figueiredo Medina, eles terão de ser igualmente endereçados a Tavarede e muito especialmente à Sociedade de Instrução Tavaredense.
         É o tal direito à diferença...


         Também no dia 1 de Maio desse ano, o Grupo Desportivo e Recreativo da Chã, a dois passos da Figueira e na freguesia de Tavarede, comemorou o seu décimo oitavo ano de vida, melhor, de muita vida, bem patente no que da sua sede se construiu já, é visivel nas actividades que tem desenvolvido, nas quais – qualmenina bonita – toma lugar de honra o Rancho Estrelinhas da Chã