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sábado, 8 de agosto de 2015

Tavarede - A terra de meus avós - 18

         Naquele referido ano de 1907, certamente porque a comissão de festeiros não teria obtido donativos suficientes, não se efectuaram cavalhadas. Uma nota de um dos correspondentes jornalísticos em Tavarede, publicada no dia 19 de Julho, indica que “começaram os trabalhos de ornamentação no largo fronteiro à casa do sr. Luís João Rosa, para as festas a que chamam “de S. João”, e que constam de iluminações e danças no sábado e arraial e corridas de jericos no domingo de tarde. Dizem-nos que haverá carreiras de trens entre essa cidade e Tavarede, a preços reduzidos, e por isso é de presumir que seja grande a concorrência”.

         Não encontrei referência às práticas religiosas, mas presumo que terão sido as habituais: novenas, sermões e missa solene.

         Parece, pelas notas encontradas, que, mesmo assim, as festas estiveram bastante animadas, pois “as danças prolongaram-se até à manhã de domingo e de tarde foi grande a concorrência, apesar de não haver corrida de jericos, como se anunciou, nem qualquer outra diversão”. Pelos vistos, naquele ano, houve crise de jericos e outras “alimárias”, pois nem cavalhadas nem corridas.

         Como já referi anteriormente, para as danças populares armavam-se dois pavilhões, variando os locais. Naqueles tempos, eram organizados ou melhor, eram reactivados para as festas, dois ranchos que existiram durante bastantes anos: o Rancho da Alegria e o Rancho Flor da Mocidade. Por sinal foi o primeiro que, em 1912, venceu o concurso dos ranchos do 1º de Maio, organizado na Figueira pela primeira   vez naquele ano.
        
Pois em 1907 houve duas comissões e, por conseguinte, dois pavilhões. Curiosamente, estas duas comissões eram “chefiadas” por dois irmãos, os quais, diz a notícia, “eram dois verdadeiros amigos!”. Um, o mais novo, de nome Francisco Cordeiro, instalou o pavilhão junto do seu estabelecimento de mercearias e vinhos, que ficava mais ou menos a meio da rua principal, entre a Igreja e o Paço. Embora pequeno, por a largura da rua não o permitir maior, “estava instalado a capricho”, e era ali que dançava o Rancho da Alegria.

         A outra comissão, sob a chefia do irmão José Maria Cordeiro, montou o seu “no Paço, perto do Palácio dos antigos Condes de Tavarede, num recinto, portanto, muito mais espaçoso para as respectivas funções do que o seu rival”. Naturalmente, importa dizer que, bem perto a esses pavilhões, ficavam os seus estabelecimentos comerciais, pois ambos eram comerciantes do mesmo ramo: mercearia e vinhos e, nestas alturas,  também de “comes e bebes”, chegando a publicitarem os seus petiscos e os mais afamados “vinhos do lavrador”, na imprensa figueirense, numa feroz concorrência, apesar de, como referi, “serem dois verdadeiros amigos!”. Neste pavilhão dançava o Rancho Flor da Mocidade e era muito frequentado pelos rapazes e raparigas de Buarcos e da Praia. Os músicos, de um e outro, pertenciam à tuna de Tavarede.

         Ora esta história teve a sua origem precisamente com os músicos: No ano anterior, o mano Francisco “promoveu umas festas defronte de casa. Havia contratado os músicos, mas estes à hora faltaram, porque foram raptados por uma outra comissão de festejos. Este ano, sucedeu-lhe o mesmo caso, tendo à hora de arranjar uma fanfarra composta de homens de antes quebrar que torcer”. E, então, lembrou-se de afixar no pavilhão um enorme letreiro em que se escrevia: “NEM ASSIM!”.

         Pois era verdade. O mano “Zé Maria” havia-lhe pregado uma valente partida, deixando-o sem música. Como se vê, também naquele ano o tentou, mas não o conseguiu. Em Tavarede havia, realmente, muitos e bons músicos.

         Claro que o irmão Francisco fez aquilo “no firme propósito de susceptibilizar o mano mais velho e lembrou-se de o mimosear com uma inocente surpresa, destas de levarem água no bico, mandando afixar no seu coreto aquela legenda, que não passava de um singelo devaneio bairrístico”.

         E a notícia desta “guerra” continua:

         “O ti’Zé Maria, de temperamento mais de quebrar que torcer, acusando o toque e tendo em consideração o velho adágio de que amigos, amigos, mas a categoria dos ranchos à parte, respondeu ao irmão – improvisadamente – de que maneira? Começou por lançar no espaço uma dúzia de restolhentos foguetes de morteiros com três respostas, que tinha para vender, deitou as mãos a uma gaveta da cómoda e dela ripou um lençol de muita estimação que, pelos modos, fôra uma prenda de casamento, e fê-lo em tiras, colou-as umas às outras, mandando-as descerrar, a todo o comprimento do avantajado pavilhão do seu apreciado rancho, ornamentado a capricho com verdura, grinaldas de flores e bandeiras em profusão, muitos balões e cordas com papéis de cores garridas, onde se dançava e cantava, alegremente, até ao romper de alva, e juntou-lhe, em letras garrafais, a seguinte legenda, em resposta à tendenciosa falácia do seu querido mano Francisco: ATÉ AQUI CHEGUEI EU!...

         Era inevitável que o festeiro ti’Zé Maria Cordeiro levasse com uma “tesíssima descompostura, no próprio arraial”, da senhora Aninhas, sua esposa e colaboradora nos negócios do estabelecimento, pois, com o seu irreflectido gesto de esfacelar uma estimada prenda do enxoval, arruinara o “aludido lençol bordado que constituia, segundo disseram, uma velha prenda de estimação do apartado dia de noivado de ambos...”.

         Para acabar esta curiosíssima história de uma “terrível” rivalidade festeira, entre dois irmãos, que até eram verdadeiros amigos, transcrevo a última parte da notícia:

         “Tal ocorrência redundou numa deprimente barraca para o popularíssimo e simpático promotor do célebre e tão acreditado Rancho da Mocidade, que depois se viu obrigado a mercar um lençol semelhante ao transformado, num ímpeto de nervos descontrolados, na referida legenda, que lhe causara um dos mais íntimos prazeres da vida, só dessa maneira fazendo calar a consorte, que acabou por dar grande gáudio, ao ter disso conhecimento, ao seu cunhado Francisco, inveterado rival nas festas são joaninas do seu marido...”.

* * * * *

         A outra história que me propuz contar sobre as festas ao S. João, na terra do limonete, é bem diferente da anterior. Como se irá ver, neste caso, um dos “festeiros” era bem poderoso, tão poderoso que... conseguiu fazer com que se acabassem em Tavarede tais festejos.

         Foi no ano de 1927. No ano anterior, o movimento militar, iniciado em Braga e que seguira até Lisboa, no 28 de Maio, uma vez vencedor, derrubou o regime republicano. Não interessa aqui, pormenorizar o acontecimento histórico, que acabou, pouco depois, por instaurar a ditadura de Salazar, a qual se manteria até ao 25 de Abril de 1974.

         Desde a implantação da República, em Outubro de 1910, que o partido republicano, no poder, travou dura luta contra a igreja católica, até então detentora de grandes privilégios e que tinha enorme influência política nos destinos do país. Foi  natural, portanto, que, com o movimento atrás referido, imediatamente procurasse reconquistar o seu anterior poder e influência.

         Como habitualmente, naquele ano de 1927, a comissão promotora das tradicionais festas sanjoaninas, tratou da organização e marcou-as para os dias 30 e 31 de Julho. Do programa previsto, para além das costumadas cerimónias religiosas, previam-se as “ornamentações, iluminações, fogo de artíficio, concertos pela filarmónica contratada, danças populares com acompanhamento da tuna, cavalhadas com ida à Figueira e a Buarcos, corridas de prémios, etc.”. O tradicional.

         Acontece, porém, que semanas antes, o Bispo de Coimbra resolvera comunicar aos padres da sua diocese, que proibissem, pura e simplemente, que as cavalhadas fizessem parte do programa, pois as considerava “pagãs” e, como tal, indignas dos festejos a um santo, por mais popular que o S. João fosse. E, claro, logo pairou a ameaça de excomunhão para quem não obedecesse à deliberação do senhor Bispo...

         A Figueira, de que na altura era pároco o bem conhecido reverendo Palrinhas, acatou a ordem sem discussão. Buarcos procedeu do mesmo modo. Até a nossa vizinha Brenha, embora muito lamentosa, não teve as suas cavalhadas, aliás, de pouca tradição naquela freguesia. Restava Tavarede e, com o aproximar da data, redobrava a curiosidade sobre a atitude que tomariam os tavaredenses, tanto mais que tinham anunciado, no seu programa, a realização das mesmas.

         Aconteceu, então, o impensável. A comissão dos festeiros, com o apoio da população, resolveu não atender à ordem do senhor Bispo, apesar de todas as tentativas que o nosso padre Manuel Vicente fez para impedir a realização das cavalhadas. Mas ainda foram mais longe no seu atrevimento e desafio à Igreja.

         Normalmente, as festas eram abrilhantadas por uma das filarmónicas da Figueira e, algumas vezes, pela das Alhadas ou de Santana. Naquele ano, porém, e ao terem conhecimento das ordens do Bispo de Coimbra, os festeiros tomaram uma atitude verdadeiramente reaccionária: contrataram a célebre filarmónica do Troviscal que, pouco tempo antes, havia sido excomungada pela Diocese de Coimbra, com proibição total de participar em festejos desta natureza. É verdade, ainda agora custa a crer como é que a comissão das festas, que até era composta por alguns católicos praticantes, tenha tido tal ousadia. Contratar uma banda excomungada!!!

         E, então, divulgou um programa em que se lia: “Sábado, 30, às 18,39 – Recepção, na estação do caminho de ferro da Figueira, da banda do Troviscal, com a comparência da comissão promotora dos festejos, bandas da Figueira e outras associações”. Parece que foi uma recepção triunfal, a que o povo deu colaboração aparecendo em enorme número.

         Realizaram-se as festas. Eis um comentário publicado a 3 de Agosto: “O reverendíssimo sr. Bispo de Coimbra está fulo com o povo de Tavarede – e não tardará a despejar sobre a terra do limonete, a sua abençoada excomunhão. Temos de concordar que sua reverendíssima excelência tem razão: - uma comissão de rapazes quiz fazer a festa a S. João, com a função da Igreja – novenas, missa, sermão, etc. – e a tradicional cavalhada; o sr. Bispo exigiu que do programa fosse suprimida a cavalhada – que se fazia desde há muitas dezenas de anos, com as bandeiras da igreja e repiques dos sinos – com o fundamento de que era um número pagão; os festeiros resolveram a questão com grande facilidade, dispensando pura e simplesmente a colaboração da Igreja, arranjando bandeiras não benzidas e, para completar, mandando vir a banda excomungada do Troviscal. E a música veio, a Igreja esteve fechada, e a cavalhada fez-se, correndo tudo na melhor ordem”.

         O programa cumpriu-se, com a exclusão da parte religiosa. E as cavalhadas, conforme a tradição, lá foram até à Figueira. “Era uma cavalgada numerosa, com ordem, precedida do ruidoso Zé Pereira, e vendo-se nela também muitos trens cheios de gente alegre”. E lá estava, junto à Igreja de S. Julião, a banda do Troviscal, que tocou enquanto se cumpria a praxe das voltas à igreja, desta vez sem o repique dos sinos.

         E, passados os festejos e com os ânimos certamente mais calmos, a imprensa figueirense noticiou:

         “Tiveram grande luzimento os festejos populares de S. João, que se realizaram nos dias 30 e 31 do mês findo, com os números tradicionais. Não houve desta vez função religiosa, porque, tendo o sr. Bispo de Coimbra imposto a supressão da tradicional cavalhada, que é, de há longos anos, a característica das festas de S. João em Tavarede, os organizadores dos festejos resolveram, e muito bem, fazer as cavalhadas e dispensar pura e simplesmente a parte religiosa. Para compensar esta falta, veio a excelente banda do Troviscal, que foi apreciadíssima, tanto no concerto que realizou na noite de sábado para domingo, com programa de responsabilidade que teve primorosa execução e foi muito aplaudido, como no de domingo.
         Das 2 horas até à madrugada de domingo houve danças populares, que se repetiram no domingo à noite, e na segunda-feira realizou-se a rosquilhada.
         As cavalhadas foram muito concorridas, e visitaram a Figueira, onde os esperava a banda do Troviscal, e Buarcos.
         A Tavarede veio muita gente dessa cidade e dos lugares vizinhos.
         A banda do Troviscal foi aqui alvo de manifestações de simpatia. Cumprimentou as duas associações locais, onde se trocaram saudações calorosas e foi servido aos visitantes um copo-de-água. O regente da banda sr. Oliveira, afirmou-nos que ia penhoradíssimo com as amabilidades que ele e os executantes da sua banda foram alvo.
         A igreja esteve fechada em todo o dia, e os católicos ficaram privados da missa.
         A-pesar-das prédicas do pároco da freguesia para que ninguém se aproximasse da banda excomungada, não faltou uma enorme multidão a ouvi-la e a aplaudi-la.
         E tudo correu na melhor ordem”.

         A título de curiosidade, refiro que a mencionada banda havia sido excomungada unicamente por ter acompanhado um funeral civil. É verdade! E sofre dolorosamente a sua “ousadia”. Deixou de ter contratos para abrilhantar as festas populares. Tempos mais tarde encontrei, publicados aqui na Figueira, anúncios para a venda do seu instrumental. Alguns anos depois, voltou a reorganizar-se mas, segundo as notas que colhemos, nunca mais teve a fama e a projecção que havia obtido, especialmente devido à atitude drástica do senhor Bispo de Coimbra.

         E, em Tavarede?

         Bem, em Tavarede, acabaram para sempre os festejos ao S. João. Nunca mais se realizaram e acabaram por cair no esquecimento de todos. No “Chá de Limonete”, mestre José Ribeiro, no bairrista “Tavarede-Marca”, recorda “Pois quando ressuscitaram o São João, (por volta de 1940) o grande número das festas foram as cavalhadas. Porquê? Porque lá estava Tavarede em peso! A freguesia mandou uma burricada... mais comprida que desde o Rio ao Paço! Os burros eram tantos que a gente nem se via no meio deles... Ganhámos o prémio! Tavarede marca!”...


         Com os naturais exageros de uma fantasia teatral, acredito que, efectivamente, Tavarede tenha marcado uma vez mais! Foi a última, neste campo, diga-se.



                                                    Rancho da Alegria

Tavarede no Teatro - 9

“Pátria Livre”

         “Está solenemente proclamada a independência desta freguesia, que fica constituída em República”. É com estas palavras que o Comandante das Tropas se dirige ao povo que se encontra reunido nos Paços da República.

         E, depois de cantarem o coro de abertura desta fantasia:

                                               “Neste dia abençoado
                                               Caíram nossas cadeias
                                               É façanha que dá brado
                                               Por todas essas aldeias.

                                               A tropa audaz e valente
                                               Tornou nossa Pátria forra.
                                               Soltemos um viva ingente
                                               À República de Andorra.

                                                        Saudemos todos
                                                        Com alegria.
                                                        Ela nos trouxe
                                                        Paz e alforria.

                                               Os da Figueira tirana
                                               Que se não façam pimpões;
                                               Que esta tropa duma cana
                                               Vai-lhe outra vez aos fungões!”

o povo desata em altos vivas e aclamações à nova república do Limonete! No meio de todo aquele entusiasmo, o Comandante proclama: “o cidadão Agostinho Pandorgas, que está presente, fica sendo, pelos seus merecimentos e mais partes, Presidente da República e nomeará ministério”.

         O cidadão indicado aceita, comovido e grato, o cargo para que o escolhem. “Obrigado! Muito obrigado! Bravo Comandante: agora que estamos libertos do jugo odioso, consinta que em nome deste povo lhe agradeça o heroísmo com que levou do rabo a cabo esta façanha imortal. Bendito e louvado seja o vosso nome, agora e na hora da nossa morte”. E parafraseando Napoleão Bonaparte, termina: “dos altos da Chã, dos cimos da Vergieira e do Casal da Robala, do cume do Peso e das encostas do Saltadouro, mais de 40 laparotos o contemplam!”.

         Pois é verdade! Quem diria que, mais de cento e cinquenta anos depois de ter perdido todo o seu poderio em favor da nova vila da Figueira da foz do Mondego, a terra do limonete, num heróico golpe das suas tropas revolucionárias, reconquistaram, não o seu poder antigo, a sua câmara e as suas justiças, mas muito mais do que isso. Conquistaria a sua independência!

         O seu território era pequeno, sem dúvida, mas era mais ou menos do mesmo tamanho dessa outra república a que se comparavam, a república de Andorra. É que, como o bravo comandante disse logo a seguir:

         “Este nobre povo não podia por mais tempo gramar a tirania que pesava sobre ele. Acabaram os vexames, as contribuições, as licenças do carro e caça, o serviço braçal! Quebraram-se os grilhões que nos prendiam à maldita Figueira. Já era tempo de dar liberdade a este povo, que andava pelas azinhagas a gemer as suas dores...”. De barriga, completa o governador.

         É claro que tal acontecimento teria que dar brado. Rapidamente a notícia chegou a Lisboa e um jornal de grande circulação nacional, “A Bomba Social”, logo mandou a Tavarede um dos seus jornalistas mais qualificados, para averiguar e noticiar a situação real do acontecimento.

         Delfim Pirolito, o jornalista, logo que chegado à terra do limonete, pediu audiência ao presidente nomeado, que lha concedeu de imediato. Vejamos como correu:

Presidente - Queira dizer.
Jornalista - Venho, comissionado pelo meu jornal, a indagar as causas da revolução que há dias rebentou em Tavarede e que, pelo que agora me disseram e eu estou vendo, saiu triunfante.
Presidente - Aqui tem o heróico comandante das nossas tropas que lhe põe tudo em pratos limpos.
Comandante - É simples. Fartos dos mandões da pátria do caranguejo, fizemos a revolução enquanto o diabo esfrega um olho e implantámos a República.
Governador - É p’rá frente é que é o caminho, que p’ra traz mija a burra.
Comandante - O sr. Presidente lhe explicará o resto.
Presidente - Ora vá tomando nota no canhenho. Primeiro do que tudo tenho a dizer-lhe que da Figueira não precisamos nem da ponta dum chavelho. Aqui temos tudo o que é preciso e para dar e vender.
Governador - Pois a Figueira ainda apanha o que nos cresce...
Presidente - A boa couve tronchuda, e bom nabo, o rico pepino, o belo tomate, repolhos grandes como nádegas de raparigas, e um fartote do bendito fruto...
Jornalista - ... Do vosso ventre?
Governador - Qual? Esse é todo apanhado pelas gandaresas...
Comandante - De peras é tal a fartura que comemos duas de cada vez.
Jornalista - Que lhe faça bom proveito.
Comandante - Belíssimos pêssegos...
Jornalista - Pêssegos também?
Governador - É riquíssimas pêssegas! Daqui!
Presidente - Finalmente, nem a verdura dos campos escapa.
Jornalista - Manducam também o verde?
Presidente - Como vê, não precisamos da Figueira para nada. Temos tudo: a estação do caminho de ferro, o matadouro, o Hospital Militar...
Comandante - E até o próprio cemitério é do nosso território.
Governador - Para encurtar razões: não teem onde cair mortos.
Presidente - Mas há mais: A Figueira sem Tavarede estaria na escuridão. A central da Companhia Eléctrica tem seu assento nesta freguesia.
Jornalista - E já cá chegou a luz eléctrica?
Presidente - Ora essa! Pois não havia de chegar?
Jornalista - Deixe-me V.Exa. tomar nota. Isso é muito importante. Porque me tinham dito que a terra era pequena e pobre.
Presidente - Sim. A terra é antiquíssima. Vem do tempo dos godos. Já foi rica. Agora não avesa cheta...
Jornalista - É como muitos fidalgos de quatro costados. Não tem riqueza mas tem nobreza.
Governador - Ora cebolório! Fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia...
Presidente - Nos tempos antigos, no tempo dos godos, alumiava-se com tições e archotes de resina; depois veio o azeite, mais tarde a vela de cebo e o petróleo, depois a acetilene e, finalmente, a electricidade.
Governador - Olhe: aí vem a procissão das lamparinas.

         Depois de entrarem, cantando, são apresentadas ao jornalista. Primeiro a candeia de azeite, a mais velha, “sou a luz dos pobresinhos. O progresso persegue-me constantemente, mas a candeia velhinha existe ainda em muitas casas”. Depois o candeeiro a petróleo que fumaça como um catraeiro, “mas sou uma rica luz. Não cheiro bem, mas...”. Segue-se o acetilene que se cheira mal é porque tem o cano roto, pois que é um gás civilizado, mas se lhe chegam a mostarda ao nariz, estoira como uma bomba! Finalmente, chega a vez da electricidade, muito requestada pois “todos me querem em casa e até nas ruas, mesmo nos sítios mais escusos!”.

         Acabadas as apresentações as luzes saiem da cena, onde entra, momentos depois, a Comissão de Irmãos da Irmandade do S. Martinho que, saudando o presidente da República e dando a sua inteira adesão ao movimento, transmite a sua reinvindicação:

         “Excelência! Em nome da Confraria a que pertencemos, entrego nas mãos de V.Exa. esta representação. O que aí se pede é pouco, muito pouco, e esperamos que o governo nos atenderá! Queremos que seja revogada a lei das tabernas; queremos que elas estejam abertas a toda a hora, de dia e de noite, como as boticas; queremos inteira liberdade de culto e que cada um possa adorar o orago da freguesia a toda a hora que lhe dê na gana; e pedimos também que o governo dê um prémio por cada capela que de novo se abrir no território da nossa República”.

         Lá ficou o governo de estudar o assunto, pois os confrades tinham muita importância local, com festa que “começa pelo vinho novo e vai por todo o vinho velho!”. E continua a conversa, afirmando o presidente que “nada precisamos da Figueira, ao contrário, ela é que tudo precisa de nós. Não contente com o que nos come, até a água nos bebe...”.

         Pois, pudera! A água de Tavarede tinha fama universal e muitas propriedades urinéticas...


         “Puro engano, esclarece o presidente. A água que a Figueira nos chupa por um canudo, é para ela um verdadeiro canudo. Tem mais cal que os fornos da Salmanha”. E era bem verdade. A água ia para a Figueira, desde o Praso, lá ao cimo do Vale de S. Paio, da nascente do Olho de Perdiz, pela grande conduta que ia dar aos depósitos do Pinhal, aonde era tratada com cal antes de distribuída. “Agora a água da nossa fonte, isso é outra loiça! É especial. Fina, pura, saborosa, aveludada. É um regalo! Para desenvolver as teorias dos intestinos não há melhor...”.

sábado, 1 de agosto de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 17

Acabou o S. João de Tavarede



         Começo por dizer que as festas ao S. João, em Tavarede, acabaram no ano de
 1927. Mas, o que muito poucos saberão é como, e porquê, o querido santo casamenteiro, tão do gosto da gente da nossa terra, deixou de ser aqui festejado. Pois é isso mesmo, o que pretendo fazer agora.

         Não encontrei, pelo menos até ao momento, elementos concretos que informem desde quando se realizavam as festas ao S. João, na nossa terra. A primeira notícia que colhi, na imprensa figueirense, data de Julho de 1874 e nela se escreve que “terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da vila ao milagroso S. João. É a antiga vila de Tavarede quem todos os anos, permita-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado sistema de festejar o Santo com mascarada, cavalhada, corrida de prémios, etc. etc.”.

         A Figueira festejava, como hoje, o seu santo, no dia 24 de Junho. Seguia-se, no primeiro fim de semana de Julho, Buarcos e, depois, Tavarede. Esta é a razão da expressão acima “cobrir a rectaguarda”. Todos os anos eram estas terras, junto à sede do concelho, que festejavam o S. João com maior pompa. Ainda durante o mês de Julho e, algumas vezes, em Agosto, em Brenha e Quiaios haviam tais festas, o que prova a razão do povo quando diz que “o S. João a todo o tempo tem vez”...

         Voltando ao nosso S. João, as notícias recolhidas indicam que a terra do limonete apresentava, nessas ocasiões, um interessante aspecto festivo: “a comprida rua da terra, iluminada por vistosos balões venezianos suspensos de arcadas vestidas de buxo”. As princípio, as festas decorriam somente no largo da Igreja, onde, além das tradicionais barracas de “comes e bebes”, “quermesse” e outras, habituais em festejos populares, se armava o pavilhão, profusamente engalanado e iluminado. Era ali que “a gente dos campos, a boa gente alegre e de consciência tranquila, se entregava aos prazeres da dança, atroando os ares com as suas canções poéticas do santo popular”.

         Como já referi, as festas ao S. João eram mistas, sempre compostas por uma componente religiosa e outra pagã. A parte religiosa era cumprida, exclusivamente, dentro da igreja. Ao longo da semana, tinham ali lugar as novenas e os sermões, estes proferidos por orador religioso de reconhecido talento e cujas prédicas culminavam na missa de domingo, em que a presença de fiéis era sempre bastante numerosa.

         Esta missa era o ponto alto das celebrações religiosas, sempre a grande instrumental, pela filarmónica contratada e, algumas vezes, pela tuna de Tavarede ou por um conjunto formado por alguns elementos seus, e cantada por um grupo coral, frequentemente vindo de Coimbra para este fim.

         A componente popular iniciava-se no sábado, depois das cerimónias religiosas. Em primeiro lugar havia o concerto pela banda, no pavilhão, durante o qual era lançado fogo de artíficio, do ar e preso. Acabado o concerto, seguiam-se as danças e os descantes, que tinham a participação da tuna local, quando se encontrava organizada, ou um grupo de músicos reunidos para o efeito. Também as tunas de Caceira e Fontela algumas vezes aqui vieram colaborar nos festejos.

         É claro que, durante toda a semana, o costumado Zé Pereira percorria os diversos lugares da freguesia, acompanhando os “mordomos” que faziam o peditório. E o arraial só na madrugada de domingo, já ao romper do dia, é que terminava a função.

         No domingo, acabada a missa solene, último acto religioso das festas, a comissão dos mordomos ia receber das mão dos senhor prior a “bandeira”, pendão que abria o cortejo das cavalhadas e que, durante o ano, ficava à guarda da Igreja.

         Organizava-se, então, o cortejo. Nas semanas anteriores, Tavarede recebia a visita das cavalhadas da Figueira e de Buarcos. Competia, agora, fazer a retribuição. Recordo a notícia de um destes cortejos:

         “Era digna de ver-se aquela pitoresca caravana, que apresentava os mais extravagantes contrastes. Vinha ali de tudo. A sobrecasaca urbana e o chapéu fino dos padrinhos, os trajos domingueiros das frescas moçoilas de Tavarede, os vestidos de fantasia dos mascarados e a sordidez plebeia dos aldeões. E na frente de tudo aquilo a gaita de foles e o clássico zambumbas”.

         O cortejo ia, em primeiro lugar, junto da Igreja de S. Julião, onde era aguardado pela filarmónica. Ali chegado, dava as tradicionais três voltas à igreja, enquanto a banda entoava alegre marcha. Os barulhentos foguetes subiam ao céu estralejando e os sinos repicavam alegremente no alto das torres. Seguiam, depois, a dar as costumadas voltas à Reboleira e à Ribeira (Praças Nova e Velha), seguindo, após isso, para Buarcos, onde subiam até à capela da Senhora da Encarnação.

         Aqui chegados, faziam uma pausa para descanso e recuperação de forças, muito em especial dos animais, que já deviam ir bem cansados. Certamente que se petiscava e beberricava alguma coisa e, pouco depois, era o regresso a Tavarede, pelo caminho do Alto do Forno.

         À entrada de Tavarede, no Largo do Paço, já se encontrava à espera a filarmónica que, depois, seguia à frente do cortejo, atravessando a aldeia, até ao Largo da Igreja, ao mesmo tempo que mais foguetes subiam ao ar e os sinos também se faziam ouvir alegremente. Chegados, iam depositar a “bandeira” na Igreja, e destroçavam a seguir. Era chegado o momento de recomeçar o programa: concerto, descantes e danças, que acabavam cerca da meia-noite.

         Refiro que, enquanto as cavalhadas faziam a sua volta, tinham lugar as provas desportivas, como corridas pedestres, de sacos, pés atados, rosquilhas, etc. Alguns anos acontecia que estas provas só se realizavam na tarde da segunda-feira seguinte.

         Era assim, com mais ou menos brilho, que se festejava o S. João na terra do limonete, muito dependendo dos mordomos e do dinheiro que conseguiam obter nos peditórios.

         Naturalmente que havia, de vez em quando, alterações no programa, como, por exemplo, o próprio local das festas profanas. Pelo número de participantes e forasteiros, talvez por questões de rivalidades, e adiante se verá um destes casos, no final do século dezanove já se armavam mais dois pavilhões. Além do Largo da Igreja, começaram a utilizar o Largo do Forno e o Largo do Paço. Era conforme a vontade dos festeiros. Claro que, precisamente por isso, há notícias de algumas histórias curiosas. Talvez que a mais interessante terá sido a do ano em que, por rivalidades internas, os mordomos não se entenderam, pelo que foram organizadas duas festas. Aconteceu no ano de 1892. Primeiro, um grupo dos festeiros, “com caloroso entusiasmo, pegando na bandeira grande, realizou bonitos festejos no domingo último”, e, depois, “amanhã, se Deus quizer, um grupo adversário, empunhando a bandeira pequena, diz que não ficará atrás em lamparinas, foguetes e outras mirabolâncias de embasbacar”. Ou, então, uma outra, ocorrida no ano de 1889, em que o padre António Augusto da Silva Nobreza se recusou a entregar as bandeiras aos mordomos da festa e para que a cavalhada não deixasse de se efectuar com bandeiras, resolveram ir à missa com novas bandeiras, escondidas, que “seriam levantadas ao alto no momento em que o padre dava a benção final. Assim, ele não podia deixar de abençoar as novas bandeiras e a festa seria feita com bandeiras devidamente benzidas”…


         E antes de contar a história das últimas festas sanjoaninas, no ano de 1927, ainda vou narrar um outro episódio aqui ocorrido no ano de 1907. A sua curiosidade deve-se ao facto de ser passada entre dois festeiros, ambos irmãos e ambos taberneiros. Com certeza que a historieta será desconhecida da maioria dos meus conterrâneos.

Tavarede no Teatro -8

         Era este o entrecho da fantasia “Em busca da Lúcia-Lima”. Simples e acessível aos tavaredenses, como era intenção do autor e seus colaboradores.

         Para que fique para a “história”, vou aqui deixar mais alguns apontamentos daquilo que encontrei na imprensa de então. Como referi na parte inicial, não houve uniformidade de opiniões quanto ao chamado “libreto”. No entanto, o que praticamente não teve contestação foi a parte musical, que se considerou “uma partitura soberba, feliz na inspiração e na beleza da orquestração, com números originais tão perfeitos como apropriada é a adaptação dos coordenados”.

         E enquanto o comentarista da “Gazeta da Figueira”, sobre este tema, escreveu “empreste-lhe (o leitor) o culto gosto de António Simões, fornecendo-lhe música viva, saltitante, travessa, achando sempre o motivo próprio para cada recorte do poema”, em “O Figueirense”, o tal crítico que não tinha gostado do texto, refere: “Principio por dar um abraço no António Simões, que foi feliz na música que coordenou e na instrumentação com que a compôs. Só não gostei de ver chinesas a cantar música regional portuguesa. Mas, áparte este senão, escolheu música muito bonita, que se ouviu com agrado e soube manter em ordem os coros que por vezes quizeram fugir dela. Bravo, seu maestro!”.

         Quanto ao desempenho que “áparte pequenas deficiências inevitáveis nos melhores grupos de amadores, foi bom, brilhante e perfeito por vezes”. Também aqui arquivo alguns comentários sobre intérpretes e seus personagens.

         Idalina Fernandes fez com distinção a Flor de Chá, imprimindo à personagem a tristeza requerida, “sendo pena que a sua voz seja tão pouco extensa e não lhe permita vencer as dificuldades da parte que lhe coube na partitura, devendo, no entanto, dizer-se que cantou muito bem a romanza do segundo acto”.

         Virgínia Monteiro fez uma Capitolina insinuante, alegre, risonha. “Com o tique da menina de aldeia educada na cidade mas que não pode desmentir o ditado: - o que o berço dá...”. Jaime Broeiro e António Graça afirmaram-se como amadores distintos e conscienciosos; A. Santos, J. Cascão e A. Silva também são amadores com qualidades aproveitáveis; J. Vigário foi bem no Mandarim não parecendo um principiante e F. Carvalho, que é também um bom elemento, cantou com segurança a sua parte no concertante final do segundo acto, outro tanto não podendo dizer-se do dueto com Flor de Chá, que saíu incerto. Os outros amadores em papéis de menor responsabilidade, bem como os coristas, mostraram-se cuidadosos, contribuindo para o agradável conjunto”.

         O já referido crítico de “O Figueirense” que não gostou do “libreto”, também não gostou de alguns pormenores do guarda-roupa e quanto ao desempenho gostou “porque os amadores esforçaram-se por bem desempenhar os seus papéis”. Aponta alguns casos que lhe pareceram mais fracos, como, por exemplo, José Vigário, no Mandarim, que “enquanto todos os seus familiares e respectivo povo andavam e revelavam gestos como é uso nos habitantes do Celeste Império, ele dava passos de metro e gesticulava largo de mais, dando-lhe, por vezes, a impressão de estar a ver o diabo do Presepe!”.

         Termino as notas sobre “Em busca da Lúcia-Lima” referindo a encenação. “A Voz da Justiça” diz que “a Sociedade de Instrução tem direito aos nossos aplausos pela maneira como pôs em cena a peça, não se poupando a despesas para que o cenário e indumentária (o guarda-roupa foi fornecido pela Casa Cruz, de Lisboa) fossem o que devia ser. A opereta teve uma apresentação brilhante, sendo de efeito deslumbrante o segundo acto, no qual se exibiu um guarda-roupa a rigor e luxuoso”.

         E enquanto a “Gazeta da Figueira” regista a “encenação primorosa desse inteligente moço que é José Ribeiro, tão profundamente fino e esperto, quanto simpaticamente modesto”, o nosso crítico de “O Figueirense” escreve: “Para quem vai a minha admiração máxima é para o ensaiador, sr. José Ribeiro. Só quem sabe o que é ensaiar amadores, sejam de que arte forem, é que pode avaliar o trabalhão que ele teve para apresentar a opereta como ela foi apresentada. Sim, senhor, muito bem. Boas marcas e muita ordem na entrada e saída de cena dos diversos personagens. Se tivesse duas mulheres que cantassem bem, e um rapaz que tivesse boa figura e boa voz, o sr. José Ribeiro podia abalançar-se a representar operetas, já não digo de autores consagrados, mas peças escritas com ordem e que um público ilustrado ouvisse com agrado, porque tem jeito para ensaiar e sabe disciplinar a sua gente”.


         E pronto. Desço o pano sobre a opereta “Em busca da Lúcia-Lima” e vou imediatamente passar à seguinte.

Em busca da 'lúcia-Lima - 2º. acto

domingo, 26 de julho de 2015

Tavarede - a terra de meus avós - 16

E quanto mais?...

        
Muitas outras coisas teria a recordar. Mas, além de não querer alongar em demasia estas recordações, penso que já deixei uma imagem, talvez ténue, da vida da minha aldeia nos recuados tempos da minha infância e mocidade.

         Tínhamos uma vida feliz. Tavarede, já o disse mais do que uma vez, era uma terra agradável. E, sobretudo, tinha uma vida sossegada e pacata, aonde raramente a tranquilidade era perturbada. Nos nossos tempos livres, andávamos à vontade por todo o lado.

         Aos domingos, se a parte da manhã era ocupada para actualizarmos os apontamentos da escola e outras tarefas como, por exemplo, limpar a bicicleta, o nosso meio de transporte, a parte da tarde, e isto quando não havia bailarico ou teatro, era dedicada a grandes passeios pelos arredores, em grupos mais ou menos numerosos.

         Umas vezes íamos pela Várzea, onde apreciávamos aquela enorme cobertura verde das leiras das nossas afamadas couves, atravessávamos a Quinta do Robim e seguíamos até ao Casal da Robala, regressando pela Vergieira e pela Chã. Outras, caminhávamos pela estrada da Chã a Caceira, passávamos o Vale do Porco e descíamos áquela povoação, regressando pelos Carritos. Estes passeios eram mais usuais nos meses de Março e Abril, pois era a época propícia à busca dos saborosos rebentos dos espargos bravos, que são saborosa merenda em omeleta. Os valados e os pinhais eram cuidadosamente vasculhados à sua procura.

         Por falar em merenda, recordo quando, com meu pai, ia ao quintal do Ferreira, à procura dos caracois grandes, as caracoletas, que rastejavam lentamente nas ervas das valas e no valado do ribeiro. Apanhávamos grande quantidade e, chegados a casa, meu pai cozia-os com água e sal, após o que aproveitava só o corpo do bicho. Laváva-os em vártias agues, até ficarem completamente limpos. Fazia, de seguida, uma enorme omeleta e só digo que era um petisco de primeira…

         No verão e outono, as nossas voltas, habitualmente, encaminhavam-se pelo caminho do Peso ou pelas Azenhas e Pejeiros, para as encostas da Serra donde, muitas vezes, passávamos ao Saltadouro. Andávamos muito, pois não era raro chegarmos a subir ao monte Crasto, da parte de cima do Prazo.

         Mas, forçoso é dizer a verdade, estes passeios não eram totalmente inocentes. Não seguíamos sempre pelos caminhos normais. Aqui e além, embrenhávamo-nos pelo meio dos pinhais ou das vinhas, em direcção aos sítios onde sabíamos estarem as árvores de fruta que, com relativa segurança, podíamos “visitar”.

         Claro que estas “visitas” eram feitas com o maior cuidado, não fosse dar-se o caso de algum dos donos também ter tido o “desejo” de dar um passeio às suas terras… Recordo algumas das “visitas” mais usuais: na encosta da Serra, da parte de cima da capela do S. Paio, eram ameixas; no vale do Prazo, as laranjas e as nêsperas; a caminho do Crasto, os pêssegos estavam à nossa espera, bem como nas encostas do Saltadouro; na Vergieira, que belas peras francesas então havia! Condados e Pejeiros, bem sabíamos onde estavam as mais perfumadas maçãs, etc.

         Algumas vezes, tínhamos de fugir, a bom fugir. Ali aos Quatro Caminhos, a seguir ao portão da entrada da quinta da Borlateira, havia entre o caminho para a casa lá no alto e o pinhal que dava até à estrada da Serra, um lindo e grande laranjal. Era uma tentação para nós, ver as laranjas tão amarelinhas entre a verde folhagem… O pior é que muito poucas vezes as conseguimos provar, por parece que o Ti Júlio adivinhava as nossas intenções e mantinha-se por ali à espreita tardes inteiras… E as uvas?... Essas, havia em abundância por todo o lado e nós bem conhecíamos os locais das videiras que as davam mais doces!

         Já referi, noutro local, que, durante os meses de verão, quase todos íamos trabalhar para o comércio, no Bairro Novo. É curioso que, há já bastantes anos, não se trabalha aos sábados ou só se trabalha da parte da manhã. Pois naqueles nossos tempos o sábado era o dia em que o comércio estava aberto até mais tarde. Nunca saíamos antes das dez ou onze horas da noite. Tanto nós, rapazes, como as raparigas que, no comércio ou nas alfaiatarias, também trabalhavam até àquelas horas. Como não havia transportes para Tavarede, as carreiras de camionetas entre Figueira e Tavarede só se iniciaram em 1957, e o caminho era mal iluminado e pouco seguro, combinávamos encontrarmos em determinado local para virmos em grandes grupos até Tavarede, para não termos encontros indesejáveis pelo caminho escuro e deserto. Algumas vezes chegávamos tardíssimo aos bailes, e quando os não havia em Tavarede, ainda íamos até Brenha, Quiaios, Alhadas ou outros locais.

         Todos, ou quase todos, entrávamos no teatro. Aliás, éramos viciados pelas colectividades. Quando já tínhamos acabado os nossos estudos e estávamos empregados, podia dizer-se que a casa era “para comer e dormir”, pois o resto do tempo livre era passado na Sociedade ou no Grupo. Naquela era o teatro e neste a dança. Chegávamos a ir, rapazes e raparigas, assistir aos ensaios do Lúcia-Lima para dançar…

         Na Sociedade, quando não tínhamos ensaio de teatro, entretinhamo-nos a ler, na biblioteca, ou com alguns jogos que haviam. Das cartas, o principal era o “marimbo”, com dez feijões a valer um tostão. Também jogávamos ao dominó, às damas e ao xadrez, bem como ao ping-pong.

         Quando se estreava uma peça teatral havia representações aos domingos, em “matinées”. Depois do espectáculo arranjava-se sempre merenda. Algumas vezes eram caranguejos do rio e pilados, de que o Carlos Conde e o José Vasco arranjavam grandes sacadas. Invariavelmente, depois do petisco, vinham as cantigas. Já lembrei meu tio José Medina, ensaiador dos coros do teatro. Era ele um dos grandes entusiastas pela improvisação dos orfeons. Bastavam apenas dois copitos para ele ficar animadíssimo. Inspirado musicólogo, um dos vários que houveram em Tavarede, e lembro Gentil Ribeiro, João Prôa, João Jorge da Silva, José Francisco da Silva, António Ferreira Jerónimo e António de Oliveira Cordeiro, entre mais alguns, foi muito novo regente da tuna do Grupo Musical, que chegou a dar concertos exclusivamente com números musicais de sua autoria. Fundou e dirigiu, durante alguns anos, o Lúcia-Lima. Mas a sua verdadeira paixão eram os coros. Bem disposto por natureza, quando estava animado, juntava em seu redor os coristas. Quando era na Sociedade também se juntavam as raparigas, mas era mais habitual os orfeons serem constituídos só por homens, o que não admira se disser que a maior parte das vezes começavam nas adegas, que se entretinham a visitar!

         Quando lhes faltavam alguns cantores, cujas vozes entendia fazerem falta, não hesitava em ir à procura deles, obrigando-os, muitas das vezes, a sairem de suas casas e irem com ele. Distribuía convenientemente os elementos, pois já conhecia as vozes e começando muito pianinho e subindo gradualmente a
tonalidade, começavam a ouvir-se as usuais cantigas do alecrim, da menina Luísa e tantas, tantas outras cantigas, especialmente dos teatros mais antigos e que tão bonitas eram…

         Assim se passava o tempo na nossa aldeia.

         Também tinhamos o costume de ir aos grilos, no tempo deles. Faziamos gaiolas com os canudos de cana mais grossos, que rachávamos e tapávamos com uma tampa mais larga para abrir a cana, metíamos o grilo lá dentro com umas folhas de alface e pendurávamos à porta da entrada de nossas casas, ao sol. Passado instantes começavam os grilos a cantar. Um dia fomos a eles ao pinhal da quinta do senhor Gaspar de Lemos, ao cimo da subida para o Saltadouro e em frente ao cemitério. Lá andávamos muito entretidos quando, sem saber como, me entrou por uma das pernas das calças um  pequeno sardão. Os saltos que eu dei! Mas o bicho não fez qualquer mal e, tanto pulo dei, que ele saíu pela outra perna das calças! Ainda hoje, o Augustito, das Abadias, me lembra do sucedido!



         Vem a propósito, e para cumprir a promessa feita anteriormente, contra duas historietas, das narradas por meu avô. A primeira, para mim das mais interessantes, é a história da lotaria. Meu avô trabalhava na Companhia do Gaz, na Figueira. Todas as sextas-feiras, de manhã, antes de andar à roda, ia lá vender jogo um cauteleiro, do qual ele dizia o nome, mas já não me recorda qual era.

         Durante anos, jogou todas as semanas e sempre com o mesmo número. Pois, durante todo o tempo, nunca lhe saíu nada, nem sequer uma terminação! Um dia resolveu acabar com o jogo. Nessa sexta-feira, quando chegou o cauteleiro, logo lhe disse que não queria a cautela. O outro insistiu, insistiu, que ele se ia arrepender, mas não o demoveu, pois não jogou mesmo. E não é que nessa semana a sorte grande calhou ao número que ele comprava e, daquela vez, recusára?!

         Na semana seguinte lá apareceu o cauteleiro. “Então, senhor António, eu não lhe disse que se havia de arrepender?”. Tinha razão, respondeu ele, e logo se dispôs a continuar a jogar, e cojm o mesmo número. É claro que semanas, meses e anos se passaram e a má sorte voltou a persegui-lo, pois nem ao menos uma terminação!...

         Desistiu novamente e, então, para sempre. Pois não é que na semana eem que voltou a desistir, mais uma vez a sorte grande saíu ao número recusado?!! Azar dele e azar nosso, pois podíamos estar cheios de dinheiro!

         A outra história, entre as muitas que ele contava, era esta. Todos os anos, e isso era verdade, semeava e colhia batatas que chegavam para a família todo o ano. Também, para isso, comprava a semente no Grémio, de qualidade garantida. Um ano houve, porém, que, por qualquer motivo, se esqueceu de encomendar os sacos da batata de semente. Quando chegou a ocasião, bem as tentou comprar, mas estavam completamente esgotadas. No Grémio e em todo o lado onde as procurou. Desesperado, pois esse ano teria de ir à feira comprar as batatas para o consumo da casa, sempre de qualidade duvidosa, acabou por se resignar, embora já tivesse as terras prontas para a sementeira.

         Casualmente foi à adega, em procura de qualquer coisa, e reparou que, a um canto, estava uma medida de Madeira quase cheia de pequenitas batatas que eram para ter dado ao porco e haviam ficado esquecidas por ali. Tinham ou grelo ou outro e estavam já meio podres. Pois iriam aquelas amostras de batatas para a terra…

         Querem saber uma coisa? Nunca, em tantos anos de lavoura, teve tantas e tão boas batatas como naquele ano! Aquela pequena medida de batatas produziu mais e melhor que os dois ou três sacos das de semente que ele usualmente comprava! Acreditam nestas histórias? Bem, os filhos, pelo menos, não acreditavam…

Por aqueles tempos, quando havia garraiada no Coliseu Figueirense, o gado vinha dos campos do Mondego, de Santo Varão, a pé, conduzidos pelos campinos, e atravessavam a nossa terra, sempre noite alta. A rapaziada sempre teve o costume de brincar com estas passagens do gado. Arranjavam uns chocalhos e, quando começava a escurecer, começavam a correr pela aldeia a fazer barulho, o que logo punha em fuga as pessoas desprevenidas que ocasionalmente se encontrassem na rua.

         Algumas vezes um ou outro garraio tresmalhava, o que dava sempre muito trabalho aos campinos que, depois de levarem os outros ao Coliseu, tinham de andar pelos campos à procura do tresmalhado para o apanhar. A este propósito, transcrevo uma notícia publicada em “O Figueirense”, em Setembro de 1923:

         “Em tempos áureos, em que a praça de toiros dessa cidade era onde está edificado o Jardim Escola João de Deus, a passagem dos toiros era obrigatória por Tavarede.
Predominava então no íntimo - mau íntimo, vamos lá - dos rapazes daquela época o "subido prazer" de espantar o gado à entrada da povoação. Era para eles um praxista pratinho, ou antes, a melhor tourada que podia haver, pois chegaram ao ponto de causarem o adiamento de algumas corridas, pois que o gado não dava a tempo ingresso nas portas do Coliseu.
Os motivos que os levava àquele procedimento era o de os emprezários lhes não concederem o direito de assistirem às embolações, senão mediante o pagamento de uma determinada importância.
Protestavam, mas sempre em vão. Todavia, quando os emprezários souberam o motivo de tal espantamento, que afinal lhes causava enormes prejuízos, concederam então a entrada franca a toda a gente que tivesse vontade de ver as embolações.
Sucediam coisas interessantes com a espera dos toiros. Por exemplo esta: o sr. António Teodoro, ao tempo aficionado tesíssimo, montava bem e fazia proezas várias, chegando mesmo a arriscar a sua própria vida Sucede que duma certa ocasião desmanaram-se os toiros, um dos quais entrou para um quintal e subiu para o telhado duma casa que ficava à superfície do mesmo quintal, sendo difícil retiral-o dali.
Depois o "saltitante pardal" fugiu para o Quintal da Azenha, que fica por detraz da capela da Junta Paroquial. Como teimasse em não sair de lá, o sr. Teodoro, que ainda hoje vive nessa cidade, lembra-se lançar-lhe um laço. Assim, pôz em prática o seu plano, valendo-lhe no entanto à vida uma árvore que ali havia e para onde trepou com a rapidez dum gamo, pois que o toiro, sentindo-se preso pelo laço, arrancou sobre ele, marrou no tronco da árvore com uma tal violência que momentos depois caía por terra sem vida, pois esfacelara o craneo!
Ainda hoje contam proesas interessantes sobre a passagem de toiros aqui por Tavarede em tempos que já não voltam. E se hoje toquei neste assunto, foi devido à espera do último sábado, em que o gado entendeu por bem não chegar ao seu destino sem aqui passear primeiro as ruas da terra, alguns quintais, etc, metendo sustos graúdos a muita gente, "dando que fazer a muitas lavadeiras" e arreliando, a ponto de fazer perder a paciência aos campinos, que eram em número bastante avultado.
Foi aqui uma tarde de autêntica tourada, em que se não usou das etiquetas exigidas pela praxe tauromáquica para o bom sucesso da "lide", de que saíram ilesos os protagonistas e os intérpretes da "cómica farça"...

E acabo estas recordações com a nota de dois fenómenos naturais que presenciei na nossa terra. Em Fevereiro de 1941, um violento ciclone passou por Tavarede “árvores derrubadas, chaminés caídas, telhados levantados, etc. e as sementeiras ficaram completamente arrasadas”, lia-se numa local publicada no “Jornal – Réclamo”. E no ano de 1957, em Janeiro, Tavarede foi surpreendida com o espectáculo deslumbrante de uma aurora boreal. Eis a notícia:

         “Fomos ontem, segunda feira, espectadores de um dos mais soberbos espectáculos da natureza.
         Cerca das 22 e 30 horas uma aurora boreal estupenda deslumbrou os nossos olhos e os de quem, como nós, correu á rua para apreciar o esplêndido fenómeno.
         O céu, do lado norte, parecia de fogo, e, entremeando um vermelho lindíssimo, alguns raios solares davam-lhe um aspecto maravilhoso.
         Que soberbo espectáculo!

         Alguns, mais velhos, recordavam uma outra que já tinham observado há bastantes anos. Mas nós, que nunca tínhamos visto nada de semelhante, abrimos os olhos e olhávamos admirados para o céu, até que desapareceu o fenómeno”.