segunda-feira, 13 de julho de 2009

Uma história do Teatro (Zé Neto)

José Maria Cordeiro (Zé Neto)


Do jornal "Correio da Figueira", de 20 de Novembro de 1990, permitimo-nos transcrever a seguinte notícia:

"O meu velho amigo José Maria Cordeiro, tavaredense dos quatro costados e a quem eu costumo chamar por graça “governador civil de Tavarede” (ele retribui-me dando-me o mesmo cargo em Buarcos), não obstante já ter ultrapassado a meta dos 80, continua a palmilhar todos os dias as ruas da cidade na sua missão de cobrador, persistindo teimosamente em sobreviver com a “choruda” reforma de 19 contos que, com a “ginástica” que se pode calcular, lhe dá para viver com alguma dignidade.
Quando nos encontramos, vem sempre à baila a sua Sociedade de Instrução Tavaredense, peças em ensaio e evocamos mestre José Ribeiro que, como é do conhecimento geral, foi durante toda a sua vida a alma mater da Sociedade e da sua secção cénica que ele criou com tanto carinho.
José Cordeiro tem pela memória do mestre uma grande veneração e há tempos aludindo à sua enorme competência no campo teatral, saiu-se com esta frase lapidar: José Ribeiro sabia tanto de teatro que, de uma pedra, era capaz de fazer um actor.
E o mais curioso é que ele fez essa afirmação como se a carapuça lhe servisse, pois que, por essa ocasião nunca tendo pisado o palco, foi feito actor à “pressão” quando nunca tal lhe passava pela cabeça.
E então contou-me a história: a Sociedade ensaiava nos anos quarenta a peça "Horizonte”, de Manuel Frederico Pressler, que iria ser representada em Coimbra a favor da Obra do Professor Elísio de Moura. Entre outros faziam parte do elenco os “crónicos” Violinda Medina e João Cascão.
Durante o ensaio geral um dos intérpretes teve um desaguizado com uma das amadoras e deu-lhe uma bofetada.
José Ribeiro não hesitou e consciente da decisão a tomar, deu-lhe ordem de expulsão imediata.
No dia seguinte de manhã José Ribeiro procurou o Cordeiro em sua casa e disse-lhe que precisava dele para interpretar o papel do amador
expulso. Ele porém argumentando com a sua inexperiência, escusou-se ao convite, mas tais foram os argumentos de José Ribeiro que, cônscio da responsabilidade que lhe era exigida, acabou por aceitar, mesmo correndo o risco de não fazer sequer um ensaio.
O Cordeiro que mais tarde haveria de ser ponto e que conhecia a peça por ter assistido a alguns ensaios convenceu-se que não iria pôr em causa os bons créditos que o grupo disfrutava, principalmente em Coimbra, onde o Grupo ia todos os anos representar.
De posse do papel onde estavam anotadas as respectivas marcações, isto é, as marcações que o personagem tem de fazer no decorrer da representação, o improvisado actor leu e recebeu o papel que acabou por decorar com relativa facilidade.
Os amadores tavaredenses, como ao tempo acontecia, deslocavam-se de comboio e o “ensaio geral” foi então feito numa carruagem de 3ª. sendo provável que tivesse corrido mal, o que é bom augúrio para que a representação corra bem.
O certo é que José Cordeiro saiu-se bem e safou a rascada não obstante as poucas indicações que José Ribeiro lhe havia dado.
E foi certamente a pensar neste episódio que ele então me disse que 'José Ribeiro sabia tanto de teatro que, de uma pedra, era capaz de fazer um actor'".

Nasceu no dia 20 de Fevereiro de 1910, filho de João Cordeiro e de Maria Joaquina Vaz. Era conhecido por José “Neto”, pois seu avô e um tio tinham o mesmo nome.
Casou com Maria José da Silva Figueiredo e teve uma filha, Helena Maria.
Muito culto, foi um grande coleccionador de “ex-libris”, deixando uma bem organizada colecção, e dedicou-se à história da sua terra, organizando vários cadernos com recortes de jornais, especialmente relacionados com o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense.
Adepto das práticas desportivas, foi um dos fundadores do Sportsinhos Futebol Clube, em 1926, de que foi dirigente e atleta, e no ano de 1940, do Atlético Clube Tavaredense, “que se propõe trabalhar no sentido de chamar ao desporto, alguns “terroristas” que ainda por aí existem, que vêem erradamente no desporto não o revigoramento da raça, mas, sim, o seu definhamento”.
Foi muito dedicado à Sociedade de Instrução, exercendo diversos cargos directivos e de responsável pela biblioteca, que dirigiu durante vários anos com a maior proficiência. A colectividade distinguiu-o com o diploma de sócio honorário, em 1979.
No grupo cénico, onde actuou, como amador dramático, de 1946, na peça Horizonte, até 1965, em Centenário de Gil Vicente, interpretou diversas personagens em peças levadas à cena. No entanto, a sua grande colaboração prestada ao teatro terá sido como ponto, tarefa que desempenhou enquanto teve saúde.
Foto 1 - Na peça "Chá de Limonete (1950) - no papel 'Futebol'
Foto 2 - Em "Frei Luís de Sousa (1951), no papel de 'Prior de Benfica'

domingo, 12 de julho de 2009

Estudantina Tavaredense

Fundada no dia 22 de Março de 1893, a Estudantina Tavaredense teve como principal impulsionador Gentil da Silva Ribeiro, acompanhado por Manuel e José Gomes Cruz, à data ainda estudantes na Universidade de Coimbra.
Instalou-se numa daquelas velhas associações dramáticas (que em Tavarede vegetavam como tortulhos, no dizer de Ernesto Tomás), onde iniciou a actividade em condições muito precárias.
Foi por pouco tempo, pois poucos meses depois, mudou-se para o Teatro Duque de Saldanha, que o senhor Conde de Tavarede mandara fazer na sua Casa do Paço. Iniciou a sua acção com o teatro (velha tradição da terra), a que se seguiu a formação da primeira tuna que existiu na terra do limonete.
Em Julho de 1894 dá o seu primeiro espectáculo, já nas novas instalações, com as comédias em 1 acto "Por um triz", Criado distraído", "Dois curiosos como há poucos" e a cena cómica "José Galo na cidade". Num recorte, a imprensa figueirense escreveu: "não temos senão que aplaudir a iniciativa dos arrojados rapazes, pois que o teatro é uma escola onde podem instruir-se e desenvolver-se".
O teatro foi ensaiado por Manuel Gomes Cruz e a orquestra foi dirigida por seu irmão José.
Em Junho de 1895 já a tuna estava em actividade. Uma notícia diz-nos que "para a Senhora da Graça, em Montemor, também esta freguesia deu um bom contingente de forasteiros, que ali foram cumprir (alguns) as promessas que tinham feito à 'Santinha' durante o ano, sendo acompanhados pela simpática 'Estudantina Tavaredense', que no regresso tocou primorosamente alguns números de música, provando-se assim que nem os instrumentos vinham desafinados pela 'prima' nem os executantes pela... 'toeira'".
Vários amadores se distinguiram na Estudantina Tavaredense. De entre eles, salientamos Almeida Cruz ", que, anos mais tarde, tanto se distinguiria como actor-cantor profissional.
Durou, aproximadamente, dez anos, pois dissolveu-se em fins de 1903 e a liquidação dos seus bens fez-se no início de 1904. O seu estandarte é uma velha relíquia que está à guarda da Sociedade de Instrução Tavaredense.
Um tavaredense emigrado no Brasil, escreveu em Agosto de 1916, uma carta da qual recolho o seguinte retalho: "... vem à baila o Zé Maria Cordeiro, esse folgazão de quatro costados, que era dos Presépios o seu principal organizador e fazia andar tudo numa poeira... O Gentil, pelo descaramento e naturalidade, com que em plena cena papava as migas com vinho enquanto o Diabo esfregava um olho... O Manel Cruz (parece que o estou a ver) vestido de S. José, empunhando o seu bordão, mais a Nossa Senhora (Mariquitas Sapateira), a bater à porta do próximo para lhe dar pousada... E os pastores brutos... Que reinação se fazia noutros tempos!...".

Como se sabe, o associativismo em Tavarede tem longa e honrosa tradição. No "site" da Junta de Freguesia de Tavarede, no início de Associações e Colectividades", está publicado um breve resumo que escrevi para ler num aniversário do Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro. Também já fiz publicar em "A Voz da Figueira", uma longa série de artigos sobre a Sociedade de Instrução Tavaredense e outra sobre o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense (esta não publicaram os 4 ou 5 últimos artigos não sei porquê. Talvez porque entenderam que não estariam bem escritos ou que não valeria a pena ocupar espaço no jornal). Também no segundo livro de "Tavarede - A terra de meus Avós", procurei desenvolver a vida das associações tavaredenses, o teatro e a música, bem como relembrei diversos tavaredenses (e não só) que foram muito importantes para a história da nossa terra. Certamente que me repetirei nalgumas passagens, mas julgo valer a pena.

João José da Costa







Nasceu no dia 23 de Janeiro de 1818 e morreu, na sua Quinta dos Condados, em 27 de Março de 1893.
“Dotara-o a natureza de uma tal energia de carácter, que todas as suas obras recebiam a impressão característica daquela actividade nunca saciada. Na administração dos fartos bens que granjeou; na política, em que por vezes entrou com a fogosidade só própria dos vinte anos; nas gerências municipais, onde a sua presidência ficava sempre assinalada em obras de vulto e de primeira necessidade; no exercício do cargo de provedor, na Santa Casa da Misericórdia, em que as suas administrações eram modelo de economia bem entendida, de aperfeiçoamento e melhoramento; como procurador à Junta Geral, que não o houve mais zeloso nem mais escrupuloso… em todos os actos da sua larga e acidentada vida, quer pública quer particular, em todos eles imprimiu o cunho de uma vontade tenaz, regulada e inteiramente submetida à linha de conduta que lhe marcava um cérebro que não desferrava facilmente da ideia que elaborara”.
Foi major comandante do batalhão nacional da Figueira em 1846, batendo-se pelo constitucionalismo; Provedor da Santa Casa da Misericórdia, de 1859 a 1861, tendo sido nomeado Sócio Honorário, e foi ele quem escreveu o regulamento interno do Hospital; Presidente da Câmara Municipal, nos períodos de 1862/1863 e 1864/1865; Procurador à Junta Geral do Distrito. Durante alguns anos, na primeira metade da década de 1880/1890, foi presidente da Junta de Paróquia de Tavarede, onde deixou assinalada obra, sendo muitos os melhoramentos que mandou fazer à custa do seu bolso.
Também foi sócio fundador da Assembleia Figueirense e, benemérito da cultura popular, foi o principal impulsionador para a fundação da Filarmónica Figueirense, no ano de 1842, tendo ainda feito parte de uma Comissão Promotora da Instrução Primária, na Figueira da Foz, e presidente da Associação Comercial.
Sabendo o grande gosto que as gentes de Tavarede tinham pelo teatro e conhecedor “das péssimas condições em que os amadores davam as suas récitas na desmantelada casa do Terreiro”, que lhe pertencia, “transformou o prédio num, para o tempo, excelente teatro. Por certo não haveria melhor em terras pequenas como a nossa”, escreveu Mestre José Ribeiro.
Foi, também, o ensaiador do grupo cénico que representou no novo teatro.
“… para estas amadoras mandou João José da Costa fazer os vestidos e o calçado, como já fizera com todo o guarda-roupa do “Rei Ló-Ló”, e tudo era pago do seu bolso, todas as despesas com a montagem e representação das peças corriam de sua conta, porque os espectáculos eram inteiramente gratuitos”. “… homem ilustre, verdadeiro benemérito, patriota no melhor sentido da palavra. Na história de Tavarede do século passado (dezanove) nenhuma outra figura se lhe avantaja”, escreveu José Ribeiro.
João José da Costa havia casado, no ano de 1855, com Emília Duarte, filha de Tomás José Duarte, edificador do palacete da Quinta dos Condados. Não tiveram descendentes.
A sua memória está perpetuada em Tavarede, pois foi atribuído o seu nome à rua que vai da sua antiga Casa do Terreiro, hoje sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, até à sua Quinta dos Condados. O seu retrato está exposto no salão nobre desta colectividade.

sábado, 11 de julho de 2009

Teatro - As primeiras saidas

Curiosamente, sendo uma colectividade mais nova, foi o grupo dramático do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense que fez a primeira deslocação "fora de portas", do teatro de Tavarede. Foi em Janeiro de 1918 que se deslocou a Verride, terra natal dos seus principais fundadores, José e António Medina, onde representaram o drama "Um erro judicial" e a comédia "Os gagos".
O correspondente de um jornal figueirense naquela localidade, escreveu: "Foi uma noite bem passada, e ha muito tempo que nas tábuas do palco do nosso velho teatro não são executadas peças com tanta correcção".


Tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavarede - anos 20

Mas foi em Outubro de 1925 que alcançou um êxito verdadeiramente triunfal, com a primeira deslocação que fizeram à Marinha Grande. "A tuna, sob a proficiente direcção do amigo sr. Pinto d'Almeida, executou uma marcha de saudação à Marinha Grande. Percorreu as ruas principais da vila, no meio das maiores aclamações, sempre acompanhada de muito povo conduzindo archotes acesos...".



Violinda Medina, protagonista de "Um erro judicial"

À noite, no Teatro Stephens, houve espectáculo. Depois de um concerto pela tuna, que tocou diversas peças, seguiu-se a representação do drama "Um erro judicial", terminando o espectáculo com a comédia "Herança do 103". O êxito foi enorme. de tal forma que, no dia seguinte, em que estava programado outro espectáculo com outras peças, "uma comissão de cavalheiros pediu encarecidamente que alterassemos a ordem do programa e representassemos o drama da véspera, ao que gostosamente acedemos". E, segundo a notícia, ainda pediram, com muito empenho, para que o grupo ficasse para a segunda-feira seguinte, para mais um representação daquela peça.




Em Julho de 1930, coube a vez ao grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense fazer a sua primeira deslocação. Foi a Tomar, onde representaram as peças "O Sonho do Cavador" e "A Cigarra e a Formiga".


O grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, na 1ª deslocação a Tomar

Foi uma jornada triunfal "... a recepção que aqui teve a excursão da SIT. Imponência, beleza, entusiasmo, sinceridade - eis as características dessa admirável recepção, que não esquece aos que da Figueira vieram a Tomar". Estes dois espectáculos foram em benefício da Misericórdia local. Quem fez a apresentação do grupo cénico foi o dr. Manuel Gomes Cruz.
Esta deslocação foi o início de uma longa lista de deslocações áquela linda terra do Nabão. Foram muitas as peças ali representadas, sempre a favor de instituições locais, e sempre com lotações esgotadas.
"E o povo de Tomar? A sua franqueza, a sua comunicativa sinceridade, o carinho que não esconde aos seus visitantes, o espírito acolhedor que faz a sua tradição de povo hospitaleiro como nenhum outro o é mais!
Tomar vivia há cêrca de um mês no pensamento dos promotores dêste passeio. Até que o dia próprio chegou.
A excursão partiu da Figueira no combóio das 9,50 de domingo, seguindo nela, além dos elementos do grupo teatral da Sociedade de Instrução Tavaredense, muitas outras pessoas da Figueira. Eram cêrca de duas centenas os excursionistas. E muitas mais teriam sido se a Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses tivesse concedido facilidades para o transporte. Além das que seguiram pelo combóio muitas pessoas foram da Figueira em automóveis.
Após uma longa demora na Lamarosa, chega o combóio que conduz a excursão pelo ramal de Tomar.
Ti João da Quinta, Rosa e Manuel da Fonte, em "O Sonho do Cavador"


Os figueirenses sabiam, contavam que seriam recebidos com simpatia. Mas não podiam esperar a grandiosidade das manifestações que lhes reservavam os tomarenses.
Finalmente o combóio parou, e uma grande girândola de foguetes estraleja no espaço. Cá dentro, na gare, trocam-se os primeiros cumprimentos estão a comissão de recepção, representantes da Câmara Municipal, das diversas agremiações locais, imprensa, etc.; está também a comissão de gentis senhoras, a quem o presidente da Sociedade de Instrução Tavaredense oferece, em nome dos excursionistas, um lindíssimo ramo de cravos.
Lá fora, uma multidão enorme aguardava os visitantes. A manifestação é calorosa, ouvindo-se palmas e vivas incessantemente. O estandarte da Sociedade de Instrução cruza com os das associações que ali esperavam. A Tuna Comercial e Industrial de Tomar, a Banda Republicana Marcial Nabantina e a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais executam os seus hinos. E, em meio de grande entusiasmo, forma-se um cortejo imponente em que estão representados, além da comissão de recepção, a Câmara Municipal, Associação Comercial e Industrial, Centro Democrático Tomarense, Clube Tomarense, Grémio Artístico Tomarense, Tuna Comercial e Industrial de Tomar, Banda Republicana Marcial Nabantina, Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, Sporting Clube de Tomar, União Foot-ball Comércio e Indústria, Associação de Classe dos Caixeiros de Tomar, Orfeão Tomarense, jornal “De Tomar”, jornal “Acção”, Liga dos Combatentes da Grande Guerra, os excursionistas e muito povo.
O cortejo atravessou as ruas da cidade por entre aclamações e vivas. Das janelas pendiam ricas e lindas colchas e as senhoras atiravam flores. Os da Figueira, entusiasmados e reconhecidos, gritavam: - “Viva Tomar! Vivam as senhoras de Tomar! Viva o povo tomarense!” – e logo a multidão correspondia e as muitas centenas de vozes diziam: “Viva a Figueira! Viva a Sociedade de Instrução Tavaredense!”.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

António Maria Monteiro de Sousa de Almeida Cruz



Nasceu em Tavarede no dia 1 de Maio de 1879, filho de José Maria de Almeida Cruz e de Maria Guilhermina Monteiro de Sousa e Cruz.
Desde muito cedo que manifestou a sua aptidão para o teatro. Aos nove anos apresentou-se pela primeira vez em público, numa récita carnavalesca, com a cena cómica Um Alho. Por sinal que, receando não fazer boa figura, quis recusar a sua participação na festa, tendo sido necessário sua mãe “pespegar-lhe um sopapo” para ele entrar em cena.
Participou, depois, num teatrito numa travessa das Rua das Rosas, em espectáculo dos alunos da escola do professor Joaquim Evangelista, na comédia Não subam escadas às escuras. Em 1895 foi para Coimbra, assentar praça, como voluntário, no Regimento de Infantaria 23, como aprendiz de música.
Com 18 anos, no teatro Duque de Saldanha, em Tavarede, colaborou no grupo cénico da Estudantina Tavaredense, desempenhando o protagonista na comédia Atribulações dum estudante. Por essa ocasião também representou em Buarcos, no Teatro Duque, a comédia Médico à força.
Em 1898 foi trabalhar para Angola, onde permaneceu somente treze meses, regressando à sua terra natal. Anteriormente, havia exercido funções em Guimarães, em 1894, e nas Companhias do Gás e da Água e do Caminho de Ferro da Beira Alta, na Figueira, em 1897. “Embora fosse cumpridor nos seus empregos, o seu temperamento boémio e artístico em nenhum deles se acomodava. Outras tendências o impeliam; outra vida lhe estendia os braços carregados de aplausos”.
Participou activamente no grupo dramático da Estudantina Tavaredense e colaborou no Teatro do “Celeiro”, em Buarcos e no Teatro Taborda, em Brenha, onde tomou parte na inauguração. No ano de 1899 ensaiou, naquele teatro de Buarcos, o Presépio.
Também se dedicou ao magistério, tendo sido o primeiro professor da Escola Nocturna Popular de Bernardino Machado, em Buarcos, tendo a posse sido dada pelo próprio patrono da escola.
“… o alegre rapaz, boémio simpático e famoso pela sua voz, que, acompanhando-se a violão, nas noites luarentas e mornas da aldeia silenciosa, enchia a rua, passeando-a do Rio ao Paço, com as melodias das serenatas e fados de sua autoria, despertando a gente moça e atraindo-a às janelas, para escutá-lo”.
Em 1901 foi contratado pelo empresário Gouveia, tendo feito a sua estreia profissional no Teatro da Trindade, em Lisboa, na noite de 19 de Setembro daquele ano, representando o papel de “Nicolau”, da opereta Os sinos de Corneville.
Cantou e protagonizou, entre outras peças, a Toutinegra do Templo, Boémia, Amores de Zíngaro, Se eu fora Rei, Eva, Viúva Alegre, Casta Susana, A Capital Federal, Maridos Alegres, Amor de Máscara, D. César de Balzan, A filha da srª Angot, A Princesa dos Dólares, Conde de Luxemburgo, etc., etc.
Fez diversas digressões à província, ilhas, colónias, Brasil, Argentina e Uruguai, chegando a ser empresário no Rio de Janeiro. Em 1925 foi contratado para o S. Luís, onde realizou uma temporada que ficou memorável.
“… Um ano mais tarde, formou companhia e, durante largo tempo, explorou o Teatro Apolo, onde representou A Mouraria, uma das peças de maior êxito no nosso país e o Arco do Cego. Do Apolo transitou para o Éden, onde apresentou duas revistas. Os resultados financeiros não foram bons, e Almeida Cruz terminou aí a sua actividade de empresário. … Abandonando a sua carreira artística, em que conquistara merecidos aplausos, consagrou-se a negócios de livraria, pois era, igualmente, grande apaixonado pela leitura e pelos livros”.
Foi casado por três vezes. Da primeira vez com Virgínia Machado, filha do fiscal da empresa do Teatro da Trindade, e de quem teve um filho. Casou, depois, com Palmira Bastos, a grande Palmira Bastos, uma das maiores actrizes do teatro português de sempre. Por último, contraiu matrimónio com Ana Almeida Cruz.
Morreu em Lisboa, no dia 28 de Abril de 1951. Tavarede prestou homenagem à sua memória dando o seu nome a uma rua na Urbanização do Vale do Pereiro.
“Uma ocasião, um novel autor pediu-lhe para ler uma peça que queria ver representada. A leitura fez-se no camarim do artista, no teatro Apolo. Mas, ou porque o texto da peça fosse aborrecido ou porque o autor não desse entoação à sua obra, Almeida Cruz acabou por adormecer. O autor incipiente parou a leitura e disse ao empresário: - Vejo que está dormindo. Quer que eu continue a ler?
Almeida Cruz, com a sua larga prática de actor, respondeu: - Dormir também é uma opinião, meu caro amigo. A sua peça é muito longa. Outro dia acabaremos o resto”. Ignoramos se a peça alguma vez terá subido à cena
.

domingo, 5 de julho de 2009

Maestro João da Silva Cascão

Durante os meses de Julho e Agosto, todas as terças, quartas e quintas-feiras, o nosso conterrâneo e amigo Maestro João da Silva Cascão, actuará no Álea (o restaurante concerto bar do Casino), pelas 21 horas, com entradas gratuitas.
Estamos inteiramente de acordo com a notícia: "o pianista João da Silva Cascão regressa a uma casa que conhece bem, para serões musicais de qualidade".
Um abraço de parabéns para o João, bem merecido pelo reconhecimento feito à sua categoria de profissional.

E também mais um abraço especial, pela elevada craveira artística que ele imprimiu ao nosso grupo coral "CANTIGAS DE TAVAREDE" e que, com toda a certeza, continuará a manter. Tavarede e a Sociedade de Instrução Tavaredense bem merecem que as lindas cantigas das suas fantasias e operetas sejam recordadas para que os seus autores nunca sejam esquecidos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Maria Almira Medina


Integrado nas comemorações do 104º. aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, teve lugar uma tarde cultural a que demos o título "JORNADAS POÉTICAS DE SINTRA EM TAVAREDE - À CONVERSA - LIVROS E AUTORES".
Esta reunião tinha, inicialmente, a intenção de fazer a apresentação do último trabalho literário da Maria Almira. Como, entretanto, se optou por fazer a apresentação na Figueira (teve lugar na Livraria Sinédrium, dois ou três meses antes), foi resolvido levar a efeito estas "Jornadas Poéticas", para apresentar aos seus conterrâneos (em mais de 60 anos de actividade ainda não fôra possível a Maria Almira mostrar a sua arte na sua terra natal) a sua poesia e alguns outros trabalhos seus.
Trouxe consigo um grupo de amigas e amigos como ela dedicados à poesia e à literatura, que contaram histórias e declamaram diversos poemas. A reunião foi bastante concorrida e agradou a todos, sintrenses e tavaredenses.
Mal acabou a reunião, a maioria foi-se embora para Sintra, ficando cá somente a Maria Almira, o marido e um casal amigo. No domingo seguinte, antes da sessão solene, houve actuação do nosso grupo coral, que encantou aqueles quatro visitantes, surgindo de imediato a ideia da sua deslocação a Sintra, logo que oportuno.
A oportunidade surgiu com a festa de homenagem que a Câmara Municipal de Sintra lhe prestou no passado dia 29 de Junho (dia de S. Pedro, padroeiro de Sintra), tendo, em data oportuna, a Direcção da SIT tratado do necessário para o efeito.
A reportagem desta deslocação feita pelo Zé Manel no seu blogue #Chá de Limonete" está primorosa. Em linguagem muito dele, transmite, sem demasiados alardes, aquilo que foi uma viagem que, dignamente, honrou a nossa Terra e a Sociedade de Instrução Tavaredense. Estão todos de parabéns. E, na verdade, o nosso grupo coral "CANTIGAS DE TAVAREDE" pode ser apresentado em qualquer parte.
Do "curriculum" da Maria Almira, além dos livros e poesias publicados em revistas, jornais literários, antologias, livros escolares, etc., transcrevo: "Outras actividades: publicidade, desenho animado, joalharia, têxteis, figurino, cerâmica, pintura, tradução (francês, espanhol, romeno), trapologia, caricatura. Vários prémios de poesia e caricatura bem como várias exposições individuais e colectivas".
Uma figura, felizmente ainda viva, entre muitas figuras, que honram e honraram a Terra do Limonete que lhes foi berço.