sábado, 1 de agosto de 2009

Pedro Medina - Uma história da caça


Amanhã é o primeiro domingo de Agosto, o que quer dizer que é o dia da romaria à Senhora da Saúde, em Reveles, terra de minha Mãe, e onde ainda tenho famíliares. Durante muitos anos ali íamos em peregrinação. Mas se o domingo é o dia da festa na capela, sita perto da linha do caminho de ferro, que nesse dia fazia ali uma paragem, a festa 'pagã' é no dia seguinte, especialmente da parte da tarde, com a realização de jogos tradicionais e arraial.

Começo por pedir desculpa a algum leitor, se o tiver, mas, na verdade, o pensamento desta festa levou-me a recordar uma história passada com meu Pai, Pedro Medina, que era um dos principais animadores daquelas tardes. Aqui deixo, pois, recordada uma das suas histórias. E esta é de caça.
(Numa das tardes de segunda-feira, nas Festas da Senhora da Saúde, em Reveles)

Meu pai, Pedro Medina, era aquilo que se podia considerar como um irreverente e um repentista. Por índole, era uma pessoa bem disposta, sempre amigo do seu amigo, incapaz de causar problemas a quem quer que fosse, mas sempre pronto para pregar a sua “partidinha” inocente, mas cheia de oportunidade e graça. Poderia contar muitas historietas sobre ele, qual delas a mais engraçada. Vamos a esta, a que dou o nome de uma história da caça.
Naqueles tempos, havia em Tavarede um grande número de caçadores. A partir do princípio de Outubro, quando abria a época da caça, era vê-los por esses pinhais e montes fora, espingarda pronta a disparar, enquanto outros batiam silvados e moitas com os seus varapaus e os cães farejavam, numa constante busca de coelhos e outras espécies.
Eles próprios preparavam o seu equipamento. Hoje, a tanta distância, arrepio-me só de me lembrar o perigo que meu pai, e outros, igualmente, corria quando, ao serão, ia para o sótão da nossa casa, para numa pequena mesa, alumiada a candeeiro a petróleo, carregar algumas dezenas de cartuchos para levar para a caçada, na cartucheira que transportava à cinta.
Uma lata com os chumbos, outra com a pólvora, a pequenita balança para fazer as pesagens, as buchas e outros acessórios, encontravam-se à sua frente. E, no meio de tudo isto, outra lata a servir de cinzeiro, pois meu pai era um fumador inveterado. Volta que não volta, parava o trabalho, tirava uma mortalha de papel fino, punha-lhe em cima a precisa quantidade de tabaco, que sacava da respective onça, enrolava com perícia, humedecia a cola do papel e estava pronto o cigarrito, que acendia na chaminé do candieiro, tudo isto com a lata da pólvora mesmo ao lado… Não tenho memória de ter ocorrido qualquer acidente, mas sem dúvida que o risco era bastante elevado e muito pouco acautelado.
Algumas, poucas, vezes os acompanhei aos domingos. Nunca me atraiu este desporto. Gostava, é certo, e muito, de passear pelos campos e pelos pinhais, mas apreciava muito mais uma pêra ou uma maçã que, de quando em quando, surripiava de uma árvore carregada de frutos, do que ouvir os disparos e, muitas vezes, ver os pobres dos coelhos tombarem feridos de morte.
Cada um levava o seu bornal com o correspondente farnel para o almoço e o cantil, ou cabaça, cheio de vinho, quase sempre da lavra própria, pois praticamente todos amanhavam pequenos pedaços de terra onde, invariavelmente, tinham uma dúzia de cepas que, por ocasião das vindimas e com a ajuda de alguns cântaros de água da nossa fonte, as uvas eram transformadas numa deliciosa água-pé, pois que de vinho não se podia intitular.
Quando a hora chegava, procuravam um dos locais conhecidos, propícios à pausa para a petiscada e um pouco de descanso, sempre tendo por perto uma fonte ou bica, de água fresca e pura, de que a nossa zona era bem fornecida. Comiam, os animais também, descansavam um bom bocado e, já refeitos, continuava a caçada, agora no sentido do regresso à aldeia.
Nem sempre traziam caça pendurada no cinto. Muitas vezes, coelhos e perdizes não colaboravam nada com os caçadores. Mas, apesar disso, regressavam felizes e satisfeitos por mais um dia passado no meio da natureza, em alegre convívio. E não me esqueça uma coisa: algumas vezes vinham sem caça, é certo, mas os bornais quase sempre vinham cheios de boa fruta. Aquelas encostas do Prazo, dos Condados, do Saltadouro e dos Pejeiros, entre muitas outras, eram enormes pomares onde a fruta não faltava, em quantidade e em variedade.
A historieta que vou contar refere-se a uma das tais caçadas, mas a essa eu não assisti, pelo que a recordo pelo que me contaram. Foi para o lado sul do Mondego, para as bandas do Alqueidão, e era um enorme grupo de caçadores daqui que se reuniram, em caçada previamente combinada, com companheiros de trabalho e de caça, daquela zona.
Desta vez, por esquecimento, ou já por malandrice, meu pai não pediu para lhe arranjarem o farnel. De madrugada, à hora de partir para a caçada com os amigos, vai ao armário onde estava a bolsa do pão, agarra num dos grandes, daqueles a que se chamavam “casqueiros” e abre-o ao meio, para fazer uma enorme sandes. Em seguida, apanha uma broa das que estavam na tábua, a broa era amanhada lá em casa, e, com muito cuidado, corta a parte de baixo, o lar da broa, e apara-a muito bem. Feito isso, mete a côdea da broa dentro do pão, embrulha tudo num grande guardanapo branco e guarda tudo no bornal. O cantil também já estava em ordem de marcha.
Foram de bicicleta até ao ponto de encontro, no Alqueidão. À hora marcada estavam todos reunidos e dirigiram-se ao local onde começava a caçada. Tiro daqui, tiro dali, confesso que me não recordo o que é que apanharam naquele dia, e, horas depois, chegam ao local previamente escolhido para o almoço.
Cada um tira o seu farnel e coloca-o à sua frente. Na sua maior parte levavam fritos, peixe, pastéis de bacalhau, pataniscas e omoletas. Outros optavam pelos enchidos ou umas fatias de carne assada. Meu pai tinha-se sentado, bornal ao lado, mas não se resolvia. Os outros estranharam. “Oh! Pedro, então não comes? O que é o teu petisco?”. Como que um pouco enfadado, responde que ainda não tinha vontade de comer, mas, para lhes fazer companhia, também se resolveu e tirou o embrulho do guardanapo para a sua frente. “Era para ter feito uma omeleta, mas lembrei-me que tinha lá um bom naco de presunto e, olhem, resolvi fazer esta sandes”, disse mostrando o guardanapo bem enrolado no pão.
Os outros estranharam. Ele levar presunto? E logo um pedação daquele tamanho? Não acreditavam. Então ele, cheio de paciência e abrindo um pouco o embrulho, mostra um dos lados em que ser via o pão aberto ao meio e com uma coisa escura dentro, que se lhes afigurou ser realmente presunto. Do imediato logo lhe disseram: “Oh! Pedro, deixa isso para o fim. Cortamos o pão com o presunto às tiras e é mesmo bom para acabarmos o petisco. Vai saber bem para um último copo”.
É claro que, interiormente, meu pai terá sorrido ao ouvir aquilo que já esperava. E vai daí, embrulha novamente o pão e, pastel daqui, uma fatia de carne dali, deu a volta a todos, não se mostrando nada sem vontade, como havia dito antes.
Quando já estava bem almoçado, estende-se à sombra de uma árvore e diz: “Eh! rapazes, agora já não consigo comer mais nada. Tomem lá o meu farnel e comam à vontade o pão com o presunto”.
Os outros, ávidos pela perspectiva de saborearem tão boa sobremesa, agarram de imediato o embrulho e com uma navalha bem afiada, preparam-se para a distribuição. Oh! Céus! Então não é que, mais uma vez, o Pedro os havia enganado? O tal presunto não era mais do que a côdea da broa e ele, que acabara de almoçar à grande e à francesa, à borla, tinha-os deixado a chuchar no dedo, agarrados a um bocado de pão que nem sequer cheirava a presunto! Disseram-lhe das boas, mas, pouco depois, tudo acabou às gargalhadas. Mais uma das brincadeiras dele, que teve graça e não ofendeu ninguém .

(Caderno: Tavarede - A terra de meus Avós - 3º.)

sábado, 25 de julho de 2009

João da Silva Cascão

O Sonho do Cavador - 1928 - João Cascão (Manuel da Fonte) e Emília Monteiro (Rosa)


Nasceu em Tavarede, no dia 31 de Maio de 1905. Era filho de César da Silva Cascão, um dos fundadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, e de Maria Ascensão Marques.
Foi industrial de serralharia, estabelecendo oficina na Rua do Paço, na Figueira. “… como serralheiro era um hábil artista, a que muitos recorriam confiados”. Casou com Angelina Gaspar de Freitas, tendo dois filhos: Fernando José e João Gaspar da Silva Cascão.
“Era um dos mais antigos e distintos componentes do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, participando no desempenho de imensas peças representadas nos teatros do nosso concelho e de outras localidades do país, muitas vezes em espectáculos de beneficência. Da forma talentosa como interpretou alguns “papéis” que lhe foram confiados, não desdenhariam os melhores artistas”.
Aluno da escola primária de Tavarede, pisou o palco, pela primeira vez, numa das habituais festas da “Árvore”, em Março de 1914, recitando a poesia Esmola de pobre. Dois anos depois, em 1916, participou numa outra daquelas festas, com desempenho numa pequena comédia-drama As Árvores, contracenando com sua irmã Aurélia.
Começou a representar muito cedo. “Era a única maneira de meu pai me deixar sair à noite”, dizia ele. O seu primeiro papel foi na opereta Em busca da Lúcia-Lima, como Tomás Castanho, em Abril de 1925.
Outras personagens se seguiram e, em 1928, teve o seu primeiro grande triunfo, na fantasia O Sonho do Cavador, com o papel de Manuel da Fonte.
Os Fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais, A Morgadinha de Valflor, O Grande Industrial, Entre Giestas, Génio Alegre, Envelhecer, A Nossa Casa, Horizonte, Injustiça da Lei, Auto da Barca do Inferno, Raça, Pé de Vento, Chá de Limonete, Frei Luís de Sousa, Serão Homens Amanhã, Israel, A Conspiradora, Os Velhos, Romeu e Julieta, Omara, O Processo de Jesus e muitas outras, foram peças que tiveram a sua participação e em cujo desempenho interpretou cerca de oitenta personagens.
“… desempenhou o principal personagem por forma a merecer os aplausos que a plateia lhe tributou, a ponto de o interromperem em duas cenas, o que só se faz a quem sabe dizer por forma a transmitir o seu sentimento às pessoas que o ouvem. Este é o maior elogio que pode fazer-se ao seu trabalho e Cascão bem mereceu os aplausos vibrantes, calorosos dos espectadores”.
“… cujo belíssimo trabalho foi subindo de acto para acto. … mas foi um prazer vê-lo no terceiro, pitoresco, naturalíssimo, vivo e humano. Aquela pequena figura do Manuel Firmino, encheu toda a “cena do jantar…”.
Muitas outras notas se podiam transcrever. Em 1959, no concurso do Teatro das Colectividades Amadoras, organizado pelo Secretariado Nacional da Informação, foi-lhe atribuída uma menção honrosa pelo seu desempenho do personagem Manuel Patacas, na peça Os Velhos.
Em Agosto de 1970, dizia João Cascão que “ o teatro é a minha segunda casa. E não o é mais porque a saúde e a idade já não me permitem muitas brincadeiras. Agora, aos 65 anos, só pode ser uma rábula pequena. Já tenho muitas dificuldades em decorar e ouvir o ponto”. O seu último personagem foi Frei Bartolomeu Ferreira, em Camões e os Lusíadas, em Outubro de 1972. A Sociedade de Instrução Tavaredense prestou-lhe homenagem nomeando-o seu Sócio Honorário e colocando o seu retrato no salão nobre.
Também foi um dos mais entusiastas elementos do grupo “Os Inseparáveis”, que se reunia, todos os anos, para confraternizar, no dia primeiro de Maio.
Tendo herdado a fazenda que fica no caminho da Chã, defronte da escola primária (A Primorosa, como lhe chamava), tratava cuidadosamente dos corrimões que lhe davam uvas para o fabrico de um vinho que, dizia ele, “nem de pé se aguentava, de tão fraquinho que era”. Mas era uma satisfação e um prazer para ele, chamar lá os amigos, ao domingo à tarde, para beber um ou dois copitos, acompanhados das tradicionais freiras.

A mobilia do senhor Conde de Tavarede


…………………….
Sinto na alma saudades torturantes
Dos serões e das festas ruidosas,
Com luzes, flor’s e pratas cintilantes,
Veludos, sedas, pedras preciosas.
…………………….

Era assim que, na fantasia “Chá de Limonete”, de Mestre José da Silva Ribeiro, a nobre e envelhecida figura do palácio dos senhores de Tavarede, recordava o seu passado.
Como sabemos, o paço de Tavarede foi sempre a residência permanente da fidalga família dos Quadros, desde a sua construção, ainda na primeira metade do século XVI.
A 10ª Senhora de Tavarede, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, casou, no dia 26 de Dezembro de 1791, com o célebre fidalgo D. Francisco de Almada e Mendonça, corregedor da cidade do Porto, onde realizou importantes obras. A família “Quadros e Almada” passou a ter a sua residência naquela cidade nortenha, fazendo, no entanto, frequentes visitas à nossa terra, onde, no dizer de Pinho Leal, no seu “Dicionário Portugal Antigo e Moderno”, “era a providência dos povos desta terra”.
Tendo enviuvado no ano de 1804, é de presumir que tenha voltado a fixar residência em Tavarede, onde faleceu no dia 25 de Fevereiro de 1835, encontrando-se sepultada na cripta do convento de Santo António, na Figueira da Foz.
Vem isto a propósito para referir que, sendo o palácio de Tavarede residência permanente, ou simplesmente temporária, o mesmo deveria estar mobilado, senão com luxo, pelo menos com as comodidades necessárias ao alojamento da, habitualmente numerosa, família Quadros.
O único filho varão de D. Antónia Madalena e de D. Francisco de Almada e Mendonça, que se chamou João de Almada Quadros Sousa de Lencastre, casou, em 1810, com D. Maria Francisca Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araújo e Meneses, filha e herdeira do superintendente das coudelarias da comarca de Trancoso, possuidor de largas propriedades naquela terra, que constituíam um morgado, e que, pelo casamento, se uniram à casa de Tavarede.
Passou, entretanto, a residir em Trancoso, com sua família, fazendo, especialmente na época balnear, frequentes e demoradas visitas à nossa terra, instalando-se no seu velho solar de Tavarede.
De igual modo terá procedido o seu filho e herdeiro, o segundo conde de Tavarede, de quem, por seu falecimento em Novembro de 1853, foi herdeiro seu filho primogénito, D. João Carlos Emílio Vicente Francisco d’Almada Quadros Sousa Lencastre Saldanha e Albuquerque que, igualmente, herdou o título de conde de Tavarede.
Esta história tem, como um dos protagonistas, precisamente este titular. “Fidalgo no sangue, no aprumo, na ilustração, no carácter, no sentimento e invariável nas acções, o grande amigo imprimia feição a Trancoso, dava-lhe a sua vida, do seu tom, dos seus nervos, da sua qualificação social, anímica e mental: alma de luz, propagava a luz”, escreveu o jornal A Folha de Trancoso, tempos depois da sua morte.
Como curiosidade, e somente para reforço do que se disse sobre as suas deslocações a Tavarede, recorda-se que o conde, em Setembro de 1883, tomou posse como presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz. Certamente que, se aceitou essa nomeação, seria porque aqui estava o tempo necessário para o desempenho do mesmo ou, talvez, porque tencionava mudar a sua residência para a nossa terra, uma vez que, por essa ocasião, mandou fazer importantes obras de transformação no palácio.
Não deixa de ser interessante, e relativamente a esta história de “A mobília do senhor conde”, o que Ernesto Tomás escreveu na sua reportagem sobre Tavarede, de que já fiz algumas transcrições, agora sobre o palácio da nossa terra:
“Quando por essa época (1865) entrei, pela primeira vez, no edifício do Paço, velho alcácer onde esteve D. Maria Mendes Petite, mãe de Pêro Coelho, um dos que fizeram de D. Inês de Castro uma vítima, condenada pelo seu amor clandestino; quando subi aquelas escadas de pedra, frias e húmidas, que iam dar ao andar nobre do edifício e percorri aquelas salas vastas, mas sem conforto, lembrou-me mais do que uma vez que por ali teriam andado os passos do velho soldado da Índia, D. Francisco de Almada (referia-se ao pai do marido de D. Antónia Madalena), que por lá teria pisado António Pereira (?) de Quadros, e a última habitante do velho solar, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.
……………
Percorrendo aquela antiquíssima habitação, ainda encontrámos os restos de um altar, numa das divisões ao lado do corredor principal que se dirige, no andar nobre, do norte ao sul. Um oratório, apresentando o seu esqueleto em madeira, tosca, conserva ainda ligados uns restos de forro de pano escuro, com umas linhas de galão sem brilho já. De resto nada de importante”.
Surpreende bastante esta descrição. Ponho, no entanto, uma hipótese. Esta visita terá ocorrido relativamente pouco tempo antes do início das obras de transformação do velho edifício que acima referi, das quais as mais importantes terão sido o desmantelamento da altaneira torre com ameias e a modificação da frontaria do lado poente, com os novos torreões e os rendilhados estilo manuelino, que ainda bem conhecemos. Estariam, então, as mobílias devidamente guardadas em qualquer armazém? É de admitir que sim, e que seriam utilizadas quando a família fidalga aqui vinha passar as suas férias balneares e, talvez, acompanhar o andamento das obras.
Vamos, agora, passar ao segundo protagonista da história: o reverendo pároco Joaquim da Costa e Silva. No ano de 1894, o padre António Augusto Nobreza, também ele protagonista de uma outra história igualmente contada neste caderno, havia sido transferido para outra paróquia e, como era uso naqueles tempos, a diocese de Coimbra abriu concurso para provimento deste cargo, tendo sido provido no mesmo, em Junho de 1894, o padre Costa e Silva, até então coadjutor na paróquia de Paião.
Foi uma figura bastante controversa. Devemos recordar, porém, que naqueles já recuados tempos, as lutas políticas eram assaz violentas. Os militantes de um partido político sofriam, frequentemente, ataques dos partidos adversários. A imprensa, então, explorava ao mais pequeno pormenor todas as possíveis fraquezas e falhas dos responsáveis partidários. Os correspondentes locais, concretamente refiro-me ao caso de Tavarede, muitas vezes se excediam, chegando, até, à difamação e ao insulto, o que resultava, de vez em quando, em desmentidos públicos, quase sempre ordenados pelo Tribunal.
O padre Joaquim da Costa e Silva era natural da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho. Como já referi, foi provido na igreja de Tavarede em Junho de 1894. Os próprios adversários políticos reconheciam-no como pessoa bastante inteligente e denodado lutador pelo bem-estar dos povos das paróquias onde esteve, como Paião, Tavarede e, por último, Quiaios.
Recordo, somente, o que o jornal “A Voz da Justiça” escreveu, no dia 4 de Janeiro de 1924, noticiando o seu falecimento: “o padre Joaquim da Costa e Silva que, antes de paroquiar Quiaios, esteve a dirigir a igreja de Tavarede, foi sempre um político activo, pondo a sua influência ao serviço dos homens que aqui defendiam a política regeneradora, antes da proclamação da república e, na vigência desta, dos que, monárquicos ou republicanos, combatiam a política democrática.
Foi sempre nosso adversário. Isto não obsta que, esquecendo nesta hora certos actos por ele praticados e que nós aqui atacámos, digamos que, nas vezes em que o padre Joaquim da Costa e Silva ocupou na Câmara Municipal o lugar de vereador, procurou sempre obter benefícios para a localidade onde paroquiava”.
Estão feitas as apresentações dos dois protagonistas desta história. Vamos, agora, à mesma: “A mobília do senhor conde”.
* * *
Na edição de 20 de Janeiro de 1899 o jornal “O Povo da Figueira” escreveu, em correspondência de Tavarede:
“…….. Quando o conde de Tavarede resolveu vender a casa que aqui tinha (o Paço), e onde havia mobília valiosa, o nosso Papa-jantares (alcunha atribuída ao padre Costa e Silva, não sei a que propósito), dirigiu-se logo a Trancoso a falar com ele, afim de lhe pedir um guarda-roupa para uma aplicação religiosa………..”.
O conde, que era uma pessoa religiosa e bastante generosa, vendo o fim a que se destinava essa peça de mobília, não hesitou e de imediato escreveu um pequeno bilhete, dirigido ao seu feitor, que tinha mandado a Tavarede precisamente para embalar todas as mobílias existentes no palácio, e no qual ordenava para “…. lhe dar o que fosse preciso para a igreja”.
Com aquele bilhete na mão, logo que chegado a Tavarede, o pároco foi ter com o feitor e exigiu o cumprimento das ordens do conde. Reconhecendo a letra do patrão, de imediato o homem se prontificou a cumprir o que lhe era ordenado e logo se disponibilizou para fazer a entrega “de tudo o que fosse preciso para a igreja”. Era, assim, que estava a ordem escrita.
Realizada, entretanto, a venda do palácio e da quinta, o conde veio à Figueira para ultimar tudo. O comprador foi o sr. Luís João Rosa, de quem também conto, neste caderno, uma pequena história.
Depois de tudo tratado com a venda, foi o conde a Tavarede para concluir as providências que havia ordenado ao seu feitor, quanto à embalagem da mobília, que tencionava enviar, pelo caminho de ferro, para a sua casa de Trancoso. Calcule-se, agora, o seu espanto quando o seu empregado lhe disse que a mobília havia-a levado o padre Joaquim da Costa e Silva, a quem a havia entregado em obediência às ordens do sr. conde, conforme o bilhete que lhe mandou e no qual dizia para “entregar o que fosse preciso para a igreja”.
Ruínas do velho palácio
Após dar umas voltas pelas salas, então já praticamente vazias, o conde, vendo que o padre, que lhe tinha pedido unicamente um guarda-roupa, lhe levara as principais peças de mobília que ainda cá tinha, teve o seguinte desabafo: “se a casa tivesse rodas também era capaz de a levar para casa dele”!
Alma bondosa, porém, nada mais disse ou empreendeu, e como não haviam restado senão umas “fracas coisas de mobília”, deu-as ao feitor e regressou a Trancoso de mãos vazias, relativamente à mobília que viera buscar a Tavarede.
O jornal, explorando o caso, acrescenta: “Quem for à igreja só lá vê um guarda-roupa, mas se forem a casa do meu amiguinho (o padre Costa e Silva), lá encontram um bom aparador e muitas outras coisas. O resto da mobília, como lhe não cabia toda em casa, tratou de mobilar a casa de um amigo”!
Entre outras peças, o jornal acrescenta que o pároco levou: “dois guarda-roupas, um importante aparador, duas boas mesas, um lavatório, uma banquinha, uma excelente mesa de jogo (até isto!!!) e não sei que mais”.
O padre, depois do conde se ter ido embora, tomou conhecimento da reacção do titular e comentou para com uns amigos que “a mobília tinha sido levada por ordem do conde”.
Comentário final: se a tinha dado, porque razão mandou o conde a Tavarede um seu empregado (Francisco Pires) com a incumbência de empalhar e embalar a mobília para a despachar pelo caminho de ferro? E porque razão, ao tomar conhecimento do caso, o conde havia comentado “se a casa tivesse rodas também a levava para casa dele?”. Estas palavras foram ouvidas por pessoas da terra, que as confirmaram ao correspondente do jornal.
Adianta ainda o referido correspondente que, depois, o pároco mandou chamar o feitor para que lhe contasse o que se havia passado e sabendo que o conde tinha ficado bastante zangado, principalmente por causa do aparador, que era um móvel muito valioso e pelo qual tinha particular estima, disse ao homem que estava pronto a devolver tudo que o conde quisesse, embora sempre insistindo que ele lhe havia dado toda a mobília que havia trazido.
Não sei se o feitor comunicou para Trancoso esta informação do pároco mas, na verdade, o conde não quis mais saber do caso nem da mobília.
Alguns anos mais tarde, é o correspondente em Quiaios, do jornal “A Voz da Justiça”, que fala na mobília, numa pequena local daquela povoação, em Junho de 1905: “…….no jantar dado (pelo padre Joaquim da Costa e Silva, que fora, entretanto, transferido para Quiaios) foram muito apreciados uns pastéis com recheio de mogno, do conde de Tavarede, e uns pãezinhos feitos de milho da congrua que pertencia ao padre Manuel Vicente, actual pároco de Tavarede”.
Será que, na verdade, “a mobília do senhor conde” foi acabar a sua existência em Quiaios?
(Tavarede - Terra de meus Avós - 3º. caderno)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Fradique Baptista Loureiro




Nasceu em Nelas, Santar, no ano de 1849.
Foi um dos fundadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, em 1904, tendo sido o primeiro presidente da Direcção.
Em Junho de 1914, esta colectividade realizou uma sessão solene em sua homenagem, durante a qual foi descerrado o seu retrato, que se encontra no salão nobre.
“Faleceu na segunda-feira de madrugada (18 de Maio de 1919) este nosso amigo. O extinto, já há bastante tempo se encontrava impossibilitado de trabalhar, devido ao mal que o fez desaparecer para sempre.
Fradique Baptista era viúvo há bastantes anos, vivendo só. Antigo tanoeiro, empregando-se há anos na vida da agricultura, na sua mocidade foi um dos amigos da instrução, coadjuvando outros amigos que aqui fundaram a S.I.T.”.
Contava 70 anos de idade. Também lhe foi atribuído o diploma de sócio honorário.

Manuel Rodrigues Tondela


Era natural de Verride e morreu na Figueira da Foz, em Fevereiro de 1931, com 75 anos de idade.
Pedreiro de profissão, exerceu, durante mais de vinte anos, o lugar de empregado, como contínuo, na Assembleia Figueirense.
Pertenceu à Comissão Administrativa Paroquial, em 1911, sendo nomeado regedor.
O seu nome estará para sempre ligado à Sociedade de Instrução Tavaredense: era o seu sócio número um, sendo um dos seus fundadores. Além de ter feito parte dos corpos sociais em diversas gerências, foi professor da escola nocturna daquela colectividade, tarefa a que dedicou o melhor carinho e esforço.
Em Janeiro de 1928, a Sociedade de Instrução homenageou-o descerrando o seu retrato, que se encontra no salão nobre. “Foi durante cerca de 20 anos, o professor das primeiras letras da aula nocturna, prestando ali grandes e desinteressados serviços”. Era sócio honorário da colectividade por “relevantes serviços”.
Suas filhas, Clementina, Maria José e Eugénia colaboraram no grupo cénico, especialmente a última que, até 1914 “brilhou no teatro declamado e no musicado”.
“Conforme o desejo que manifestou em vida, ficou sepultado no cemitério desta localidade (Tavarede).
Durante cerca de 20 anos viveu em Tavarede. Pelo seu feitio prestável e bondoso e pelo desinteresse com que sempre se dispunha a prestar o seu auxilio, conquistou a estima e a simpatia dos tavaredenses, simpatia a que ele correspondia, considerando Tavarede como sua terra.
O seu nome fica ligado à Sociedade de Instrução Tavaredense: Manuel Rodrigues Tondela, que era o sócio nº. 1 e foi nomeado sócio honorário, foi um dos fundadores da benemérita associação local. Ele e sua família deram à Sociedade de Instrução uma dedicação sem limites. Durante muitos anos, enquanto a saúde lho permitiu, ele foi o professor da escola nocturna; e suas filhas foram dos mais valiosos elementos da secção teatral, a que prestaram brilhante colaboração.
Inutilizado pela idade para o trabalho foi, com sua esposa, viver para a Figueira, para casa de sua filha Eugénia. Mas, sempre que a saúde lho permitia, vinha assistir às festas da sua querida Sociedade de Instrução, que eram para ele motivo de grande prazer moral”.
Foi casado com Joana da Silva Lopes, que morreu em Abril de 1938, com 83 anos.






terça-feira, 21 de julho de 2009

Fontes de Tavarede


A primeira notícia que encontrei, sobre a nossa terra, publicada na Imprensa figueirense existente nos arquivos da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, tem a data de 6 de Setembro de 1863, e foi no jornal "O Figueirense". Vou transcrevê-la, como recordação:

Na antiga Fonte da Várzea, onde no dia 1º. de Maio iam os ranchos dos Potes Floridos e que hoje já não existe.

"A Fonte da Várzea, quando no anno de 1861 com ella se gastou inefficazmente a somma de 308$855, alem de valiosos materiais que estavam para diversa applicação, foi pela tentativa d'uma mina para serem aproveitados os repares, e o resultado foi, que tendo-se perdido nesses trabalhos a direcção da origem desconhecida, deu que fazer aos encarregados para readequirir a antiga, cujo veio chegaram a perder, é no entretanto é extrahida a púcaros pela profundeza do nivel, sendo mister derregar as aguas externas por meio de vala de communicação com o ribeiro, e esta é a encosta do norte do monte a que o correspondente se refere.
A fonte da Lapa está em igual profundidade, e é a continuação do monte.Em Tavarede é a fonte abundante e de excellente qualidade, porém ao nivel da parte mais baixa da povoação situada na planicie.

A Fonte de Tavarede, no início dos anos cinquenta do século passado.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Tavarede - Um pouco do passado

Hoje vou recordar um figueirense, Ernesto Fernandes Tomás, que, sob o pseudónimo de Estoern, nos deixou uma interessantíssima descrição de Tavarede dos finais do século dezanove, numa extensa reportagem que fez publicar no jornal "Gazeta da Figueira", entre Fevereiro e Dezembro de 1896 (reportagem que, devido a doença e falecimento de um filho seu, não concluiu) e à qual deu o título de 'Recordações de Tavarede".
Foi ele quem, nesta reportagem, faz a descrição dos teatros na nossa terra em 1860/1865, no tempo em que "as sociedades dramáticas vegetavam como tortulhos em Tavarede" e que serviu a Mestre José Ribeiro para o seu livro "50 Anos ao Serviço do Povo", publicado por ocasião das 'Bodas de Ouro" da Sociedade de Instrução Tavaredense.
Muito me tenho eu aproveitado desta reportagem para os meus cadernos. E, certamente, hei-de continuar a recorrer a ela para recordar neste 'blogue' os princípios do associativismo na Terra do Limonete, e outros temas do próximo passado tavaredense.

Fachada principal do Palácio dos Condes de Tavarede, segundo desenho de António da Piedade

Por agora vou recordar a sua visita ao Paço dos Condes de Tavarede e a descrição que começa por fazer da nossa terra:
"Tavarede era então um pequeno burgo, menos desenvolvido que hoje, anegrado por uns grupos de casas em derrocada, que serviram de habitação a uma população pobrissima de trabalhadores laboriosos, vivendo uns dias de trabalho nesta cidade, enquanto que outros, transformando os terrenos à volta da antiga povoação, nos proporcionavam o gozo de um jardim de cintura, alegre, verdejante, provocando-nos ao viver no campo.
Tavarede assim, a povoação dos tempos coevos da monarquia, engrandecida mais tarde com o foral de D. Manuel, trazia-nos à memória umas lendas tradicionais ali escondidas entre verduras e flores. Bons tempos esses!
Como até hoje, os edifícios que nos chamavam a atenção, mais pelo contraste da sua extensão, com a exiguidade das outras pobres construções, eram: o Paço, a Igreja, a casa denominada - da Renda e uma outra ao cimo da povoação pelo lado do norte, que nos indicavam como a casa de Ourão. Ainda outra deixava de entrar nesta relação, e que existe ainda com boa aparencia ao lado do caminho para a fonte da povoação, a que chamavam a - casa do sr. João Anselmo.
Quando por essa época entrei, pela primeira vez, no edifício do Paço, velho alcáçar aonde esteve D. Maria Mendes Petit, mãe de Pero Coelho, um dos que fizeram de D. Inez de Castro uma vítima, condenada pelo seu amor clandestino; quando subi aquelas escadas de pedra, frias e húmidas que iam dar ao andar nobre do edifício e percorri aquelas salas vastas, mas sem conforto, lembrou-me mais do que uma vez que por ali teriam andado os passos do velho soldado da India, D. Francisco d’Almada, que por lá teria pizado António Pereira de Quadros, e a última habitante do velho solar, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.
Estes últimos jazem hoje junto ao altar-mor, em carneiro, na Igreja da Misericórdia desta cidade, edificado em terrenos que lhes pertenciam e ao antigo couto de Tavarede.
Percorrendo aquela antiquíssima habitação, ainda encontrámos os restos de um altar, numa das divisões ao lado do corredor principal que se dirige, no andar nobre, do norte ao sul. Um oratório, apresentando o seu esqueleto em madeira, tosca, conserva ainda ligados uns restos de forro de pano escuro, com umas linhas de galão sem brilho já.
De resto nada de interessante.
Descendo ao rés-do-chão do Paço encontrámos também os despojos, de madeira e ferro, de um veículo de luxo, que poderiam ter pertencido a uma sege ou carroção a bois, cuja entidade se escondia nas brumas do passado.
Uma tradição que ouvimos do povo e que se liga á existência dumas colunas de mármore branco, muito correctas, que dividem a meio, verticalmente, as janelas da frente do Paço, hoje dos Condes de Tavarede, diz-nos que D. Francisco d’Almada, tendo combatido na India ou na Africa, os infiéis, no assalto a um pagode do gentilismo, depois de o tomar, trouxe, para Lisboa, na armada, as colunas do pagode, que foram distribuidas como galardão àqueles que mais se distinguiram na guerra
".

Fotografia do Palácio dos Condes de Tavarede, tirada por José Relvas, finais do século dezanove

Permito-me fazer umas pequenas correcções a este texto. Primeiro: não foi D. Francisco de Almada quem andou a combater na India e em África. Como sabemos foi António Fernandes de Quadros, o fundador da Casa de Tavarede no século XVI, que trouxe de Azamor, onde foi governador, as colunas de mármore referidas. Segundo: D. Antónia Madalena, que foi a décima senhora de Tavarede, casou com D. Francisco de Almada (governador da cidade do Porto e titular de diversos cargos no norte do País), e foram os pais de João d'Almada Quadros de Souza Lencastre (a quem o príncipe regente D. João VI, em 1804, concedeu o título de 1º. Barão de Tavarede e a Rainha D. Maria II, elevou a Conde, em 1848) e de D. Ana Felícia (que casou com o morgado de Roliça).

Também descreve a Igreja, "na sua arquitectura acanhada e ornatos arquitectónicos ressentidos do cunho das construções jesuíticas, é, como todos os outros edifícios, um exemplar dos da época quinhentista...".

Quanto à Casa de Ourão refere que constava ser de gente de linhagem fidalga, a quem alguns habitantes da terra eram obrigados a pagamento de foros de que eram senhoria. Relativamente à casa pertença de João Anselmo, no caminho para a fonte, julgamos ter sido deitada abaixo e que ficaria onde mais tarde esteve instalada a forja de Assalino Cardoso. Certamente noutra ocasião voltaremos ao caso do "senhor João Anselmo".


Como se pode verificar e adivinhar, Ernesto Fernandes Tomás, foi um estudioso das coisas da nossa terra. Aliás, outros trabalhos dele, igualmente publicados, nos deixa a descrição de Tavarede, como na polémica que travou ácerca da Estrada Aveiro-Figueira, em projecto por aqueles tempos.

Acabou por sucumbir a uma doença, parece que provocada pelo desgosto da morte do filho, nos primeiros anos do século vinte.