sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Associativismo - Os princípios (1)




Julgo ter chegado o momento de me debruçar sobre o Associativismo na terra do limonete.
Já muita coisa escrevi sobre o assunto. Forçosamente terei de repetir-me. Mas parece-me interessante aqui deixar algo escrito sobre este tema, sobre o Teatro e sobre a Música, sobre as Colectividades, passadas e presentes, pois não há qualquer dúvida do papel importantíssimo que estas actividades tiveram no desenvolvimento cultural do povo tavaredense.
Teremos, assim, de recuar no tempo mais de duzentos anos. Terá sido nos finais do século dezoito ou princípios do século dezanove que tudo começou na nossa terra.
Mestre José Ribeiro sempre falou "duma tradição teatral" em Tavarede. Mas, desde quanto e como terá começado tal tradição? Ao certo, nada se sabe. A única certeza que ha é que, por meados do século dezanove, já se fazia Teatro, e bom, na nossa terra. Isto levou-nos a fazer uma espécie de "especulação", dentro de uma lógica admissivel. Ora, vejamos.
Nos finais do século dezoito era Morgada de Tavarede a senhora D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, que, no dia 26 de Dezembro de 1791, havia casado com o ilustre e poderoso fidalgo D. Francisco de Almada e Mendonça, corregedor da cidade do Porto, além de detentor de muitos outros altos cargos governativos, na zona norte do País. Pois foi este fidalgo, quem mandou construir naquela cidade, o Teatro de S. João, ainda hoje em actividade, embora em edifício reconstruído, devido ao primeiro ter sido destruído por um incêndio. Dizem as crónicas desses tempos, que D. Francisco de Almada foi um grande protector do teatro e da dança, tendo feito apresentar, naquela casa, "as melhores companhias nacionais e estrangeiras".
No dicionário "Portugal Antigo e Moderno", de Pinho Leal, diz-se, relativamente a Tavarede e áquele fidalgo, que "quando aqui residia era a providência dos povos destes sítios.
Protector das Artes, no Porto, amigo do Povo da terra natal de sua Esposa, não será difícil aceitar que, aproveitando as longas noites de inverno, quando aqui permanecia com sua família, se ocupasse da educação do povo, servindo-se do teatro, certamente da forma mais simples, com uma ou outra comédia ou, porventura, alguns monólogos e cançonetas, muito em uso naqueles recuados tempos.
Na imprensa figueirense, as primeiras notícias sobre teatro em Tavarede, surgem a partir de 1870. Mas o teatro era muito mais antigo na terra do limonete.
No ano de 1896, surge, no jornal "Gazeta da Figueira", uma reportagem sob o título "Recordações de Tavarede", da autoria do figueirense Ernesto Fernandes Tomás, que assinava sob o pseudónimo de "Estoern", onde diz: "Aí pelos anos de 1865, tendo voltado de umas voltas pela América, no primeiro domingo que tinha adiante, depois da chegada, ouvi falar uns rapazes amigos em uns teatros em Tavarede..."
Ao recordar um dos principais amadores daquela época, escreve Estoern: "... o José do Inácio havia sido também, em outro tempo, uma parte obrigatória em todas as sociedades dramáticas que vegetavam em Tavarede como tortulhos".
(na segunda casa, à esquerda, era a casa de Romana Cruz. Foi aqui a primeira sede do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense)

Descrevia, então, a sala de espectáculos. "... a plateia, que para aproveitamento do maior número de espectadores, havia sido construida em forma de palanque, era engendrada por umas tábuas manhosamente pregadas nuns cunhos de madeira e estes, por sua vez, da mesma forma ligados a uns postes de pinheiro inclinados contra a parede. O pano de boca, qualquer colcha,de chita, de padrão em labirinto vermelho. A iluminação fazia-se por meio das clássicas velas de sebo espetadas em palmatórias de pau..."
Eram nestas 'salas de espectáculo' que "se representaram peças que fizeram correr rios de lágrimas e provocaram indigestões de gargalhadas..."
O primeiro espectáculo a que Estoern assistiu foi uma comédia intitulada "Os dois rivais". Permitimo-nos ir buscar ao livro "50 Anos ao Serviço do Povo", de Mestre José Ribeiro, os locais onde funcionaram teatros: ". Na casa do Paço, do lado do caminho para a Figueira; depois, na mesma casa, no teatro ali mandado construir pelo último Conde de Tavarede; na casa que foi de Romana Cruz, na Rua Direita, à entrada da povoação; na casa onde hoje vivem, a meio da Rua Direita, ps herdeiros de Martinho Correia; na chamada casa do Ferreira, logo adiante mas do lado oposto; na de Joaquim Águas, pai do velho capitão Águas, José Joaquim Alves Fernandes Águas, em frente do anterior, prédio em que mais tarde esteve o Grupo Musical Tavaredense; na casa, também na Rua Direita, que é hoje de João da Silva Cascão; e na então chamada Casa de Ourão, no Largo do Terreiro, o mesmo edifício que João José da Costa mandou transformar no teatro hoje propriedade e sede da Sociedade de Instrução Tavaredense".
Como se vê, tinha razão Estoern ao dizer que as sociedades dramáticas "vegetavam em Tavarede como tortulhos". E por agora, só mais um apontamento que nos foi deixado pelo tavaredense Aníbal Cruz que refere ter ouvido de sua avó que, nos tempos dela, em jovem, chegaram a representar-se em Tavarede, em simultâneo, seis presépios. E todos tinham casa cheia... (continua)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Emília Fernandes Monteiro e João Gaspar Amorim


EMÍLIA FERNANDES MONTEIRO

Nasceu no dia 20 de Abril de 1909, filha de Joaquim Migueis Fadigas e de Mariana Fernandes Monteiro.
Foi, no seu tempo, uma das primeiras amadoras do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. A sua estreia ocorreu em Outubro de 1924, na peça Os Amores de Mariana. “Figura elegante, desempenhou todo o género de personagens com grande naturalidade e possuidora de uma lindíssima voz, logo se tornou a primeira figura feminina do grupo cénico”.
O seu maior êxito teatral foi, sem dúvida, o papel de Rosa, em O Sonho do Cavador. E na opereta A Cigarra e a Formiga interpretou o papel da protagonista Luísa, a filha do António Moleiro, de tal maneira que, estando Mestre José Ribeiro preso e recebendo um convite para irem representar esta peça a Coimbra, em espectáculo de beneficência, como Emília Monteiro havia casado recentemente, escreveu ao seu marido, João Renato Gaspar de Lemos, dizendo: “Eu já disse para Coimbra que a Emília tinha casado e que tudo dependia da resposta dela. Há peças que não deixo representar senão com ela. Assim como o Sonho do Cavador não consinto que se represente sem o João Cascão, assim eu também não consinto que se represente a Cigarra e a Formiga e a Justiça de Sua Majestade sem a Emília”.
Além das acima mencionadas, Emília Monteiro entrou em mais cerca de 20 peças, entre comédias, operetas, fantasias e altas comédias, destacando nós Grão-Ducado de Tavarede, As pupilas do Senhor Reitor, Os fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais, A canção do berço e O Grande Industrial.
No ano de 1954, num espectáculo evocativo levado à cena nas comemorações das “bodas de oiro” da SIT, encarnou, novamente, o papel de Luísa, no segundo acto de A Cigarra e a Formiga, contracenando com João Cascão. Também na homenagem a Alberto de Lacerda, em Dezembro de 1963, reviveu a mesma peça, mas no papel de Fantasia.
Era sócia honorária da Sociedade de Instrução Tavaredense desde 1927.
Foi casada com João Renato Gaspar Lemos Amorim (ver nota abaixo), com um filho, João Pedro.
Faleceu em 28 de Julho de 1995.


JOÃO RENATO GASPAR DE LEMOS AMORIM

Natural de Tavarede, filho de Carlos Alves Assunção e de Cândida Otília Lemos Amorim, nasceu a 8 de Agosto de 1907 e faleceu no dia 9 de Agosto de 1987. Foi casado com Emília Monteiro (ver nota) e teve um filho, João Pedro.
Desde muito novo que se integrou no associativismo tavaredense, dedicando-se, nos primeiros tempos, à prática desportiva. Foi participante em provas atléticas e velocipédicas e, como praticante de futebol, foi elemento do Tavarede Futebol Clube, cuja equipa capitaneou.
Foi dirigente associativo muito activo e dedicado. Fez parte de diversas direcções do Grupo Musical, de que foi nomeado sócio honorário em 1951, e da Sociedade de Instrução, que também o distinguiu com igual diploma, em 1986.
Foi regedor da freguesia.

(Caderno: Tavaredenses com história)

Grande família

Naqueles bons velhos tempos, anteriores a 1950, Tavarede dava inteira razão à cantiga popular que diz "na nossa aldeia, todos são primos e primas...". Na verdade, a população da nossa terra ainda era muito reduzida. E como se pode dizer que não havia família que não tivesse um ou mais elementos no grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, também não é menos verdade que todas as famílias eram aparentadas umas com as outras. As excepções eram raríssimas.
Tem razão, pois, o nosso amigo Helder em chamar "primos" a todas as pessoas conhecidas.
O "primo" Helder, fogueteiro

Bem sabemos que, presentemente, é um bocado forçado, mas naqueles tempos era uma realidade.
Isto, no entanto, refere-se ao pequeno "burgo" de Tavarede e não à freguesia. Muitos ainda se recordarão que a pequena aldeia estava "encravada" num espaço limitado a nascente pela Igreja, a poente pelo Paço dos Condes de Tavarede e a norte pela sede da Sociedade de Instrução Tavaredense. Fora deste espaço encontrava-se uma ou outra casa.
Isto, diga-se, não é nenhuma discriminação para com as restantes povoações da freguesia, que merecem o meu maior respeito.
Este pequeno apontamento servirá como resposta ao comentário da amiga Inês Fonseca, a propósito de chamar "Tia" à Lita e a outras pessoas conhecidas. Bem sabemos que este "Tia" é uma prova de amizade que nada tem a ver com aquelas tias e tios que constantemente aparecem na televisão e nas revistas cor-de-rosa.
No caso da Inês é, como disse, amizade. E se aprofundássemos as nossas árvores geneológicas quem sabe se não haverá mesmo um parentesco, ainda que longínquo?
Portanto, minha amiga Inês, nunca reneguei nem renegarei os meus laços parentais. E como disse acima, na velha Tavarede dos meus tempos de jovem, se todos eram primos e primas, com certeza que também muitos seriam os tios e as tias.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Cavalhadas de S. João

Porque acabaram?

Foi no ano de 1927. No ano anterior, o movimento militar, iniciado em Braga e que seguira até Lisboa, no 28 de Maio, uma vez vencedor, derrubou o regime republicano. Não interessa aqui, pormenorizar o acontecimento histórico, que acabou, pouco depois, por instaurar a ditadura de Salazar, a qual se manteria até ao 25 de Abril de 1974.
Desde a implantação da República, em Outubro de 1910, que o partido republicano, no poder, travou dura luta contra a igreja católica, até então detentora de grandes privilégios e que tinha enorme influência política nos destinos do país. Foi natural, portanto, que, com o movimento atrás referido, imediatamente procurasse reconquistar o seu anterior poder e influência.
Como habitualmente, naquele ano de 1927, a comissão promotora das tradicionais festas sanjoaninas, tratou da organização e marcou-as para os dias 30 e 31 de Julho. Do programa previsto, para além das costumadas cerimónias religiosas, previam-se as “ornamentações, iluminações, fogo de artíficio, concertos pela filarmónica contratada, danças populares com acompanhamento da tuna, cavalhadas com ida à Figueira e a Buarcos, corridas de prémios, etc.”. O tradicional.
Acontece, porém, que semanas antes, o Bispo de Coimbra resolvera comunicar aos padres da sua diocese, que proibissem, pura e simplemente, que as cavalhadas fizessem parte do programa, pois as considerava “pagãs” e, como tal, indignas dos festejos a um santo, por mais popular que o S. João fosse. E, claro, logo pairou a ameaça de excomunhão para quem não obedecesse à deliberação do senhor Bispo...
A Figueira, de que na altura era pároco o bem conhecido reverendo Palrinhas, acatou a ordem sem discussão. Buarcos procedeu do mesmo modo. Até a nossa vizinha Brenha, embora muito lamentosa, não teve as suas cavalhadas, aliás, de pouca tradição naquela freguesia. Restava Tavarede e, com o aproximar da data, redobrava a curiosidade sobre a atitude que tomariam os tavaredenses, tanto mais que tinham anunciado, no seu programa, a realização das mesmas.
Aconteceu, então, o impensável. A comissão dos festeiros, com o apoio da população, resolveu não atender à ordem do senhor Bispo, apesar de todas as tentativas que o nosso padre Manuel Vicente fez para impedir a realização das cavalhadas. Mas ainda foram mais longe no seu atrevimento e desafio à Igreja.
Normalmente, as festas eram abrilhantadas por uma das filarmónicas da Figueira e, algumas vezes, pela das Alhadas ou de Santana. Naquele ano, porém, e ao terem conhecimento das ordens do Bispo de Coimbra, os festeiros tomaram uma atitude verdadeiramente reaccionária: contrataram a célebre filarmónica do Troviscal que, pouco tempo antes, havia sido excomungada pela Diocese de Coimbra, com proibição total de participar em festejos desta natureza. É verdade, ainda agora custa a crer como é que a comissão das festas, que até era composta por alguns católicos praticantes, tenha tido tal ousadia. Contratar uma banda excomungada!!!
E, então, divulgou um programa em que se lia: “Sábado, 30, às 18,39 – Recepção, na estação do caminho de ferro da Figueira, da banda do Troviscal, com a comparência da comissão promotora dos festejos, bandas da Figueira e outras associações”. Parece que foi uma recepção triunfal, a que o povo deu colaboração aparecendo em enorme número.
Realizaram-se as festas. Eis um comentário publicado a 3 de Agosto: “O reverendíssimo sr. Bispo de Coimbra está fulo com o povo de Tavarede – e não tardará a despejar sobre a terra do limonete, a sua abençoada excomunhão. Temos de concordar que sua reverendíssima excelência tem razão: - uma comissão de rapazes quiz fazer a festa a S. João, com a função da Igreja – novenas, missa, sermão, etc. – e a tradicional cavalhada; o sr. Bispo exigiu que do programa fosse suprimida a cavalhada – que se fazia desde há muitas dezenas de anos, com as bandeiras da igreja e repiques dos sinos – com o fundamento de que era um número pagão; os festeiros resolveram a questão com grande facilidade, dispensando pura e simplesmente a colaboração da Igreja, arranjando bandeiras não benzidas e, para completar, mandando vir a banda excomungada do Troviscal. E a música veio, a Igreja esteve fechada, e a cavalhada fez-se, correndo tudo na melhor ordem”.
O programa cumpriu-se, com a exclusão da parte religiosa. E as cavalhadas, conforme a tradição, lá foram até à Figueira. “Era uma cavalgada numerosa, com ordem, precedida do ruidoso Zé Pereira, e vendo-se nela também muitos trens cheios de gente alegre”. E lá estava, junto à Igreja de S. Julião, a banda do Troviscal, que tocou enquanto se cumpria a praxe das voltas à igreja, desta vez sem o repique dos sinos.
E, passados os festejos e com os ânimos certamente mais calmos, a imprensa figueirense noticiou:
“Tiveram grande luzimento os festejos populares de S. João, que se realizaram nos dias 30 e 31 do mês findo, com os números tradicionais. Não houve desta vez função religiosa, porque, tendo o sr. Bispo de Coimbra imposto a supressão da tradicional cavalhada, que é, de há longos anos, a característica das festas de S. João em Tavarede, os organizadores dos festejos resolveram, e muito bem, fazer as cavalhadas e dispensar pura e simplesmente a parte religiosa. Para compensar esta falta, veio a excelente banda do Troviscal, que foi apreciadíssima, tanto no concerto que realizou na noite de sábado para domingo, com programa de responsabilidade que teve primorosa execução e foi muito aplaudido, como no de domingo.
Das 2 horas até à madrugada de domingo houve danças populares, que se repetiram no domingo à noite, e na segunda-feira realizou-se a rosquilhada.
As cavalhadas foram muito concorridas, e visitaram a Figueira, onde os esperava a banda do Troviscal, e Buarcos.
A Tavarede veio muita gente dessa cidade e dos lugares vizinhos.
A banda do Troviscal foi aqui alvo de manifestações de simpatia. Cumprimentou as duas associações locais, onde se trocaram saudações calorosas e foi servido aos visitantes um copo-de-água. O regente da banda sr. Oliveira, afirmou-nos que ia penhoradíssimo com as amabilidades que ele e os executantes da sua banda foram alvo.
A igreja esteve fechada em todo o dia, e os católicos ficaram privados da missa.
A-pesar-das prédicas do pároco da freguesia para que ninguém se aproximasse da banda excomungada, não faltou uma enorme multidão a ouvi-la e a aplaudi-la.
E tudo correu na melhor ordem”.
A título de curiosidade, refiro que a mencionada banda havia sido excomungada unicamente por ter acompanhado um funeral civil. É verdade! E sofre dolorosamente a sua “ousadia”. Deixou de ter contratos para abrilhantar as festas populares. Tempos mais tarde encontrei, publicados aqui na Figueira, anúncios para a venda do seu instrumental. Alguns anos depois, voltou a reorganizar-se mas, segundo as notas que colhemos, nunca mais teve a fama e a projecção que havia obtido, especialmente devido à atitude drástica do senhor Bispo de Coimbra.
E, em Tavarede?
Bem, em Tavarede, acabaram para sempre os festejos ao S. João. Nunca mais se realizaram e acabaram por cair no esquecimento de todos. No “Chá de Limonete”, mestre José Ribeiro, no bairrista “Tavarede-Marca”, recorda “Pois quando ressuscitaram o São João, (por volta de 1940) o grande número das festas foram as cavalhadas. Porquê? Porque lá estava Tavarede em peso! A freguesia mandou uma burricada... mais comprida que desde o Rio ao Paço! Os burros eram tantos que a gente nem se via no meio deles... Ganhámos o prémio! Tavarede marca!”...
Com os naturais exageros de uma fantasia teatral, acredito que, efectivamente, Tavarede tenha marcado uma vez mais! Foi a última, neste campo, diga-se.

(Tavarede - A Terra de meus Avós - 3º. caderno)

sábado, 1 de agosto de 2009

Pedro Medina - Uma história da caça


Amanhã é o primeiro domingo de Agosto, o que quer dizer que é o dia da romaria à Senhora da Saúde, em Reveles, terra de minha Mãe, e onde ainda tenho famíliares. Durante muitos anos ali íamos em peregrinação. Mas se o domingo é o dia da festa na capela, sita perto da linha do caminho de ferro, que nesse dia fazia ali uma paragem, a festa 'pagã' é no dia seguinte, especialmente da parte da tarde, com a realização de jogos tradicionais e arraial.

Começo por pedir desculpa a algum leitor, se o tiver, mas, na verdade, o pensamento desta festa levou-me a recordar uma história passada com meu Pai, Pedro Medina, que era um dos principais animadores daquelas tardes. Aqui deixo, pois, recordada uma das suas histórias. E esta é de caça.
(Numa das tardes de segunda-feira, nas Festas da Senhora da Saúde, em Reveles)

Meu pai, Pedro Medina, era aquilo que se podia considerar como um irreverente e um repentista. Por índole, era uma pessoa bem disposta, sempre amigo do seu amigo, incapaz de causar problemas a quem quer que fosse, mas sempre pronto para pregar a sua “partidinha” inocente, mas cheia de oportunidade e graça. Poderia contar muitas historietas sobre ele, qual delas a mais engraçada. Vamos a esta, a que dou o nome de uma história da caça.
Naqueles tempos, havia em Tavarede um grande número de caçadores. A partir do princípio de Outubro, quando abria a época da caça, era vê-los por esses pinhais e montes fora, espingarda pronta a disparar, enquanto outros batiam silvados e moitas com os seus varapaus e os cães farejavam, numa constante busca de coelhos e outras espécies.
Eles próprios preparavam o seu equipamento. Hoje, a tanta distância, arrepio-me só de me lembrar o perigo que meu pai, e outros, igualmente, corria quando, ao serão, ia para o sótão da nossa casa, para numa pequena mesa, alumiada a candeeiro a petróleo, carregar algumas dezenas de cartuchos para levar para a caçada, na cartucheira que transportava à cinta.
Uma lata com os chumbos, outra com a pólvora, a pequenita balança para fazer as pesagens, as buchas e outros acessórios, encontravam-se à sua frente. E, no meio de tudo isto, outra lata a servir de cinzeiro, pois meu pai era um fumador inveterado. Volta que não volta, parava o trabalho, tirava uma mortalha de papel fino, punha-lhe em cima a precisa quantidade de tabaco, que sacava da respective onça, enrolava com perícia, humedecia a cola do papel e estava pronto o cigarrito, que acendia na chaminé do candieiro, tudo isto com a lata da pólvora mesmo ao lado… Não tenho memória de ter ocorrido qualquer acidente, mas sem dúvida que o risco era bastante elevado e muito pouco acautelado.
Algumas, poucas, vezes os acompanhei aos domingos. Nunca me atraiu este desporto. Gostava, é certo, e muito, de passear pelos campos e pelos pinhais, mas apreciava muito mais uma pêra ou uma maçã que, de quando em quando, surripiava de uma árvore carregada de frutos, do que ouvir os disparos e, muitas vezes, ver os pobres dos coelhos tombarem feridos de morte.
Cada um levava o seu bornal com o correspondente farnel para o almoço e o cantil, ou cabaça, cheio de vinho, quase sempre da lavra própria, pois praticamente todos amanhavam pequenos pedaços de terra onde, invariavelmente, tinham uma dúzia de cepas que, por ocasião das vindimas e com a ajuda de alguns cântaros de água da nossa fonte, as uvas eram transformadas numa deliciosa água-pé, pois que de vinho não se podia intitular.
Quando a hora chegava, procuravam um dos locais conhecidos, propícios à pausa para a petiscada e um pouco de descanso, sempre tendo por perto uma fonte ou bica, de água fresca e pura, de que a nossa zona era bem fornecida. Comiam, os animais também, descansavam um bom bocado e, já refeitos, continuava a caçada, agora no sentido do regresso à aldeia.
Nem sempre traziam caça pendurada no cinto. Muitas vezes, coelhos e perdizes não colaboravam nada com os caçadores. Mas, apesar disso, regressavam felizes e satisfeitos por mais um dia passado no meio da natureza, em alegre convívio. E não me esqueça uma coisa: algumas vezes vinham sem caça, é certo, mas os bornais quase sempre vinham cheios de boa fruta. Aquelas encostas do Prazo, dos Condados, do Saltadouro e dos Pejeiros, entre muitas outras, eram enormes pomares onde a fruta não faltava, em quantidade e em variedade.
A historieta que vou contar refere-se a uma das tais caçadas, mas a essa eu não assisti, pelo que a recordo pelo que me contaram. Foi para o lado sul do Mondego, para as bandas do Alqueidão, e era um enorme grupo de caçadores daqui que se reuniram, em caçada previamente combinada, com companheiros de trabalho e de caça, daquela zona.
Desta vez, por esquecimento, ou já por malandrice, meu pai não pediu para lhe arranjarem o farnel. De madrugada, à hora de partir para a caçada com os amigos, vai ao armário onde estava a bolsa do pão, agarra num dos grandes, daqueles a que se chamavam “casqueiros” e abre-o ao meio, para fazer uma enorme sandes. Em seguida, apanha uma broa das que estavam na tábua, a broa era amanhada lá em casa, e, com muito cuidado, corta a parte de baixo, o lar da broa, e apara-a muito bem. Feito isso, mete a côdea da broa dentro do pão, embrulha tudo num grande guardanapo branco e guarda tudo no bornal. O cantil também já estava em ordem de marcha.
Foram de bicicleta até ao ponto de encontro, no Alqueidão. À hora marcada estavam todos reunidos e dirigiram-se ao local onde começava a caçada. Tiro daqui, tiro dali, confesso que me não recordo o que é que apanharam naquele dia, e, horas depois, chegam ao local previamente escolhido para o almoço.
Cada um tira o seu farnel e coloca-o à sua frente. Na sua maior parte levavam fritos, peixe, pastéis de bacalhau, pataniscas e omoletas. Outros optavam pelos enchidos ou umas fatias de carne assada. Meu pai tinha-se sentado, bornal ao lado, mas não se resolvia. Os outros estranharam. “Oh! Pedro, então não comes? O que é o teu petisco?”. Como que um pouco enfadado, responde que ainda não tinha vontade de comer, mas, para lhes fazer companhia, também se resolveu e tirou o embrulho do guardanapo para a sua frente. “Era para ter feito uma omeleta, mas lembrei-me que tinha lá um bom naco de presunto e, olhem, resolvi fazer esta sandes”, disse mostrando o guardanapo bem enrolado no pão.
Os outros estranharam. Ele levar presunto? E logo um pedação daquele tamanho? Não acreditavam. Então ele, cheio de paciência e abrindo um pouco o embrulho, mostra um dos lados em que ser via o pão aberto ao meio e com uma coisa escura dentro, que se lhes afigurou ser realmente presunto. Do imediato logo lhe disseram: “Oh! Pedro, deixa isso para o fim. Cortamos o pão com o presunto às tiras e é mesmo bom para acabarmos o petisco. Vai saber bem para um último copo”.
É claro que, interiormente, meu pai terá sorrido ao ouvir aquilo que já esperava. E vai daí, embrulha novamente o pão e, pastel daqui, uma fatia de carne dali, deu a volta a todos, não se mostrando nada sem vontade, como havia dito antes.
Quando já estava bem almoçado, estende-se à sombra de uma árvore e diz: “Eh! rapazes, agora já não consigo comer mais nada. Tomem lá o meu farnel e comam à vontade o pão com o presunto”.
Os outros, ávidos pela perspectiva de saborearem tão boa sobremesa, agarram de imediato o embrulho e com uma navalha bem afiada, preparam-se para a distribuição. Oh! Céus! Então não é que, mais uma vez, o Pedro os havia enganado? O tal presunto não era mais do que a côdea da broa e ele, que acabara de almoçar à grande e à francesa, à borla, tinha-os deixado a chuchar no dedo, agarrados a um bocado de pão que nem sequer cheirava a presunto! Disseram-lhe das boas, mas, pouco depois, tudo acabou às gargalhadas. Mais uma das brincadeiras dele, que teve graça e não ofendeu ninguém .

(Caderno: Tavarede - A terra de meus Avós - 3º.)

sábado, 25 de julho de 2009

João da Silva Cascão

O Sonho do Cavador - 1928 - João Cascão (Manuel da Fonte) e Emília Monteiro (Rosa)


Nasceu em Tavarede, no dia 31 de Maio de 1905. Era filho de César da Silva Cascão, um dos fundadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, e de Maria Ascensão Marques.
Foi industrial de serralharia, estabelecendo oficina na Rua do Paço, na Figueira. “… como serralheiro era um hábil artista, a que muitos recorriam confiados”. Casou com Angelina Gaspar de Freitas, tendo dois filhos: Fernando José e João Gaspar da Silva Cascão.
“Era um dos mais antigos e distintos componentes do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, participando no desempenho de imensas peças representadas nos teatros do nosso concelho e de outras localidades do país, muitas vezes em espectáculos de beneficência. Da forma talentosa como interpretou alguns “papéis” que lhe foram confiados, não desdenhariam os melhores artistas”.
Aluno da escola primária de Tavarede, pisou o palco, pela primeira vez, numa das habituais festas da “Árvore”, em Março de 1914, recitando a poesia Esmola de pobre. Dois anos depois, em 1916, participou numa outra daquelas festas, com desempenho numa pequena comédia-drama As Árvores, contracenando com sua irmã Aurélia.
Começou a representar muito cedo. “Era a única maneira de meu pai me deixar sair à noite”, dizia ele. O seu primeiro papel foi na opereta Em busca da Lúcia-Lima, como Tomás Castanho, em Abril de 1925.
Outras personagens se seguiram e, em 1928, teve o seu primeiro grande triunfo, na fantasia O Sonho do Cavador, com o papel de Manuel da Fonte.
Os Fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais, A Morgadinha de Valflor, O Grande Industrial, Entre Giestas, Génio Alegre, Envelhecer, A Nossa Casa, Horizonte, Injustiça da Lei, Auto da Barca do Inferno, Raça, Pé de Vento, Chá de Limonete, Frei Luís de Sousa, Serão Homens Amanhã, Israel, A Conspiradora, Os Velhos, Romeu e Julieta, Omara, O Processo de Jesus e muitas outras, foram peças que tiveram a sua participação e em cujo desempenho interpretou cerca de oitenta personagens.
“… desempenhou o principal personagem por forma a merecer os aplausos que a plateia lhe tributou, a ponto de o interromperem em duas cenas, o que só se faz a quem sabe dizer por forma a transmitir o seu sentimento às pessoas que o ouvem. Este é o maior elogio que pode fazer-se ao seu trabalho e Cascão bem mereceu os aplausos vibrantes, calorosos dos espectadores”.
“… cujo belíssimo trabalho foi subindo de acto para acto. … mas foi um prazer vê-lo no terceiro, pitoresco, naturalíssimo, vivo e humano. Aquela pequena figura do Manuel Firmino, encheu toda a “cena do jantar…”.
Muitas outras notas se podiam transcrever. Em 1959, no concurso do Teatro das Colectividades Amadoras, organizado pelo Secretariado Nacional da Informação, foi-lhe atribuída uma menção honrosa pelo seu desempenho do personagem Manuel Patacas, na peça Os Velhos.
Em Agosto de 1970, dizia João Cascão que “ o teatro é a minha segunda casa. E não o é mais porque a saúde e a idade já não me permitem muitas brincadeiras. Agora, aos 65 anos, só pode ser uma rábula pequena. Já tenho muitas dificuldades em decorar e ouvir o ponto”. O seu último personagem foi Frei Bartolomeu Ferreira, em Camões e os Lusíadas, em Outubro de 1972. A Sociedade de Instrução Tavaredense prestou-lhe homenagem nomeando-o seu Sócio Honorário e colocando o seu retrato no salão nobre.
Também foi um dos mais entusiastas elementos do grupo “Os Inseparáveis”, que se reunia, todos os anos, para confraternizar, no dia primeiro de Maio.
Tendo herdado a fazenda que fica no caminho da Chã, defronte da escola primária (A Primorosa, como lhe chamava), tratava cuidadosamente dos corrimões que lhe davam uvas para o fabrico de um vinho que, dizia ele, “nem de pé se aguentava, de tão fraquinho que era”. Mas era uma satisfação e um prazer para ele, chamar lá os amigos, ao domingo à tarde, para beber um ou dois copitos, acompanhados das tradicionais freiras.

A mobilia do senhor Conde de Tavarede


…………………….
Sinto na alma saudades torturantes
Dos serões e das festas ruidosas,
Com luzes, flor’s e pratas cintilantes,
Veludos, sedas, pedras preciosas.
…………………….

Era assim que, na fantasia “Chá de Limonete”, de Mestre José da Silva Ribeiro, a nobre e envelhecida figura do palácio dos senhores de Tavarede, recordava o seu passado.
Como sabemos, o paço de Tavarede foi sempre a residência permanente da fidalga família dos Quadros, desde a sua construção, ainda na primeira metade do século XVI.
A 10ª Senhora de Tavarede, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, casou, no dia 26 de Dezembro de 1791, com o célebre fidalgo D. Francisco de Almada e Mendonça, corregedor da cidade do Porto, onde realizou importantes obras. A família “Quadros e Almada” passou a ter a sua residência naquela cidade nortenha, fazendo, no entanto, frequentes visitas à nossa terra, onde, no dizer de Pinho Leal, no seu “Dicionário Portugal Antigo e Moderno”, “era a providência dos povos desta terra”.
Tendo enviuvado no ano de 1804, é de presumir que tenha voltado a fixar residência em Tavarede, onde faleceu no dia 25 de Fevereiro de 1835, encontrando-se sepultada na cripta do convento de Santo António, na Figueira da Foz.
Vem isto a propósito para referir que, sendo o palácio de Tavarede residência permanente, ou simplesmente temporária, o mesmo deveria estar mobilado, senão com luxo, pelo menos com as comodidades necessárias ao alojamento da, habitualmente numerosa, família Quadros.
O único filho varão de D. Antónia Madalena e de D. Francisco de Almada e Mendonça, que se chamou João de Almada Quadros Sousa de Lencastre, casou, em 1810, com D. Maria Francisca Emília da Fonseca Pinto de Albuquerque Araújo e Meneses, filha e herdeira do superintendente das coudelarias da comarca de Trancoso, possuidor de largas propriedades naquela terra, que constituíam um morgado, e que, pelo casamento, se uniram à casa de Tavarede.
Passou, entretanto, a residir em Trancoso, com sua família, fazendo, especialmente na época balnear, frequentes e demoradas visitas à nossa terra, instalando-se no seu velho solar de Tavarede.
De igual modo terá procedido o seu filho e herdeiro, o segundo conde de Tavarede, de quem, por seu falecimento em Novembro de 1853, foi herdeiro seu filho primogénito, D. João Carlos Emílio Vicente Francisco d’Almada Quadros Sousa Lencastre Saldanha e Albuquerque que, igualmente, herdou o título de conde de Tavarede.
Esta história tem, como um dos protagonistas, precisamente este titular. “Fidalgo no sangue, no aprumo, na ilustração, no carácter, no sentimento e invariável nas acções, o grande amigo imprimia feição a Trancoso, dava-lhe a sua vida, do seu tom, dos seus nervos, da sua qualificação social, anímica e mental: alma de luz, propagava a luz”, escreveu o jornal A Folha de Trancoso, tempos depois da sua morte.
Como curiosidade, e somente para reforço do que se disse sobre as suas deslocações a Tavarede, recorda-se que o conde, em Setembro de 1883, tomou posse como presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz. Certamente que, se aceitou essa nomeação, seria porque aqui estava o tempo necessário para o desempenho do mesmo ou, talvez, porque tencionava mudar a sua residência para a nossa terra, uma vez que, por essa ocasião, mandou fazer importantes obras de transformação no palácio.
Não deixa de ser interessante, e relativamente a esta história de “A mobília do senhor conde”, o que Ernesto Tomás escreveu na sua reportagem sobre Tavarede, de que já fiz algumas transcrições, agora sobre o palácio da nossa terra:
“Quando por essa época (1865) entrei, pela primeira vez, no edifício do Paço, velho alcácer onde esteve D. Maria Mendes Petite, mãe de Pêro Coelho, um dos que fizeram de D. Inês de Castro uma vítima, condenada pelo seu amor clandestino; quando subi aquelas escadas de pedra, frias e húmidas, que iam dar ao andar nobre do edifício e percorri aquelas salas vastas, mas sem conforto, lembrou-me mais do que uma vez que por ali teriam andado os passos do velho soldado da Índia, D. Francisco de Almada (referia-se ao pai do marido de D. Antónia Madalena), que por lá teria pisado António Pereira (?) de Quadros, e a última habitante do velho solar, D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa.
……………
Percorrendo aquela antiquíssima habitação, ainda encontrámos os restos de um altar, numa das divisões ao lado do corredor principal que se dirige, no andar nobre, do norte ao sul. Um oratório, apresentando o seu esqueleto em madeira, tosca, conserva ainda ligados uns restos de forro de pano escuro, com umas linhas de galão sem brilho já. De resto nada de importante”.
Surpreende bastante esta descrição. Ponho, no entanto, uma hipótese. Esta visita terá ocorrido relativamente pouco tempo antes do início das obras de transformação do velho edifício que acima referi, das quais as mais importantes terão sido o desmantelamento da altaneira torre com ameias e a modificação da frontaria do lado poente, com os novos torreões e os rendilhados estilo manuelino, que ainda bem conhecemos. Estariam, então, as mobílias devidamente guardadas em qualquer armazém? É de admitir que sim, e que seriam utilizadas quando a família fidalga aqui vinha passar as suas férias balneares e, talvez, acompanhar o andamento das obras.
Vamos, agora, passar ao segundo protagonista da história: o reverendo pároco Joaquim da Costa e Silva. No ano de 1894, o padre António Augusto Nobreza, também ele protagonista de uma outra história igualmente contada neste caderno, havia sido transferido para outra paróquia e, como era uso naqueles tempos, a diocese de Coimbra abriu concurso para provimento deste cargo, tendo sido provido no mesmo, em Junho de 1894, o padre Costa e Silva, até então coadjutor na paróquia de Paião.
Foi uma figura bastante controversa. Devemos recordar, porém, que naqueles já recuados tempos, as lutas políticas eram assaz violentas. Os militantes de um partido político sofriam, frequentemente, ataques dos partidos adversários. A imprensa, então, explorava ao mais pequeno pormenor todas as possíveis fraquezas e falhas dos responsáveis partidários. Os correspondentes locais, concretamente refiro-me ao caso de Tavarede, muitas vezes se excediam, chegando, até, à difamação e ao insulto, o que resultava, de vez em quando, em desmentidos públicos, quase sempre ordenados pelo Tribunal.
O padre Joaquim da Costa e Silva era natural da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho. Como já referi, foi provido na igreja de Tavarede em Junho de 1894. Os próprios adversários políticos reconheciam-no como pessoa bastante inteligente e denodado lutador pelo bem-estar dos povos das paróquias onde esteve, como Paião, Tavarede e, por último, Quiaios.
Recordo, somente, o que o jornal “A Voz da Justiça” escreveu, no dia 4 de Janeiro de 1924, noticiando o seu falecimento: “o padre Joaquim da Costa e Silva que, antes de paroquiar Quiaios, esteve a dirigir a igreja de Tavarede, foi sempre um político activo, pondo a sua influência ao serviço dos homens que aqui defendiam a política regeneradora, antes da proclamação da república e, na vigência desta, dos que, monárquicos ou republicanos, combatiam a política democrática.
Foi sempre nosso adversário. Isto não obsta que, esquecendo nesta hora certos actos por ele praticados e que nós aqui atacámos, digamos que, nas vezes em que o padre Joaquim da Costa e Silva ocupou na Câmara Municipal o lugar de vereador, procurou sempre obter benefícios para a localidade onde paroquiava”.
Estão feitas as apresentações dos dois protagonistas desta história. Vamos, agora, à mesma: “A mobília do senhor conde”.
* * *
Na edição de 20 de Janeiro de 1899 o jornal “O Povo da Figueira” escreveu, em correspondência de Tavarede:
“…….. Quando o conde de Tavarede resolveu vender a casa que aqui tinha (o Paço), e onde havia mobília valiosa, o nosso Papa-jantares (alcunha atribuída ao padre Costa e Silva, não sei a que propósito), dirigiu-se logo a Trancoso a falar com ele, afim de lhe pedir um guarda-roupa para uma aplicação religiosa………..”.
O conde, que era uma pessoa religiosa e bastante generosa, vendo o fim a que se destinava essa peça de mobília, não hesitou e de imediato escreveu um pequeno bilhete, dirigido ao seu feitor, que tinha mandado a Tavarede precisamente para embalar todas as mobílias existentes no palácio, e no qual ordenava para “…. lhe dar o que fosse preciso para a igreja”.
Com aquele bilhete na mão, logo que chegado a Tavarede, o pároco foi ter com o feitor e exigiu o cumprimento das ordens do conde. Reconhecendo a letra do patrão, de imediato o homem se prontificou a cumprir o que lhe era ordenado e logo se disponibilizou para fazer a entrega “de tudo o que fosse preciso para a igreja”. Era, assim, que estava a ordem escrita.
Realizada, entretanto, a venda do palácio e da quinta, o conde veio à Figueira para ultimar tudo. O comprador foi o sr. Luís João Rosa, de quem também conto, neste caderno, uma pequena história.
Depois de tudo tratado com a venda, foi o conde a Tavarede para concluir as providências que havia ordenado ao seu feitor, quanto à embalagem da mobília, que tencionava enviar, pelo caminho de ferro, para a sua casa de Trancoso. Calcule-se, agora, o seu espanto quando o seu empregado lhe disse que a mobília havia-a levado o padre Joaquim da Costa e Silva, a quem a havia entregado em obediência às ordens do sr. conde, conforme o bilhete que lhe mandou e no qual dizia para “entregar o que fosse preciso para a igreja”.
Ruínas do velho palácio
Após dar umas voltas pelas salas, então já praticamente vazias, o conde, vendo que o padre, que lhe tinha pedido unicamente um guarda-roupa, lhe levara as principais peças de mobília que ainda cá tinha, teve o seguinte desabafo: “se a casa tivesse rodas também era capaz de a levar para casa dele”!
Alma bondosa, porém, nada mais disse ou empreendeu, e como não haviam restado senão umas “fracas coisas de mobília”, deu-as ao feitor e regressou a Trancoso de mãos vazias, relativamente à mobília que viera buscar a Tavarede.
O jornal, explorando o caso, acrescenta: “Quem for à igreja só lá vê um guarda-roupa, mas se forem a casa do meu amiguinho (o padre Costa e Silva), lá encontram um bom aparador e muitas outras coisas. O resto da mobília, como lhe não cabia toda em casa, tratou de mobilar a casa de um amigo”!
Entre outras peças, o jornal acrescenta que o pároco levou: “dois guarda-roupas, um importante aparador, duas boas mesas, um lavatório, uma banquinha, uma excelente mesa de jogo (até isto!!!) e não sei que mais”.
O padre, depois do conde se ter ido embora, tomou conhecimento da reacção do titular e comentou para com uns amigos que “a mobília tinha sido levada por ordem do conde”.
Comentário final: se a tinha dado, porque razão mandou o conde a Tavarede um seu empregado (Francisco Pires) com a incumbência de empalhar e embalar a mobília para a despachar pelo caminho de ferro? E porque razão, ao tomar conhecimento do caso, o conde havia comentado “se a casa tivesse rodas também a levava para casa dele?”. Estas palavras foram ouvidas por pessoas da terra, que as confirmaram ao correspondente do jornal.
Adianta ainda o referido correspondente que, depois, o pároco mandou chamar o feitor para que lhe contasse o que se havia passado e sabendo que o conde tinha ficado bastante zangado, principalmente por causa do aparador, que era um móvel muito valioso e pelo qual tinha particular estima, disse ao homem que estava pronto a devolver tudo que o conde quisesse, embora sempre insistindo que ele lhe havia dado toda a mobília que havia trazido.
Não sei se o feitor comunicou para Trancoso esta informação do pároco mas, na verdade, o conde não quis mais saber do caso nem da mobília.
Alguns anos mais tarde, é o correspondente em Quiaios, do jornal “A Voz da Justiça”, que fala na mobília, numa pequena local daquela povoação, em Junho de 1905: “…….no jantar dado (pelo padre Joaquim da Costa e Silva, que fora, entretanto, transferido para Quiaios) foram muito apreciados uns pastéis com recheio de mogno, do conde de Tavarede, e uns pãezinhos feitos de milho da congrua que pertencia ao padre Manuel Vicente, actual pároco de Tavarede”.
Será que, na verdade, “a mobília do senhor conde” foi acabar a sua existência em Quiaios?
(Tavarede - Terra de meus Avós - 3º. caderno)