terça-feira, 8 de setembro de 2009

João António da Luz Robim Borges

Nasceu em Lisboa, em Maio de 1858.
“Descendente de uma família de negociantes, que pela sua actividade e honradez nunca desmentida, alcançaram avultados bens, encontrou-se ainda novo de posse duma fortuna importante… … herdeiro da antiga Quinta do Borges, na Várzea, com dinheiro, com energia e com bom gosto, conseguiu transformar radicalmente o abandonado prédio numa esplendorosa propriedade, numa magnífica vivenda, talvez sem igual no concelho da Figueira”.
Começou por residir numa casa sita na Rua da Lomba, actual Rua José da Silva Fonseca, na Figueira, e quando acabou a construção da sua vivenda na quinta, para ali se mudou com sua família.
Morreu em Novembro de 1908, com 50 anos de idade. “Coração generoso e aberto a todas as manifestações altruístas, espalhou largamente parte dos seus fartos cabedais, em auxiliar os que a ele se dirigiam e que nunca bateram em vão à sua porta”, comenta-se na notícia do seu falecimento.
Havia dotado a sua quinta, que ampliara graças às aquisições dos terrenos limítrofes, com todo o equipamento moderno então existente. Além da agricultura, também a pecuária o entusiasmou, pelo que foi grande empregador de pessoal para trabalharem as terras e cuidarem dos seus gados. Para venda dos seus produtos, abriu um estabelecimento no Bairro Novo.
Foi vereador na Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Também se interessou pelo associativismo local. Foi presidente da Direcção do “Bijou Tavaredense”, associação que manteve uma secção dramática e uma tuna, e da qual foi grande animador António Proa.
Foi casado com Pastora Garcia Mensurado, cujo casamento se efectuou na igreja de Tavarede.
Foi protagonista de um episódio muito curioso, em 1892, quando ainda morava na Figueira. João Robim Borges esteve preso na cadeia local “cumprindo uma pena que não significava mais do que uma aplicação de justiça em desafronta da sociedade, porque o sr. Robim aplicara duas bofetadas no sr. Mariano Goulart, por este se ter negado a dar-lhe uma explicação a propósito de palavras menos bem recebidas, proferidas pelo sr. Mariano quando o sr. Robim quase o havia atropelado ao passar por ele de carro”.
Pois, logo que se espalhou a notícia da sua saída da cadeia, foi, em primeiro lugar e pelas horas da “sesta”, a Filarmónica Dez de Agosto tocar à sua porta, felicitando-o. Mais tarde, foi a vez da Figueirense, “tocaram para aí umas quatro peças do seu bom reportório”. E para além do povo, que enchia a rua, lá foi “a corporação dos bombeiros voluntários, na força de uma dúzia ou mais, encapacetados, marchando militarmente”.
E a notícia do acontecimento continuava. “Tanta apresentação na rua vai-lhe dando uns toques de comédia ou de… palhaçada. Esperávamos lá, também, a Associação Comercial, a do Montepio, as diferentes irmandades, empregados públicos, etc. Tudo! Quanto de ridículo e de não sabemos o quê, o sr. Robim encontrará em tudo isto? Se não tivesse a fortuna que tem o que faziam?
… nós felicitamo-lo pela sua soltura da cadeia, porque não podemos esquecer um cavalheiro que do coração abre a sua bolsa aos pobres proletários, valendo a muitos, como o tem feito, enxugando muita lágrima, demonstrando uma alma nobre, o que é sempre apanágio das organizações raras”.


(Caderno: Tavaredenses com história)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

José Luís do Inácio

Natural de Tavarede, faleceu no dia 16 de Setembro de 1889, com 61 anos de idade. Era filho de Inácio Luís e de Maria da Silva Caçoa.
Operário tanoeiro muito competente, era mestre da tanoaria da casa da família Jardim, na Figueira, onde faleceu quase repentinamente, vítima de congestão pulmonar.
Amador teatral muito considerado, era “obrigatório” em todas as sociedades dramáticas em Tavarede. Ernesto Tomás, descreve-nos uma das cenas em que ele participou: “Rompia o espectáculo com uma comédia que, se bem nos recorda, se intitulava Os dois rivais, que nos dava em exibição no princípio, um velho vegete, enamorado de uma criada, fresca e rosada, que tentava a carne mais apática. O papel de velho havia sido distribuído a José do Inácio, que apareceu risonho em cena a mostrar-se à rapaziada da Figueira.
Ainda o pano não havia subido e na plateia o fora, fora, fora, ribombava atroador, soltado por dezenas de gargantas tonificadas pelo bom sol e bom ar dos campos. De súbito, ouviu-se uma voz: pano acima!
A rapaziada da Figueira pespegou com o José do Inácio dentro de um caixão (coisa da peça) o qual depois iria subindo, puxado pela criada namorada, que assim o subtraía às vistas dos amos peticegos… … O caixão, dando balanços desencontrados, fazia com que o Inácio pensasse mais do que uma vez que a comédia descambaria em… tragédia…”.
Era casado com Luísa Genoveva, de nome completo, Luísa Pereira de Figueiredo Tondela, também ela muito afamada amadora teatral. “Foi assim que a vimos representar no drama Os miseráveis de Londres, em que desempenhava o papel de uma mãe desgraçada, lamentando a sorte de um filhinho, que jazia num berço a dormir o sono da inocência…”.
De registar que José Luís do Inácio e Luísa Genoveva foram avós de Helena de Figueiredo, também ela uma das melhores amadoras teatrais tavaredenses.

Associativismo - Os principios (3)

Mais um pequeno apontamento sobre o referido José do Inácio, de nome completo José Luís do Inácio. Havia casado com Luísa Genoveva, também ela amadora teatral. Foi o segundo casamento dela e Estoern descreve-a assim: “... apesar de duas vezes casada, e por isso um pouco gasta fisicamente, apresentava-se ainda com uma frescura de espírito bastante para invejar”. Foi, por esse tempo, que o casal protagonizou um drama intitulado “Os miseráveis de Londres”, levado à cena no teatro da Casa do Paço.
Luísa Genoveva desempenhava o papel de “uma mãe desgraçada, lamentando a sorte dum filhinho, que jazia num berço a dormir o sono da inocência, enquanto a infelicidade lhe pairava em volta, abrindo-lhe a vereda do fatalismo”. Era um dos então chamados “dramas de faca e alguidar”...
Como curiosidade, referimos que José do Inácio e Luísa Genoveva foram avós de Helena Figueiredo Medina, que, durante alguns anos e a partir de 1914, viria a ocupar o primeiro lugar das figuras femininas no grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. A seu tempo voltaremos a esta amadora.
Entretanto, nos inícios da década de 1870, a situação modificara-se. O senhor João José da Costa, da Quinta dos Condados, que foi um grande benemérito do povo de Tavarede, tendo sido, inclusivamente, presidente da Junta de Paróquia, depois de haver presidido, por dois mandatos, ao município figueirense, era o proprietário da casa onde funcionava o chamado “teatro do Terreiro”. Foi ele, em 1842, um dos organizadores da Filarmónica Figueirense.
Conhecendo o gosto pelo teatro das gentes de Tavarede, e sabendo das dificuldades com que lutavam nas deficientíssimas salas de espectáculos de então, mandou transformar aquela sua casa num moderno teatro, apetrechando-o nas melhores condições existentes à época.
Fachada do teatro mandado construir pelo sr. João Costa

Pela mesma ocasião, e como já se referiu, também o senhor Conde de Tavarede havia instalado, no seu solar, uma sala de espectáculos, a que deu o nome de “Teatro Duque de Saldanha”, um dos seus avós. Logo se formaram dois grupos de amadores, recrutados entre os componentes das nossas conhecidas “sociedades dramáticas”. Algumas destas, no entanto, ainda persistiram mais algum tempo.
No ano de 1879, o jornal “Correspondência da Figueira”, em local de Tavarede, publica a seguinte notícia: “No próximo sábado, dia 15, duas sociedades de curiosos da localidade, tencionam dar, cada uma em seu respectivo 'soi-disant' teatro, duas récitas. Uma das sociedades, a sociedade antiga, leva à cena o drama em 3 actos “A escravatura branca”; a outra, a sociedade nova, representa o drama em dois actos intitulado “Cravos e Rosas”, a comédia em 1 acto “Mulher por duas horas” e a comédia “Mulher que perde as ligas”, também num acto”.
Não conseguimos apurar, com toda a certeza, qual seria a sociedade antiga e qual a sociedade nova. Atrevemo-nos, convencidos, até, de que acertamos, em situar a primeira na casa do Terreiro (no teatro do sr. João Costa) e a segunda na casa do Paço (no teatro Duque de Saldanha).

"Nós aplaudimos sinceramente esta ideia, de alguns rapazes daquela localidade. Sempre é melhor ouvir a declamação de uma peça de teatro por um actor 'gauché' e o desempenho comprometido de uma actriz de aldeiado que dizer bisbilhotices por casas alheias e gastar a dignidade por tabernas imundas", comenta-se naquela noticia.
Não se julgue, no entanto, que tais espectáculos eram inteiramente pacíficos. A notícia, depois de louvar e elogiar a actividade dos amadores, pela sua troca da “bisca-sueca” das imundas tabernas, pelos proveitosos ensaios nas longas e tristes noites de inverno, pede ao administrador do concelho que tome as providências necessárias “para se não dar, durante as duas representações, algum conflito desagradável entre os curiosos das plateias dos referidos teatros”.
Ainda voltaremos, pelo menos a uma, das antigas “sociedades dramáticas”. Iremos recordar aquela que foi da família Águas. Mas, por agora, vamos narrar um caso que reputamos de interessante. Dispondo já de duas casas de espectáculos com boas condições, ainda se representava noutros locais. A tradição do “Presépio”, pelo Natal, era tão forte que, em Dezembro de 1884, se levaram à cena os “Autos Pastoris” numa das antigas sociedades, com palco e plateia improvisados. Diz-nos uma notícia que “a meio do espectáculo, abateu parte do soalho, indo parar à loja alguns dos espectadores”.
Não houve, felizmente, ferimentos graves, mas temos pena de não conseguir identificar a casa onde aconteceu este “acidente”.


(continua)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O Vale de S. Paio

Esta pequena nota tem como destino o Brasil, mais propriamente o lugar de Pederneiras, até onde chegaram os "ecos" deste meu blogue e das histórias de Tavarede que aqui vou contando.

Pois, minha cara Senhora Lilian, tenho muito gosto em recordar um pouco daquela zona tavaredense onde viveu a minha conterrânea Preciosa Rodrigues Fileno Mota (Mota deve ser o apelido do marido) que, apesar de tão distante, não esquece a terra onde nasceu.

E ela tem razão em ter essas saudades. Nós próprios as sentimos, pois aquele aprazível local chamado "Prazo", termo norte do Vale de S. Paio, era um verdadeiro encanto. Toda aquela zona era amorosamente cultivada e tratada pelos seus proprietários ou arrendatários. O vale, por onde corria, embora já com pouca água, o ribeiro nascido na nascente "Olho de Perdiz" e que vinha regar as várzeas de Tavarede, era um jardim e uma horta sempre verdejante. As encostas, tanto do lado da Serra da Boa Viagem como do lado do Saltadouro, eram cobertas por enormes searas de milho, trigo, centeio e outros cereais, e por vinhas e pomares, tudo tratado a primor.

Vou transcrever um breve apontamento que se refere à capela do S. Paio.

"Está integrada na Quinta do Praso – Vale de São Paio – ao Saltadouro. Cerca de 2 quilómetros a montante de Tavarede, e a 1 do lado nascente da povoação da Serra da Boa Viagem, encontrava-se, em 1932, assim descrita, na matriz urbana da freguesia de Tavarede, sob o artº. 405, em nome de Maria do Sacramento Monteiro: “uma capela particular, construída de pedra e cal, coberta de telha portuguesa; confronta do N.S.O.E. com pinhais da própria; tem de superfície coberta 14 m2 e de rendimento líquido, 18$00!”.

Fora a quinta adquirida, há largos anos, por Caetano Gaspar Pestana, casado com Maria da Conceição da Silva Pestana, avós paternos das Senhoras Pestanas. Encontrou este a capelinha em ruínas, e mutilada a imagem do patrono, e logo procedeu ao seu restauro, trabalho de que se encarregou, com mestria, o hábil artista-estucador, natural de Afife, Domingos Rodrigues Ennes Ramos, aqui radicado.
Tempo depois, Caetano Pestana, que viria a falecer em 25 de Agosto de 1883, com 63 anos, incompletos, vendia a “Quinta do Praso” à família de Monteiro de Sousa, que ainda a detém, e com ela a capelinha.
É neste Vale de São Paio que existe a famosa nascente “Olho de Perdiz”, donde, durante anos e até ao verão de 1927, a nossa cidade foi abastecida de água potável, exploração feita até 1924 pela “The Anglo-Portuguese Gas and Water Cº. Ltd.”, com sede em Londres, de que era gerente, entre nós, o engº. Walter R. Jones, que ainda conhecemos
".
Entre a capela referida e a casa da Família Fileno, situada no alto da encosta, perto do chamado "caminho dos Pejeiros", havia um enorme pinhal. Hoje está tudo muito diferente, mesmo irreconhecível. A propriedade dos "Filenos" foi vendida, julgo que a um advogado da Figueira. A velha casa de habitação, com celeiro e adega, chegou a ser transformada numa espécie de "boite" ou "discoteca", mas que funcionou pouco tempo. Hoje não sei se lá vive alguém. O caminho que descia até ao vale ha muitos anos que está impraticável.

Os pinhais que por ali existiam foram cortados e os terrenos das encostas plantados a eucalipto. Existiam (e funcionavam) duas azenhas. A segunda era bastante curiosa, pois a água que movimentava a roda era conduzida por uma caleira de madeira em declive. Era um local onde muitas vezes se parava para merendar, pois a água da roda dava uma frescura muito agradável. A velha parede onde trabalhava a roda era coberta de avencas. Tudo isto desapareceu. A pequena bica, situada do outro lado do ribeiro e defronte desta azenha, foi um dia transformada em fonte, com paredes de tijolo. Estava engraçada, embora não fizesse esquecer a bica anterior. O incêndio que há anos destruiu quase completamente a Serra da Boa Viagem, as matas de Quiaios e a encosta sul da Serra, chegando às portas da Figueira, arrasou tudo. A fonte foi destruida com a queda de árvores queimadas e nunca mais foi reconstruida.

As hortas e jardins que por ali abundavam, talvez devido à falta de água, deram lugar a terrenos para criação de cavalos. Transformaram-se em picadeiro.

Mas a capela do S. Paio lá continua, felizmente. Permitam-me que recorde um pouco da sua história:

"Para o nordeste da povoação, a perto de quatro kilometros, e na proximidade do regato que corre ao fundo do Valle de Sampaio ou de S. Paio, existiu em tempo uma capellita com a indicação do Santo que deu o nome ao valle. Pequena, acanhadinha, abrigava o santo a quem os visinhos dedicavam extremosa devoção. Sampaio ou S. Paio, era remedio infalivel para a cura de varios achaques, especialisando - o desapparecimento rapido das verrugas d’aquelles a que a elle recorriam com a necessaria fé. N’uma ribanceira, erma, lá estava o santinho solitario, posto n’um terreno pertencente aos frades cruzios de Coimbra.
O tempo foi fazendo dos seus fregueses uns descrentes desleixados, e a capella foi-se arruinando a pouco e pouco até deixar apenas o vestigio de alicerces.
Tendo sido comprada mais tarde a propriedade pelo fallecido sr. Caetano Gaspar Pestana, d’esta cidade, mandou este, obedecendo a uma obrigação antiga escripturada, levantar de novo a capella e refazer o santo.
S. Paio, era e é de pedra, e andando por uma adega da propriedade a servir, profanamente, de calço a pipas, foi-se aos poucos deteriorando, até que, o sr. Pestana, o mandou concertar collocando-o em seguida na capella em que hoje é venerado.
Pertence hoje a capella e terra circumjacente a António Monteiro, canteiro de Quiaios.
Ha coisa de quatro annos ainda lá foi feita festa ao santo pelo povo da freguesia
".

Eis, minha Senhora, o que em poucas palavras posso recordar o que foi e o que ectualmente é a Quinta do S. Paio, onde residiu a conceituada Família Fileno.
(ver nota em Junho "Festas" - A romaria ao S. Paio

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O abastecimento de água à Figueira

Ficámos sem água

No dia 1 de Janeiro de 1889, numa notícia inserida no jornal “Correio da Figueira”, escreve-se a local seguinte: “Prosseguem os trabalhos para a captagem das águas, acima de Tavarede, estando já perfurados aproximadamente 250 metros de galeria. Começou-se o assentamento da canalização, que se acha efectuado desde o Largo do Pinhal, onde tem de ser construído o reservatório, até próximo de Tavarede, numa extensão de mais de 900 metros, que atravessam o caminho da Esperança, e propriedades dos senhores José Joaquim Fernandes Águas e conde de Tavarede. A tubagem desde o reservatório à origem, mede um pouco mais de 3.000 metros”. Na semana seguinte, acrescenta: “Já começou a escavação, no alto do Pinhal, para se construir o depósito, ou grande reservatório de água, que há-de abastecer a Figueira. Pela altura em que aquele sitio fica, virá a água naturalmente, e pela simples pressão, a todos os pontos da cidade. A canalização atravessou hoje a estrada de Tavarede, em direcção à galeria”.
(Junto à nascente "Olho de Perdiz"

Bem sei que não é uma história o que vou contar sobre o que aconteceu com a captação das águas do Prazo para abastecimento à Figueira. Sem dúvida que a cidade, em franca expansão e desenvolvimento naqueles anos, tinha absoluta necessidade de água. Até então o fornecimento era feito pelas fontes da Várzea e da Lapa, principalmente, onde iam buscar a água de que careciam, e por um ou outro poço, cuja água fosse considerada potável. Depois de vários estudos feitos por técnicos especializados, optou-se pela captação do Prazo. Segundo veremos, pelas transcrições que adiante faço, resolveram o problema para alguns anos mas, em compensação, Tavarede, nas suas hortas e várzeas, viu-se despojada de um bem que tinha tão abundante e de tão boa qualidade.
Como acima referi, não vou contar uma história. Mas, acredito, muita gente haverá que gostará de conhecer esta “história”. Não foi pacífica esta exploração. Os estudos, como iremos ver, iniciaram-se em 1880, mas só em Agosto de 1889 “terminaram as questões levantadas a propósito da compra das águas, ou antes do direito de as procurar na propriedade do Prazo, onde a Companhia do Gás e Água desta cidade encetara os seus trabalhos. Pela compra total da propriedade, ficou a companhia possuidora do terreno da questão, podendo agora aproveitar todas as águas ali nascentes – salvo o direito a quem se julgue prejudicado. É caso para nos felicitarmos muito sinceramente, pois o fornecimento de boa água é para a Figueira um objecto de primeira necessidade. E felicitamos igualmente a companhia, muito em especial se findaram de vez os obstáculos a que ela realize os fins a que se propunha”.
E antes de iniciar a começo da viagem, vou já transcrever uma notícia demonstrativa das consequências desta exploração das águas. Vem na “Gazeta da Figueira” de 6 de Maio de 1899:
Aproxima-se o tempo mais ardente do verão e com ele as questões que todos os anos se dão aqui entre os lavradores, motivadas pela falta de água para as regas das suas terras da Várzea, Serrado, Solão, etc. A todos custa ver definharem-se pela sede as suas culturas, cuja sementeira tantos sacrifícios lhes importou, vendo se por isso obrigados a recorrer de qualquer forma ao meio de conduzirem a água ás suas valas, por mais longínquas que elas sejam.
A divisão da água para aqueles pontos é feita no rio, local junto à Igreja, e é ali que todos os dias se levantam questões entre os lavradores, que muitas vezes chegam a tomar carácter de gravidade. Querem uns ser senhores da água continuadamente, quando outros esperam pela sua vez dez, doze, quinze e mais dias!
E não haveria meio mais fácil de obstar a estas desigualdades? Não poderia a autoridade administrativa encarregar o regedor desta freguesia de estabelecer a forma de todos se remediarem com a pouca água que infelizmente chega ao local da divisão, sem haver queixas contra o abuso de alguns indivíduos?
Seria bom que este assunto fosse estudado por quem compete olhar pela manutenção da ordem pública, evitando assim que muitas pessoas dignas de respeito e que têm necessidade de fazer conduzir a água para os seus prédios, ainda que tardiamente, sofram por várias vezes desgostos, ouvindo insultos que lhes dirigem certos indivíduos sem educação, que só vivem praticando o mal. Em contrário, teremos mais dia menos dia que lamentar as funestas consequências deste desleixo.
E dizemos desleixo, porque já de há muitos anos se dão aqui estes factos, sem que até hoje se dignasse dar-lhes as devidas providências qualquer autoridade local, tornando-se portanto necessário que se encare a sério esta questão que, como acima dizemos, pode redundar num grave conflito
”.
Sem mais, vamos, então, até ao ano de 1880. Na apresentação do projecto, que teve como objectivo a “aquisição de águas subterrâneas e execução das obras necessárias para as conduzir à povoação e distribuição destas pelas fontes e pelos domicílios”.
No Prazo - Junto ao ribeiro de Tavarede

O projecto compunha-se de três partes principais:
1º Drenagem do solo por um sistema de galerias subterrâneas para a captação das águas, na região superior do vale da ribeira de Tavarede, no sítio denominado o Prazo;
2º Assentamento da canalização de ferro para a condução das águas à vila;
3º Construção de um reservatório no alto do Pinhal numa altitude superior à de todas as casas da vila, para a fácil e regular distribuição da água pelos chafarizes, que se julgue conveniente estabelecer, e pelos domicílios, quando mais tarde se pretenda este desideratum.
Como não havia à superfície do solo, nos arrabaldes da Figueira, nenhuma nascente assaz copiosa que fornecesse só por si o volume de águas necessário para o abastecimento da vila, foi necessário o recurso à exploração subterrânea. O sítio escolhido para a exploração deveria satisfazer, simultaneamente, às duas condições principais: fornecer água em abundância e fornecê-la em altitude bastante para que, chegando à Figueira com cota assaz elevada, pudesse a todo o tempo distribuir-se pelos domicílios sem haver necessidade de a levantar. Estas condições encontraram-nas, à perfeição, no vale do Prazo, acrescendo a circunstância importantíssima que os trabalhos ali se poderiam estabelecer de forma a que se desenvolvessem quase indefinidamente para o futuro, quando o aumento da população e as crescentes necessidades do consumo deste elemento tão precioso o exigissem. Neste caso, como sabemos, falharam os cálculos, pois poucas décadas depois tiveram de recorrer a novas captações noutros locais.
O relatório prossegue referindo que o vale de Tavarede era, de todos os que descem da Serra da Boa Viagem, o que corria em mais baixo nível, cortando transversalmente uma espessíssima série de camadas permeáveis, sendo nos seus flancos que brota o maior número de nascentes. “A água vê-se com efeito romper por toda a parte, e especialmente no fundo dos vales e das quebradas, uma vegetação activa e louçã, plenamente atesta a frescura do solo”. E prossegue: “segundo os nossos trabalhos de exploração em nível inferior ao alvéo da ribeira, é claro que as galerias que abrirmos colherão toda a água que as camadas contiverem no maciço superior ao plano em que eles forem estabelecidos, maciço importantíssimo, pois o relevo do solo sobe rapidamente nos dois flancos do vale, não havendo em toda a extensão da serra nenhuns pontos de descarga mais baixos do que este vale”.
Mais adiante o relatório escreve “não é simplesmente o facto da existência das nascentes à superfície do solo do vale do Prazo, nascentes aliás valiosas, a base do conselho para esta exploração de águas: foram principalmente considerações geológicas que firmaram esta escolha. Com efeito, além destas manifestações exteriores, que revelam a existência de consideráveis massas de água, no interior do solo, a garantia da permanência dessas nascentes, sobretudo quando sejam exploradas em nível superior ao alveo da ribeira, está assegurada pela composição íntima e estrutura do solo, que é constituído por camadas pela maior parte muito permeáveis, sobrepondo-se do sul para o norte concordantemente, e com fraco pendor umas às outras, e inflectindo-se do Cabo Mondego para Maiorca em forma de bacia, da qual a Figueira ocupa o centro”. Prossegue depois: “A exploração que propomos será por estes motivos, pois, a mais produtiva, e muito de presumir (ou quase certo) que poderá suspender-se muito antes do limite assinalado do projecto. Os trabalhos são além disso estabelecidos de modo que não comprometem as explorações futuras, antes podem sucessivamente desenvolver-se quando convier, sem que esta ampliação do fornecimento embarace nunca o abastecimento usual. Para isso bastará abrir, pelo mesmo sistema, em nível superior ao dos trabalhos existentes, e para montante do extremo superior da galeria colectiva, uma rede de galerias análogas, que poderá estender-se até às nascentes do Olho de Perdiz, onde nasce a ribeira de Tavarede, ou ainda mais além através da serra, estabelecendo-se a ligação dos novos trabalhos com os trabalhos antigos só depois que aqueles estejam terminados”.
O relatório continua depois com a parte técnica das obras a realizar para as captações e transporte da água até ao Pinhal, donde partirá a distribuição pela Figueira. Não adianta mais transcrições. O que atrás fica escrito, chega bem para saber como era o vale do Prazo abundante em águas que, pela ribeira de Tavarede, regavam em profusão todas as nossas hortas e várzeas, até ir desaguar no Mondego. Durante anos, Tavarede matou a sede à Figueira. Os projectos diziam que nunca faltaria a água. Não foram precisos muitos anos para o contrário ser uma triste realidade.
Junto ao Largo da Igreja em Tavarede - 1950

Caderno: Tavarede - A terra de meus Avós - 3º.

Joaquim Alves Fernandes Águas

Nasceu em Tavarede a 12 de Dezembro de 1813 e morreu na Figueira no dia 5 de Março de 1890. Era filho de José Alves Fernandes, natural do Porto, e de Teresa Neta, nascida em Tavarede. Seu avô materno, Manuel Carlos de Oliveira, era de Brenha, e havia casado com a tavaredense Ana Ribeiro, passando a residir em Tavarede.
Não há a certeza quanto à origem do apelido “Águas”, mas o certo é que Joaquim Fernandes já o utilizou nalguns documentos.
Iniciou a sua carreira profissional como operário tanoeiro, em Tavarede, mas, pelo ano de 1868, mudou-se, com a sua numerosa família, para a Figueira, onde se estabeleceu como comerciante e industrial de vulto. De sociedade com seus filhos, fundou a Casa “Águas”, que atingiu lugar destacado no meio figueirense. Dedicou-se, também, à marinha mercante, como armador. No entanto, a exportação foi o seu principal negócio, especialmente de vinhos, para o Brasil e América do Sul.
O casal teve 10 filhos, seis varões e quatro raparigas, todos nascidos e baptizados em Tavarede.
Na sua terra natal desempenhou, entre outros, os cargos de regedor, presidente da Junta de Paróquia e juiz eleito, todos eles com a maior competência e isenção, sendo, por isso, muito admirado e considerado pelos seus conterrâneos.
Na Figueira, também exerceu “por muitos anos, e com a maior dignidade, o cargo de ministro da Venerável Ordem Terceira.
Quando da sua morte, o jornal figueirense “O Operário”, escreveu: “Brotando do seio do operariado, com uma vida irrepreensível, chegou, pela felicidade, no decurso do comércio, que mais tarde seguiu, a ser contado como negociante abastado. A nós, basta-nos o meio de onde surgiu, para nos sentirmos obrigados a respeitá-lo também no seu passamento”.
Grande entusiasta pelo teatro, o Presépio (costume nato de Tavarede) era, para ele, o cúmulo dos divertimentos. “Em uma das suas casas (ainda morava em Tavarede), instalou um teatrinho seu, cerca do ano de 1864, em que ele, filhos e filhas, entravam representando, e o que é melhor é que, mulheres representavam de homens e vice-versa”, escreveu Ernesto Tomás, em “Recordações de Tavarede”.
Conta-nos, depois, uma das noites agradáveis que lá passou. Vejamos:
“A costumada troupe de rapazes da Figueira estava no seu posto de espectador. Alguns rapazes dela ocupavam-se em ajudar, tocando numa orquestra adrede arranjada para satisfazer às exigências do espectáculo.
Na casa velha, vestiam-se as figuras e preparava-se o mise-em-scéne; na casa nova, havia o palco e a plateia, e a comunicação duma para outra casa era feita por uma porta que dava para o fundo do palco. Havia-se esgotado o reportório do presepe e ia entrar em cena a comédia: - O marido vítima das modas.
Os rapazes da Figueira encarregaram-se da mudança do cenário, mas, para fazerem uma partida ao velho Águas e rirem-se no fim, colocaram os bastidores em sentido inverso, isto é, de pernas para o ar.
Tudo pronto... Pano acima...
Ninguém havia reparado no desarranjo do cenário, mas o velho Águas, que, sentado na plateia, acompanhava passo a passo as fases do espectáculo, tendo reparado gritou: - Vá o pano abaixo!... pano abaixo!... E foi.
Dirigiu-se lá dentro á casa velha, zangado, fulo de raiva, e fez-nos uma apeporação tão apimentada que não era para rir; faltando pouco para que todos da Figueira fossem postos no meio da rua. Mantivemo-nos, contudo, um pouco mais sérios, rectificando no nosso espírito a ideia que formávamos do nosso velho Águas, - de que ele estava sempre pronto a aturar-nos rapaziadas e a rir-se delas.
Daí para diante teríamos de pensar que, dentro do seu teatrinho, nos deveríamos portar com o aprumo da seriedade, com toda a correcção de espectador gommé aliás... rua!”.
Numa notícia sobre o seu falecimento escreve-se: “Homem simples, ordenou o seu enterro sem pompas, fazendo-se acompanhar por pobres”.
(Caderno: Tavaredenses com história)

Associativismo - Os princípios (2)


Estamos situados no ano de 1865. E começamos por recordar que, naquela época, o Associativismo era oficialmente regulado pelo Código Penal de 1852, no qual o artigo 282º. estabelecia: "Toda a Associação de mais de 20 pessoas, ainda mesmo divididas em secções de menor número, que, sem preceder autorização do governo com as condições que ele julgar convenientes, se reunir para tratar de assuntos religiosos, políticos, literários ou de qualquer outra natureza, será dissolvida; e os que a dirigirem ou administrarem serão punidos com prisão de um mês a seis meses. Os outros membros serão punidos com prisão até um mês".
Ora, com tais disposições em vigor, seria possível existirem, em Tavarede, "sociedades dramáticas" que aqui "vegetavam como tortulhos"? A resposta só poderá ser negativa. Tratar-se-ia, isso sim, de pequenas "sociedades" familiares, que se reuniam nalgumas casas, especialmente das famílias mais abastadas, para passarem os seus serões, principalmente nas grandes noites do Outono e do Inverno e que, tendo adquirido o gosto pelo teatro e pela música, aproveitavam os seus tempos de descanso para conviverem nos ensaios, procurando ao mesmo tempo instruirem-se e divertirem-se, instruindo e divertindo, igualmente, os seus conterrâneos que assistiam aos espectáculos que apresentavam.
Mas nós temos mais informações sobre aqueles anos. Um exemplo. No ano anterior, ou seja em 1864, Joaquim Alves Fernandes Águas, fundador da conhecida e importante Casa Águas, na Figueira da Foz, ainda residia com sua família em Tavarede, pois só mudaram a residência para a Figueira dois ou três anos mais tarde.
Este tavaredense nascera a 12 de Dezembro de 1813 e morreu na Figueira no dia 5 de Março de 1890. (ver biografia na etiqueta: Tavaredenses com história). Era um grande entusiasta dos teatros, sendo o Presépio (costume velho em Tavarede) "o cúmulo dos seus divertimentos. Por tal motivo, instalou um teatrinho numa das suas casas, naquele ano acima referido, onde "ele, filhos e filhas entravam representando". Esta nota confirma aquilo que referimos destas "sociedades dramáticas" aqui vegetarem como tortulhos. Lá mais para diante voltaremos à sala de espectáculos de Joaquim Águas, pois, no Associativismo, foi uma casa muito importante, nela se tendo instalado o "Bijou Tavaredense" e o "Grupo Musical e de Instrução Tavaredense".
Note-se que acima se escreve, relativamente ao Presépio", que era "costume velho em Tavarede. Também, naquela época, se representavam dramas e comédias, como "Os miseráveis de Londres" e "Os dois rivais". Ora, para apresentar este tipo de teatro, mesmo de forma rudimentar, era necessário haver uma prática teatral de algumas dezenas de anos. Foi isto que nos levou a formular a opinião de que teria sido D. Francisco de Almada e Mendonça, juntamente com sua esposa, D. António Madalena, o instituidor do teatro na terra do limonete.
Voltemos, por uns instantes, à reportagem de Ernesto Tomás. Depois de descrever as salas de espectáculo, escreve: "Ria-se, vozeava-se e fumava-se na plateia, com a sem-cerimónia de ajuntamento numa feira. De vez em quando, um dito picaresco, saído de alguns dos espectadores, ia provocar a hilaridade ruidosa dos mais sérios, e tudo ria desalmadamente, sem respeito pelo '«cabo d'ordes', o António José, que assistia áquela inferneira aprumando desmesuradamente a sua autoridade tão sobranceira como a sua figura, de pouco menos de três côvados de alto.
Lá dentro, no palco, desenvolvia-se um vai e vem, entretido pela família dos actores, das actrizes e pelos instrusos, bem capaz de causar vertigens às constituições menos dadas à sensibilidade.
ma flauta que nos produzia nos nervos arranhos de gato, conjuntamente com um violão despertando dobre a finados, e uma viola, gemendo sob uma unha afeita à enxada, constituia por inteiro o que então se apelidava de 'roquestra'"

Quinta da Borlateira - Uma das mais importantes propriedades da família Águas, em Tavarede

(continua)