quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Na Feira de Maiorca

A ultima feira de Maiorca, do dia 17, foi um tanto caipóra para o sr. José Cordeiro, que é um bom velho, lá isso é, e amigo dos seus amigos, mas que d’esta vez teve pela prôa dos taes de... Peniche.
Foi o caso que aquelle excellente cidadão tinha uma burra, e escolheu aquella feira para vendel-a ou trocal-a. Uma vez alli, acercaram-se do pobre velho dois ciganos - dois refinadissimos marotos - e um d’elles propoz-lhe logo a troca da burra por uma outra que o mesmo malandrim trazia consigo.
O sr. Cordeiro, ao que parece, sympathizou mais mais com esta e... mais um... menos um... sempre combinaram: o sr. Cordeiro dava a sua burra e tinha de voltar ainda 4$000 réis. Mas n’isto sugeriu uma dificuldade que de prompto se não podia resolver: o pobre velho não tinha n’aquelle mommento aquella quantia...
- Não tem duvida, diz-lhe o segundo gatuno, que apparentava não conhecer o primeiro; empresto-lhe eu os 4$000 réis. - Já o conheço ha muitos annos e por isso não desconfio de si.
O sr. Cordeiro que ficou commovido com a franqueza d’aquelle seu velho conhecido, acceitou o offerecimento e passou os 4$000 réis para a mão do primeiro gatuno; este assim que se viu com a massa e com a burra tratou logo de ir passeal-a a ver se andava bem... a passo travado.
O segundo ficou-se por alli, girando d’um lado para o outro, a dar tempo que o outro chegasse a... Cascos de Rolhas; depois do que, fingindo um caso d’urgencia imprevisto, dirigiu-se logo ao sr. Cordeiro exigindo-lhe os 4$000 réis visto não poder ficar mais tempo porque precisava de se retirar immediatamente.
O pobre velho ficou atrapalhado de tal forma com a exigencia repentina do seu conhecido, tanto mais que ficou logo rodeado de mais alguns meliantes, que se viu obrigado a vender logo a nova burra. Esta, que naturalmente estava a pedir fabrica de guano, não rendeu mais de 3$000 réis.
Foi então que o sr. Cordeiro foi percebendo que tinha sido victima d’uma ciganice e não quiz dar os 1$000 réis que faltavam.
Foi o bastante para o atrevido mariola querer aggredir o pobre velho, dizendo-lhe que não queria saber se o outro era ou não gatuno, porque o não conhecia.
Finalmente, foi preciso que outras pessoas interviessem, porque o velho além de ficar sem a sua burrinha, esteve ameaçado de sova e de ser atacado nas algibeiras, não obstante ver-se obrigado a voltar para casa á pata... e apenas com a esperança de alguma vez caia um raio que parta aquella raça de conhecidos, já que alli nunca apparece a senhora policia para dar caça aos meliantes.
Esta história aconteceu em Março de 1896 e foi publicada no jornal 'O Povo da Figueira'.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma história de outros tempos - A Quinta do Robim


Já aqui publiquei a história do sr. João António da Luz Robim Borges, que herdara a quinta do seu familiar dr. Borges e hoje vou contar, melhor, transcrever, umas notícias das transformações que fez na referida quinta e de uma festa com que o brindaram no dia em que fez 39 anos de idade.
Foi em Maio de 1897. Eis as notícias:

"Completa amanhã 39 annos o sr. João Antonio da Luz Robim Borges.
N’esta occasião, em que os amigos d’este benquisto cavalheiro o felicitam com sincera cordealidade no seu aniversario, seja-nos permittido que a essas felicitações e às nossas juntemos algumas palavras que são d’inteira justiça pelas qualidades que enaltecem o caracter do sr. Robim Borges.
Descendente d’uma familia de negociantes, que pela sua actividade e honradez nunca desmentida alcançaram avultados bens e um logar preponderante na classe commercial de Lisboa, o sr. João Robim encontrou se ainda novo de posse d’uma fortuna importante e, pago o indeclinavel tributo que todo o homem digno d’este nome deve à juventude, principalmente quando esta é realçada pela riqueza e por uma irrequieta e vermelha saude, abandonou por completo a vida agitada e brilhante da capital pela remançosa tranquillidade provinciana, installando-se na Figueira, onde há annos vive, estimado por quantos com elle entreteem relações d’amizade.
Vivendo largo tempo no sport lisboeta, o seu genio de rapaz, acostumado a uma existencia agitada e um tanto febril, devia fatalmente ressentir-se da transplantação para um meio pacato e ordeiro, que obriga a solo na Assembleia e metter o corpo em valle de lençoes às 10 horas. Em vez de submetter-se a estes habitos caturras, preferiu rodear-se d’alguns amigos e levar uma existencia socegada, a seu modo, mas que não exclue a applicação da natural actividade.
Herdeiro da antiga Quinta do Borges, na Varzea, com dinheiro, com energia e com bom gosto, conseguiu transformar radicalmente o abandonado predio n’uma esplendida propriedade, n’uma magnifica vivenda, talvez sem egual no concelho da Figueira.
A Quinta do Borges, ainda há poucos annos quasi um pousio, quasi em absoluto abandono, é hoje a admiravel e deliciosa Villa Robim, onde o agricultor rotineiro tem que aprender e onde o visitante de bom gosto tem que apreciar e invejar. É uma propriedade rural à moderna, com todas as exigencias impostas pela sciencia da cultura e com todas as commodidades e elegancias que o confortavel não dispensa.
Isto, que já representa muito, pois que a realisação de todas estas cousas o actual possuidor da negligenciada propriedade teve de espalhar uma parte da sua valiosa fortuna, beneficiando principalmente as classes trabalhadoras, não é só titulo bastante para a nossa consideração e estima. O sr. João Robim, porém, tem feito muito mais.
É um philantropo sincero, sem vaidades, não dando ostentação à caridade. A classe operaria encontra n’elle um protector, um bemfeitor d’inexgotavel generosidade, e a porta da sua habitação nunca se fechou para aquelles a quem a miseria empolga e a desgraça salteia.
É um verdadeiro benemerito, é um coração do mais fino quilate. Por isso não é de mais a estima e a consideração que os figueirenses tributam àquelle a quem muitos com lagrimas de sincera commoção abençôam no dia do seu anniversario".

"... Foi elle que lhe modernizou a quinta e lhe deu o nome por que ficou conhecida.
Situada no fundo da bacia de Tavarede, a pouco mais d’um kilometro d’esta cidade para o nordeste, a perto de seiscentos metros ao sul daquella povoação, e a uns quatrocentos metros do Casal da Robala, que lhe fica a sueste, é rodeada por montes de pequena elevação que se multiplicam pelo nascente e poente, ao norte pelo prolongamento da Serra do Cabo Mondego, abrindo-se ao sul e em frente da villa uma extensa varzea, com disvello cultivada, que se termina no Rio Mondego.
Atravessando esta, existe um ribeiro dimanado da parte norte de traz de Tavarede que, atravessando-a toma o nome d’ella - ribeiro da Varzea, que vae desaguar no rio.
Ha duas fontes na mesma baixa ou varzea, tendo uma d’ellas este nome, e outra o de fonte da Lapa.
Ha uma estrada que liga directamente esta cidade com a villa e é a que segue pelo norte d’aquella indo pelo caminho da fonte da Varzea até lá.
Outra, que se dirige por junto da estação do caminho de ferro da Beira, e estrada de Mira.
Por Tavarede, e Casal da Robala, ha para ali tambem umas rasoaveis communicações viarias.
Quasi rodeada em circulo por pequenos montes, como dissemos, fica a Villa Robim emmoldurada por terras agricultadas, de cores variadas, fazendo pendant, o agradavel verde-escuro dos pinhaes que aqui e ali se vêem pelas encostas, em pequenos rectangulos, com as culturas de plantas de verde-claro, que se estendem em terrenos das baixas regadas pela abundancia d’agua que por ellas se ramifica. A longos tratos admira-se tambem, nos terrenos proprios, os vinhedos luxuriantes, aonde, por bem tratados, se distinguem os da Villa Robim.
Os pomares merecem tambem, na baixa e encostas de que falamos, de especial mensão, abundando as macieiras, ameixieiras, pereiras e figueiras, alem de uns raros pomares de larangeiras, que em uma ou outra parte existem.
A Villa Robim, inteiramente reformada, depois que o sr. Robim Borges tomou conta d’ella, como herdeiro de seu tio o sr. dr. José Joaquim Borges, é por assim dizer hoje uma quinta-escola agricola.
Graças a uma boa fortuna que possuia, e que adquiriu depois pelo fallecimento de seu honrado pae o sr. João Robim Borges, conceituadissimo negociante da praça de Lisboa, fez d’aquella pequena extensão de terreno, d’então, uma razoavel propriedade, tanto encarando-a pelo seu acrescentamento de terreno de que tem cuidado, como pela forma por que tem sido tratada agricolamente, segundo os novos processos da sciencia.
A propriedade acha-se dividida para as diferentes especies de culturas, em conformidade com o terreno, com as circumstancias climatericas e a necessidade de aguas correntes onde rega.
Havendo a difficuldade de levar a alguns pontos mais imminentes a agua da rega, ha bombas e lavatorios para isso, e uma boa disposição de canalisação attinente ao mesmo fim.
O pessoal de trabalhadores na villa, actualmente, regula, pelo que nos informam, entre cincoenta a sessenta jornaleiros, não contando n’este numero os que permanentemente lá residem.
E por ahi se pode avaliar a quantos o sr. Robim proporciona o pão quotidiano, embora remunerado em trabalho relativo.
N’este ponto, obrigam nos as nossas intensões a dizer que oxalá outros seguissem o mesmo caminho, fazendo valer para si e para os seus operarios o seu dinheiro, como faz o sr. Robim.
Que Deus lh’o amontoe para o poder distribuir...
Na actualidade, tem um lagar prompto, construido á moderna, já destinado a uma colheita vinicola, maior, quando tenha alargado a sua propriedade, como tenciona.
São inumeros os animaes contidos, systematicamente na Villa Robim: Bois, cavallos, carneiros, cabras, ovelhas, gansos, perús, gallinhas, patos mudos, patos triviaes, etc., e iria por ahi além a nossa narrativa se tivessemos de fazer uma completa resenha.
As porcheries, habitação de porcos, são pratica e scientificamente cuidadas, vivendo n’ellas animaes de differentes raças apuradas, não n’um immundo esterquilinio, como é corrente por ahi, mas em divisões appropriadas á higyene e em boa disposição ao desenvolvimento animal.
Das cavallariças não fallemos; é ir e ver.
Além d’outros, apresentam-se no logar cinco ou seis cavallos que, pela sua estampa, bem dizem dos que os escolheram e do bom tratamento que tem tido. Cavallos de tiro.
Para se ver quanto importante é o sustento d’estes animaes bastará repetir o que ouvimos dizer: seis mulheres andam diariamente no apanho de erva para elles.
Na cocheira, no dia dos annos do sr. Robim, estava, em alto, um tropheu de cousas allusivas á pecuária adornado de campainhas e guisos.
Era tambem objecto de admiração, a cabeça, rara, de um carneiro tricorne, dissecada e cheia de algodão.
Chegando até aqui, em uma resenha defeituosa, talvez porque melhor não podemos fazer, da Villa Robim, vamos falar das festas do anniversario do seu proprietario o sr. João Antonio da Luz Robim Borges.
Sobre a madrugada do dia 9 do corrente, quando a luz da manhã começava a espalhar a sua claridade sobre a Villa Robim, fazendo avultar no escuro ainda, a claridade das suas habitações, rompia no largo proximo á habitação do sr. Robim, o toque d’uma fanfarra ida d’aqui, a dar lhe a alvorada no seu dia d’annos.
Sem prevenção antecipada, ficou aquelle senhor surpreso, vindo á janella a recebel-os.
Era uma troupe de operarios que lá ia, em reconhecimento do que a favor da sua classe tem feito.
Bem recebidos, bem tratados, e tudo o mais que era de esperar do cavalheirismo do sr. Robim.
Durante o dia foi uma romaria á villa, não só de gente d’esta cidade, como das povoações proximas de Tavarede, Casal da Robala, etc.
Houve dansas, descantes, musica, e isto até altas horas. Pela 1 da noite, retirou a fanfarra dos operários, tendo antes agradecido ao sr. Robim todas as amabilidades de que foram alvo.
Á casa d’aquelle senhor haviam chegado de Lisboa n’aquelle dia mais de vinte pessoas de familias da sua amizade, que vieram congratular-se com elle no seu anniversario, tendo tambem reunido á sua mesa alguns amigos intimos d’esta cidade.
A festa acabou no dia 10, pela manhã.
Deixou a todos gratas e saudosas recordações, evidenciando-lhes que, aquella homenagem tributada ao sr. Robim Borges, era, não só pelo seu cavalheirismo, fino trato e posição, mas tambem um abraço fraternal do povo que o estima e venera, pelas suas excellentes qualidades humanitarias...".
Como está diferente a Quinta do Robim! Irreconhecível. Do que acima se fala só tenho fotografias da velha fonte da Várzea. Será que alguém (talvez o amigo Rogério) tenha uma ou duas fotografias antigas para aqui inserir? Era mais uma recordação.






As lavadeiras no ribeiro da Várzea

Cântaros com água fresquinha

O que restava da velha fonte, antes da sua destruição

António Medina Júnior


Nasceu a 21 de Abril de 1898, em Tavarede, filho de António Medina e de Otília Nunes do Espírito Santo.
Fez a instrução primária com a professora Maria Amália de Carvalho e continuou os estudos na Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz, frequentando o curso nocturno, empregando-se, como aprendiz de tipógrafo, na Tipografia Lusitana, na Figueira.
Fundou o semanário “Praia Elegante”, em 1915, de companhia com António Amargo e Mário Reis, seus companheiros de trabalho naquela tipografia. No ano de 1921, fundou em sociedade com João Fernandes Nascimento, a tipografia “Nascimento & Medina”, com instalações na Rua das Flores, mas que teve curta duração.
Muito novo, integrou-se no associativismo, primeiro na Sociedade de Instrução Tavaredense e depois no Grupo Musical e de Instrução, fundado por seu pai e por seu tio, José Medina, em 1911.
Executante musical de elevado nível, fez parte da Tuna e de um conjunto musical de que foi violinista, com António Cordeiro, tocando em bailes de gala e em celebrações religiosas, acompanhando, por vezes, um coral expressamente formado para estes actos solenes.
Amador dramático muito versátil, formou, com sua irmã Violinda, o par de principais protagonistas nas peças levadas à cena pelo grupo dramático do Grupo Musical, no período de 1920 a 1927.
Também foi ensaiador do mesmo grupo (ensaiou, entre outras peças, a opereta Amores no Campo) e dirigente, na direcção e na assembleia geral. Também exerceu o cargo de cobrador da Companhia do Gás e das Águas.
Começou, muito novo, a dedicar-se ao jornalismo. Além de fundar o jornal já referido, foi correspondente local do jornal “O Figueirense”, em cuja tipografia se empregou em 1923, chegando a travar acesas polémicas com correspondentes rivais a propósito de problemas da terra.
No ano de 1927, correspondendo a um convite que lhe foi dirigido, foi para Sintra trabalhar e dirigir uma tipografia onde era composto e impresso o jornal “Sintra Regional”. Com a morte do seu proprietário, adquiriu a tipografia para si e, no dia 7 de Janeiro de 1934, lançou o “Jornal de Sintra”, de que foi proprietário e director até à sua morte no ano de 1983.
Bairrista acérrimo, foi sempre o “embaixador da Figueira em terras saloias”, como ele próprio se intitulava com certo orgulho e satisfação. Organizou algumas excursões de Sintra à Figueira e a Tavarede, a última das quais, em 1958, com a vinda da conceituada banda de Pêro Pinheiro. Igualmente deu vida a deslocações de tavaredenses e figueirenses a Sintra, nomeadamente do grupo cénico da Sociedade de Instrução, que ali se apresentou, primeiro em 1945 em Colares, com as peças A Nossa Casa e Horizonte, e depois em 1957, com as peças Frei Luís de Sousa e Peraltas e Sécias, representadas no teatro-cine local.
Havia casado, em 1920, com Emília Pedrosa, também ela amadora dramática no Grupo Musical, e tiveram dois filhos: Maria Almira e António. Faleceu em Sintra, no dia 22 de Outubro de 1983.
“… aquele azougado e vivito rapazinho que nos apareceu um dia “à caixa”, a pôr as letras em pé na secção de cheio da oficina do saudoso mestre Augusto Veiga, - vindo da risonha e pitoresca aldeia, cuja gente é perfumada de limonete, - desde logo começou a ter faísca para a arte, como a teve também para coçar as tripas da sua rabeca em estudantinas da sua terra. Parece estar a vê-lo: risonho, trocista, bamboleante, com os seus ditos picantes e frescos, principalmente quando se proporcionava um bródio de alegria franca… Um dia, já homem, emigrou da sua aldeia. A trouxa era magra… A cabeça era um feixe de ilusões, o espírito um manancial de esperanças, - e a estrela que o iluminava e conduzia era como que a enviada pelo Destino a orientar a rota da sua jornada… Como caminheiro que sabe o que vê e o que sente, fixou seus olhares surpreendidos e maravilhados na deslumbrante serra de Sintra…
… Fixou-se. Desfez a trouxa. E começou a sua faina. O componedor na oficina e a rabeca nas horas vagas e caseiras vão entretendo o novo cidadão de Sintra… Fundou o “Jornal de Sintra”. Orientado pelo seu natural bairrismo e talvez por dedicações amigas e idóneas, teve a felicidade e a honra de lhe ser ligada aquela consideração que distingue as pessoas de bem!”.
A Câmara Municipal de Sintra prestou-lhe homenagem nomeando-o “Cidadão Honorário” e atribuindo-lhe a “Medalha de Ouro do Concelho”. Por sua expressa vontade, esta medalha e um livro, em pergaminho, com milhares de assinaturas em mensagem de apreço e gratidão, foram entregues à guarda do Museu Municipal Dr. Santos Rocha, da Figueira da Foz.
No almoço que uma representação da Figueira lhe ofereceu em Colares, disse: “… eu dei-me, há 43 anos, a Sintra. Dei-me todo. Todo. Desgastei a minha mocidade radiante ao serviço de Sintra, com muita pena de o não ter feito na minha terra. Mas o que Sintra não sabe, ou se sabe respeita o meu segredo, é que é aqui onde anda o corpo físico, porque o coração nunca saiu da Figueira. Está lá. O coração está sempre na Figueira!”.
Igualmente o seu nome faz parte da toponímia sintrense, o que também se verifica em Tavarede, onde, por proposta da Junta local aprovada pela Câmara Municipal, foi atribuído o seu nome a uma rua na Quinta da Esperança, em Outubro de 1996.

Numa das suas vindas a Tavarede, nos anos 50, participou, com a rapaziada, numa corrida de sacos

Defensor entusiasta das velhas tradições da terra do limonete, foi com o maior entusiasmo que, quando nos anos 50 do século passado, fizeram reviver o primeiro de Maio, com o seu rancho dos potes floridos, não resistiu. Com a sua “rabeca” debaixo do braço, gritou bem alto: presente! Eis um pequeno recorte duma noticia que escreveu contando esta aventura:
“… na grata intenção de reviver horas largas de felicidade já distantes, e experimentar o sabor dulcificante dos sorrisos e dos cantares da gente moça da minha amada Tavarede, soltados ao espaço nas horas matutinas e orvalhadas da próxima madrugada do primeiro de Maio, em que também quero incorporar-me no naipe dos tocadores…
… Não sei a que pontos o meu virtuosismo chegará. Uma coisa garanto desde já aos ‘rapazes’ do meu tempo que porventura queiram recordar felicidades distantes que se foram para sempre e se dignem comparecer, também, ao lado do sanguinho na guelra da nossa terra: é a certeza absoluta de que, se a gloriosa Marcha do Rancho de Tavarede não sair pelos dedos destreinados das mãos, ela será arrancada à “sanfona” pelos dedos fortes da alma…”.
Assim aconteceu. E as consequências? “… de violino nos queixos – espírito remoçado, tempos revividos, evocações e saudades presentes -, que me provocaram (porque não confessá-lo?) uma tremenda comoção -, acompanhei a garbosa embaixada do Maio florido na sua clássica peregrinação.
E, - coisa curiosa! – as notas da linda marcha “saíram” todas, como se entre elas e os largos anos que separaram os meus dedos do violino, nunca tivessem existido. O pior é que, quando cheguei ao fim da jornada, em que se calcorrearam bastantes quilómetros, quase foi necessária uma “padiola” para me transportarem para o ponto de partida. Estava que nem uma passa, constituindo tal facto um primoroso “pratinho” para a minha irmã Violinda e para a minha ditadora conjugal, as quais me “repassaram” de sarcasmos durante o resto do dia e o menos que me chamaram foi ‘velho-gaiteiro’!”.
Era sócio honorário do Grupo Musical Tavaredense.

(Caderno: Tavaredenses com história)

Maria Almira Medina

A Câmara Municipal da Figueira da Foz, em conjunto com a Junta de Freguesia de Tavarede e Sociedade de Instrução Tavaredense, resolveram, no passado sábado 26 de Setembro, prestar pública homenagem à nossa conterrânea Maria Almira Medina, há cerca de 80 anos a residir em Sintra, onde a Câmara local lhe prestou idêntica homenagem há uns meses.
Primo e afilhado da homenageada, também devo aqui referir alguma coisa sobre a Maria Almira. Na sexta-feira passsada, telefonei-lhe a dizer os motivos da minha não comparência no Auditório do Museu Municipal, o que ela compreendeu e concordou comigo. No entanto, no domingo, cerca das 11 horas, ela teve a gentileza de me visitar, acompanhada do Jorge, seu marido, mostrando-se, ainda, imensamente comovida com a cerimónia realizada, tendo-se mostrado muito agradecida para com todos.
No ano passado, por ocasião do aniversário da SIT, a Maria Almira e um grupo de poetas e artistas sintrenses, estiveram em Tavarede, tendo-se realizado uma tarde cultural a que foi dado o nome de "JORNADAS POÉTICAS DE SINTRA EM TAVAREDE".
Directamente envolvido neste acto, permito-me recordar um pouco do que então disse:

Maria Almira:

Quando, em 1944, numa edição da Sintra Gráfica, fizeste a apresentação do teu primeiro livro de poesia, certamente que, no teu espírito, terás assumido um compromisso: aquela apresentação foi feita na tua terra adoptiva mas, mais ano, menos ano, terias de vir à tua terra natal para também fazeres uma apresentação dos teus muitos trabalhos de artista que, em terras distantes, muito honram Tavarede.
Fizeste, por aqueles já longínquos anos, uma exposição de caricaturas, de diversas personalidades figueirenses, no então chamado Grande Casino Peninsular; anos mais tarde, foi o Museu Dr. Santos Rocha que recebeu uma exposição de trabalhos teus, com especial incidência nos teus trabalhos de ceramista; recentemente, há cerca de dois meses, fizeste a apresentação dos teus últimos trabalhos literários na Livraria Sinédrio.
Mas a Figueira da Foz não era Tavarede e tu nasceste em Tavarede. Por isso, quando nos mostraste o interesse de aqui vires mostrar um pouco da tua tão grande obra, logo aceitámos a ideia com todo o interesse. A terra do limonete, onde viste a luz do dia, receber-te-ia, certamente, de braços abertos.
De imediato começámos a pensar no local conveniente. O Palácio dos Condes de Tavarede, recentemente beneficiado com obras de reconstrução e remodelação, certamente nos cederiam uma sala para o efeito. A Junta de Freguesia local também tem instalações condignas para o efeito. Pensámos nas colectividades. A tua família desde sempre que esteve intimamente ligada ao associativismo local.
O Grupo Musical foi fundado por teu avô paterno, por teu tio avô José Medina e pelo teu Pai. Era um bom local. Mas, pensando melhor, julgámos que as tuas raízes tavaredenses iam um pouco mais longe. Pensámos, então, na Sociedade de Instrução Tavaredense.
E porquê? Pois bem. Teu avô materno, António Gomes de Apolónia, foi um dos catorze homens bons de Tavarede que subscreveram a acta da fundação desta Colectividade. Subscreveu, não, pois era analfabeto, pelo que, a seu rogo, assinou João dos Santos Júnior. Mas o movimento que deu origem à fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense, teve inicio em 1903. O Grupo de Instrução e a Estudantina Tavaredense haviam cessado a sua actividade. Mas os tavaredenses já sentiam que a velha tradição do associativismo local, iniciado cerca de cem anos antes, era absolutamente necessário para o seu desenvolvimento cultural. Um grupo iniciou os preparativos para a fundação de uma nova Colectividade que, devidamente organizada, tivesse condições para vingar. Teu avô paterno, António Medina, foi um dos cerca de cinquenta tavaredenses que aderiram de imediato à ideia. Talvez por imposição legal, somente os catorze primeiros elementos assinaram a acta da fundação, mas, na verdade, teus dois avós estão intimamente ligados à fundação desta Casa.
Eis a razão da nossa escolha. Julgamos que foi bem feita. E, a partir de então, a colaboração da Família Medinácea, como teu Pai dizia, com graça, teve logo início, com a participação do teu avô António Medina e seu irmão, teu tio-avô José Medina, no grupo dramático criado, para angariação de receitas para a manutenção da escola nocturna, a funcionar inteiramente gratuita, para crianças e adultos.
Teu Pai, António Medina Júnior, também pisou as tábuas do seu palco, nomeadamente nos saraus organizados pela professora D. Maria Amália de Carvalho, para comemorarem os dias festivos da Merenda Grande e da Árvore...".

Querem saber porque razão transcrevi o acima? É que tendo também sido homenageada a memória de seu Pai, o Tio António Medina Júnior, um dos fundadores, juntamente com seu Avô e Tio-Avô, do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, teria sido oportuno e justo terem, pelo menos, o estandarte desta colectividade na homenagem. E porque não o das outras colectividades tavaredenses?
Sei que estou a meter a "foice em seara alheia". Certamente terá havido esquecimento ou, até, desconhecimento do assunto. E que isto não seja entendido como uma crítica mas, sim, um comentário dum tavaredense admirador profundo da sua terra e das suas colectividades.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O S. João de Tavarede

Hoje vou recordar a primeira nota que encontrei sobre as festas que se realizavam em Tavarede, em honra do Santo casamenteiro. Foi no jornal 'O Figueirense', em Julho de 1864.
"Ora vejamos se no meio d'esta extraordinária escassez de noticias em que nos achamos, podemos dizer alguma cousa que entretenha o espirito dos nossos leitores. Há de ser difficil, mas experimentemos sempre.
Terminaram no domingo finalmente os festejos aqui pelas proximidades da villa ao milagroso S. João. É a antiga villa de Tavarede quem todos os annos, permitta-se-nos a expressão, cobre a rectaguarda neste famoso e nunca alterado systema de festejar o santo com mascarada, cavalhada, corridas de prémios, etc.
Como succede todos os annos, pela volta do meio dia appareceu a bandeira seguida de numerosos cavalleiros, uns mais bem, outros mais mal montados, mas todos fazendo-se conduzir por um quadrupere de qualquer especie, que é o que se pretende e contra o que não há disputa. Deram as competentes voltas em torno da egreja, desceram depois à praça do Commercio e em seguida à praça Nova, d’onde dadas também as competentes voltas, se encaminhou a cavalgada para o porto da saida, que subsequentemente se ia tornar o theatro de maior gloria.
Depois das 2 começou então a Figueira a despovoar-se, encaminhando-se toda a gente para o local da festa, aonde se reuniram pelo meio da tarde extraordinário numero de pessoas de todas as classes. É que nestas occasíões não há fidalgos nem plebeus: a mascara e os mascaras confundem tudo.
Alli o que principalmente se viam eram numerosos ranchos de rapazes e raparigas da Figueira. Buarcos, e da própria localidade, que todos, ou dentro das casas ou na rua, tocavam, cantavam, berravam e dançavam á porfia, como quem queria para si maior gloria. De resto também se encontrava um bom numero de mirones, que não faltam nunca nestas occasiões, uns para se divertirem, vendo; outros, para darem fé do que se passa.
Quando o sol já era menos e permirtia ás cabeças naturalmente esquentadas o exporem-se aos seus vivificantes raios, começou então um simulacro de corridas de prémios, que se não era cousa para admirar como bom, era contudo excellente cousa para fazer rir e fez rir muito.
Acabada a corrida veio-se aproximando o frio da noite, que não deixara de chegar muito a propósito, começando o povo a retirar; e nós, que também éramos povo, viemos vindo com a multidão, protestando desde logo escrever uma larga notícia sobre o S. João de Tavarede, em virtude d'um cavaco que nos deu um nosso amigo, por fallarmos no numero passado do Ftgueirense tão resumidamente do S. João que ha de vir".

Associativismo - Os princípios - (6)

Vamos, então, continuar com o teatro na velha casa de Joaquim Águas.
Em Janeiro de 1896, a Gazeta da Figueira publicava a seguinte nota: "Assistimos, no sabbado ultimo, no pequeno theatro “Bijou Feminino”, á representação dos Reis.
O desempenho, feito por pessoas que não teem a educação própria para o theatro, não nos pareceu mau, ainda que houvesse varias incorrecções e exageros, devidos certamente á maneira como a peça se acha escripta. Distinguiu-se entre todas, no papel de Rachel, mãe d’um dos innocentes mandados immolar por Herodes, a esposa do nosso amigo Proa. Tanto os fatos como as caracterizações, feitas pos Abel dos Santos, não deixaram nada a desejar.
Cremos que foi o melhor dos presepios que este anno se representou na Figueira e arredores
".
Mas, claro, as opiniões divergem. Em O Povo da Figueira, como resposta ao comentário acima, escreve-se, dias depois: "Temos gosado os differentes espectáculos que ultimamente se têm representado no theatro “Bijou Feminino”, cujo desempenho tem sido na verdade surprehendente
O desempenho d’alguns papeis na representação dos Reis, por pessoas mal educadas… queremos dizer, por pessoas que não têm educação própria para o theatro, não nos pareceu… nem bom nem mau – antes pelo contrario, ainda que houve varias incorrecções exaggeradas, devidas com certeza à maneira como a peça s’acha escripta.
Em todo o caso estas incorrecções foram resalvadas, devido à intelligencia dos desempenhantes, sobresahindo especialmente o papel de Rachel que foi distribuído a um desempenhante que conseguiu arrincar da plateia os mais avaporados applausos que reduplicaram com muito mais enthusiasmo quando arrincou um dos innocentes dos braços mortiféros de Luciféro que… ficou atrapalhado ao fazer d’aquella…
Foi o melhor espectáculo de Reis que este anno se representeou na Figueira, Carritos e Cova da Serpe".
Como se depreende, já se tinham realizado, naquele teatrinho, diversos espectáculos anteriormente. Não encontrámos quaisquer notícias sobre os mesmos. Mas, quanto a este espectáculo, as coisas não ficaram por aqui. Vejamos o que respondeu o jornalista crítico da Gazeta:
"Acabamos de ler uma correspondencia d’esta povoação para o “Povo da Figueira”, datada de 24 do corrente, que nos surpreendeu... por sabermos que n’esta pequena terra ha um rival do tão festejado Caracoles da Folha do Povo, tal é o chiste da graça avaporada com que o tal correspondente critica o espectaculo dos Reis no theatro Bijou Feminino
Com .certeza certa que os desempenhantes eram mal educados... para o theatro; mas isso não é razão para critica, porque tambem o sr. correspondente está mal educado... para escrevinhador de correspondencias, em que a nossa lingua é torpemente assassinada, sem haver uma alma caridosa que a livre de tal verdugo, mandando-o para a Cova da Serpe, onde, com o seu fino espirito, póde representar algum papel de grande effeito, na peça de sensação - Judas... no deserto; ou então s’achar batatas para os Carritos.
Em todo o caso, não me lembra que nenhum desempenhante arrincase coisa alguma, pois que a peça era desempenhada por pessoas do sexo feminino, que, se disseram mortiféros, conseguiram tambem justos applausos, mas não avaporados (que não sabemos o que seja, a não ser alguma subida de vapores que fazem ver as coisas d’este mundo em duplicado ou reduplicado, conforme a quantidade).
Assim o sr. Pum (que pseudonymo tão avaporado!) com a sua intelligencia, não contente em criticar, o que certamente não viu (temos a certeza d’isso) e o que não percebe, não satisfeito em escavacar a pobre grammatica, que não tem culpa alguma da pouca intelligencia de qualquer quidem, que se arvora em critico... de si mesmo, ainda (naturalmente por estar avaporado) confunda Lucifér ou Luciféro, com o executor das ordens de Herodes, que, em vez de mandar degollar os innocentes, devia mandar cortar o pescoço a certos criticos... que nós conhecemos. Diz elle (correspondente) que viu (pelo telephone?) um desempenhante (que por sinal não estava avaporado) arrincar os mais avaporados (?) applausos que reduplicaram (por causa da avaporação) quando elle, aliás ella, arrincou um dos innocentes dos braços do capitão da guarda de Herodes a quem o sr. Pum, certamente por ignorancia, chama Lucifer! Oh! homem de Deus, olhasse-lhe para a cabeça e para os pés... a ver se assim o não confundia!
Ora... abobora, sr. Pum.; trate d’outro officio por que esse não lhe serve; metta-se com a sua vida e deixe divertir os outros, muito embora digam calinadas; olhe para si antes de criticar os outros; ponha a mão na consciência (caso não esteja avaporada) e... durma, que isso é somno, e olhe que de pobres de espirito está cheio o reino dos ceus... e tambem Tavarede.
Fique-se em paz
".
Embora me torne aborrecido, julgo que não devo deixar de transcrever a resposta do correspondente sr. Pum:
"Por mero acaso, e não porque esperasse emproadas replicas à minha inocente carta de 24 do mês último, é que vi, depois de decorridos alguns dias, referências abespinhadas de um quidam que entende na sua, e lá isso entende muito bem, não merecer sequer uma simples designação, embora ela seja tão estapafúrdia como a sua figura picaresca do pingurrio que veio de reforço… ao mestre.
De resto, cá na minha também opino porque o interessantíssimo anónimo, heróico defensor das prendas e mais partes que concorrem na pessoa das desempenhantes do Bijou, se alaparde o mais possível por detrás do mais bem vedado tapume. Quem me diz a mim que não poderia eu tomar a nuvem por Juno e o mestre António pelo mestre João? Nada mais fácil do que querer filar um farçola emproado e pimpão e, em vez disso, deitar os gatazios a um pândego que conheça a gramática… parda (?) tão bem como o Mandarim The-chin-pó sabia de cor as máximas do moralista Confúcio. Isso nunca! O mais prudente é uma pessoa não se arriscar da zona da certeza e não avaporar a imaginação pelas regiões mortiféras onde brilham sideralmente as pedras finas do decantado Bijou, parte das quais têm sido lavradas pela mão (?) do primeiro mestre – o que tem pouca gramática – e não pela do segundo, - que tem a gramática toda! – e que afinal, bem se vê, segundo afirmam testemunhas oculares e guturais, costuma escrever de um borco e com rara perfeição.
Eu, se neste momento, ou em qualquer outro, me achasse com tendências para responder à carta-dueto do ninguém, ver-me-ia, declaro-o com toda a franquelidade, seriamente atrapalhado, porque por mais que se faça suar o topete, por mais agudeza que um cérebro possua, é verdadeiramente impossível ajudar o que haja de fino espírito no remelgueiro mistifório do púfio. Chega até uma pessoa a pensar que quem aponta à execração pública os crimes (isso é o que nós havemos de ver?) gramáticos dos outros, não deve declinar a obrigação de perpetrar correspondências com algum bom senso.
Terminando por agora: Tavarede não está tão cheia de pobres de espírito que não comporte de vez em quando mais alguns, os quais em tardes amenas costumam, para refrescar a amizade, ir libar do divino licor… arranjando assim forças para bem desempenhar o papel de Cireneu nas estrambólicas epístolas fabricadas nesta aldeia e exportadas para a Gazeta.
E adeusinho até breve. (Pum)".
Ora isto merece, da minha parte, um comentário e um esclarecimento.
Como comentário pergunto: Nos tempos presentes, com muito maior instrução e educação, quantos espectáculos se fazem em Tavarede, nomeadamente na Sociedade de Instrução Tavaredense? Vários, não é verdade? Mas onde estão as críticas aos mesmos? Já não haverá correspondentes dos jornais na nossa terra que saibam criticar um espectáculo ou, pelo menos, dar a sua opinião? E os amadores, que praticam o Teatro devotadamente, mereciam algumas palavras de louvor, que os animassem a prosseguir a sua abnegada missão.
Quanto ao esclarecimento, informo que, naquela época, havia enorme rivalidade política, que chegava mesmo à ofensa. A pessoa visada, António da Silva Proa, foi um grande artista canteiro e foi um grande animador das festas em Tavarede. Era um conservador declarado. O correspondente de O Povo da Figueira era, com toda a certeza, um republicano progressista.
Há vários episódios baseados nesta luta política. Contarei alguma coisa, assim como alguns elementos sobre António Proa e seus descententes, que muito se dedicaram ao Associativismo.

(continua)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Grupo "Os Inseparáveis"



No dia 1 de Maio de 1971, em “reunião de saudade”, na sede da Sociedade de Instrução Tavaredense, juntaram-se, para recordar tempos idos, os componentes do Grupo Os Inseparáveis ainda vivos e alguns convidados.
Do programa, distribuido aos presentes, constava uma romagem ao cemitério para deposição de flores nas campas de “Os Inseparáveis” já falecidos, seguindo-se o tradicional almoço de “raia de pitáu com batatas cozidas”.
Como introdução ao programa, escrevi, então, a seguinte “Evocação”:

“... já a música afinou os instrumentos. Potes floridos riem e bailam nas cabeças das raparigas. O ar está cheio de cor e de perfumes. Formou-se o cortejo. Tudo pronto!... Vamos! Vamos! Siga o rancho até à fonte, a cantar e a dançar e a dar a volta à Figueira!... Lá vai! Lá vai o Rancho do 1º. de Maio, lá vão os potes floridos da terra do limonete!...
(De “O Chá de Limonete”)


Um grupo dos primeiros Inseparáveis

Esta era uma das tradições do 1º. de Maio da nossa terra. Outra. também este dia, era o da reunião de “Os Inseparáveis”. Também tínhamos foguetes!... Também tínhamos música!... Mas, sobretudo, tínhamos a alegria, filha de uma sã e indesmentível amizade.
Sempre desejado por todos, ainda o sol não era nascido já nós acorríamos ao local da reunião, na esperança de mais um dia feliz. E essa esperança, ano após ano, sempre se tornou uma realidade.
Acabou o grupo! Porquê?... “Os Inseparáveis”, desmentindo o seu nome, separaram-se porque foram vencidos pela morte. Partiram alguns para a grande viagem sem fim. Era impossível a continuação sem eles.
Hoje, resta-nos a saudade. E foi essa saudade que deu origem a esta reunião. Vamos visitar, à sua eterna morada, os nossos queridos companheiros já falecidos. As flores da nossa terra, desta Tavarede que eles tanto amaram como nós amamos, serviam neste dia para enfeitar os “potes floridos”. Servem-nos agora para testemunhar a nossa saudade. Depondo-as sobre as campas dos que já partiram e evocando a sua memória, confirmamos que a amizade, tal como a saudade, ainda existe porque é eterna.”

Deixo aqui, e antes de resumir a história do grupo, o nome de todos aqueles que, por mais ou menos tempo, fizeram parte de “Os Inseparáveis”:

“Adriano Augusto Silva, Alexandre Simões, Alberto Ferrão, António Augusto de Figueiredo, António Migueis Fadigas, Augusto Marques Pereira, Augusto da Silva Jesus, César Fernandes, Elói Domingues, Fernando Machado, Fernando Severino dos Reis, Fernando da Silva Ribeiro, Francisco de Carvalho, Isolino da Silva Proa, João Medina, João Nogueira e Silva, João Renato Gaspar de Lemos Amorim, João da Silva Cascão, Jorge Medina, José Fernandes Mota, José Francisco da Silva, José Nunes Medina, José Russo, Manuel Duarte Gomes, Manuel Fernandes Pinto, Manuel Nogueira e Silva, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Pedro Nunes Medina, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos”.

Destes, restam ainda vivos, felizmente, cinco: Fernando Machado, Manuel de Oliveira Cordeiro, Olívio Domingues, Ricardo Nunes Medina e Virgílio Ramos.
Como começou?
Em meados dos anos vinte, meu pai, Pedro, e seus primos Jorge e João Medina, resolveram criar o costume de fazerem uma almoçarada no dia 1º. de Maio. Almoçar e confraternizar nesse dia festivo. Logo no primeiro ano chamaram para junto de si o irmão e primo Ricardo, ainda sem idade para trabalhar e, portanto, como convidado.


À sombra do pinheiro manso, na eira da quinta de José Duarte

Estabeleceram desde logo a tradição do principal prato do almoço ser “raia cozida com molho de pitáu”. Vendo o prazer e satisfação daqueles familiares ao combinarem todos os pormenores, a irmã e prima Violinda, um pouco mais velha, logo se dispôs a lhes proporcionar uma singela sobremesa do tradicional arroz doce.
Mas eram poucos e, tendo tantos e tantos amigos seus conterrâneos, familiares ou não, logo nos anos seguintes, uns por convite e outros por iniciativa própria natural foi o aumento do grupo.
Não há elementos que permitam estabelecer a composição do grupo nas diversas reuniões. Para esta compilação, socorri-me do meu tio Ricardo (um dos cinco sobreviventes) e das fotografias, bem velhinhas, que existem.
Tomaram o nome de “Os Inseparáveis” e, efectivamente, formavam um grupo em que a amisade era nobre e verdadeira. Como exemplo, anota-se que, houve dois casos de conterrâneos inscritos mas que só lá estiveram um ou dois anos. Os seus feitios não se coadunavam com o espírito de “Os Inseparáveis” e, antes que houvesse problemas indesejados, foram convidados a abandonar o grupo.
Quando começaram a ser sete ou oito, houve que fazer algumas alterações ao sistema anterior. A raia de pitáu e o arroz doce já era pouco. Contrataram uma cozinheira: a Alice Fernandes, irmã do César. Consigo, e como ajudante, levou o Fernando, ainda muito novo e que, como paga do seu trabalho, participava nos “comes e bebes” gratuitamente, isto até se tornar sócio efectivo.
O “menú” foi reforçado. Além da raia, que sempre foi o prato forte, passou a haver ao almoço um prato de carne, normalmente bifes de cebolada.
Para o financiamento das despesas cada sócio comparticipava com uma quota semanal de um escudo (dez tostões!), o que dava cinquenta e dois escudos por ano e por sócio. Pois com este valor compravam o necessário para o pequeno almoço, almoço e jantar. E como compravam sempre os géneros em abundância, ainda iam jantar no dia seguinte. Era sempre uma fartura!
E como passavam o dia?
Manhã cedo, a alvorada. Foguetes e fanfarra na rua, acordando alegremente a aldeia com o acorde das violas, flauta, bandolim e outros instrumentos.

Alvorada, pelas ruas de Tavarede

Seguia-se o pequeno almoço. Pão acabado de sair do forno, manteiga, café com leite...
Eram, então, distribuidas as tarefas: uns iam ao mercado, à Figueira, fazer as compras, outros preparavam as instalações. Nos últimos anos era em casa do Zé Duarte, pai do sócio Manuel, que a cedia de boa vontade. E nos dias de sol, o almoço era na eira, da parte de cima da casa, onde, perto, havia um enorme pinheiro manso, que dava uma sombra mesmo convidativa.
Depois do almoço havia que fazer a digestão: “bem digerir o que bem comeram e melhor beberam...”. Jogos de futebol, jogos de malha, sestas, cartas tudo servia para passar a tarde alegremente. Várias fotografias recordam estas tardes!

Depois do futebol. Choram os vencidos, riem os vemcedores...

Chegada a hora do jantar, eis que se sentavam à mesa, prontos para o ataque. O almoço já lá ia. Arroz de ervilhas com galinha, coelho à caçador, era o costume. Mais sobremesa. Mais uns copitos. E, claro, para enfrentar a noite que ia caindo, nada melhor que uma “garujada”. E voltavam as violas, guitarras e bandolins a serem dedilhados. Não demorava muito para que meu tio José, músico de alta craveira, levantasse os braços para reger o orfeão. Bem afinadinho que, nessas coisas, ele não era para brincadeiras...
Lá vinha o “alecrim do monte”, a “menina Luísa” e outras tantas que faziam parte da tradição musical de Tavarede, terra de músicos como agora, infelizmente, não há

Não faltavam as velhas cantigas...

Era já noite alta, madrugada adentro, quando tocava a dispersar. Um último copo e, até amanhã ao jantar, para acabar com as sobras e fazer as contas. Os cinquenta e dois escudos, que cada um pagava de quota, davam e sobravam.
E ao despedirem-se, na sua maioria visinhos de todos os dias, fazia-se a habitual promessa: “P’ró ano cá estaremos!...”


(Caderno: Tavarede - A Terra de meus Avós - 1º.)