terça-feira, 13 de outubro de 2009

S. Martinho de Tavarede


A primeira vez que se encontra, em documentos históricos, o nome de S. Martinho de Tavarede, é na carta de doação feita por Gulvira Sesnandis e seu marido, Martim Moniz, a João de Gondesindiz, feita "no quarto dia dos idos de Fevereiro da era de 1130 (10 de Fevereiro de 1092).

"Concedemos-te na mesma já mencionada vila de S. Martinho todos que outrora ali recebeu Cidel Pais do Conde D. Sesnando, que Deus tenha...". Presume-se que este Cidel Pais terá sido o povoador e reedificador de Tavarede e da sua igreja, por ordem daquele Conde. Nada se sabe do que anteriormente Tavarede terá sido. Pode-se presumir que, pela sua localização e pela proximidade do mar, os fenícios terão povoado Tavarede, posteriormente conquistada pelos mouros, que no ano de 711 iniciaram a conquista da peninsula ibérica até que, no século XI começou a reconquista cristã.

Naturalmente que a vila de Tavarede terá sido devastada pelos 'infiéis'. Mas, naquele documento, diz-se 'o lugar de S. Martinho de Tavarede'. Portanto, aquele Santo, aliás de muita devoção em grande parte do nosso País, seria patrono da terra desde os tempos anteriores à conquista moura.

E quem foi este Santo? Foi Bispo de Tours. Filho de um oficial do exército romano, após estudos humanisticos em Pavia, entrou para o exército, contra sua vontade, quando tinha 15 anos. Antes, com 10 anos de idade inscrevera-se como catecúmeno. Foi baptisado no ano de 339 e abandonando a vida militar, foi ter com Santo Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras. "Ardente propagador da fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde sairam notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização. Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil".

Estamos a menos de um mês do seu dia. Tavarede, como há mais de 50 anos, irá, certamente festejá-lo, da forma do costume.

São várias as lendas que a tradição nos conta. Entre elas, conta-se a conhecida do 'Verão de S. Martinho'. Eu, no entanto, gosto mais da lenda da capa. Permitam-se a sua transcrição. "Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.
Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.
Este, cheio de fome, entro n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando podesse.
O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.
Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo".


Viva S. Martinho...
Reine a santa frescata... e chova vinho...
Ajoelhemos, tirando a barretina,
Ante o Santo que a todos nós domina.
Juremos, pondo a mão sobre o barril,
De fazer das guelas um funil
Quando o vinho corra... Viva! Viva
S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jorge Monteiro de Sousa e José da Silva Maltez

Hoje vou escrever um pouco sobre dois conterrâneos nossos, que apesar de algo doentes, ainda estão e estarão entre nós durante mais alguns anos. Todos os conhecem, todos os admiram e todos sabem que foram, e são, duas das grandes dedicações da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Não foi a pisar as tábuas do palco a representar, embora também o tenham feito, mas, sim, nos bastidores, trabalhando na montagem dos cenários, pendurando-os na teia, fazendo-os subir ou descer conforme as necessidades. Quem não conhece o trabalho necessário para a montagem das cenas? E então no palco antigo era um verdadeiro milagre conseguir a montagem de peças como, por exemplo, 'Chá de Limonete" e tantas outras, com diversas mudanças feitas sem falhas, em curtíssimo espaço de tempo.
Justíssima foi a homenagem prestada a estes dois grandes amigos da Sociedade, nomeando-os sócios honorários e colocando as suas fotografias no salão nobre da colectividade.

O Jorge é mais antigo. "Foi com dezassete anos que comecei a dar a minha colaboração ao grupo cénico", disse-nos ele aquando da elaboração do seu depoimento para o livro do Centenário. A primeira peça que ajudou a montar foi "A Nossa Casa", em 1943. Largas dezenas de cenários lhe passaram pelas mãos... Sob a orientação de Mestre José Ribeiro o Jorge Monteiro trabalhou no palco muitos e muitos anos enquanto a saúde lho permitiu.
Mas também representou. No auto de Gil Vicente, "Auto da Barca do Inferno", na década de 40, foi-lhe confiado o papel de 'Escudeiro', transportando a cadeira do fidalgo. Em tudo quanto era necessário, lá estava o Jorge a trabalhar. Nos bailes, montando e desmontando o estrado, que se instalava por cima da velha plateia, nas festas de arraial, fazendo as cordas de louro e de heras, montando os pavilhões, o mastro principal e, recordo-me perfeitamente, fazendo as pequenas pastilhas de gesso que serviam na barraca de tiro ao alvo... E até praticou desporto, pois fez parte da equipa de basquetebol da SIT. E isto foi há tantos anos... Quantas recordações, Jorge?

A equipa de basquetebol da SIT:
de pé e da esquerda para a direita - Vitor Medina, Jorge Monteiro, Manuel Lontro e José Figueiredo. à frente, João Pedro Amorim, José Ramos e Fermim Ferreira.






O Zé Maltez começou um pouco mais tarde a colaborar no palco. Mas, como ele recordou no seu depoimento, ainda chegou a ser professor na escola nocturna da colectividade que acabou em 1941!
Embora como ajudante, foi um grande colaborador do Jorge na montagem das cenas, cargo de que assumiu a responsabilidade quando o Jorge ficou impossibilitado de exercer estas funções, embora continuasse sempre a ajudar de acordo com as suas possibilidades físicas.
O Zé tem uma ligação muito especial à nossa colectividade. Seu avô, Fradique Baptista Loureiro, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Direcção da SIT, lugar que desempenhou de 1904 a 1907.
A sua estreia como amador foi em 1950, na fantasia "Chá de Limonete". Entrou na cena da "Doação de Tavarede", figurando papel de 'Mordomo do Rei'. Depois continuou e, ainda em 2006, participou no espectáculo dos 20 anos da morte de Mestre José Ribeiro. E dançava, com a Augusta Marques, muitíssimo bem, a 'Valsa do Limonete'.

Quantas recordações o Jorge e o Zé Maltez terão!!! Bons tempos!!! Mas, felizmente, ambos continuam a marcar presença quando solicitados. Que o possam fazer durante muitos anos, é o que sinceramente deseja este velho amigo.





Por recordações...
Por volta de 1950, fizémos um passeio a Aveiro, em bicicleta. Durante o almoço, numa tasca naquela cidade: O Zé Maltez, o António Marques e o António Tavares. Do grupo fazia parte o Zé Tavares, eu e não me recordo se havia mais algum.

domingo, 4 de outubro de 2009

Alberto Virgílio da Rocha Portugal Correia de Lacerda

Não era natural de Tavarede, mas foi na terra do limonete que viveu os seus últimos anos. Faleceu em 1974, encontrando-se sepultado no cemitério local.
Exerceu a sua actividade de professor de desenho na Escola Industrial e Comercial da Figueira, da qual chegou a ser director, até ser transferido, em 1929, compulsivamente por motivos políticos, para Lisboa, para a Escola Afonso Domingues.
Uma notícia de 1921, refere: “Teatro do Parque-Cine – Têm prosseguido activamente as obras do palco daquele grande teatro, cujo cenário está sendo pintado pelo distinto artista da capital, sr. Alberto Correia de Lacerda, que foi discípulo do mestre Carlos Reis, e cujo talento se tem afirmado em muitas obras de valor”.
Como desenhador e como poeta de enorme sensibilidade, foi dedicado colaborador da Sociedade de Instrução, pintando muitos cenários, os primeiros dos quais para a opereta “Grão-Ducado de Tavarede”, desenhando imensos adereços e figurinos, ou escrevendo os versos para “A Cigarra e a Formiga”, “Justiça de Sua Majestade” e “Ana Maria”, operetas que alcançaram enorme popularidade.
Em 1958, desenhou um quadro que “é um trabalho perfeito, equilibrado e colorido bizarro e difícil, que o pintor conseguiu com extraordinária visão e perfeita técnica”. Intitulou-o de “Quimono” e ofereceu-o à colectividade para ser sorteado a favor das obras de remodelação e ampliação. Também em 1965 e na Câmara Municipal da Figueira da Foz, esteve “exposto, durante alguns dias, um artístico painel decorativo, com a figura de Nuno Alvares, magnificamente desenhado e colorido, e que foi pintado no seu atelier em Tavarede”.
Em 1929 a Sociedade de Instrução Tavaredense nomeara-o seu sócio honorário e, no dia 14 de Dezembro de 1963, prestou-lhe homenagem. “… o director do grupo cénico, que destacou a preciosa colaboração de Artista e Poeta, que Alberto de Lacerda tem prestado à colectividade, que vê nele um amigo dedicado que lhe entregou o seu coração de verdadeiro criador de arte e cultor do mais belo e puro teatro. Recordou o apaixonado carinho que o ilustre professor começou a dedicar a Tavarede, desde que veio dirigir a Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz, na qual instituiu a primeira oficina de trabalhos manuais.
E ao referir-se aos numerosos ramos de flores que rodearam o homenageado naquele palco, disse que o ramo que lhe ofereceu a amadora mais antiga do grupo (Helena Medina), tinha também lúcia-lima, que é o mais expressivo e o mais aromático arbusto que a sua aldeia pode oferecer àqueles que lhe estão dentro do coração.
… agradeceu o homenageado a fidalga manifestação de simpatia que os seus queridos amigos tavaredenses lhe haviam dedicado, não com palavras que, na ocasião, não podia proferir, mas com as lágrimas da mais profunda gratidão pela carinhosa hospitalidade que sempre lhe dispensaram e de saudade pelos agradáveis e inesquecíveis momentos espirituais passados na Terra do Limonete”.
Quando faleceu, encontrava-se a trabalhar num dos seus quadros mais maravilhosos, “O Ensaio do coro” que, inacabado, foi oferecido à colectividade e que se encontra no salão nobre da colectividade.

(Caderno:Tavaredenses com história)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Nas Bodas de Diamante da SIT

Nos principios de 1978, quando se aproximava a data da comemoração das 'Bodas de Diamante' da Sociedade de Instrução Tavaredense, a Direcção, presidida pelo nosso saudoso amigo Carlos Lopes Pinto, convidou um determinado número de sócios para colaborarem na organização do programa comemorativo, pois entendiam, e muito bem, que a colectividade, com um passado histórico e brilhante que honrava não só os tavaredenses mas, igualmente, a cultura de todo o concelho da Figueira da Foz, merecia umas comemorações que ficassem bem marcadas no historial da SIT.
Fiz parte, com outros elementos, dessa Comissão. Foram distribuidas tarefas e cada qual se encarregou de se desempenhar da melhor maneira. As festas, que começaram no dia 1 de Dezembro de 1978, com um concerto dado na nossa sede pela Banda da Região Militar do Centro, tiveram enorme brilhantismo, dado o enorme empenho empregue pelo nosso querido Mestre José Ribeiro, que foi o principal obreiro das mesmas. Além da publicação do seu segundo livro sobre a SIT, '75 Anos... e Caminhando', no seguimento do livro editado pelas 'Bodas de Ouro'. sob o título '50 Anos ao Serviço do Povo', foi ele quem se encarregou de dirigir a exposição comemorativa da efeméride e, como não podia deixar de ser, o autor e ensaiador da fantasia "Ontem, Hoje e Amanhã", que teve a sua estreia no espectáculo de gala do aniversário e que, como todos bem nos recordamos, alcançou enorme êxito.
Temos, porém, de fazer justiça a uma pessoa a quem a Sociedade de Instrução Tavaredense ficou a dever muito do brilho alcançado nestas comemorações: o dr. José Manuel Leite, então presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, grande amigo da nossa colectividade e que teve total disponibilidade para nos ajudar na organização de alguns eventos.
Nas 'Bodas de Ouro', a Sociedade teve a honra de ter a presidir à sessão solene comemorativa, a grande figura da cultura portuguesa, o ilustre figueirense que foi o Professor Doutor Joaquim de Carvalho. Para as 'Bodas de Diamante' também se pretendia uma figura de prestígio cultural. Depois de muito se pensar no caso e de se sugerirem alguns nomes, acordou-se, por unanimidade, que a pessoa indicada para presidir à sessão solene desta efeméride, seria o Doutor David Mourão Ferreira, também ele enorme figura da cultura portuguesa, e que havia sido nomeado Secretário de Estado da Cultura, pelo Prof. Dr.Mota Pinto, primeiro-ministro.
Claro que, uma vez mais, recorremos ao nosso amigo Dr. José Manuel Leite. E lá fui eu, com um outro elemento da comissão, solicitar uma reunião para lhe apresentarmos a nossa sugestão e o pedido para, oficialmente, a Câmara fazer o convite.

Ora, antes de continuarmos esta historieta, vou buscar uma notícia, publicada em Março de 1977 na imprensa figueirense, onde se escreve: "Em reunião da Câmara Municipal, realizada no dia 24, foi deliberado homenagear o sr. José da Silva Ribeiro, democrata de sempre, cidadão exemplar e figura ímpar do Teatro Amador, atribuindo-lhe a medalha de ouro da Cidade da Figueira da Foz. Comunica-nos o seu presidente, sr. dr. José Manuel Leite, que a imposição dessa medalha deverá ser feita em cerimónia pública, em data e local a marcar oportunamente, para que a sua obra em Tavarede, merecedora de consideração e respeito de todos nós, tenha a consagração que merece".
Pois é verdade, mas Mestre José Ribeiro sempre foi avesso a homenagens e a Câmara não havia conseguido dele a marcação da acima referida 'cerimónia pública'.
O certo é que, mal o Dr. Leite ouviu a nossa pretensão, logo nos disse: "Comprometo-me a trazer cá oficialmente o Dr. Mourão-Ferreira, salvo impedimento da agenda, com a condição de vocês conseguirem que Mestre José Ribeiro receba, nessa sessão, a medalha que a Câmara lhe atribuiu". Não foi fácil desempenharmo-nos do encargo, como é de calcular, mas, depois de muita insistência, conseguimos a anuição do Mestre.
E assim foi. Veio o Dr. Mourão-Ferreira, que ficou encantado com a representação da peça 'Ontem, Hoje e Amanhã' e que presidiu à sessão solene. Eis um pequeno recorte da reportagem deste acto:


"Também o sr. Presidente da Câmara, que orientou os trabalhos da brilhante sessão, prestou as suas homenagens à SIT e a José Ribeiro, lendo e comentando as expressões contidas no Diploma de homenagem do Município àquele “cidadão exemplar, democrata de sempre e figura ímpar do Teatro”.
Depois das palavras sempre brilhantes de José Ribeiro em saudação ao Secretário de Estado da Cultura e em agradecimento pela homenagem de que estava sendo alvo, falou o Dr. David Mourão Ferreira.
Começou por manifestar a grande honra de participar nestas celebrações das Bodas de Diamante e nas homenagens a José Ribeiro, e disse:

Não é a minha presença que confere qualquer espécie de honra a este acto. Pelo contrário, eu é que me sinto particularmente honrado de ter vindo aqui a Tavarede, de ter ontem assistido à peça “Ontem, Hoje e Amanhã” e de ter tido ocasião de contactar com o povo de Tavarede e de ver não só o grau de cultura e de educação cívica que esse povo tem – e isso já eu sabia – mas de ver também os tesouros de sensibilidade que esse mesmo povo guarda dentro de si. E devo acrescentar que me emocionou particularmente ver ainda há pouco, quando o sr. José Ribeiro era alvo desta homenagem, que havia lágrimas em muitos olhos....".E foi assim que, aproveitando uma oportunidade única, a Câmara Municipal da Figueira da Foz entregou, em cerimónia pública, a medalha de ouro que, sob proposta do vereador dr. Armando Garrido, havia concedido, por unanimidade, ao nosso inesquecível conterrâneo.

Associativismo - Os princípios (7)

Além dos teatros e das tunas, as duas associações existentes nos finais do século dezanove, também promoviam a realização de festas de convívio para os seus sócios e simpatizantes. Destas festas, salientavam-se os bailes, sempre agradáveis à mocidade. E não deixa de ser bastante curioso o facto de, três dezenas de anos antes, uma orquestra para animar os teatros era composta por uma flauta, uma viola e um violão, e, em relativamente pouco tempo, Tavarede dispor de duas tunas (Bijou e Estudantina) e possuir músicos em quantidade e com qualidade.
Um desses bailes teve lugar na Estudantina, em Abril de 1897. Eis uma pequena notícia sobre o acontecimento:
"Nem só nas grandes cidades a alma popular se expande no seu regozijo íntimo.
Nas pequenas povoações, como Tavarede, o mesmo facto se dá.
O dia 18 do corrente passou alli como um dia de festa. A Estudantina Tavaredense deu aos seus associados um dia de gozo, proporcionando-lhes, no Paço dos Condes de Tavarede, um baile campesino.
Muitas raparigas e rapazes da povoação concorreram a elle, animadas de fraternal convívio, e essa noite passou-se vaporosamente como um sonho de amor.
A dança, animada por dezenas de esbeltas raparigas, prolongou-se até 11 horas da noite, ficando todos com saudade das horas que alli passaram.
Um delicado copo d’água, mandado distribuuir pela direcção da Tuna, veio pôr termo àquela noite de regozijo, como poucas se encontram na vida.
À Estudantina Tavaredense, que nos proporcionou umas horas de tanto prazer, aqui deixamos inscriptos os protestos de gratidão de que lhe ficamos devedores".
As duas tunas realizavam diversas deslocações. Uma era prática usual todos os anos: a Montemor-o-Velho, para animar os festejos em honra de Nossa Senhora do Desterro. Em 1896 deslocaram-se ali as duas tunas. Separadas, é claro. Vejamos uma notícia sobre esta deslocação:
"Eram 9 horas da manhã, quando chegaram à Ponte d’Alagôa os carros conduzindo a magnifica Tuna Tavaredense, sendo-lhe ali feita uma enthusiastica recepção por muito povo que ali a esperava e pela philarmonica que entoou o ordinario El-Judas.
Os tunos porém, que esperavam ser recebidos pelo Sol-e-Dó d’esta villa, ao qual tinham officiado, e não pela philarmonica, ficaram por isso em principio hesitantes e atrapalhados, perguntando entre si se aquella festa seria dirigida a elles, o que tendo sido notado por nós, fomos tiral-os d’aquellas duvidas, apresentando ao seu digno regente o sr. Gentil Ribeiro, o sr. Benedicto Galvão, presidente da philarmonica, e o professor d’esta, Pio Ferran afim de que lhes agradecesse.
Dadas estas explicações e trocados os cumprimentos do estylo entre as duas sociedades musicaes, tendo já descido os tunos dos carros, trataram logo de formar a afinar os instrumentos depois do que, pararam em frente da philarmonica, executando com muito mimo e com muito agrado dos circumstantes o hymno da sua sociedade.
Em seguida rompeu a marcha pela rua das Metearias, com um bonito ordinario, dirigindo-se ao arraial, no Largo dos Anjos, emquanto a philarmonica continuava esperando debaixo das árvores da Ponte d’Alagôa, a orquestra da rua das Cannas, d’essa cidade, que se dizia vir despicada com aquella.
....................
E isto porque ali vinham alguns membros da Tuna Bijou Tavaredense, reforçados com outros rapazes da orchestra da rua das Cannas, d’essa cidade.
Quando estavam sahindo da barca, a philarmonica retirando debaixo das arvores veio esperal-os seguida por centenares de pessoas, à beira do rio, onde, abrindo-lhe alas lhes fez como à Tuna Tavaredense uma saudação imponente, levantando então o sr. Antonio Prôa, que representava ali o sr. João da Luz Robim Borges, digno presidente da Tuna Bijou Tavaredense, um enthusiastico viva à mesma philarmonica e ao seu presidente Benedicto Galvão, que foi correspondido com outro levantado ao povo figueirense, depois do que retirou a philarmonica para a sua casa d’aula, precedida da orchesta recem-chegada.
Chegados àquella casa, a segunda d’estas sociedades demorou-se ali algum tempo fazendo-nos ouvir alguns dos seus mais escolhidos trechos musicaes, primorosamente executados, exemplo que foi seguido mais tarde pela sua rival Tuna Tavaredense".
Havia rivalidade, é certo, mas nada de extraordinário.

(continua)

Na Feira de Maiorca

A ultima feira de Maiorca, do dia 17, foi um tanto caipóra para o sr. José Cordeiro, que é um bom velho, lá isso é, e amigo dos seus amigos, mas que d’esta vez teve pela prôa dos taes de... Peniche.
Foi o caso que aquelle excellente cidadão tinha uma burra, e escolheu aquella feira para vendel-a ou trocal-a. Uma vez alli, acercaram-se do pobre velho dois ciganos - dois refinadissimos marotos - e um d’elles propoz-lhe logo a troca da burra por uma outra que o mesmo malandrim trazia consigo.
O sr. Cordeiro, ao que parece, sympathizou mais mais com esta e... mais um... menos um... sempre combinaram: o sr. Cordeiro dava a sua burra e tinha de voltar ainda 4$000 réis. Mas n’isto sugeriu uma dificuldade que de prompto se não podia resolver: o pobre velho não tinha n’aquelle mommento aquella quantia...
- Não tem duvida, diz-lhe o segundo gatuno, que apparentava não conhecer o primeiro; empresto-lhe eu os 4$000 réis. - Já o conheço ha muitos annos e por isso não desconfio de si.
O sr. Cordeiro que ficou commovido com a franqueza d’aquelle seu velho conhecido, acceitou o offerecimento e passou os 4$000 réis para a mão do primeiro gatuno; este assim que se viu com a massa e com a burra tratou logo de ir passeal-a a ver se andava bem... a passo travado.
O segundo ficou-se por alli, girando d’um lado para o outro, a dar tempo que o outro chegasse a... Cascos de Rolhas; depois do que, fingindo um caso d’urgencia imprevisto, dirigiu-se logo ao sr. Cordeiro exigindo-lhe os 4$000 réis visto não poder ficar mais tempo porque precisava de se retirar immediatamente.
O pobre velho ficou atrapalhado de tal forma com a exigencia repentina do seu conhecido, tanto mais que ficou logo rodeado de mais alguns meliantes, que se viu obrigado a vender logo a nova burra. Esta, que naturalmente estava a pedir fabrica de guano, não rendeu mais de 3$000 réis.
Foi então que o sr. Cordeiro foi percebendo que tinha sido victima d’uma ciganice e não quiz dar os 1$000 réis que faltavam.
Foi o bastante para o atrevido mariola querer aggredir o pobre velho, dizendo-lhe que não queria saber se o outro era ou não gatuno, porque o não conhecia.
Finalmente, foi preciso que outras pessoas interviessem, porque o velho além de ficar sem a sua burrinha, esteve ameaçado de sova e de ser atacado nas algibeiras, não obstante ver-se obrigado a voltar para casa á pata... e apenas com a esperança de alguma vez caia um raio que parta aquella raça de conhecidos, já que alli nunca apparece a senhora policia para dar caça aos meliantes.
Esta história aconteceu em Março de 1896 e foi publicada no jornal 'O Povo da Figueira'.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma história de outros tempos - A Quinta do Robim


Já aqui publiquei a história do sr. João António da Luz Robim Borges, que herdara a quinta do seu familiar dr. Borges e hoje vou contar, melhor, transcrever, umas notícias das transformações que fez na referida quinta e de uma festa com que o brindaram no dia em que fez 39 anos de idade.
Foi em Maio de 1897. Eis as notícias:

"Completa amanhã 39 annos o sr. João Antonio da Luz Robim Borges.
N’esta occasião, em que os amigos d’este benquisto cavalheiro o felicitam com sincera cordealidade no seu aniversario, seja-nos permittido que a essas felicitações e às nossas juntemos algumas palavras que são d’inteira justiça pelas qualidades que enaltecem o caracter do sr. Robim Borges.
Descendente d’uma familia de negociantes, que pela sua actividade e honradez nunca desmentida alcançaram avultados bens e um logar preponderante na classe commercial de Lisboa, o sr. João Robim encontrou se ainda novo de posse d’uma fortuna importante e, pago o indeclinavel tributo que todo o homem digno d’este nome deve à juventude, principalmente quando esta é realçada pela riqueza e por uma irrequieta e vermelha saude, abandonou por completo a vida agitada e brilhante da capital pela remançosa tranquillidade provinciana, installando-se na Figueira, onde há annos vive, estimado por quantos com elle entreteem relações d’amizade.
Vivendo largo tempo no sport lisboeta, o seu genio de rapaz, acostumado a uma existencia agitada e um tanto febril, devia fatalmente ressentir-se da transplantação para um meio pacato e ordeiro, que obriga a solo na Assembleia e metter o corpo em valle de lençoes às 10 horas. Em vez de submetter-se a estes habitos caturras, preferiu rodear-se d’alguns amigos e levar uma existencia socegada, a seu modo, mas que não exclue a applicação da natural actividade.
Herdeiro da antiga Quinta do Borges, na Varzea, com dinheiro, com energia e com bom gosto, conseguiu transformar radicalmente o abandonado predio n’uma esplendida propriedade, n’uma magnifica vivenda, talvez sem egual no concelho da Figueira.
A Quinta do Borges, ainda há poucos annos quasi um pousio, quasi em absoluto abandono, é hoje a admiravel e deliciosa Villa Robim, onde o agricultor rotineiro tem que aprender e onde o visitante de bom gosto tem que apreciar e invejar. É uma propriedade rural à moderna, com todas as exigencias impostas pela sciencia da cultura e com todas as commodidades e elegancias que o confortavel não dispensa.
Isto, que já representa muito, pois que a realisação de todas estas cousas o actual possuidor da negligenciada propriedade teve de espalhar uma parte da sua valiosa fortuna, beneficiando principalmente as classes trabalhadoras, não é só titulo bastante para a nossa consideração e estima. O sr. João Robim, porém, tem feito muito mais.
É um philantropo sincero, sem vaidades, não dando ostentação à caridade. A classe operaria encontra n’elle um protector, um bemfeitor d’inexgotavel generosidade, e a porta da sua habitação nunca se fechou para aquelles a quem a miseria empolga e a desgraça salteia.
É um verdadeiro benemerito, é um coração do mais fino quilate. Por isso não é de mais a estima e a consideração que os figueirenses tributam àquelle a quem muitos com lagrimas de sincera commoção abençôam no dia do seu anniversario".

"... Foi elle que lhe modernizou a quinta e lhe deu o nome por que ficou conhecida.
Situada no fundo da bacia de Tavarede, a pouco mais d’um kilometro d’esta cidade para o nordeste, a perto de seiscentos metros ao sul daquella povoação, e a uns quatrocentos metros do Casal da Robala, que lhe fica a sueste, é rodeada por montes de pequena elevação que se multiplicam pelo nascente e poente, ao norte pelo prolongamento da Serra do Cabo Mondego, abrindo-se ao sul e em frente da villa uma extensa varzea, com disvello cultivada, que se termina no Rio Mondego.
Atravessando esta, existe um ribeiro dimanado da parte norte de traz de Tavarede que, atravessando-a toma o nome d’ella - ribeiro da Varzea, que vae desaguar no rio.
Ha duas fontes na mesma baixa ou varzea, tendo uma d’ellas este nome, e outra o de fonte da Lapa.
Ha uma estrada que liga directamente esta cidade com a villa e é a que segue pelo norte d’aquella indo pelo caminho da fonte da Varzea até lá.
Outra, que se dirige por junto da estação do caminho de ferro da Beira, e estrada de Mira.
Por Tavarede, e Casal da Robala, ha para ali tambem umas rasoaveis communicações viarias.
Quasi rodeada em circulo por pequenos montes, como dissemos, fica a Villa Robim emmoldurada por terras agricultadas, de cores variadas, fazendo pendant, o agradavel verde-escuro dos pinhaes que aqui e ali se vêem pelas encostas, em pequenos rectangulos, com as culturas de plantas de verde-claro, que se estendem em terrenos das baixas regadas pela abundancia d’agua que por ellas se ramifica. A longos tratos admira-se tambem, nos terrenos proprios, os vinhedos luxuriantes, aonde, por bem tratados, se distinguem os da Villa Robim.
Os pomares merecem tambem, na baixa e encostas de que falamos, de especial mensão, abundando as macieiras, ameixieiras, pereiras e figueiras, alem de uns raros pomares de larangeiras, que em uma ou outra parte existem.
A Villa Robim, inteiramente reformada, depois que o sr. Robim Borges tomou conta d’ella, como herdeiro de seu tio o sr. dr. José Joaquim Borges, é por assim dizer hoje uma quinta-escola agricola.
Graças a uma boa fortuna que possuia, e que adquiriu depois pelo fallecimento de seu honrado pae o sr. João Robim Borges, conceituadissimo negociante da praça de Lisboa, fez d’aquella pequena extensão de terreno, d’então, uma razoavel propriedade, tanto encarando-a pelo seu acrescentamento de terreno de que tem cuidado, como pela forma por que tem sido tratada agricolamente, segundo os novos processos da sciencia.
A propriedade acha-se dividida para as diferentes especies de culturas, em conformidade com o terreno, com as circumstancias climatericas e a necessidade de aguas correntes onde rega.
Havendo a difficuldade de levar a alguns pontos mais imminentes a agua da rega, ha bombas e lavatorios para isso, e uma boa disposição de canalisação attinente ao mesmo fim.
O pessoal de trabalhadores na villa, actualmente, regula, pelo que nos informam, entre cincoenta a sessenta jornaleiros, não contando n’este numero os que permanentemente lá residem.
E por ahi se pode avaliar a quantos o sr. Robim proporciona o pão quotidiano, embora remunerado em trabalho relativo.
N’este ponto, obrigam nos as nossas intensões a dizer que oxalá outros seguissem o mesmo caminho, fazendo valer para si e para os seus operarios o seu dinheiro, como faz o sr. Robim.
Que Deus lh’o amontoe para o poder distribuir...
Na actualidade, tem um lagar prompto, construido á moderna, já destinado a uma colheita vinicola, maior, quando tenha alargado a sua propriedade, como tenciona.
São inumeros os animaes contidos, systematicamente na Villa Robim: Bois, cavallos, carneiros, cabras, ovelhas, gansos, perús, gallinhas, patos mudos, patos triviaes, etc., e iria por ahi além a nossa narrativa se tivessemos de fazer uma completa resenha.
As porcheries, habitação de porcos, são pratica e scientificamente cuidadas, vivendo n’ellas animaes de differentes raças apuradas, não n’um immundo esterquilinio, como é corrente por ahi, mas em divisões appropriadas á higyene e em boa disposição ao desenvolvimento animal.
Das cavallariças não fallemos; é ir e ver.
Além d’outros, apresentam-se no logar cinco ou seis cavallos que, pela sua estampa, bem dizem dos que os escolheram e do bom tratamento que tem tido. Cavallos de tiro.
Para se ver quanto importante é o sustento d’estes animaes bastará repetir o que ouvimos dizer: seis mulheres andam diariamente no apanho de erva para elles.
Na cocheira, no dia dos annos do sr. Robim, estava, em alto, um tropheu de cousas allusivas á pecuária adornado de campainhas e guisos.
Era tambem objecto de admiração, a cabeça, rara, de um carneiro tricorne, dissecada e cheia de algodão.
Chegando até aqui, em uma resenha defeituosa, talvez porque melhor não podemos fazer, da Villa Robim, vamos falar das festas do anniversario do seu proprietario o sr. João Antonio da Luz Robim Borges.
Sobre a madrugada do dia 9 do corrente, quando a luz da manhã começava a espalhar a sua claridade sobre a Villa Robim, fazendo avultar no escuro ainda, a claridade das suas habitações, rompia no largo proximo á habitação do sr. Robim, o toque d’uma fanfarra ida d’aqui, a dar lhe a alvorada no seu dia d’annos.
Sem prevenção antecipada, ficou aquelle senhor surpreso, vindo á janella a recebel-os.
Era uma troupe de operarios que lá ia, em reconhecimento do que a favor da sua classe tem feito.
Bem recebidos, bem tratados, e tudo o mais que era de esperar do cavalheirismo do sr. Robim.
Durante o dia foi uma romaria á villa, não só de gente d’esta cidade, como das povoações proximas de Tavarede, Casal da Robala, etc.
Houve dansas, descantes, musica, e isto até altas horas. Pela 1 da noite, retirou a fanfarra dos operários, tendo antes agradecido ao sr. Robim todas as amabilidades de que foram alvo.
Á casa d’aquelle senhor haviam chegado de Lisboa n’aquelle dia mais de vinte pessoas de familias da sua amizade, que vieram congratular-se com elle no seu anniversario, tendo tambem reunido á sua mesa alguns amigos intimos d’esta cidade.
A festa acabou no dia 10, pela manhã.
Deixou a todos gratas e saudosas recordações, evidenciando-lhes que, aquella homenagem tributada ao sr. Robim Borges, era, não só pelo seu cavalheirismo, fino trato e posição, mas tambem um abraço fraternal do povo que o estima e venera, pelas suas excellentes qualidades humanitarias...".
Como está diferente a Quinta do Robim! Irreconhecível. Do que acima se fala só tenho fotografias da velha fonte da Várzea. Será que alguém (talvez o amigo Rogério) tenha uma ou duas fotografias antigas para aqui inserir? Era mais uma recordação.






As lavadeiras no ribeiro da Várzea

Cântaros com água fresquinha

O que restava da velha fonte, antes da sua destruição