quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Festa do Santíssimo

Como estava anunciado, realizou-se effectivamente no sabbado e domingo ultimos a festa em honra do SS. Segundo o que dissémos, a festa foi promovida por esta irmandade, ha pouco fundada n’esta freguezia, para assim festejar a sua inauguração official.
No sabbado, pelas 8 horas e meia da noite, chegou a esta risonha aldeia a philarmonica das Alhadas. Á sua chegada foram lançados ao ar muitos foguetes e deu-se começo aos festejos.
A noite apresentou-se feia, de um tempo chuvoso e acompanhado de vento sul que soprava com alguma violencia, dando-nos apenas um pequeno aguaceiro, que ainda assim fez desanimar os promotores da festa.
No largo em frente da egreja, onde se deviam realisar os festejos, o vento soprava com mais força, visto aquelle local se achar desabrigado, não podendo por isso illuminar-se convenientemente tanto a frontaria da egreja, como um pequeno pavilhão que se achava armado para a musica tocar, e por cujo motivo não o poude fazer.
A egreja esteve exposta é veneração dos fieis desde as 8 horas da noite até ás 11, sendo muito visitada.
O fogo foi regular.
Danças, apenas um pequeno rancho dansou na rua Direita, desde as 11 horas da noite até á 1 e meia da madrugada, mas muito desanimado em consequencia do tempo.
Domingo, o dia esteve lindissimo, celebrando-se com a maior pompa e solemnidade a missa e procissão. Era quasi meio dia quando se principiou a dizer a missa, acabando perto das 3 horas da tarde. O templo regorgitava de christãos. Foi cantada pelo revº. Manuel José da Cunha, que actualmente está fazendo as vezes de parocho da freguezia, por este se achar ausente, acolytando sua reverencia n’este acto religioso os srs. padres Fortunato das Neves, das Alhadas, e Emygdio, d’essa cidade. Ao Evangelho subiu ao pulpito o revº. parocho da Ferreira, sr. Manuel Vicente, que prégou muito bem.
Acabada a missa formou-se a procissão que foi concorridissima, e sempre na melhor ordem. N’ella viam-se encorporados além dos respectivos sacerdotes, um grande numero de irmãos e muitas creancinhas vestidas de anjo. Fechava a procissão a philarmonica Alhadense, tocando uma bonita marcha adequada a este acto. A procissão recolheu á egreja pelas 4 horas.
O côro era, como dissemos, composto por distinctos cantores e musicos de Coimbra e d’essa cidade. Foi magnifico. É digno de muito elogio o nosso conterraneo sr. José Gomes Cruz, um bom amador musical, que empregou todos os esforços para arranjar um excellente côro, para cujo serviço se tinha promprificado gratuitamente.
O sr. Horta a quem estava confiada a decoração da egreja, mais uma vez revelou as suas aptidões para este serviço, pois que a armação tinha um aspecto elegante.
Durante o resto da tarde o templo foi muito visitado.
A Estudantina Tavaredense tambem formou um rancho no mesmo local onde tinha dansado o outro na vespera e madrugada, estando sempre muito animado e dansando-se até ás 8 horas da noite.
E assim acabou esta festa, que agradou muito, louvando nós desde já a irmandade promotora, e desejando que ella para o anno se faça com o mesmo esplendor.

(Gazeta da Figueira - 23.Setembro.1896)

A matança do porco

Não há muitos anos ainda, as famílias dos arredores da cidade criavam o seu porco, alimentado com as sobras das refeições e para o qual se cozinhava propositadamente a “lavagem”, com água, couves e farinha ou sêmea, o que permitia que o toucinho entremeado ficasse mais gostoso.
A matança, geralmente em Dezembro e escolhida a fase da lua conveniente, segundo a boa tradição popular, era pretexto para a reunião de toda a família. Faziam-se os bolos de sangue, as morcelas, as papas de moado, e conservavam-se na salgadeira os ossos e o toucinho. Preparavam-se os negritos, os chouriços e os presuntos que haviam de chegar para todo o ano, sem falar na banha, nos rojões, no sal de unto e nos torresmos. Os lombos assados no forno eram conservados em banha e comiam-se parcimoniosamente nos dias de festa. Até a cabeça era aproveitada, juntamente com as queixadas, a língua, as orelhas e os miolos, de que se preparava um prato requintado com ovos, pedaços de carne e miolo de pão.(Figueira do Passado ao Presente - Gastronomia e Culinária)


Recordo-me, nos meus tempos de criança, e, até, já de rapaz, os dias da matança do porco, quer em Tavarede, em casa dos meus avós paternos, quer em Reveles, em casa do meu tio Joaquim ou da minha tia Idalina.
Em Tavarede acabaram mais cedo. Minha avó morreu em 1946 e nunca mais houve aquela casa de trabalho, mas de fartura, que era apanágio das casas da aldeia dos que amanhavam as terras em maior ou menor dimensão.
Em Reveles, por muitos anos eu ia para lá para assistir à matança do porco. Era, para mim, uma festa. Todos gostavam muito de lá me ter e faziam tudo para que eu me sentisse bem. E conseguiam-no, facilmente. Não sei em qual das casas eu me sentia melhor, com o tio Joaquim e a tia Palmira, se com a tia Idalina e o tio Cristino.
Acompanhava, passo a passo, todas as tarefas. Desde irem os homens buscar o animal ao curral, prendê-lo e sangrá-lo até ao amanhar. Depois ia com as mulheres até ao rio, onde lavavam as tripas.
O sarrabulho e as febras eram uma farturinha. À noite faziam os “tortalhos”, que, mais tarde, eram comidos quentes, normalmente com o café.
No dia seguinte, lá estava eu a assistir ao desmanchar o animal, separando as carnes para a salgadeira, as banhas para derreter e a prepararem os enchidos, que iam para o fumeiro.E que saborosos eram!...
Anos mais tarde, era a matança do porco em casa do saudoso Eloi Domingues, que era um dia de festa para nós. Tenho belas recordações destas reuniões. Assistia, como sempre, às operações da matança e seguintes. Quando o animal já estava pronto para ser amanhado, havia petisco: bacalhau assado, passas de figo, tinto caseiro e geropiga que ele fabricava.
Ao almoço não faltava a tradicional sopa à lavrador, que pedia sempre 'bis'. Depois as febras, o sarrabulho, etc. Para fazer a digestão, e depois de pendurado o 'bicho', tinha sempre lugar rija disputa de 'garujo', onde se ouviam, a cada instante, as célebres 'cantigas' de seis, nove e por aí fora. Era assim, até à hora do jantar. Canja, febras fritas, papas de moado, etc.
Já lá vai tudo isto... Mas, as saudades, essas são muitas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Um cortejo 'reacionário'

Quando folheávamos os nossos apontamentos, despertou-nos a atenção uma local, publicada no jornal “Correspondência da Figueira”, em Outubro de 1881. Diz assim:

AO SR. BISPO-CONDE

Não somos denunciantes de pessoa alguma, mas não podemos também deixar de fazer subir ante s.exª. as queixas que por aí se ouvem com respeito ao reverendo que está encomendando a freguesia de Tavarede.
Pode ser que haja exagero no que se diz, e cremos até que assim seja; mas dando-se os devidos descontos e feito um abatimento de cinquenta por cento, fica ainda uma carga regular para o tal reverendo.
Bom seria, pois, que s.exª. mandasse apurar o que há de verdade por meio de uma sindicância. Nem queremos que aquele pastor esteja sendo vitima de acusações menos verdadeiras, nem que continue apascentando o rebanho que lhe está confiado, se não está nas condições de bem cumprir os espinhosos deveres da sua missão.
É certo que o sr. Bispo Conde não tem sido de uma escrupulosa imparcialidade para com alguns dos seus irmãos em Jesus Cristo neste concelho; cremos, porém, que, neste caso, cerrará ouvidos a pedidos, e fará justiça recta, embora tenha de sacrificar o tal encomendado.
E assim o esperamos confiadamente: de contrário, e ainda sob pena de qualquer excomunhão com que s.exª. nos possa fulminar, não cessaremos de pedir que se olhe com misericordiosos olhos pelos católicos romanos da freguesia de S. Martinho de Tavarede.

Curiosamente, só anos mais tarde encontrámos a explicação para aquele alerta ao Senhor Bispo, e num outro periódico: “Comércio da Figueira”. Era, então, pároco em Tavarede o reverendo António Augusto da Silva Nobreza. A Junta de Paróquia era à altura constituída por João José da Costa, da quinta dos Condados, José Maria de Almeida Cruz, Manuel Jorge da Silva, António da Cruz, José Luís Inácio e José Maria Luís.

O reverendo padre, e isso era normal naqueles bem complicados tempos, andava de “candeia às avessas” com muitos dos seus paroquianos e, também, com a própria Junta. Antes que me esqueça, recordo que a Junta de Paróquia tinha instalação numa dependência da Igreja matriz, junto à sacristia, onde se reuniam e guardavam as suas coisas.

Na acta de 9 de Janeiro de 1881 a Junta deliberou exarar em acta todos os benefícios que o seu presidente, João José da Costa, tinha feito em benefício da paróquia. João Costa havia assumido a presidência da Junta, depois de ter sido presidente da Câmara da Figueira durante vários mandatos, e mandara fazer, à sua custa, importantes melhoramentos para a nossa terra, nomeadamente o teatro na sua casa do Terreiro (1885). Relativamente à Igreja, e segundo aquele registo, havia suportado os seguintes custos:

= doação da quantia de 19$200 reis para compra de um terreno para alargamento e aformoseamento do adro da Igreja;
= pintura do teto da Igreja e arco cruzeiro, no valor de 54$645 reis;
= encarregou o reverendo pároco de mandar vir de Lisboa o lustre, que custou 37$580 reis, vindo tudo a importar em 111$425 reis.

Entendeu, portanto, a Junta de Paróquia não ficar silenciosa a tão grandes e relevantes serviços prestados por aquele senhor, pelo que “aqui os deixa narrados, para que os presentes e vindouros se recordem sempre com viva saudade de tão benemérito cavalheiro”.

Mas a Junta havia começado a receber muitas reclamações dos seus paroquianos relativamente ao reverendo Nobreza, a quem acusavam de parcialidade e não cumprimento das suas obrigações religiosas para com muitos.

Sejam quais forem os direitos de intervenção e atribuições do pároco em relação ao assunto (tratou-se de um funeral), não há nem podem haver leis canónicas, nem as da constituição do bispado, que autorizem e concedam poderes discricionários, e tão abusivamente praticados, que permitam ao pároco a exclusiva imposição da hora, porque é repugnante e intolerável, de consequências perniciosas como acaba de se dar, e por isso exigem que sejam repelidas pela mesma forma como se exercem e praticam.
É bem conhecido, que o pároco de uma freguesia tem obrigações permanentes e inadiáveis a cumprir; vive à custa dos paroquianos, que exclusiva e directamente lhe pagam para prestar-lhes os serviços que a religião estabelece, não podendo ser substituídos senão por um sacerdote; portanto o pároco nunca pode dispor da sua pessoa por forma que se fique absolutamente inibido da sua concorrência pessoal na freguesia, e quando um comprometimento meditado o não possa fazer, é costume e sua estrita obrigação prevenir um sacerdote, por forma que sendo chamado, acuda e satisfaça aos actos e obrigações, sejam eles conhecidos ou acidentais, pois que o pároco não exerce profissão de padre como um ofício qualquer de que se recebe salário em certas e determinadas horas de serviço, para ir quando, como, e aonde lhe for vantajoso ou agradável: tem os encargos e obrigações exclusivas da religião, que queira ou não há-de forçosamente cumprir. É nenhuma a consideração que este sacerdote presta ao cumprimento dos seus deveres e obrigações, praticando abusos e excessos que o qualificam impróprio e incapaz de exercer este ministério
”.

Prosseguem as actas com um chorrilho de acusações ao pároco, notando-se, perfeitamente, que era mais o adversário político que se atacava do que o padre da freguesia.

Em Agosto de 1884, solicitou a Junta autorização, com carácter de urgência, à Comissão Distrital de Coimbra para umas obras absolutamente necessárias. Apesar do pedido de urgência, a resposta não chegava, até que, no dia 18 de Setembro pelas 7 horas da manhã, o padre Nobreza, avistando da janela o presidente João Costa, que recolhia a casa de um pequeno passeio matinal, foi atrás dele e entregou-lhe um ofício que tinha em seu poder, sem saber como lhe chegara…

Era um ofício datado de 30 de Agosto, em resposta ao seu e no qual solicitavam esclarecimentos adicionais necessários à autorização requerida. Para justificar o atraso na resposta, solicitou a Junta, em ofício dirigido ao pároco, a informação de como o ofício fora recebido em sua casa e por que só passados tantos dias lho entregara.

Pois só no fim de Outubro o padre Nobreza respondeu dizendo “ignoro, para dizer com segurança, como o ofício que lhe entreguei, veio ter a esta casa, nem mesmo sei dizer o dia em que chegou, pois foi em ocasião em que eu não estava, sendo recebido provavelmente por minha criada com a minha correspondência. É certo que há poucos dias dei com ele envolvido com outros papéis, e vendo vossa senhoria da minha janela me resolvi a ir pessoalmente entregá-lo fazendo conhecedor nessa mesma ocasião dos motivos de demora”.

Os ânimos azedaram-se, de tal forma que o pároco chegou a dar ordens ao sacristão para não abrir a porta da Igreja para entrarem para as reuniões. O presidente João Costa não hesitou mais. Sendo dono de uma casa velha que estava desocupada, de imediato resolveu para ali mudar a Junta e mandou buscar a mobília e mais pertences que, com grande oposição do padre Nobreza, o sacristão acabou por entregar.

Como referi tudo isto não passavam de questões políticas. E para o confirmar vou acabar a historieta da mudança da Junta da Igreja, com a transcrição de um caso bem elucidativo. Em Novembro de 1883 houve eleições municipais. As urnas deram a vitória ao partido do padre Nobreza e seus correligionários. Eis a transcrição da comemoração dessa vitória:

O padre entusiasmado pela glória que o aureolava, entendeu dar uma pública demonstração do seu regozijo e satisfação digna da sua pessoa e companheiros, pelo prestígio e influências irresistíveis que acabavam de fundar e estabelecer sobre os despojos mortais do que chamaram partido progressista em Tavarede; para isso convencionou com a garotada de celebrar uma procissão de enterro, envolvendo o nome de alguém a quem só na ausência podiam impunemente insultar.
Com efeito na segunda-feira posterior da dia da eleição, tendo-se efectuado a reunião de todos os mordomos da festa-fúnebre no local aprazado, que foi dentro dos umbrais do portão de entrada da quinta do exmo. Conde de Tavarede e onde sua exª tem o seu solar e residência, desfilou o préstito, indo todos os da comitiva envolvidos em lençóis, lançada uma ponta pelas cabeças com o rosto descoberto e archotes na mão. Precedia o sacristão António Gaspar de Figueiredo, tangendo uma campainha da Igreja (que precede procissões e enterros quando se trata de chamar a atenção dos fieis cristãos
a um acto religioso). Seguiam António Proa, com uma colcha de chita arvorada em uma haste servindo de guião; acompanhavam António Carlota, António Cascão, Joaquim Nunes, João Ceiça, Manuel Pata, o regedor Manuel Luís Inácio e filhos Bernardo e José Maria, de Tavarede; Joaquim Mendes, o Bairrada, de Caceira, e ainda uma porção de garotos da Figueira e uns três de Caceira, companheiros do Bairrada; no fim João Proa, tocando tambor em uma caldeira, entoava o responso “chorai, filhos, chorai: morreu o partido progressista, vamos enterrá-lo e com ele lá vai a importância do João Costa; quem compra o beiço?”. Seguiam-se sentidos ais.
Fechando o préstito ia o reverendíssimo António Augusto da Silva Nobreza, pároco desta freguesia, sem disfarce algum, levando na mão um livro, que deveria ser substituído por uma borracha ou picheira, como emblemas da sua Nobreza; e a seu lado José Maria Luís. Sentimos que este homem, aliás bem intencionado, se deixasse ir à discrição da canalha.
Chegados ao adro da Igreja, porque caíram sobre o acompanhamento umas pedradas, e porque se não viam os impulsores, compreenderam que a ousadia provinha de quem pouco podia arrecear-se. E de noite todos os gatos são pardos, resolveram retroceder e não chegaram ao cemitério para onde se dirigiam e ali devia o reverendo entoar o De profundis…
”.

Atenção, tudo isto transcrevi das actas da Junta de Paróquia que foram publicadas na imprensa. Não há duvidas de que o facciosismo político levava pessoas responsáveis um pouco longe demais!...






(Caderno: Tavarede - Terra de meus avós - 3º.)

João Nunes da Silva Proa

Natural de Tavarede, filho de António da Silva Proa e de Emília Nunes do Espírito Santo. Casou com Zaida Augusta Pereira.
Multifacetado artista, exerceu funções profissionais na Hidráulica e na Direcção Distrital das Estradas, atingindo a reforma no posto de chefe da 6ª. Secção da Conservação de Estradas do Distrito de Coimbra.
No entanto, o seu verdadeiro talento mostrou-o como pintor, desenhador e músico. Muito novo, começou a colaborar com seu pai nas actividades associativas. Participou na tuna do “Bijou Tavaredense” e depois no Grupo de Instrução Tavaredense, do qual foi um dos fundadores e organizador, primeiramente de um grupo musical e, depois, de uma nova tuna.
Foi um talentoso compositor musical. Em 1899, para a comédia Perdão de Acto, levada à cena na Casa do Terreiro, ensaiada por João dos Santos, escreveu a música “de que a comédia era ornada, de uma suavidade graciosa, sem pretensões e cheia de um colorido pouco vulgar – conforme as situações – produziu um efeito magnífico quando cantada por aquele punhado de rapazes, que tão bem compreendeu o seu autor”.
Depois de fundada a Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro de 1904, foi o seu director e regente musical. A primeira peça musicada levada à cena pelo novo grupo cénico, Casamento da Grã-Duquesa, tinha música de sua autoria. “A música é lindíssima, e a sua execução pela orquestra regida pelo sr. João Proa, foi magistral”.
Escreveu música para muitos versos dos poetas Gaspar de Lemos e Cardoso Marta, além de outros inspirados versejadores figueirenses. Durante muitos anos, uma boa parte do reportório tocado pelo famoso Rancho das Rosas, da Figueira, era de sua autoria. Destes, ainda hoje são recordados, por vezes, Rosas de Carne e Vento que passas, talvez dos mais bonitos números de todos os ranchos que aqui existiram.
Como desenhador e pintor, a primeira notícia encontrada, data de Setembro de 1900 e refere que “estava a trabalhar num retrato a ‘crayon’ – tamanho natural – do bandarilheiro Torres Branco”.
Entre outros, deixou retratos de D. Maria Amália de Carvalho, professora primária em Tavarede, e de João de Oliveira Coelho, que reproduzimos nas notas respectivas.
“… acabamos de ver, em casa do seu autor, o novo projecto arquitectónico do nosso amigo Silva Proa, que se destina à construção dum prédio do sr. Abílio Águas, na Rua 10 de Agosto. O novo trabalho, pela harmonia do seu conjunto, pela flexibilidade das suas linhas elegantes… … seria de sobra a revelação de um verdadeiro temperamento artístico, se há muito não fossem conhecidos por todos os figueirenses os seus notáveis recursos de arquitecto distinto e artista abalizado”.
Também foi calígrafo distinto e hábil como constatámos pela seguinte nota: “… acaba de revelar os seus conhecimentos de desenhador e calígrafo distinto, num quadro em que é transcrito um extenso artigo biográfico sobre o extinto dr. Joaquim Pais da Cunha. Este trabalho é interessante, perfeito e digno de justo encómio”.
Na segunda metade de década de 1950 / 1960, fez uma longa viagem ao estrangeiro “pois a sua sensibilidade impelia-o para Itália, para admirar ao vivo as obras mais conhecidas dos grandes mestres europeus”.
Dessa viagem deixou vários trabalhos, nomeadamente desenhos retratando elementos da célebre escultura de Miguel Ângelo, “Pietá”, como, por exemplo, a “Cabeça de Cristo”, que aqui reproduzimos.
Também foi autor de vários projectos de edifícios construídos na Figueira da Foz. Morreu em Soure, onde se encontra sepultado.


(Caderno: Tavaredenses com história)


Como acima referi, João Proa escreveu a música para a opereta 'Casamento da Grã Duqueza'. Não se encontra a partitura nem o libreto. Como a notícia diz que a música 'é lindíssima', aqui junto a parte de 1º. violino que, pela semelhança da letra, foi escrita mesmo pelo autor. Talvez o nosso amigo Maestro João Cascão possa dizer alguma coisa pois, para mim, isto... é música.


S. Martinho de Tavarede


A primeira vez que se encontra, em documentos históricos, o nome de S. Martinho de Tavarede, é na carta de doação feita por Gulvira Sesnandis e seu marido, Martim Moniz, a João de Gondesindiz, feita "no quarto dia dos idos de Fevereiro da era de 1130 (10 de Fevereiro de 1092).

"Concedemos-te na mesma já mencionada vila de S. Martinho todos que outrora ali recebeu Cidel Pais do Conde D. Sesnando, que Deus tenha...". Presume-se que este Cidel Pais terá sido o povoador e reedificador de Tavarede e da sua igreja, por ordem daquele Conde. Nada se sabe do que anteriormente Tavarede terá sido. Pode-se presumir que, pela sua localização e pela proximidade do mar, os fenícios terão povoado Tavarede, posteriormente conquistada pelos mouros, que no ano de 711 iniciaram a conquista da peninsula ibérica até que, no século XI começou a reconquista cristã.

Naturalmente que a vila de Tavarede terá sido devastada pelos 'infiéis'. Mas, naquele documento, diz-se 'o lugar de S. Martinho de Tavarede'. Portanto, aquele Santo, aliás de muita devoção em grande parte do nosso País, seria patrono da terra desde os tempos anteriores à conquista moura.

E quem foi este Santo? Foi Bispo de Tours. Filho de um oficial do exército romano, após estudos humanisticos em Pavia, entrou para o exército, contra sua vontade, quando tinha 15 anos. Antes, com 10 anos de idade inscrevera-se como catecúmeno. Foi baptisado no ano de 339 e abandonando a vida militar, foi ter com Santo Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras. "Ardente propagador da fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde sairam notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização. Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil".

Estamos a menos de um mês do seu dia. Tavarede, como há mais de 50 anos, irá, certamente festejá-lo, da forma do costume.

São várias as lendas que a tradição nos conta. Entre elas, conta-se a conhecida do 'Verão de S. Martinho'. Eu, no entanto, gosto mais da lenda da capa. Permitam-se a sua transcrição. "Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.
Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.
Este, cheio de fome, entro n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando podesse.
O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.
Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo".


Viva S. Martinho...
Reine a santa frescata... e chova vinho...
Ajoelhemos, tirando a barretina,
Ante o Santo que a todos nós domina.
Juremos, pondo a mão sobre o barril,
De fazer das guelas um funil
Quando o vinho corra... Viva! Viva
S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Jorge Monteiro de Sousa e José da Silva Maltez

Hoje vou escrever um pouco sobre dois conterrâneos nossos, que apesar de algo doentes, ainda estão e estarão entre nós durante mais alguns anos. Todos os conhecem, todos os admiram e todos sabem que foram, e são, duas das grandes dedicações da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Não foi a pisar as tábuas do palco a representar, embora também o tenham feito, mas, sim, nos bastidores, trabalhando na montagem dos cenários, pendurando-os na teia, fazendo-os subir ou descer conforme as necessidades. Quem não conhece o trabalho necessário para a montagem das cenas? E então no palco antigo era um verdadeiro milagre conseguir a montagem de peças como, por exemplo, 'Chá de Limonete" e tantas outras, com diversas mudanças feitas sem falhas, em curtíssimo espaço de tempo.
Justíssima foi a homenagem prestada a estes dois grandes amigos da Sociedade, nomeando-os sócios honorários e colocando as suas fotografias no salão nobre da colectividade.

O Jorge é mais antigo. "Foi com dezassete anos que comecei a dar a minha colaboração ao grupo cénico", disse-nos ele aquando da elaboração do seu depoimento para o livro do Centenário. A primeira peça que ajudou a montar foi "A Nossa Casa", em 1943. Largas dezenas de cenários lhe passaram pelas mãos... Sob a orientação de Mestre José Ribeiro o Jorge Monteiro trabalhou no palco muitos e muitos anos enquanto a saúde lho permitiu.
Mas também representou. No auto de Gil Vicente, "Auto da Barca do Inferno", na década de 40, foi-lhe confiado o papel de 'Escudeiro', transportando a cadeira do fidalgo. Em tudo quanto era necessário, lá estava o Jorge a trabalhar. Nos bailes, montando e desmontando o estrado, que se instalava por cima da velha plateia, nas festas de arraial, fazendo as cordas de louro e de heras, montando os pavilhões, o mastro principal e, recordo-me perfeitamente, fazendo as pequenas pastilhas de gesso que serviam na barraca de tiro ao alvo... E até praticou desporto, pois fez parte da equipa de basquetebol da SIT. E isto foi há tantos anos... Quantas recordações, Jorge?

A equipa de basquetebol da SIT:
de pé e da esquerda para a direita - Vitor Medina, Jorge Monteiro, Manuel Lontro e José Figueiredo. à frente, João Pedro Amorim, José Ramos e Fermim Ferreira.






O Zé Maltez começou um pouco mais tarde a colaborar no palco. Mas, como ele recordou no seu depoimento, ainda chegou a ser professor na escola nocturna da colectividade que acabou em 1941!
Embora como ajudante, foi um grande colaborador do Jorge na montagem das cenas, cargo de que assumiu a responsabilidade quando o Jorge ficou impossibilitado de exercer estas funções, embora continuasse sempre a ajudar de acordo com as suas possibilidades físicas.
O Zé tem uma ligação muito especial à nossa colectividade. Seu avô, Fradique Baptista Loureiro, foi um dos fundadores e o primeiro presidente da Direcção da SIT, lugar que desempenhou de 1904 a 1907.
A sua estreia como amador foi em 1950, na fantasia "Chá de Limonete". Entrou na cena da "Doação de Tavarede", figurando papel de 'Mordomo do Rei'. Depois continuou e, ainda em 2006, participou no espectáculo dos 20 anos da morte de Mestre José Ribeiro. E dançava, com a Augusta Marques, muitíssimo bem, a 'Valsa do Limonete'.

Quantas recordações o Jorge e o Zé Maltez terão!!! Bons tempos!!! Mas, felizmente, ambos continuam a marcar presença quando solicitados. Que o possam fazer durante muitos anos, é o que sinceramente deseja este velho amigo.





Por recordações...
Por volta de 1950, fizémos um passeio a Aveiro, em bicicleta. Durante o almoço, numa tasca naquela cidade: O Zé Maltez, o António Marques e o António Tavares. Do grupo fazia parte o Zé Tavares, eu e não me recordo se havia mais algum.

domingo, 4 de outubro de 2009

Alberto Virgílio da Rocha Portugal Correia de Lacerda

Não era natural de Tavarede, mas foi na terra do limonete que viveu os seus últimos anos. Faleceu em 1974, encontrando-se sepultado no cemitério local.
Exerceu a sua actividade de professor de desenho na Escola Industrial e Comercial da Figueira, da qual chegou a ser director, até ser transferido, em 1929, compulsivamente por motivos políticos, para Lisboa, para a Escola Afonso Domingues.
Uma notícia de 1921, refere: “Teatro do Parque-Cine – Têm prosseguido activamente as obras do palco daquele grande teatro, cujo cenário está sendo pintado pelo distinto artista da capital, sr. Alberto Correia de Lacerda, que foi discípulo do mestre Carlos Reis, e cujo talento se tem afirmado em muitas obras de valor”.
Como desenhador e como poeta de enorme sensibilidade, foi dedicado colaborador da Sociedade de Instrução, pintando muitos cenários, os primeiros dos quais para a opereta “Grão-Ducado de Tavarede”, desenhando imensos adereços e figurinos, ou escrevendo os versos para “A Cigarra e a Formiga”, “Justiça de Sua Majestade” e “Ana Maria”, operetas que alcançaram enorme popularidade.
Em 1958, desenhou um quadro que “é um trabalho perfeito, equilibrado e colorido bizarro e difícil, que o pintor conseguiu com extraordinária visão e perfeita técnica”. Intitulou-o de “Quimono” e ofereceu-o à colectividade para ser sorteado a favor das obras de remodelação e ampliação. Também em 1965 e na Câmara Municipal da Figueira da Foz, esteve “exposto, durante alguns dias, um artístico painel decorativo, com a figura de Nuno Alvares, magnificamente desenhado e colorido, e que foi pintado no seu atelier em Tavarede”.
Em 1929 a Sociedade de Instrução Tavaredense nomeara-o seu sócio honorário e, no dia 14 de Dezembro de 1963, prestou-lhe homenagem. “… o director do grupo cénico, que destacou a preciosa colaboração de Artista e Poeta, que Alberto de Lacerda tem prestado à colectividade, que vê nele um amigo dedicado que lhe entregou o seu coração de verdadeiro criador de arte e cultor do mais belo e puro teatro. Recordou o apaixonado carinho que o ilustre professor começou a dedicar a Tavarede, desde que veio dirigir a Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz, na qual instituiu a primeira oficina de trabalhos manuais.
E ao referir-se aos numerosos ramos de flores que rodearam o homenageado naquele palco, disse que o ramo que lhe ofereceu a amadora mais antiga do grupo (Helena Medina), tinha também lúcia-lima, que é o mais expressivo e o mais aromático arbusto que a sua aldeia pode oferecer àqueles que lhe estão dentro do coração.
… agradeceu o homenageado a fidalga manifestação de simpatia que os seus queridos amigos tavaredenses lhe haviam dedicado, não com palavras que, na ocasião, não podia proferir, mas com as lágrimas da mais profunda gratidão pela carinhosa hospitalidade que sempre lhe dispensaram e de saudade pelos agradáveis e inesquecíveis momentos espirituais passados na Terra do Limonete”.
Quando faleceu, encontrava-se a trabalhar num dos seus quadros mais maravilhosos, “O Ensaio do coro” que, inacabado, foi oferecido à colectividade e que se encontra no salão nobre da colectividade.

(Caderno:Tavaredenses com história)