segunda-feira, 26 de outubro de 2009

D. Maria Amália de Carvalho


Foi a primeira professora oficial da escola primária de Tavarede, nomeada em Janeiro de 1897.
Professou as quatro classes, mistas, numa escola sita no Largo do Forno, onde tinha as condições mínimas para exercer as suas funções.
Esteve colocada em Tavarede até ao ano de 1915. No ano de 1911, foi promovida a professora de 1ª classe. Tinha, em cada ano lectivo, uma média de 50 alunos.
Foi transferida para a Figueira da Foz e, anos mais tarde, para o Paião, onde, em 1926, atingiu a idade de aposentação.
“A srª D. Amália de Carvalho chegou ao fim da sua carreira com uma folha brilhantíssima de serviços. Sendo uma professora competente sob todos os pontos de vista, exerceu sempre a sua profissão com grande consciência e uma dedicação sem limites, tendo por ela um verdadeiro culto.
Na classe do professorado, a srª D. Amália de Carvalho constitui um exemplo que merece lembrar-se para ser seguido. Trabalhou sempre – e o resultado do seu patriótico trabalho patenteava-se no aproveitamento dos seus alunos. Cumpria zelosa e dedicadamente a sua nobre missão de ensinar, e assim conquistou, duma maneira invulgar, a simpatia, o respeito e a maior gratidão das populações que tiveram a felicidade de apreciar-lhe as suas belas qualidades morais e as suas invulgares faculdades de trabalho”.
Com o maior entusiasmo e carinho, colaborou activamente com as duas colectividades locais, nomeadamente na organização de duas festas muito queridas pelos seus alunos: a “Festa da Árvore” e a “Merenda Grande”.
Em 1947, Tavarede, por intermédio da Junta de Freguesia, prestou-lhe pública homenagem. Foi dado o seu nome ao antigo Largo do Forno, tendo sido descerrada uma lápida, onde se lê a seguinte inscrição:
“Largo de D. Maria Amália de Carvalho, professora ilustre que durante mais de vinte anos, foi abnegada mãe espiritual de algumas gerações de tavaredenses. Homenagem de respeito e gratidão do povo de Tavarede. Primavera de 1947”.
Na ocasião foi-lhe entregue, pelo presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, a insígnia do Grau de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública, com que o Governo a condecorara. Foi, também, nomeada “Sócia Honorária” do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, onde assinou o livro de honra da colectividade, com uma dedicatória. “… educadora sublime, que durante largos anos contribuiu para a formação intelectual de muitas gerações de tavaredenses como professora exemplar, tornando-se merecedora, a todos os títulos, desta distinção por parte do nosso Grupo, para quem a instrução foi sempre objecto do maior carinho…”, lê-se na proposta, que foi aprovada por unanimidade.
Por ocasião do seu falecimento, ocorrido em Lisboa no dia 29 de Abril de 1960, muitos dos seus antigos alunos tavaredenses deslocaram-se à capital, para lhe prestarem uma última homenagem integrando-se no seu funeral.
Desde o portão da entrada do cemitério até ao local do enterramento, a urna foi conduzida, à mão, por ex-alunos tavaredenses.
Nota - O desenho acima é da autoria do tavaredense João Nunes da Silva Proa e encontra-se na sala da biblioteca da SIT.
Caderno: Tavaredenses com história

Instruir é Construir

“..... Para nós, a abertura de uma escola, representa a abertura de um verdadeiro templo que só pode iluminar, que só pode alagar de luz e fé a consciência. E no povo, é a falta desta, precisamente, que antolha sempre todos os passos que ele poderia dar na estrada da melhor fortuna...
Felizmente, encontra-se às vezes meia dúzia de obreiros que, apesar de viverem numa luta porfiada com o trabalho quotidiano, têm ainda ideias sãs e altruístas a germinar no espírito. Queremos referir-nos a uns poucos de rapazes de Tavarede que há pouco lançaram ombros à edificação de uma obra que se há-de erguer, por certo, com um pouco de esforço e boa vontade, e que há-de assinalar-se com serviços que o futuro perpetuará.
Essa obra foi a criação de uma sociedade de instrução. O seu fim é sustentar uma escola para os associados e filhos destes, criar uma biblioteca e uma caixa económica
...”.

Recortámos este apontamento de um artigo intitulado “Instrução em Tavarede”, que a “Gazeta da Figueira” publicou em 13 de Fevereiro de 1904. Também “A Voz da Justiça” se refere à organização de “uma associação que tem por fim derramar a instrução pelos seus associados e filhos destes”.
Tavarede já tinha, desde 1898, uma escola nocturna, instalada na casa do Terreiro. E, com a nova colectividade, recomeçou, de imediato, a ser frequentada por elevado número de alunos, na sua maioria, adultos. Não era possível, portanto, que, acabando as colectividades, se encerrasse aquela escola. Os tavaredenses já tinham tido tempo para se aperceberem das enormes vantagens que a sua instrução lhes trazia. A escola oficial, existente desde 1896, era insuficiente para as necessidades da freguesia. Mista e com uma só professora para todas as classes, por muito boa vontade e dedicação que a senhora D. Maria Amália de Carvalho tivesse, e ela teve, sem dúvida, não podia acolher todos os pretendentes. Muito menos os adultos.
João dos Santos foi o grande obreiro desta tarefa. Apesar de não figurar no “lote” dos
fundadores da nova colectividade, ele esteve sempre presente e, além de continuar a dirigir o grupo dramático, facultou as instalações de sua casa, tal como o havia já feito anteriormente, quer com a velh
a Sociedade Recreativa, quer com o Grupo Instrução.
A escola nocturna começou a funcionar imediatamente, tendo como professores algumas pessoas da terra que de bom grado deram a sua colaboração a esta obra meritória de verdadeira solidariedade com os seus patrícios analfabetos ou menos instruídos. Manuel Rodrigues Tondela, Manuel Jorge Cruz, João dos Santos Júnior, César da Silva Cascão e António Graça, auxiliados por outros sócios, foram os primeiros professores das aulas nocturnas da Sociedade de Instrução Tavaredense. Os três primeiros tinham já ministrado o ensino na escola nocturna que anteriormente funcionava no mesmo edifício”, escreveu, a este respeito, Mestre José da Silva Ribeiro.
Estava, portanto, cumprida a primeira determinação: “uma escola para ensino dos sócios que dela queiram utilizar-se e para ensino dos filhos destes”.
Como veremos com o correr das nossas histórias, manteve-se em actividade, ininterruptamente, até ao ano de 1941. E diga-se, desde já, com uma média anual superior a 50 alunos, atingindo, em alguns anos, as sete dezenas.
A biblioteca, desde logo com as ofertas de sócios e simpatizantes, cumpriu a sua missão. E, acrescente-se, sempre teve muitos leitores, até... talvez até ao aparecimento da televisão...
Faltou a “caixa económica”. Os propósitos eram altruístas. O auxílio àqueles que, por doença, carecessem de ajuda económica. Naqueles tempos, as necessidades eram muitas e os recursos poucos... Houve várias tentativas para a sua organização, mas sempre falharam nos objectivos. No entanto, sempre que foi julgada necessária, a ajuda da colectividade aos mais carentes, lá esteve. Alguns amadores, e ao longo destes cem anos, todos eles tanto ajudaram os mais necessitados, por esse país fora, foram socorridos pecuniariamente, em casos extremos. De forma modesta, é certo, pois as possibilidades sempre foram poucas, mas eficaz. E, saliente-se, como que “dando com a mão direita sem a esquerda o saber”. É que, sabe-se, por a isso se referirem em actas, por exemplo, que e quem auxiliaram, mas, praticamente sempre, sem referirem a verba que davam. Para não ferir susceptibilidades, escreviam...
Quanto ao teatro... Bem, sobre teatro, muito teremos a contar, pois o Teatro, todos o sabemos, é um manancial inesgotável, em Tavarede...

Fotos: A primeira sede (cedida por João dos Santos); João dos Santos, que herdou a casa de João José da Costa, da Quinta dos Condados.

domingo, 25 de outubro de 2009

Dr. Manuel e Dr. José Gomes Cruz

MANUEL GOMES CRUZ (DR.)



Nasceu em Tavarede, em 12 de Novembro de 1866, filho de António Cruz, pequeno lavrador e de Joaquina Gomes Cruz.
Depois de concluída a instrução primária, iniciou a sua vida de trabalho como operário, numa serralharia da Figueira.
Aconselhado e apoiado por João José da Costa, da Quinta dos Condados, que adivinhou nele excepcionais dotes para o estudo, foi para Coimbra, matriculando-se na Faculdade de Direito em 1892 e onde concluiu o curso, no ano de 1897, portanto, com 31 anos de idade.
Para a sua manutenção, e a exemplo do que fez seu irmão José, deu explicações enquanto estudante.
Exerceu advocacia na Figueira, tendo desempenhado importantes cargos públicos, como, por exemplo, o de primeiro administrador do concelho após a implantação da República. Desempenhou as funções de conservador do Registo Civil, desde a sua criação até ser atingido pela idade da reforma.
Perfeitamente consciente dos direitos e da dignidade de todos os cidadãos, emprestava a todos os actos praticados naquela Conservatória e a que presidia, uma dignidade inultrapassável, que fez fama e cujo exemplo perdurou naqueles que o vieram a substituir.
Espírito liberal e idealista do regime republicano, pôs ao serviço da propaganda a sua palavra fluente, sendo sempre escutado com o maior interesse.
Deu prestimosa colaboração à Estudantina Tavaredense, de que chegou a ser ensaiador do seu grupo dramático, à Sociedade de Instrução Tavaredense e à Associação de Instrução Popular, da Figueira, associações onde era bastante considerado e admirado. Também exerceu as funções de presidente da direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários da Figueira.
No ano de 1899, juntamente com João dos Santos, da Quinta dos Condados, fundaram em Tavarede, na Casa do Terreiro, uma escola nocturna que, gratuitamente, ministrou as primeiras luzes da instrução a adultos e a crianças analfabetas, tendo sido os seus primeiros professores.
Foi casado com D. Augusta Águas de Oliveira Cruz, e pai de D. Maria Eugénia Águas Cruz, que foi regente do Jardim Escola João de Deus, D. Maria Etelvina Águas Cruz, que casou com o médico Dr. Artur Beja, D. Maria Augusta Cruz, funcionária dos Serviços Municipalizados, do tenente Manuel Águas Cruz e do dr. António Águas Cruz, chefe de secção judicial, em S. Tomé.
Faleceu no dia 8 de Fevereiro de 1943, encontrando-se sepultado em Tavarede.

JOSÉ GOMES CRUZ (DR.)

Nasceu em Tavarede, no dia 16 de Setembro de 1873, sendo filho de António Cruz, pequeno lavrador local, e de Joaquina Gomes Cruz.
Depois de concluída a instrução primária, foi, incentivado e ajudado por João José da Costa, da Quinta dos Condados, que lhe reconhecera, como a seu irmão Manuel, excelentes qualidades para continuar os estudos, para Coimbra, onde, depois de feitos os exames secundários, se matriculou na Faculdade de Medicina, formando-se no ano de 1902.
Para fazer face aos encargos com os estudos e estadia naquela cidade, ele e seu irmão deram explicações, enquanto estudantes. E como tinha aprendido a tocar diversos instrumentos musicais, entre os quais violino, ofereceu os seus préstimos ao Café Santa Cruz onde, a troco de pequena quantia, tocava durante os jantares.
Durante as férias vinha para Tavarede, integrando-se activamente na Estudantina Tavaredense, de que foi um dos grandes animadores, no campo musical, chegando a dirigir a orquestra durante os espectáculos teatrais.
Dotado de um espírito liberal e desinteressado, carácter impoluto, era admirado pelas suas excepcionais qualidades. Mereceu-lhe especial atenção a instrução popular, realizando apreciadas palestras e conferências educativas, sempre ouvidas com grande interesse e respeito pelas classes trabalhadoras.
Dedicado sócio da Sociedade de Instrução Tavaredense, ali proferiu diversas palestras sobre assuntos da maior importância para os seus conterrâneos, como, por exemplo, “Alcoolismo”, “Formas de Governo”, “Pátria”, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, etc.
Lutou afincadamente pela implantação da República e pela sua continuação, chegando a ser preso e julgado por envolvimento no movimento de Fevereiro de 1927.
Médico infatigável e dedicado para com os pobres, exerceu durante muitos anos o cargo de médico municipal de Buarcos. Também foi médico da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta.
Casou com D. Adelaide Goltz Águas Cruz e foi pai do dr. José Águas Cruz, sub-inspector de Finanças, e sogro do dr. Manuel Lontro Mariano. Faleceu no dia 27 de Julho de 1941 e encontra-se sepultado em Tavarede.
Como simples apontamento, transcrevemos uma nota recolhida da sua conferência intitulada “Educação e Instrução Popular”, que proferiu na Associação de Instrução Popular, no dia 5 de Outubro de 1924:
“………. É um coração republicano que lhes fala, que poderá ser brutal, mas julga ser justo, julga ser honesto, coração profundamente democrático, que procura no isolamento carpir as mágoas por ver que esta querida República, que ele tanto ama, não tem podido cumprir a sua nobre missão – por culpa dos homens e só por culpa dos homens, que acima dela vêem os seus interesses, os seus caprichos, as suas vaidades….”.
Dizia-se, em Tavarede, que o dr. José Cruz tinha feito um acordo com José Ribeiro, seu grande amigo, que se resumia nisto: sendo ambos ateus, não acreditavam que houvesse vida ou qualquer outra coisa para além da morte. Assim, o primeiro que morresse, procuraria, no caso de haver qualquer coisa no “outro mundo”, dar um sinal ao sobrevivo. Morreu primeiro o dr. José Cruz e uma noite, quando José Ribeiro voltava a casa, defronte da casa da família Águas, à Quinta da Esperança, sentiu uma violenta bofetada dada por… não havia ninguém à sua volta. Verdade? Nunca confirmámos isto com mestre José Ribeiro.
Caderno: Tavaredenses com história

Grupo de Instrução Tavaredense

No dia 25 de Abril de 1900, vem publicada, na 'Gazeta da Figueira', uma extensa e interessante reportagem sobre uma festa, em Tavarede, em que se inaugurou o estandarte de uma nova colectividade, o Grupo de Instrução Tavaredense.
O número alto das festas, teve lugar pelas oito e meia horas da manhã, e na Igreja Paroquial, onde se celebrou a missa conventual, durante a qual foi benzido o novo estandarte. Durante o acto religioso, fez-se ouvir a tuna do jovem Grupo, que executou uma valsa. Acrescentemos, como comentário, que por aquela época, as cerimónias religiosas tinham activa participação das associações locais. Nas missas festivas, Natal e Páscoa, por exemplo, as tunas participavam, musicalmente e com reportório adequado, à celebração das mesmas e eram sempre escutadas, com muito agrado, por todos os assistentes.
O estandarte referido era “uma rica obra de arte, a que a exma. srª. D. Rita Jardim, sua bordadora, e o sr. Francisco Gil, seu desenhador, souberam imprimir um cunho altamente artístico, de magnífico trabalho e de inexcedível beleza”. Este estandarte, acrescente-se, desde já, acabou por servir à Sociedade de Instrução Tavaredense, que o utilizou desde a fundação até ao ano de 1927.
O Grupo Instrução manteve-se em actividade até finais do ano de 1903, embora, e curiosamente, só neste ano apareça o anúncio da sua constituição oficial. Foi breve, portanto, a sua existência.
No entanto, e durante esses três anos, e alguns meses, manteve uma actividade bastante apreciável. Já sabemos que ali estava instalada uma escola nocturna para adultos (que utilizava o método de João de Deus), ensinando as primeiras letras aos sócios e filhos, que dela quizessem utilizar-se, e que não puderam frequentar a escola primária oficial, muito recente em Tavarede, aliás. Manteve o grupo dramático sempre em actividade, sob a orientação de João dos Santos. E fundou um agrupamento musical, do qual passaram a fazer parte a maioria dos componentes da tuna “Bijou Tavaredense”, que terá acabado prematuramente, por motivos que desconhecemos, mas a que não terá sido alheio o falecimento do seu presidente, o senhor João António da Luz Robim Borges.
Entretanto, em Janeiro de 1900, já se tinha realizado, na nova colectividade, um sarau dramático-musical, que se iniciou com o hino do Grupo, tocado no palco, sob a regência de João Prôa, e que, pela sua actuação, mereceu fartos aplausos da assistência.
Pois João Prôa foi o organizador da tuna que então passou a fazer parte do Grupo de Instrução. Foi seu regente e mestre e foi, também, inspirado compositor.

Pano de boca inicial

O teatro, durante aqueles anos, fez parte integrante do ensino da escola nocturna. Além dos espectáculos representados pelos amadores habituais e outros que se lhes foram juntando, todos os anos se realizavam saraus dramático-musicais, organizados e concebidos para serem protagonizados pelos alunos da escola nocturna.
“E aqui está uma pessoa há um pedaço a olhar os linguados do papel, a hesitar, sem saber com que os há-de encher. Procuro notícias, não vejo nada de merecimento que possa aproveitar-se; tudo uma pasmaceira insípida, comparada ao silêncio que a estas horas, 10 da noite, se nota lá fora, onde se não sente viva alma; tudo se enlaçou nos lânguidos braços de Morpheu, que nas aldeias os estende logo á noitinha para reparar as fadigas que cansam tantos corpos entregues pelo dia adiante à execução dos trabalhos agrícolas, umas vezes sob esse sol tórrido que nos abraza e sufoca, outras expostos aos rigores do inverno que com as suas neves e frios ventos nos rasga as carnes sem dó nem compaixão.
O único assunto que se nos oferece para dele podermos dizer alguma coisa, é o relato do espectáculo dado no domingo de Páscoa pelos alunos da escola nocturna. Casa a trasbordar, com concorrência superior á da primeira récita efectuada outro dia pelos mesmos amadores. Ás 9 horas da noite a orquestra executa o hino da escola, que é ouvido de pé, e em seguida sobe o pano; o palco oferece-nos uma vista agradável, similhando o pátio das casas do Izidoro Vaqueiro e de seu filho Gregório, que naquele dia deve receber á face do altar a Margarida, uma das cachopas mais guapas do lugar, e para cuja festa os aldeãos preparam grande regalório. Abre-nos a comédia (Casamento do filho do Vaqueiro) com um coro de rapazes e raparigas da aldeia, e dali em diante temos por vezes em cena o pai Izidoro, a mãi Rosa, os padrinhos do casamento, e o noivo, que por sinal está pouco resolvido a ir á igreja, isto porque umas intrigas urdidas pelo tutor de Margarida lhe vêem pôr em dúvida o bom comportamento desta sua escolhida. Afinal, tudo se desvenda, averigua-se que são falsas as injúrias imputadas à pobre rapariga, e que lhe eram lançadas por conveniência do interesseiro tutor. E os noivos lá casam, cheios de prazer e satisfação. A comédia é do velho reportório e bastante conhecida, sendo já em tempos aqui representada. Mas o desempenho dado agora aos diferentes papéis por António Graça (Izidoro), Fernando Pereira (Rosa), Joaquim Terreiro (Gregório), Augusto Bertão (Margarida), António Broeiro (Fonseca), António Migueis e Jaime Broeiro nos padrinhos do casório, João da Graça (Zé das Bordoeiras) e ainda por outros tipos, foi muito mais correcto, segundo nos dizem, e isso lhes valeu os unânimes aplausos da plateia. As músicas, apesar dos poucos ensaios e de terem sido cantadas a medo, sairam muito regularmente. E acabou-se o 1º acto.
No segundo representa-se a comédia República das Letras, em que toda a petizada trabalha, e que pela segunda vez se pôz em cena. Os nóveis actores fizeram o que puderam, e os espectadores aplaudiram-nos com entusiasmo.
Neste intervalo, o sr. Luís Pinto, um simpático amador dessa cidade, recitou com certa correcção o monólogo dramático O Piloto, e a poesia Quando eu morrer. Luís Pinto colheu bastas palmas da plateia.
Seguiram-se as comédias Casamento do Alto Vareta e Lutas civis, cujo desempenho não desmereceu em nada a boa interpretação que os diferentes personagens deram aos seus papéis no espectáculo em que debutaram. Na primeira destas comédias temos a sobressair Joaquim Terreiro no seu papel de Maria das Dores, João de Oliveira no Alto Vareta, Fernando Pereira na pretenciosa Joana, António Broeiro no João (cabo de esquadra) e Jaime no surdo mestre Joaquim; os outros rapazes não desmancham o conjunto, dando por isso lugar que às situações mais engraçadas da peça se imprimisse bastante relevo.
Nas Lutas Civis, comédia-drama cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, dá-nos Fernando Pereira um tipo original de criado de moinho, a quem só dá prazer o pouco trabalho, e que tem por lema fazer no outro dia aquilo que não se fizer em dia de Santa Maria... Joaquim Terreiro, um dos pequenos que mais aptidões cénicas revela, disse muito bem o seu papel de Maria, filha do pobre veterano Jácome, a que João de Oliveira dá certa naturalidade, conquanto o género deste papel não seja o que mais lhe está a carácter. Os outros personagens também se saíram muito regularmente.
Eis, em massadoras linhas, a nossa opinião sobre a parte dramática do espectáculo. A parte musical, executada por um grupo de rapazes daqui, foi ouvida com agrado geral, sendo feliz a escolha das músicas que formavam o programa, e que alcançaram dos assistentes várias salvas de palmas, especialmente Una broma, jota lindíssima de Simões Barbas, e a mazurca Succés, de Backman, que foram tocadas com mimo e gosto pouco vulgares nos grupos musicais desta minha terra.
Eram festas teatrais assim que desejariamos ver realizar frequentes vezes, mas é certo que a boa vontade que as leva a efeito também é gasta por muitos dissabores que se recebem durante a luta... Isto, infelizmente, é uma triste verdade...
E ponto neste assunto”.
Começam, então, a surgir nomes de que ainda todos nos lembramos de ver actuar no nosso palco, bastantes anos mais tarde. Acabaram, as duas associações, a que nos temos vindo a referir, em 1903. Uma nova colectividade surgiu em Janeiro de 1904, a Sociedade de Instrução Tavaredense.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Festa do Santíssimo

Como estava anunciado, realizou-se effectivamente no sabbado e domingo ultimos a festa em honra do SS. Segundo o que dissémos, a festa foi promovida por esta irmandade, ha pouco fundada n’esta freguezia, para assim festejar a sua inauguração official.
No sabbado, pelas 8 horas e meia da noite, chegou a esta risonha aldeia a philarmonica das Alhadas. Á sua chegada foram lançados ao ar muitos foguetes e deu-se começo aos festejos.
A noite apresentou-se feia, de um tempo chuvoso e acompanhado de vento sul que soprava com alguma violencia, dando-nos apenas um pequeno aguaceiro, que ainda assim fez desanimar os promotores da festa.
No largo em frente da egreja, onde se deviam realisar os festejos, o vento soprava com mais força, visto aquelle local se achar desabrigado, não podendo por isso illuminar-se convenientemente tanto a frontaria da egreja, como um pequeno pavilhão que se achava armado para a musica tocar, e por cujo motivo não o poude fazer.
A egreja esteve exposta é veneração dos fieis desde as 8 horas da noite até ás 11, sendo muito visitada.
O fogo foi regular.
Danças, apenas um pequeno rancho dansou na rua Direita, desde as 11 horas da noite até á 1 e meia da madrugada, mas muito desanimado em consequencia do tempo.
Domingo, o dia esteve lindissimo, celebrando-se com a maior pompa e solemnidade a missa e procissão. Era quasi meio dia quando se principiou a dizer a missa, acabando perto das 3 horas da tarde. O templo regorgitava de christãos. Foi cantada pelo revº. Manuel José da Cunha, que actualmente está fazendo as vezes de parocho da freguezia, por este se achar ausente, acolytando sua reverencia n’este acto religioso os srs. padres Fortunato das Neves, das Alhadas, e Emygdio, d’essa cidade. Ao Evangelho subiu ao pulpito o revº. parocho da Ferreira, sr. Manuel Vicente, que prégou muito bem.
Acabada a missa formou-se a procissão que foi concorridissima, e sempre na melhor ordem. N’ella viam-se encorporados além dos respectivos sacerdotes, um grande numero de irmãos e muitas creancinhas vestidas de anjo. Fechava a procissão a philarmonica Alhadense, tocando uma bonita marcha adequada a este acto. A procissão recolheu á egreja pelas 4 horas.
O côro era, como dissemos, composto por distinctos cantores e musicos de Coimbra e d’essa cidade. Foi magnifico. É digno de muito elogio o nosso conterraneo sr. José Gomes Cruz, um bom amador musical, que empregou todos os esforços para arranjar um excellente côro, para cujo serviço se tinha promprificado gratuitamente.
O sr. Horta a quem estava confiada a decoração da egreja, mais uma vez revelou as suas aptidões para este serviço, pois que a armação tinha um aspecto elegante.
Durante o resto da tarde o templo foi muito visitado.
A Estudantina Tavaredense tambem formou um rancho no mesmo local onde tinha dansado o outro na vespera e madrugada, estando sempre muito animado e dansando-se até ás 8 horas da noite.
E assim acabou esta festa, que agradou muito, louvando nós desde já a irmandade promotora, e desejando que ella para o anno se faça com o mesmo esplendor.

(Gazeta da Figueira - 23.Setembro.1896)

A matança do porco

Não há muitos anos ainda, as famílias dos arredores da cidade criavam o seu porco, alimentado com as sobras das refeições e para o qual se cozinhava propositadamente a “lavagem”, com água, couves e farinha ou sêmea, o que permitia que o toucinho entremeado ficasse mais gostoso.
A matança, geralmente em Dezembro e escolhida a fase da lua conveniente, segundo a boa tradição popular, era pretexto para a reunião de toda a família. Faziam-se os bolos de sangue, as morcelas, as papas de moado, e conservavam-se na salgadeira os ossos e o toucinho. Preparavam-se os negritos, os chouriços e os presuntos que haviam de chegar para todo o ano, sem falar na banha, nos rojões, no sal de unto e nos torresmos. Os lombos assados no forno eram conservados em banha e comiam-se parcimoniosamente nos dias de festa. Até a cabeça era aproveitada, juntamente com as queixadas, a língua, as orelhas e os miolos, de que se preparava um prato requintado com ovos, pedaços de carne e miolo de pão.(Figueira do Passado ao Presente - Gastronomia e Culinária)


Recordo-me, nos meus tempos de criança, e, até, já de rapaz, os dias da matança do porco, quer em Tavarede, em casa dos meus avós paternos, quer em Reveles, em casa do meu tio Joaquim ou da minha tia Idalina.
Em Tavarede acabaram mais cedo. Minha avó morreu em 1946 e nunca mais houve aquela casa de trabalho, mas de fartura, que era apanágio das casas da aldeia dos que amanhavam as terras em maior ou menor dimensão.
Em Reveles, por muitos anos eu ia para lá para assistir à matança do porco. Era, para mim, uma festa. Todos gostavam muito de lá me ter e faziam tudo para que eu me sentisse bem. E conseguiam-no, facilmente. Não sei em qual das casas eu me sentia melhor, com o tio Joaquim e a tia Palmira, se com a tia Idalina e o tio Cristino.
Acompanhava, passo a passo, todas as tarefas. Desde irem os homens buscar o animal ao curral, prendê-lo e sangrá-lo até ao amanhar. Depois ia com as mulheres até ao rio, onde lavavam as tripas.
O sarrabulho e as febras eram uma farturinha. À noite faziam os “tortalhos”, que, mais tarde, eram comidos quentes, normalmente com o café.
No dia seguinte, lá estava eu a assistir ao desmanchar o animal, separando as carnes para a salgadeira, as banhas para derreter e a prepararem os enchidos, que iam para o fumeiro.E que saborosos eram!...
Anos mais tarde, era a matança do porco em casa do saudoso Eloi Domingues, que era um dia de festa para nós. Tenho belas recordações destas reuniões. Assistia, como sempre, às operações da matança e seguintes. Quando o animal já estava pronto para ser amanhado, havia petisco: bacalhau assado, passas de figo, tinto caseiro e geropiga que ele fabricava.
Ao almoço não faltava a tradicional sopa à lavrador, que pedia sempre 'bis'. Depois as febras, o sarrabulho, etc. Para fazer a digestão, e depois de pendurado o 'bicho', tinha sempre lugar rija disputa de 'garujo', onde se ouviam, a cada instante, as célebres 'cantigas' de seis, nove e por aí fora. Era assim, até à hora do jantar. Canja, febras fritas, papas de moado, etc.
Já lá vai tudo isto... Mas, as saudades, essas são muitas.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Um cortejo 'reacionário'

Quando folheávamos os nossos apontamentos, despertou-nos a atenção uma local, publicada no jornal “Correspondência da Figueira”, em Outubro de 1881. Diz assim:

AO SR. BISPO-CONDE

Não somos denunciantes de pessoa alguma, mas não podemos também deixar de fazer subir ante s.exª. as queixas que por aí se ouvem com respeito ao reverendo que está encomendando a freguesia de Tavarede.
Pode ser que haja exagero no que se diz, e cremos até que assim seja; mas dando-se os devidos descontos e feito um abatimento de cinquenta por cento, fica ainda uma carga regular para o tal reverendo.
Bom seria, pois, que s.exª. mandasse apurar o que há de verdade por meio de uma sindicância. Nem queremos que aquele pastor esteja sendo vitima de acusações menos verdadeiras, nem que continue apascentando o rebanho que lhe está confiado, se não está nas condições de bem cumprir os espinhosos deveres da sua missão.
É certo que o sr. Bispo Conde não tem sido de uma escrupulosa imparcialidade para com alguns dos seus irmãos em Jesus Cristo neste concelho; cremos, porém, que, neste caso, cerrará ouvidos a pedidos, e fará justiça recta, embora tenha de sacrificar o tal encomendado.
E assim o esperamos confiadamente: de contrário, e ainda sob pena de qualquer excomunhão com que s.exª. nos possa fulminar, não cessaremos de pedir que se olhe com misericordiosos olhos pelos católicos romanos da freguesia de S. Martinho de Tavarede.

Curiosamente, só anos mais tarde encontrámos a explicação para aquele alerta ao Senhor Bispo, e num outro periódico: “Comércio da Figueira”. Era, então, pároco em Tavarede o reverendo António Augusto da Silva Nobreza. A Junta de Paróquia era à altura constituída por João José da Costa, da quinta dos Condados, José Maria de Almeida Cruz, Manuel Jorge da Silva, António da Cruz, José Luís Inácio e José Maria Luís.

O reverendo padre, e isso era normal naqueles bem complicados tempos, andava de “candeia às avessas” com muitos dos seus paroquianos e, também, com a própria Junta. Antes que me esqueça, recordo que a Junta de Paróquia tinha instalação numa dependência da Igreja matriz, junto à sacristia, onde se reuniam e guardavam as suas coisas.

Na acta de 9 de Janeiro de 1881 a Junta deliberou exarar em acta todos os benefícios que o seu presidente, João José da Costa, tinha feito em benefício da paróquia. João Costa havia assumido a presidência da Junta, depois de ter sido presidente da Câmara da Figueira durante vários mandatos, e mandara fazer, à sua custa, importantes melhoramentos para a nossa terra, nomeadamente o teatro na sua casa do Terreiro (1885). Relativamente à Igreja, e segundo aquele registo, havia suportado os seguintes custos:

= doação da quantia de 19$200 reis para compra de um terreno para alargamento e aformoseamento do adro da Igreja;
= pintura do teto da Igreja e arco cruzeiro, no valor de 54$645 reis;
= encarregou o reverendo pároco de mandar vir de Lisboa o lustre, que custou 37$580 reis, vindo tudo a importar em 111$425 reis.

Entendeu, portanto, a Junta de Paróquia não ficar silenciosa a tão grandes e relevantes serviços prestados por aquele senhor, pelo que “aqui os deixa narrados, para que os presentes e vindouros se recordem sempre com viva saudade de tão benemérito cavalheiro”.

Mas a Junta havia começado a receber muitas reclamações dos seus paroquianos relativamente ao reverendo Nobreza, a quem acusavam de parcialidade e não cumprimento das suas obrigações religiosas para com muitos.

Sejam quais forem os direitos de intervenção e atribuições do pároco em relação ao assunto (tratou-se de um funeral), não há nem podem haver leis canónicas, nem as da constituição do bispado, que autorizem e concedam poderes discricionários, e tão abusivamente praticados, que permitam ao pároco a exclusiva imposição da hora, porque é repugnante e intolerável, de consequências perniciosas como acaba de se dar, e por isso exigem que sejam repelidas pela mesma forma como se exercem e praticam.
É bem conhecido, que o pároco de uma freguesia tem obrigações permanentes e inadiáveis a cumprir; vive à custa dos paroquianos, que exclusiva e directamente lhe pagam para prestar-lhes os serviços que a religião estabelece, não podendo ser substituídos senão por um sacerdote; portanto o pároco nunca pode dispor da sua pessoa por forma que se fique absolutamente inibido da sua concorrência pessoal na freguesia, e quando um comprometimento meditado o não possa fazer, é costume e sua estrita obrigação prevenir um sacerdote, por forma que sendo chamado, acuda e satisfaça aos actos e obrigações, sejam eles conhecidos ou acidentais, pois que o pároco não exerce profissão de padre como um ofício qualquer de que se recebe salário em certas e determinadas horas de serviço, para ir quando, como, e aonde lhe for vantajoso ou agradável: tem os encargos e obrigações exclusivas da religião, que queira ou não há-de forçosamente cumprir. É nenhuma a consideração que este sacerdote presta ao cumprimento dos seus deveres e obrigações, praticando abusos e excessos que o qualificam impróprio e incapaz de exercer este ministério
”.

Prosseguem as actas com um chorrilho de acusações ao pároco, notando-se, perfeitamente, que era mais o adversário político que se atacava do que o padre da freguesia.

Em Agosto de 1884, solicitou a Junta autorização, com carácter de urgência, à Comissão Distrital de Coimbra para umas obras absolutamente necessárias. Apesar do pedido de urgência, a resposta não chegava, até que, no dia 18 de Setembro pelas 7 horas da manhã, o padre Nobreza, avistando da janela o presidente João Costa, que recolhia a casa de um pequeno passeio matinal, foi atrás dele e entregou-lhe um ofício que tinha em seu poder, sem saber como lhe chegara…

Era um ofício datado de 30 de Agosto, em resposta ao seu e no qual solicitavam esclarecimentos adicionais necessários à autorização requerida. Para justificar o atraso na resposta, solicitou a Junta, em ofício dirigido ao pároco, a informação de como o ofício fora recebido em sua casa e por que só passados tantos dias lho entregara.

Pois só no fim de Outubro o padre Nobreza respondeu dizendo “ignoro, para dizer com segurança, como o ofício que lhe entreguei, veio ter a esta casa, nem mesmo sei dizer o dia em que chegou, pois foi em ocasião em que eu não estava, sendo recebido provavelmente por minha criada com a minha correspondência. É certo que há poucos dias dei com ele envolvido com outros papéis, e vendo vossa senhoria da minha janela me resolvi a ir pessoalmente entregá-lo fazendo conhecedor nessa mesma ocasião dos motivos de demora”.

Os ânimos azedaram-se, de tal forma que o pároco chegou a dar ordens ao sacristão para não abrir a porta da Igreja para entrarem para as reuniões. O presidente João Costa não hesitou mais. Sendo dono de uma casa velha que estava desocupada, de imediato resolveu para ali mudar a Junta e mandou buscar a mobília e mais pertences que, com grande oposição do padre Nobreza, o sacristão acabou por entregar.

Como referi tudo isto não passavam de questões políticas. E para o confirmar vou acabar a historieta da mudança da Junta da Igreja, com a transcrição de um caso bem elucidativo. Em Novembro de 1883 houve eleições municipais. As urnas deram a vitória ao partido do padre Nobreza e seus correligionários. Eis a transcrição da comemoração dessa vitória:

O padre entusiasmado pela glória que o aureolava, entendeu dar uma pública demonstração do seu regozijo e satisfação digna da sua pessoa e companheiros, pelo prestígio e influências irresistíveis que acabavam de fundar e estabelecer sobre os despojos mortais do que chamaram partido progressista em Tavarede; para isso convencionou com a garotada de celebrar uma procissão de enterro, envolvendo o nome de alguém a quem só na ausência podiam impunemente insultar.
Com efeito na segunda-feira posterior da dia da eleição, tendo-se efectuado a reunião de todos os mordomos da festa-fúnebre no local aprazado, que foi dentro dos umbrais do portão de entrada da quinta do exmo. Conde de Tavarede e onde sua exª tem o seu solar e residência, desfilou o préstito, indo todos os da comitiva envolvidos em lençóis, lançada uma ponta pelas cabeças com o rosto descoberto e archotes na mão. Precedia o sacristão António Gaspar de Figueiredo, tangendo uma campainha da Igreja (que precede procissões e enterros quando se trata de chamar a atenção dos fieis cristãos
a um acto religioso). Seguiam António Proa, com uma colcha de chita arvorada em uma haste servindo de guião; acompanhavam António Carlota, António Cascão, Joaquim Nunes, João Ceiça, Manuel Pata, o regedor Manuel Luís Inácio e filhos Bernardo e José Maria, de Tavarede; Joaquim Mendes, o Bairrada, de Caceira, e ainda uma porção de garotos da Figueira e uns três de Caceira, companheiros do Bairrada; no fim João Proa, tocando tambor em uma caldeira, entoava o responso “chorai, filhos, chorai: morreu o partido progressista, vamos enterrá-lo e com ele lá vai a importância do João Costa; quem compra o beiço?”. Seguiam-se sentidos ais.
Fechando o préstito ia o reverendíssimo António Augusto da Silva Nobreza, pároco desta freguesia, sem disfarce algum, levando na mão um livro, que deveria ser substituído por uma borracha ou picheira, como emblemas da sua Nobreza; e a seu lado José Maria Luís. Sentimos que este homem, aliás bem intencionado, se deixasse ir à discrição da canalha.
Chegados ao adro da Igreja, porque caíram sobre o acompanhamento umas pedradas, e porque se não viam os impulsores, compreenderam que a ousadia provinha de quem pouco podia arrecear-se. E de noite todos os gatos são pardos, resolveram retroceder e não chegaram ao cemitério para onde se dirigiam e ali devia o reverendo entoar o De profundis…
”.

Atenção, tudo isto transcrevi das actas da Junta de Paróquia que foram publicadas na imprensa. Não há duvidas de que o facciosismo político levava pessoas responsáveis um pouco longe demais!...






(Caderno: Tavarede - Terra de meus avós - 3º.)