quarta-feira, 11 de novembro de 2009

HELENA RODRIGUES FIGUEIREDO MEDINA

Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 23 de Março de 1894.
“… cedo conheceu as agruras da vida, quer nas terras que cultivava, nas secas do bacalhau e, até, nas pedreiras, quer como costureira, mister em que se realizou profissionalmente, verdadeira autodidacta nesta arte, mas extraordinariamente competente. O trabalho não a impediu de, com o maior entusiasmo, procurar cultivar-se espiritualmente no grupo cénico da Sociedade de Instrução (a sua segunda casa, como ainda não há muito tempo recordava), onde se mostrou amadora teatral de alta craveira, mantendo a tradição que já vinha de seus avós, José Luís do Inácio e Luísa Genoveva”.
Iniciou-se na arte teatral em 1914, na opereta Os amores do Coronel. Ainda nesse ano, desempenhou o papel da protagonista em Os amores de Mariana, substituindo Eugénia Tondela. “… possui uma voz bem timbrada, muito agradável e com os recursos que a partitura exige”. O Voluntário de Cuba, Falsa Adúltera, A pupila do Corregedor, Amor de Perdição, Entre duas Ave-Marias e Noite de S. João, foram peças por si protagonizadas, entre outras.
“… amadora de qualidades muito apreciáveis, tem de satisfazer exigências da música excessivamente extensa e dolente e, como tal, fatigante”, escreveu um crítico apreciando o seu trabalho na opereta Entre duas Ave-Marias.
Por ocasião das Bodas de Ouro daquela colectividade, reviveu no palco o papel de Mariana, que desempenhara quarenta anos antes! “Foi com verdadeira emoção e ternura que o público viu aparecer no palco as figuras remoçadas de Helena Figueiredo…”. Ainda participou nas peças A Conspiradora (1957), Os Velhos (1958) e Terra do Limonete (1961).
Mestre José Ribeiro, numa das suas últimas entrevistas, recordou-a. “… foi primeira figura durante anos. Era uma figurinha agradável e tinha uma linda voz que a fazia brilhar na opereta”.
Nos últimos anos da sua vida, que viveu em casa de sua filha, Otília, era visitada por muitos amigos, que recordavam, saudosamente, tempos antigos. José Ribeiro, uma das habituais visitas, disse-lhe um dia: - Olha lá, Helena. Somos da mesma idade, pois nascemos no mesmo ano. Porque é que eu te trato por tu e tu me tratas por senhor? – O respeito, senhor José, o respeito, respondeu ela. Realmente sempre foi respeitadora, amiga e humilde para com toda a gente.
Casou em 1910, com José Gomes de Figueiredo, seu tio. Enviuvou cedo e, anos mais tarde, casou com José Nunes Medina. Do primeiro casamento teve uma filha, Maria José, e do segundo, outra, Otília.
Faleceu no dia 21 de Julho de 1997, com 103 anos. “… foi, no dia a dia, uma figura carismática, autodidacta, na aprendizagem da arte de costura, a sua vontade de progredir era de tal forma determinada que, para atingir os seus fins, desmanchava peças de vestuário para novamente as cozer”.

Já centenária, ainda cantava as cantigas do “seu” teatro, lembrando-se das letras, algumas das quais bem picantes, por sinal.
A Sociedade de Instrução Tavaredense homenageou-a nomeando-a sócia honorária e descerrando o seu retrato, o qual se encontra exposto no salão nobre da colectividade.

Caderno: Tavaredenses com história

Como complemento à biografia acima, julgo interessante incluir aqui uma notícia publicada dias antes da homenagem que lhe foi prestada na comemoração dos 100 anos de vida.
Nasceu num período agitado da vida portuguesa e numa altura em que o crescimento da Figueira da Foz se fez sentir na comunidade rural que era então Tavarede. Dessa época viria Helena Figueiredo Medina a sentir bem de perto as suas convulsões, com tudo o que isso implicava para quem não tivesse nascido em berço de ouro.
Na agricultura, nas pedreiras, na seca do bacalhau e na costura vendeu a sua força de trabalho e traçou um destino de cruzes e penitências até poder receber as alegrias e bem-aventuranças da família e da arte.
Quando esse mundo era privilégio apenas dos homens, Helena Figueiredo Medina engrossou, com raro talento, o grupo de mulheres que, talvez sem o saber, lutava pela emancipação, cumprindo entre os seus 17 e 32 anos, nos palcos da SIT papel decisivo na missão preconizada pelos fundadores da instituição.
Já suportando o epíteto de septuagenária, Helena Figueiredo Medina regressou aos palcos para ajudar José da Silva Ribeiro a compor esse hino que é a “Terra do Limonete”.
Por isso decidiu a Sociedade de Instrução Tavaredense celebrar no próximo dia 23, o centenário de alguém que é uma memória de Tavarede e legenda viva da cultura popular, com um programa que integrará, para além de outros actos, a reposição da opereta “Os amores do coronel” peça na qual a homenageada se estreou no já longínquo ano de 1914.
Mesmo que não sejam ainda conhecidos os detalhes da festa de homenagem que vai ser prestada a Helena Figueiredo Medina, julga-se que tudo o que for feito será sempre pouco, porque o destinatário é uma mulher que trabalhou muito, sofreu demais, mas encontrou na arte teatral o encanto da vida.

Fotos: 1 - Retrato exposto no salão nobre da SIT; 2 - Com o grupo que representou a opereta 'Os Amores de Mariana', em 1914 (terceira da fila do meio, ao lado de José da Silva Ribeiro); 3 - Programa da homenagem prestada aquando dos seus 100 anos de vida.

sábado, 7 de novembro de 2009

Os passarinhos

No jornalzinho 'O Poeta', publicado em Junho de 1907, José da Silva Ribeiro, que à data teria 14 anos incompletos, publicou o conto intitulado 'Os passarinhos'. Este jornalzinho, que tinha a sua redacção em Tavarede, era escrito e editado por José da Silva Ribeiro e por Anibal Nunes Cruz.
É o primeiro trabalho que encontrámos de Mestre José Ribeiro. Ja o haviamos incluido no espectáculo que a SIT apresentou aquando das comemorações dos 20 anos da morte daquele ilustre tavaredense. Como curiosidade, julgo de interesse reproduzir o referido conto neste blogue.
Os passarinhos! Habitantes das alturas, que erguem o voo até ao cume das montanhas, parecendo-nos que andam medindo as cumeadas. Como é ilimitada a vossa pátria!
Como é imenso o vosso número, e como os homens vos querem imitar tentando subir em balões ao vosso paiz. Mas o seu resultado é sempre ou quasi sempre mau.
Como o vosso cantar sereno encanta o viajante.
Avesinhas que tendo nas suas penas mil cores encantadoras, trinam durante as tardes primaveriaes e noites luarentas. Constroem os ninhos entre a folhagem das arvores.
Como ella corre, tal qual uma louca, aproveitando a palha mais flexível que encontra; vae acumulando umas após outras; ajeita-as; dá-lhe a forma de berço; aproveitam as penugens e até as penas mais leves.
Chega o momento da ave-mãe pôr os ovos. Chocam-nos os dois; nascem os novos passarinhos. Que alegria em ver as avesinhas, ainda implumes, agitarem-se!
É indicio que teem vida.
Uma das ave fica sobre os passarinhos. De manhã, ainda muito cedo, o primeiro raio de sol, ainda com pouca força, penetra furtivamente na folhagem. Acorda a mãe, e ela, cheia de alegria, sae do ninho e vae buscar sustento para seus filhos. Chega e vê que seus implumes teem vida.
Redobra a alegria.
No dia seguinte sae novamente de manhã, mas, quando chega ao ninho… vê que lhe tiraram seus filhos.
Que tristeza para ela ao ver que os homens são traidores! Ela, não se certificando, vê e revê o berço, o chão, e mesmo os ramos, julgando que fosse algum dos seus patrícios mais audaciosos. Mas não vê os filhos nem o inconsciente que lh’os tirou.
Nunca devemos tirar um ninho, porque isso é um crime, é a mesma coisa que matar um indefezo, é o mesmo que caturar um incriminado. Assim como se prende muita vez um homem por amar a liberdade, não sendo isso crime, assim se fazem também cativas as pobres aves, por amarem igualmente a liberdade. Como os cidadãos portuguezes, eles amam também essa grande mulher d’uma alma grande e bemfeitora – a liberdade.
Nunca devemos tirar um ninho! Nunca!... As aves só prestam serviços.

João de Oliveira Júnior

Nasceu em Tavarede no dia 21 de Setembro de 1920, filho de João de Oliveira e de Guilhermina Rodrigues Cordeiro. Casou com Carmina Monteiro de Oliveira e teve uma filha, Ana Cristina.
Faleceu, devido a um atropelamento em Coimbra, a 6 de Dezembro de 1990, quando, acompanhado de sua mulher, atravessava a Avenida Sá da Bandeira, numa passadeira para peões. Ironia do destino: foi atropelado por uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, associação para a qual tinha colaborado em diversos espectáculos de angariação de fundos!


A sua actividade profissional exerceu-a sempre ao serviço da Companhia dos Caminhos de Ferro, reformando-se, aos 65 anos de idade, com a categoria de chefe de serviço.
Em 1940, juntamente José Maria Cordeiro (Zé Neto) fundou o Atlético Clube Tavaredense, clube que chegou a organizar algumas competições desportivas.
Foi escrivão da Junta de Freguesia de Tavarede e, em 1963, contra sua vontade, foi nomeado presidente daquele órgão autárquico: “… é uma pessoa cheia de qualidades, firmeza de carácter, incapaz de se deixar enredar por influências malsãs…”.
Desde muito novo que fez parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. “… é o ‘mau’ do grupo. ‘Como ninguém gosta de fazer os papéis antipáticos e eu não me importo, sou sempre escolhido’. Estreou-se em Maio de 1945, na peça Horizonte, no papel de Jacinto “em que apenas dizia três palavras”.
“Tenho renunciado a horas de descanso e a dinheiro para poder estar presente em todos os ensaios”, disse ele. Também fez parte, por diversas vezes, dos corpos sociais da colectividade. Na sua carreira de amador dramático, superior a 40 anos de actividade, encarnou mais de noventa personagens.
“Frei Jorge Coutinho foi um frade que atravessou a peça como se fosse um frade autêntico e nisso está o nosso melhor elogio e todo o mérito que poderia ter”, (Frei Luís de Sousa).
“Foi mais uma vez o intérprete correcto e consciencioso que temos visto actuar em papéis de vária índole” (A Conspiradora).


“… mau grado outra vez vestido numa pele que lhe não cai bem – um Tartufo não ‘de carne e osso’, como algures na peça se diz, mas exclusivamente ‘osso’; uma figura naturalmente hirta, boa para asceta ou marcial, para crítico ou homem de ciência exacta, metida numa personagem que se presume untuosa e anafada do hipócrita oportunista e cruel -, às vezes conseguiu mesmo integrar-se no papel, para acabar muito bem, na atitude de vencido” (Tartufo).
Tinha decidida vocação para a comédia, embora no drama, como em Frei Luís de Sousa e A Conspiradora obtivesse assinalados triunfos com os seus desempenhos.
Em 1955, na interpretação da figura de Manuel de Sousa, major, na comédia Major, foi protagonista de um caso bem característico da sua personalidade de excelente comediante. Violinda Medina era a protagonista. Como sabemos, no palco era a personagem representada que vivia e não ela própria. Alheava-se de tudo para se entregar, de alma e coração, ao seu papel. Dizia, por isso, que em cena ninguém a conseguia ‘desmanchar’. Era um desafio para o João de Oliveira. O Major era um cão que havia fugido e que a dona, em altos gritos, chamava da janela. Manuel de Sousa apanhou o animal e correu a entregá-lo à dona, que estava aflita.
Mas… quando abre a porta para receber o animal, braços estendidos, não era o seu cão fugitivo, mas, sim, um leitão, que grunhia que nem um desalmado. Nunca mais Violinda Medina pôde dizer que ninguém a ‘desmanchava’ em cena. Caiu a rir num cadeirão, enquanto João de Oliveira, impávido, repetia: “tome, minha senhora, tome o seu cão”.
Nos últimos tempos de vida de Mestre José Ribeiro, João de Oliveira Júnior assumiu o cargo de ensaiar, sob a sua orientação, o grupo cénico. E, após a morte do Mestre, pôs em cena dois grandes êxitos do grupo: Chá de Limonete e O Sonho do Cavador, a que se seguiram outras peças, até à sua morte inesperada. Foi nomeado sócio honorário em 1984.
Além do teatro, ocupava os seus tempos livres em dois passatempos que adorava: a jardinagem e a pesca desportiva. Se o seu quintal era um autêntico jardim, onde não faltava uma estufa, dezenas de troféus emolduravam a sua estante, conquistados em provas de pesca, de rio e de mar.


Também possuía uma veia poética. Concorreu a diversos concursos, tendo ganho alguns prémios. Recordamos, somente, uma quadra sua com que concorreu à “Festa da Neve:

Branca neve que na altura
À luz do sol tanto brilha,
Como tu só é tão pura
A graça de minha filha.

“O teatro do nosso concelho está de luto. A vida tem destas coisas. Ainda não se esgotaram os “ecos” da homenagem a esse outro grande Tavaredense e homem de teatro José da Silva Ribeiro, e morre o seu continuador João de Oliveira Júnior.
… morreu no passado dia 6 atropelado por uma ambulância quando passava numa passadeira…
Que ironia do destino! João de Oliveira, homem rigoroso no seu trabalho e na sua vida, morre atropelado numa passadeira e por uma ambulância… O teatro está mais pobre. A cultura figueirense, que cada vez está mais abandonada e pobre, mais pobre e abandonada ficou com esta morte. Tavarede, terra de teatro amador de grande qualidade e tradição, perdeu mais um vulto que mantinha a tradição e a qualidade de um teatro que o público reconhece nas obras levadas à cena…
Estreou-se no teatro de Tavarede com apenas 14 anos e, desde então, manteve-se sempre no grupo cénico. Amador de alta categoria, ele experimentou as mais diversas personalidades representando, de forma admirável, grandes dramaturgos portugueses e estrangeiros. Ele era o “mau” do grupo, segundo as suas próprias palavras, já que ninguém gosta de fazer papéis antipáticos, paradoxalmente, fazia, de maneira admirável, a feição cómica. Desde muito cedo, este amador revelou-se alguém capaz não só de interpretar majestosamente os seus papéis, mas também de assimilar as técnicas inerentes à preparação e montagem de um espectáculo…”.

Fotos: 1 - Na peça 'Frei Luís de Sousa', papel de Frei Jorge, contracenando com Violinda Medina, João Cascão e Alice Mendes. 2 - Peça 'A Conspiradora', no papel de Conde de Riba de Alva, com Violinda Medina. 3 - Distribuição de prémios de um concurso de pesca, ladeado por José Esteves e Alfredo Cardoso.
Caderno: Tavaredenses com história

Sociedade de Instrução Tavaredense - 2

Por ocasião do carnaval, os correspondentes locais mandavam as suas “alfinetadas”. Em 1905, e referente a um espectáculo que, efectivamente, se realizou no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, anunciava-se: “... haverá um grande sarau dramático-musical no teatro, para o que foram convidadas notabilidades artísticas e homens de ciência. O sr. António Mota executa na flauta uma sua difícil composição musical e recita a poesia “À procura dos borrados”. O sr. Luís João canta a romanza Rosita dá cá o botão e recita o monólogo Mira que heu lh’o xaquei... O sr. Alcafache apresenta o seu orfeão que há-de executar o hino da Murtinheira e o Maxixe ribeirinho. Os srs. César, Medina, Broeiro, Coelho e todos os demais actores e actrizes do teatro representam o drama sacro Os anjos que te respondam”.

Já referimos que, muitas vezes, os espectadores tinham que aguardar o início do espectáculo muito para além da hora normal. Numa notícia que comenta a representação da opereta “Vida airada”, escreve-se “... lembramos também a conveniência de começar os espectáculos mais cedo e não os prolongar até altas horas...”. Bem sabemos que os teatros, geralmente, eram apresentados aos sábados. Mas, os tavaredenses de então, na sua maioria trabalhadores das terras, nem ao domingo de manhã folgavam. Daí a razão do pedido feito.
E porque nos surge, no meio das nossas notas sobre teatro e colectividades, um pequeno retalho que achámos interessante, aqui o deixamos, e apenas como mera curiosidade. “No dia 4 de Julho de 1905, fez exame na escola Conde de Ferreira, proposto pela professora D. Maria Amália de Carvalho, José da Silva Ribeiro, que obteve a classificação de óptimo”.
As récitas continuavam. Alguns espectáculos ocorreram, mas, infelizmente, não temos nota do programa que os compunham. As várias notícias faziam comentários, louvavam os amadores, mas esqueceram-se de nos deixar o título das peças, num ou noutro caso.
A escola também se mantinha em pleno, cada vez com maior frequência. “Nunca em Tavarede houve uma Sociedade tão bem organizada e que tantos serviços tenha prestado à causa da instrução. Apesar das aulas serem criadas para os filhos de sócios, são ali admitidas crianças muito pobres e orfãs, a quem não só se ministra a instrução, mas são-lhe fornecidos os livros precisos”.
Acrescente-se que, além da instrução primária, a Sociedade de Instrução continuava com o ensino da música e criou uma “aula de desenho”. Não sabemos as frequências nem os resultados destas duas últimas actividades. Quanto à música, não existem notícias da formação de qualquer tuna ou outro agrupamento musical, para além daqueles que se formavam para abrilhantarem os espectáculos teatrais. Sobre a aula de desenho, que presumimos tivesse como mentor o talentoso tavaredense João Nunes da Silva Prôa, não encontrámos quaisquer notícias posteriores.
Anualmente, os alunos da escola nocturna, mostravam o seu aproveitamento. Além de fazerem uma exposição com os seus trabalhos escolares, organizava-se uma festa, em colaboração com a escola primária oficial que, regra geral, culminava com um sarau no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense. Os alunos recitavam poesias, liam trechos clássicos, diziam monólogos, cantavam umas canções e o seu hino e terminavam a sua actuação com uma ou duas comédias e/ou um entreacto cómico. Nalguns anos também apresentavam alguns números de ginástica. A instrução física era-lhes ensinada por João dos Santos Júnior. Estes saraus terminavam com a participação dos amadores “mais velhos”, numa engraçada comédia que acabava por bem dispôr todos os assistentes.
Apesar dos parcos recursos de que dispunham, os responsáveis pela colectividade, sempre preocupados com o bem-estar e carências dos seus conterrâneos, logo pensaram ir mais longe, transformando a jovem SIT numa “associação de socorro mútuo”...

Como se nota pelos nomes que vão surgindo, os amadores e colaboradores que anteriormente se dividiam pela 'Estudantina' e pelo 'Grupo de Instrução' esqueceram velhas rivalidades e uniram seus esforços para erigir uma nova colectividade capaz de se manter e de prosseguir o caminho de instruir e educar os seus conterrânos.
Fotos: em cima, César Cascão, um dos fundadores. dirigente e amador teatral. Em baixo: João dos Santos Júnior, grande amigo e benemérito da SIT, professor das aulas de ginástica.

Joaquim Alves Fernandes Águas - 2

Há dias, recebi um mail enviado pelo sr. José Filipe Menéndez que é, nada mais nada menos, do que trineto do tavaredense Joaquim Alves Fernandes Águas, o fundador da conhecida Casa Águas. Além de palavras muito amáveis sobre o meu blogue, teve a gentileza de me indicar a possibilidade de obter o retrato daquele seu trisavô que, julga ele, ter sido pintado pelo mesmo autor do retrato de João José da Costa, visto terem sido conterrâneos e contemporâneos.

Também lhe agradeci por mail, que julgo tenha recebido, mas entendo que, complementando a biografia daquele ilustre tavaredense, que publiquei no dia 31 de Agosto último, devo aqui deixar inserido aquele retrato.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Fernando Gomes de Quadros

Morgado. 8º. Senhor de Tavarede.
Filho de Pedro Lopes de Quadros e Sousa e de D. Josefa.
Bacharel em Leis, viveu em Tavarede. Casou com D. Brites José da Silva e Castro, no ano de 1731.
De toda a família Quadros, terá sido o mais cruel e opressor do povo de Tavarede. Verdadeiro “senhor feudal”, escravizou os trabalhadores da aldeia, os quais obrigava a irem trabalhar para as suas terras, não lhes dando qualquer paga.
Numa exposição enviada ao rei D. José, o Cabido de Coimbra começa por referir que “traz as justiças daquele Couto debaixo do pé e nada se faz, pelo Juiz e vereadores, que se lhe não dê a saber. Não se faz (elege) Juiz, vereador e Procurador do Couto, que não sejam as pessoas que ele quer, ou não quer que sejam, porque quando se faz a Justiça (eleição), chama a casa os que hão-de votar, e quando eles não vão os procura e os faz votar nas pessoas que ele muito quer e fazendo o contrário, os ameaça com um vergalho, como fez ao Capitão Isidoro dos Reis, homem do hábito de Cristo, que sendo Juiz, ele o foi esperar para lhe dar com o dito instrumento”.
Só mais um pequeno exemplo para se apreciar as qualidades deste fidalgo. “… que anda actualmente amantizado com uma filha bastarda chamada Antónia, filha de Isabel Gomes, mulher de Manuel Gomes Raposo, há mais de dez anos, e tem parido dele várias vezes, e chegou a ir a casa da mãe furtá-la, e deu muita pancada no dito Manuel Gomes Raposo, porque entendia ser sua filha e como tal a defendia, para não ser roubada nem ofendida na sua honra…”. Deste caso, escreveu José Ribeiro um quadro que integrou numa das suas revistas sobre a história de Tavarede.
Esta exposição, muito longa, relata toda a espécie de abusos feitos por ele. Daqui resultou que, para acabar com tal situação, o rei acabou por elevar a vila o lugar da Figueira da foz do Mondego e para lá transferir a Câmara e Justiças de Tavarede.
Seus filhos varões, Pedro Joaquim e António Leite de Quadros e Sousa, não eram melhores do que ele, antes pelo contrário. O mais velho, matou um seu tio frade, dando-lhe um tiro quando ele estava a rezar, unicamente por este lhe ter dado uma repreensão e, ambos, foram autores de diversos crimes e tropelias, acabando por prestarem contas à Justiça. Tiveram mais duas filhas: D. Francisca, que morreu criança, e D. Joana Madalena de Quadros, que foi a herdeira do Morgado e Senhorio de Tavarede.


Caderno: Tavaredenses com história

Eis um extracto da carta enviada a El-Rei D. José, relatando alguns dos crimes do 'nosso' Morgado:
Que No d.º Couto de Tavarede vive disoluta, e despoticam.te Fernd.º Gomes de Quadros, com o foro de Fidálgo da Caza de V. Mag.e, e Commendador nas Alhádas com tão absoluto, e independ.º poder com véxação das Just.as, e povo
Que trás a Just.as daquele Couto debayxo do pé, e Nada se fás pello Juis, e vereadores q. Se lhe não de a Saber, Não se fás Juiz Vereadores, e Procd.or do Couto q. não sejão as pessoaz q. elle q.r, ou não quer, q, Sejão; porq. qd.º se fás a Just.ª chama a cáza os q. hão de vottár, e qd.º elles não vão os procúra, e os fás vottár Nas pessoas q. elle m.to q.r, e fazendo o contr.º os ameássa com hu vergalho; Como fes ao Cap.tão Izidoro dos Reyz homem do habito de Christo, q. Sendo Juiz elle o foi esperár p.ª lhe dár com o dº. instrom.to, o quál, tendo avizo, Se retirou, qd.º Não certam.te o descompúnha.
Que qd.º a Just.ª fás elleyção de recebedor das Cizas de V. Magd.e, ou quatro, e meyo por cento, e outras fintas, Se lho não dão a Saber, quer q. Livrem a todos q.tos fazem, e por este resp.º Sucçede as mais das vezes vir Caminhr.º pellos quarteis, por não haver Recebedor por Cauza delle, E o povo paga m.tas Custas, q. Se houvéra Recebedor, q. tivesse Cobrado o pedido a tempo, escuzáva o mesmo povo de pagár ao Caminhr.º, e de experimentár tam grd.e vexação pella d.ª Cauza.
Que toda a pessoa, q. intenta por algùa demanda justa, ou quér Cobrar alguma divida, Se a tal pessoa Não vay primeyro pedir Licença, e dár Conta do q. intenta fazer, fás q. as Justiças dem a Snn.ca contra a tál pessoa, ainda q. tenha razão e just.ª pondo-se pella p.te Contraria Com todo o Seu absoluto poder chamando as Testem.as p.ª jurem o q. elle q.r, e discompondo as q. jurão a favor da tál pessoa, E não Só as p.tes tracta desta Sórte, Mas aos Juizes mandando-lhes com imperio, e ameássos q. façao o q. elle lhes insinúa, aliás páo, e vergalho. Porem ainda aqui Não párão as vexaçõenz, q. o d.º povo padeçe com a vizinhança deste homem.
Que naquella terra há m.tos criminozos por roubos, q. fazem Em cazas, e fazendas, por dividas q. debem, pancadas, e facadas, q. dão, os quais Logo se vão recolher a Caza delle Como Coutto Mais privilegiado, q. algu q. haja no Reyno, e Elle os recebe, e he Padrinho de todos; porq. Só o hé dos Máos, E deste Valhacoutto entrão a Continuár Nos Seus roubos, e descompostúras dando, e ferindo á Sombra e Cápa do seu Patrono; Como tambem o hé dos Siganos qd.º vem ´aquéllas terras, Sendo Cápa, e dando hospedágem a todo o Ladrão, e pessoa de Má Consciencia.
Que Sendo o termo do Coutto de Tavarede, m.to pequeno trás Nelle hu grd.e rebanho de Cábras estuindo todas as vinhas, e mais Novid.es dos pobres, e Se acazo lhas deitão fóra os donnos das fazd.as, os Criados Se Levantaõ contra elles, e os Amiássaõ Com Seu Amo. Cujo resp.to os intimida a não defenderem o q. he Seu, E o mesmo Sucçede com os gádos das pessoas, q. Saõ da Sua Cáza, por Serem m.tos os Comp.es, e Afilhados, q Logrão da izensaõ, e privilegios da mesma, e Estes ainda q. os Seus Gados Sejão danninhos Não saõ Coymados, e Se algu. por esquecim.to da Just.ª o foy, Logo o fas riscar do Livro, e fica izento da Coyma.
Que p.ª Mayor splendor da Sua Nobreza, e resp.to da Sua Caza quer q. tudo, o que pede Se lhe faça ou Seja torto, ou dir.to p.ª o q. intimida as Justiças deste Coutto com a Sua Crueld.e q. Como Saõ homens de Menos Esféra quaiq.r couza os intiMida, e por esta Cauza lhe disfársaõ as Suas insolençias, e a toda a pessoa, q. Não fás o q. elle pede lhe Costuma levantár Labéos e formár Crimes falsos, e Como tem m.tas pessoas do Seu Sequito, e iguál Condição fás as provas, q. quer E a outras as indús a q. jurem o q. elle quer, e Se o não fazem os castiga Com páo, e vergalho, e assim se Vinga de q.m lhe ultrajou o resp.º faltando-lhe so Seu empenho Sendo Maxima deste Sobjeito, Como praticou a Certa pessoa, Que p.ª a Sua Caza Ser respeitada ham de andár os Vezinhos sempre debayxo de hu páo, Sendo palavra m.tº Sua = Elles não querem, pois há de sahir o Castanho = que he hu bordão daquella Madr.a, Com q. tem dado Muntas pancadas em M.tos, e da mesma sorte.
Que trés os pobres trabalhadores destas terras arrastados; porq. todas as vezes, q. quer algu: Serviço feito os Manda rogár, e Se Não vão Logo por terem promettido p.ª outro Serviço os desCompoem a páo, e vergalho, e m.tas vezes os Costuma hir tirár do Serv.º de outras pessoas Aonde andão, ou do seu proprio Serv.º; dizendo, q. está prim.ro q. Ninguem, e Como lhes não pága Ninguem o quer Servir, e se o Servem hé com o temor da outra paga, q. elle Costuma dár.
Que Só as pessoas, q. vivem màl, e saõ mál procedidas favoreçe, E os ajuda p.ª o Mál, e fás Com as just.as os não perSiguão, Só p.ª os ter da Sua Mão p.ª Com ajuda destes fazer tudo q.to q.r, e ser respeitádo e temido; pois o ajudão Nas pendencias Como pessoas proprias, e Nas occaziõns de Algua próva de algua . Cauza Com os juram.tos fálsos, q. por Seu resp.º dão.
Que tambem tomou humas Cazas de Sobrado, e quintál A Theotonio dos S.tos Pinhr.º da Figr.ª, as quáes tinha No Coutto de Tavarede, Sem q. té Ao prez.te as qr.ª restituir a Seus herdr.ºs.
Que querendo o Cabb.º Exponente arendár a renda de Tavarede este Contrato p.ª o q. Mandou por Editáes p.ª Se saber o dia, em que a d.ª renda se havia de arrematár, o d.º p.ª Sua vinguansa Mandou por outros Editáes, e vários papéis com Letra desconhecida, q. dizião: Que qual.r pessoa, q. tomáse aquella renda visse Como a tomáva; porq. lhe havião de roubár os frutos, e perseguir a q.m a tomáse, e por esta rezão persegue Ao Prez.te Rendeyro Cauzando-lhe Mil vexaçoens, e ao Mesmo Cabb.º, induzindo o povo a q. lhe não págue os fóros, q. lhe são devidos, assim pello foràl do Mesmo Coutto, Como por Snn.cas q. Contra elles tem alcansádo. Porem esta inimiz.e q. o Suplld.º tem ao Cabb.º Não só he por ser Malévolo, Soberbo, e de desordenados Costumes, Mas porq. lhe vem por herança de seus Antepassados, Contra os quais alcansou o Cabb.º Expon.te m.tas Snn.cas, Não Sóem favor do Mesmo Cabb.º, Mas tambem daquelles póvos, q. opprimidos das injust.as, q. aquelles preversos homens lhe fazião, reccorrião ao Cabb.º Como Donatr.º daquelle Coutto por m.ce do S.r Rey Dom Sancho de gloriosa Memoria, E não So o d.º S.r Rey os defendeo daquelles Crueis vezinhos, Mas os Sr.es Reys Seus Sucçessores, de q. se ácham Snn.cas , e Cartas Aos Correg.es de Coimbra p.ª q. acudão ás vexações, q. os d.ºs Successivam.te lhes hião fazendo. q. este Odio vem sucçedendo de Pays em filhos, de filhos em Neptos té chegár a este; E assim Como este Odio Se estabeleçeo por geração, assim tambem a Malignid.e, e perversid.e de génios, e Soberba se foi Seguindo de huns em outros.
Que fazendo algumas pessoas fornos p.ª Cozerem o Seu pão Em suas cázas lhes tem o suppd.º entrado pellas portas Dentro aCompanhado de seus Criados, e valentes, e lhos derrubão, e desfazem; Como fizerão a Luiz de Faria da Figr.ª, Theotonio dos S.tos Pinhr.º, Antonio Ozorio todos homens de bom daquella terra; o q. obra Com o pretexto de ter provizão, e Snn.cas possessorias p.ª ter forno de poya Na Figr.ª tudo obtido em tempo em q. aquella terra, e povoassão não cheguaria a ter Cem vezinhos, Sendo q. hoje tem mais de Seis Centos, Sendo impossivel q. este augmento de povo Seja bem Servido Só Com o d.º forno, e fornálha, q. o pred.º pertende Conservár apezár de toda a povoassão em Notoria perda da Mesma, e de seu pão, damno, q. Sófrem por Não Serem espancados, e descompostos pello pred.º, e Seu f.º Pedro Jozé.
Que o pred.º Suppd.º acutilou Nas Logeas do P.e Cura Manoél Thomas Ao feitor de Fernando Maria Morador Na Cid.e de Coimbra, q. habitáva No lugár da Figr.ª por Nome MaNoel Ribr.º Brávo, q. No d.º Lugár tinha Logea de Comercio Correndo atras deste Com a espada Núa desde o Armazem, em q. estava quantid.e de peixe, té ás d.as Logeas, por o pred.º Feytor lhe Não dár fiadas humas arobas de pescadas Secas, q. lhe pedia.
Que o d.º Suppd.º foi a Caza de Caetano dos Sanfos do d.º Lugar da Figr.ª p.ª lhe dar, o quál Com medo p.ª Se Livrár Saltou de hua jeenella abayxo de q. ficou manco de ambos os pés, E assim vive.
Que Não querendo hu preto do P.e Jozé dos Reys consintir que o gado do Suppd.º andase em hua fazd.ª do referido Snr. do preto o d.º Suppd.º com hu. seu filho entrarão Na d.ª fazd.ª p.ª Mál tractarem o d.º preto, q. por fugir escapou de ser espancádo Com ármas, q. Levávão.
Que as Just.as daquelle Coutto de Tavarede todas temem, e tremem do Suppd.º, e de Seus Criados; por estes Não Só castigárem por obra, e palavra, Não Só ao q. lhe fázem Coymas a seus Comp.es, ou Caz.ros, ou outros Seus protegidos; Mas a quaesa.r q. lhe não obedecão, em quáisq.r Matr.as de Seu empenho; porq. Contra o Suppd.º, e Sua familia Se não administra Just.ª Naquelle Coutto em tanto
Que dando o Suppd.º huns Capítulos contra o Rendr.º do Cabb.º Exponente, e do Juis Executor do Mesmo Cabb.º No Supposto Nome do povo, e Cam.ra, Sendo V. Mag.e Servido Mandar q. o Correg.or de Coimbra o informá Se, Mandou o referido Correg.or chamar os off.es da d.ª Cam.ra de Tavarede p.ª q. asignassem os d.ºs Capítulos, os quáes Sendo Vistos pellos d.ºs off.es da referida Cam.ra disserão, q. taiz Capítulos Não fizerão, Nem Mandarão fazer, e q. o denominarem se feitos em Seu Nome, hera com falsid.e, como o hera a Narrativa dos mesmos, e q. por este Motivo os Não asignávão, do q. Sendo Sabedor o Suppd.º Mandou chamár os d.os off.es a sua Cáza, e os descompos, e ameassou, q. Se não asignasem os d.ºs Capítulos os havia de Moer Com hu. páo; E os pred.os off.es por se verem Livres das vexaçoens, q. o d.º Suppd.º Costuma executár com medo os asignarão. Sem embb.º do q. V. Mag.e informado da Verd.e pello d.º Correg.or foi Servido escuzár o requerm.to
Que he o Suppd.º de tão depravado Animo q. té aos Religiozos Franciscanos de S.to Ant.º do d.º Lugár da Figr.ª chegua a ferir a tirannia daquelle; porq. querendo, fundádo Na Sua Fidalguia, Se lhe faça tudo o q. pede, e Sucçedendo Lansár fóra do Serv.º daquella Communid.e o P.e Guardião della ao Barbr.º da mesma, por fáltas q. tinha feito, recorreo o d.º Barbr.º ao patrocínio do Suppd.º , e pedindo este Ao referido P.e Guardião o houvese de tornar a admitir; porq. lhe negou a d.ª graça Logo o Suppd.º o Ameassou q. lhe havia de tirár q.tas esmollas pudése, Como Com eff.º pratica impedindo-lhe pellos Meyos, q. pode excogitár os Sermoens daquellas freguezias Vezinhas, e outras mais esmóllas, q. Se lhe costumão dár.
Que o Suppd.º he costumado a proteger Facinorozos, e a injuriár os honrados; porq. andando hu. Franc.co de Olivr.ª do d.º Lugár da Figr.ª Omiziado por Crime de trayção, e Aleyvozia se refugiou p.ª o Caza do mesmo Suppd.º (com Exemplo deste proteger a outros mais delinquentes) E o d.º Suppd.º o acompanhou Com hua espada debayxo do braço te o d.º Lugár da Figr.ª, e cheguando ambos á porta do P.e Liborio (q. hera o offendido Com a d.ª trayção, e aLeyvozia) estiverão quietos m.to tempo olhando p.ª as janéllas, e Cázas do d.º P.e observando se Sahia p.ª o discomporem, Segundo Se entendeo.
Que o Suppd.º Nunca pagou a pessoa algua, q. o Servise Assim Com Couza fiáda, Como emprestada, e Se acázo Alguns Credores lhe pedem o q. lhe emprestárão, ou fiarão os descompoem espancando-os Com páo, ou vergálho, e ao pouco de palávra, e Se manda pedir algua. Couza fiáda E Se lhe não fia fás o Mesmo, Com o q. vivem aquelles povos tam opprimidos q. Ninguém he S.r de ter couza algua.Ao pé do Suppd.º; porq. tudo o q. lhe fás conta, fás Seu, tomando por forsa de pancádas o alheyo Se lho não dão, Não paguando tambem aos trabalhadores, q. o Servem.
Que Mandando o pred.º Suppd.º pedir a hu. Ingles chamádo Daniel humas pipas emprestadas; porq. este lhas não Emprestou, em rezão de lhe Serem necessr.as p.ª a Condução dos Seus vinhos p.ª o q. já as tinha postas Na práya p.ª Se embarcarem p.ª a d.ª Condução, o d.º Suppd.º Mandou Conduzir p.ª Sua Caza as de q. Necessitáva contra a vont.e do d.º Daniél Seu dono Sem Sua Çic.ª; Como tambem mandou Conduzir p.ª Sua Cása hua pouca de Madr.ª, e páos de grd.e preço, q. achou Nas d.as prayas da Figr.ª; Sendo a d.ª Madr.ª de hu. homem de Lx.ª de q. estáva entregue por Coomissão Luís da Costa do d.º Lugár da Figr.ª; E haverá dous annos Com pouca diferença Mandou o d.º Suppd.º pedir hua Carrada de Canas a hu. homem de Buárcos, e não Condescendendo este Com a p.am porq. as queria p.ª as suas Vinhas, o d.º Suppd.º Com absoluto poder Mandou os Seus Criados a fazenda do dº. homem, e q. della trouxessem as Canas; Como Com eff.º violentam.te trouxerão p.ª as vinhas do referido Suppd.º
Que tendo António Jozé de Saldanha de Aveyro huma Quinta chamada da Fonte Com huma Morada de Cazas de Sobrádo No Coutto de Tavarede, q. São de huma Capélla lhas demullio violentam.te o Suppd.º, e Se aproveitou de toda a pédra, telha, e Madr.as, E fes das Cazas, e Área dellas picadeyro de Cavállos, dmnificando os béns da Cappella, q. lhe Não pertençem, e andando os béns desta arendados por tres Moyos de Milho Annualm.te o d.º Suppd.º pello Odio, que tinha ao referido Antonio Jozé, fes com que Ninguem arendase a d.ª Quinta por Mais de Setenta alq.res de Milho; E alguns annos a fes ficár com menos renda por falta das d.as Cazas, q. herão Nobres, e tinhão acomodação p.ª os frutos, q. Agora Não tem.
Que ao Marchante João Lopes de Mayorca deve o Suppd.º quantid.e de dr.º de Váca, q. lhe fiou, e qd.º aquelle lhe pede a dívida o ameássa, e descompoem Com hu. vergalho chamando-lhe Nomes injuriozos; E todo o Marchante q. vay com Váca Ao Lugar da Figr.ª, ou há de dár vaca p.ª Caza do Suppd.º E de suas Amigas Sem osso, q. Nunca lhe pága, ou se algu. o Não fás hé descomposto Com páo, ou vergalho pello Suppd.º, ou sua familia.
(Album Figueirense - A mudança da Câmara de Tavarede para a Figueira)

domingo, 1 de novembro de 2009

Dia das Bruxas

Noticiaram, jornais e televisões, que ontem, 31 de Novembro, foi festejado em todo o Mundo o dia das Bruxas. Permito-me discordar. Em todo o Mundo... não, pois onde não ha Bruxas não houve comemorações, visto não haver que festejar. E Tavarede, a nossa querida Terra do Limonete, não tem Bruxas.
Mas, diga-se a verdade, já as teve... e das boas (ou, seja, das más!). Felizmente, desde 1927, não temos 'artigos' dessa espécie. Foram-se todas embora, na companhia do deus Mercúrio que, naquele já afastado ano, nos deu a elevada honra de visitar a nossa terra. E para que não julguem que estou a mentir (peço-lhes o favor de não duvidarem do nosso querido e saudoso Mestre José Ribeiro), vou transcrever pequenos retalhos da peça onde ele narrou aquela visita. Ora leiam:



Mercúrio - Sou Mercúrio - Deus do comércio e dos ladrões.

Sou o arteiro Deus Mercúrio
Dos Deuses o confidente;
E apesar de filho espúrio
Trago sempre a bolsa quente.

Coro - Ele é o deus da eloquência
Muito grato aos intrujões;
É mestre que tem a ciência
Do comércio e dos ladrões.

Mercúrio - Da mamã que era uma cróia,
Herdei prendas singulares;
E o papá, que é pai dos deuses,
Pôs-me asas nos calcanhares.

Às tias, manos e manas,
Que sabem que ando ligeiro,
Levo os recados e as cartas
Como bom alcoviteiro.

Coro - Tão astuto e tão prendado
Faz brejeiras op’rações,
Por isso é muito estimado
Dos lojistas e ladrões.

Tio Joaquim - Pois muito me conta. Efectivamente os jornais disseram que vossa senhoria passava perto da Terra. De modo que aproveitou a ocasião para nos fazer uma visita. Mas então vem assim vestido?

Mercúrio - É verdade. Chegou ao meu planeta a fama da grande fita dos badalos em Tavarede, e por isso vim vestido de máscara. Estamos no entrudo.
(Isto das fitas fica para outra vez)

Mercúrio - Se me não engano, estou na Terra do Limonete, não é verdade?

Tio Joaquim - Exacto. Terra de muita fama e de pouco proveito...

Mercúrio - E posso saber a quem tenho a honra de estar falando?

Tio Joaquim - Ao Tio Joaquim. É como todos me tratam: tio Joaquim. Cá na terra há mais Joaquins, mas Tio Joaquim há só um, que sou eu! É como lhe digo. Até os correios assim me conhecem. Os avisos da décima trazem só: Tio Joaquim - Tavarede. E cá vêm ter.

Mercúrio - É então pessoa de alta importância...

Tio Joaquim - Não é por me gabar, mas graças a Deus, sou, sim senhor. Abaixo do senhor Vigário, sou eu. Cá na Terra toda a gente me consulta, toda a gente quer saber a minha opinião, todos querem o meu conselho. Sou eu quem regula o amanho das terras da freguesia: “Oh João, aproveita esta estiada para a sementeira da leira da baixa. Ó Manel, trata-me da vinha, que se te vai embora se não lhe acodes c’o sulifate. Não te descuides c’os tomates, Zé da Estina, amarra-os se os queres ter grandes. Etc. etc. Eu é que digo o que se há-de semear neste crescente, eu é que aviso se vem chuva ou se temos bom tempo p’ró minguante.

Mercúrio - É o barómetro da freguesia.

Tio Joaquim - Lá isso de barómetro não sei o que é. Sou assim uma espécie de folhinha, de Borda d’Água. Dizem os jornais que agora na Itália o Massolini é que manda no trigo, ele é que diz se as terras hão-de dar muito ou pouco. Mal comparado, eu sou o Massolini da agricultura cá da terra. E às vezes não basta o conselho. É preciso obrar. E eu obro muitas vezes nas terras dos outros. Quem quer bons enxertos, vem ter comigo. Ninguém os faz melhor.

Mercúrio - Nessa idade?

Tio Joaquim - Sei mais disso que os novos, e ainda não me falta firmeza para abrir o golpe no cavalo e meter o garfo.

Mercúrio - Acredito.

Tio Joaquim - Se são precisos louvados para avaliações ou para partilhas vêm-me chamar; e nos compromissos de gado nada se faz sem mim. Não há curral de porcos em que eu não tenha entrado. Em questões de porcaria ninguém me leva a melhor.

Mercúrio - Vejo que fui muito feliz em aqui o encontrar. Ninguém melhor do que o Tio Joaquim poderá mostrar-me o que nesta aldeia há de notável. Uma terra velha como esta deve possuir curiosos e históricos monumentos. Se me não falha a memória, reza a história que quando Cristo andou pelo mundo já existia Tavarede.
Já acreditam na visita? Pois na altura existiam em Tavarede, como em qualquer outra parte, muitas bruxas. Faziam todo o mal possível. Vejamos:

Festeiro - E eu é que me vejo agora nestas aflições que até me fazem entesicar. Mas isto foi castigo. A freguesia, depois que cá veio a maldita da excomungada música do Troviscal, anda fora da graça de Deus. Até à igreja vão roubar o dinheiro que era para a festa!

Tio Joaquim - Oh homem! mas que tem a música do Troviscal com o roubo do dinheiro?

Festeiro - Ora essa! Pois tudo isto o que é senão castigo por ter tocado na terra uma música com as gaitas excomungadas?

Tio Joaquim - Sim, sim, tens razão, mas tu é que andas aí a consumir-te com essas ralações.

Festeiro - Isso é que me dói. Os outros é que as fazem e eu é que as pago. Mas quem seria! Quem seria o ladrão!

Tio Joaquim - (Tendo uma ideia) Ah! Já sei!

Festeiro - Já sabe?!

Tio Joaquim - Já sei quem foi o ladrão.

Festeiro - Mas diga lá, com trezentos milhões de... (arrependendo-se e benzendo-se) Nosso Senhor me perdoe.

Tio Joaquim - Foram as bruxas!

Festeiro - As bruxas!

Tio Joaquim - Pois se não foste tu, nem o João Bento, nem o Felisberto, nem o Joaquim e se mais ninguém entrou na Sacristia, quem é que havia de ser senão as bruxas?

Festeiro - Tem razão, tio Joaquim. As bruxas! Foram as bruxas, não há dúvida! E ainda há quem não queira crer que há bruxas. Foram elas.

Tio Joaquim - Pois claro que foram!

Festeiro - E eu que ainda me não tinha lembrado delas. Malditas! Até à igreja vão. Obrigado Tio Joaquim. Tirou-me da consciência um peso de vinte arrobas. Vou já dizer isso ao senhor Vigário. Até logo. (sai)

Mercúrio - Como é que as bruxas entraram na Sacristia sem ninguém ver, é o que eu não percebo.

Tio Joaquim - Ora essa! Entraram pelo buraco da fechadura da porta de trás, ou por alguma greta da janela.

Mercúrio - Essa agora! Então as bruxas são formigas para entrarem pelo buraco da fechadura?

Tio Joaquim - O senhor Mercúrio nunca viu as bruxas? Lá no seu Planeta não há bruxas?

Mercúrio - Não. Mas sei que Tavarede tem fama de ter muitas bruxas.

Tio Joaquim - Pois mal sabe Vossa Senhoria a praga de que está livre. Há lá nada pior que as bruxas! Coisas que por aí se vêem e que não se sabe quem as faz, já se sabe que é obra das bruxas. Em tomando uma pessoa à sua conta, dão cabo dela. E então fazem cada patifaria... Uma vez entraram no curral do Fadigas, montaram a cavalo num boi, e tanto lhe chuparam o sangue que o boi ficou que parecia um carneiro. Outra: O Zé Augusto foi para o Brasil e deixou cá a mulher. Voltou daí a quinze meses, e quando chegou a casa, a mulher tinha um filho. O rapaz quiz divorciar-se, mas por fim acomodou-se porque aquilo foi... tinham sido as bruxas. As bruxas! Ui! Que praga! E ladras?!... Nas fazendas, faltam batatas, aparecem roubados os couvais; e sabe quem é o ladrão? São as bruxas. Às vezes leio nos jornais: Um grande furto na ourivesaria tal. No Banco qualquer coisa verificou-se um desfalque de duzentos contos. Descobriu-se uma importante falsificação de notas. A polícia fez várias diligências sem resultado, mas espera descobrir os criminosos. (rindo) Ah! Ah! Ah! Pois sim, espera, vai esperando que hás-de descobrir boas coisas - penso cá com os meus botões -.

Mercúrio - E descobre?

Tio Joaquim - Isso sim! Como há-de descobri-los se os criminosos são as bruxas?! Tudo obra das bruxas, tudo bruxarias.

Mercúrio - Mas afinal o que são as bruxas?

Tio Joaquim - O que são? São mulheres, pois o que haviam de ser? Mulheres do diabo.

Mercúrio - Mas mulheres como as outras?

Tio Joaquim - Sim senhor. São mulheres que voam sem terem asas. À meia noite, untam-se com um óleo esquisito que têm dentro dum chavelho de carneiro, e pronto - voam por cima de toda a folha.

Mercúrio - Oh! É admirável! Mulheres a voar! Quero vê-las, Tio Joaquim; não abandonarei a Terra sem ver essas mulheres que cabem pelo buraco das fechaduras e que voam sem terem asas.

Tio Joaquim - Veja lá o que faz. Não brinque com coisas sérias!

Mercúrio - Quero vê-las, quero conhecê-las, quero levá-las para o meu Planeta. Bruxas, mulheres voadoras, vinde a Mercúrio!

Tio Joaquim - (Meio assustado) Não as chame, que podem aparecer... Não sabe com quem se mete.

Mercúrio - Bruxas de Tavarede, que chupais os bois, roubais as hortas e fazeis nascer meninos que não têm pai! Vinde a Mercúrio, mensageiro dos Deuses, Deus do comércio e dos ladrões! Voareis comigo! (Simultaneamente Tio Joaquim vai dizendo: Esteja calado, não chame por elas que podem aparecer!) Atirai fora o chavelho de carneiro. Untar-vos-eis com o meu óleo, que é o azougue, e voareis com as minhas asas, que são velozes como o pensamento. Voaremos, voaremos sempre, subireis comigo aos Céus. Bruxas de Tavarede, vinde a Mercúrio! (Aparecem as bruxas)

Tio Joaquim - (Benzendo-se) Padre, Filho, Espírito Santo! Valha-me a Santíssima Trindade!

Coro das Bruxas - A nossa alegre,
Risonha vida
É agradável,
É divertida:
Sobre os telhados
Voar, voar;
E numa eira
Dançar, dançar...

Neste baile do Sabá
De bruxas e diabitos,
Haja risadas macabras,
Haja uivos, haja gritos,

Haja guinchos de vampiros,
Do morcego e da serpente,
Em homenagem infernal
A Satan omnipotente.

A nossa alegre
Risonha vida
É agradável,
É divertida:
Sobre os telhados
Voar, voar;
E numa eira
Dançar, dançar...

Mercúrio - Lindas bruxas,
Lindas bruxas feiticeiras!
Dou-vos as minhas asas
E voareis sem mais canseiras!...

Bruxas - Somos as bruxas
Sempre a girar,
Corremos mundo
Sempre a voar.
Se nos apraz
E dá na bolha,
Vamos por cima
De toda a folha.

E lá se foram todas, com o deus Mercúrio, para nunca mais voltarem. Fazem cá falta? Isso não sei responder. Talvez algum dos meus caros leitores, se por acaso os tiver, saibam alguma coisa sobre o assunto. E se souberem, informem-me, por favor.

(Retirado da peça: 'Retalhos e Fitas - 1927"