domingo, 15 de novembro de 2009

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 1


Num jornal figueirense, em 15 de Julho de 1911, escrevia-se na correspondência de Tavarede que “vae organizar-se aqui um Grupo Musical”. E, poucos dias depois, em 12 de Agosto, o mesmo jornal noticiava “o Grupo Musical desta localidade reuniu num dos últimos dias na sua sede para tratar de vários assuntos”.
Quer dizer, embora oficialmente tenha sido escolhido o dia 17 de Agosto de 1911 já antes a nova colectividade havia dado os primeiros passos, pois já antes se reunia e tinha a sua sede. E onde foi a primeira sede do Grupo Musical? Pois foi ali ao Largo do Paço, no réz-do-chão da casa pertencente a Romana Cruz, e que confrontava do nascente com a esquina do Outeiro e do poente com o edifício onde esteve instalada uma mercearia até ha relativamente poucos anos.
Numas instalações mais do que deficientes, logo começaram os seus fundadores a sua actividade cultural. A parte musical foi entregue a João Jorge da Silva Simôa, este último apelido era alcunha, talvez por ter nascido ou morado no lugar da Simôa, ali ao caminho da Chã. Um bocado depois do Largo da Igreja.

Em Outubro já mantinha em actividade uma aula de música, com grande número de alunos. Também terão começado de imediato os ensaios do seu grupo cénico. Entre outros, temos conhecimento dos seguintes amadores: Clementina Prôa, Clementina Fadigas, António Medina, Joaquim Severino dos Reis, Faustino Ferreira, António Medina Júnior e José Medina.

Refira-se que todos estes amadores faziam parte, anteriormente, dos grupos cénicos da Estudantina, do Grupo de Instrução e da Sociedade de Instrução, nesta última para onde se tinham transferido quanto se fundou depois de terem as outras cessado a sua actividade. Sobre o último daqueles amadores, escreveu Mestre José Ribeiro: “um amador dotado de excepcionais faculdades histriónicas, cómico de grande naturalidade e fantasia e que no drama se impunha pelo vigor e verdade da sua representação”.

Em Novembro de 1911, e noticiando uma festa levada a efeito na Figueira, dizia-se: “assistindo a ela, além de esbeltas raparigas, uma troupe do Grupo Musical desta localidade, que executou no final algumas valsas que fizeram saltar o pé a todos os convidados”.

Entretanto começaram com os melhoramentos e adaptações nas instalações. A sala era grande e ampla. Dividiram-na e num dos lados instalaram um pequeno teatro, que, apesar de rudimentar e mesmo tosco, melhorou bastante a sede.

No mês de Dezembro, ainda com as obras em curso, resolveram os responsáveis pela colectividade prestar homenagem a dois eminentes vultos portugueses: a Alfredo Keil, autor do hino nacional “A Portuguesa” e ao dr. Afonso Costa, relevante estadista republicano, tendo, na ocasião do descerramento dos seus retratos, sido proferida uma conferência de propaganda democrática por um ilustre republicano, cujo nome não encontrei mencionado.

Esclareço, desde já, uma falha lamentável. Não consegui obter uma lista com o nome dos fundadores da jovem colectividade, nem quais foram os seus primeiros directores. No entanto, julgo estar correcto se disser que terão sido os mesmos que Agosto de 1912 foram eleitos (ou reeleitos) na Assembleia Geral que reuniu para esse fim e para aprovação das contas do primeiro exercício, relativo ao período de Agosto de 1911 a Agosto de 1912.

Também pode ter acontecido que o primeiro ano tenha sido gerido por uma espécie de “comissão instaladora ou administrativa”, cuja missão principal, a que certamente não faltaram dificuldades, teria sido a de pôr a funcionar o Grupo Musical e de Instrução.

A “Gazeta da Figueira” do dia 13 de Janeiro de 1912, informava: “O Grupo Musical Tavaredense acaba de construir na sua sede um theatro para instruir e recrear os seus associados.
Esta sympathica aggremiação merece elogios pela aula de musica que sustenta, onde o habil amador sr. João Jorge da Silva Simôa, se tem esforçado como professor, assim como é digna dos melhores applausos pelo melhoramento que acaba de introduzir na sua séde.
Teem sido incançaveis na construcção do elegante theatro a classe operaria d’esta localidade e os nossos amigos António e José Medina, que já foram, com outros, os trabalhadores dedicados da Sociedade d’Instrucção quando esta necessitava do auxilio de todos.
A nossa terra terá mais um emprehendimento que é prestável ás classes pobres, porque é, sem duvida, no theatro que ellas, na sua maioria, vão procurar a instrucção.
À direcção do Grupo Musical as nossas felicitações, desejando á nova aggremiação um futuro risonho e muitos annos de vida”.
Fotos: 1 - Emblema do Grupo; 2 - José Medina; 3 - João Jorge da Silva (Simôa)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 3

No ano de 1910, dá-se uma alteração no grupo cénico. Vicente Ferreira, amador figueirense, ensaiou algumas comédias e, tendo agradado o seu trabalho, a Sociedade de Instrução Tavaredense nomeou-o como seu ensaiador, começando a sua actividade em Fevereiro de 1911.
Até essa data, foram várias as peças representadas. Entretanto, e para concretizar os seus intentos, a direcção convocou, para finais de Novembro de 1906, uma assembleia geral extraordinária, com a finalidade de consultar os sócios sobre a conveniência de alargar mais a acção beneficente da colectividade, criando o “socorro mútuo”.
“Divergiram muito os modos de pensar, predominando mais o da inoportunidade da criação da caixa de socorro, pela exiguidade actual do fundo de reserva; pelo sacrifício a que obrigaria alguns pelo aumento previsto das quotas mensais; pelos abusos a que dava lugar a distribuição de socorros, havendo sempre queixas e reclamações, quer ela fosse equitativa, quer não; pela criação imediata do socorro mútuo como o meio mais racional de evitar muitos males e tornar mais prático o fim beneficente da Sociedade, legalizando em seguida a situação”. Como se vê, foram múltiplos os pareceres dos sócios presentes.
Procedendo-se à votação, a caixa de socorro mútuo foi rejeitada por grande número de votos. Manuel Jorge Cruz, Silvestre Monteiro da Cunha e João dos Santos, bem tentaram demonstrar as vantagens de que muitos iriam usufruir... A notícia acrescenta: “... o dono de um estabelecimento de vinhos reprovou a criação da caixa, porque o sr. Silvestre Monteiro, falando acerca do aumento da quota, disse que esse aumento seria tão insignificante que representava apenas um copo de vinho que bebiam a menos, na taberna, aos domingos”!!!
Por ocasião do 5º aniversário, a colectividade recebeu um importante donativo. O sr. Francisco Sargaço, natural de Tavarede e que havia anos se encontrava emigrado no Brasil, em São Paulo, onde exercia a actividade de construtor civil, com grande êxito, enviou para o cofre da SIT a quantia de dez mil reis, ficando logo decidido prestar-lhe uma homenagem na primeira oportunidade.

Naquele ano, 1909, registou-se um violento abalo de terra, que provocou diversos estragos materiais. Logo de seguida, em Maio, a Sociedade realizou um espectáculo, que foi muito concorrido, para angariação de fundos para acudir aos prejuízos verificados.
Em Abril de 1910, a homenagem, acima referida, àquele benemérito tavaredense, foi prestada com a realização de uma sessão solene e uma récita, “...apresentando-se, pela primeira vez, a orquestra da Sociedade de Instrução Tavaredense, que executou no palco um bonito ordinário. O sr. Sargaço, que há mais de dezasseis anos estava ausente da sua terra, foi muito cumprimentado pelos seus amigos e consócios”.
Julgamos que a orquestra referida teria, então, a direcção de Gentil da Silva Ribeiro. Mas, como se sabe, havia sido organizada só para abrilhantar os teatros e alguns bailes, entretanto levados a efeito.
Deixamos, aqui, mais um apontamento curioso. A escola nocturna, que, como usualmente, reabriu em Outubro, distribuiu aos seus alunos, após a implantação da República, vários “exemplares do livro O Padre na história da Humanidade. É o catecismo adoptado nesta escola”, conclue a notícia.

Desde a sua fundação até 31 de Janeiro de 1911, o grupo dramático levou a efeito 29 espectáculos. A última récita, em 28 de Janeiro de 1911, sob a orientação de João dos Santos, foi o espectáculo comemorativo do 7º aniversário. Sobre este acontecimento, aqui transcrevemos dois apontamentos. “A Voz da Justiça” diz “... foi um magnífico serão, fechando pela exibição de um trabalho de José da Silva Ribeiro, a que nós damos bastante valor. É um pequeno drama e uma grande lição que oxalá aproveite aos que, infelizmente, preferem a frequência da taberna e no jogo ao santuário da Escola. Pintando claramente as consequências funestas dos que se deixam arrastar pelo vício até à prática dos mais horrorosos crimes, termina pela apoteose à Instrução”. Por sua vez, a “Gazeta da Figueira” escreve “... uma magnífica récita, representando-se algumas comédias e uma cena dramática, original do nosso inteligente companheiro José da Silva Ribeiro, que mais uma vez mostrou as suas aptidões, combatendo as misérias da sociedade, como a taberna, onde os trabalhadores e seus filhos vão aprender os piores vícios, e aponta a Escola como um templo onde se vai buscar a melhor das riquezas, a Instrução”. José Ribeiro tinha, então, 16 anos de idade.
Terá sido o último espectáculo ensaiado por João dos Santos. A partir de Fevereiro assumiu o cargo de ensaiador o amador figueirense Vicente Ferreira. Este amador era tio de Eduardo e Alberto Ferreira, alfaiate e proprietário da Casa Oriental, respectivamente, e que foram grandes amigos e colaboradores da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Sabemos, portanto, que a partir de 1904 só havia teatro naquela colectividade e, igualmente, algum movimento musical. A Sociedade era a colectividade da terra, tinha os fins altruístas bem conhecidos, e nela todos eram bem-vindos. Mas aqueles tempos eram de complicada política, a nível nacional, e, como todos sabem, era bastante contestado o regime monárquico então vigente. E tal como aconteceu em situações semelhantes, antes e depois, os opositores desencadeavam a sua luta em conjunto, esquecendo um pouco os ideais próprios, ambicionando, acima de tudo, o derrube da ditadura.
Aconteceu, então, o 5 de Outubro de 1910. A monarquia caíu, derrubada para sempre. E, depois dos naturais momentos de euforia e regozijo, inevitável se tornou o aparecimento das diversas correntes ideológicas, cada qual tentando fazer prevalecer os seus pontos de vista. Tavarede não foi excepção.
Republicanismo mais progressista, outro mais liberal, também alguns mais ou menos conservadores, os tavaredenses começaram a entrar em conflito. E não foi de admirar que surgisse a dissidência de uns quantos. Insatisfeitos, não se sentindo à vontade naquela colectividade, naturalmente fundaram uma outra.
Foto: Hino da SIT, da autoria de Gentil da Silva Ribeiro

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DOIS HERÓIS TAVAREDENSES

MANUEL ALVES

“Recebemos a triste notícia que nos enviaram os nossos amigos que combatem em França, de ter falecido ali, no dia 11 do mês de Setembro (1917), o nosso prestimoso amigo Manuel Alves.
Tavarede recebeu com bastante mágoa a notícia do primeiro soldado desta freguesia morto em França. Feriu o nosso coração, tão bondoso e honrado era o extinto, que possuía belas qualidades, e que por isso era estimado de todas as pessoas que o conheciam.
Manuel Alves era solteiro, residia no Saltadouro. Era filho do sr. José Maria Alves e de Maria de Oliveira, já falecida. Pertencia ao Regimento de Infantaria 28 e o seu posto era o de sinaleiro.
Não sabemos a causa da sua morte. Mas breve o saberemos e daremos a respectiva informação. Mas fosse no campo da batalha, ou no hospital, por doença, sabemos que prestou grandes serviços. Soube sempre cumprir com os seus deveres de português, em defesa da Liberdade, do Direito e da Justiça contra aqueles que, com a sua ambição, querem derrubar os povos livres”.
JOSÉ DE OLIVEIRA FADIGAS

Natural de Tavarede, nasceu em 5 de Maio de 1936, filho de António Migueis Fadigas e de Maria Glória de Oliveira.
No desempenho do serviu militar, faleceu na Guiné, com o posto de segundo sargento, no dia 12 de Março de 1964, vítima do rebentamento de uma granada, quando se encontrava a dar instrução.
“Louvor – A titulo póstumo, o segundo sargento de Artilharia, José de Oliveira Fadigas, por durante o tempo que serviu o Batalhão do Serviço de Material, e nas sub-unidades que o precederam, sempre o fez com inexcedível dedicação, competência técnica e aprumo moral que lhe permitiram ganhar o apreço dos superiores e a amizade dos camaradas e a consideração dos subordinados, e fizeram com que a sua morte em acto de serviço fosse particularmente sentida e lamentada, mas que a sua vida, apesar de ser curta, seja das que se prolonga para lá da morte e sirva de exemplo digno de ser apontado para honrar e engrandecer a Unidade, que se orgulhou de o ter contado entre os seus, o Exército e a Pátria que tão bem soube servir”.
Casado com Helena Maria Cordeiro (21.12.1938 – 16.03.1995), deixou uma filha, Ana Paula.
Caderno: Tavaredenses com história

HELENA RODRIGUES FIGUEIREDO MEDINA

Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 23 de Março de 1894.
“… cedo conheceu as agruras da vida, quer nas terras que cultivava, nas secas do bacalhau e, até, nas pedreiras, quer como costureira, mister em que se realizou profissionalmente, verdadeira autodidacta nesta arte, mas extraordinariamente competente. O trabalho não a impediu de, com o maior entusiasmo, procurar cultivar-se espiritualmente no grupo cénico da Sociedade de Instrução (a sua segunda casa, como ainda não há muito tempo recordava), onde se mostrou amadora teatral de alta craveira, mantendo a tradição que já vinha de seus avós, José Luís do Inácio e Luísa Genoveva”.
Iniciou-se na arte teatral em 1914, na opereta Os amores do Coronel. Ainda nesse ano, desempenhou o papel da protagonista em Os amores de Mariana, substituindo Eugénia Tondela. “… possui uma voz bem timbrada, muito agradável e com os recursos que a partitura exige”. O Voluntário de Cuba, Falsa Adúltera, A pupila do Corregedor, Amor de Perdição, Entre duas Ave-Marias e Noite de S. João, foram peças por si protagonizadas, entre outras.
“… amadora de qualidades muito apreciáveis, tem de satisfazer exigências da música excessivamente extensa e dolente e, como tal, fatigante”, escreveu um crítico apreciando o seu trabalho na opereta Entre duas Ave-Marias.
Por ocasião das Bodas de Ouro daquela colectividade, reviveu no palco o papel de Mariana, que desempenhara quarenta anos antes! “Foi com verdadeira emoção e ternura que o público viu aparecer no palco as figuras remoçadas de Helena Figueiredo…”. Ainda participou nas peças A Conspiradora (1957), Os Velhos (1958) e Terra do Limonete (1961).
Mestre José Ribeiro, numa das suas últimas entrevistas, recordou-a. “… foi primeira figura durante anos. Era uma figurinha agradável e tinha uma linda voz que a fazia brilhar na opereta”.
Nos últimos anos da sua vida, que viveu em casa de sua filha, Otília, era visitada por muitos amigos, que recordavam, saudosamente, tempos antigos. José Ribeiro, uma das habituais visitas, disse-lhe um dia: - Olha lá, Helena. Somos da mesma idade, pois nascemos no mesmo ano. Porque é que eu te trato por tu e tu me tratas por senhor? – O respeito, senhor José, o respeito, respondeu ela. Realmente sempre foi respeitadora, amiga e humilde para com toda a gente.
Casou em 1910, com José Gomes de Figueiredo, seu tio. Enviuvou cedo e, anos mais tarde, casou com José Nunes Medina. Do primeiro casamento teve uma filha, Maria José, e do segundo, outra, Otília.
Faleceu no dia 21 de Julho de 1997, com 103 anos. “… foi, no dia a dia, uma figura carismática, autodidacta, na aprendizagem da arte de costura, a sua vontade de progredir era de tal forma determinada que, para atingir os seus fins, desmanchava peças de vestuário para novamente as cozer”.

Já centenária, ainda cantava as cantigas do “seu” teatro, lembrando-se das letras, algumas das quais bem picantes, por sinal.
A Sociedade de Instrução Tavaredense homenageou-a nomeando-a sócia honorária e descerrando o seu retrato, o qual se encontra exposto no salão nobre da colectividade.

Caderno: Tavaredenses com história

Como complemento à biografia acima, julgo interessante incluir aqui uma notícia publicada dias antes da homenagem que lhe foi prestada na comemoração dos 100 anos de vida.
Nasceu num período agitado da vida portuguesa e numa altura em que o crescimento da Figueira da Foz se fez sentir na comunidade rural que era então Tavarede. Dessa época viria Helena Figueiredo Medina a sentir bem de perto as suas convulsões, com tudo o que isso implicava para quem não tivesse nascido em berço de ouro.
Na agricultura, nas pedreiras, na seca do bacalhau e na costura vendeu a sua força de trabalho e traçou um destino de cruzes e penitências até poder receber as alegrias e bem-aventuranças da família e da arte.
Quando esse mundo era privilégio apenas dos homens, Helena Figueiredo Medina engrossou, com raro talento, o grupo de mulheres que, talvez sem o saber, lutava pela emancipação, cumprindo entre os seus 17 e 32 anos, nos palcos da SIT papel decisivo na missão preconizada pelos fundadores da instituição.
Já suportando o epíteto de septuagenária, Helena Figueiredo Medina regressou aos palcos para ajudar José da Silva Ribeiro a compor esse hino que é a “Terra do Limonete”.
Por isso decidiu a Sociedade de Instrução Tavaredense celebrar no próximo dia 23, o centenário de alguém que é uma memória de Tavarede e legenda viva da cultura popular, com um programa que integrará, para além de outros actos, a reposição da opereta “Os amores do coronel” peça na qual a homenageada se estreou no já longínquo ano de 1914.
Mesmo que não sejam ainda conhecidos os detalhes da festa de homenagem que vai ser prestada a Helena Figueiredo Medina, julga-se que tudo o que for feito será sempre pouco, porque o destinatário é uma mulher que trabalhou muito, sofreu demais, mas encontrou na arte teatral o encanto da vida.

Fotos: 1 - Retrato exposto no salão nobre da SIT; 2 - Com o grupo que representou a opereta 'Os Amores de Mariana', em 1914 (terceira da fila do meio, ao lado de José da Silva Ribeiro); 3 - Programa da homenagem prestada aquando dos seus 100 anos de vida.

sábado, 7 de novembro de 2009

Os passarinhos

No jornalzinho 'O Poeta', publicado em Junho de 1907, José da Silva Ribeiro, que à data teria 14 anos incompletos, publicou o conto intitulado 'Os passarinhos'. Este jornalzinho, que tinha a sua redacção em Tavarede, era escrito e editado por José da Silva Ribeiro e por Anibal Nunes Cruz.
É o primeiro trabalho que encontrámos de Mestre José Ribeiro. Ja o haviamos incluido no espectáculo que a SIT apresentou aquando das comemorações dos 20 anos da morte daquele ilustre tavaredense. Como curiosidade, julgo de interesse reproduzir o referido conto neste blogue.
Os passarinhos! Habitantes das alturas, que erguem o voo até ao cume das montanhas, parecendo-nos que andam medindo as cumeadas. Como é ilimitada a vossa pátria!
Como é imenso o vosso número, e como os homens vos querem imitar tentando subir em balões ao vosso paiz. Mas o seu resultado é sempre ou quasi sempre mau.
Como o vosso cantar sereno encanta o viajante.
Avesinhas que tendo nas suas penas mil cores encantadoras, trinam durante as tardes primaveriaes e noites luarentas. Constroem os ninhos entre a folhagem das arvores.
Como ella corre, tal qual uma louca, aproveitando a palha mais flexível que encontra; vae acumulando umas após outras; ajeita-as; dá-lhe a forma de berço; aproveitam as penugens e até as penas mais leves.
Chega o momento da ave-mãe pôr os ovos. Chocam-nos os dois; nascem os novos passarinhos. Que alegria em ver as avesinhas, ainda implumes, agitarem-se!
É indicio que teem vida.
Uma das ave fica sobre os passarinhos. De manhã, ainda muito cedo, o primeiro raio de sol, ainda com pouca força, penetra furtivamente na folhagem. Acorda a mãe, e ela, cheia de alegria, sae do ninho e vae buscar sustento para seus filhos. Chega e vê que seus implumes teem vida.
Redobra a alegria.
No dia seguinte sae novamente de manhã, mas, quando chega ao ninho… vê que lhe tiraram seus filhos.
Que tristeza para ela ao ver que os homens são traidores! Ela, não se certificando, vê e revê o berço, o chão, e mesmo os ramos, julgando que fosse algum dos seus patrícios mais audaciosos. Mas não vê os filhos nem o inconsciente que lh’os tirou.
Nunca devemos tirar um ninho, porque isso é um crime, é a mesma coisa que matar um indefezo, é o mesmo que caturar um incriminado. Assim como se prende muita vez um homem por amar a liberdade, não sendo isso crime, assim se fazem também cativas as pobres aves, por amarem igualmente a liberdade. Como os cidadãos portuguezes, eles amam também essa grande mulher d’uma alma grande e bemfeitora – a liberdade.
Nunca devemos tirar um ninho! Nunca!... As aves só prestam serviços.

João de Oliveira Júnior

Nasceu em Tavarede no dia 21 de Setembro de 1920, filho de João de Oliveira e de Guilhermina Rodrigues Cordeiro. Casou com Carmina Monteiro de Oliveira e teve uma filha, Ana Cristina.
Faleceu, devido a um atropelamento em Coimbra, a 6 de Dezembro de 1990, quando, acompanhado de sua mulher, atravessava a Avenida Sá da Bandeira, numa passadeira para peões. Ironia do destino: foi atropelado por uma ambulância dos Bombeiros Voluntários de Coimbra, associação para a qual tinha colaborado em diversos espectáculos de angariação de fundos!


A sua actividade profissional exerceu-a sempre ao serviço da Companhia dos Caminhos de Ferro, reformando-se, aos 65 anos de idade, com a categoria de chefe de serviço.
Em 1940, juntamente José Maria Cordeiro (Zé Neto) fundou o Atlético Clube Tavaredense, clube que chegou a organizar algumas competições desportivas.
Foi escrivão da Junta de Freguesia de Tavarede e, em 1963, contra sua vontade, foi nomeado presidente daquele órgão autárquico: “… é uma pessoa cheia de qualidades, firmeza de carácter, incapaz de se deixar enredar por influências malsãs…”.
Desde muito novo que fez parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. “… é o ‘mau’ do grupo. ‘Como ninguém gosta de fazer os papéis antipáticos e eu não me importo, sou sempre escolhido’. Estreou-se em Maio de 1945, na peça Horizonte, no papel de Jacinto “em que apenas dizia três palavras”.
“Tenho renunciado a horas de descanso e a dinheiro para poder estar presente em todos os ensaios”, disse ele. Também fez parte, por diversas vezes, dos corpos sociais da colectividade. Na sua carreira de amador dramático, superior a 40 anos de actividade, encarnou mais de noventa personagens.
“Frei Jorge Coutinho foi um frade que atravessou a peça como se fosse um frade autêntico e nisso está o nosso melhor elogio e todo o mérito que poderia ter”, (Frei Luís de Sousa).
“Foi mais uma vez o intérprete correcto e consciencioso que temos visto actuar em papéis de vária índole” (A Conspiradora).


“… mau grado outra vez vestido numa pele que lhe não cai bem – um Tartufo não ‘de carne e osso’, como algures na peça se diz, mas exclusivamente ‘osso’; uma figura naturalmente hirta, boa para asceta ou marcial, para crítico ou homem de ciência exacta, metida numa personagem que se presume untuosa e anafada do hipócrita oportunista e cruel -, às vezes conseguiu mesmo integrar-se no papel, para acabar muito bem, na atitude de vencido” (Tartufo).
Tinha decidida vocação para a comédia, embora no drama, como em Frei Luís de Sousa e A Conspiradora obtivesse assinalados triunfos com os seus desempenhos.
Em 1955, na interpretação da figura de Manuel de Sousa, major, na comédia Major, foi protagonista de um caso bem característico da sua personalidade de excelente comediante. Violinda Medina era a protagonista. Como sabemos, no palco era a personagem representada que vivia e não ela própria. Alheava-se de tudo para se entregar, de alma e coração, ao seu papel. Dizia, por isso, que em cena ninguém a conseguia ‘desmanchar’. Era um desafio para o João de Oliveira. O Major era um cão que havia fugido e que a dona, em altos gritos, chamava da janela. Manuel de Sousa apanhou o animal e correu a entregá-lo à dona, que estava aflita.
Mas… quando abre a porta para receber o animal, braços estendidos, não era o seu cão fugitivo, mas, sim, um leitão, que grunhia que nem um desalmado. Nunca mais Violinda Medina pôde dizer que ninguém a ‘desmanchava’ em cena. Caiu a rir num cadeirão, enquanto João de Oliveira, impávido, repetia: “tome, minha senhora, tome o seu cão”.
Nos últimos tempos de vida de Mestre José Ribeiro, João de Oliveira Júnior assumiu o cargo de ensaiar, sob a sua orientação, o grupo cénico. E, após a morte do Mestre, pôs em cena dois grandes êxitos do grupo: Chá de Limonete e O Sonho do Cavador, a que se seguiram outras peças, até à sua morte inesperada. Foi nomeado sócio honorário em 1984.
Além do teatro, ocupava os seus tempos livres em dois passatempos que adorava: a jardinagem e a pesca desportiva. Se o seu quintal era um autêntico jardim, onde não faltava uma estufa, dezenas de troféus emolduravam a sua estante, conquistados em provas de pesca, de rio e de mar.


Também possuía uma veia poética. Concorreu a diversos concursos, tendo ganho alguns prémios. Recordamos, somente, uma quadra sua com que concorreu à “Festa da Neve:

Branca neve que na altura
À luz do sol tanto brilha,
Como tu só é tão pura
A graça de minha filha.

“O teatro do nosso concelho está de luto. A vida tem destas coisas. Ainda não se esgotaram os “ecos” da homenagem a esse outro grande Tavaredense e homem de teatro José da Silva Ribeiro, e morre o seu continuador João de Oliveira Júnior.
… morreu no passado dia 6 atropelado por uma ambulância quando passava numa passadeira…
Que ironia do destino! João de Oliveira, homem rigoroso no seu trabalho e na sua vida, morre atropelado numa passadeira e por uma ambulância… O teatro está mais pobre. A cultura figueirense, que cada vez está mais abandonada e pobre, mais pobre e abandonada ficou com esta morte. Tavarede, terra de teatro amador de grande qualidade e tradição, perdeu mais um vulto que mantinha a tradição e a qualidade de um teatro que o público reconhece nas obras levadas à cena…
Estreou-se no teatro de Tavarede com apenas 14 anos e, desde então, manteve-se sempre no grupo cénico. Amador de alta categoria, ele experimentou as mais diversas personalidades representando, de forma admirável, grandes dramaturgos portugueses e estrangeiros. Ele era o “mau” do grupo, segundo as suas próprias palavras, já que ninguém gosta de fazer papéis antipáticos, paradoxalmente, fazia, de maneira admirável, a feição cómica. Desde muito cedo, este amador revelou-se alguém capaz não só de interpretar majestosamente os seus papéis, mas também de assimilar as técnicas inerentes à preparação e montagem de um espectáculo…”.

Fotos: 1 - Na peça 'Frei Luís de Sousa', papel de Frei Jorge, contracenando com Violinda Medina, João Cascão e Alice Mendes. 2 - Peça 'A Conspiradora', no papel de Conde de Riba de Alva, com Violinda Medina. 3 - Distribuição de prémios de um concurso de pesca, ladeado por José Esteves e Alfredo Cardoso.
Caderno: Tavaredenses com história

Sociedade de Instrução Tavaredense - 2

Por ocasião do carnaval, os correspondentes locais mandavam as suas “alfinetadas”. Em 1905, e referente a um espectáculo que, efectivamente, se realizou no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, anunciava-se: “... haverá um grande sarau dramático-musical no teatro, para o que foram convidadas notabilidades artísticas e homens de ciência. O sr. António Mota executa na flauta uma sua difícil composição musical e recita a poesia “À procura dos borrados”. O sr. Luís João canta a romanza Rosita dá cá o botão e recita o monólogo Mira que heu lh’o xaquei... O sr. Alcafache apresenta o seu orfeão que há-de executar o hino da Murtinheira e o Maxixe ribeirinho. Os srs. César, Medina, Broeiro, Coelho e todos os demais actores e actrizes do teatro representam o drama sacro Os anjos que te respondam”.

Já referimos que, muitas vezes, os espectadores tinham que aguardar o início do espectáculo muito para além da hora normal. Numa notícia que comenta a representação da opereta “Vida airada”, escreve-se “... lembramos também a conveniência de começar os espectáculos mais cedo e não os prolongar até altas horas...”. Bem sabemos que os teatros, geralmente, eram apresentados aos sábados. Mas, os tavaredenses de então, na sua maioria trabalhadores das terras, nem ao domingo de manhã folgavam. Daí a razão do pedido feito.
E porque nos surge, no meio das nossas notas sobre teatro e colectividades, um pequeno retalho que achámos interessante, aqui o deixamos, e apenas como mera curiosidade. “No dia 4 de Julho de 1905, fez exame na escola Conde de Ferreira, proposto pela professora D. Maria Amália de Carvalho, José da Silva Ribeiro, que obteve a classificação de óptimo”.
As récitas continuavam. Alguns espectáculos ocorreram, mas, infelizmente, não temos nota do programa que os compunham. As várias notícias faziam comentários, louvavam os amadores, mas esqueceram-se de nos deixar o título das peças, num ou noutro caso.
A escola também se mantinha em pleno, cada vez com maior frequência. “Nunca em Tavarede houve uma Sociedade tão bem organizada e que tantos serviços tenha prestado à causa da instrução. Apesar das aulas serem criadas para os filhos de sócios, são ali admitidas crianças muito pobres e orfãs, a quem não só se ministra a instrução, mas são-lhe fornecidos os livros precisos”.
Acrescente-se que, além da instrução primária, a Sociedade de Instrução continuava com o ensino da música e criou uma “aula de desenho”. Não sabemos as frequências nem os resultados destas duas últimas actividades. Quanto à música, não existem notícias da formação de qualquer tuna ou outro agrupamento musical, para além daqueles que se formavam para abrilhantarem os espectáculos teatrais. Sobre a aula de desenho, que presumimos tivesse como mentor o talentoso tavaredense João Nunes da Silva Prôa, não encontrámos quaisquer notícias posteriores.
Anualmente, os alunos da escola nocturna, mostravam o seu aproveitamento. Além de fazerem uma exposição com os seus trabalhos escolares, organizava-se uma festa, em colaboração com a escola primária oficial que, regra geral, culminava com um sarau no teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense. Os alunos recitavam poesias, liam trechos clássicos, diziam monólogos, cantavam umas canções e o seu hino e terminavam a sua actuação com uma ou duas comédias e/ou um entreacto cómico. Nalguns anos também apresentavam alguns números de ginástica. A instrução física era-lhes ensinada por João dos Santos Júnior. Estes saraus terminavam com a participação dos amadores “mais velhos”, numa engraçada comédia que acabava por bem dispôr todos os assistentes.
Apesar dos parcos recursos de que dispunham, os responsáveis pela colectividade, sempre preocupados com o bem-estar e carências dos seus conterrâneos, logo pensaram ir mais longe, transformando a jovem SIT numa “associação de socorro mútuo”...

Como se nota pelos nomes que vão surgindo, os amadores e colaboradores que anteriormente se dividiam pela 'Estudantina' e pelo 'Grupo de Instrução' esqueceram velhas rivalidades e uniram seus esforços para erigir uma nova colectividade capaz de se manter e de prosseguir o caminho de instruir e educar os seus conterrânos.
Fotos: em cima, César Cascão, um dos fundadores. dirigente e amador teatral. Em baixo: João dos Santos Júnior, grande amigo e benemérito da SIT, professor das aulas de ginástica.