sábado, 21 de novembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 4

Vicente Ferreira esteve à frente do grupo dramático desde Fevereiro de 1911 até ao dia 24 de Maio de 1915. Não se sabe quais os motivos que levaram à sua saída, mas, num apontamento seu, escreveu “despedi-me”.
As primeiras peças, ensaiados por ele, foram representadas em 15 de Abril de 1911. O drama, em 4 actos, “Jocelin, o pescador de baleias” e a comédia, em 1 acto, “Um rapaz distraído”, agradaram em absoluto. “Os amadores, bem ensaiados, desempenharam os seus papéis com a maior correcção e os merecidos aplausos não lhe faltaram”, escreveu-se na ocasião.
Entretanto, um pouco antes, pelo Carnaval, houve um espectáculo apropriado. Entre as comédias apresentadas, destacou-se “À procura do badalo!”, alusiva e crítica a casos locais, que “... fez rir e tiraram partido Arménio Santos, que foi muito comido por Carriça; José Tondela, a perfeita Monaça, de pernas empanadas e chávena na mão; e Jaime Broeiro, imitando a camisola do Escaldado, teve, com a piada “o ás de copas” e “o chouriço para a Carriça”, a plateia em constante hilariedade” diz um crítico local, que terminava referindo “a orquestra, sob a regência do maestro Medinita, executou belos trechos de música”.
Recordamos esta notícia por dois motivos. Primeiro, para dizer que Antónia Carriça, acima referida, era uma tavaredense que, cavadora de profissão, se vestia como os homens e trabalhava a seu lado, quer na sementeira de couves ou flores, quer na dura tarefa da cava das vinhas. De manhã, juntava-se aos companheiros, na taberna, para o tradicional “mata-bicho” e, fumando o cigarrito de tabaco de onça, que ela mesmo enrolava, acompanhava-os, enxada ao ombro, para o local do trabalho, sempre bem disposta.
O outro motivo é que, pela data, se verifica que ainda se não havia dado a cisão do grupo de amadores e dirigentes que, abandonando a Sociedade de Instrução, fundaram, naquele ano, o Grupo Musical e de Instrução.
Vicente Ferreira continuou com a sua tarefa. Foram várias as peças ensaiadas e representadas, recordando nós, somente, “A Tomada da Bastilha”, “O Judeu”, “A Cabana do Pai Tomás” ou “A mãe dos escravos”, “João José”, “O Voluntário de Cuba”, “Falsa Adúltera” e “Amor de Perdição”. E deixemos, aqui, nota dos principais componentes do grupo. Maria Eugénia Tondela (que casou com o pintor António Piedade), Luciana Fadigas, Ana Rola e Felismina de Oliveira, na parte feminina, e Vicente Ferreira, José da Silva Ribeiro, António Graça, António e Jaime Broeiro e Francisco Carvalho, nos homens.



Entretanto, a 6 de Fevereiro de 1912, teve lugar a estreia da primeira revista sobre Tavarede. “Na Terra do Limonete”, em 2 actos e seis quadros, da autoria de João dos Santos e musicada porGentil Ribeiro. Era “uma revista de costumes locais”. A crítica teceu-lhe bastos elogios, referindo “... fazer uma revista de costumes de Tavarede, terra pequena em que escasseia o assunto e há, sobretudo, o receio de melindrar as personalidades atingidas, não é tarefa fácil...”. E, depois de apreciar a interpretação e a música, que “tem números lindíssimos e de boa execução”, termina “... houve aplausos em barda, especialmente na parte final (apoteose) em que D. Limonete estabelece o confronto entre o convívio deletério da taberna e a paz e a fraternidade que predomina no seio da Sociedade de Instrução”. Também outro jornal escreve “... arrancando à plateia bastantes palmas na apoteose – excelente propaganda para instruir os filhos do povo, porque se combate os vícios que os fazem viver criminosamente nas trevas da ignorância e se lhes aponta o caminho do bem: - a escola e a associação”.

E aqui deixamos um pequeno recorte sobre uma festa que, colaboradores da Sociedade, realizaram “... na eira do sr. João Gaspar de Lemos, que se achava lindamente ornamentada, produzindo também deslumbrante efeito a iluminação à veneziana e a acetilene. Cantando e dançando ao som dum afinado terceto, composto dos srs. António Rosa, flauta; José Pimentel, bandolim; e Raul Canelas, violão, os formosos pares deste rancho espalharam as mágoas que traziam no coração. A noite de sábado jamais esquecerá às lindas raparigas que soltavam das suas frescas bocas cantigas que diziam quanta paixão lhe ardia no peito. O romper da aurora, espectáculo deslumbrante que dali se presencia muito bem, as srªs. Ricardina de Lemos Amorim, Lícinia Alves, Regina Silva, Eugénia Rodrigues Tondela, Luciana Fadigas, etc., e os srs. Arménio dos Santos, António Cordeiro, José da Silva Ribeiro, Alberto Marques, etc., saudaram-na com uma valsa que durou até às 5 horas”.
Fotos: 1 - Programa da 1ª representação de 'Na Terra do Limonete' - 1912; 2 - Grupo feminino na opereta 'Os Amores de Mariana - 1914; 3 - Grupo masculino na mesma opereta.

CULTURA - ARTE MENOR

Senhor Vereador António Tavares:
Permita-me V.Exª. que discorde da sua opinião, apesar da minha cultura ser muitíssimo inferior à sua. Desde muito novo frequentando as colectividades da minha terra, e não só, tenho por elas a maior devoção. Na Sociedade de Instrução Tavaredense, como um muito pequeno amador, tive por Mestre aquela grande figura de Homem da Cultura que se chamou José da Silva Ribeiro. Com ele e com os amadores da 'sua' escola, aprendi muito.

Tenho acompanhado de perto a actividade daquela colectividade e admira-me muito o seu parecer de que o Teatro 'de certa forma parou no tempo, sendo hoje uma espécie de arqueologia do teatro, ainda com a banda a acompanhar"

Estou a adivinhar o que vai ser a vida das colectividades concelhias enquanto V.Exª. estiver como responsável pelo Pelouro que as tutela.

A propósito daquela sua afirmação, gostaria de solicitar aos dirigentes da Sociedade de Instrução Tavaredense que pedissem uma visita de V.Exª. à sua sede para tomar conhecimento da sua actividade teatral, que decorridos 105 anos (quase) a fazer Teatro, continua activa, mantendo uma acção ininterrupta levando à cena todos os anos peças novas, embora sem 'bandas' a acompanhar porque, e com pena o digo, tendo sido Tavarede uma terra de músicos, hoje são muito poucos os que se dedicam a tão nobre Arte.

Mas, senhor Vereador, abençoadas sejam as colectividades do nosso concelho que continuam a fazer teatro com as suas bandas a acompanhar. São espectáculos culturais, com raizes populares, e que, de certa forma, ajudam o Povo que a eles assistem, se divirtam um pouco, talvez o suficiente para esquecer, por uns momentos, as dificuldades da vida quotidiana, sem que vejam os nossos governantes tomarem medidas que os protejam.

Talvez também a direcção do Lions Clube da Figueira da Foz tenha alguma coisa a esclarecer V.Exª. sobre a actividade teatral no nosso concelho. O esforço que anualmente dispendem com a realização das 'Jornadas do Teatro Amador da Figueirá da Foz' certamente que o esclarecerão que, por enquanto, o Teatro na Figueira ainda não é 'uma espécie de arqueologia'.

Ainda continuo a acreditar, senhor Vereador, que o Associativismo é muito importante para a cultura e vida social do nosso Povo. Se calhar não terá tido o devido apoio de quem o devia apoiar...

Lamento, senhor Vereador, o seu pouco tempo para a Cultura concelhia. Mas, mesmo assim, aproveito para incitar as colectividades do nosso Concelho, que com tanta dedicação e esforço, continuam a dedicar-se à cultura dos povos das suas terras, pelo Teatro, pela Música, pelo Folclore, pelo Convívio, pela Fraternidade, a prosseguirem a sua nobre acção. E, acredite, bem difícil é ser dirigente associativista, mormente lendo as palavras do senhor Vereador do Pelouro da Cultura no Concelho da Figueira da Foz.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O PRIMO HELDER

Completa amanhã, 18 de Novembro, as suas lindas 81 Primaveras, o nosso Amigo Helder Marques Correia de Oliveira. Foi neste dia, no ja longinquo ano de 1928, que o Tio Joaquim Marques e a srª Rosa foram os felizes pais de um 'pimpolho' que, com o correr dos anos, haveria de se tornar um dos símbolos da nossa querida Terra do Limonete.

Acabados os seus estudos, muito jovem ainda começou a trabalhar (em 1952) nas oficinas dos Caminhos de Ferro, salvo erro como electricista das automotoras, onde permaneceu até ao ano de 1956. Companheiro de trabalho de meu Pai, com ele 'alinhava' sempre que entendiam. Com ele e com os restantes camaradas de trabalho (trabalhavam por turnos), pois formavam verdadeira família.
Em Julho de 1956 resolveu emigrar para Angola, onde vai trabalhar, na Companhia dos Diamantes (Diamong) até ao ano de 1961. "Helder Marques Correia de Oliveira, ao retirar-se para Angola e na impossibilidade de se despedir pessoalmente de todos os seus amigos, como era seu desejo, vem por este meio fazê-lo, a todos oferecendo os seus limitados préstimos em Lunda. Tavarede, 1 de Setembro de 1956".


Entretanto havia-se iniciado na música, tendo como 'professor' José Nunes Medina, fundador e director do Lúcia-Lima Jazz. Ali começou a tocar saxe soprano.

Acabado o contrato com a Diamong, foi trabalhar, para a NATO, durante o período de 1961 a 1964, ano em que regressou à nossa Terra. Foi em Maio deste último ano que iniciou a sua 'longa e dura caminhada' nas "Malhas". Foram 30 anos de luta, de sacrifícios e, também, de algumas alegrias.

Entretanto, no dia 1 de Setembro de 1957, casou com D. Augusta da Conceição Simões Nossa, das Alhadas, que tem sido, desde então, sua dedicada esposa e extremosa companheira. Foram pais, muito orgulhosos, de uma filha e 'babosíssimos' avós de um neto.


No dia 31 de Março de 1994, foi-lhe prestada uma justíssima homenagem. "Ilustre Tavaredense, pessoa simples, estimado, considerado e respeitado por toda a gente, profissional exemplar, bom chefe, bom colega. E acima de tudo grande amigo".

Na verdade, e todos o reconhecem, o 'Primo Helder' tem sido uma dedicação extraordinária a todas as iniciativas de carácter social, e não só em Tavarede e sua freguesia.


Não posso deixar de recordar os momentos tão felizes que passámos em Reveles, há tantos anos!, onde o Helder, tal como eu, tivémos grandes amigos. Quase todos já partiram. Mas, sem dúvida, que deixaram muitas saudades.

Primo e Amigo Helder: desejo, sinceramente, que ainda por muitos anos continues a servir a causa a que te dedicas: Tavarede. E, não te esqueças, a Tuna da nossa terra, está sempre a contar contigo.

Um grande abraço de parabéns extensivo a tua Esposa e a toda a tua Família.

Fotos: 1 - O Helder com o seu amigo e companheiro na Tuna João Mendes;2 - Fogueteiro. No Largo da Igreja, durante uma festa; 3 - A Tuna preparando-se para uma alvorada; 4 - Em Reveles, por ocasião das festas à Senhora da Saúde.

domingo, 15 de novembro de 2009

GENTIL DA SILVA RIBEIRO


Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 13 de Dezembro de 1873, foi casado com Emília Coelho de Oliveira, e morreu em 25 de Julho de 1918, com a idade de 44 anos.
Sapateiro de profissão, foi figura saliente no meio operário local e figueirense, destacando-se como acérrimo defensor dos ideais republicanos.
Teve uma importantíssima participação na vida social da sua terra. Ainda muito novo, colaborou musicalmente na Filarmónica Figueirense e, em 22 de Março de 1893, foi um dos fundadores da Estudantina Tavaredense, onde, além de organizador e regente da sua tuna, foi um dos principais amadores teatrais e, ainda, devotado dirigente.
Como esta associação acabou a sua actividade no ano de 1903, passou, tempos depois, a prestar a sua colaboração à Sociedade de Instrução, fundada em Janeiro de 1904, na qual sucedeu a João Nunes da Silva Proa na direcção da orquestra, por volta dos anos 1907/1908.
Compositor musical, foi ele o autor do hino desta última colectividade e escreveu a partitura para as operetas Na Terra do Limonete e Dona Várzea, levadas à cena em 1912 e 1913, respectivamente.
Na acta da assembleia geral de 14 de Janeiro de 1914, consta a seguinte nota: “enaltece a sua obra, ficando-lhe muito grato pelo seu esforço, quer moral quer material, em favor da sua terra, e patenteia-lhe, também, o seu reconhecimento pela educação bela e sublime que deu a seus filhos, incutindo-lhes o dever venerável do amor pela sua terra e de levar mais além o pendão generoso da Sociedade de Instrução”.
Com a implantação do regime republicano em Outubro de 1910, colaborou na fundação da secção local do Partido Republicano Português e foi eleito, por diversas vezes, para membro da Junta de Paróquia, exercendo igualmente o cargo de regedor.
Por inesperada e prematura, a sua morte foi muito sentida. “… andou há pouco tempo, mais de uma vez, adoentado, e agora, caindo ao leito novamente, mal ele supunha que seria para não mais se erguer de lá com vida. A morte fê-lo desaparecer para sempre, na quinta-feira de tarde.
Gentil Ribeiro era sapateiro, contava 45 anos, deixa viúva e filhos e era pobre. Organizou aqui várias tunas, que dirigia, e que sempre apresentava com esmero. Estava sempre pronto para todos os serviços que lhe solicitava a S.I.T., que vê nele desaparecer um elemento que lhe faz grande falta. Era um democrata seguro, pronto para todos os sacrifícios em defesa da República e, nesta freguesia, ele soube sempre ser-lhe dedicado e leal…”.
De uma outra notícia, também transcrevemos os seguintes retalhos: “…Comoveu-nos profundamente este deplorável informe. Gentil Ribeiro, operário sapateiro, a despeito da sua muita modéstia, foi sempre um firme intransigente democrata e, como tal, prestou relevantes serviços, na freguesia de Tavarede, ao Partido Republicano Português…
… o concurso do desventurado Gentil foi, por isso, prestimoso. Dele resultou igualmente o êxito de muitas das récitas que há 25 anos a esta parte vinham realizando, em Tavarede, os amadores dramáticos do seu tempo, com quem ele também representou com habilidade… Gentil Ribeiro foi durante anos editor da “Voz da Justiça” e, se não estamos em erro, do “Povo da Figueira”, escrevendo neste jornal como correspondente de Tavarede.
Correligionário de absoluta confiança, dedicado, pronto para sacrifícios, o desinteresse com que servia a República levou esta a confiar-lhe, até à revolução de Dezembro, o cargo de regedor da freguesia. Mas esta consideração não valia nada em relação ao que merecia a sua isenção de sempre e que, nesta hora em que o seu corpo arrefece e está prestes a entrar no túmulo, nos queremos afirmar num preito de justiça pela sua inolvidável memória”.
A Sociedade de Instrução, que lhe ficou a dever inestimável colaboração, prestou homenagem à sua memória em Janeiro de 1924, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre. Já o havia nomeado, ainda em vida, seu sócio honorário. Também a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal da Figueira atribuíram o seu nome a uma rua local, perto dos Quatro Caminhos do Senhor da Areeira.
Não resistimos, para terminar o apontamento dedicado a este tavaredense ilustre, a transcrever um apontamento retirado de um estudo feito pelo professor Dr. Pires de Azevedo, publicado em 1982:
“… numerosa era a família que deixava: além da viúva e de uma tia desta, na humilde casa havia ainda 7 filhos. Gente de mais, na verdade, para um modesto sapateiro de ofício, que, por isso mesmo, a obrigava a andar ao dia, noutros trabalhos: quando lhe dera o mal, labutava ele na abertura de um poço, ali na Várzea…
… E, no meio das evocações saudosas, havia sempre a memória de uma nota de espírito, a provar como era empreendedor e reinadio o falecido… Como era o caso de estímulo extremo que a um dos “coquetes” que, nos ensaios, envergonhado, sempre se escusava, proclamando-se sem jeito, sempre cantando baixinho: “Ó rapaz, canta!... Canta mais alto, carago! Ó filho da …, põe-te em cima duma cadeira, p’ra ver se cantas mais alto!”.
… Numa visita que a tuna, por ele dirigida, fizeram às adegas da terra do Padre Vicente, e por sua iniciativa, escreveram estes versos para cantarem com a música de “A Portuguesa”:


Heróis do meu rijo povo,
Nação valente e imortal,
Dai este ano um ano brilhante
Às vindimas de Portugal!
E por entre as verdes latadas,
Ó Pátria, sente-se a voz
Das pipas dos nossos avós,
Que nos hão-de guiar às tachadas:
Brada a uva no lagar;
- aos copos, aos copos,
- aos copos, aos copos,
É beber até fartar!
Contra os tonéis, tombar, tombar!

Afinal – como são as coisas da vida – tão novo e trabalhador, tão amigo da família e divertido, tão artista e tão amante das artes, lá se finava, nesse fatídico dia 25, o Gentil da Silva Ribeiro”.

Caderno: Tavaredenses com história

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 1


Num jornal figueirense, em 15 de Julho de 1911, escrevia-se na correspondência de Tavarede que “vae organizar-se aqui um Grupo Musical”. E, poucos dias depois, em 12 de Agosto, o mesmo jornal noticiava “o Grupo Musical desta localidade reuniu num dos últimos dias na sua sede para tratar de vários assuntos”.
Quer dizer, embora oficialmente tenha sido escolhido o dia 17 de Agosto de 1911 já antes a nova colectividade havia dado os primeiros passos, pois já antes se reunia e tinha a sua sede. E onde foi a primeira sede do Grupo Musical? Pois foi ali ao Largo do Paço, no réz-do-chão da casa pertencente a Romana Cruz, e que confrontava do nascente com a esquina do Outeiro e do poente com o edifício onde esteve instalada uma mercearia até ha relativamente poucos anos.
Numas instalações mais do que deficientes, logo começaram os seus fundadores a sua actividade cultural. A parte musical foi entregue a João Jorge da Silva Simôa, este último apelido era alcunha, talvez por ter nascido ou morado no lugar da Simôa, ali ao caminho da Chã. Um bocado depois do Largo da Igreja.

Em Outubro já mantinha em actividade uma aula de música, com grande número de alunos. Também terão começado de imediato os ensaios do seu grupo cénico. Entre outros, temos conhecimento dos seguintes amadores: Clementina Prôa, Clementina Fadigas, António Medina, Joaquim Severino dos Reis, Faustino Ferreira, António Medina Júnior e José Medina.

Refira-se que todos estes amadores faziam parte, anteriormente, dos grupos cénicos da Estudantina, do Grupo de Instrução e da Sociedade de Instrução, nesta última para onde se tinham transferido quanto se fundou depois de terem as outras cessado a sua actividade. Sobre o último daqueles amadores, escreveu Mestre José Ribeiro: “um amador dotado de excepcionais faculdades histriónicas, cómico de grande naturalidade e fantasia e que no drama se impunha pelo vigor e verdade da sua representação”.

Em Novembro de 1911, e noticiando uma festa levada a efeito na Figueira, dizia-se: “assistindo a ela, além de esbeltas raparigas, uma troupe do Grupo Musical desta localidade, que executou no final algumas valsas que fizeram saltar o pé a todos os convidados”.

Entretanto começaram com os melhoramentos e adaptações nas instalações. A sala era grande e ampla. Dividiram-na e num dos lados instalaram um pequeno teatro, que, apesar de rudimentar e mesmo tosco, melhorou bastante a sede.

No mês de Dezembro, ainda com as obras em curso, resolveram os responsáveis pela colectividade prestar homenagem a dois eminentes vultos portugueses: a Alfredo Keil, autor do hino nacional “A Portuguesa” e ao dr. Afonso Costa, relevante estadista republicano, tendo, na ocasião do descerramento dos seus retratos, sido proferida uma conferência de propaganda democrática por um ilustre republicano, cujo nome não encontrei mencionado.

Esclareço, desde já, uma falha lamentável. Não consegui obter uma lista com o nome dos fundadores da jovem colectividade, nem quais foram os seus primeiros directores. No entanto, julgo estar correcto se disser que terão sido os mesmos que Agosto de 1912 foram eleitos (ou reeleitos) na Assembleia Geral que reuniu para esse fim e para aprovação das contas do primeiro exercício, relativo ao período de Agosto de 1911 a Agosto de 1912.

Também pode ter acontecido que o primeiro ano tenha sido gerido por uma espécie de “comissão instaladora ou administrativa”, cuja missão principal, a que certamente não faltaram dificuldades, teria sido a de pôr a funcionar o Grupo Musical e de Instrução.

A “Gazeta da Figueira” do dia 13 de Janeiro de 1912, informava: “O Grupo Musical Tavaredense acaba de construir na sua sede um theatro para instruir e recrear os seus associados.
Esta sympathica aggremiação merece elogios pela aula de musica que sustenta, onde o habil amador sr. João Jorge da Silva Simôa, se tem esforçado como professor, assim como é digna dos melhores applausos pelo melhoramento que acaba de introduzir na sua séde.
Teem sido incançaveis na construcção do elegante theatro a classe operaria d’esta localidade e os nossos amigos António e José Medina, que já foram, com outros, os trabalhadores dedicados da Sociedade d’Instrucção quando esta necessitava do auxilio de todos.
A nossa terra terá mais um emprehendimento que é prestável ás classes pobres, porque é, sem duvida, no theatro que ellas, na sua maioria, vão procurar a instrucção.
À direcção do Grupo Musical as nossas felicitações, desejando á nova aggremiação um futuro risonho e muitos annos de vida”.
Fotos: 1 - Emblema do Grupo; 2 - José Medina; 3 - João Jorge da Silva (Simôa)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 3

No ano de 1910, dá-se uma alteração no grupo cénico. Vicente Ferreira, amador figueirense, ensaiou algumas comédias e, tendo agradado o seu trabalho, a Sociedade de Instrução Tavaredense nomeou-o como seu ensaiador, começando a sua actividade em Fevereiro de 1911.
Até essa data, foram várias as peças representadas. Entretanto, e para concretizar os seus intentos, a direcção convocou, para finais de Novembro de 1906, uma assembleia geral extraordinária, com a finalidade de consultar os sócios sobre a conveniência de alargar mais a acção beneficente da colectividade, criando o “socorro mútuo”.
“Divergiram muito os modos de pensar, predominando mais o da inoportunidade da criação da caixa de socorro, pela exiguidade actual do fundo de reserva; pelo sacrifício a que obrigaria alguns pelo aumento previsto das quotas mensais; pelos abusos a que dava lugar a distribuição de socorros, havendo sempre queixas e reclamações, quer ela fosse equitativa, quer não; pela criação imediata do socorro mútuo como o meio mais racional de evitar muitos males e tornar mais prático o fim beneficente da Sociedade, legalizando em seguida a situação”. Como se vê, foram múltiplos os pareceres dos sócios presentes.
Procedendo-se à votação, a caixa de socorro mútuo foi rejeitada por grande número de votos. Manuel Jorge Cruz, Silvestre Monteiro da Cunha e João dos Santos, bem tentaram demonstrar as vantagens de que muitos iriam usufruir... A notícia acrescenta: “... o dono de um estabelecimento de vinhos reprovou a criação da caixa, porque o sr. Silvestre Monteiro, falando acerca do aumento da quota, disse que esse aumento seria tão insignificante que representava apenas um copo de vinho que bebiam a menos, na taberna, aos domingos”!!!
Por ocasião do 5º aniversário, a colectividade recebeu um importante donativo. O sr. Francisco Sargaço, natural de Tavarede e que havia anos se encontrava emigrado no Brasil, em São Paulo, onde exercia a actividade de construtor civil, com grande êxito, enviou para o cofre da SIT a quantia de dez mil reis, ficando logo decidido prestar-lhe uma homenagem na primeira oportunidade.

Naquele ano, 1909, registou-se um violento abalo de terra, que provocou diversos estragos materiais. Logo de seguida, em Maio, a Sociedade realizou um espectáculo, que foi muito concorrido, para angariação de fundos para acudir aos prejuízos verificados.
Em Abril de 1910, a homenagem, acima referida, àquele benemérito tavaredense, foi prestada com a realização de uma sessão solene e uma récita, “...apresentando-se, pela primeira vez, a orquestra da Sociedade de Instrução Tavaredense, que executou no palco um bonito ordinário. O sr. Sargaço, que há mais de dezasseis anos estava ausente da sua terra, foi muito cumprimentado pelos seus amigos e consócios”.
Julgamos que a orquestra referida teria, então, a direcção de Gentil da Silva Ribeiro. Mas, como se sabe, havia sido organizada só para abrilhantar os teatros e alguns bailes, entretanto levados a efeito.
Deixamos, aqui, mais um apontamento curioso. A escola nocturna, que, como usualmente, reabriu em Outubro, distribuiu aos seus alunos, após a implantação da República, vários “exemplares do livro O Padre na história da Humanidade. É o catecismo adoptado nesta escola”, conclue a notícia.

Desde a sua fundação até 31 de Janeiro de 1911, o grupo dramático levou a efeito 29 espectáculos. A última récita, em 28 de Janeiro de 1911, sob a orientação de João dos Santos, foi o espectáculo comemorativo do 7º aniversário. Sobre este acontecimento, aqui transcrevemos dois apontamentos. “A Voz da Justiça” diz “... foi um magnífico serão, fechando pela exibição de um trabalho de José da Silva Ribeiro, a que nós damos bastante valor. É um pequeno drama e uma grande lição que oxalá aproveite aos que, infelizmente, preferem a frequência da taberna e no jogo ao santuário da Escola. Pintando claramente as consequências funestas dos que se deixam arrastar pelo vício até à prática dos mais horrorosos crimes, termina pela apoteose à Instrução”. Por sua vez, a “Gazeta da Figueira” escreve “... uma magnífica récita, representando-se algumas comédias e uma cena dramática, original do nosso inteligente companheiro José da Silva Ribeiro, que mais uma vez mostrou as suas aptidões, combatendo as misérias da sociedade, como a taberna, onde os trabalhadores e seus filhos vão aprender os piores vícios, e aponta a Escola como um templo onde se vai buscar a melhor das riquezas, a Instrução”. José Ribeiro tinha, então, 16 anos de idade.
Terá sido o último espectáculo ensaiado por João dos Santos. A partir de Fevereiro assumiu o cargo de ensaiador o amador figueirense Vicente Ferreira. Este amador era tio de Eduardo e Alberto Ferreira, alfaiate e proprietário da Casa Oriental, respectivamente, e que foram grandes amigos e colaboradores da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Sabemos, portanto, que a partir de 1904 só havia teatro naquela colectividade e, igualmente, algum movimento musical. A Sociedade era a colectividade da terra, tinha os fins altruístas bem conhecidos, e nela todos eram bem-vindos. Mas aqueles tempos eram de complicada política, a nível nacional, e, como todos sabem, era bastante contestado o regime monárquico então vigente. E tal como aconteceu em situações semelhantes, antes e depois, os opositores desencadeavam a sua luta em conjunto, esquecendo um pouco os ideais próprios, ambicionando, acima de tudo, o derrube da ditadura.
Aconteceu, então, o 5 de Outubro de 1910. A monarquia caíu, derrubada para sempre. E, depois dos naturais momentos de euforia e regozijo, inevitável se tornou o aparecimento das diversas correntes ideológicas, cada qual tentando fazer prevalecer os seus pontos de vista. Tavarede não foi excepção.
Republicanismo mais progressista, outro mais liberal, também alguns mais ou menos conservadores, os tavaredenses começaram a entrar em conflito. E não foi de admirar que surgisse a dissidência de uns quantos. Insatisfeitos, não se sentindo à vontade naquela colectividade, naturalmente fundaram uma outra.
Foto: Hino da SIT, da autoria de Gentil da Silva Ribeiro

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DOIS HERÓIS TAVAREDENSES

MANUEL ALVES

“Recebemos a triste notícia que nos enviaram os nossos amigos que combatem em França, de ter falecido ali, no dia 11 do mês de Setembro (1917), o nosso prestimoso amigo Manuel Alves.
Tavarede recebeu com bastante mágoa a notícia do primeiro soldado desta freguesia morto em França. Feriu o nosso coração, tão bondoso e honrado era o extinto, que possuía belas qualidades, e que por isso era estimado de todas as pessoas que o conheciam.
Manuel Alves era solteiro, residia no Saltadouro. Era filho do sr. José Maria Alves e de Maria de Oliveira, já falecida. Pertencia ao Regimento de Infantaria 28 e o seu posto era o de sinaleiro.
Não sabemos a causa da sua morte. Mas breve o saberemos e daremos a respectiva informação. Mas fosse no campo da batalha, ou no hospital, por doença, sabemos que prestou grandes serviços. Soube sempre cumprir com os seus deveres de português, em defesa da Liberdade, do Direito e da Justiça contra aqueles que, com a sua ambição, querem derrubar os povos livres”.
JOSÉ DE OLIVEIRA FADIGAS

Natural de Tavarede, nasceu em 5 de Maio de 1936, filho de António Migueis Fadigas e de Maria Glória de Oliveira.
No desempenho do serviu militar, faleceu na Guiné, com o posto de segundo sargento, no dia 12 de Março de 1964, vítima do rebentamento de uma granada, quando se encontrava a dar instrução.
“Louvor – A titulo póstumo, o segundo sargento de Artilharia, José de Oliveira Fadigas, por durante o tempo que serviu o Batalhão do Serviço de Material, e nas sub-unidades que o precederam, sempre o fez com inexcedível dedicação, competência técnica e aprumo moral que lhe permitiram ganhar o apreço dos superiores e a amizade dos camaradas e a consideração dos subordinados, e fizeram com que a sua morte em acto de serviço fosse particularmente sentida e lamentada, mas que a sua vida, apesar de ser curta, seja das que se prolonga para lá da morte e sirva de exemplo digno de ser apontado para honrar e engrandecer a Unidade, que se orgulhou de o ter contado entre os seus, o Exército e a Pátria que tão bem soube servir”.
Casado com Helena Maria Cordeiro (21.12.1938 – 16.03.1995), deixou uma filha, Ana Paula.
Caderno: Tavaredenses com história