sábado, 28 de novembro de 2009

DIVISÃO MOTORIZADA AVANÇA SOBRE ESTARREJA


O nosso conterrâneo António Miguéis Fadigas, conhecido na nossa terra por 'António Noca', era empregado nas oficinas do caminho de Ferro, na Figueira. Casado e pai de três filhos: Manuel (pai do nosso amigo João Fadigas), Lídia e Carlota, foi também, nos seus tempos livres, devotado colaborador da Sociedade de Instrução Tavaredense, onde exercia funções no 'bufete', especialmente nas noites em que havia teatro ou baile.

Durante muitos anos fez parte do saudoso agrupamento 'Os Inseparáveis' que, como já contámos, se reunia, em confraternização, todos os anos no dia 1º. de Maio. Um dia, já não sabemos se devido a doença ou desastre, sofreu amputação de uma perna, passando a andar de muletas. Entretanto os filhos fizeram suas vidas e, quando ficou viúvo, teve de abandonar a sua casa na Rua Direita e deixar Tavarede, indo viver para Estarreja, onde residia sua filha nais nova, a Carlota, com seu marido, o Eduardo Panão.


Um belo dia, e porque a amizade de muitos anos assim o exigiu, um grupo de amigos seus da Terra do Limonete resolveu fazer-lhe uma visita, de surpresa. E um belo domingo, eis que partiu da nossa terra um grupo de ciclistas (mas ciclistas motorizados) em direcção a Estarreja, com o fim de dar um abraço ao nosso patrício e familiares. Os jornais figueirenses noticiaram o facto. Foi esta aventura em Abril de 1956.
No passado domingo, um numeroso grupo de Tavaredenses, conduzindo-se integralmente em bicicleta motorizada, deslocou-se à vila de Estarreja, em visita ao nosso conterrâneo sr. António Migueis Fadigas, que ali reside, há tempos, com sua filha Carlota e seu genro sr. Eduardo Panão.
A “divisão” motorizada era constituída por 11 unidades, a saber: Ricardo Medina, Pedro Medina, Vitor Medina, José Medina, Alvaro Simões, Manuel Esteves Ferrão, Manuel Lindote Pinto, Manuel Nogueira e Silva, João Mendes e Amilcar Vaz de Oliveira e seu filho.
Após a visita, que provocou lágrimas de alegria e emoção, os excursionistas regressaram por Aveiro, onde presentemente funciona a sua afamada “Feira de Março”.

Tudo correu bem e por assim dizer “milagrosamente”, pois não obstante um dos veiculos ter regressado com peças a menos nem por isso deixou de cumprir rigorosamente a sua obrigação, para o que influiu, certamente, a boa marca de “gasolina” usada pelo motorista.. (A Voz da Figueira)"

Foi um dia bem passado pois mataram-se saudades, trocaram-se abraços e comeu-se bem (o almoço, como não podia deixar de ser foram enguias fritas e salada) e regressou-se sem problemas.
Fotos: 1 - António Miguéis Fadigas; 2 - Jogando fuitebol no grupo de 'Os Inseparáveis'; 3 - Os excursionistas em Estarreja.

sábado, 21 de novembro de 2009

Os Broeiros

ANTÓNIO DA SILVA BROEIRO

Natural de Tavarede, nasceu no dia 25 de Abril de 1886, filho de José Maria da Silva Broeiro e de Adelaide Oliveira. Foi casado com Rosa Oliveira e faleceu na Figueira da Foz, em 6 de Março de 1945.


De origem muito humilde, aprendeu o ofício de sapateiro, abrindo, posteriormente, um estabelecimento do ramo, a Sapataria Elite, na Figueira da Foz, que granjeou enorme popularidade e cujos clientes nele apreciavam as suas excelentes qualidades de trabalho, honestidade e simpatia.
Desde muito novo que colaborou com o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense e, antes da sua fundação, com o grupo dirigido por João dos Santos, na casa do Terreiro.
Na sua longa carreira de amador, encarnou e deu vida a mais de 60 personagens, em peças como Em busca da Lúcia Lima, Noite de S. João, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Os Fidalgos da Casa Mourisca, A Morgadinha dos Canaviais, O Grande Industrial, Génio Alegre, Entre Giestas, A Morgadinha de Valflor e A Nossa Casa, peça em que participou, pela última vez, em 1943.
Foi director durante vários anos e tem o seu retrato exposto no salão nobre da colectividade.
Deste tavaredense, merecem ser recordadas algumas das palavras que pronunciou numa sessão solene da SIT, poucos anos antes de falecer:
“Eu sou o que a Sociedade de Instrução Tavaredense de mim fez. Devo-lhe tudo. Comecei lá em baixo, na escola da noite, onde me ensinaram a ler, escrever e contar. Só à noite podia ir à escola: teria ficado analfabeto se não fosse a escola nocturna. Depois trouxeram-me para o teatro, ensinaram-me a compreender o que lia, ensinaram-me a falar, a conversar, a ouvir. Aqui fui instruído e educado. Recebi lições, aprendi coisas, tive ensinamentos, fixei exemplos que me serviram pela vida fora. A acção da Sociedade de Instrução Tavaredense exemplifico-a em mim próprio”.


JAIME DA SILVA BROEIRO

Natural de Tavarede, onde nasceu no ano de 1887, filho de José Maria da Silva Broeiro e de Adelaide Oliveira. Faleceu em Lisboa, a 19 de Agosto de 1945, com 58 anos de idade.
Sapateiro de profissão, aprendeu a ler e a escrever na escola nocturna da Sociedade de Instrução Tavaredense.


Desde muito novo começou a entrar no teatro. Foi um dos melhores amadores do seu tempo, desempenhando, com a maior naturalidade, os papéis de “característico”.
Amor de Perdição, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Os Fidalgos da Casa Mourisca, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, A Morgadinha de Valflor e O Grande Industrial, foram algumas das peças em que participou.
Representou pela última vez em 1937, na peça Entre Giestas, desempenhando o papel de Simão Geadas.
Fez parte dos corpos directivos da Sociedade de Instrução Tavaredense durante vários mandatos. Esta colectividade distinguiu-o como “Sócio Honorário”, no ano de 1931. Tem o seu retrato no salão nobre da colectividade.
“… Justa homenagem a quem tanto tem trabalhado pela colectividade. … Soldado defensor da Sociedade está no seu posto, sem um único ressentimento nem desfalecimento, desde a fundação da Sociedade. Era a consagração, o prémio ao trabalho, à devoção. Aquela homenagem tinha, além dessa significação, o exemplo às gerações vindouras que veriam, sempre que houvesse motivo para isso, o preito de reconhecimento da colectividade”.
Era casado com Ana Broeiro e teve quatro filhos: António, Felismina, Laura e Joaquim Broeiro.

ANTÓNIO DA SILVA BROEIRO (SOBRINHO)

Nasceu em Tavarede, no ano de 1909, filho de Jaime da Silva Broeiro e de Ana Broeiro.
Depois de concluída a instrução primária, tirou o curso da Escola Industrial da Figueira da Foz. Empregou-se, como tipógrafo, na Tipografia Popular, tendo sido um dos fundadores do jornal “Domingo”.
Colaborou, como amador dramático, no grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense (A Cigarra e a Formiga e O Casamento da Vasca) e como cenógrafo e decorador. Nestas duas actividades, também colaborou com o Sporting Clube Figueirense.
Em 1921, portanto com 12 anos incompletos, representou numa peça intitulada A Espadelada, que foi ensaiada por José Ribeiro e interpretada por crianças.
Desta representação temos o seguinte apontamento: “… fez um galã ingénuo e apaixonado, com arranques de alma tirados sem aparente dificuldade, movendo-se no seu papel amorudo, como se em vez dos seus dez ou onze anos, já uns dezoito ou vinte lhe trouxessem a cabeça a juros e o coração agarrado a saias em vez de a peões e papagaios ligeiros”.
Fixou residência em Sintra, onde trabalhou na Colónia Agrícola Penal António Macieira. Foi colaborador e secretário da redacção do “Jornal de Sintra”. Nesta vila “conquistou muitas simpatias e pôs em relevo a sua inteligência e aptidões, tanto no jornalismo como na execução de trabalhos artísticos. Escreveu uma peça de teatro que foi representada por amadores de Sintra”.
A Espadelada (1921)


“… E eu lembro a minha aldeia! A aldeia onde nasci, onde me criei, onde corri, despreocupado e feliz, pelos outeiros e pelos serrados; pela várzea e pela colina; ora caçando rãs nos valeiros, ora subindo aos choupos à caça de ninhos de pardal!...
... e as manhãs doiradas do sábado de aleluia em que os sinos repicavam festivos, e eu e os cachopitos da minha idade, esbaforidos, corríamos à igreja com uma caneca de água colhida no rio para que o senhor vigário Manuel Vicente no-la benzesse para as nossas mães borrifarem as casas para que o espírito maldito do bruxedo lá não entrasse...
... e nas manhãs radiosas de domingo de Páscoa, eu ia, de fato novo à marinheira, de colar engomado muito branco e laçarote pendente do pescoço, até à igreja, ouvir missa e beijar o menino Jesus que estava deitado numas palhinhas...
... mas meia hora depois, quando eu estivesse farto de andar na brincadeira, com o fato enxovalhado e porco, eu dava um doce a quem fosse capaz de olhar para mim sem sentir vontade de me bater... Era uma dó! Um fato tão bonito...
Como eu brinquei! Como eu fui feliz...”.
Casou com Laura Cândida Mendes da Silva Broeiro e teve um filho. Faleceu em Lisboa, no Hospital de S. José, no dia 13 de Dezembro de 1943.

Fotos: 1 - António da Silva Broeiro; 2 - Jaime da Silva Broeiro (em 'Ti João da Quinta', na peça 'O Sonho do Cavador - desenho do prof. Alberto de Lacerda); 3 - Na peça 'A Espadelada - 1923 - Maria José Figueiredo, António da Silva Broeiro (Sobrinho), Maria Teresa de Oliveira e António Cordeiro.

Caderno : Tavaredenses com História

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 2

E foi inaugurado no dia 17 de Fevereiro de 1912. Como curiosidade, e antes de transcrever a notícia da inauguração, registe-se que a sala de espectáculos “contém um pano artisticamente pintado pelo hábil cenógrafo sr. Marius Jean Batut, que é um trabalho digno de se ver”.

Transcrevo, a seguir, a tal notícia da inauguração:

“O Grupo Musical Tavaredense realisou no preterito sabbado um espectaculo para solemnisar a inauguração do seu elegante theatrinho.
Fez na abertura uma breve alocução Annibal Cruz, que felicitou os seus patricios pela maneira como trabalham para se instruirem e engrandecerem a sua terra, protestando contra aquelles - que, felizmente, nada valem - que guerreiam a nova agremiação com infamias e cobardias.
Os distinctos amadores desempenharam com correcção as applaudidas comedias O Senhor, Hospedaria do tio Anastacio e Amo, creado e creada e o jovem amador António Medina recitou com graça o monologo Ainda lá vou...
No domingo, repetiu-se o espectaculo com regular assistencia.




Aproveitamos a occasião de felicitar os estimados amadores pelo bom desempenho das comedias, porque não era rasoavel exigir mais, nem tanto esperar. Não são profissionais, não fazem da arte um modo de vida. São, pelo contrario, homens do trabalho, que no vigor da vida antes podiam desejar gastar as suas horas de folga nos prazeres proprios da edade, mas pelo contrario elles dedicam-se ao estudo, ao desejo de se instruirem; e já isso seria digno de registo simples sem o applauso que nasce expontaneo do bom resultado que elles tiram do seu estudo, e de que n’estas noites de festa elles veem dar a prova, perante um publico que com razão os estima e justificadamente os applaude.
Oxalá que o Grupo Musical continue, tanto no theatro como na musica, a instruir com a mesma boa vontade como até hoje, os seus associados, porque iniciou um grande melhoramento social, e abriu uma larga escola de instrucção. Mas precisa não dormir sobre os louros... colhidos no sabbado e domingo; continuar, avançar, progredir, que é lêma dos trabalhadores.
Na terça-feira de Entrudo dedicou aos socios e familias um animado baile de mascaras”.

Também neste espectáculo, no sábado, fez a sua estreia um grupo musical, igualmente o primeiro da colectividade, sob a direcção de João Jorge da Silva Simôa.




Em Março seguinte houve novo espectáculo. Além das comédias que inauguraram a actividade do grupo cénico (O Senhor; Amo, creado e creada; e Hospedaria do Tio Anastácio), hou mais uma outra intitulada “Influências Eleitoraes”. Nos intervalos, o amador António Augusto de Carvalho “cantou as engraçadas canconetas Ri-có-có e Zan-Zariban”, tendo outro amador, António Medina Júnior, recitado o monólogo “Ainda lá vou...”, que alcançaram fartos aplausos.

E prosseguiu a sua actividade. Em Abril seguinte, novo espectáculo. Desta vez “o aparatoso drama em 2 actos “Crime e Honra” e as comédias em um acto “A Mala do Sr. Bexiga” e “O Cometa e o Fim do Mundo”.

Para a posteridade fica o resgito da primeira comédia “O Senhor” e o primeiro drama “Crime e Honra”.

E no primeiro domingo de Maio de 1912, talvez para festejar o êxito alcançado ou, simplesmente, para convívio, houve um passeio à quinta da Calmada, pertença de António Ramos Pinto (este Ramos Pinto pertencia à conhecida família produtora de vinhos do Porto com o seu nome, tendo chegado a ser um dos seus directores e que, ao que consta, uma vida dissoluta e de devassidão o levou à tuberculose, tendo falecido em Tavarede, naquela sua quinta, bastante novo), onde agora está instalado o parque de campismo da Figueira da Foz.

Foi servido aos associados e famílias um opíparo jantar. “Foi muito concorrido e houve sempre engraçados diálogos entre os convivas, que no meio de ampla alegria faziam o enterro a três boas raias que naquele dia tinham sido pescadas para aquele fim e degoladas pelo Zé Maria Cordeiro, que lhe soube dar um gosto agradável. No local da merenda foram tiradas três fotografias pelo hábil fotógrafo figueirense sr. António Maduro. À noite, no regresso a Tavarede, foi entusiasticamente saudado o Grupo Musical, que pelas ruas executou um alegre ordinário que o nosso estimado patrício sr. João Prôa escreveu expressamente para esta festa, Foram queimados muitos foguetes e levantados alguns vivas à classe operária de Tavarede, ao Grupo Musical, etc.”.

Entretanto, no dia 10 de Março, o Grupo foi à Figueira, à sede da Figueirense, colaborar num espectáculo de benefício a favor de um operário impossibilitado de trabalhar. A notícia não esclarece se foi colaboração teatral ou musical. O que há registo é que, no dia de S. João de 1912, o Grupo se deslocou a Quiaios, onde, no pavilhão do “Recreio”, executou um excelente programa musical, com a direcção do seu responsável, João da Simôa, e que muito agradou.

E, 1912, embora independente da colectividade mas a ela bastante chegado, havia sido organizado, melhor dizendo, reorganizado, o rancho Flor da Mocidade, que, tal como o outro rancho local, o “Alegria”, alcançaram bastantes triunfos nas suas exibições, especialmente na Figueira, onde este último chegou a ganhar o primeiro prémio doas ranchos do primeiro de Maio. O Grupo colaborava, então, com a parte musical, tendo, no início de Agosto, acompanhado o rancho numa sua deslocação a Caceira de Baixo.


E chegámos à data da celebração do primeiro aniversário. Já referi anteriormente que em Assembleia Geral (a primeira?) haviam sido aprovadas as contas do exercício de 1911/12 e eleitos os novos corpos gerentes. Aqui fica registada a sua composição:

Assembleia Geral
Presidente – José Maria de Almeida Cruz
Secretários – Aníbal Cruz e Joaquim Severino dos Reis

Direcção
Presidente – António Medina
Secretários – António Marques Lontro e Carlos Artur de Almeida Cruz
Tesoureiro – Manuel Vigário

Conselho Fiscal
José Maria Cordeiro, Faustino Ferreira e António Nossa.

A imprensa local noticiou assim o acontecimento:

“Na madrugada e na noite de sabbado passado (17 de Agosto) queimaram-se immensos foguetes em commemoração do 1º. aniversario da fundação do Grupo Musical d’esta freguezia, e realizou-se no seu elegante theatro uma sympathica festa dedicada aos seus associados e familias.
Foi dada posse á nova direcção, e Annibal Cruz, n’um breve discurso, apoiou a florescente collectividade local, incitando a nova Direcção a trabalhar com o mesmo afinco como o fez a transacta, para seu engrandecimento e da nossa terra. Dirige algumas palavras de felicitação ao regente do Grupo, pela maneira incansavel como tem leccionado aos seus socios a sublime arte de Mozart e entrega-lhe um objecto de prata offerecido pela sympathica sociedade, que João da Simôa agradeceu commovido. Levantaram-se no final enthusiasticos vivas ao Grupo Musical de Tavarede, que foi unanimemente correspondidos.
Executa-se em seguida uma valsa e sóbe o panno para Mário José recitar a excelente poesia patriotica Vinga pae!, que foi bastante applaudida.
Com graça recita depois o monologo Eu cá não me ralo... o sr. Antonio Dias Carvalho, de Quiaios. e o sr. Americo Alvitro d’Abreu, habil amador portuense, cantou a engraçada cançoneta Rebenta a Bexiga, que foi bisada. Não me amava, hilariante monologo que Izidoro Loureiro disse com agrado.
O nosso patricio e jovem amador Antonio Medina Junior recitou tambem uma poesia dedicada ás damas de Tavarede, que a assistencia applaudiu bastante.
Fechou o sarau dramatico a comedia em um acto O cometa e o fim do mundo, desempenhada por dois socios do Grupo.
Ás 24 horas e meia principia o baile que terminou ás 7 horas de domingo”.

Fotos: 1 - António Medina (fundador); 2 - Joaquim dos Reis (Fundador); 3 - Rancho da Alegria (1912)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 4

Vicente Ferreira esteve à frente do grupo dramático desde Fevereiro de 1911 até ao dia 24 de Maio de 1915. Não se sabe quais os motivos que levaram à sua saída, mas, num apontamento seu, escreveu “despedi-me”.
As primeiras peças, ensaiados por ele, foram representadas em 15 de Abril de 1911. O drama, em 4 actos, “Jocelin, o pescador de baleias” e a comédia, em 1 acto, “Um rapaz distraído”, agradaram em absoluto. “Os amadores, bem ensaiados, desempenharam os seus papéis com a maior correcção e os merecidos aplausos não lhe faltaram”, escreveu-se na ocasião.
Entretanto, um pouco antes, pelo Carnaval, houve um espectáculo apropriado. Entre as comédias apresentadas, destacou-se “À procura do badalo!”, alusiva e crítica a casos locais, que “... fez rir e tiraram partido Arménio Santos, que foi muito comido por Carriça; José Tondela, a perfeita Monaça, de pernas empanadas e chávena na mão; e Jaime Broeiro, imitando a camisola do Escaldado, teve, com a piada “o ás de copas” e “o chouriço para a Carriça”, a plateia em constante hilariedade” diz um crítico local, que terminava referindo “a orquestra, sob a regência do maestro Medinita, executou belos trechos de música”.
Recordamos esta notícia por dois motivos. Primeiro, para dizer que Antónia Carriça, acima referida, era uma tavaredense que, cavadora de profissão, se vestia como os homens e trabalhava a seu lado, quer na sementeira de couves ou flores, quer na dura tarefa da cava das vinhas. De manhã, juntava-se aos companheiros, na taberna, para o tradicional “mata-bicho” e, fumando o cigarrito de tabaco de onça, que ela mesmo enrolava, acompanhava-os, enxada ao ombro, para o local do trabalho, sempre bem disposta.
O outro motivo é que, pela data, se verifica que ainda se não havia dado a cisão do grupo de amadores e dirigentes que, abandonando a Sociedade de Instrução, fundaram, naquele ano, o Grupo Musical e de Instrução.
Vicente Ferreira continuou com a sua tarefa. Foram várias as peças ensaiadas e representadas, recordando nós, somente, “A Tomada da Bastilha”, “O Judeu”, “A Cabana do Pai Tomás” ou “A mãe dos escravos”, “João José”, “O Voluntário de Cuba”, “Falsa Adúltera” e “Amor de Perdição”. E deixemos, aqui, nota dos principais componentes do grupo. Maria Eugénia Tondela (que casou com o pintor António Piedade), Luciana Fadigas, Ana Rola e Felismina de Oliveira, na parte feminina, e Vicente Ferreira, José da Silva Ribeiro, António Graça, António e Jaime Broeiro e Francisco Carvalho, nos homens.



Entretanto, a 6 de Fevereiro de 1912, teve lugar a estreia da primeira revista sobre Tavarede. “Na Terra do Limonete”, em 2 actos e seis quadros, da autoria de João dos Santos e musicada porGentil Ribeiro. Era “uma revista de costumes locais”. A crítica teceu-lhe bastos elogios, referindo “... fazer uma revista de costumes de Tavarede, terra pequena em que escasseia o assunto e há, sobretudo, o receio de melindrar as personalidades atingidas, não é tarefa fácil...”. E, depois de apreciar a interpretação e a música, que “tem números lindíssimos e de boa execução”, termina “... houve aplausos em barda, especialmente na parte final (apoteose) em que D. Limonete estabelece o confronto entre o convívio deletério da taberna e a paz e a fraternidade que predomina no seio da Sociedade de Instrução”. Também outro jornal escreve “... arrancando à plateia bastantes palmas na apoteose – excelente propaganda para instruir os filhos do povo, porque se combate os vícios que os fazem viver criminosamente nas trevas da ignorância e se lhes aponta o caminho do bem: - a escola e a associação”.

E aqui deixamos um pequeno recorte sobre uma festa que, colaboradores da Sociedade, realizaram “... na eira do sr. João Gaspar de Lemos, que se achava lindamente ornamentada, produzindo também deslumbrante efeito a iluminação à veneziana e a acetilene. Cantando e dançando ao som dum afinado terceto, composto dos srs. António Rosa, flauta; José Pimentel, bandolim; e Raul Canelas, violão, os formosos pares deste rancho espalharam as mágoas que traziam no coração. A noite de sábado jamais esquecerá às lindas raparigas que soltavam das suas frescas bocas cantigas que diziam quanta paixão lhe ardia no peito. O romper da aurora, espectáculo deslumbrante que dali se presencia muito bem, as srªs. Ricardina de Lemos Amorim, Lícinia Alves, Regina Silva, Eugénia Rodrigues Tondela, Luciana Fadigas, etc., e os srs. Arménio dos Santos, António Cordeiro, José da Silva Ribeiro, Alberto Marques, etc., saudaram-na com uma valsa que durou até às 5 horas”.
Fotos: 1 - Programa da 1ª representação de 'Na Terra do Limonete' - 1912; 2 - Grupo feminino na opereta 'Os Amores de Mariana - 1914; 3 - Grupo masculino na mesma opereta.

CULTURA - ARTE MENOR

Senhor Vereador António Tavares:
Permita-me V.Exª. que discorde da sua opinião, apesar da minha cultura ser muitíssimo inferior à sua. Desde muito novo frequentando as colectividades da minha terra, e não só, tenho por elas a maior devoção. Na Sociedade de Instrução Tavaredense, como um muito pequeno amador, tive por Mestre aquela grande figura de Homem da Cultura que se chamou José da Silva Ribeiro. Com ele e com os amadores da 'sua' escola, aprendi muito.

Tenho acompanhado de perto a actividade daquela colectividade e admira-me muito o seu parecer de que o Teatro 'de certa forma parou no tempo, sendo hoje uma espécie de arqueologia do teatro, ainda com a banda a acompanhar"

Estou a adivinhar o que vai ser a vida das colectividades concelhias enquanto V.Exª. estiver como responsável pelo Pelouro que as tutela.

A propósito daquela sua afirmação, gostaria de solicitar aos dirigentes da Sociedade de Instrução Tavaredense que pedissem uma visita de V.Exª. à sua sede para tomar conhecimento da sua actividade teatral, que decorridos 105 anos (quase) a fazer Teatro, continua activa, mantendo uma acção ininterrupta levando à cena todos os anos peças novas, embora sem 'bandas' a acompanhar porque, e com pena o digo, tendo sido Tavarede uma terra de músicos, hoje são muito poucos os que se dedicam a tão nobre Arte.

Mas, senhor Vereador, abençoadas sejam as colectividades do nosso concelho que continuam a fazer teatro com as suas bandas a acompanhar. São espectáculos culturais, com raizes populares, e que, de certa forma, ajudam o Povo que a eles assistem, se divirtam um pouco, talvez o suficiente para esquecer, por uns momentos, as dificuldades da vida quotidiana, sem que vejam os nossos governantes tomarem medidas que os protejam.

Talvez também a direcção do Lions Clube da Figueira da Foz tenha alguma coisa a esclarecer V.Exª. sobre a actividade teatral no nosso concelho. O esforço que anualmente dispendem com a realização das 'Jornadas do Teatro Amador da Figueirá da Foz' certamente que o esclarecerão que, por enquanto, o Teatro na Figueira ainda não é 'uma espécie de arqueologia'.

Ainda continuo a acreditar, senhor Vereador, que o Associativismo é muito importante para a cultura e vida social do nosso Povo. Se calhar não terá tido o devido apoio de quem o devia apoiar...

Lamento, senhor Vereador, o seu pouco tempo para a Cultura concelhia. Mas, mesmo assim, aproveito para incitar as colectividades do nosso Concelho, que com tanta dedicação e esforço, continuam a dedicar-se à cultura dos povos das suas terras, pelo Teatro, pela Música, pelo Folclore, pelo Convívio, pela Fraternidade, a prosseguirem a sua nobre acção. E, acredite, bem difícil é ser dirigente associativista, mormente lendo as palavras do senhor Vereador do Pelouro da Cultura no Concelho da Figueira da Foz.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O PRIMO HELDER

Completa amanhã, 18 de Novembro, as suas lindas 81 Primaveras, o nosso Amigo Helder Marques Correia de Oliveira. Foi neste dia, no ja longinquo ano de 1928, que o Tio Joaquim Marques e a srª Rosa foram os felizes pais de um 'pimpolho' que, com o correr dos anos, haveria de se tornar um dos símbolos da nossa querida Terra do Limonete.

Acabados os seus estudos, muito jovem ainda começou a trabalhar (em 1952) nas oficinas dos Caminhos de Ferro, salvo erro como electricista das automotoras, onde permaneceu até ao ano de 1956. Companheiro de trabalho de meu Pai, com ele 'alinhava' sempre que entendiam. Com ele e com os restantes camaradas de trabalho (trabalhavam por turnos), pois formavam verdadeira família.
Em Julho de 1956 resolveu emigrar para Angola, onde vai trabalhar, na Companhia dos Diamantes (Diamong) até ao ano de 1961. "Helder Marques Correia de Oliveira, ao retirar-se para Angola e na impossibilidade de se despedir pessoalmente de todos os seus amigos, como era seu desejo, vem por este meio fazê-lo, a todos oferecendo os seus limitados préstimos em Lunda. Tavarede, 1 de Setembro de 1956".


Entretanto havia-se iniciado na música, tendo como 'professor' José Nunes Medina, fundador e director do Lúcia-Lima Jazz. Ali começou a tocar saxe soprano.

Acabado o contrato com a Diamong, foi trabalhar, para a NATO, durante o período de 1961 a 1964, ano em que regressou à nossa Terra. Foi em Maio deste último ano que iniciou a sua 'longa e dura caminhada' nas "Malhas". Foram 30 anos de luta, de sacrifícios e, também, de algumas alegrias.

Entretanto, no dia 1 de Setembro de 1957, casou com D. Augusta da Conceição Simões Nossa, das Alhadas, que tem sido, desde então, sua dedicada esposa e extremosa companheira. Foram pais, muito orgulhosos, de uma filha e 'babosíssimos' avós de um neto.


No dia 31 de Março de 1994, foi-lhe prestada uma justíssima homenagem. "Ilustre Tavaredense, pessoa simples, estimado, considerado e respeitado por toda a gente, profissional exemplar, bom chefe, bom colega. E acima de tudo grande amigo".

Na verdade, e todos o reconhecem, o 'Primo Helder' tem sido uma dedicação extraordinária a todas as iniciativas de carácter social, e não só em Tavarede e sua freguesia.


Não posso deixar de recordar os momentos tão felizes que passámos em Reveles, há tantos anos!, onde o Helder, tal como eu, tivémos grandes amigos. Quase todos já partiram. Mas, sem dúvida, que deixaram muitas saudades.

Primo e Amigo Helder: desejo, sinceramente, que ainda por muitos anos continues a servir a causa a que te dedicas: Tavarede. E, não te esqueças, a Tuna da nossa terra, está sempre a contar contigo.

Um grande abraço de parabéns extensivo a tua Esposa e a toda a tua Família.

Fotos: 1 - O Helder com o seu amigo e companheiro na Tuna João Mendes;2 - Fogueteiro. No Largo da Igreja, durante uma festa; 3 - A Tuna preparando-se para uma alvorada; 4 - Em Reveles, por ocasião das festas à Senhora da Saúde.

domingo, 15 de novembro de 2009

GENTIL DA SILVA RIBEIRO


Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 13 de Dezembro de 1873, foi casado com Emília Coelho de Oliveira, e morreu em 25 de Julho de 1918, com a idade de 44 anos.
Sapateiro de profissão, foi figura saliente no meio operário local e figueirense, destacando-se como acérrimo defensor dos ideais republicanos.
Teve uma importantíssima participação na vida social da sua terra. Ainda muito novo, colaborou musicalmente na Filarmónica Figueirense e, em 22 de Março de 1893, foi um dos fundadores da Estudantina Tavaredense, onde, além de organizador e regente da sua tuna, foi um dos principais amadores teatrais e, ainda, devotado dirigente.
Como esta associação acabou a sua actividade no ano de 1903, passou, tempos depois, a prestar a sua colaboração à Sociedade de Instrução, fundada em Janeiro de 1904, na qual sucedeu a João Nunes da Silva Proa na direcção da orquestra, por volta dos anos 1907/1908.
Compositor musical, foi ele o autor do hino desta última colectividade e escreveu a partitura para as operetas Na Terra do Limonete e Dona Várzea, levadas à cena em 1912 e 1913, respectivamente.
Na acta da assembleia geral de 14 de Janeiro de 1914, consta a seguinte nota: “enaltece a sua obra, ficando-lhe muito grato pelo seu esforço, quer moral quer material, em favor da sua terra, e patenteia-lhe, também, o seu reconhecimento pela educação bela e sublime que deu a seus filhos, incutindo-lhes o dever venerável do amor pela sua terra e de levar mais além o pendão generoso da Sociedade de Instrução”.
Com a implantação do regime republicano em Outubro de 1910, colaborou na fundação da secção local do Partido Republicano Português e foi eleito, por diversas vezes, para membro da Junta de Paróquia, exercendo igualmente o cargo de regedor.
Por inesperada e prematura, a sua morte foi muito sentida. “… andou há pouco tempo, mais de uma vez, adoentado, e agora, caindo ao leito novamente, mal ele supunha que seria para não mais se erguer de lá com vida. A morte fê-lo desaparecer para sempre, na quinta-feira de tarde.
Gentil Ribeiro era sapateiro, contava 45 anos, deixa viúva e filhos e era pobre. Organizou aqui várias tunas, que dirigia, e que sempre apresentava com esmero. Estava sempre pronto para todos os serviços que lhe solicitava a S.I.T., que vê nele desaparecer um elemento que lhe faz grande falta. Era um democrata seguro, pronto para todos os sacrifícios em defesa da República e, nesta freguesia, ele soube sempre ser-lhe dedicado e leal…”.
De uma outra notícia, também transcrevemos os seguintes retalhos: “…Comoveu-nos profundamente este deplorável informe. Gentil Ribeiro, operário sapateiro, a despeito da sua muita modéstia, foi sempre um firme intransigente democrata e, como tal, prestou relevantes serviços, na freguesia de Tavarede, ao Partido Republicano Português…
… o concurso do desventurado Gentil foi, por isso, prestimoso. Dele resultou igualmente o êxito de muitas das récitas que há 25 anos a esta parte vinham realizando, em Tavarede, os amadores dramáticos do seu tempo, com quem ele também representou com habilidade… Gentil Ribeiro foi durante anos editor da “Voz da Justiça” e, se não estamos em erro, do “Povo da Figueira”, escrevendo neste jornal como correspondente de Tavarede.
Correligionário de absoluta confiança, dedicado, pronto para sacrifícios, o desinteresse com que servia a República levou esta a confiar-lhe, até à revolução de Dezembro, o cargo de regedor da freguesia. Mas esta consideração não valia nada em relação ao que merecia a sua isenção de sempre e que, nesta hora em que o seu corpo arrefece e está prestes a entrar no túmulo, nos queremos afirmar num preito de justiça pela sua inolvidável memória”.
A Sociedade de Instrução, que lhe ficou a dever inestimável colaboração, prestou homenagem à sua memória em Janeiro de 1924, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre. Já o havia nomeado, ainda em vida, seu sócio honorário. Também a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal da Figueira atribuíram o seu nome a uma rua local, perto dos Quatro Caminhos do Senhor da Areeira.
Não resistimos, para terminar o apontamento dedicado a este tavaredense ilustre, a transcrever um apontamento retirado de um estudo feito pelo professor Dr. Pires de Azevedo, publicado em 1982:
“… numerosa era a família que deixava: além da viúva e de uma tia desta, na humilde casa havia ainda 7 filhos. Gente de mais, na verdade, para um modesto sapateiro de ofício, que, por isso mesmo, a obrigava a andar ao dia, noutros trabalhos: quando lhe dera o mal, labutava ele na abertura de um poço, ali na Várzea…
… E, no meio das evocações saudosas, havia sempre a memória de uma nota de espírito, a provar como era empreendedor e reinadio o falecido… Como era o caso de estímulo extremo que a um dos “coquetes” que, nos ensaios, envergonhado, sempre se escusava, proclamando-se sem jeito, sempre cantando baixinho: “Ó rapaz, canta!... Canta mais alto, carago! Ó filho da …, põe-te em cima duma cadeira, p’ra ver se cantas mais alto!”.
… Numa visita que a tuna, por ele dirigida, fizeram às adegas da terra do Padre Vicente, e por sua iniciativa, escreveram estes versos para cantarem com a música de “A Portuguesa”:


Heróis do meu rijo povo,
Nação valente e imortal,
Dai este ano um ano brilhante
Às vindimas de Portugal!
E por entre as verdes latadas,
Ó Pátria, sente-se a voz
Das pipas dos nossos avós,
Que nos hão-de guiar às tachadas:
Brada a uva no lagar;
- aos copos, aos copos,
- aos copos, aos copos,
É beber até fartar!
Contra os tonéis, tombar, tombar!

Afinal – como são as coisas da vida – tão novo e trabalhador, tão amigo da família e divertido, tão artista e tão amante das artes, lá se finava, nesse fatídico dia 25, o Gentil da Silva Ribeiro”.

Caderno: Tavaredenses com história