domingo, 13 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 7

Tanto quanto consegui encontrar, foi em Janeiro de 1913, para comemorar o 9º. aniversário da colectividade, que se realizou a primeira sessão solene. Até então, a data comemorava-se com uma Assembleia Geral, onde, além de se aprovarem as contas e elegeram os novos corpos directivos, eram entregues prémios aos melhores alunos da escola nocturna, etc.

Vou transcrever, portanto, uma notícia destas festas.

"Decorreram com entusiasmo as festas comemorativas do aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, cumprindo-se fielmente o seu programa.
No sábado, récita de gala, representou-se o drama em 4 actos – João José -, cujo desempenho foi bom, sendo os amadores muito aplaudidos. O sr. Vicente Ferreira recitou a poesia Honra aos Mestres, terminando com o hino escolar cantado pelos alunos da aula nocturna (apoteose à escola).
No domingo de manhã uma salva de 21 tiros anunciava a continuação da festa. Às 12 horas, exposição da sede da Sociedade, que se achava lindamente ornamentada, vendo-se ali os retratos dos srs. Drs. Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, Afonso Costa, etc.
Às 15 horas começou a plantação de árvores no largo pertencente ao edifício, formando-se seis grupos, por tantas serem as árvores.Cada um destes grupos de rapazes encarrega-se do tratamento da planta que lhe coube em sorte e no fim do ano serão premiados os que maior zelo manifestarem no cumprimento da sua missão.
A este acto, a que assistiu uma multidão de povo, vimos, com prazer, alguns homens, velhos, lançarem mão das pás e enxadas, ajudando afanosamente os rapazes na sua árdua tarefa. Belo exemplo!
Às 16 horas, achando-se a sala repleta de espectadores, procedeu-se à sessão solene para a distribuição de prémios aos alunos mais aplicados e posse ao novo corpo gerente.
Proposto pelo sócio sr. João dos Santos, para presidir à sessão, o sr. Dr. Manuel Gomes Cruz, iniciador da primeira escola nocturna em Tavarede há mais de treze anos e que posteriormente ficou a cargo da Sociedade de Instrução, foi por uma unânime salva de palmas aprovada esta proposta.


Tomando lugar, o sr. Dr. Cruz nomeou para secretários os cidadãos João dos Santos e Manuel Jorge Cruz e, aludindo à criação da primeira escola nocturna em Tavarede, pôs em relevo os generosos serviços que a ela prestou o sr. João dos Santos. Prosseguindo no seu pequeno mas brilhante discurso, louvou as direcções qaue têm trabalhado pelo progresso da Sociedade de Instrução, enalteceu o valor da festa da árvore e incitou os que o escutavam a cooperarem sempre em obras de instrução, educação e civismo como aquela que ali se celebrava e que muito honrava Tavarede. Uma salva de palmas cobriu as suas últimas palavras.
Erguendo-se para falar o sr. Dr. José Gomes Cruz, produziu-se na sala um grande silêncio. Começou por dizer que, sendo convidado para tomar parte numa festa tão simpática, na sua terra, acedeu da melhor vontade, e limitando-se apenas a dar uma lição de botânica. Não podemos, por falta de tempo e espaço, acompanhar o ilustre conferente que, durante mais de uma hora, prendeu, com bastante interesse, todo o auditório, usando de uma linguagem de fácil compreensão para todos. Concluiu por um apelo patriótico aos seus conterrâneos para que trabalhassem sempre no sentido de serem úteis a si e à Pátria. Ao terminar o conferente foi calorosamente ovacionado.
Tomando a palavra o sr. Manuel Jorge Cruz, congratulou-se por assistir a tão simpática festa e por ter ensejo de ver que não foi inutilmente que ali, em algumas sessões idênticas, a que presidiu, aconselhou os seus consócios a trabalhar pelo desenvolvimento daquela colectividade, que continuava a sua marcha desassombradamente, derramando a instrução nas classes pobres. Terminou incitando as crianças no estudo e mostrando-lhes as vantagens que obtinham instruindo-se, e recomendando-lhes com instância a guarda e tratamento das árvores que acabavam de plantar. Palmas da assistência.
Fazendo de novo uso da palavra o sr. Dr. Manuel Cruz, refere-se ao carinho com que em algumas nações se tratam as árvores e elogia a dedicação de José da Silva Ribeiro pelo seu trabalho em prol da Sociedade, acabando por erguer um viva ao povo de Tavarede, que foi entusiasticamente correspondido.
Encerrada a sessão, os alunos entoaram o hino escolar, ouvindo-se depois muitos vivas aos srs. Drs. Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel e José Cruz, Sociedade de Instrução, República Portuguesa, etc.
Em seguida foi servido na sala de aula nocturna um lanche aos alunos.
Pelas 20 horas começou o baile dedicado às famílias dos sócios, dançando-se animadamente até às 23 horas.
Assim terminou tão esplendorosa festa, que a todos deixou as mais agradáveis impressões.
Na mesa foram lidas cartas e ofícios de várias colectividades da Figueira e Buarcos saudando a Sociedade de Instrução pelo seu 9º aniversário.
Durante o dia a fachada da casa esteve embandeirada".

Fotografias: 1 - Cenário do Largo da Igreja (julgo ser da revista 'Na Terra do Limonete' - 1912; 2 - Manuel Jorge Cruz, jornalista, proprietário de 'A Voz da Justiça', presidente da Assembleia Geral da SIT e autor do primeiro regulamento interno.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 4

Conforme vimos no último apontamento da SIT, criticava-se bastante a nova colectividade, especialmente no caso da apanha de alguns bilhetes de espectáculos. Isto era inteiramente verdade! Alguns sócios do Grupo Musical resolveram apresentar queixa na Polícia, contra a Sociedade, alegando a 'venda' de bilhetes para os seus espectáculos, que eram considerados, para efeitos fiscais, como exclusivamente para sócios e famílias e gratuitos.

Ora houve inquérito, a Sociedade foi chamada a 'contas' e teve que pagar uma multa. E, como referi, alguém utilizou para pagamento dessa multa o dinheiro que havia sido apurado para o relógio da torre, que ficou sem o necessário conserto... Mas, continuemos com a nossa história sobre os princípios da jovem colectividade. Com pouco mais de um ano de existência, logo surgiram problemas... e graves.

Poucos dias depois da declaração publicada pelo secretário da Assembleia Geral, Anibal Nunes Cruz, surge a reacção da Direcção, através de um comunicado bastante violento, mesmo insultuoso, para com aquele elemento demissionário. Conheci, pessoalmente, os principais envolvidos nesta polémica questão. Só posso atribuir as frases escritas publicamente, a um exagero momentâneo. Aliás, ambos estavam integrados na mesma família e, não muito tempo depois, estavam novamente todos reunidos na caminhada cultural desta colectividade da terra do limonete.

Mas o que tinha acontecido? Claro que um comunicado violento tinha que ter uma resposta igualmente violenta. Ou, até, ainda mais. Por me parecer ser a origem de toda a questão, vou transcrever, somente, este pequeno retalho: “... “Quem pertencer aqui não pode ser lá de cima!”... (Mais abaixo poderão tomar conhecimento mais detalhado desta nota)

Não sabemos, concretamente, até onde iria a razão de um e do outro. Mas continuemos...
Eis alguns apontamentos da resposta da Direcção, publicada no jornal 'Gazeta da Figueira': "sr. redator – O Grupo Musical Tavaredense pede-lhe a fineza de publicar no seu muito lido jornal uma declaração justa e verdadeira, e não como uma igual que saíu no seu jornal de 16 do corrente, feita pelo sr. Anibal Cruz, que mal empregado é este nome de Cruz em tal pessoa, por pertencer a uma familia tão digna com o mesmo nome. O nome mais acertado para este cavalheiro era de vadio. É pena que a policia o não tenha apanhado na rede e levál-o para o canil, porque estão lá outros com mais raciocinio.
Querem os leitores saber os sacrificios que este cavalheiro tem feito pelo Grupo, de que ele diz pedira a demissão, o que mente descadaramente? A demissão que ele diz ter pedido, queríamos nós dar-lha, talvez acompanhada com alguns P. na primeira ocasião que ele entrasse à porta desta associação, devido a uma calúnia que ele levantou contra um rapaz digno, e comprometendo-nos a todos. Mas o garoto parece que adivinhou o que lhe sucedia. O sacrificio foi este: na fundação deste Grupo, que tem apenas 15 meses de vida, este cavalheiro foi pessoalmente oferecer-se para sócio, o que muitos recusaram, outros aceitaram, apontando-lhe o seu préstimo, que era para ponto, mas que ponto este ponto saíu! A fazer o que tem feito noutras sociedades que tem sido desconsiderado.
Apesar de tudo foi aceite, prestando em principio o seu serviço, depreciando, tratando pessimamente mal e a ridículo, nas suas cartas de Tavarede, certos cavalheiros que para não sujarem as mãos o desprezaram como deviam, e agora, a estes mais escandalizados, anda ele como um cão submisso, ajoelhar-se aos pés, para lhe engraxar as botas...
... Pois como íamos dizendo, devido ao seu trabalho, o que esse cavalheiro diz lhe pagarem com coices tremendos, foi unicamente apontar dois espectáculos, e depois voltou à mesma do costume e desprezando o seu cargo a que se tinha responsabilizado, tendo nós escolhido outro para exercer o seu lugar.
Decorreu algum tempo, aproximou-se o aniversário do Grupo, e este cavalheiro encarregou-se de se fazer secretário da assembleia geral, o que acceitámos a custo, julgando que ele se regenerava, mas não aconteceu isso. Desde esse dia nunca mais frequentou este Grupo, porque a sua pousada era na Figueira, nos sitios mais vergonhosos, praticando acções ridiculas, a ponto de usurpar ás infelizes algum dinheiro. Se quiser provas dão-se-lhe.
O pouco tempo que está em Tavarede é para calcar a pés a sua doutrina do costume contra os taberneiros, e ainda no domingo, 10, pela última vez, em casa dum dos taberneiros, estando ele com o vinho, praticou uma infâmia, como filho nenhum de Tavarede, infâmia esta que temos pejo de publicar por ser vergonha praticar-se na nossa terra.
E chama-nos o garoto absolutos! O contrário. O absolutismo criou-se só para este cavalheiro. Faz e diz o que quer e ninguém lhe pede contas, porque não merece importância. Merece só, como dizemos, de todos o desprezo como se dá a um cão vadio".
É claro que tão insultuoso comunicado, tinha que ter igualmente resposta de igual teor. Aqui vai alguma coisa da resposta, publicada no mesmo jornal:

"Temos procurado evitar pôr à luz do sol os animaizinhos que em pleno século XX – é verdade, no século das luzes – imitam o vestuário como os homens e que, quando nos apanham distraídos no meio da arena, nos levam bravamente de encontro à trincheira... É pena ser acto deshumano, pois que, pela nossa salvação – se não tivéssemos medo de censura – lhes ferrariamos no lombo com vontade o belo aguilhão que por mais duma vez, os tem conduzido ao redondel, onde aprenderam a ser dignos e honestos.
São animaizinhos, não merecem outra classificação, que ingratamente pagam com pontapés (é para não dizer coices) o único favor que lhe fizémos de perder um precioso tempo, e até a saúde, domando-os para os apresentar com agrado duas vezes em público!!
A declaração - ignorância - que pediram ao nosso amigo e sr. redactor da Gazeta, em nome do Grupo Musical Tavaredense, para publicar, é a prova suficiente de tudo quanto aqui temos afirmado e que toda a gente que nos conhece poude avaliar a canalha que continua envergonhando uma terra que tem filhos ilustres e onde habitam pessoas honradas que desejam o sossego e o respeito para se poder viver honestamente.
Os imbecis - tendo à frente os Medinas de Verride, nascidos e criados naquela terra como vagabundos - pediram a uma pessoa que devia, pela sua ilustração inibir-se de escrever as cóleras duma ignorância rara, fugindo por completo ao assunto de que se tratava, mas que nós vamos contar para quem nos ler admirar os actos que veementemente combatemos e que nos levou a pedir a demissão de sócio daquele Grupo. Apreciem:
Quando a Sociedade de Instrução Tavaredense abriu a matrícula de alunos para a escola nocturna que sustenta, foram dois rapazes, sócios do Grupo Musical, matricularem-se, visto o poderem fazer gratuitamente. No dia seguinte foram, como de costume, passar algumas horas da noite no seu Grupo, quando o António Medina, presidente da direcção, os chamou e lhes disse com uma autoridade de mandão: “Quem pertencer aqui não pode ser lá de cima!”... ...Bem, vendo estas coisas, frequentavamos poucas vezes o Grupo Musical, mas sempre que ali iamos admirava-se uma triste cena de taberna: o Medina chegando de casa, naturalmente de cear, pedia com um descaramento tão velhaco, para fazerem uma vaca, um vintém, outras vezes dez reis, etc., a todos os sócios que ali se encontravam reunidos e mandava comprar vinho que eles bebiam e mais algumas crianças que se embriagavam de tal maneira que era necessário irem buscal-as para casa.
Visto tal orientação, deixámos de frequentar o Grupo, mas sendo sempre sócio...".
Chamamos a atenção para o facto de tudo isto se encontrar publicado na imprensa figueirense. Mas o caso seguiu para Tribunal onde foi julgado. Tentámos ver o processo mas não conseguimos. Tudo deve ter ficado em bem, mas o Aníbal Cruz, primo dos Medinas, saíu de Tavarede para ir trabalhar para a região de Aveiro e só regressou à nossa terra na década de 1950/1960. Mas pouco tempo depois do julgamento já se tinham feito as 'pazes'. Já chega de intrigas e má-língua. Iremos prosseguir com a actividade da jovem Associação.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 6

Vou, em seguimento da nota anterior, referir-me hoje às primeiras revistas representadas na SIT e apontar as 'picadelas' dirigidas ao Grupo.

'Na Terra do Limonete', levada à cena nos dias 6, 13 e 20 de Abril de 1912, foi escrita por João dos Santos (da Quinta dos Condados) e musicada por Gentil Ribeiro. Era dividida em 2 actos e 6 quadros. (1º. - O relógio e seus componentes); 2º. - As eleições; 3º. - Pavilhão dos três vinténs; 4º. Soalheiro indígena; 5º. - Diplomacia de taberna; 6º. - Apoteose)

O primeiro quadro critica as ofertas que alguns tavaredenses fizeram para a compra de um relógio a colocar na torre da Igreja, um deu os ponteiros, outro uma pêndula (usada), etc. e alguns deram dinheiro, pouco pois não deu para pôr o relógio a funcionar convenientemente. Refiro este quadro para recordar o caso da subscrição, em dinheiro, que depois se verá o destino que teve. O quinto quadro aponta directamente para a nova colectividade concorrente:
.....

Bonifácio – (como que continuando conversa) Pois tu cuidas que se eu quiser a Sociedade d’Instrução não vai a terra? Vai e eu te digo a maneira: já que não pegou como eu queria d’antes, mando lá uns garotos apanhar dois bilhetes, mesmo que tenham o nome de sócios, porque isso não tem dúbida. Arranjo p’r’aí uns gândulos que vão dizer que a casa tem trezentos lugares, que é p’rá multa ser maior, junto-lhe nove récitas p’ra crescer o monte e zás... multa p’ra xima d’eles. Disse-me um fulano que save d’estas coisas, que a multa pode ir até cem mil reis por cada récita, e assim aonde hão de eles ir arranjar tanto dinheiro? Vão p’ra terra, com certeza! (com um sorriso de contentamento)

Aniceto – Falas com cadência. Bebe que a murraça não é má. Conta comigo p’ra t’ajudar na vingança. Eles têm medo de ti e com certeza vás dar-lhe um calor e botas com eles em terra, apesar de serem muitos.

Bonifácio – Vem bês, que eu cheguei a andar na escola que eles lá têm, mas não aprendi nada lá, porque sei mais do que todos eles. Sou muito bem capaz de lhes dar lições cá de certas coisas que tu também não perceves. Eu seja da cor d’este bonet se não acabar com aqueles cachorros com que não se pode caçar. Olha cá, a escola serve para alguma coisa? (gesto indiferente do Aniceto, com quem diz: é claro que não!) Pois é claro que não serve! Tudo se faz na boa harmónia. Arranja-se uma tuna que toque bonitas sinfónias, porqu’é assim com as melódias e com colmeias e semi-colmeias que o home toca no rabecão que se evitam estas questãos e as sensabórias e fica certo de que apanham a catastrófe. Oh! se apanham! Tenho cá a coisa preparada p’ra eles irem p’ra terra e nunca mais se levantarem.

D. Limonete – (que tem entrado e ouvido a conversa) Não vos reconheço direito para falarem assim. Deitar por terra uma instituição que procura arrancar das trevas da ignorância os filhos da sua terra, ministrando-lhes a luz bendita da Instrução, que procura a todo o passo substituir esta atmosfera pesada e perigosa que existe na taberna por outra mais suave e proveitosa que se encontra na Associação. É obra muito pesada para vocês, apesar de possuírem em elevado grau a astúcia necessária para praticarem o mal. Movei-lhe, embora, guerra sem tréguas, que ela aguardará o vosso ataque no seu posto d’honra, sem o temer, porque sabe que combatentes da vossa laia usam por balas as pedras da rua e por pólvora a areia das valetas, como os rapazes nas suas espingardas de cana, mas, depois do combate, o vosso sonho há-de desfazer-se, e então vereis que a Sociedade d’Instrução, longe, muito longe de caír moribunda, prossegue desafrontadamente a sua marcha pela estrada do Progresso. Como é triste o contraste que existe entre a Sociedade que vocês odeiam e a Taberna que lhe preferis: - Aqui, a corrupção, a intriga e a desordem. Acolá, a Paz, o Trabalho, a Instrução!

Quanto à revista seguinte, 'Dona Várzea', dos mesmos autores e escrita com a colaboração de Arménio Santos (filho de João dos Santos), tinha um acto único e três quadros. Foi levada à cena no dia 22 de Março de 1913 e no dia 5 de Abril do mesmo ano. Do 1º. quadro 'O eclipse', recordo para a nossa história, estes fragmentos:
D. Várzea – (entrando perseguida por o fiscal do selo – calças à boca de sino, melenas e navalhão em punho. Atrás os denunciantes com orelhas de burro e cauda) A Sociedade d’Instrução, senhor, só trabalha pelo desenvolvimento intelectual das classes pobres, d’aqueles que desde o romper do sol até surgir a noite labutam nos seus domínios para adquirir o seu parco alimento. Perseguir tão prestante colectividade para lhe extorquir os recursos com que sustenta suas escolas, para satisfazer as ambições de gatunos e vingança de miseráveis que só albergam entranhas da mais requintada malvadez, é um crime infame que se pratica, senhor.

Fiscal – Mas quem é a srª da menina que tanto se interessa por essa gente que tem o mau gosto de abrir os olhos à canalha de pobretanas que em sabendo ler são os que mais engulhos nos fazem?

Várzea – Eu sou a Várzea, marida do sr. D. Limonete. Coitado; não sai há dias de casa porque sofreu um grande choque eléctrico quando estava a falar ao telefone pedindo à direcção do correio para a correspondência ser por aqui distribuída mensalmente, havendo assim mais vagar para a ler.

Fiscal – Estimo muito conhecê-la, minha rica menina, mas que quer? Eu preciso de chelpa para manter o meu cardanho e arriscar umas rodas em plenos da roleta. Nem eu, nem os cidadões que deram à dica este gancho, queremos saber de escolas nem de instruir os pobres. Olhe, vê-os, os cidadões? Eles não tiram os olhos e os narizes do fundo das minhas costas. A menina deve conhecê-los...

Várzea – Se conheço!... A alguns já a Sociedade que eles atraiçoam e apedrejam cobardemente mitigou a fome em ocasiões amarguradas. A eles e suas famílias. Serpentes abjectas, que bem depressa esqueceram os benefícios recebidos.

Fiscal – Serão tudo que a menina Várzea lhes quiser chamar, mas se eles não vissem ratos na lua não descobriam a maneira de eu vir aqui surripiar algum l’argent ós gajos da Instrução."


.....
"Lua – Tenho. Diz à Ricardina e ao Silvestre que d’aqui a 10 anos lá terão o telefone que requisitaram há 20 meses. Recomenda às mulheres ou senhoras que costumam ir ao teatro de Tavarede que nos teatros se devem tirar as tampadoiras da cabeça. Em cabelo ficavam mais bonitas e pareciam um bocado mais polidas. Diz-lhes também que nos bailes com os lenços nas cabeças parecem umas trouxas móveis. Encarrega d’esse serviço a D. Várzea, que é boa rapariga quando está a dormir. Se encontrares o D. Limonete, faz-lhe ver que no teatro, quando se bate com os pés, manifesta-se o desagrado e com as mãos é que se aplaude. Explica-lhe isto bem, porque tenho visto por vezes os espectadores no fim dos actos, baterem com as mãos e com os pés, o que significa que não sabem o que fazem. Eu incumbo este serviço a D. Limonete porque ele tem reparado com muita razão, na má educação d’alguns indivíduos que na parte superior do teatro conservam os chapéus na cabeça, mesmo nos intervalos, e outros que se descuidam com o cigarrinho aceso na plateia. Ele que tem frequentado lugares civilizados, revolta-se contra tais grosserias. Não te esqueças de me recomendar muito aos rapazes da Sociedade d’Instrução. Vai sempre dizendo ao Gentil que se não canse tanto com a música, porque se assim continua vai parar ao sanatório que o Tarouco ali tem na esquina; ao Ferreira diz-lhe que vá ensaiar para o raio que o parta e que seja mais cuidadoso. Ao Graça, ao Jaime, ao Coelho, à Eugénia e outros, dirás que escusam de ser tão assíduos aos ensaios, aliás, espera-os o alto de S. Martinho. Está a passar-se a minha hora. Adeus, pedaço d’asno, estimo que faças boa terressage".
E o certo é que a Sociedade de Instrução Tavaredense foi a tribunal, pela tal denúncia da venda de bilhetes e foi condenada a pagar uma multa. Parece, não o posso afirmar, que o dinheiro da cotização obtida para o sino acabou por ser aplicado neste pagamento. Veremos se assim foi...
Fotografias: 1 - Na antiga Fonte da Várzea; 2 - Lavadeiras no ribeiro de Tavarede, na Várzea.

domingo, 29 de novembro de 2009

ANTÓNIO FERREIRA JERÓNIMO

Era natural de Santo Varão e filho de António Ferreira Menano e de Ernestina Simões Gonçalves. Nasceu no dia 23 de Novembro de 1903.
Empregado nos escritórios da Beira Alta, veio residir para o Alto de S. João, mudando-se mais tarde para a Vila Robim e, anos depois, para Tavarede, para uma casa na Rua Direita, relativamente perto do Largo do Paço. Casou com Laura Ramos, tendo dois filhos: Mário e Fermim. Faleceu na Salmanha, numa casa que ali mandou construir.
Foi músico de elevada categoria. Tocava na Tuna do Grupo Musical e fazia parte, tocando flauta, do quinteto da colectividade, a que nos temos referido várias vezes noutros trabalhos. Dedicou-se igualmente à composição musical, deixando a partitura de diversas canções, com versos dedicados à nossa terra, bem como de diversas danças para o Rancho Flores da Beira-Mar, de Buarcos, cuja orquestra dirigiu.
Durante vários anos colaborou com o grupo cénico da Sociedade de Instrução, tocando na sua orquestra e ensaiando os coros. Foi o organizador de um conjunto musical que tocava durante os espectáculos teatrais não musicados e que abrilhantava os bailes da colectividade.
Apesar da grande amizade que o unia a José Ribeiro, abandonou a colectividade em Setembro de 1945, por divergências surgidas com o director cénico aquando uma deslocação a Colares, Sintra, sentindo-se magoado por não ter sido convidado, nem, sequer, informado, para acompanhar, com a orquestra, esta deslocação.
Caçador de bom nível, era, também, um apaixonado pela columbofilia, tendo no seu quintal um pombal com algumas dezenas de pombos-correios, com os quais participou em várias provas.
Foi correspondente local de “O Figueirense”, onde manteve diversas e acesas polémicas, especialmente com Belarmino Pedro, seu adversário político, que lhe chamava “o bolchevista”, pela militância esquerdista de Ferreira Jerónimo. É muito curioso, por exemplo, um episódio ocorrido por ocasião de uma festa religiosa em Tavarede.
Passava a tradicional procissão na rua de Tavarede, fazendo o percurso costumado. A filarmónica tocava uma marcha apropriada. Ferreira Jerónimo assume a uma janela do primeiro andar da casa onde residia, de chapéu na cabeça. Era um ateu. Não se descobrindo, alguém que acompanhava a procissão lhe chamou a atenção. Não ligou qualquer importância, até que, quando o entendeu, se retirou para dentro da casa. O caso deu origem a mais uma polémica. Belarmino Pedro aproveitou a ocasião. Só houve resposta tempos mais tarde. “…assomou, de facto, à janela de chapéu na cabeça, mas não se debruçou, por ter ouvido a filarmónica no momento em que regressava do seu pombal, onde sempre entrava de chapéu na cabeça por motivos higiénicos”, disse ele e se não acedeu à observação que lhe fizeram da rua, “foi porque lhe fizeram uma intimação arrogante e da sua parte não houve intenção provocadora e em sua casa não recebe ordens de ninguém”.

Pequeníssimas questões religiosas e políticas, que eram aproveitadas ao máximo para se fazerem ataques pessoais, sem qualquer proveito para a terra.
Fotos: 1 - António Ferreira Jerónimo; 2 - Uma procissão passando no Largo do Paço, perto da casa de A. F. Jerónimo.

ANTÓNIO GRAÇA


Natural do Tavarede, onde nasceu no ano de 1887, era filho de Manuel Graça.
Foi empregado nas oficinas dos caminhos de ferro e ocupava os seus tempos vagos no amanho das suas terras.
Aprendeu as primeiras letras na escola nocturna da Casa do Terreiro, iniciando-se nas lides teatrais no ano de 1902, num sarau promovido pelos alunos daquela escola. E em 1906 encontrámos a seguinte nota, relativa à realização de uma ”Festa da Árvore”: “… depois de, pelo antigo aluno da escola nocturna e actualmente nela professor, sr. António Graça, ser recitada a poesia Escola da Minha Infância, que disse muito bem…”.
Fez parte da 1ª. Comissão Paroquial Republicana, eleita depois da implantação da República, em 5 de Outubro de 1910.
Até final da sua actividade artística, interpretou cerca de 50 personagens em peças como Os Amores de Mariana, Entre duas Ave-Marias, Em busca da Lúcia-Lima, O Sonho do Cavador, Os Fidalgos da Casa Mourisca, O Grande Industrial, Entre Giestas, A Morgadinha de Valflor, etc. Em 1950 participou na fantasia Chá de Limonete, com o papel de Tio João da Quinta, figura da célebre opereta O Sonho do Cavador, que Mestre José Ribeiro fez reviver, certamente para homenagear o final da carreira deste dedicado amador. Era uma figura extraordinária, de um velho cavador, com a enxada ao ombro, sempre ovacionado quando entrava em cena.
Morreu no dia 19 de Julho de 1960, com 73 anos de idade.

“Uma figura curiosa de tavaredense. Verdadeiro misantropo, era, dentro da sua modéstia, uma pessoa inteligente e bondosa. António Graça deixou bem vincada a sua passagem na secção dramática da SIT, onde actuou, durante muitos anos, como elemento de grande relevo. Sóbrio, de presença agradável, todos os seus tipos eram desempenhados com consciência, o que lhe permitia brilhar em todos os papéis que lhe eram confiados”.
Sócio honorário da colectividade, desde 1928, fez parte dos seus órgãos dirigentes por várias vezes.

Caderno: Tavaredenses com História

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 3

Mas em Tavarede, terra pequena onde todos se conheciam e eram familiares, parece ter sempre havido o mau costume dos ditos e mexericos”, à mistura com um pouco de inveja e uma boa dose de má-língua.

Ora apreciem este retalho escolhido de um jornal figueirense, de Junho de 1912. “Pedem-nos um reparo pelas palavras alguem, que se enfeita com pennas de pavão, escreveu sem repugnacia de mentir. Ora lêiam:
-”Poucos são os domingos, à noite, em que não haja desordens começadas nos estabelecimentos locaes ou nas danças que alguns garotos promovem em plena rua.
Bom será que a auctoridade administrativa ponha cobro a taes abusos”.

É mentir descaradamente, dizendo que tem havido desordens nas danças ultimamente realisadas. Nas tabernas sim, é verdade, porque é costuime da terra que a regedoria-sapateira não deixa desapparecer, nem a marmeleiro.
A causa, caros leitores, que levou esse alguem a escrever esta mentira - insulto a considerados filhos d’esta terra - pedindo a prohibição das danças na arteria publica, é simplesmente um odio que corroe o coração d’essa creatura, que claramente vê dia a dia prosperar a lovem collectividade, á qual pertencem os promotores dos divertimentos domingueiros; sociedade, onde se encontram associados os mais dilectos filhos d’esta povoação, que com amor a defendem e trabalham para a sua felicidade, e a unica que mais esperanças dá para o futuro do povo de Tavarede, que lhe dedica toda a sua sympathia e applausos.
Teem-se dado tantas desordens em Tavarede sem que, ao menos, uma palavra escrevesse sobre isso o pacato que muito bem sabia que ellas se davam, devido aos maus conselhos da nossa real auctoridade local. Porque não se referiria a ellas? É porque o regedor seja dos seus ou o periodico para onde escreve não lhe consentiria amargos a tão alta pessoa? Porque esse alguem não combateu tambem, como era de justiça, visto ser uma provocação, uma dança que a Sociedade d’Instrução promoveu, quando d’uma merenda, que mais tarde resultou uma séria desordem? Porque não chamou a toda essa gente garotos e imbecis? Não responde, porque não terá razão para isso...
Comprehende-se bem todo este odio. Trata-se de combater o sympathico Grupo Musical, que todos os bons tavaredenses apoiam; trata-se de chamar garotos a homens que se prézam de ser honrados e considerados, que estimam e são leaes para com os adversários que sem pejo e vergonha, os anavalham traiçoeiramente.
Valha-nos ao menos, estamos certos d’isso, termos uma auctoridade administrativa que providenciará as desordens, mas não evitará a alegre mocidade de gozar em franca harmonia.
Ainda bem, porque assim o odio ha-de pouco a pouco elevar o pobre alguem ao cemiterio mysterioso onde dorme o somno eterno a benemérita commissão do relogio da torre, que é caminho traçado por elle proprio...
Mais... nada”.

Pode dizer-se que foi o início das hostilidades entre as duas colectividades locais que durante bastantes anos mantiveram uma rivalidade muito pouco pacífica. É certo que algumas vezes os responsáveis pelas mesmas, compreenderam que, para um melhor desenvolvimento sócio-cultural da terra, era bem mais importante a união do que a desunião e a guerrilha. E, então, havia períodos de bom entendimento e mútua colaboração. Mas, volta que não não volta, tudo regressava à forma antiga.

É natural que a jovem colectividade, mostrando, desde logo o seu início, uma enorme actividade cultural, no teatro e na música, suscitasse um pouco de inveja. Diga-se com justiça, no entanto, que não era a totalidade dos respectivos elementos que fomentavam tais questões. Muitos deles até eram sócios das duas associações e desejavam o seu progresso, pois isso reflectir-se-ia na qualidade de vida dos tavaredenses de então. Mas um ou outro lá havia que, intencionalmente, procurava lançar a confusão.

Foi assim que em Novembro de 1912, o então secretário da Assembleia Geral que, pelo aniversário comemorado três meses antes, tão elogioso se mostrara para com os seus colegas da Direcção, fez publicar uma declaração na imprensa em que informa pedir a demissão daquele cargo “por não querer estar onde predominam absolutos e ignorantes, que combatem a instrução e apoiam o vício da taberna!!!”. Algo de grave deveria ter ocorrido, tanto mais que na edição seguinte do mesmo jornal, é o próprio presidente da Assembleia Geral quem lhe vem dar razão, afirmando mesmo que não era da opinião do que se “fez naquele Grupo”.

Nota - Procurei transcrever todos os apontamentos recolhidos, com a ortografia então em vigor. Mas, como compreenderão, é difícil evitar alguns erros, pelo que peço desculpa.
Como lemos acima, a rivalidade era grande, mas com boas abertas... Dissémos, na história da SIT, que as suas duas revistas levadas à cena, eram de 'ataque' ao Grupo. Veremos isso, mais detalhadamente, no próximo capítulo.
Fotografias- 1 . Largo do Paço. A sede do GMIT era na segunda casa à esquerda; 2 - Um piquenine organizado pelo Grupo.




Sociedade de Instrução Tavaredense - 5

Os espectáculos musicados eram, então, muito do agrado do povo. Depois de “Na Terra do Limonete”, os mesmos autores escreveram e musicaram uma nova revista, a que deram o título de “Dona Várzea”. E, em 1913, Vicente Ferreira ensaia e faz representar aquele que seria o primeiro grande êxito do grupo cénico, a opereta “Os Amores de Mariana”.
Não se encontraram quaisquer comentários a esta estreia. Mas, no ano de 1915, esta opereta é reposta em cena. Como protagonista surge Helena de Figueiredo, que substitui, no papel de Mariana, Eugénia Tondela, que abandonara o grupo depois do seu casamento. Foi um sucesso. E nos dias 9 e 23 de Maio daquele ano, os amadores tavaredenses foram representá-la à Figueira, ao teatro da Filarmónica Figueirense. O primeiro espectáculo reverteu a favor desta Filarmónica e o segundo rendeu, ao cofre da SIT, a quantia de 21$08.

No entanto, no dia 18 de Outubro do ano anterior, o grupo tavaredense já se havia deslocado àquele teatro, onde apresentou duas comédias: “Tire dali a menina”, em 2 actos e “Morte de Galo”, em 1 acto, cuja receita reverteu em benefício da manutenção da aula de música daquela colectividade. Foi esta a primeira saída da sua sede, em Tavarede.

A última peça ensaiada por Vicente Ferreira, antes da reposição de “Os Amores de Mariana”, foi o drama “Amor de Perdição”. “A noite de sábado último conseguiu fazer reviver no nosso espírito essa figura sublime do grande Camilo. E tanto mais que Teresa e Mariana, Simão Botelho e João da Cruz apareceram ali, naquele delicioso recinto da terrinha do limonete, encastoadas em Clementina de Oliveira e Helena de Figueiredo, José Ribeiro e Vicente Ferreira, de tal forma que justamente nos entusiasmou. Sem querermos estar a alongar-nos, prevenimos o público de que no mesmo teatrinho, no próximo sábado, há outra vez espectáculo, e que se não perde de todo o tempo em assistir, em Tavarede, à representação do Amor de Perdição”.
Diga-se, porém, que, na parte administrativa, o ano de 1914 terá sido algo turbulento. Numa assembleia geral, o presidente da direcção, João de Oliveira, faz “um breve mas significativo elogio” a Vicente Ferreira, referindo que “só um homem da sua têmpera, com uma vontade igual à sua, seria capaz de tantas canseiras em prol duma terra que lhe era desconhecida. Tanta noite perdida, indo longe de sua casa, muitas vezes debaixo de chuva, levar aos outros o produto do seu recurso intelectual, só da sua candura de alma se poderia obter”.
Nesta mesma assembleia, houve, depois, uma enorme discussão. Estava presente, entre outros, o padre Manuel Vicente que, segundo o cobrador, se recusara a pagar as quotas em atraso. Tanto ele, como outros sócios, alegaram que a falta era do cobrador, que os não procurava em devido tempo e os ânimos chegaram a exaltar-se. Acrescentemos que, pouco depois, o presidente da direcção acima referido e o presidente do conselho fiscal, demitiram-se dos seus cargos e de sócios e passaram-se para o Grupo Musical onde, conjuntamente com o professor António Vítor Guerra e outros fundadores desta colectividade, desempenharam notável actividade recreativa e cultural.
Na sessão solene comemorativa do 10º aniversário, o tavaredense dr. José Gomes Cruz, que presidiu, teve uma intervenção de muito interesse e de que destacamos este apontamento: “... depois de agradecer o convite para presidir àquela sessão, diz encontrar-se ali plenamente satisfeito, muito à sua vontade, pois está sempre à vontade e satisfeito quando assiste a festas como estas que se realizem na sua terra. Fala largamente sobre instrução e educação, demonstrando que para bem empregar a primeira é necessário aliar-se a segunda. Dirige-se aos seus patrícios e pede-lhes que se instruam para assim não poderem ser explorados por aqueles que se escudam na ignorância dos outros e que fazem da religião a alma dos seus interesses. Bem sabe que lhe chamam ateu, que o apelidam de pedreiro-livre, que o insultam; mas que podem importar-lhe esses insultos se tem a consciência de ter cumprido sempre o seu dever? Tem também as suas igrejas, mas essas são mais sagradas do que aquelas de que os padres se servem para explorar as crianças do povo ignorante, porque são frequentadas por crianças tão puras como as flores – as escolas”.
O dr. José Cruz desenvolveu uma notável acção de propaganda cívica e educativa. A Sociedade de Instrução sempre teve nele um amigo e um colaborador. Aqui realizou uma série de palestras dirigidas aos seus conterrâneos. A primeira versou o tema Alcoolismo, seguindo-se outras sobre Pátria, Formas de Governo, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, etc.

Este período, década de 1911/1920, é riquíssimo em episódios nos quais os principais protagonistas são elementos, directivos e amadores, das duas colectividades tavaredenses. Foi uma luta interessante, nem sempre muito leal, mas que acabou por trazer benefícios para o associativismo tavaredense, pois deu lugar, com a rivalidade, a que ambas as associações atingissem elevado grau cultural, quer no Teatro quer na Música. Contaremos alguns episódios, integrados nestes apontamentos associativos. Diga-se, desde já, que as duas revistas acima referidas, 'Na Terra do Limonete' e 'Dona Várzea', eram, em grande parte, de acerbada crítica ao rtival Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.
Fotografias: 1 - Helena Figueiredo Medina; 2 - João de Oliveira