terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 9

Na época escolar de 1917/1918, houve problemas com o funcionamento da escola nocturna. As matrículas iniciaram-se em Outubro e logo se inscreveram 30 alunos, que começaram as aulas com grande entusiasmo. Mas a verdade é que, bastante mais cedo que o normal, a escola fechou as portas por falta de frequência dos alunos. “A culpa é das suas famílias, pois não se importam que os filhos vão ou não para a escola, onde recebem a instrução, a luz que de futuro os poderia tornar homens conscientes dos seus deveres de cidadãos”. Este desinteresse, certamente, terá sido devido à grave situação motivada pela guerra.
E no dia 25 de Julho de 1918, Tavarede, e, muito especialmente, a Sociedade de Instrução, sofreram um rude golpe. Inesperadamente faleceu Gentil da Silva Ribeiro. Já dissemos que ele havia sido um dos fundadores da Estudantina, tendo ingressado na Sociedade logo após a extinção daquela. Bom amador teatral, dedicou-se mais à música. Nesta colectividade, era ele quem organizava, ensaiava e dirigia as orquestras que abrilhantavam os espectáculos. Também foi de sua autoria o hino da SIT.


Neste ano, a actividade teatral esteve parada. E a escola nocturna, que havia encerrado a época muito mais cedo, também só abriu as suas aulas a 2 de Dezembro. Uma epidemia que grassou em Tavarede “não consentiu que mais cedo continuasse a sua obra de educação e de ensino”. E em Abril de 1919, surgiu esta notícia na imprensa figueirense: “Está sendo muito reparado o ostracismo a que, por parte da respectiva direcção, foi votada esta simpática e útil colectividade local, cuja aula nocturna não tem funcionado regularmente e cujo grupo teatral pôs de parte a acção que dantes empregava a passar bem as horas de ócio. Temos o maior desgosto em registar este facto, mas a verdade é que o fazemos com o intuito de despertar aqueles que deviam dar os bons exemplos, em tudo contribuindo para o progresso da prestimosa colectividade, que não pode nem deve morrer às mãos dos próprios dirigentes”.

Foram uns tempos bastante difíceis. A guerra já acabara, é certo. Os soldados tavaredenses iam regressando à terra. Mas não era fácil retomar a normalidade. Em Abril, foi recebido um telegrama de José Ribeiro, anunciando o seu embarque para o tão desejado regresso. E, de imediato, se renovou a actividade na Associação. A 24 de Maio, e em homenagem ao seu ensaiador, chegado dias antes, o grupo cénico realizou um espectáculo, apresentando a comédia, em 2 actos, “Um servo perigoso” e as comédias, em 1 acto cada, “Cada doido...” e “Um julgamento no Samouco”.
Esta homenagem, no entanto, não teve o brilho pretendido e desejado. Dias antes, a 19, falecera Fradique Batista Loureiro, que havia sido um dos fundadores da Sociedade e seu primeiro presidente. Ainda não havia decorrido muito tempo sobre a data em que a colectividade lhe prestara homenagem, descerrando o seu retrato, o qual se encontra no salão. Este acontecimento e a saudade, ainda muito viva, de Gentil da Silva Ribeiro, forçosamente que ensombrariam uma festa que se desejaria bem alegre...


E tudo recomeçou. Nos princípios de Novembro, já funcionava a aula nocturna, com muita concorrência de alunos. Os ensaios da secção dramática decorriam com grande entusiasmo. E a abertura da nova época teatral teve lugar a 6 de Dezembro, com a reposição da opereta “Entre duas Avé-Marias”, agora com a parte musical a cargo de Manuel Martins, regente da Filarmónica Figueirense. Para o aniversário, em Janeiro de 1920, preparava-se a comédia, em 3 actos, “Nono: não desejarás”.
Voltava a normalidade. Noticiando o acontecimento, escreveu-se “... muito louváveis são os esforços tenazes dos rapazes que na Sociedade de Instrução procuram agora continuar a sua já importante obra de educação, arrancando ao vício da taberna os nossos trabalhadores e proporcionando-lhes na Associação, por intermédio da escola e do teatro, uma atmosfera sã de educação e de recreio”.

Fotos: 1 - Hino da Sociedade de Instrução Tavaredense (quadro oferecido pelo prof. António Simões; 2 - Fradique Loureiro Baptista, primeiro presidente da Direcção da SIT.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal em Tavarede

Estamos a chegar ao Natal. E, logo a seguir, ao Novo Ano de 2010.

Também tenho que dizer e recordar qualquer coisa sobre o Natal. E começo por recordar uma pequena notícia encontrada e que nos diz como era festejado na nossa terra. E, como terra de Teatro, além da festa religiosa, com a tradicional 'Missa do Galo', eram indispensáveis as representações do 'Presépio'. E tinham fama os presépios em Tavarede. Já por volta de 1865 para o nosso patrício Joaquim Alves Fernandes Águas, 'o Presépio era o cúmulo dos divertimentos'. E não esqueçamos que Anibal Cruz nos deixou a nota de que sua avó lhe dizia que 'nos tempos dela, chegaram a representar-se em Tavarede, cinco presépios ao mesmo tempo'. Era isto nos velhos cardanhos, nas célebres associações dramáticas 'que vegetavam em Tavarede como tortulhos'.



"Foi extraordinário, muito grande, como nunca vimos, o número de fiéis que correram nossa igreja para assistir à festividade que ali se fez na noite de 24 para 25, celebrando o nascimento do Menino-Deus.
Era meia noite quando, desvendado o trono do altar mór, disfrutámos um espectáculo sublime: um pequenino presépio rodeado de dezenas de lumes que reluziam brilhantemente por entre aquele belo quadro, que a todos os cristãos inspira tanta fé e ardente comoção.
Ecoou então por todo o templo a 'Glória in excelsis Deo', e continuou em seguida a cantar-se a missa, que findou às 2 horas, sendo celebrante o revdº vigário desta freguezia sr. Costa e Silva; serviram de acólitos os coadjutores de Quiaios e das Alhadas.
Pregou o revdº Pimenta, de Verride, versando o seu discurso sobre: o providencial nascimento do Redentor, os feitos de Jesus e o martirio a que foi condenado, sofrendo sempre as mais cruéis amarguras, sacrificado a isso pelas suas ideias alta e verdadeiramente sublimes.
A decoração dos altares mór e laterais revelava bem o gosto artistico do sr. Bernardo da Cruz, que, em trabalhos daquele género, o tem já demonstrado, quer aqui, quer nessa cidade. O efeito produzido pelo altar mór, visto a distância, era deveras atraente.
O côro estava bem organizado, tanto na parte instrumental como vocal, e, diga-se a verdade (que não podemos ocultar), se não fôra o estar numa festa de aldeia, pelo que alguns músicos costumam desempenhar os seus papéis com bem pouco esmêro, teria jus a ser geralmente apreciado.
Cremos bem que isto não deixa de lhes saltar aos olhos, como não deixa de saltar aos dos que assistem àqueles actos e tenham ouvido já, pelos mesmos músicos, coros e orquestras magnificas, merecedoras de incontestável aplauso.
Entendem-nos, decerto.
O Menino foi beijado com fervor e alvoroço, pois todos queriam ser os primeiros a depor-lhe o quente beijo de amor.
= À missa conventual do dia 25 tocou um pequeno grupo dirigido pelo nosso conterrâneo João Prôa.
= Neste dia à noite, no teatrinho Duque de Saldanha, representaram-se algumas cenas do presépio, ante o qual as pastoras e os pastores, cheios de alegria, saudavam reverentemente o Recém-nascido, ofertando lhe muitas prendas.
Acabou este espectáculo pela 1 hora da noite, assistindo a ele muitas pessoas, que enchiam a pequenina casa de recreio da Estudantina Tavaredense". Esta noticia foi publicada no jornal 'Gazeta da Figueira', em Dezembro de 1900.

Na Sociedade de Instrução Tavaredense representou-se algumas vezes o Presépio, em 1916, durante a ausência, em serviço militar, de Mestre José Ribeiro. Não era peça das suas preferências, embora tenha dito que, ainda criança, ia com o Pai assistir aos ensaios e espectáculos dos Autos Pastoris na Figueirense.

Mas no ano de 1947 resolveu apresentar um espectáculo intitulado 'O Natal no Teatro' onde incluiu algumas cenas daquela peça 'apresentados com encenação (representação, cenário indumentária) no estilo que a tradição local consagrou'. O 'Notícias da Figueira' comentou o espectáculo referindo-se, quanto ao Presépio, da forma seguinte: 'O Presépio foi representado conforme a tradição local (afinal mais antiga em Tavarede do que na Figueira), em perfeita liberdade de movimentos dos intérpretes, com os consabidos anacronismos de guarda-roupa, de referências de época, de situação geográfica, etc., tal qual o temos visto durante gerações e gerações, que lhe têm imprimido "coisas de sua casa" e chalaças de ocasião, nos conhecidos quadros dos 'Pastores Brutos', de 'As cinco Pastoras', de 'O Moço e o Cego', da 'Romagem do Diabo' (nesta particularidade está o segredo de jamais ter sido 'retirado do cartaz', em anos e mais anos, através de gerações e gerações, deliciando a assistência e tornando-se motivo de... orgulho de tantos conterrâneos nossos que têm cultivado a chamada arte de Talma'


Mas no ano de 1940, a Direcção do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, cuja secção dramática tinha sido extinta em 1929, resolveu pedir à Sociedade de Instrução Tavaredense autorização para apresentar, na sua sala de espectáculos, o Presépio. Além da cedência da sala, a SIT deu todas as facilidades para a representação, na qual colaboraram muitos dos seus amadores cénicos. O êxito foi total e, no ano seguinte, houve repetição.

A partir de então, e salvo aquela pequena reposição em 1947, nunca mais houve Presépio em Tavarede. Nem o 'Auto dos Reis Magos' que também tanta fama tinham...

Havia o costume, no entanto, de na noite de Natal se apresentar um espectáculo, algumas vezes alusivo à quadra natalícia. A lotação estava sempre esgotada e, terminado o espectáculo, cada família ia para sua casa para cear. Bem me recordo de que eram então fritos os filhós (a massa tinha ficado a levedar durante o teatro) que, polvilhados de açúcar e canela, eram devidamente saboreados, acompanhados com uma caneca de café... de cevada. Quantas recordações destes tempos! Era a festa da família. E no dia de Natal era quando se ia às capoeiras buscar um galo ou um coelho que, assado no forno da padaria, era o lauto almoço natalício, a que se seguia o costumado arroz doce ou as saborosas farófias.

Também era usual uma pequenina árvore de Natal, enfeitada com alguns fios e alguns brinquedos e onde se viam pendurados alguns (poucos) chocolates e rebuçados. Bem diferentes das festas de hoje, mas, talvez, mais naturais e mais humanas, mais apropriadas à comemoração do Natal.

Não quero, contudo, deixar de referir um Natal muito especial, para mim, festejado na Sociedade de Instrução Tavaredense. Foi na noite de 24 de Dezembro de 1949. O programa do espectáculo foi o seguinte: 'A Herança', (peça em verso); 'Noite de Natal', (episódio num acto); 'Não mentirás', comédia; e 'O lençol do noivado', peça também num acto. Mas, porque foi especial para mim: É que, naquela noite e no episódio 'Noite de Natal' fiz a minha estreia como amador da Sociedade de Instrução Tavaredense. E não foi só isso. É que neste episódio, também fez a sua estreia teatral, no papel de minha irmã, a Maria Isabel, que, em Outubro de 1961, passou a ser a minha esposa e companheira dedicada em tantos momentos repletos de felicidade e alguns, infelizmente, de profunda e imensa amargura e dor.

60 anos!!! Quem diria que, passados 60 anos, eu recordaria, neste meu modesto blogue, o início da minha carreira de amador teatral e de minha mulher. Foi uma carreira curta, é certo, devido à necessidade de ir procurar melhor vida noutras terras. Mas foi o início, isso sim, de enorme dedicação e amor ao associativismo e à colectividade. À Terra, isso ja havia desde o nosso nascimento.
Paz e Amor é o que mais desejo a alguém que leia este episódio. E para toda a gente, pois é aquilo que mais se pode desejar.
Fotos: 1 e 2 - Presépio montado junto à Igreja de Tavarede: 3 - Última cena do 'Presépio - Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 1917; 4 - Programa da representação do Presépio pelo Grupo Musical na sede da SIT; 5 - Árvore e mesa da ceia familiar (década de 1970); 6 - Natal.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 8

No dia 15 de Janeiro de 1916, uma nova opereta sobe à cena na Sociedade de Instrução. “Entre duas Avé-Marias”, em 3 actos, foi a primeira peça ensaiada por José da Silva Ribeiro, que assumira o cargo de responsável pelo grupo dramático após a saída de Vicente Ferreira.
A imprensa refere que a opereta, ornada de 19 números de música, obteve grande sucesso e atraiu muita assistência. O crítico do jornal “Gazeta da Figueira”, depois de desenvolver o enredo da peça, escreveu: “Que dizer do desempenho? Quase nada. A peça é um bocado de vida rústica, cortada de tipos autênticos. Claro que não é opereta. Certo que não tem valor como teatro. Mas é um pretexto para encaixilhar em motivos populares meia dúzia de tipos caseiros das nossas aldeolas. E vai daí, os amadores de Tavarede ali achados como peixe na água, em coisinha suave e fácil, perfeitamente à altura dos seus créditos, lindamente se houveram em seu desempenho. Já de certa vez de lá vim arrepiado, aquando dum tal dramalhão de faca e alguidar que ali bispei. Agora não, agora satisfez-me aquilo, e sinceramente aqui os incito a novas proezas, com comédias ligeiras, operetas leves, teatro assim à altura dos seus merecimentos, coisas assim da igualha desta. Devo notar que a marcação de José Ribeiro mais uma vez vincou o valor deste moço inteligente e estudioso, que conseguiu distribuir regularmente as figuras, sem marcas monótonas e pesadas que vulgarmente se topam em pisos de amadores. Salientarei ainda a graça, a leveza, a frescura com que Helena de Figueiredo se incarnou em papel de aldeã. A vivacidade, a naturalidade de Francisco Carvalho no Zé Cochicho. E a superior interpretação de Broeiro, no D. Procópio. António Graça a meu contento se houve no tio André. E os outros, sem desprimor, igualmente me agradaram”.


José da Silva Ribeiro, segundo sargento do Regimento de Infantaria 28, foi integrado no batalhão expedicionário enviado para Moçambique. Na estação do caminho de ferro muitos foram os seus amigos que, no dia 6 de Abril de 1916, ali se encontraram para o abraçar e lhe desejar boa viagem e breve regresso. À despedida, disse ele em voz bem alta: “Meus amigos, é preciso que não esmoreçam. Levem a nossa Sociedade como até aqui temos levado, que eu vou cumprir o meu dever. Até à volta”.
Poucos dias antes, realizara-se na nossa terra a costumada “Festa da Árvore”. Durante o sarau, realizado no teatro da Sociedade, falaram diversos oradores, entre os quais José Ribeiro que “começou por felicitar as crianças pelo brilhantismo da sua festa e pelo entusiasmo com que nela colaboraram. Define o significado de cada frase da Portuguesa. Refere-se à entrada de Portugal na guerra, afirmando ser preciso que nela tomemos parte para manter a nossa honra, para que se não diga apenas que os portugueses foram heróis, mas que se prove que ainda o são. É preferível morrer com honra do que ser apodado de infames e cobardes. É militar e será dos primeiros a marchar para onde a Pátria reclamar os seus serviços. Quer que as crianças que ali vê apenas lhe lancem e aos seus camaradas, muitas flores, certos de que, quando regressarem, não carecerão já de mais flores, porque hão-de vir cobertos de louros de glória”.
Acrescentamos, apenas, que o sarau terminou “com a comédia-drama As Árvores, pelos meninos João e Aurélia Cascão e apoteose à Árvore”


A direcção da colectividade, embora com a actividade teatral muito reduzida, continua com o seu programa. “Ela procura abrir os olhos do espírito àqueles que frequentam a sua escola, que o mesmo é dizer que tem a aspiração de aqui formar cidadãos conscientes dos seus deveres e dos seus direitos”.
No dia 18 de Novembro desse ano, efectuaram um espectáculo em honra de José Ribeiro. Foram representadas umas comédias, houve uma cançoneta e foi dito um monólogo, tendo tudo obtido muitos aplausos. “No salão da Sociedade lá estavam os dois retratos, lindamente ornamentados. De José Ribeiro. Um foi tirado cá com o uniforme de 2º sargento de infantaria 28, e que, depois de José Ribeiro sair para África, fôra por esta Sociedade inaugurado em ponto grande. O outro teve José Ribeiro a gentileza de o enviar à sua Sociedade, com o uniforme que usa em África, e trazendo escritas, na frente e aos lados, palavras de fervoroso patriotismo e incitamento”.
Não temos nenhuma indicação de quem terá ensaiado e dirigido o espectáculo. E pelo Natal e Ano Novo, levaram à cena “O Presépio”. “Têm fama de interessantes aquelas exibições em Tavarede, e, certamente, não deixará o público de encher os dois teatros naquelas noites, pois, por mais duros que corram os tempos, não deixou ainda o povo de filosofar sobre o velho conceito de que... a vida são dois dias”.

Fotografias - José da Silva Ribeiro (a primeira encontra-se no Salão Nobre da SIT e a segunda apresenta José Ribeiro com a sua farda de sargento)

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 5

Em 1914 tem lugar um importante acontecimento na vida do novel Grupo Musical. “...o sr. Manuel da Silva Jordão, dos Carritos, cidadão de fortuna, ofereceu-lhe para sede a casa que pertencia ao sr. João Águas, na rua Direita, e a direcção do Grupo num impulso de vontade, ao receber tão valiosa oferta, meteu obras na casa e construiu um elegante teatro”. Esta casa ficava situada na rua principal, formando no seu todo o quarteirão que, actualmente, é ladeado: pelo nascente, com o Largo D. Maria Amália de Carvalho; pelo poente, com a rua D. Francisco de Mendanha; pelo norte, pela rua do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense; e pelo sul, pela rua A Voz da Justiça.

Em Junho iniciaram-se as obras de adaptação e mudaram a sua sede para ali, deixando a casa do Largo do Paço. Além das salas de apoio administrativo e de convívio, preocuparam-se, de imediato, com uma sala para instalação da aula de música e com a construção de um “teatrinho”. Em Novembro as obras iam bastante adiantadas e começaram os ensaios com as peças escolhidas para o espectáculo da inauguração da nova sede.

E no início de 1915 procedeu-se à festa. Aproveitaram para prestar justa homenagem ao seu dedicado sócio protector que, informo desde já, cedeu aquele edifício sem cobrar qualquer renda e participando, ainda, nos custos de adaptação à nova sede. Em “A Voz da Justiça” de 5 de Janeiro vem a notícia:
"Grupo Musical Tavaredense – Homenagem ao sr. Manuel da Silva Jordão
Aquele grupo musical de Tavarede vê dia a dia desenvolverem-se as suas prosperidades. Agora festejou com entusiasmo a inauguração do seu teatro, construido na rua Direita daquela povoação a expensas do abastado capitalista sr. Manuel da Silva Jordão, tendo para este fim realizado um espectáculo na noite de sábado para domingo último.
Segundo nos informam a enchente foi completa e o desempenho do programa agradou sobremaneira.
Antes da representação deste, procedeu-se à cerimónia da inauguração do retrato do sr. Manuel da Silva Jordão, generoso sócio protector do Grupo, a quem, em nome deste, o sr. dr. Manuel Gomes Cruz louvou o seu altruismo e agradeceu o apoio que ele está dando à novel Sociedade.
A orquestra do Grupo executou o seu hino e o público aplaudiu com muitas palmas a justa homenagem prestada ao sr. Manuel da Silva Jordão".


O programa compunha-se de “um excelente drama popular de grande interesse ainda não conhecido em Tavarede, denominado Cenas de Miséria, da comédia Malefício na Família, havendo ainda um espaço com alguns monólogos”.

Também a “Gazeta da Figueira” comentou a festa da inauguração. “Com a maior solenidade, realizou-se no último sábado, como estava marcado, o primeiro espectáculo na nova sede daquela casa de instrução musical e teatral, que decorreu animadissimo.
Pouco antes de se começar o espectáculo foi, pelo sr. dr. Manuel Gomes Cruz, proferido um discurso, que entusiasmou o público, e não só a este como também aos sócios do Grupo Musical.
Aquele senhor ao dizer, entre outras coisas, que o honravam com aquele progresso na sua terra, e não só a ele como a todos os seus conterraneos, foi, para a numerosa assistência, que o ouvia com o maior respeito, uma alegria, e pouco depois, agradecendo em nome de todos os sócios daquela colectividade ao seu grande benemérito, ao seu grande protector, sr. Manuel da Silva Jordão, foi-lhe inaugurado o seu retrato, tocando a orquestra o hino da Associação.
S. Exª., ao acabar o seu discurso, foi calorosamente aplaudido.
Seguiu-se depois o espectáculo que, digamos de justiça, decorreu sempre animado, andando os amadores como deviam:
No drama há a notar, além dos outros trabalhos, o de Maria Esteves, que pela primeira vez que entrou em cena fez o que devia.
O resto, tudo bem.
Tomou parte neste espectáculo o conhecido amador, sr. Alvaro Ferreira, de Coimbra, que agradou muito.
A sede achava-se lindamente ornamentada, ostentando, entre outros retratos, o do conhecido actor Almeida Cruz, filho de Tavarede.
Depois do espectáculo houve baile, durando até quase de manhã.
No outro dia, domingo, baile novamente, prolongando-se até depois da meia noite.
Enfim, foi uma festa digna de registo, que honra muito a pequenina aldeia de Tavarede.
Os nossos maiores desejos são, que em Tavarede se façam muitas acções, tão cheias de luz e progresso, como a de sábado último.
Parabéns aos sócios do Grupo Musical Tavaredense”.

E depois de entusiásticos bailes carnavalescos, no domingo gordo e terrça-feira de Carnaval, com prémios aos melhores mascarados, iniciaram os ensaios do “esplêndido drama em quatro actos O Poder do Ouro”, que foi apresentado, pela primeira vez, no dia 3 de Abril de 1915, domingo de Páscoa. Na sala de teatro “que é um dos melhores do concelho da Figueira” procedeu-se, nesta ocasião, à montagem de uma galeria que lhe deu muito mais valor.

Fotografias: 1 - O primeiro grupo musical da colectividade, que deu origem à formação da Tuna; 2 - Faustino Ferreira. amador que se destacou no grupo cénico da colectividade; 3 - O actor-cantor tavaredense António Almeida Cruz.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 7

Tanto quanto consegui encontrar, foi em Janeiro de 1913, para comemorar o 9º. aniversário da colectividade, que se realizou a primeira sessão solene. Até então, a data comemorava-se com uma Assembleia Geral, onde, além de se aprovarem as contas e elegeram os novos corpos directivos, eram entregues prémios aos melhores alunos da escola nocturna, etc.

Vou transcrever, portanto, uma notícia destas festas.

"Decorreram com entusiasmo as festas comemorativas do aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, cumprindo-se fielmente o seu programa.
No sábado, récita de gala, representou-se o drama em 4 actos – João José -, cujo desempenho foi bom, sendo os amadores muito aplaudidos. O sr. Vicente Ferreira recitou a poesia Honra aos Mestres, terminando com o hino escolar cantado pelos alunos da aula nocturna (apoteose à escola).
No domingo de manhã uma salva de 21 tiros anunciava a continuação da festa. Às 12 horas, exposição da sede da Sociedade, que se achava lindamente ornamentada, vendo-se ali os retratos dos srs. Drs. Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, Afonso Costa, etc.
Às 15 horas começou a plantação de árvores no largo pertencente ao edifício, formando-se seis grupos, por tantas serem as árvores.Cada um destes grupos de rapazes encarrega-se do tratamento da planta que lhe coube em sorte e no fim do ano serão premiados os que maior zelo manifestarem no cumprimento da sua missão.
A este acto, a que assistiu uma multidão de povo, vimos, com prazer, alguns homens, velhos, lançarem mão das pás e enxadas, ajudando afanosamente os rapazes na sua árdua tarefa. Belo exemplo!
Às 16 horas, achando-se a sala repleta de espectadores, procedeu-se à sessão solene para a distribuição de prémios aos alunos mais aplicados e posse ao novo corpo gerente.
Proposto pelo sócio sr. João dos Santos, para presidir à sessão, o sr. Dr. Manuel Gomes Cruz, iniciador da primeira escola nocturna em Tavarede há mais de treze anos e que posteriormente ficou a cargo da Sociedade de Instrução, foi por uma unânime salva de palmas aprovada esta proposta.


Tomando lugar, o sr. Dr. Cruz nomeou para secretários os cidadãos João dos Santos e Manuel Jorge Cruz e, aludindo à criação da primeira escola nocturna em Tavarede, pôs em relevo os generosos serviços que a ela prestou o sr. João dos Santos. Prosseguindo no seu pequeno mas brilhante discurso, louvou as direcções qaue têm trabalhado pelo progresso da Sociedade de Instrução, enalteceu o valor da festa da árvore e incitou os que o escutavam a cooperarem sempre em obras de instrução, educação e civismo como aquela que ali se celebrava e que muito honrava Tavarede. Uma salva de palmas cobriu as suas últimas palavras.
Erguendo-se para falar o sr. Dr. José Gomes Cruz, produziu-se na sala um grande silêncio. Começou por dizer que, sendo convidado para tomar parte numa festa tão simpática, na sua terra, acedeu da melhor vontade, e limitando-se apenas a dar uma lição de botânica. Não podemos, por falta de tempo e espaço, acompanhar o ilustre conferente que, durante mais de uma hora, prendeu, com bastante interesse, todo o auditório, usando de uma linguagem de fácil compreensão para todos. Concluiu por um apelo patriótico aos seus conterrâneos para que trabalhassem sempre no sentido de serem úteis a si e à Pátria. Ao terminar o conferente foi calorosamente ovacionado.
Tomando a palavra o sr. Manuel Jorge Cruz, congratulou-se por assistir a tão simpática festa e por ter ensejo de ver que não foi inutilmente que ali, em algumas sessões idênticas, a que presidiu, aconselhou os seus consócios a trabalhar pelo desenvolvimento daquela colectividade, que continuava a sua marcha desassombradamente, derramando a instrução nas classes pobres. Terminou incitando as crianças no estudo e mostrando-lhes as vantagens que obtinham instruindo-se, e recomendando-lhes com instância a guarda e tratamento das árvores que acabavam de plantar. Palmas da assistência.
Fazendo de novo uso da palavra o sr. Dr. Manuel Cruz, refere-se ao carinho com que em algumas nações se tratam as árvores e elogia a dedicação de José da Silva Ribeiro pelo seu trabalho em prol da Sociedade, acabando por erguer um viva ao povo de Tavarede, que foi entusiasticamente correspondido.
Encerrada a sessão, os alunos entoaram o hino escolar, ouvindo-se depois muitos vivas aos srs. Drs. Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel e José Cruz, Sociedade de Instrução, República Portuguesa, etc.
Em seguida foi servido na sala de aula nocturna um lanche aos alunos.
Pelas 20 horas começou o baile dedicado às famílias dos sócios, dançando-se animadamente até às 23 horas.
Assim terminou tão esplendorosa festa, que a todos deixou as mais agradáveis impressões.
Na mesa foram lidas cartas e ofícios de várias colectividades da Figueira e Buarcos saudando a Sociedade de Instrução pelo seu 9º aniversário.
Durante o dia a fachada da casa esteve embandeirada".

Fotografias: 1 - Cenário do Largo da Igreja (julgo ser da revista 'Na Terra do Limonete' - 1912; 2 - Manuel Jorge Cruz, jornalista, proprietário de 'A Voz da Justiça', presidente da Assembleia Geral da SIT e autor do primeiro regulamento interno.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 4

Conforme vimos no último apontamento da SIT, criticava-se bastante a nova colectividade, especialmente no caso da apanha de alguns bilhetes de espectáculos. Isto era inteiramente verdade! Alguns sócios do Grupo Musical resolveram apresentar queixa na Polícia, contra a Sociedade, alegando a 'venda' de bilhetes para os seus espectáculos, que eram considerados, para efeitos fiscais, como exclusivamente para sócios e famílias e gratuitos.

Ora houve inquérito, a Sociedade foi chamada a 'contas' e teve que pagar uma multa. E, como referi, alguém utilizou para pagamento dessa multa o dinheiro que havia sido apurado para o relógio da torre, que ficou sem o necessário conserto... Mas, continuemos com a nossa história sobre os princípios da jovem colectividade. Com pouco mais de um ano de existência, logo surgiram problemas... e graves.

Poucos dias depois da declaração publicada pelo secretário da Assembleia Geral, Anibal Nunes Cruz, surge a reacção da Direcção, através de um comunicado bastante violento, mesmo insultuoso, para com aquele elemento demissionário. Conheci, pessoalmente, os principais envolvidos nesta polémica questão. Só posso atribuir as frases escritas publicamente, a um exagero momentâneo. Aliás, ambos estavam integrados na mesma família e, não muito tempo depois, estavam novamente todos reunidos na caminhada cultural desta colectividade da terra do limonete.

Mas o que tinha acontecido? Claro que um comunicado violento tinha que ter uma resposta igualmente violenta. Ou, até, ainda mais. Por me parecer ser a origem de toda a questão, vou transcrever, somente, este pequeno retalho: “... “Quem pertencer aqui não pode ser lá de cima!”... (Mais abaixo poderão tomar conhecimento mais detalhado desta nota)

Não sabemos, concretamente, até onde iria a razão de um e do outro. Mas continuemos...
Eis alguns apontamentos da resposta da Direcção, publicada no jornal 'Gazeta da Figueira': "sr. redator – O Grupo Musical Tavaredense pede-lhe a fineza de publicar no seu muito lido jornal uma declaração justa e verdadeira, e não como uma igual que saíu no seu jornal de 16 do corrente, feita pelo sr. Anibal Cruz, que mal empregado é este nome de Cruz em tal pessoa, por pertencer a uma familia tão digna com o mesmo nome. O nome mais acertado para este cavalheiro era de vadio. É pena que a policia o não tenha apanhado na rede e levál-o para o canil, porque estão lá outros com mais raciocinio.
Querem os leitores saber os sacrificios que este cavalheiro tem feito pelo Grupo, de que ele diz pedira a demissão, o que mente descadaramente? A demissão que ele diz ter pedido, queríamos nós dar-lha, talvez acompanhada com alguns P. na primeira ocasião que ele entrasse à porta desta associação, devido a uma calúnia que ele levantou contra um rapaz digno, e comprometendo-nos a todos. Mas o garoto parece que adivinhou o que lhe sucedia. O sacrificio foi este: na fundação deste Grupo, que tem apenas 15 meses de vida, este cavalheiro foi pessoalmente oferecer-se para sócio, o que muitos recusaram, outros aceitaram, apontando-lhe o seu préstimo, que era para ponto, mas que ponto este ponto saíu! A fazer o que tem feito noutras sociedades que tem sido desconsiderado.
Apesar de tudo foi aceite, prestando em principio o seu serviço, depreciando, tratando pessimamente mal e a ridículo, nas suas cartas de Tavarede, certos cavalheiros que para não sujarem as mãos o desprezaram como deviam, e agora, a estes mais escandalizados, anda ele como um cão submisso, ajoelhar-se aos pés, para lhe engraxar as botas...
... Pois como íamos dizendo, devido ao seu trabalho, o que esse cavalheiro diz lhe pagarem com coices tremendos, foi unicamente apontar dois espectáculos, e depois voltou à mesma do costume e desprezando o seu cargo a que se tinha responsabilizado, tendo nós escolhido outro para exercer o seu lugar.
Decorreu algum tempo, aproximou-se o aniversário do Grupo, e este cavalheiro encarregou-se de se fazer secretário da assembleia geral, o que acceitámos a custo, julgando que ele se regenerava, mas não aconteceu isso. Desde esse dia nunca mais frequentou este Grupo, porque a sua pousada era na Figueira, nos sitios mais vergonhosos, praticando acções ridiculas, a ponto de usurpar ás infelizes algum dinheiro. Se quiser provas dão-se-lhe.
O pouco tempo que está em Tavarede é para calcar a pés a sua doutrina do costume contra os taberneiros, e ainda no domingo, 10, pela última vez, em casa dum dos taberneiros, estando ele com o vinho, praticou uma infâmia, como filho nenhum de Tavarede, infâmia esta que temos pejo de publicar por ser vergonha praticar-se na nossa terra.
E chama-nos o garoto absolutos! O contrário. O absolutismo criou-se só para este cavalheiro. Faz e diz o que quer e ninguém lhe pede contas, porque não merece importância. Merece só, como dizemos, de todos o desprezo como se dá a um cão vadio".
É claro que tão insultuoso comunicado, tinha que ter igualmente resposta de igual teor. Aqui vai alguma coisa da resposta, publicada no mesmo jornal:

"Temos procurado evitar pôr à luz do sol os animaizinhos que em pleno século XX – é verdade, no século das luzes – imitam o vestuário como os homens e que, quando nos apanham distraídos no meio da arena, nos levam bravamente de encontro à trincheira... É pena ser acto deshumano, pois que, pela nossa salvação – se não tivéssemos medo de censura – lhes ferrariamos no lombo com vontade o belo aguilhão que por mais duma vez, os tem conduzido ao redondel, onde aprenderam a ser dignos e honestos.
São animaizinhos, não merecem outra classificação, que ingratamente pagam com pontapés (é para não dizer coices) o único favor que lhe fizémos de perder um precioso tempo, e até a saúde, domando-os para os apresentar com agrado duas vezes em público!!
A declaração - ignorância - que pediram ao nosso amigo e sr. redactor da Gazeta, em nome do Grupo Musical Tavaredense, para publicar, é a prova suficiente de tudo quanto aqui temos afirmado e que toda a gente que nos conhece poude avaliar a canalha que continua envergonhando uma terra que tem filhos ilustres e onde habitam pessoas honradas que desejam o sossego e o respeito para se poder viver honestamente.
Os imbecis - tendo à frente os Medinas de Verride, nascidos e criados naquela terra como vagabundos - pediram a uma pessoa que devia, pela sua ilustração inibir-se de escrever as cóleras duma ignorância rara, fugindo por completo ao assunto de que se tratava, mas que nós vamos contar para quem nos ler admirar os actos que veementemente combatemos e que nos levou a pedir a demissão de sócio daquele Grupo. Apreciem:
Quando a Sociedade de Instrução Tavaredense abriu a matrícula de alunos para a escola nocturna que sustenta, foram dois rapazes, sócios do Grupo Musical, matricularem-se, visto o poderem fazer gratuitamente. No dia seguinte foram, como de costume, passar algumas horas da noite no seu Grupo, quando o António Medina, presidente da direcção, os chamou e lhes disse com uma autoridade de mandão: “Quem pertencer aqui não pode ser lá de cima!”... ...Bem, vendo estas coisas, frequentavamos poucas vezes o Grupo Musical, mas sempre que ali iamos admirava-se uma triste cena de taberna: o Medina chegando de casa, naturalmente de cear, pedia com um descaramento tão velhaco, para fazerem uma vaca, um vintém, outras vezes dez reis, etc., a todos os sócios que ali se encontravam reunidos e mandava comprar vinho que eles bebiam e mais algumas crianças que se embriagavam de tal maneira que era necessário irem buscal-as para casa.
Visto tal orientação, deixámos de frequentar o Grupo, mas sendo sempre sócio...".
Chamamos a atenção para o facto de tudo isto se encontrar publicado na imprensa figueirense. Mas o caso seguiu para Tribunal onde foi julgado. Tentámos ver o processo mas não conseguimos. Tudo deve ter ficado em bem, mas o Aníbal Cruz, primo dos Medinas, saíu de Tavarede para ir trabalhar para a região de Aveiro e só regressou à nossa terra na década de 1950/1960. Mas pouco tempo depois do julgamento já se tinham feito as 'pazes'. Já chega de intrigas e má-língua. Iremos prosseguir com a actividade da jovem Associação.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 6

Vou, em seguimento da nota anterior, referir-me hoje às primeiras revistas representadas na SIT e apontar as 'picadelas' dirigidas ao Grupo.

'Na Terra do Limonete', levada à cena nos dias 6, 13 e 20 de Abril de 1912, foi escrita por João dos Santos (da Quinta dos Condados) e musicada por Gentil Ribeiro. Era dividida em 2 actos e 6 quadros. (1º. - O relógio e seus componentes); 2º. - As eleições; 3º. - Pavilhão dos três vinténs; 4º. Soalheiro indígena; 5º. - Diplomacia de taberna; 6º. - Apoteose)

O primeiro quadro critica as ofertas que alguns tavaredenses fizeram para a compra de um relógio a colocar na torre da Igreja, um deu os ponteiros, outro uma pêndula (usada), etc. e alguns deram dinheiro, pouco pois não deu para pôr o relógio a funcionar convenientemente. Refiro este quadro para recordar o caso da subscrição, em dinheiro, que depois se verá o destino que teve. O quinto quadro aponta directamente para a nova colectividade concorrente:
.....

Bonifácio – (como que continuando conversa) Pois tu cuidas que se eu quiser a Sociedade d’Instrução não vai a terra? Vai e eu te digo a maneira: já que não pegou como eu queria d’antes, mando lá uns garotos apanhar dois bilhetes, mesmo que tenham o nome de sócios, porque isso não tem dúbida. Arranjo p’r’aí uns gândulos que vão dizer que a casa tem trezentos lugares, que é p’rá multa ser maior, junto-lhe nove récitas p’ra crescer o monte e zás... multa p’ra xima d’eles. Disse-me um fulano que save d’estas coisas, que a multa pode ir até cem mil reis por cada récita, e assim aonde hão de eles ir arranjar tanto dinheiro? Vão p’ra terra, com certeza! (com um sorriso de contentamento)

Aniceto – Falas com cadência. Bebe que a murraça não é má. Conta comigo p’ra t’ajudar na vingança. Eles têm medo de ti e com certeza vás dar-lhe um calor e botas com eles em terra, apesar de serem muitos.

Bonifácio – Vem bês, que eu cheguei a andar na escola que eles lá têm, mas não aprendi nada lá, porque sei mais do que todos eles. Sou muito bem capaz de lhes dar lições cá de certas coisas que tu também não perceves. Eu seja da cor d’este bonet se não acabar com aqueles cachorros com que não se pode caçar. Olha cá, a escola serve para alguma coisa? (gesto indiferente do Aniceto, com quem diz: é claro que não!) Pois é claro que não serve! Tudo se faz na boa harmónia. Arranja-se uma tuna que toque bonitas sinfónias, porqu’é assim com as melódias e com colmeias e semi-colmeias que o home toca no rabecão que se evitam estas questãos e as sensabórias e fica certo de que apanham a catastrófe. Oh! se apanham! Tenho cá a coisa preparada p’ra eles irem p’ra terra e nunca mais se levantarem.

D. Limonete – (que tem entrado e ouvido a conversa) Não vos reconheço direito para falarem assim. Deitar por terra uma instituição que procura arrancar das trevas da ignorância os filhos da sua terra, ministrando-lhes a luz bendita da Instrução, que procura a todo o passo substituir esta atmosfera pesada e perigosa que existe na taberna por outra mais suave e proveitosa que se encontra na Associação. É obra muito pesada para vocês, apesar de possuírem em elevado grau a astúcia necessária para praticarem o mal. Movei-lhe, embora, guerra sem tréguas, que ela aguardará o vosso ataque no seu posto d’honra, sem o temer, porque sabe que combatentes da vossa laia usam por balas as pedras da rua e por pólvora a areia das valetas, como os rapazes nas suas espingardas de cana, mas, depois do combate, o vosso sonho há-de desfazer-se, e então vereis que a Sociedade d’Instrução, longe, muito longe de caír moribunda, prossegue desafrontadamente a sua marcha pela estrada do Progresso. Como é triste o contraste que existe entre a Sociedade que vocês odeiam e a Taberna que lhe preferis: - Aqui, a corrupção, a intriga e a desordem. Acolá, a Paz, o Trabalho, a Instrução!

Quanto à revista seguinte, 'Dona Várzea', dos mesmos autores e escrita com a colaboração de Arménio Santos (filho de João dos Santos), tinha um acto único e três quadros. Foi levada à cena no dia 22 de Março de 1913 e no dia 5 de Abril do mesmo ano. Do 1º. quadro 'O eclipse', recordo para a nossa história, estes fragmentos:
D. Várzea – (entrando perseguida por o fiscal do selo – calças à boca de sino, melenas e navalhão em punho. Atrás os denunciantes com orelhas de burro e cauda) A Sociedade d’Instrução, senhor, só trabalha pelo desenvolvimento intelectual das classes pobres, d’aqueles que desde o romper do sol até surgir a noite labutam nos seus domínios para adquirir o seu parco alimento. Perseguir tão prestante colectividade para lhe extorquir os recursos com que sustenta suas escolas, para satisfazer as ambições de gatunos e vingança de miseráveis que só albergam entranhas da mais requintada malvadez, é um crime infame que se pratica, senhor.

Fiscal – Mas quem é a srª da menina que tanto se interessa por essa gente que tem o mau gosto de abrir os olhos à canalha de pobretanas que em sabendo ler são os que mais engulhos nos fazem?

Várzea – Eu sou a Várzea, marida do sr. D. Limonete. Coitado; não sai há dias de casa porque sofreu um grande choque eléctrico quando estava a falar ao telefone pedindo à direcção do correio para a correspondência ser por aqui distribuída mensalmente, havendo assim mais vagar para a ler.

Fiscal – Estimo muito conhecê-la, minha rica menina, mas que quer? Eu preciso de chelpa para manter o meu cardanho e arriscar umas rodas em plenos da roleta. Nem eu, nem os cidadões que deram à dica este gancho, queremos saber de escolas nem de instruir os pobres. Olhe, vê-os, os cidadões? Eles não tiram os olhos e os narizes do fundo das minhas costas. A menina deve conhecê-los...

Várzea – Se conheço!... A alguns já a Sociedade que eles atraiçoam e apedrejam cobardemente mitigou a fome em ocasiões amarguradas. A eles e suas famílias. Serpentes abjectas, que bem depressa esqueceram os benefícios recebidos.

Fiscal – Serão tudo que a menina Várzea lhes quiser chamar, mas se eles não vissem ratos na lua não descobriam a maneira de eu vir aqui surripiar algum l’argent ós gajos da Instrução."


.....
"Lua – Tenho. Diz à Ricardina e ao Silvestre que d’aqui a 10 anos lá terão o telefone que requisitaram há 20 meses. Recomenda às mulheres ou senhoras que costumam ir ao teatro de Tavarede que nos teatros se devem tirar as tampadoiras da cabeça. Em cabelo ficavam mais bonitas e pareciam um bocado mais polidas. Diz-lhes também que nos bailes com os lenços nas cabeças parecem umas trouxas móveis. Encarrega d’esse serviço a D. Várzea, que é boa rapariga quando está a dormir. Se encontrares o D. Limonete, faz-lhe ver que no teatro, quando se bate com os pés, manifesta-se o desagrado e com as mãos é que se aplaude. Explica-lhe isto bem, porque tenho visto por vezes os espectadores no fim dos actos, baterem com as mãos e com os pés, o que significa que não sabem o que fazem. Eu incumbo este serviço a D. Limonete porque ele tem reparado com muita razão, na má educação d’alguns indivíduos que na parte superior do teatro conservam os chapéus na cabeça, mesmo nos intervalos, e outros que se descuidam com o cigarrinho aceso na plateia. Ele que tem frequentado lugares civilizados, revolta-se contra tais grosserias. Não te esqueças de me recomendar muito aos rapazes da Sociedade d’Instrução. Vai sempre dizendo ao Gentil que se não canse tanto com a música, porque se assim continua vai parar ao sanatório que o Tarouco ali tem na esquina; ao Ferreira diz-lhe que vá ensaiar para o raio que o parta e que seja mais cuidadoso. Ao Graça, ao Jaime, ao Coelho, à Eugénia e outros, dirás que escusam de ser tão assíduos aos ensaios, aliás, espera-os o alto de S. Martinho. Está a passar-se a minha hora. Adeus, pedaço d’asno, estimo que faças boa terressage".
E o certo é que a Sociedade de Instrução Tavaredense foi a tribunal, pela tal denúncia da venda de bilhetes e foi condenada a pagar uma multa. Parece, não o posso afirmar, que o dinheiro da cotização obtida para o sino acabou por ser aplicado neste pagamento. Veremos se assim foi...
Fotografias: 1 - Na antiga Fonte da Várzea; 2 - Lavadeiras no ribeiro de Tavarede, na Várzea.