terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 8

A 2 de Fevereiro as festividades à Senhora da Boa Viagem, na pitoresca Serra do mesmo nome, foram abrilhantadas pela tuna do Grupo. Mas sobre a representação acima mencionada, da peça 'Um erro judicial', aqui deixo uma ligeira crítica entretanto publicada:

“Com uma enchente colossal, realizou-se no sabbado preterito o annunciado espectaculo do Grupo Musical, d’esta localidade, representando-se Um erro judicial, drama em 3 actos, e a comedia Os Gagos.
No drama destacaram-se pelos seus trabalhos verdadeiramente artisticos os amadores Medina Junior, Faustino Ferreira, Zé Medina e a menina Emilia Pedrosa, que receberam fartos applausos.
Nos Gagos, áparte algumas incorrecções que a dicção infeliz da peça justificou, ha a salientar o novel amador Adriano Augusto da Silva, que gagamente desempenhou o papel de creado lôrpa, e Medinas (irmãos) que sustentaram em franca gargalhada a plateia... e a geral.
No final houve chamadas aos amadores, retombando quentes e vibrantes salvas de palmas”.

No dia 19 de Abril houve novas estreias. O espectáculo apresentado constava do comovente drama “A hora do suplício” e a hilariante comédia “O gabinete do sr. Regedor”. Somente aqui deixo um pequeno apontamento sobre um espectáculo realizado no Parque-Cine, na Figueira, pela companhia do actor Manuel Monteiro, com o drama “Amanhã” e a opereta “Os granadeiros de Valência”, em que colaboraram, graciosamente e como convidados, os amadores do Grupo José Medina e António Medina Júnior.

Pouco tempo depois, uma orquestra formada por elementos da tuna, foi a Vila Verde colaborar numa festa e no dia 1 de Dezembro, grupo cénico e tuna deslocaram-se a Taveiro. Foi ali apresentado o drama “Um erro judicial” e uma comédia, tendo a tuna feito um concerto que agradou a toda a vasta assistência, bem como a representação.

Em 1920 foi estreado um drama “Escravos e Senhores” e uma comédia “Um Hotel Modelo” e a 12 de Dezembro, levaram à cena o drama social “Gaspar, o serralheiro” que “como de costume, causou grande sensação, pois que está habilmente ensaiado por uma criatura de largos conhecimentos na arte de Talma”. Tratava-se, como já referi, de Vicente Ferreira.

Nos anos de 1921 e 1922 encontrei notícias de mais dois dramas, “O segredo do pescador” e “Escravatura branca” e de uma comédia “Alugam-se quartos a banhistas”, esta interpretada por um grupo de crianças.

No domingo de Páscoa de 1922, a tuna foi de visita à Figueira, em viagem de cumprimentos, sendo seu regente Manuel Martins. E no ano seguinte, 1923, houve uma nova deslocação as tuna, ao Alqueidão, agora sob a regência do tavaredense José Nunes Medina.


Visitaram a sede do Grupo, neste ano, as tunas da Sociedade Recreativa Alqueidonense e do Grémio Instrução e Recreio Vilaverdense. E, por agora, só mais uma breve nota para assinalar as estreias, em Fevereiro de 1924, das comédias “Um noivo de Alcanhões”, “Com medo da revolta” e “O casamento do cabo de ordens”.

Quero referir que os espectáculos acima mencionados, de forma alguma esgotaram a actividade do grupo cénico e da tuna do Grupo Musical durante aqueles anos, mas não encontrei notícias de novas peças e não vale a pena falar nas reposições entretanto efectuadas.

Fotos - 1 - António Francisco da Silva e António Medina, duas dedicações ao Grupo Musical, como dirigentes, especialmente; 2 - D. Maria Esteves, da Quinta do Peso, grande amiga e benemérita da colectividade.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

João Gaspar de Lemos Amorim


Nasceu na Figueira da Foz, no dia 14 de Agosto de 1854, filho de Alexandre Fernandes Gaspar e de Caetana Conceição Lemos. Era neto de Ana de Jesus Amorim, que foi mãe de 22 filhos. Casou com Maria Hermínia Jorge Balsas Lé, que faleceu em Março de 1932, com 68 anos de idade, tendo duas filhas, Cândida Otília e Ricardina.
Depois de fazer a instrução primária na Figueira, foi para Coimbra tirar o curso do liceu e, no ano de 1874, matriculou-se nas Faculdades de Medicina e de Filosofia, na Universidade daquela cidade.
Em 1875 mudou-se para o Porto, onde fez as cadeiras dos preparatórios médicos na Escola Politécnica.
Devido a uma grave doença, foi forçado a abandonar os estudos, pelo que regressou à sua terra natal, dedicando-se ao ensino livre, leccionando português, francês, matemática, geografia e história.
Começou, também, a escrever para os jornais, publicando colaboração sua em praticamente todos os jornais figueirenses, além de outros do Porto e Coimbra. Foi fundador e director do periódico “À Beira-Mar”.
Poeta de grande sensibilidade, publicou, em 1888, o seu primeiro livro de poesia, a que deu o título de “Ritmos”.
Quando publicou este livro de versos ofereceu um exemplar ao seu amigo e ex-condiscípulo no Porto, António Nobre. Este poeta agradeceu-lhe a oferta com o envio do seu livro “Só”, no qual escreveu a seguinte dedicatória: “Ao poeta Gaspar de Lemos, em troca do seu belo livro, - bilha de leite por bilha de azeite – of. António Nobre”.
Durante 12 anos exerceu o cargo de secretário da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, saindo em 1900 para emigrar para África. Trabalhou, durante 14 anos, na Companhia do Zambeze, como tesoureiro.
Regressou à Figueira e à Companhia da Beira Alta, mas voltou a África, a Quelimane, donde voltou, em definitivo, no ano de 1921.
Entretanto havia continuado a sua carreira literária. Em parceria com António Pereira Correia, também autor de várias peças teatrais, como O casamento da Vasca e autor da letra da Marcha do Vapor, escreveu a revista Zás Trás, a que se seguiram, mas individualmente, as operetas A Princesa de Caceira e O Crime de El-Rei Bisnau e os livros de poesia Lanterna Mágica e Horas/Afonso Duarte.
Fixou-se definitivamente em Tavarede, na sua quinta da Mentana, onde mandara construir uma vivenda para residência. Além do trato das flores e pomar, de que cuidava carinhosamente, passou a dedicar-se mais ao jornalismo, à poesia e ao teatro.
A 11 de Abril de 1925, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense leva à cena Em busca da Lúcia-Lima, que escreveu propositadamente para aquela colectividade e, no ano seguinte, escreve Pátria Livre, nova opereta.
Em colaboração com José da Silva Ribeiro, escreve os versos para mais três operetas fantasias, que alcançaram outros tantos êxitos: Grão-Ducado de Tavarede, Retalhos e Fitas e O Sonho do Cavador. Esta última foi a peça mais representada por aquele grupo cénico.
São, ainda, de sua autoria a opereta dramática O Negreiro, a novela O casamento da Elvira e mais de cem sonetos, artigos e crónicas que, sob os pseudónimos de “Hogarth & Cª” e “Luzbelo”, publicou em “A Voz da Justiça”, focando alguns tipos pitorescos e figuras curiosas figueirenses dos finais do século XIX.
“Os seus últimos tempos foram-lhe muito ingratos. O destino havia-lhe reservado uma dolorosa surpresa, pois ficou cego. Dirigia-se, então, às estantes onde sabia que se encontravam os seus livros favoritos e, acariciando-lhes tremulamente as lombadas, dizia desalentado: ‘sou um analfabeto’, e chorava”.
Tavarede homenageou a sua memória atribuindo o seu nome a uma das principais ruas da “urbanização do Vale do Pereiro”, onde era a sua quinta da Mentana. Também a Sociedade de Instrução Tavaredense, de que foi presidente da Assembleia Geral durante muitos anos, lhe prestou homenagem considerando-o seu Sócio Honorário e descerrando, no salão nobre, o seu retrato. “… descerrou a fotografia do autor dos versos do Sonho do Cavador, a assistência ergueu-se numa carinhosa e longa ovação”.
Gaspar de Lemos será, contudo, sempre recordado na sua terra adoptiva, pelos seus versos, inscritos na base da estátua ao cavador, que escreveu para a opereta Pátria Livre:

Vamos todos sem cansaço
Na terra dura,
Cavar, cavar.
A força do nosso braço,
Traz a fartura
Do nosso lar.

Faleceu, em Tavarede, no dia 3 de Junho de 1941, com 84 anos de idade.
“… desde que abri os olhos à vida, vi sempre a meu lado este homem alto e seco, de grandes olhos penetrantes e vivos, um riso sarcasta a cascalhar-lhe no lábio irónico, um dito mordaz sempre aceso, um encolher de ombros significativo de profunda indiferença pelas rasteiras coisas do mundo…
… ledor atento das bucólicas e das geórgicas, vivia seus lazeres no enlevo e no encantamento da sua formosa quinta de Tavarede, desde a entrada doce em sombras de acácias, até à várzea junto ao ribeiro, onde os corrimões de roseiras e as fiadas de cravos oloresciam o ar…”.
Fotos - 1 - João Gaspar de Lemos Amorim; 2 - Gaspar de Lemos, sentado, de chapéu e guarda-chuva, com um grupo de amigos da SIT (atrás de si está Manuel Jorge Cruz e à esquerda José da Silva Ribeiro.
Caderno - Tavaredenses com história.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 7

No mês seguinte, e na sua sede, o grupo cénico da colectividade realizou um espectáculo, não sei com que programa, cuja receita reverteu a favor da mulher e filhos de “um pobre operário que há muito tempo se encontra doente no Hospital da Misericórdia”.

Em Abril, no domingo de Páscoa, “A tuna saiu sob a regencia do sr. João Jorge Silva, para cumprimentar os seus associados.
Foi depois de visita à Figueira, após o que se dirigiu “para casa do seu socio protector sr. Manuel da Silva Jordão, nos Carritos, que, recebendo-a com franca alegria, lhe offereceu um delicioso copo d’água.
Alguns dos divertidos rapazes que n’ella tomavam parte tocaram algumas valsas do seu reportorio n’uma das dependencias do espaçoso quintal d’aquelle senhor, que muitos rapazes e raparigas tanto d’ali como da Figueira, Tavarede, etc., que acompanhavam a tuna, dançaram alegremente, até que, approximando-se a noite, tocou mais uma vez o hymno, dentro da casa do sr. Jordão, levantando-se calorosos vivas ao socio protector do Grupo Musical Tavaredense, á familia Jordão, aos benemeritos, etc., terminando ali, e d’esta fórma, as boas-festas da Paschoa de 1916.
Entraram em Caceira e Tavarede a tocar um bonito ordinario, sabiamente instrumentado por um musico d’essa cidade.
Apesar de faltaram alguns musicos por motivos de força maior, a tuna era constituida por 24 figuras”.

Também nesse mês se iniciaram os ensaios daquele drama que, durante alguns anos, foi considerado o melhor espectáculo realizado pelo Grupo Musical, denominado “Um Erro Judicial”, em três actos. Alcançou enorme êxito e, lá para diante, irei referindo algumas das deslocações efectuados com esta peça.

Muito curiosa é uma notícia que encontrei em Agosto de 1916, em que se dá novas de Tavarede a um tal “D. Limonete” emigrado no Brasil. Eis essa notícia:

“Meu caro D. Limonete (Brasil)
É dever meu, em primeiro logar, pedir-te desculpa de na ultima carta, commeter o crime de não ter junto ao teu perfumado nome o Dom, que tão dignamente adquiriste n’este canteiro saudoso, onde a gente chic que o visita fica presa ao cheiro agradavel d’essa flôr branca, miudinha, ornada de pequenas folhas verdes.
Deves desculpar, pois, esta falta commetida sem intuitos de melindrar-te.
Vou continuar a responder às perguntas que me fizeste há dias:
O Grupo Musical é uma aggremiação que está em principio, mas já com progressos razoaveis. Fundou-se sem meios e installou a sua séde n’uma casa pequena, onde construiu um theatrito para as familias dos associados passarem as noites grandes. E que foi vivendo com este auxilio e com qualquer donativo recebido quando a sua tuna fazia serviço em festas, e que hoje, dizem-me já vive mais desafogadamente. O sr. Manuel da Silva Jordão, dos Carritos, cidadão de fortuna, offereceu lhe para séde a casa que pertencia ao sr. João Aguas, na rua Direita, e a Direcção do Grupo, n’um impulso de vontade, ao receber tão valiosa offerta, metteu obras na casa e construiu um elegante theatro. Mas avalias pelas coisas do teu tempo, o interesse com que os rapazes trabalhavam na realização das obras. Trabalhavam de noite e aos domingos, os socios, que eram pedreiros, carpinteiros, pintores, etc., etc., sem quererem um centavo sequer. O interesse d’elles era só que a sociedade progredisse e isso assim tem acontecido, pois que, o theatro acabado, ali teem effectuado récitas magnificas, representando-se dramas de sensação, d’aquellas peças tragicas de que tu eras apaixonado. Os Medinas (principalmente o Zé), são as fãbricas do riso d’esses espectaculos. Que fartadella tu apanhavas se o visses na comedia O Cabo de Ordens...
O João da Simôa é o regente da tuna e, tem sido incansavel, os rapazes apresentam-se afinadinhos e executam módinhas de gosto. O Antonito Medina, o filho do Antonio que tu, por certo, conheces, é tambem muito activo e dedicado socio do Grupo Musical e vem a ser ainda outro tio... Ora aqui tens tu mais uma sociedade com futuro.
Na tua carta publicada no sabbado preterito na Gazeta perguntas-me se o Zé Medina é vivo e se o Chico Prôa bebe zurrapa pelo côco que elle te disse comprar na Ilha da Madeira. Ó menino, respondo-te que o Medina está vivinho e hilariante, e o Chico Prôa faltou-te ao promettido e disse-me que nem sequer te conhece”.

Pois atrevo-me a dar uma outra informação: o autor desta resposta, tão elogiosa para o Grupo, assinava-se por “Labina”, pseudónimo nada mais nada menos do que do secretário da Assembleia Geral que, havia cerca de quatro anos, pedira a demissão do cargo em seguimento a tão pouco agradáveis “mimos” trocados com a Direcção de então e a que fiz referência. Como vêem tudo acabou em bem...
Fotos - 1 - Emblema do Grupo Musical; 2 - Era aqui a sede do Grupo. O palco ficava neste lado do edificio; 3 - Violinda Medina, protagonosta da peça 'Erro Judicial'.

Terra do Limonete

Este meu pequeno apontamento de hoje, tem a principal finalidade de apresentar, a quem as não conheça, as três 'tias' especiais da Amiga Inês Fonseca. Tenham em atenção que são as que estão sentadas, à frente, ou sejam a Silvia Pedrosa, a Lita Cordeiro e a Manuela Mendes.

E aproveito a oportunidade para enviar esta imagem até ao Brasil, para que a nossa conterrânea e amiga Preciosa Fileno e, também, a D. Lilian e respectivas famílias, possam apreciar os trajos fantasiosos da nossa 'Terra do Limonete'.

Não sei se já visitaram os blogues tavaredenses 'chazinhodelimonete@blogspot.com', 'chadelimonete@blogspot.com' e 'limonete@blogspot.com', onde poderão apreciar e ouvir, entre diversas notícias da nossa terra, algumas canções do grupo coral 'Cantigas de Tavarede', da Sociedade de Instrução Tavaredense e onde, embora talvez com alguma dificuldade, a D. Preciosa poderá ver o seu irmão mais novo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Festa da Árvore - 1916

Tavarede esteve em festa no último domingo com a Festa da Arvore, que resultou ser muito concorrida por innumeras pessoas tanto dos casaes vizinhos como d’essa cidade, o que era de esperar, em vista do esmerado programma, que prometia dar uma festa excellente.
E foi-o sem duvida, deixando boa recordação na memoria das pessoas que n’ella tomaram parte, principalmente das creancinhas.
O programma marcava para as 14 horas o cortejo civico, em que tomariam parte os alumnos das escolas official-mixta e nocturna, e outras associações locaes com os seus estandartes, mas devido ao mau tempo, só se organisou pelas 15 horas, approximadamente, sahindo da escola official em direcção ao Largo do Paço, onde foram plantadas duas arvores.
Ali, a srª. D. Maria José Paula Santos, illustre professora, recitou a poesia allusiva á Arvore, que os ouvintes no final muito applaudiram.
Em seguida, o cortejo dirigiu-se ao Largo do Forno (em frente á escola official), onde se plantaram mais quatro arvores. Alguns musicos do Grupo Musical encorporaram-se n’elle, executando a marcha A Arvore, que as creancinhas cantaram com todo o enthusiasmo.
O jantar dos alumnos das duas escolas, que estava marcado para as 16 horas, e que era servido no Grupo Musical, foi magnifico.
A commissão encarregou-se de comprar um lanigero, que, assado e guisado com as respectivas batatas, exhalava um cheirinho, que era sem duvida de todo o ponto agradavel, estando o palco replecto de creanças, que lindamente fizeram as honras da meza.
A plateia e galeria encontravam-se apinhadas de curiosos, que todos se regalavam em vêr comer.
A algumas pessoas de fora, que após o jantar retiraram, e que foram muito bem impressionadas, ouvimos nós dizer que até parecia impossivel n’uma pequenina aldeia, fazer-se assim uma festa que sem duvida foi excellente.
Às 21 horas principiou o sarau dramatico-musical no theatro da Sociedade de Instrucção Tavaredense, em que tomaram parte, alem das mesmas creanças, uma orchestra do Grupo Musical, sob a regencia do distincto professor, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, d’essa cidade.
O programma era dividido em 3 partes, e da seguinte forma:
1ª. parte, A Portugueza, cantada por todas as creanças. N’esta altura, o sr. dr. José Gomes Cruz, pronnunciou um breve e patriotico discurso, vivas a Portugal, á Republica, etc., que muito enthusiasmou o publico. S. exª. falou sobre aquella festa e sobre a nossa situação, sendo no final muito applaudido.
Em seguida, a menina Maria Ribeiro, recitou a poesia As Arvores, discursando depois o sr. Marcial Ermitão sobre variados assumptos, principalmente da participação de Portugal na guerra. Foi por varias vezes interrompido e no final tambem foi muito ovacionado.
Seguem-se a Luz do A B C, poesia, pelo menino Manuel Nogueira e Silva, Anjo da Guarda, uma canção, cantada por todas as creanças, Na Escola, poesia recitada pelo sr. Francisco Loureiro, e Os Luziadas, marcha, cantada por todas as creanças, finalisando assim a 1ª. parte.
A 2ª. parte, abriu com o Hymno das Arvores, entoado por todas as creanças, seguindo-se a poesia Às Arvores, pelo menino Antonio da Silva Broeiro, o monologo Pois sim senhor... pela menina Eduarda F. Serra, a canção O Ninho, entoada por todas as creanças, Ao rebentar da seiva, poesia, pela menina Maria Nathalia Victorina, O Pintasilgo, canção, entoada por todas as creanças, improvisando n’esta altura o sr. José Ribeiro, um brilhante discurso, explicando aos pequenitos o que era a festa da Arvore, falando tambem da guerra, etc., sendo no final calorosamente applaudido, seguindo-se depois as poesias Ás creanças e A Escola, recitadas respectivamente pelo sr. Antonio Medina Junior e pela menina Emilia Cardosa, e a canção A Escola, entoada por todas as creanças, finalisando a segunda parte com um discurso do sr. dr. Manuel Gomes Cruz, que fez vêr ao publico varias phases da guerra, falando tambem sobre a ligação das Sociedade d’Instrucção e Grupo Musical, que durante muito tempo andaram indifferentes, e agora na séde d’aquella colectividade tinham cruzados os seus estandartes, acabando o seu discurso por dizer que estava muitissimo satisfeito, não só por isto, mas por vêr uma festa d’aquella ordem na sua terra.
O hymno da Maria da Fonte, entoado por todas as creanças, dá começo á 3ª. parte, seguindo-se a Poesia Infantil, pela menina Emilia d’Oliveira, Engeitadinha, pela pequenina Adelaide da S. Flôr, A Madrugada, canção entoada por todas as meninas, o A B C, poesia, pelo sr. Antonio da Silva Coelho e depois Portugal, poesia, pela sua interessante filhita Izaura.
Finalmente representou-se a comedia drama em 1 acto, As Arvores, representada pelos meninos Aurelia Cascão e seu mano João, que tambem foram muito applaudidos, ponde termo ao sarau o hymno A Sementeira.
Ah! não nos esqueça dizer que antes do panno cahir, o sr. Marcial Ermitão veiu ao palco ler o seguinte telegramma de saudação a sr. Presidente da Republica:


Presidente da Republica - Palacio de Belem - Lisboa. - Povo de Tavarede, reunido para celebrar festa da Arvore, vibrando mais intenso enthusiasmo patriotico, applaude Portugal na guerra. A Commissão.

N’esta altura, o enthusiasmo de todos quantos assistiam á festa redobou de intensidade, ouvindo-se constantes acclamações a Portugal, á Republica, á Inglaterra, á França, etc., tocando a orchestra por varias vezes o hymno nacional.
Na mesma orchestra tambem executado piano a distincta professora srª. D. Maria José Paula Santos, filha do sr. Antonio R. Paula Santos, que muito mais abrilhantou a Festa da Arvore de Tavarede, no dia 19 de Março do anno de 1916, dia que jámais esquecerá às pessoas de Tavarede, principalmente às creancinhas que n’ella tomaram parte.

Pelo bom exito d’esta festa, não podemos deixar de felicitar a digna professora official d’esta localidade, srª. D. Maria José Paula Santos e seu pae, o distincto professor de musica, sr. Antonio Rodrigues Paula Santos, incançaveis de tenacidade e trabalho, envolvendo tambem nas nossas felicitações a commissão organisadora da festa, que não se poupou a esforços e sacrificios para que ella resultasse, como resultou, brilhante e inolvidavel. (Gazeta da Figueira)

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 6

Nesse ano, e abrilhantando os festejos do S. João na nossa terra, o Grupo Musical fez exibir a sua tuna no Largo do Paço, sob a regência do sr. Lino Fernandes. Estranhei esta informação, pois até então o responsável musical era o tavaredense João Jorge da Silva Simôa. Adiante virá a explicação.

O quarto aniversário do Grupo, o primeiro festejado nas novas instalações, teve um espectáculo em que foram apresentadas, com bom desempenho, as chistosas comédias “Amo, creado e creada”, “Hospedaria do Tio Anastácio”. A cena cómica “O Chainças” e a cançoneta “Não vos digo mais nada...”, nas quais “se salientaram Emília Gomes. José Medina, Faustino Ferreira, Medina Júnior, etc., sendo todos bastante aplaudidos”. No domingo houve “baile que durou até às 24 horas, dançando-se animadamente ao som duma afinada orquestra, composta de elementos do mesmo Grupo”.

No dia 30 de Outubro de 1915 teve lugar a inauguração da época teatral /15/16, apresentando o grupo cénico o emocionante drama em 3 actos “Os Salteadores da Floresta Negra” e a engraçada comédia em 1 acto “Cada doido...”.

Uma pequena notícia sobre este espectáculo: “O drama em 3 actos Os Salteadores da Floresta Negra foi correctamente desempenhado, tendo scennas emocionantes, e no papel de Fernando, official do exercito, Faustino Ferreira, como nos papeis de Beatriz, a menina Emilia Pedrosa, e no de Fresco, Antonio Medina Junior, e no de Capitão dos Salteadores, José Medina, por vezes foram applaudidos.
As restantes personagens tambem agradaram.
Na comedia Cada doido... a plateia esteve em franca gargalhada, recebendo Maria Esteves, José Medina e Faustino Ferreira muitas palmas no final”, referindo depois que “a orquestra, composta de bons elementos, esteve sob a regência do sr. João Jorge da Silva, que há tempo se encontrava afastado daquela colectividade, mas que, de novo, resolveu tomar conta da organização da tuna do Grupo, devendo em breve começar os ensaios”. Fica esclarecida, assim, a notícia sobre um outro regente nas festas sanjoaninas.

E em Novembro surge a informação de que começaram a ensaiar o tradicional “Presépio”, “peça sacra que antigamente se representava nesta localidade com muito interesse e sempre com casas à cunha”.

Não posso garantir que tenha sido realizado o espectáculo, pelo Natal, com aquela peça. O que se apresentou, e isso é certo, foi o outro drama sacro, “Os Reis Magos”, embora duas semanas depois do dia devido. Julgo que terá acontecido pelo falecimento, em 31 de Dezembro, de António da Cruz, pai dos drs. Manuel e José Gomes Cruz e avô de Manuel Jorge Cruz, director do jornal “A Voz da Justiça”, figuras de bastante saliência na localidade e que, presumo, tenha motivado o cancelamento da apresentação do “Presépio” e o adiamento dos “Reis Magos”.

Sobre esta apresentação aparece, dias depois, um anúncio informando de que “Adelino Alves Pereira, comerciante desta praça e distinto amador fotográfico, tem à venda no seu estabalecimento, à Praça Velha, uma bonita colecção de nítidos retratos dos Reis Magos e várias cenas pastoris, tais como a Romagem do Diabo, Camilo e Cacilda, Cena Nova, Gil Brás Gaiteiro, etc., que foi um dos últimos domingos tirar a Tavarede, no teatro do Grupo Musical, onde foram representados”.

Fotos - 1 - Camilo e Cacilda (António Medina Junior e Emília Pedrosa); 2 - Presépio - Romagem do Diabo (1º plano da esquerda para a direita - Pedro Oliveira (de joelhos), José Medina (diabo, deitado), e Guilhermina Nogueira e Silva (anjo); 2º plano pela mesma ordem - Augusta Esteves, José Maria Severino dos Reis, Maria Esteves, Emília Pedrosa, Florinda Gil Oliveira, João Vigário, Maria Mariano e Joaquim Mendes Rocha.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 10

Por ocasião do 16º aniversário, Carlos Sombrio, jornalista, escritor e poeta figueirense, foi a Tavarede assistir à sessão solene. Eis um breve recorte da notícia que, então, escreveu. “Vozes conhecidas e amigas falaram da sublime missão da colectividade. Instrução!... Palavra bendita, esplendorosa luz, benção sagrada! O diadema mais rico, mais precioso que pode aureolar a fronte do povo, para que possa ser dignificado por si e glorificado pelos outros! Saudando a prestimosa colectividade, saudamos o povo da pitoresca e tão nossa povoação de Tavarede”.
António Augusto Esteves, de seu nome, acompanhou e colaborou com a obra da Sociedade durante longos anos. Ainda nos recordamos dele a caracterizar os amadores, ao mesmo tempo que ia conversando com José Ribeiro...
Em 1920, foi feita a reposição da opereta “Os Amores de Mariana”. Foram enchentes sucessivas. “Não ouvimos nunca tão quentes ovações naquele teatro, o que se justifica se dissermos que nunca os 29 números de música foram tão bem cantados”.
E no dia 15 de Janeiro de 1921, para comemoração do 17º aniversário, José Ribeiro ensaiou uma nova opereta, esta em 1 acto, para ser representada por crianças e que se intitulava “A espadelada”. O programa completava-se com variedades e uma comédia. Muito interessante é a crítica que encontrámos relativa àquela opereta. Vamos transcrevê-la.
“Fazem-se por aí, de quando em vez, reclamadas récitas de amadores. É raro, no entanto, surgir alguma coisa que marque, alguma coisa que agrade, alguma coisa que amplamente satisfaça o espectador.
Feita uma relativa excepção a alguns novos do Ginásio, a um ou dois rapazes da Naval, o resto acusa o vício atávico do presepe indígena, aquele ramerrão coçado e batido que vai do "Oh meu menino Jesus - Da lapa do coração"...
até ao aflitivo carpir de Raquel chorosa, em face do arrogante Herodes barbaçudo. Récitas de caridade são sempre de fazer arrepios. Ainda há dias, uma muito simpática instituição de assistência o demonstrou com largueza, organizando um espectáculo por tal forma e com tais gentes, que houve quem fugisse dos amadores mais espavorido que menina histérica de bravos bois desembolados...
Há por isso que, jubilosamente, fazer justiça a um rancho de petizes que no passado sábado, em dia de aniversário e festa da Sociedade de Instrução Tavaredense, souberam riscar um encantador traço de beleza. Eram aí uns vinte e tantos miúdos e miúdas, trajados à minhota, os pimpolhos de jaqueta e chapeirão de feltro, e as pequenas com a clássica saia bordada, a chinela, o avental bordado, o chambre todo farfalhudo de oiros e o aceso lenço de ramagens, com suas franjas amplas em vermelho e amarelo.
Representavam a Espadelada, - uma coisa regionalista e leve, em que com finura se encaixaram uns interessantes motivos de música popular, que estão tão a propósito para a criançada, como sopa fôfa para uma dose de doirado mel!
Eu gostava que todo o fiel amadorzinho cá do burgo visse representar a miudagem de Tavarede. É certo que aquilo mostra uma larga soma de trabalho. Vê-se com clareza a continuada e longa domesticação que sofreram. Calcula-se das lições, dos reparos, do ensino, do desbaste, que dia a dia, hora a hora, instante a instante, foram sofrendo até atingir o grau de perfeição com que brilhantemente se apresentaram em público. Cabe todo êste esfôrço inteligente e bem orientado à evangélica paciência de José Ribeiro. Sim, ao ensaiador cabe em quinhão grande o aprumo, a marcação, a linha com que a petizada disse e representou seus papéis. Graças a José Ribeiro é que não houve uma nota discordante e antes tudo aquilo, de começo a fim, correu com a limpeza, a segurança, a firme tranquilidade dum veio de água seguindo sem estôrvo o seu caminho fácil. Mas o que o organizador da récita não fez, porque não podia fazê-lo por mais dedicação e mais conhecimentos, foi a naturalidade, o á-vontade, a natural vocação cénica com que se apresentou galhardamente a maioria dos miúdos-actores.

Maria Ribeiro, uma garota ainda dos seus 12 anos, encarnou à maravilha um papel de velha mãe, com seus falares pausados, o passo cansado, o gesto lasso. Maria de Figueiredo deu uma Joaquina tão viva como uma cantiga vermelha numa tarde sadia de arraial alegre. António Cordeiro, fez um janota com aprumo, encarnando com facilidade o seu papel de sedutor sabido, com apartes a tempo, um cofiar de bigodes a rigor, mantendo sempre o seu ar de pessoa fina. António Broeiro, fez um galã ingénuo e apaixonado, com arranques de alma tirados sem aparente dificuldade, movendo-se no seu papel de amorudo como se em vez dos seus dez ou onze anos, já uns dezoito ou vinte lhe trouxessem a cabeça a juros e o coração agarrado a saias em vez de a peões e papagaios ligeiros. E José Loureiro compôs com graça um marinheiro autêntico, desde as botôrras de borracha até ao chapéu de oleado, e das barbaças de lobo do mar ao cachimbo entalado nos beiços com uma naturalidade de catraeiro.
O que mais me maravilhou neste grupo de crianças, e nomeadamente neste marinheiro, lobo do mar de 13 anos, foi a correcção do gesto e a natural entoação da frase. Não foi esquecido um pormenor, nem olvidado um detalhe. O dito mais simples era composto com o modo mais frisante. Assim como o galã arrimava ao cacete a sua cara de sofrimento e de ciúme, assim o marinheiro bamboleava o andar nos hábitos de bordo, e a velha fazia o caminhar custoso e as moças cirandavam com calor o seu bailar.
Até à beira da cena, nuns toques de aldeia que faziam mover e rodopiar o danço, um miudito de seus oito anos, chocalhando nuns ferrinhos um acompanhamento brejeiro, e meneando a cabeça e o corpo frágil ao ritmo da modinha popular, tinha tal chiste e tamanha graça que ninguém havia que não risse...
... Enfim, um grupo de pequenos amadores, com o pior dos quais muito tinham que aprender todos os seus colegas maiores da terra e a grande maioria de seus iguais da Figueira!”.

Fotos - 1 - Helena Figueiredo (protagonista da opereta 'Os Amores de Mariana'; 2 - Grupo dos amadores que representaram 'A Espadelada'. Na primeira fila e da direita para a esquerda: António Cordeiro, Maria Teresa Oliveira, António Broeiro (sobrinho), Maria José Figueiredo e José Loureiro. Na segunda fila, o segundo a contar da esquerda é o rapaz dos ferrinhos.