terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 11

Prosseguia, activamente, o grupo dramático. Depois de várias comédias, é posta em cena uma nova opereta, “ Rosas de Nossa Senhora ”, em 3 actos, com música de António Maria de Oliveira Simões. Este inspirado músico amador figueirense, tomaria, em 1924, a direcção musical da Sociedade de Instrução, ensaiando e dirigindo a orquestra e compondo números lindíssimos, que ainda hoje são cantados no nosso palco. Mas, na peça acima, embora a partitura fosse de sua autoria, a orquestra ainda foi regida por Manuel Martins.
Mas o povo não esquecia “Os Amores de Mariana”. E tantos foram os pedidos que, em Março de 1923, novamente houve a sua reposição, com a participação da quase totalidade dos antigos elementos. E correspondendo a um apelo que lhes foi dirigido, os amadores tavaredenses, no dia 7 de Abril, realizaram mais uma récita, na sua sede, mas em benefício da Santa Casa da Misericórdia da Figueira.
O êxito foi total. Casa cheia e “oxalá esta iniciativa fosse seguida pelos grupos dramáticos das outras freguesias do nosso concelho, visto que aos infelizes de todo o concelho acode nos momentos difíceis da doença o hospital da Misericórdia”.


Em Julho de 1924, foram feitos os estudos necessários para a montagem da rede eléctrica em Tavarede. De imediato, a Sociedade de Instrução resolveu promover a respectiva instalação. Como não tinha disponibilidades financeiras para este empreendimento, que importou em 3.806$50, foi deliberado contraír um empréstimo no montante de 4.000$00, realizado em 400 acções, que foram subscritas pelos sócios. Estas acções não venciam qualquer juro e grande parte acabaram por ser oferecidas à colectividade pelos seus subscritores.
O relatório desse ano escreve: “Não quere esta direcção deixar fechar o seu relatório, sem também agradecer a todos os sócios que tão galhardamente contribuiram para a compra de quotas para a instalação eléctrica e também ao grupo de sócios que com os seus esforços conseguiu trazer para a nossa terra tão importante melhoramento”.
“A primeira instalação a fazer-se foi a da Sociedade de Instrução Tavaredense, que é completa e perfeita, ficando o teatro com todos os recursos de iluminação que podem exigir-se em casas desta natureza. A luz ficou ligada no último sábado, despertando o facto um interesse extraordinário nesta localidade. Muitas pessoas foram à sede da Sociedade de Instrução ver o efeito da nova iluminação, que é deslumbrante. Alguns associados até se reuniram, não ocultando o seu regozijo. A inauguração far-se-á no dia 13 do corrente, com uma récita dedicada aos sócios”, escreveu a “Voz da Justiça” noticiando o acontecimento. Não se conseguiu saber, no entanto, qual foi o programa dessa récita.
A opereta “Os Amores de Mariana” havia caído no agrado do público. Mais de dez anos depois da sua estreia, esgotava sempre a lotação e era solicitada para algumas deslocações. Mas, na verdade, houve vozes discordantes. No dia 13 de Dezembro, foi dar um espectáculo ao teatro do Parque-Cine. Eis a crítica de “O Figueirense”.
“Um grupo de amadores dramáticos de Tavarede veio no sábado último ao Parque-Cine dar um espectáculo com uma opereta regional, cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, segundo rezam os programas, e portanto paredes meias com a nossa terra.
Fui assistir com um certo interesse, porque sempre gostei do teatro musicado, principalmente quando a acção se passa em qualquer das nossas províncias, algumas delas tão ricas em motivos para uma boa partitura. Os bons autores é que vão escasseando...
...Do desempenho pouco há a dizer, porque se tirarmos António Coelho, que se mexeu à vontade, e Helena de Figueiredo, que tem jeito, nada mais se aproveitou. Pena foi que o primeiro se não tivesse mantido na cena da embriaguês, porque teria sido perfeito e que a segunda tivesse pronunciado um tromento que a meu ver devia ter dito tormento. De resto, tem boa voz e canta com certo gosto.
A marcação pareceu-me deficiente. Não percebi que o André, charlatão, surgisse no palco com a massa coral, em lugar de ali aparecer casualmente, o que deu a impressão de que entre ele e os campónios havia o melhor entendimento. Ou não?
Também não compreendi a situação de Ernesto de Melo (António Santos) depois de Mariana (Helena de Figueiredo) lhe ter dado com a tampa ter-se mantido no palco, assistindo à alegria que reinou à volta do Zé Piteira (António Coelho), quando este teve a certeza do amor de Mariana. Julgo que ele devia ter desaparecido, porque havia sido preterido pelo rival.
E para terminar com os meus reparos devo dizer que não achei próprio que no coro Brasileiro di água doce, os comparsas, todos dos arrabaldes de Coimbra, québrassem tão harmonicamente a módinha brasileira. Lá que o Pancrácio a exibisse e a massa coral se manifestasse de qualquer maneira própria do seu temperamento e educação, compreendia-se, agora que a secundassem com tanta jeiteira é que se tornou reparável.
Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrojo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior.
A música, além de cediça, está coordenada muito à ligeira e foi interpretada muito deficientemente. Pena foi que assim sucedesse, porque a orquestra estava bem organizada e apta a executar uma partitura de mais vulto.
Mas o fim principal dos amadores tavaredenses foi arranjar dinheiro para o seu cofre, e esse atingiram-no, porque a casa estava quase cheia, o que devia ter produzido uma boa receita.
Felicito-os por tal motivo.

Fotos: 1 - Cenário da SIT; 2 - António Santos (amador)

A Merenda Grande

Antigamente, era muito festejado o dia da merenda grande. Recordo-me da família ir, com o farnel preparado, até ao pinhal dos Quatro Caminhos, onde se procurava um bocado mais ou menos limpo de mato, se estendiam umas mantas velhas e, sentados no chão, saboreávamos o farnel. Muitas famílias escolhiam aquele local e outros, igualmente aprazíveis, que haviam em redor da nossa terra. Tempos que já lá vão, há muito.

Nos meus velhos apontamentos, encontrei a notícia de uma dessas festas, que teve lugar na velha escola, sita no Largo do Forno, em Abril de 1917.

Na escola mixta desta freguezia todos os anos se costuma festejar o dia da merenda grande. Fomos convidados pela digna professora, srª. D. Maria José M. Santos, a assistir a este grande ato d’alegria das creanças, que é, para elas, um dos melhores.
Assistimos, pois, à sua merenda grande, que foi revestida de bela animação das creanças, com os seus cestos lindamente enfeitados.
Antes da merenda viam-se na sala as creanças, de pé, formadas numa roda, cantando varias cantigas populares. Seguiu-se a merenda. Cada creança foi então buscar os seus cestos cobertos de flôres, sentando-se, e cada uma tirando deles o seu variado sortido de comida. Os sorrisos despendiam-se de todos os rostos. A chilreada daquele viveiro encantava toda a gente que o admirava. Após a refeição novas canções entoaram, dançando tambem alegremente, comunicando a sua alegria ao espirito dos assistentes.
Assim se passou na escola desta localidade a tarde da merenda grande. A petizada divertiu-se até fartar e a todos deixou a melhor recordação o seu aprasivel festival.
Daqui felicitamos a distinta professora srª. D. Maria José Martins Santos por ter realisado na sua escola uma festa cheia de alegria e disciplina.

Caixa Escolar

Uma das grandes preocupações de alguns tavaredenses era a instrução e educação de todos os seus conterrâneos. Mas, como terra agrícola que era, muitos pais preocupavam-se mais em mandar os seus filhos cavar e tratar das suas terras, do que deixá-los ir à escola para aprenderem a ler, escrever e contar.

Por mais de uma vez surgiu a ideia de formar uma 'Caixa Escolar', com a finalidade de ajudar os mais pobres na compra de livros, cadernos e outro material escolar. Mas, apesar da boa vontade de muitos, nunca foi possível tornar erm realidade a ideia concebida.

Em 1916 mais uma comissão, cheia de boa vontade, foi formada e logo iniciou as suas funções. Vejamos uma carta, publicada na 'Gazeta da Figueira', endereçada a Anibal Cruz pelo seu primo António Medina Júnior, que, como já anteriormente dissémos, haviam esquecido as divergências havidas quanto ao Grupo Musical. Eis a carta:

"Primo Annibal - Li ha dias na Gazeta duas cartas tuas, subordinadas ao título Por Tavarede, e vi que n’ellas te occupavas das sociedades musico-theatraes da nossa pacata aldeia, respondendo, segundo na primeira dizias, ás perguntas do teu amigo D. Limonete, um correspondente tambem de Tavarede para a Gazeta e que se acha actualmente ausente no Brazil.
D. Limonete é o pseudonymo que esse cidadão adopta, pelo que vi nas duas cartas d’elle publicadas ha dias tambem n’este jornal, e em que n’uma d’ellas dizia que ao chegar-lhe ás mãos este jornal, não via noticias da nossa terra, não cumprindo portanto tu o promettimento que lhe havias feito, que era escreveres Noticias de Tavarede.
Pelo que vejo, o amigo D. Limonete, como interesseiro que é, empenha-se por saber quaes os progressos por que a sua terra tem passado durante a sua ausencia, e tu respondendo-lhe, occupavas-te primeiramente das sociedades.
Está claro que para n’ellas lhe falares foram te desnecessarias informações, porque bem sabes quaes os seus progressos, que estão bem em evidencia; mas agora organisou-se, por iniciativa da professora official, uma Caixa Auxiliar da Escola, com o fim unico de comprar livros, papel e inclusivamente roupa e calçado para os filhos de gente pobre que não tenha recursos para o fazer.
Para a direcção d’essa Caixa constituiu-se uma commissão, a que eu pertenço tambem, que está encarregada do peditório de qualquer donativo e de arranjar pessoas que se queiram associar. Olhando para o fim a que se destina a referida Caixa, os socios estão cheios de boa vontade e animados para trabalhar, ufanando-se por verem a sua pequenina terra seguir o caminho do progresso, mas ao mesmo tempo nada se consolam, porque já de ha muitos annos Tavarede precisa d’uma casa propria para a escola official, e este anno, constando que já havia dinheiro para a sua construcção, não vimos meios d’isso, porque a principiar-se, devia ter sido em Junho findo, como se fez nas Alhadas, no Paião, Lavos, etc. Em Tavarede... nicles.
N’estas freguezias do concelho já andam em construcção os novos edificios escolares, porque as respectivas Juntas de Parochia constantemente pediam á Camara aquelle melhoramento para as suas terras, o que acho muito justo, porque lhes era mesmo indispensavel; mas nós, infelizmente, não temos uma Junta que proceda, isto é, que trate de officiar á Camara lembrando-lhe, sequer ao menos, que Tavarede tambem pertence ao concelho da Figueira da Foz.
Não é bem a Junta da Parochia quem tem culpa, mas sim o seu presidente, que é homem que nunca officiou á Camara reclamando aquella construcção.
Dar-se-á o caso que o sr. presidente não saiba fazer um... officio, como o outro dizia, lembras-te? Sim, quem sabe se elle o saberá fazer?
Olha que sempre é um homem que nunca reclamou absolutamente nenhum melhoramento para Tavarede... perdão, reclamou tal, a construcção de um muro qualquer na Varzea, mas deve-se notar que sempre é muro construido na sua propriedade.
Eu te conto, Annibal, uma coisa que prova evidentemente que o mesmo senhor nada se interessa por Tavarede:
A direcção da Caixa Escolar foi um d’estes dias ter com elle, pedindo-lhe que ou se associasse, ou concorresse com qualquer quantia. Sabes com quanto assignou? Com 30 centavos - 300 reis!! (e vá que já não é pouco!), e respondeu ao mesmo tempo:
- Tomem lá três tostões, porque eu nada me importo com Tavarede, com o povo de Tavarede, nem quero saber de Tavarede para nada.
Ora isto é impróprio de se dizer, e o sr. presidente, conhecendo bem o honroso cargo que lhe confiaram a quando das eleições - que mais valia elegessem o Manuel Fandango - fazia uma bonita figura, mas mesmo bonita, se assignasse os 300 reis e se calasse, não é verdade?
Presidente de penacho, ha-os por uma pá-velha.
Calcula tu, Annibal, como é que os rapazes que foram a sua casa - alias palacio, sim, porque é o velho palacio do antigo conde de Tavarede - haviam de ficar. Embaçados, com aquellas e outras grosseiras palavras, que não contavam sahissem da bocca do sr. Luiz João Rosa, dignissimo presidente da Junta da Parochia da freguezia de Tavarede.
Olha, o José Cordeiro, com o dinheirinho na mão, raspou-se, seguindo-se-lhe o Cesar Cascão, Antonio Coelho, João da Simôa, etc. Se tu visses o Jayme, que apesar de ser o ultimo e coxear um pouco, ainda chegou á rua primeiro que todos, dizendo:
- Safa, que d’esta nos livrámos nós! Podemos louvar a todos os santos por não comermos alguma bengalada!...
E por estas minhas humildes mas verdadeiras palavras, vês o proceder do sr. João L. Rosa, como presidente da Junta da Parochia, e portanto elucida o brazileirinho de tudo isto, que muito satisfeito ha de ficar quando souber que a sua terra está em vias de ficar sem escola nova.
Visto tu estares na Anadia, não sabendo portanto o que por cá se passa, foi apenas com tenção de te informar e pedir que contes o que deixo dito ao D. Limonete que eu escorropichei do meu tinteiro algumas gottas de tinta, tambem para dizer o que a minha consciencia me pede para não deixe ficar por dizer.
Saude e fraternidade.
Abraça te o teu primo amigo António Medina Júnior".

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 8

A 2 de Fevereiro as festividades à Senhora da Boa Viagem, na pitoresca Serra do mesmo nome, foram abrilhantadas pela tuna do Grupo. Mas sobre a representação acima mencionada, da peça 'Um erro judicial', aqui deixo uma ligeira crítica entretanto publicada:

“Com uma enchente colossal, realizou-se no sabbado preterito o annunciado espectaculo do Grupo Musical, d’esta localidade, representando-se Um erro judicial, drama em 3 actos, e a comedia Os Gagos.
No drama destacaram-se pelos seus trabalhos verdadeiramente artisticos os amadores Medina Junior, Faustino Ferreira, Zé Medina e a menina Emilia Pedrosa, que receberam fartos applausos.
Nos Gagos, áparte algumas incorrecções que a dicção infeliz da peça justificou, ha a salientar o novel amador Adriano Augusto da Silva, que gagamente desempenhou o papel de creado lôrpa, e Medinas (irmãos) que sustentaram em franca gargalhada a plateia... e a geral.
No final houve chamadas aos amadores, retombando quentes e vibrantes salvas de palmas”.

No dia 19 de Abril houve novas estreias. O espectáculo apresentado constava do comovente drama “A hora do suplício” e a hilariante comédia “O gabinete do sr. Regedor”. Somente aqui deixo um pequeno apontamento sobre um espectáculo realizado no Parque-Cine, na Figueira, pela companhia do actor Manuel Monteiro, com o drama “Amanhã” e a opereta “Os granadeiros de Valência”, em que colaboraram, graciosamente e como convidados, os amadores do Grupo José Medina e António Medina Júnior.

Pouco tempo depois, uma orquestra formada por elementos da tuna, foi a Vila Verde colaborar numa festa e no dia 1 de Dezembro, grupo cénico e tuna deslocaram-se a Taveiro. Foi ali apresentado o drama “Um erro judicial” e uma comédia, tendo a tuna feito um concerto que agradou a toda a vasta assistência, bem como a representação.

Em 1920 foi estreado um drama “Escravos e Senhores” e uma comédia “Um Hotel Modelo” e a 12 de Dezembro, levaram à cena o drama social “Gaspar, o serralheiro” que “como de costume, causou grande sensação, pois que está habilmente ensaiado por uma criatura de largos conhecimentos na arte de Talma”. Tratava-se, como já referi, de Vicente Ferreira.

Nos anos de 1921 e 1922 encontrei notícias de mais dois dramas, “O segredo do pescador” e “Escravatura branca” e de uma comédia “Alugam-se quartos a banhistas”, esta interpretada por um grupo de crianças.

No domingo de Páscoa de 1922, a tuna foi de visita à Figueira, em viagem de cumprimentos, sendo seu regente Manuel Martins. E no ano seguinte, 1923, houve uma nova deslocação as tuna, ao Alqueidão, agora sob a regência do tavaredense José Nunes Medina.


Visitaram a sede do Grupo, neste ano, as tunas da Sociedade Recreativa Alqueidonense e do Grémio Instrução e Recreio Vilaverdense. E, por agora, só mais uma breve nota para assinalar as estreias, em Fevereiro de 1924, das comédias “Um noivo de Alcanhões”, “Com medo da revolta” e “O casamento do cabo de ordens”.

Quero referir que os espectáculos acima mencionados, de forma alguma esgotaram a actividade do grupo cénico e da tuna do Grupo Musical durante aqueles anos, mas não encontrei notícias de novas peças e não vale a pena falar nas reposições entretanto efectuadas.

Fotos - 1 - António Francisco da Silva e António Medina, duas dedicações ao Grupo Musical, como dirigentes, especialmente; 2 - D. Maria Esteves, da Quinta do Peso, grande amiga e benemérita da colectividade.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

João Gaspar de Lemos Amorim


Nasceu na Figueira da Foz, no dia 14 de Agosto de 1854, filho de Alexandre Fernandes Gaspar e de Caetana Conceição Lemos. Era neto de Ana de Jesus Amorim, que foi mãe de 22 filhos. Casou com Maria Hermínia Jorge Balsas Lé, que faleceu em Março de 1932, com 68 anos de idade, tendo duas filhas, Cândida Otília e Ricardina.
Depois de fazer a instrução primária na Figueira, foi para Coimbra tirar o curso do liceu e, no ano de 1874, matriculou-se nas Faculdades de Medicina e de Filosofia, na Universidade daquela cidade.
Em 1875 mudou-se para o Porto, onde fez as cadeiras dos preparatórios médicos na Escola Politécnica.
Devido a uma grave doença, foi forçado a abandonar os estudos, pelo que regressou à sua terra natal, dedicando-se ao ensino livre, leccionando português, francês, matemática, geografia e história.
Começou, também, a escrever para os jornais, publicando colaboração sua em praticamente todos os jornais figueirenses, além de outros do Porto e Coimbra. Foi fundador e director do periódico “À Beira-Mar”.
Poeta de grande sensibilidade, publicou, em 1888, o seu primeiro livro de poesia, a que deu o título de “Ritmos”.
Quando publicou este livro de versos ofereceu um exemplar ao seu amigo e ex-condiscípulo no Porto, António Nobre. Este poeta agradeceu-lhe a oferta com o envio do seu livro “Só”, no qual escreveu a seguinte dedicatória: “Ao poeta Gaspar de Lemos, em troca do seu belo livro, - bilha de leite por bilha de azeite – of. António Nobre”.
Durante 12 anos exerceu o cargo de secretário da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, saindo em 1900 para emigrar para África. Trabalhou, durante 14 anos, na Companhia do Zambeze, como tesoureiro.
Regressou à Figueira e à Companhia da Beira Alta, mas voltou a África, a Quelimane, donde voltou, em definitivo, no ano de 1921.
Entretanto havia continuado a sua carreira literária. Em parceria com António Pereira Correia, também autor de várias peças teatrais, como O casamento da Vasca e autor da letra da Marcha do Vapor, escreveu a revista Zás Trás, a que se seguiram, mas individualmente, as operetas A Princesa de Caceira e O Crime de El-Rei Bisnau e os livros de poesia Lanterna Mágica e Horas/Afonso Duarte.
Fixou-se definitivamente em Tavarede, na sua quinta da Mentana, onde mandara construir uma vivenda para residência. Além do trato das flores e pomar, de que cuidava carinhosamente, passou a dedicar-se mais ao jornalismo, à poesia e ao teatro.
A 11 de Abril de 1925, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense leva à cena Em busca da Lúcia-Lima, que escreveu propositadamente para aquela colectividade e, no ano seguinte, escreve Pátria Livre, nova opereta.
Em colaboração com José da Silva Ribeiro, escreve os versos para mais três operetas fantasias, que alcançaram outros tantos êxitos: Grão-Ducado de Tavarede, Retalhos e Fitas e O Sonho do Cavador. Esta última foi a peça mais representada por aquele grupo cénico.
São, ainda, de sua autoria a opereta dramática O Negreiro, a novela O casamento da Elvira e mais de cem sonetos, artigos e crónicas que, sob os pseudónimos de “Hogarth & Cª” e “Luzbelo”, publicou em “A Voz da Justiça”, focando alguns tipos pitorescos e figuras curiosas figueirenses dos finais do século XIX.
“Os seus últimos tempos foram-lhe muito ingratos. O destino havia-lhe reservado uma dolorosa surpresa, pois ficou cego. Dirigia-se, então, às estantes onde sabia que se encontravam os seus livros favoritos e, acariciando-lhes tremulamente as lombadas, dizia desalentado: ‘sou um analfabeto’, e chorava”.
Tavarede homenageou a sua memória atribuindo o seu nome a uma das principais ruas da “urbanização do Vale do Pereiro”, onde era a sua quinta da Mentana. Também a Sociedade de Instrução Tavaredense, de que foi presidente da Assembleia Geral durante muitos anos, lhe prestou homenagem considerando-o seu Sócio Honorário e descerrando, no salão nobre, o seu retrato. “… descerrou a fotografia do autor dos versos do Sonho do Cavador, a assistência ergueu-se numa carinhosa e longa ovação”.
Gaspar de Lemos será, contudo, sempre recordado na sua terra adoptiva, pelos seus versos, inscritos na base da estátua ao cavador, que escreveu para a opereta Pátria Livre:

Vamos todos sem cansaço
Na terra dura,
Cavar, cavar.
A força do nosso braço,
Traz a fartura
Do nosso lar.

Faleceu, em Tavarede, no dia 3 de Junho de 1941, com 84 anos de idade.
“… desde que abri os olhos à vida, vi sempre a meu lado este homem alto e seco, de grandes olhos penetrantes e vivos, um riso sarcasta a cascalhar-lhe no lábio irónico, um dito mordaz sempre aceso, um encolher de ombros significativo de profunda indiferença pelas rasteiras coisas do mundo…
… ledor atento das bucólicas e das geórgicas, vivia seus lazeres no enlevo e no encantamento da sua formosa quinta de Tavarede, desde a entrada doce em sombras de acácias, até à várzea junto ao ribeiro, onde os corrimões de roseiras e as fiadas de cravos oloresciam o ar…”.
Fotos - 1 - João Gaspar de Lemos Amorim; 2 - Gaspar de Lemos, sentado, de chapéu e guarda-chuva, com um grupo de amigos da SIT (atrás de si está Manuel Jorge Cruz e à esquerda José da Silva Ribeiro.
Caderno - Tavaredenses com história.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 7

No mês seguinte, e na sua sede, o grupo cénico da colectividade realizou um espectáculo, não sei com que programa, cuja receita reverteu a favor da mulher e filhos de “um pobre operário que há muito tempo se encontra doente no Hospital da Misericórdia”.

Em Abril, no domingo de Páscoa, “A tuna saiu sob a regencia do sr. João Jorge Silva, para cumprimentar os seus associados.
Foi depois de visita à Figueira, após o que se dirigiu “para casa do seu socio protector sr. Manuel da Silva Jordão, nos Carritos, que, recebendo-a com franca alegria, lhe offereceu um delicioso copo d’água.
Alguns dos divertidos rapazes que n’ella tomavam parte tocaram algumas valsas do seu reportorio n’uma das dependencias do espaçoso quintal d’aquelle senhor, que muitos rapazes e raparigas tanto d’ali como da Figueira, Tavarede, etc., que acompanhavam a tuna, dançaram alegremente, até que, approximando-se a noite, tocou mais uma vez o hymno, dentro da casa do sr. Jordão, levantando-se calorosos vivas ao socio protector do Grupo Musical Tavaredense, á familia Jordão, aos benemeritos, etc., terminando ali, e d’esta fórma, as boas-festas da Paschoa de 1916.
Entraram em Caceira e Tavarede a tocar um bonito ordinario, sabiamente instrumentado por um musico d’essa cidade.
Apesar de faltaram alguns musicos por motivos de força maior, a tuna era constituida por 24 figuras”.

Também nesse mês se iniciaram os ensaios daquele drama que, durante alguns anos, foi considerado o melhor espectáculo realizado pelo Grupo Musical, denominado “Um Erro Judicial”, em três actos. Alcançou enorme êxito e, lá para diante, irei referindo algumas das deslocações efectuados com esta peça.

Muito curiosa é uma notícia que encontrei em Agosto de 1916, em que se dá novas de Tavarede a um tal “D. Limonete” emigrado no Brasil. Eis essa notícia:

“Meu caro D. Limonete (Brasil)
É dever meu, em primeiro logar, pedir-te desculpa de na ultima carta, commeter o crime de não ter junto ao teu perfumado nome o Dom, que tão dignamente adquiriste n’este canteiro saudoso, onde a gente chic que o visita fica presa ao cheiro agradavel d’essa flôr branca, miudinha, ornada de pequenas folhas verdes.
Deves desculpar, pois, esta falta commetida sem intuitos de melindrar-te.
Vou continuar a responder às perguntas que me fizeste há dias:
O Grupo Musical é uma aggremiação que está em principio, mas já com progressos razoaveis. Fundou-se sem meios e installou a sua séde n’uma casa pequena, onde construiu um theatrito para as familias dos associados passarem as noites grandes. E que foi vivendo com este auxilio e com qualquer donativo recebido quando a sua tuna fazia serviço em festas, e que hoje, dizem-me já vive mais desafogadamente. O sr. Manuel da Silva Jordão, dos Carritos, cidadão de fortuna, offereceu lhe para séde a casa que pertencia ao sr. João Aguas, na rua Direita, e a Direcção do Grupo, n’um impulso de vontade, ao receber tão valiosa offerta, metteu obras na casa e construiu um elegante theatro. Mas avalias pelas coisas do teu tempo, o interesse com que os rapazes trabalhavam na realização das obras. Trabalhavam de noite e aos domingos, os socios, que eram pedreiros, carpinteiros, pintores, etc., etc., sem quererem um centavo sequer. O interesse d’elles era só que a sociedade progredisse e isso assim tem acontecido, pois que, o theatro acabado, ali teem effectuado récitas magnificas, representando-se dramas de sensação, d’aquellas peças tragicas de que tu eras apaixonado. Os Medinas (principalmente o Zé), são as fãbricas do riso d’esses espectaculos. Que fartadella tu apanhavas se o visses na comedia O Cabo de Ordens...
O João da Simôa é o regente da tuna e, tem sido incansavel, os rapazes apresentam-se afinadinhos e executam módinhas de gosto. O Antonito Medina, o filho do Antonio que tu, por certo, conheces, é tambem muito activo e dedicado socio do Grupo Musical e vem a ser ainda outro tio... Ora aqui tens tu mais uma sociedade com futuro.
Na tua carta publicada no sabbado preterito na Gazeta perguntas-me se o Zé Medina é vivo e se o Chico Prôa bebe zurrapa pelo côco que elle te disse comprar na Ilha da Madeira. Ó menino, respondo-te que o Medina está vivinho e hilariante, e o Chico Prôa faltou-te ao promettido e disse-me que nem sequer te conhece”.

Pois atrevo-me a dar uma outra informação: o autor desta resposta, tão elogiosa para o Grupo, assinava-se por “Labina”, pseudónimo nada mais nada menos do que do secretário da Assembleia Geral que, havia cerca de quatro anos, pedira a demissão do cargo em seguimento a tão pouco agradáveis “mimos” trocados com a Direcção de então e a que fiz referência. Como vêem tudo acabou em bem...
Fotos - 1 - Emblema do Grupo Musical; 2 - Era aqui a sede do Grupo. O palco ficava neste lado do edificio; 3 - Violinda Medina, protagonosta da peça 'Erro Judicial'.

Terra do Limonete

Este meu pequeno apontamento de hoje, tem a principal finalidade de apresentar, a quem as não conheça, as três 'tias' especiais da Amiga Inês Fonseca. Tenham em atenção que são as que estão sentadas, à frente, ou sejam a Silvia Pedrosa, a Lita Cordeiro e a Manuela Mendes.

E aproveito a oportunidade para enviar esta imagem até ao Brasil, para que a nossa conterrânea e amiga Preciosa Fileno e, também, a D. Lilian e respectivas famílias, possam apreciar os trajos fantasiosos da nossa 'Terra do Limonete'.

Não sei se já visitaram os blogues tavaredenses 'chazinhodelimonete@blogspot.com', 'chadelimonete@blogspot.com' e 'limonete@blogspot.com', onde poderão apreciar e ouvir, entre diversas notícias da nossa terra, algumas canções do grupo coral 'Cantigas de Tavarede', da Sociedade de Instrução Tavaredense e onde, embora talvez com alguma dificuldade, a D. Preciosa poderá ver o seu irmão mais novo.