segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

António Jorge da Silva

Natural de Tavarede, nascido no dia 3 de Outubro de 1915, era filho de João Jorge da Silva e de Clementina Nunes do Espírito Santo, e faleceu no dia 8 de Agosto de 1986. Casou com Maria Estrela Reis Tondela, tendo uma filha: Maria Clementina.

Como grande número de tavaredenses, enveredou pela profissão de tipógrafo, tendo-se destacado, também, como um verdadeiro artista, na difícil arte de encadernador. Começou a trabalhar na oficina de seu primo, Manuel Nogueira e Silva, sita na Figueira, defronte do antigo Liceu. Anos mais tarde, juntamente com dois sócios, estabeleceu-se com a conhecida tipografia “Cruz & Cardoso, Lda”., da qual foi gerente durante muitos anos. Foi um dos fundadores do jornal “Mar Alto”, no qual deixou muita e interessante colaboração. Também foi correspondente local da imprensa figueirense e coimbrã.
Amador dramático bastante talentoso, e de que adiante daremos alguns apontamentos, foi acérrimo defensor do regime republicano, chegando a estar preso, no Porto, pela polícia política do antigo regime. Após o movimento de 25 de Abril de 1974, foi o primeiro presidente da Junta de Freguesia eleito, como independente, pela lista do Partido Socialista. A recordar a sua passagem como autarca está, entre muitas outras obras, a construção do actual edifício daquela Junta.
Começou a prestar a sua colaboração ao grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense na peça Entre Giestas, em 1938. Até ao final da sua carreira teatral, representou mais de 60 personagens, em peças de que destacamos: A Morgadinha de Valflor, O Sonho do Cavador, Génio Alegre, A Nossa Casa, Envelhecer, O Grande Industrial, Horizonte, Auto da Barca do Inferno, O Cão e o Gato, Pé de Vento, Chá de Limonete, Frei Luís de Sousa, Serão Homens Amanhã, Catão, O Tio Simplício, Israel, Ana Maria, Peraltas e Sécias, A Conspiradora, Os Velhos, As Árvores Morrem de Pé, O Beijo do Infante, Terra do Limonete e tantas mais.
“Merece referência especial. Dispõe de invulgares aptidões histriónicas e adapta-se, sem dificuldade, a qualquer personagem. No papel de ébrio (David Seco) é inexcedível. Consideramo-lo o amador nº 1 do elenco masculino do núcleo de Tavarede” (Chá de Limonete).
“Calorosos aplausos merece, sem dúvida, António Jorge da Silva, pelo seu Hermenegildo, cheio de ternura e à-vontade. Esquecemo-nos, ao vê-lo contracenar com a sua Delfina, que estamos defronte de um amador e cremos ser este o maior elogio que podemos render à sua intervenção na referida peça” (Serão Homens Amanhã).
”Deu-nos um Telmo Pais do melhor quilate, excelente retrato da personagem, a contrastar com a caricatura que é o Frei Tomás, dos Peraltas, desenhada pelo intérprete com perfeita correcção”. (Frei Luís de Sousa e Peraltas e Sécias).
“Entregou-se de corpo e alma a um Bento sadio e aberto, homem sem “papas na língua”, desses que retratam todo um tipo de aldeão que ainda, felizmente, se encontram” (Os Velhos).
“Arca com a pesada responsabilidade de um papel que é a verdadeira prova de exame para alunos de um conservatório dramático e o faz com direito a obter justíssima distinção. Perfeito na arte de dizer e na arte de escutar. Artista e não amador na forma como encarnou, viveu e sentiu o personagem. Comprova com o seu André, mais uma vez, que está ali um dos grandes, um dos melhores amadores figueirenses de todos os tempos, demonstrando cabalmente que nem só na comédia ocupa lugar destacado entre os amadores portugueses (O Beijo do Infante).

No ano de 1959, no concurso de arte dramática organizado pelo Secretariado Nacional da Informação, foi-lhe atribuído o prémio “Chaby Pinheiro”, melhor interpretação masculina, na comédia Os Velhos.
A Sociedade de Instrução Tavaredense homenageou a sua memória, em Janeiro de 1993, descerrando o seu retrato que se encontra exposto no seu salão nobre.
Mas, talvez a melhor crítica que terá sido feito a António Jorge da Silva e, igualmente, ao amador Fernando Reis, terá sido a proferida por Mestre José Ribeiro que, em pleno ensaio da peça Frei Luís de Sousa, quando estavam em cena, no terceiro acto, interpretando as figuras de Telmo Pais e Romeiro, desempenhavam os seus papéis com tal perfeição e consciência, que ele se levantou do seu lugar na plateia, donde dirigia o ensaio, e batendo as palmas, exclama, cheio de entusiasmo: “Basta! Acabou o ensaio! Não dou licença a filhos de p… nenhuns, que façam isto melhor do que vocês!…”. E Mestre José Ribeiro não era muito pródigo em elogios aos seus amadores…
Sua esposa, Estrela Reis, também foi amadora do grupo cénico da Sociedade de Instrução, no qual participou de 1932 a 1940. Julgamos que igualmente terá feito parte da extinta secção dramática do Grupo Musical.

Caderno: Tavaredenses com História
Fotos: 1 - António Jorge da Silva e esposa, Estrela Reis; 2 - Na peça 'Frei Luis de Sousa', como 'Telmo Pais'; 3 - Em 'O Beijo do Infante', no papel de André.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 9

11 ANOS DOURADOS
Ao intitular este capítulo como “Um período dourado”, tive, como motivo, o grande desenvolvimento artístico verificado na colectividade entre os anos de 1917 a 1928. O despique com os amadores vizinhos da Sociedade de Instrução, que, sem dúvida, teve capital importância no nível atingido em Tavarede, muito em especial nesta última colectividade que, de forma brilhante e sob a sábia batuta de Mestre José Ribeiro, levaram o nome da nossa terra por esse Portugal fora, alcançando êxitos inesquecíveis, obrugou os directores do Grupo Musical, em 1924, a tomarem decisões importantíssimas para o futuro da progressiva colectividade.

As suas instalações, apesar de boas para o pequeno meio que era Tavarede, breve se tornaram insuficientes perante o desenvolvimento das multiplas actividades. E a abertura encontrada perante o proprietário da casa onde se encontravam sediados, o sócio benemérito e protector Manuel da Silva Jordão, para a venda do edifício em condições financeiras consideradas boas, especialmente pela facilidade do seu pagamento, levou a início das negociações.

Obtido o acordo com aquele proprietário, no dia 15 de Abril de 1924 reuniu a Assembleia Geral para aprovar o negócio e autorizar o financiamento necessário, pela emissão de acções do valor nominal de cinquenta escudos cada uma. Igualmente, e com a “missão de se ocuparem denodadamente nos bons serviços do Grupo”, foram eleitos os seguintes corpos gerentes:

Assembleia Geral
Presidente – António Medina Júnior
Vice-Presidente – António Marques Lontro
1º. Secretário – António de Oliveira Lopes
2º. Secretário – César de Figueiredo
Direcção
Presidente – João de Oliveira
Vice-Presidente – António Francisco da Silva
1º. Secretário – José Francisco da Silva
2º. Secretário – Armando Amorim
Tesoureiro – António Medina
Vogais – António Ribeiro Júnior, António Miguéis Fadigas, José Medina, José Maria Gomes de Apolónia e António da Costa Madrugada
Conselho Fiscal
Efectivos – José Maria Costa, António Victor Guerra e Francisco Silva Prôa
Substitutos – António Custódio, António Augusto de Figueiredo e José Fernandes Mota
Bibliotecário – Adriano Augusto Silva.


Registe-se o facto de que esta é a primeira acta da Assembleia Geral existente, enquanto que a primeira acta da Direcção tem a data de 20 de Março de 1924, sendo precisamente o primeiro registo existente o auto da tomada de posse dos corpos directivos acima referidos. Deste auto de posse consta o seguinte: “O saldo líquido transitado foi de 276$10 e foi procedido ao exame do inventário de todos os objectos que pertencem ao Grupo Musical e de Instrução Tavaredense e verificou-se que está conforme, sendo-lhes dada, seguidamente, a respectiva posse pelo presidente da Assembleia Geral cessante, sr. António Victor Guerra, comprometendo-se os novos corpos gerentes, sob sua palavra de honra, de bem e fielmente se desempenharem dos cargos para que foram eleitos e de que acabam de tomar posse”.

No dia 21 de Abril, a pedido da Direcção, reuniu a Assembleia Geral para discussão da seguinte proposta:



- abrir-se para a compra e adaptação do prédio para a nossa sede, um crédito de 25 000$00 (vinte e cinco mil escudos) em 500 acções de 50$00 cada:
- que essas acções fossem divididas por todos os sócios do Grupo, afim de evitar que pessoas estranhas ao Grupo fossem portadores delas;
- que cada sócio fosse obrigado a subscrever pelo menos duas acções;
- que dada a desvalorização da moeda fosse aberto um juro, que ficou assente ser de 5% para indemnizar de algum modo os dignos sócios portadores das mesmas, excluindo deste número os que subscreveram apenas as duas exigidas;
- que as acções fossem sorteadas todos os anos se a situação financeira do Grupo o permitisse, sendo este sorteio feito na nossa sede no dia do aniversário;
- que todos os sócios que comprarem já acções até duas o mínimo, sejam considerados sócios efectivos e donos da sede do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense e os restantes sócios que por qualquer circunstância não possam adquirir de momento acções fiquem considerados sócios auxiliares, mas com os mesmos direitos dos sócios efectivos no que diz respeito a assuntos da Sociedade;
- que todos os sócios efectivos portadores de acções em número superior a duas, sejam obrigados a cedê-las aos sócios auxiliares em qualquer ocasião que estes se encontrem habilitados a adquirir o mínimo delas (duas) pagando o juro correspondente 5% aos portadores que lh’as cederem, tendo de dar conhecimento deste facto à Direcção que o nomeará na sua primeira sessão sócios efectivos e donos do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense;
- que a operação da cedência das acções principie pelo sócio que tiver maior número destas e em caso de empate proceder-se-há a sorteio;
- que a quota mensal passasse de ctos. $50 a ctos. $75, ficando este aumento a vigorar de Julho em deante assim como a respectiva joia de entrada que passou de Esc. 2$50 ctos. a Esc. 5$00;
- que para fêcho destas suas propostas fazia um apêlo a todos os dignos consócios que comprassem acções em qualquer quantidade isentassem as duas primeiras do juro estipulado o que ainda foi aprovado como obrigatório pois que representa uma economia para a nossa querida Associação.

Pelo presidente da Direcção foi ainda proposto, e foi aprovado, que: “fosse criada dentro da nossa sede uma Caixa Económica onde todo o sócio auxiliar depositasse obrigatoriamente todas as semanas Esc. 1$00 ou daí para cima, a seu arbítrio, afim de com mais facilidade poder adquirir as duas acções exigidas passando por isso mesmo a sócio efectivo e dono de Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense e que para retardatários a esta obrigação fossem dados quinze dias depois da primeira falta para satisfazerem este compromisso justificando o seu relaxe e caso não o fizessem ficam considerados ipso facto como não sócios, perdendo todos os direitos e haveres que na sede tenham, pois que mostraram claramente com este procedimento serem inimigos da nossa colectividade, que esta mesma Caixa funcionasse para os sócios efectivos notando que, para estes, era, porem, simplesmente, facultativa...”

Os documentos, depois de amplamente debatidos, foram aprovados, tendo no final o membro do Conselho Fiscal, António Victor Guerra, proposto que “fosse estabelecida uma penalidade para os sócios efectivos que porventura haja pouco escrupulosos, que de algum modo menosprezem os sócios auxiliares, indicando, com qualquer título, valerem mais por serem donos da sede”.

Obtida a indispensável aprovação da Assembleia Geral para a compra se efectuar, a Direcção mandatou alguns dos seus componentes para uma reunião com o proprietário da casa para assentar, em definitivo, o negócio. Transcrevo, na íntegra, o relatório desta diligência:

“A conferência teve lugar do dia 25 de Maio de 1924, tendo pelo sr. Vice-Presidente, António Francisco da Silva, sido abordado o assunto da sede, de alta importância para todos os associados, passando a expôr ao sr. Jordão o andamento e funcionamento do Grupo até à data em que a noda Direcção tomou posse, que era para lastimar, fazendo-o sciente dos projectos que se estudavam para a modificação completa da sala de espectáculos e outros melhoramentos que se pensava introduzir das varias dependencias do mesmo prédio, que dentro em breve serão um facto, para os quaes se trabalhava com afinco e boa vontade da parte de um limitado numero de sócios, afim de que os trabalhos a executar ficassem ultimados até ao dia do aniversário (17 de Agosto do corrente ano).
Pelo sr. Jordão foi ouvida com agrado a exposição daquele senhor, com a qual ficou deveras satisfeito, incitando-nos a que proseguissimos, com a mesma boa vonte, os melhoramentos e benefícios a que nos propuzemos, elogiando a nossa acção e informando-nos que havia concedido o prazo de 6 mezes para lhe ser entregue a quantia correspondente à venda do prédio (20 000$00), mas que, ficando bem ao facto do que se tencionava fazer, prorogava aquele prazo com egual período de tempo (mais 6 mezes), o que agradecemos, e que seria muito do seu gosto continuar a ficar sendo dono do citado prédio, como qualquer outro possuidor de acções, do que se depreendeu, pois, que nos dava a honra de ser inscrito o seu nome no nosso Registo de sócios, pedindo para que lhe fossem dispensadas 20 acções.
Em seguida, o mesmo sr. Vice-Presidente pediu ao sr. Jordão para nos indicar a ocasião em que podia ser feita a escritura da citada compra, respondendo aquele senhor, acto continuo, que se punha à nossa disposição desde aquele dia (25 de Maio) para satisfazer o desejo por nós manifestado, o que fazia com vontade, ainda mesmo sem que lhe fosse apresentada a quantia a que acima se faz referência (20 000$00), ou qualquer outra, pois que confiava, em absoluto, nos dirigentes do nosso Grupo (palavras estas que agradecemos reconhecidos), terminando o sr. Jordão por nos declarar peremptoriamente que podiamos considerar nosso o prédio, desde aquele dia, e que esperaria pela importância que se lhe ficasse a dever durante o período de 1, 2 ou 3 anos, emfim, até nós conseguirmos arranjál-o e, mais ainda, que não nos cobraria qualquer juro.
Depois das agradáveis e satisfatórias palavras do sr. Jordão, que novamente agradecemos efusivamente, ficou assente que se pensaria nas escrituras quando possuissemos alguns milhares de escudos, para naquela data lhe serem entregues à conta da importancia total.
Depois de mil e um agradecimentos que apresentámos ao sr. Jordão, retirámos entusiasmados e satisfeitissimos, e é possuidos ainda da mesma satisfação que por esta fórma vimos esclarecer aos nossos dignos colegas que não tiveram o prazer de assistir àquela conferencia, o assunto importante de que nos ocupámos e os pontos principaes que se trataram e discutiram, o que não podiamos deixar de fazer, atendendo a que todos os membros da direcção de qualquer colectividade devem ser conhecedores de todas as coisas, ainda as mais pequenas, que se passam das suas portas adentro”.

E no dia 6 de Novembro de 1924 novamente se reuniu a Assembleia Geral para deliberar sobre o mesmo assunto. Curiosamente há duas actas desta Assembleia. A primeira, e maior, foi considerada sem efeito com um traço diagonal e e a assinatura do 1º. secretário, António Oliveira Lopes.


Teria sido uma reunião extraordinariamente importante, tendo no final da acta inutilizada sido selada com selos fiscais no valor de 1$50, certamente para tirar cópia oficial para os fins descritos na acta, que, apesar de inutilizada, vamos transcrever nalguns pontos.
Conforme os avisos convocatórios, tratou-se de “compra d’um prédio para instalação da sede e forma de contrair um empréstimo para a sua aquisição”. Pela Direcção foi referido que, relativamente ao deliberado na Assembleia Geral de 21 de Abril de 1924, se verificou “a falta de brio e vontade de certos sócios, que teem olvidado, com o maior desrespeito às leis do Grupo e portanto dos seus corpos dirigentes, o preceituado na devida acta por êles aprovado. Com bastante desgosto diz que, em virtude da maior parte dos n/consócios até ao presente, não terem cumprido com êsses preceituados, isto é, a acquisição de acções e a subscrição para a n/Caixa Económica, dando origem, por conseguinte, a que a Direcção não tenha verba alguma em seu poder, visto as importancias recebidas terem sido empregues na obras a que meteu ombros e precisando esta entidade de fazer a escritura da compra do prédio em que estamos instalados provisoriamente, pedia à assembleia se dignasse aprovar fosse contraído um empréstimo de Esc. 20 000$00, sendo Esc. 10 000$00 por meio de letra aceite por três ou mais sócios da confiança do sacador, e que os outros Esc. 10 000$00 fossem emprestados pelo dono da casa, sr. Manuel da Silva Jordão, por meio de hipoteca do aludido prédio”. Depois de discutido este assunto, foi aprovado, tendo os sócios João de Oliveira, António Francisco da Silva e António Medina se oferecido para aceitantes da letra, frisando-se que ”o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense não tem, nesta operação, responsabilidade alguma, a não ser a do pagamento dos respectivos juros, que são de 20% ao ano.
O membro do Conselho Fiscal, sr. José Maria Costa, vendo o sacrifício a que aqueles consócios se iam expor, ofereceu-se, também e com bastante prazer, para os ajudar, fazendo parte do número dos aceitantes.
Na acta de substituição, e referindo a mesma ordem de trabalhos, diz-se: “este assunto foi largamente discutido, sendo afinal, aprovado, por unanimidade, que a Direcção, usando de todos os poderes concedidos pela Assembleia contraísse o empréstimo da quantia necessária para a compra do prédio e efectuasse a compra dêste pelo melhor dos nossos interesses”.
O presidente da Assembleia “dirige um apelo a todos os consócios incitando-os a que já não quere mais, exclama, senão que cumpram o que está regulamentado, porque isso é o suficiente para levantar bem alto o nome já glorioso do nosso querido Grupo e, portanto, o da nossa terra”.
Antes de terminar “o sr. presidente da Assembleia lavrando o seu mais veemente protesto ao qual se associaram todos os membros da Assembleia Geral, Direcção e Conselho Fiscal, assim como todos os demais sócios presentes , contra a blague infame que pessoas mal intencionadas levantaram procurando tornar tensas as boas relações de amisade que existem entre os n/consócios e os sócios da Sociedade d’Instrução Tavaredense, encerrou a sessão no meio do maior entusiasmo.

Fotos: 1 - Auto da tomada de posse dos corpos gerentes; 2 - João de Oliveira; 3 - José Francisco da Silva; 4 - António de Oliveira Lopes.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 12

No ano de 1925, dá-se uma situação pouco vulgar. As duas colectividades locais apresentam, em simultâneo, operetas de autores figueirenses. A Sociedade de Instrução leva à cena “Em busca da Lúcia-Lima”, opereta em 3 actos, escrita por João Gaspar de Lemos Amorim e musicada por António Maria de Oliveira Simões.
O Grupo Musical e de Instrução representa “Ninotte”, também uma opereta em 3 actos, da autoria de António Amargo, com música de Eduardo Pinto de Almeida. Como breve apontamento, referimos que a grande figura da secção dramática do Grupo era Violinda Nunes Medina, “... que nos surpreendeu pela facilidade com que resolve as dificuldades cénicas e nos encantou pela forma correctíssima como cantou os números do seu papel, que requerem um “à vontade” que só uma boa amadora pode conseguir, sem defeitos”.
“Em busca da Lúcia-Lima está escrita com graça, com beleza, aqui e ali com um pitoresco feliz”. O autor situou a acção dos primeiro e terceiro actos em Tavarede e o segundo na longínqua China. Quanto à música “uma partitura soberba, feliz na inspiração e na beleza da orquestração, em números originais tão perfeitos como apropriada é a adaptação dos coordenados”.

Com esta peça, surgiram valores que se distinguiram na cena tavaredense. Além dos consagrados irmãos Broeiros e António Graça, um novo amador se revelou: João da Silva Cascão. Tornar-se-ia no “grande senhor” do grupo da Sociedade de Instrução, durante várias décadas, em que protagonizou e criou figuras verdadeiramente extraordinárias. No grupo das amadores, tomam os primeiros lugares, Maria Teresa de Oliveira, as irmãs Virgínia e Emília Monteiro, Idalina Fernandes e outras.
Em Junho de 1925, acedendo a um pedido da Santa Casa da Misericórdia, da Figueira, representam esta opereta no Parque-Cine. Vejamos, muito resumidamente, as opiniões dos jornais figueirenses de então. Para a “Voz da Justiça”, é “... uma linda opereta com todas as condições de agrado..... está escrita com graça, com beleza, aqui e ali com um pitoresco feliz”. A “Gazeta da Figueira”, depois de referir que o espectáculo satisfez, acrescenta “o Parque não tinha poiso vago. De galerias, balcão, camarotes, frisas, descia uma bicha humana que alastrava pela plateia. E toda a gente quer pontuando com salvas quentes de palmas, a maior parte dos coros...... numa chamada ao proscénio vibrante de sinceridade – claramente demonstrou o seu agrado”. Quanto à peça, escreve a seguir “numa opereta, vulgarmente, há apenas um motivo ligeiro, um fio leve de entrecho, para se fazer ouvir música. “Em busca da Lúcia-Lima”, tem mais que isso, tem seu enredo, começo, meio, fim, tudo afinado e certo”.
Mas, o crítico de “O Figueirense” não afinou pelo mesmo diapasão. “A peça vive dum disparate carnavalesco e quase todo o seu enredo é um disparate completo. Não é admissível, nem mesmo em teatro, que um anúncio carnavalesco publicado num jornal de província, trouxesse a Tavarede, e de aeroplano, dois comerciantes brasileiros, que se faziam acompanhar dum “muléque”, para verem uma mulher, que o já referido anúncio dizia ser formosa... Como se no Brasil não houvesse mulheres bonitas...” Um pouco à frente continua “... e para rematar as minhas considerações acerca da peça, devo dizer que era perfeitamente dispensável a pornografia que a esmalta, que para mais nada serve senão para gáudio da gente ignorante que gosta sempre de ouvir porcarias...”.
Confessamos, muito sinceramente, que já lemos a peça, até mais de uma vez, e não encontrámos uma palavra, sequer, que nos faça entender aquele comentário!


Mas, quanto à música e montagem, todos os críticos foram unâmimes. Muito bem! E terminamos os comentários a esta récita com o que escreveu aquele crítico da pornografia, quanto ao trabalho do ensaiador, José Ribeiro. “Só quem sabe o que é ensaiar amadores, sejam de que arte forem, é que pode avaliar o trabalhão que ele teve para fazer representar a opereta Em busca da Lúcia-Lima, como ela foi apresentada. Boas marcas e muita ordem na entrada e saída dos diversos personagens. Se tivesse duas mulheres que cantassem bem, e um rapaz que tivesse boa figura e boa voz, o sr. José Ribeiro podia abalançar-se a representar operetas, já não digo de autores consagrados, mas peças escritas com ordem e que um público ilustrado ouvisse com agrado, porque tem jeito para ensaiar e sabe disciplinar a sua gente”.

Fotos: 1 - Cenário do 2º. acto de 'Em busca da Lúcia Lima'; 2 - Gaspar de Lemos, autor do texto; 3 - António Simões - autor da música.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Cultura - Arte Menor

Do Exmo. Sr. Vereador do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz, dr. António Tavares, recebi, há já alguns dias, um mail onde se refere a um comentário que inseri neste blogue, no dia 21 de Novembro do ano passado, acerca de uma entrevista concedida e publicada num jornal figueirense.
Na verdade, reconheço-o, uma notícia com afirmações descontextualizadas, conduz, na maior parte das vezes, a interpretações que, por vezes, são menos verdadeiras. Foi o que aconteceu neste caso. No entanto, e certamente que o senhor Vereador concordará comigo, a notícia, tal como foi publicada, não poderia deixar de causar alguma tristeza àqueles que, como eu, desde sempre procuraram dar o seu melhor em prol das associações de cultura popular e recreio. Tenho acompanhado as pequenas notícias publicadas na imprensa local sobre as 'sessões solenes' comemorativas dos aniversários das colectividades e, efectivamente, do que tenho lido, depreendo que as intervenções do senhor Vereador da Cultura, têm sido no sentido precisamente contrário ao depreendido daquela entrevista.
Aceito que tenha sido injusto no meu comentário. Ainda bem. E, já agora, aproveito para solicitar ao senhor Vereador dr. António Tavares, a possível colaboração com estas associações populares. Cada vez mais me parecem indispensáveis e úteis. Mas, se não tiverem apoios e incitamentos oficiais, com muita dificuldade poderão prosseguir nas suas múltiplas actividades. E noto, igualmente, que, como V.Exa. disse, não há falta de mocidade interessada mas, sim, falta de dirigentes, dispostos a sacrificar um pouco da sua vida particular. Talvez a iniciativa anunciada pelo senhor Vereador numa das últimas sessões solenes, quanto ao dirigismo associativo, seja uma medida bem recebida e frutificante. Por mim, confesso, tenho imensa mágoa de não ter saúde que me permita continuar a dedicar-me ao Associativismo, como o fiz durante tantos anos, com imenso prazer e proveito próprio, pois muito do que sou e do que sei, o devo às Colectividades da minha terra.
Permito-me transcrever o mail recebido e, espero ter esclarecido uma situação devida, precisamente, à minha dedicação ao Associativismo.
Exmº Senhor
Um amigo avisado fez-me chegar o texto que V. Exª inseriu no seu blog a propósito de intervenções por mim feitas num debate organizado pelo Casino da FIgueira da Foz sobre as dificuldades de levar por diante projectos culturais pelas autarquias. Antes de mais, devo dizer-lhe que as minhas afirmações estão desenquadradas do contexto em que as proferi. Nada pior do que comentar afirmações descontextualizadas. Na verdade, limitei-me a constatar e a lamentar o facto de uma boa parte do meu tempo estar coartado por outras funções. Muito gostaria, e disse-o, de apenas ter como pelouro a cultura para poder ter uma entrega total a esta função. Lamentavelmente isto não é possível, mas eu sou o primeiro a lamentá-lo. Em relação às minhas declarações sobre o teatro na Figueira lamento ter de dizer o que disse mas é o que penso. V. Exª pensará o contrário mas cada um pensa como quiser. Devo, no entanto, dizer-lhe que mais uma vez interpretou mal o que eu disse. Obviamente que a minha abordagem se referia à actividade teatral no concelho em geral. Sei que existem excepções e a SIT é uma delas, mas reputo a declaração como válida numa análise geral. Desde o início do anos 80 que acompanho o teatro amador na Figueira, fui animador de teatro escolar durante mais de uma década, e participei em muitas edições das jornadas. Sei do que falo. Ao nível dos reportórios e dos géneros, da estética ligada à encenação e do trabalho de actor, o nosso teatro está, na generalidade e na esmagadora maioria dos casos, ultrapassado. Este afecto é indesmentível. Já agora devo dizer-lhe que o Lions Clube pensa exactamente o mesmo que eu. Enfim, resta-me esperar que estes esclarecimentos reponham a injustiça que me faz no seu texto. Com os mais respeitosos cumprimentos. António Tavares

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sociedade de Instrução Tavaredense - 11

Prosseguia, activamente, o grupo dramático. Depois de várias comédias, é posta em cena uma nova opereta, “ Rosas de Nossa Senhora ”, em 3 actos, com música de António Maria de Oliveira Simões. Este inspirado músico amador figueirense, tomaria, em 1924, a direcção musical da Sociedade de Instrução, ensaiando e dirigindo a orquestra e compondo números lindíssimos, que ainda hoje são cantados no nosso palco. Mas, na peça acima, embora a partitura fosse de sua autoria, a orquestra ainda foi regida por Manuel Martins.
Mas o povo não esquecia “Os Amores de Mariana”. E tantos foram os pedidos que, em Março de 1923, novamente houve a sua reposição, com a participação da quase totalidade dos antigos elementos. E correspondendo a um apelo que lhes foi dirigido, os amadores tavaredenses, no dia 7 de Abril, realizaram mais uma récita, na sua sede, mas em benefício da Santa Casa da Misericórdia da Figueira.
O êxito foi total. Casa cheia e “oxalá esta iniciativa fosse seguida pelos grupos dramáticos das outras freguesias do nosso concelho, visto que aos infelizes de todo o concelho acode nos momentos difíceis da doença o hospital da Misericórdia”.


Em Julho de 1924, foram feitos os estudos necessários para a montagem da rede eléctrica em Tavarede. De imediato, a Sociedade de Instrução resolveu promover a respectiva instalação. Como não tinha disponibilidades financeiras para este empreendimento, que importou em 3.806$50, foi deliberado contraír um empréstimo no montante de 4.000$00, realizado em 400 acções, que foram subscritas pelos sócios. Estas acções não venciam qualquer juro e grande parte acabaram por ser oferecidas à colectividade pelos seus subscritores.
O relatório desse ano escreve: “Não quere esta direcção deixar fechar o seu relatório, sem também agradecer a todos os sócios que tão galhardamente contribuiram para a compra de quotas para a instalação eléctrica e também ao grupo de sócios que com os seus esforços conseguiu trazer para a nossa terra tão importante melhoramento”.
“A primeira instalação a fazer-se foi a da Sociedade de Instrução Tavaredense, que é completa e perfeita, ficando o teatro com todos os recursos de iluminação que podem exigir-se em casas desta natureza. A luz ficou ligada no último sábado, despertando o facto um interesse extraordinário nesta localidade. Muitas pessoas foram à sede da Sociedade de Instrução ver o efeito da nova iluminação, que é deslumbrante. Alguns associados até se reuniram, não ocultando o seu regozijo. A inauguração far-se-á no dia 13 do corrente, com uma récita dedicada aos sócios”, escreveu a “Voz da Justiça” noticiando o acontecimento. Não se conseguiu saber, no entanto, qual foi o programa dessa récita.
A opereta “Os Amores de Mariana” havia caído no agrado do público. Mais de dez anos depois da sua estreia, esgotava sempre a lotação e era solicitada para algumas deslocações. Mas, na verdade, houve vozes discordantes. No dia 13 de Dezembro, foi dar um espectáculo ao teatro do Parque-Cine. Eis a crítica de “O Figueirense”.
“Um grupo de amadores dramáticos de Tavarede veio no sábado último ao Parque-Cine dar um espectáculo com uma opereta regional, cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, segundo rezam os programas, e portanto paredes meias com a nossa terra.
Fui assistir com um certo interesse, porque sempre gostei do teatro musicado, principalmente quando a acção se passa em qualquer das nossas províncias, algumas delas tão ricas em motivos para uma boa partitura. Os bons autores é que vão escasseando...
...Do desempenho pouco há a dizer, porque se tirarmos António Coelho, que se mexeu à vontade, e Helena de Figueiredo, que tem jeito, nada mais se aproveitou. Pena foi que o primeiro se não tivesse mantido na cena da embriaguês, porque teria sido perfeito e que a segunda tivesse pronunciado um tromento que a meu ver devia ter dito tormento. De resto, tem boa voz e canta com certo gosto.
A marcação pareceu-me deficiente. Não percebi que o André, charlatão, surgisse no palco com a massa coral, em lugar de ali aparecer casualmente, o que deu a impressão de que entre ele e os campónios havia o melhor entendimento. Ou não?
Também não compreendi a situação de Ernesto de Melo (António Santos) depois de Mariana (Helena de Figueiredo) lhe ter dado com a tampa ter-se mantido no palco, assistindo à alegria que reinou à volta do Zé Piteira (António Coelho), quando este teve a certeza do amor de Mariana. Julgo que ele devia ter desaparecido, porque havia sido preterido pelo rival.
E para terminar com os meus reparos devo dizer que não achei próprio que no coro Brasileiro di água doce, os comparsas, todos dos arrabaldes de Coimbra, québrassem tão harmonicamente a módinha brasileira. Lá que o Pancrácio a exibisse e a massa coral se manifestasse de qualquer maneira própria do seu temperamento e educação, compreendia-se, agora que a secundassem com tanta jeiteira é que se tornou reparável.
Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrojo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior.
A música, além de cediça, está coordenada muito à ligeira e foi interpretada muito deficientemente. Pena foi que assim sucedesse, porque a orquestra estava bem organizada e apta a executar uma partitura de mais vulto.
Mas o fim principal dos amadores tavaredenses foi arranjar dinheiro para o seu cofre, e esse atingiram-no, porque a casa estava quase cheia, o que devia ter produzido uma boa receita.
Felicito-os por tal motivo.

Fotos: 1 - Cenário da SIT; 2 - António Santos (amador)

A Merenda Grande

Antigamente, era muito festejado o dia da merenda grande. Recordo-me da família ir, com o farnel preparado, até ao pinhal dos Quatro Caminhos, onde se procurava um bocado mais ou menos limpo de mato, se estendiam umas mantas velhas e, sentados no chão, saboreávamos o farnel. Muitas famílias escolhiam aquele local e outros, igualmente aprazíveis, que haviam em redor da nossa terra. Tempos que já lá vão, há muito.

Nos meus velhos apontamentos, encontrei a notícia de uma dessas festas, que teve lugar na velha escola, sita no Largo do Forno, em Abril de 1917.

Na escola mixta desta freguezia todos os anos se costuma festejar o dia da merenda grande. Fomos convidados pela digna professora, srª. D. Maria José M. Santos, a assistir a este grande ato d’alegria das creanças, que é, para elas, um dos melhores.
Assistimos, pois, à sua merenda grande, que foi revestida de bela animação das creanças, com os seus cestos lindamente enfeitados.
Antes da merenda viam-se na sala as creanças, de pé, formadas numa roda, cantando varias cantigas populares. Seguiu-se a merenda. Cada creança foi então buscar os seus cestos cobertos de flôres, sentando-se, e cada uma tirando deles o seu variado sortido de comida. Os sorrisos despendiam-se de todos os rostos. A chilreada daquele viveiro encantava toda a gente que o admirava. Após a refeição novas canções entoaram, dançando tambem alegremente, comunicando a sua alegria ao espirito dos assistentes.
Assim se passou na escola desta localidade a tarde da merenda grande. A petizada divertiu-se até fartar e a todos deixou a melhor recordação o seu aprasivel festival.
Daqui felicitamos a distinta professora srª. D. Maria José Martins Santos por ter realisado na sua escola uma festa cheia de alegria e disciplina.

Caixa Escolar

Uma das grandes preocupações de alguns tavaredenses era a instrução e educação de todos os seus conterrâneos. Mas, como terra agrícola que era, muitos pais preocupavam-se mais em mandar os seus filhos cavar e tratar das suas terras, do que deixá-los ir à escola para aprenderem a ler, escrever e contar.

Por mais de uma vez surgiu a ideia de formar uma 'Caixa Escolar', com a finalidade de ajudar os mais pobres na compra de livros, cadernos e outro material escolar. Mas, apesar da boa vontade de muitos, nunca foi possível tornar erm realidade a ideia concebida.

Em 1916 mais uma comissão, cheia de boa vontade, foi formada e logo iniciou as suas funções. Vejamos uma carta, publicada na 'Gazeta da Figueira', endereçada a Anibal Cruz pelo seu primo António Medina Júnior, que, como já anteriormente dissémos, haviam esquecido as divergências havidas quanto ao Grupo Musical. Eis a carta:

"Primo Annibal - Li ha dias na Gazeta duas cartas tuas, subordinadas ao título Por Tavarede, e vi que n’ellas te occupavas das sociedades musico-theatraes da nossa pacata aldeia, respondendo, segundo na primeira dizias, ás perguntas do teu amigo D. Limonete, um correspondente tambem de Tavarede para a Gazeta e que se acha actualmente ausente no Brazil.
D. Limonete é o pseudonymo que esse cidadão adopta, pelo que vi nas duas cartas d’elle publicadas ha dias tambem n’este jornal, e em que n’uma d’ellas dizia que ao chegar-lhe ás mãos este jornal, não via noticias da nossa terra, não cumprindo portanto tu o promettimento que lhe havias feito, que era escreveres Noticias de Tavarede.
Pelo que vejo, o amigo D. Limonete, como interesseiro que é, empenha-se por saber quaes os progressos por que a sua terra tem passado durante a sua ausencia, e tu respondendo-lhe, occupavas-te primeiramente das sociedades.
Está claro que para n’ellas lhe falares foram te desnecessarias informações, porque bem sabes quaes os seus progressos, que estão bem em evidencia; mas agora organisou-se, por iniciativa da professora official, uma Caixa Auxiliar da Escola, com o fim unico de comprar livros, papel e inclusivamente roupa e calçado para os filhos de gente pobre que não tenha recursos para o fazer.
Para a direcção d’essa Caixa constituiu-se uma commissão, a que eu pertenço tambem, que está encarregada do peditório de qualquer donativo e de arranjar pessoas que se queiram associar. Olhando para o fim a que se destina a referida Caixa, os socios estão cheios de boa vontade e animados para trabalhar, ufanando-se por verem a sua pequenina terra seguir o caminho do progresso, mas ao mesmo tempo nada se consolam, porque já de ha muitos annos Tavarede precisa d’uma casa propria para a escola official, e este anno, constando que já havia dinheiro para a sua construcção, não vimos meios d’isso, porque a principiar-se, devia ter sido em Junho findo, como se fez nas Alhadas, no Paião, Lavos, etc. Em Tavarede... nicles.
N’estas freguezias do concelho já andam em construcção os novos edificios escolares, porque as respectivas Juntas de Parochia constantemente pediam á Camara aquelle melhoramento para as suas terras, o que acho muito justo, porque lhes era mesmo indispensavel; mas nós, infelizmente, não temos uma Junta que proceda, isto é, que trate de officiar á Camara lembrando-lhe, sequer ao menos, que Tavarede tambem pertence ao concelho da Figueira da Foz.
Não é bem a Junta da Parochia quem tem culpa, mas sim o seu presidente, que é homem que nunca officiou á Camara reclamando aquella construcção.
Dar-se-á o caso que o sr. presidente não saiba fazer um... officio, como o outro dizia, lembras-te? Sim, quem sabe se elle o saberá fazer?
Olha que sempre é um homem que nunca reclamou absolutamente nenhum melhoramento para Tavarede... perdão, reclamou tal, a construcção de um muro qualquer na Varzea, mas deve-se notar que sempre é muro construido na sua propriedade.
Eu te conto, Annibal, uma coisa que prova evidentemente que o mesmo senhor nada se interessa por Tavarede:
A direcção da Caixa Escolar foi um d’estes dias ter com elle, pedindo-lhe que ou se associasse, ou concorresse com qualquer quantia. Sabes com quanto assignou? Com 30 centavos - 300 reis!! (e vá que já não é pouco!), e respondeu ao mesmo tempo:
- Tomem lá três tostões, porque eu nada me importo com Tavarede, com o povo de Tavarede, nem quero saber de Tavarede para nada.
Ora isto é impróprio de se dizer, e o sr. presidente, conhecendo bem o honroso cargo que lhe confiaram a quando das eleições - que mais valia elegessem o Manuel Fandango - fazia uma bonita figura, mas mesmo bonita, se assignasse os 300 reis e se calasse, não é verdade?
Presidente de penacho, ha-os por uma pá-velha.
Calcula tu, Annibal, como é que os rapazes que foram a sua casa - alias palacio, sim, porque é o velho palacio do antigo conde de Tavarede - haviam de ficar. Embaçados, com aquellas e outras grosseiras palavras, que não contavam sahissem da bocca do sr. Luiz João Rosa, dignissimo presidente da Junta da Parochia da freguezia de Tavarede.
Olha, o José Cordeiro, com o dinheirinho na mão, raspou-se, seguindo-se-lhe o Cesar Cascão, Antonio Coelho, João da Simôa, etc. Se tu visses o Jayme, que apesar de ser o ultimo e coxear um pouco, ainda chegou á rua primeiro que todos, dizendo:
- Safa, que d’esta nos livrámos nós! Podemos louvar a todos os santos por não comermos alguma bengalada!...
E por estas minhas humildes mas verdadeiras palavras, vês o proceder do sr. João L. Rosa, como presidente da Junta da Parochia, e portanto elucida o brazileirinho de tudo isto, que muito satisfeito ha de ficar quando souber que a sua terra está em vias de ficar sem escola nova.
Visto tu estares na Anadia, não sabendo portanto o que por cá se passa, foi apenas com tenção de te informar e pedir que contes o que deixo dito ao D. Limonete que eu escorropichei do meu tinteiro algumas gottas de tinta, tambem para dizer o que a minha consciencia me pede para não deixe ficar por dizer.
Saude e fraternidade.
Abraça te o teu primo amigo António Medina Júnior".