sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fernando Severino dos Reis

Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 3 de Março de 1913, filho de Joaquim Severino dos Reis e de Etelvina Tondela. Casou com Carolina de Oliveira Alhadas, tendo uma filha: Maria Isabel.
Marceneiro e carpinteiro da maior competência, foi empregado nas oficinas dos Caminhos de Ferro, onde atingiu a posição de chefe de brigada, com que reformou.
Foi amador dramático de notáveis recursos. Começou no Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, de que seu pai havia sido um dos fundadores, e transferiu-se para o grupo cénico da Sociedade de Instrução quando aquela colectividade acabou com a sua secção dramática.
Também fez parte da célebre Tuna do Grupo Musical, onde tocava ”pandeireta”. Durante a sua longa carreira teatral desempenhou mais de cem “papéis”, começando, na Sociedade de Instrução, na peça Justiça de Sua Majestade e terminando em Comédia da Vida e da Morte, no papel de Conde do Laranjeiro, levada à cena em Outubro de 1980.
A Morgadinha de Valflor, O Grande Industrial, Entre Giestas, Génio Alegre, A Nossa Casa, Horizonte, Auto da Barca do Inferno, Raça, Frei Luís de Sousa, Serão Homens Amanhã, Catão, Israel, Ana Maria, Peraltas e Sécias, A Conspiradora, Os Velhos, As Árvores Morrem de Pé, O Dia Seguinte, Omara, Para Cada Um Sua Verdade, O Processo de Jesus, Romeu e Julieta, e O Avarento, foram algumas das peças em que figurou, desempenhando sempre papéis relevo.
Nas peças de sabor local, como O Sonho do Cavador, Chá de Limonete, Terra do Limonete, Cântico da Aldeia e Ontem, Hoje e Amanhã, além de outras, também deu a sua colaboração artística. Nestas, talvez as interpretações mais notáveis tenham sido a do Velho Tavarede e O Velho Palácio, em Chá de Limonete, onde compôs aquelas duas figuras com elevada craveira.
“Senhor absoluto do seu papel, conserva durante todo o espectáculo a mesma calma e o mesmo sentido de responsabilidade (Velho Tavarede)… ….surge o portão do palácio. Batem. Abre-se o portão e a figura do palácio de Tavarede aparece, gasta, alquebrada, mutilada. Voz fraca e cansada pelas injustiças dos homens. E a evocação surge – cheio de emoção e de mágoa pelo mal feito. Fernando Reis foi bem escolhido para o papel, desempenhando-o com magnífico acerto” (Chá de Limonete).
“… deu um Romeiro de que nada há a dizer que não seja um merecido elogio. Não podia pedir-se mais. E, como em Peraltas e Sécias lhe coube um papel de feição completamente diverso, igualmente desempenhado com impecável correcção, teve ensejo, pelo contraste, de revelar o seu real merecimento”. (Frei Luís de Sousa e Peraltas e Sécias).



A Sociedade de Instrução Tavaredense nomeou-o “Sócio Honorário” em 1979 e, em Janeiro de 1993, prestou homenagem à sua memória, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre da colectividade.
“O Teatro faz parte da minha vida. Chega-se a uma altura em que se não pode passar sem ele”, disse, como resposta, a uma pergunta feita por um jornalista de Lisboa. “Faço teatro desde os 14 anos. Levanto-me todos os dias às 6 horas, para poder estar no emprego às 7,30, mas isso nunca foi motivo para deixar de ir aos ensaios”, dizia com certo orgulho.
Tinha dois passatempos: a pesca e os pássaros. Quando o verão se aproximava, ia colocar um tabuleiro com água, em pinhal escolhido, onde todos os dias ia renovar a água, para os pardais se irem habituando a lá irem beber. Depois, quando lhe parecia boa ocasião, levantava-se de madrugada e, ainda antes da aurora romper, ia montar a rede no bebedouro e fazer a barraca onde, pacientemente, aguardava a ida dos incautos pássaros a beber.
Fernando Reis faleceu no dia 1º de Maio de 1986, no Hospital da Universidade de Coimbra, precisamente naquele dia que ele mais aguardava durante todo o ano. Era um dos mais entusiastas participantes do grupo “Os Inseparáveis”, que nesse dia se reuniam em alegre convívio e confraternização.
Em Agosto de 1954, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense deslocou-se a Condeixa, onde apresentou a peça Frei Luís de Sousa. O palco foi montado ao ar livre. Na cena do incêndio, final do primeiro acto, ao pegar fogo a um cartucho que simulava o incêndio, uma fagulha foi incendiar um segundo cartucho, pegando fogo, inadvertidamente, às barbas e fato de Romeiro, pois já estava pronto para entrar em cena no segundo acto. Apressadamente foi levado ao hospital local para lhe ser prestado socorro. Já estava fechado, pelo que tiveram de bater à porta, com bastante violência, para um rápido atendimento. Este hospital era assistido por freiras. Quando uma delas abriu a porta e se deu de caras com aquela figura do Romeiro, desatou a fugir pelo corredor em altos gritos. Apesar das dores que estava a sentir, Fernando Reis não resistiu a soltar uma boa gargalhada! Foi uma situação sem grande consequência, mas que poderia ter sido bastante grave.
Sua esposa, Carolina de Oliveira Alhadas, (1911 – 1985), integrou o grupo dramático da SIT durante vários anos. Iniciou a sua participação em 1926 na opereta Noite de S. João.
O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, O Grande Industrial, A Morgadinha de Valflor e Entre Giestas foram algumas das peças em que interveio.
Em 1954, no espectáculo preparado para as comemorações das Bodas de Ouro, reviveu uma das suas antigas personagens.


Caderno: Tavaredenses com história
Foto: 1 - O Velho Tavarede (desenho de Zé Penicheiro - Chá de Limonete); 2 - Contracenando com Violinda Medina e Silva, na peça 'Ana Maria'; 3 - Casamento.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 11

Regresso, agora, às notas da actividade cultural atraz interrompidas. Em Novembro de 1924, a tuna e a secção dramática do Grupo Musical deslocaram-se a Brenha, à Troupe Recreativa Brenhense, onde deram um espectáculo com as peças “Um erro judicial” e “Medicomania”. E a 7 de Dezembro foram a Maiorca com o mesmo programa.

No espectáculo comemorativo do 13º. aniversário e da inauguração das obras, foram representadas, a comédia “A pega de toiros”, interpretada por Violinda Nunes Medina, José Medina, António Medina Júnior, Adriano Silva e Manuel Nogueira e Silva, e a opereta “A herança do 103”, com Violinda Nunes Medina, António Medina Júnior, José Francisco da Silva e Manuel Nogueira e Silva.

Em Janeiro e 1925 o Grupo Musical recebeu a visita dos amadores da Sociedade Filantrópica e Instrução, de Buarcos, que aqui apresentaram as peças “Os Reis Magos” e “O criado distraído”, que foram muito aplaudidas. No mesmo espectáculo, um amador do Grupo cantou, com muita graça, a cançoneta “Rebenta a bexiga”. E no dia 11 do mesmo mês, o grupo levou à cena o drama “Os reis de Peniche” (uma adaptação do Reis Magos) e algumas cenas pastoris. Neste espectáculo tomou conta da parte musical o figueirense Eduardo Pinto de Almeida.

No mês de Maio foram dar um novo espectáculo à Figueira, no Parque-Cine, com uma opereta entretanto posta em cena, “Ninotte”, da autoria de António Amargo, com música de Pinto de Almeida, e que já fora apresentada em Tavarede por mais de uma vez.

A 31 do mesmo mês, uma comissão de sócios organizou uma festa dedicada ao seu grupo cénico. Foi animadíssima e aqui deixo uma reportagem sobre a mesma:

“Noticiou “O Figueirense” a realização, em Tavarede, da festa das flôres, no Grupo Musical e d’Instrução.
Teve efectivamente lugar essa explendida diversão espiritual no passado domingo, decorrendo por fórma a satisfazer plenamente todos quantos a ela assistiram.
A comissão organizadora, constituída por António Victor Guerra, José da Silva Lopes, Joaquim Gomes d’Almeida, José Francisco da Silva, João d’Oliveira, Adelino Joaquim de Faria, Adelino Alves Pereira e António Medina - precisamente a mesma que há dias levou ao amplo Parque-Cine, da Figueira, a aplaudida opereta “Ninotte”, interpretada por 52 amadores - havia convidaddo vários cavalheiros dessa cidade a emprestarem, com o seu valioso concurso, um cunho de maior luzimento e brilhantismo a essa tão simpática festa, que era dedicada ao grupo dramático da florescente colectividade que na nossa terra está prestando um óptimo serviço à educação do povo.
E esses cavalheiros, duma cativante gentileza, acederam pronta e satisfatoriamente a esse convite e vieram.


Assim, e em cumprimento de um indeclinável dever de gratidão, não devemos olvidar esse favor grandioso, motivo porque ousamos servirmo-nos das colunas deste jornal para nelas perpetuarmos a nossa admiração veemente a Ildefonso Rosa, e a seu irmão Guilherme, guitarristas de mérito, que mimosearam com muita arte os orgãos auditivos da numerosa assistência, que num silencio sepulcral sentiu, como nós, vibrações na alma, ao som dos melodiososa acordes duns fadinhos tão repassados de sentimentalismo, tão portugueses...; a Raúl Martins, como os primeiros, amigo bem sincero, alma bem lavada de snobismos hipócritas, que cantou primorosamente alguns trechos, acompanhado pelos manos Rosas; e a José Mano, que recitou muitissimo bem poesias de vários autores.
Todos estes quatro amigos foram obrigados, pelos delirantes aplausos que expontaneamente partiam da assistência, a bisar todos os números com que se exibiram, tendo os guitarristas de retomar as cadeiras e tocar trechos bonitos e díficil execução. O Martins, cantou, a pedido, a “Louca”, por sinal com muito sentimentalismo. Possue uma boa garganta. Causa-nos inveja, acreditem.
Recitaram também versos e monólogos, além dos números dos figueirenses, a quem - diga-se sem favor - se deve o brilhantismo máximo da festa de domingo passado, vários sócios do Grupo Musical, como António Lopes, Manuel Nogueira e Manuel Cordeiro d’Oliveira.
Todos foram aplaudidos.
Recomeçou então o baile, tendo-se dançado animadamente até altas horas horas da madrugada, aos últimos acordes dum “one-step”.
Lastimamos deveras não termos vagar para nos alongarmos, em palavriado pobre mas bem sincero, na descrição minuciosa da festa de domingo - toda bem-estar, toda perfume e alegria - motivo porque para seu registo recorremos à lacónica notícia.
No entanto devemos afirmar em verdade que ela foi de molde a marcar mais um passo no bom caminho da vida do simpático Grupo Musical, que dia a dia, se nos vai afirmando uma colectividade muito útil e vitalícia.
- As salas do Grupo estavam engalanadas com ricas colgaduras e espelhos, predominando a policromia enebriante e encantadora das pétalas mimosas e dôdes das flores naturaes, banhadas de catadupas de luz clara e brilhante que espargia a chusma de lâmpadas eléctricas porque a famosa colectividade é iluminada...
- Pelas meninas Violinda Nunes Medina, Helena Gomes, Maria Amorim e Clarice d’Oliveira Cordeiro, foram oferecidos ricos “bouquets” de flores naturaes, em nome da secção dramática da colectividade em festa, aos amigos Raúl Martins, Ildefonso e Guilherme Rosa, e José Mano; a Direcção, ofereceu-lhes um copo-de-àgua e um devotado amigo do Grupo um “copo” de bom “champagne” d’Anadia.
Oxalá festas destas se repitam, para nome da colectividade onde elas se levam a efeito e de quem as promove”.



No dia 7 de Junho a tuna encorporou-se no “magestoso cortejo tauromáquico e assistiu à garraiada” que, na Figueira, foi promovida pela Associação Naval 1º. De Maio.

Ainda no ano de 1925, o grupo cénico efectuou os seguintes espectáculos:

_ Em Junho, no Grupo Caras Direitas, em Buarcos, com uma opereta (Ninotte?) e duas comédias;

_ A 13 de Setembro, em Montemor-o-Velho, no Teatro Ester de Carvalho, com o drama “Um erro judicial” e a comédia “Casa doisa...”;

_ Em Outubro, mais um extraordinário êxito numa deslocação à Marinha Grande. É indispensável aqui deixar transcrita a reportagem: (ver 'As primeiras saídas' - Associativismo)

Fotos: 1 - Clarice de Oliveira Cordeiro; 2 - Manuel Nogueira e Silva

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 10

Concluidas as obras, organizou-se o programa para a sua inauguração nos dias 20 e 21 de Dezembro daquele ano. Para recordação, aqui registo o tal programa:


Dia 20 às 21 horas

1ª. parte - Apresentação da tuna, que apresentará um programa escolhido, sob a hábil direcção do maestro sr. Pinto d’Almeida;
2ª. parte - Representação da hilariante comédia em 1 acto “As pegas de toiros”;
3ª. parte - Variedades músico-teatrais, sobressaindo um explêndido número - guitarradas - por consumados amadores;
4ª. parte - Representação da opereta em 1 acto, ornada de 7 números de música - “A herança do 103”;
5ª. parte - Apoteose final.

Dia 21

Às 7 horas - Salva de 21 morteiros e alvorada por uma fanfarra;
Às 10 horas - Recepção à Filarmónica “10 de Agosto”;
Às 11 horas - Bodo a 25 pobres mais necessitados da freguesia de Tavarede;
Às 12 horas - Exposição da séde;
Às 14 horas - Recepção a tunas e à Filarmónica “Figueirense”;
Às 16 horas - Sessão solene, em que usarão da palavra alguns oradores e descerramento do retrato dum sócio há pouco falecido (D. Maria Àguas Ferreira);
Às 21 horas - Baile servido.

Comissões para tratar de todos os assuntos necessários para efectivação destes festejos:

- Limpeza e aformoseamento do quintal: António Francisco da Silva e Joaquim Marques;
- Ornamentação da séde: Adelino Joaquim de Faria;
- Licenças necessárias: António Medina Júnior e José Francisco da Silva;
- Iluminação feérica: Faustino Ferreira e Aníbal Fernandes Caldas;
- Acquisição de fogo: Adriano Augusto da Silva;
- Acquisição dos artigos necessários para o bufete: António Francisco da Silva e António Custódio.

Somente a título informativo, registo que, tempos antes, tinha havido nova saída de colaboradores da Sociedade de Instrução que, no início do ano de 1924, aderiram ao Grupo Musical, passando, de imediato, a fazer parte dos elementos directivos e que foram, sem qualquer favor, grandes dinamizadores das obras e expansão artística. Foram eles João de Oliveira, António Francisco da Silva e José Francisco da Silva.

Pois, como acima se disse, fizeram coincidir a inauguração das obras da nova sede com a festa do 13º. Aniversário. Lembro, a este propósito, que havia entretanto sido deliberado festejar os aniversários do Grupo nos finais de Dezembro, para, assim, coincidirem com o ano civil. Mais tarde retomaram a tradição de comemorar mesmo na data da fundação, 17 de Agosto, ou num dos fins de semana mais próximos.

É oportuno, e antes de retomar a actividade cultural referindo os acontecimentos mais significativos, transcrever uma reportagem, publicada na “Gazeta da Figueira” e escrita pelo seu correspondente em Tavarede, relatando aquelas festas. Não quero, também, deixar de copiar um pequeno apontamento da notícia que, sobre o mesmo assunto, escreveu a “Voz da Justiça”: “Foi uma festa animadíssima, que deixou satisfeitos os directores do Grupo Musical. O seu entusiasmo é enorme, constando-nos que preparam no seu teatro récitas sensacionais. O Grupo conta, para esse efeito, com grandes dedicações, a ponto de até o vice-presidente da Direcção, sr. António Francisco da Silva, não obstante a sua idade e não ter nunca representado, tomar também conta de um papel. Oxalá não esfriem no seu entusiasmo e vejam acentuarem-se as prosperidades do Grupo Musical Tavaredense”. E, agora, a referida reportagem.


“ Embora tardiamente, pois já vão volvidos mais de oito dias, não queremos nem devemos deixar no olvido a noticia das festas que o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense levou a efeito nos dias 20, 21 e 22 do mez corrente.
É certo que pouco mais podemos adiantar que o digno redactor deste jornal que a eles assistiu. No entanto, e na qualidade de seu correspondente nesta encantadora aldeia - que nos foi berço e por quem nutrimos aquele inabalável amor de bairrista que se présa - no entanto sempre nos queremos ocupar de tão palpitante assunto - não passando, todavia, o nosso propósito, de noticia laconica e despretenciosa.
Devemos principar por dizer que o Grupo Musical e d’Instrução, organizando, para os seus festejos, um programa fóra do vulgar, o cumpriu á risca, ou antes, ainda o ampliou para melhor.
Assim, podemos afoitamente dizer - sem receio de desmentidos - que ainda se não fez em Tavarede uma festa associativa tão simpática e tão completa como a que o Grupo Musical agora levou a efeito.
Sim, senhores, honra lhes seja!...
No dia 20, á noite, teve lugar um sarau musico-teatral, que constituiu um galhardo serão.
Apresentou-se a tuna no palco que executou, sob a proficiente direcção do maestro sr. Pinto d’Almeida, nosso particular amigo, um repertorio escolhido, que a numerosissima assistencia se não cançou de aplaudir.
Um grupo de gentis senhoras e de loiras criancinhas surgem no palco, com muitas fitas de sêda, para serem colocadas no estandarte glorioso da colectividade em festa que tem estampado um soberbo e honroso trabalho a oleo do saudoso António Ramalho, maravilhoso pintor que tão bem soube enaltecer a sua e nossa Patria, após o que António Augusto Esteves, bom e leal amigo, usando da palavra, improvisa um brilhante discurso, entrecortado, por vezes, com as aclamações da assistencia.
Ao findar, a tuna toca o seu hino, confundindo-se os acordes com os entusiasticos “vivas” que a expontaneidade fez sair do peito de todos os amigos do Grupo Musical, dessa simpática colectividade para onde lançam odios revoltantes certas nulidades que se esquecem propositadamente do bom nome da sua terra - das freguezias do concelho da Figueira aquela que ainda hoje caminha na vanguarda da instrução - para só pôr em prática covardes propósitos que se traduzem em reles bairrismo da parte de quem não tem a ombridade de se apresentar de fronte levantada, a fazer traficancias contra uma Associação que nasceu ha 13 anos e que portanto já tem raízes fecundas que dificilmente deixam tombar tão bemdita Arvore...
Porque, se para uns a capa do anonimato serve de pretexto para encobrir a figura meiga e pura da Caridade, para outros, então, é o melhor recurso para pôr em execução planos traiçoeiros que só prestigiam a covardia!
João d’Oliveira, brioso presidente da direcção, surge no palco, com outros directores, e oferece ao maestro um simpático brinde, que este agradece sensibilisado, abraçando-o cordealmente. Uma prolongada salva de palmas ressôa na plateia, confundido-se de novo as aclamações.
A tuna executa a 2ª. parte do seu escolhido programa, seguindo-se a representação duma comedia em 1 acto, que muito agradou.
A 3ª. parte do espectaculo é composta de recitativos e guitarradas. Os maiores aplausos foram para o distinto guitarrista-amador Manuel da Cunha Paredes, de Coimbra, que a amizade do autor destas modestas linhas trouxe até Tavarede. Acompanhado a viola por Alberto d’Oliveira, da Figueira, faz um sucesso. Cantou alguns fados de Coimbra, daqueles fadinhos bem portugueses que enebriam a nossa alma e que o Paredes tão bem sabe cantar, sendo-lhe oferecido, como ao Alberto, um “bouquet” de flores naturais, por duas inocentes criancinhas.
Segue-se a opereta em 1 acto - “A Herança do 103” - ornada de 7 numeros de fina musica, que agrada.
A orquestra muito concorreu para o feliz sucesso obtido, graças á sua boa organisação e á batuta proficiente de Pinto d’Almeida.
Para terminar - uma Apoteose.
Não póde a nossa pobre pêna descrever o que foi o fim deste sarau. Uma Apoteose explendida, deslumbrante, mesmo. Tudo se deve ao fino gosto dos srs. Manuel Mesquita e Adelino Joaquim de Faria, da Figueira. Tudo!


Num alto pedestal, uma corôa de loiros e uma lira, a oiro, ladeadas de lampadas de variadas côres, dispostas por Anibal Caldas, electricista do Grupo. Violinda Medina, junto do pedestal, empunhando o estandarte do Grupo. Mais uns pedestais, sobre o que estavam pousadas uns tenros inocentes simbolisando a instrução das letras, da musica e do teatro. Mais criancinhas, muitas criancinhas, envoltas em festões de loiro e flores, empunham os gloriosos estandartes da Naval, do Ginásio, dos Caixeiros, da Cruz Vermelha, dos Caras Direitas, da Filantropica, do Instrução e Sport, etc., etc. No proscenio, significando a “Fama”, duas meninas, com trombetas. Catadupas de luz por todo o palco imprimem ao significatico áto o maior e mais completo brilhantismo, exalçando então a magnificencia dos ricos fatos alegoricos, em sêda, que as crianças vestiam.
Emquanto a orquestra executa o hino do Grupo, a assistencia irrompe em delirantes aclamações á associação em festa, a Tavarede, ao Progresso, á Instrução, etc., etc., havendo lagrimas de satisfação, das lagrimas que do coração acodem aos olhos, a embaciar orbitas de pessoas que experimentaram naquela ocasião um dos momentos mais felizes, mais alegres, mais sublimes que na vida se é dado gosar!
E assim terminou aquele serão de belo e invulgar passa tempo espiritual, que marcou bem claramente mais um passo agigantado no caminho do Progresso e da Instrução - por onde a nossa terra, que estremecemos, tão digna e caprichosamente tem sabido trilhar.
No domingo, 21, ás 7 horas, uma salva de 21 morteiros põe em sobressalto toda a povoação. Uma fanfarra percorre as ruas da terra, soltando ao ar as notas estridentes do hino do Grupo. Foguetorio rijo corta vertiginosamente o espaço em direcção ao ceu azul que com um sol claro e quente quiz também associar-se á nossa festa.
São 10 horas. A Filarmonica “10 de Agosto” entra em Tavarede, tocando o hino do Grupo. É recebida de braços abertos. Após o “copo-d’agua” retirou para essa cidade, na altura em que a jovem mas esperançosa tuna do Gremio Recreativo União Caceirense dava entrada na aldeia. Ha os cumprimentos do estilo e os caceirenses ingressam no Grupo, onde se demoram até á noite.
O Grupo Musical tambem quiz dar um Bodo aos pobres, numero sempre simpatico em todas as festas - e deu-o. Havia destinado a distribuição de 2$50 a 25 pobres. Porém, apareceram 30, mais 5 portanto, que tambem levaram esmola. Saíram satisfeitos, balbuciando palavras de agradecimento e pedindo a Deus muitas felicidades para o Grupo Musical. Sentiam-se alegres, os pobresinhos, como alegres se sentiam todos aqueles que estavam a ver coroado do mais feliz resultado a boa organização de tão simpáticos festejos, que tanto prestigiam a nossa terra.
Das centenas de pessoas que visitaram o Grupo Musical, engalanado a capricho pelo socio Adelino Joaquim de Faria, cremos não haver uma só que dele não se refira em abonatórios termos.
São aproximadamente 4 horas quando a Filarmonica “Figueirense” dá entrada em Tavarede, onde é recebida carinhosamente, como tributo á sua cativante expontaneidade.
Prepara-se o inicio da sessão soléne - outro numero que vincou bem claramente a vitalidade do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense. O sr. Francisco Martins Cardoso assume a presidencia, convidando para o secretariar os srs. Pedro Colet-Meygret, delegado do Ginásio Clube Figueirense, e João Maria Pereira de Sousa, delegado dos Bombeiros Voluntarios.
Lidas mais de 100 saudações de individualidades, de associações, etc., e depois de dar posse aos novos corpos gerentes, que vão ao palco, sua exª., com aquela serenidade e inteligencia que o caracterisam, discursa demoradamente. No final levanta um “viva” ao Grupo Musical, viva esse que foi secundado pela numerosissima assistencia.
Dando a palavra a Antonio Victor Guerra, do conselho fiscal do Grupo, este faz um belo e eloquente discurso, convidando a certa altura a menina Acidalia Nogueira, gentil filha do saudoso Augusto Nogueira, a descerrar o retrato da srª. D. Maria Aguas Ferreira, extremecida esposa que foi do sr. José da Cunha Ferreira.
Alude, com palavras sinceras e comovidas, ao passado daquela santa mulher, que foi uma grande amiga da sua e nossa terra e do Grupo Musical, de que era socia quasi de fundação.
Ao terminar, foi muito cumprimentado e felicitado.
O sr. presidente pede um minuto de silencio em sinal de sentimento pela extincta benemerita - o que se cumpre religiosamente.
É em seguida dada a palavra ao rabiscador destas linhas - que se honra muito em ser tavaredense e socio fundador do Grupo Musical, que deseja vêr cada vez mais engrandecido e prestigiado - o qual, em palavras pobres de coloridos e rendilhados, mas ricos de sinceridade e ponderação, descreve a vida do Grupo e os seus efeitos na terra em que nasceu.
Em todo o seu modesto discurso, como em todos os outros, não se encontram as afirmações de esmagar jesuitas... como malevolamente foi dito por pessoa que não assistindo á sessão soléne concretisou, todavia, a mentira atrevida, descabida e estupida dalguns informadores baratos que ainda não pensaram que na terra não passam de ser uns pobres pedantes, uns pobres de espirito, uns traficantes de se lhes cuspir nas ventas - por desprêso.
É o que faz o autor destas linhas. É o que fazem todos aqueles que teem brio, que teem criterio e honra...
Mas... perdão, não fujamos do assunto do Grupo Musical e prossigamos na noticia...
O nosso amigo sr. Gomes d’Almeida, usando da palavra, faz, ao terminar, um apêlo aos bons tavaredenses para que secundem o gésto nobre dos encorajados cavalheiros que, para bom nome da sua terra, primaram na organização de tão simpática festa, que é bem a clara demonstração de mais um passo na senda bemdita dos Progressos dos Povos e portanto da Patria Portuguesa.
Este nosso particular amigo termina o seu discurso pondo incondicionalmente á disposição do Grupo o jornal O Figueirense, de que é director-proprietario, pois assim o tem feito a muitas outras associações de instrução e beneficencia.
É fartamente aplaudido.
O amigo sr. Eduardo Catita tambem não escapou. Convidado, sem o esperar, a usar da palavra, improvisa um explendido discurso, em que mais uma vez provou os seus dotes oratorios.
Antonio d’Oliveira Lopes, membro da assembleia geral do Grupo, fechou a sessão com um discurso brilhante, em que demonstrou as suas qualidades de rapaz estudioso e inteligente.
Foi justamente felicitado e aplaudido.
Não havendo mais ninguem que quizesse usar da palavra, o sr. presidente, com termos muito elogiosos para o Grupo e para Tavarede, encerrou aquela explendida sessão soléne, que ficou marcando uma festa cuja beleza jámais se apagará do espirito de quantos a ela assistiram.
A “Figueirense” tocou, por vezes várias, o “Hino do Grupo”.
Faltaram, por motivo de força maior, os oradores exmos. srs. drs. Rafael Sampaio e Antonino Cardoso.
Seguiu-se o baile, que era esperado pela gente môça e irrequieta, para quem a dança, hoje tanto em voga, constitue o melhor prazer de todos os mortais...
Nos intervalos, o nosso amigo Candido José Ferreira, de Anadia, exibiu-se em violão, pois é um artista no género, assobiando divinalmente alguns trechos dificeis e bonitos.
Emfim, foi uma festa que veiu a terminar tardissimo, reinando sempre em todos os corações a mais franca alegria e animação.
Na segunda-feira, 22, houve o almoço de confraternização, a que assistiram mais de 30 convivas, compartilhando da abundancia alguns pobres de Tavarede.
Durante o baile de domingo e o almoço de segunda-feira, teve a assistencia o prazer de apreciar uns belos discos no gramofone do nosso amigo Adriano Silva, que o cedeu da melhor boa-vontade ao gramofonista Zé Medina.
Não podiam ser melhor, os festejos do Grupo Musical.
Em Tavarede ainda se não fez coisa egual. Na Figueira, mesmo, que é cidade e tem excelentes associações, não ha tanto capricho como aqui na aldeia...
Não sabemos porquê, mas é verdade...
Parabens ao Grupo Musical, com os desejos de que muitos mais anos conte, trilhando sempre aquele caminho recto, honroso e dignificante que fácilmente o conduzirá á situação de destaque e de valor que ambiciona”.



Fotos: 1 - Emblema do Grupo Musical; 2 - João de Oliveira (à data presidente da Direcção); 3 - Violinda Medina (principal amadora e figura central na apoteose)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 14

Como havíamos referido, a Sociedade de Instrução adoptou, como seu, o estandarte que pertencera ao Grupo de Instrução e que havia sido inaugurado no ano de 1900. E, em 1927, o sócio benemérito Joaquim Fernandes Estrada, fez a oferta de um novo estandarte, que “é, na verdade, rico e artístico. O desenho é de António Piedade, e foi bordado a ouro e matiz pela distinta mestra de bordados da Escola Industrial e Comercial, srª D. Maria do Céu Rio, cujo trabalho é primoroso e justamente admirado”.
Aquele benemérito, em sessão solene expressamente realizada para o efeito, fez a entrega do novo estandarte e “afirma a sua simpatia pela Sociedade de Instrução Tavaredense, prometendo continuar a auxiliar a sua obra”.
“O acto é revestido de grande imponência. A gentil menina Maria Gonçalves (madrinha do estandarte) prende a bandeira na haste; a “Figueirense” executa o hino da Sociedade, e toda a assistência se levanta, soando palmas por largo tempo. Passados alguns momentos, o estandarte ergue-se, altivo, na haste encimada por uma artística estrela de metal branco, e irrompem novas salvas de palmas e muitos vivas”.


Entretanto, na véspera, tivera a sua estreia a revista “Grão-Ducado de Tavarede”, uma “revista fantasia, de carácter local, embora com alusões à Figueira e outras localidades vizinhas e ainda com intervenções de personagens de Brenha, Quiaios e Buarcos”.
A revista começa com uma visita à Exposição Internacional, organizada no “Grão-Ducado”. Dizia o catálogo que “é rica esta exposição. A secção nacional é vastíssima, onde se encontra tudo quanto é necessário à vida do homem, da mulher e dos animais; géneros e comestíveis; os mais diversos produtos da Indústria e da Agricultura; a Arte, o Progresso e a Civilização representados nas mais variadas manifestações”. Até tinha um Comissário...
Mas, e mais interessante, seria, talvez, a secção da pecuária. “Há animais de todas as espécies, tamanhos e feitios; mamíferos, insectos e batráquios, peixes e anfíbios, terrestres, aquáticos e aéreos, a aranha, a rã, a formiga, o elefante, o mosquito, o hipopótamo, a galinha, o bacalhau, o leão, o burro... em burros, então, é um sortido variadíssimo; temo-los manhosos e medrosos, espertos e teimosos, filósofos e tapados como um burro; variam na cor, no tamanho e na educação. Temos o burro preto, o burro branco, o burro malhado e o burro cor de burro quando foge; o burro pequenito como um burrito de mama, o burro de tamanho natural e o burro como casas; o burro que nem zurra, nem morde, nem dá coice, o burro que não morde, que não dá coice mas zurra, o burro que zurra, que dá coice e que morde. Burricalmente falando pode dizer-se que esta secção constitue para o nosso Grão-Ducado um verdadeiro sucesso burrical”.
Esta peça foi da autoria de João Gaspar de Lemos e de José Ribeiro, com música, original e coordenada, de António Simões. Foi em “Grão-Ducado de Tavarede” que começou a colaborar com o nosso grupo cénico “um distintíssimo artista e pintor. As maquettes dos quadros do “Inferno”, da “Apoteose à Lavoura” e da “Apoteose das Flores”, de deslumbrante efeito, são da autoria de Alberto Portugal de Lacerda”.
Com o decorrer destas histórias, conheceremos parte da valiosa colaboração de Alberto de Lacerda, um lisboeta que, colocado como professor na Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz, criou, na nossa terra, tantas amizades e apaixonou-se tanto por Tavarede e pelas suas gentes, que aqui quis acabar os seus dias, numa vivenda que mandou construir, repousando os seus restos mortais no nosso cemitério. Foi nesta sua casa, sita à entrada de Tavarede, do lado poente, que Alberto Lacerda pintou alguns dos seus mais belos trabalhos. O quadro “Ensaio de música”, que não teve tempo de acabar e que se encontra exposto no salão nobre da colectividade, bem demonstra a excelência da sua arte e da sua sensibilidade artística.


Naqueles tempos, as peças levadas à cena, davam poucas representações. Até então, 1927, exceptuando “Os Amores de Mariana”, quase nenhuma mais atingiu os seis espectáculos. E as montagens, além do enorme esforço dos ensaios, dos intérpretes e dos músicos, eram bastante dispendiosas. Cenários e guarda-roupa sempre novos na sua maioria. Neste aspecto, não devem ser esquecidos os nomes de Rogério Reynaud, nos cenários, e de Belmira Pinto dos Santos, na confecção dos fatos, a que, mais tarde, outros se foram juntando. O espólio que existe na Sociedade de Instrução, demonstra bem o trabalho e dedicação destes verdadeiros artistas.

Fotos: Frente e verso da estandarte oferecido por Joaquim Fernandes Estrada

Sociedade de Instrução Tavaredense - 13

Este nobre povo não podia por mais tempo gramar a tirania que pesava sobre ele. Acabaram os vexames, as contribuições, as licenças do carro e caça, o serviço braçal. Quebraram-se os grilhões que nos prendiam à maldita Figueira...”. E, assim, foi proclamada a independência da freguesia, sendo solenemente constituída a “República do Limonete”.
Afinal de contas, Tavarede não precisava da Figueira para nada. Além da bela hortaliça fornecida pelas nossas várzeas, era na nossa terra que se situava a estação do caminho de ferro, o matadouro, o hospital militar, a central eléctrica e, até, o cemitério, pois os figueirenses “não têem onde cair mortos...”.



Foi um êxito a estreia da revista “Pátria Livre”. “Pode dizer-se que agradou plenamente; os aplausos foram calorosos, entusiásticos, fazendo a assistência bisar quase todos os números de música. Houve chamadas ao autor, ao maestro e ao ensaiador. Gaspar de Lemos e António Simões mereceram, sem favor, as prolongadas salvas de palmas que ouviram – o primeiro, por ter escrito com alegre fantasia e uma certa irreverência o comentário gracioso e ligeiro dalguns acontecimentos e factos locais; e o segundo pela felicidade com que compôs ou adaptou os números de música, alguns deles lindíssimos”.
São desta revista dois dos números mais conhecidos e cantados em Tavarede. “Ceifeiras e cavadores” e a “Fonte e suas Bilhas”, ainda hoje são ouvidos com agrado.
Foi sol de pouca dura. Pelos vistos, a “República do Limonete”, que se comparava ao “principado de Andorra”, não conseguiu impôr-se. E se é certo que se não perdeu a independência, o seu regime político alterou-se. Poucos meses depois era proclamado o “Grão-Ducado de Tavarede”.
Entretanto, a sede da Sociedade de Instrução sofreu grandes alterações. “Na sala de espectáculos é completamente transformada a superior, onde vai construir-se um balcão, em anfiteatro, que será mobilado com cómodos fauteils, que foram mandados fazer propositadamente”. Mas, se a colectividade passou a dispôr de melhores condições, também foi necessário, mais uma vez, endividar-se. O projecto das obras foi elaborado gratuitamente pelo arquitecto Edmundo Tavares e o custo total foi de 13.611$93. Um empréstimo de João dos Santos, no valor de 8.000$00 e outro de seu filho, Arménio Santos, à data presidente da Direcção, de 1.156$00, permitiram a conclusão do melhoramento.
Para angariar algum dinheiro, o grupo cénico foi, em Maio de 1926, pela terceira vez ao Parque-Cine. Depois de “Os Amores de Mariana” e “Em busca da Lúcia-Lima”, apresentaram a opereta “Noite de S. João”, onde se exibiram de “modo a merecer aplausos”. E, novamente, enquanto a “Voz da Justiça” refere, por exemplo, que “os coros – firmes como os vimos mesmo em alguns números de grande dificuldade, equilibrados, afinados sempre”, o crítico de “O Figueirense” diz que “as canções ao desafio, essas foram uma lastimazinha, que até faziam pôr em pé os poucos cabelos do maestro Simões...”.
Pelo aniversário, comemorado em Janeiro de 1927, houve a inauguração de um novo melhoramento: “a grande e magnífica sala de baile, que será montada em toda a sala de espectáculos e construido prolongamento do palco, por meio de estrado desmontável, a todo o comprimento e por sobre a plateia”. Este estrado foi adquirido por subscrição promovida entre os sócios. Bem nos recorda que, mal acabavam as cerimónias das sessões solenes, iamos a correr mudar de roupa para, ajudando o Jorge Monteiro e outros, saborearmos a “sopa de estrado”, como diziamos, ou seja, ajudar à sua montagem. O serão da segunda-feira seguinte era para o inverso , pois tinha que se desmontar e arrumar rapidamente todo o material, porque a sala de espectáculos era necessária para os ensaios do teatro. Era, realmente, uma grande trabalheira...


Como breve apontamento ao espectáculo deste aniversário, recortamos a nota de que “a orquestra, muito bem constituída, deu grande brilho à récita, que teve um certo cunho de distinção. A assistência ouviu com prazer e premiou com muitas palmas a difícil e linda ouverture da ópera “Nabucodonusor”, de Verdi, que teve uma boa execução e a canção da zarzuela “Filhos de Zebedeu”, de Chapi. António Simões viu assim coroados de êxito os seus esforços, e por isso bem mereceu os elogios e parabéns de que foi alvo”.

Fotos: 1 - Grupo cénico 1927; 2 - Grão Ducado de Tavarede (Conselho de Ministros)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Laranjas da China... do pomar de Tavarede...


(Dízimo - Século XVII)


- Extractos de cartas que D. Vicente Nogueira, agente
secreto de D. João IV em Roma, dirigiu ao Almirante, 1º
Marquês de Nisa, D. Vasco Luiz da Gama, com referên-
cias às afamadas laranjas de Portugal. -



.... e quanto ás laranjas tem pasmado Roma, onde nunca se virão; e não ha perdido pivide que não se semeasse; e estão com grand.ma curiosidade, e esperança de enxertos; mas ao Card.l Barb.no agradecendo-me o presente, disse que V.S. era quem lho mandava: e que a elle se devia o agradecim.to, e que eu era quem lhe havia de pedir perdão, de não mandarlhe todas as 83 e não soos 36, mas que repartindose por Cardeais prelados e S.res tão seus amigos, podia crer que o aprovaria, como o fez, disseme se poderia eu acabar com V.S. lhe mandasse hûas pollas (diz elle que assi se chamão ca, as varas que vem p.ª enxertar) eu lhe disse que o que V.S. não fizesse por hum acenno seu, não faria por outrem. e que eu em seu nome as pediria a V.S., e contandoho a fr. di.º cesar me faciliton dizendome que V.S. as tinha já mandado a frança por Ruão a hum personage francês para o seu jardym, como elle ally soubera de certo. V.S. me responda capitulo que eu mostre ao Card.l... (carta de 30 de Abril de 1650)


..... q.to ás laranjas tenho grande medo que cheguem todas podres, e que não se nos luzam tão felizm.te, como as passadas, porque tardou a náo em chegar desde Lisboa a Liorne 19 dias, e alli estão ainda as laranjas ha ia 24 dias, sem ainda serem partidas; e o S.or Cardeal meu S.or beia m.tas uezes as mãos por os tres pees de larangeira, que V.S. me escreue lhe manda que auererá D.s cheguem em bom stado; outros dous pees lhe manda o P.e Nuno da Cunha, e contão os passageiros (porque ainda cá nada chegou) que as do P. Nuno uem conçertadas, e cerradas numas gelozías tão estreitas e perfeitas, que cuidão se igualarão ás que ficarão em Lisboa, e tambem o D.or Arroyo traz nesta mesma náo outros pees de larangeira, sendo as prim.ras, que ca se uirão, e tanto admirarão as que V.S. me fes M.ce mandar por Luiz Alues, e eu cuido da rara bondade deste terreno que hão de ser melhores, que em Lisboa, e na própria China, porque não vem fruito de fora, que aqui não melhore... (carta de 8 de Maio de 1651)



.... Sentença dada a favor do Cabido e seu rendeiro
Francisco Fernandes Branco contra João de Brito de
Figueiredo, de Tavarede, pela falta de pagamento de
dizimos de sete anos sôbre laranjas da China e mais
frutos e colmeias....

“Pª. o Cartorio do mto. R.do Cabido.

“ Sn.ca que ouue o m.to Reuerendo Cabido de Seu Red.ro Fr.co Frz branco contra João de Brito de Figueiredo do Couto de Tauarede Sobre os dizimos de Laranjas da China, e outra mais nouidades

O Doutor Diogo Gomes Vigario geral nesta Cidade de Coimbra, e todo Seu Bispado pello Illustríssimo Senhor Dom João de Mello por merce de Deos, e da Santa See apostolica Bispo de Coimbra Conde de Arganil, Senhor de Coja, e do Conselho de Sua Magestade &ª. a todos os m.to R.dos Prouizores Vigarios gerais, e forencios, e bem assim a todos os Senhores Corregedores, Prouedores, ouuidores, Julgadores, Juizes, e Justiças officiais, e pessoas deste Reyno, e Senhorios de Portugal aquelles a quem, e perante quem e aos quais esta minha, e mais verdadeiramente Carta de Sentença Ciuel, de ação dalma tirada, e resumida dos autos do processo dada, e passada por meu mandado, e a requerim.to de partes que a pedirão, e requererão for apresentada, e o Conhecim.to della com direito directam.te deua, e aja de pertencer, e seu Comprim.to e deuido effeito Se pedir, e Requerer, por qualquer modo via, e maneira que Seja, Saude, e paz pera todo Sempre em Jesus Christo nosso Senhor, e Saluador que de todos he verdadeiro Remedio Saude, e Saluação Faço lhes a Saber em como em este meu Juizo Exxlesiastico desta dita Cidade, e bispado, e perante o Reuerendo Dourot João de Almeida meu antecessor, e perante elle Se tratarão, e processarão, e finelm.te Sentenciarão huns Autos de feito de causa Ciuel, de Dizimos de Laranjas da China, e reçoens e de outras mais nouidades de ação dalma de Cominação ordenados entre partes da hûa como Autores o Reuerendo Deão, Dignidades, Conegos, Cabido da Santa See desta dita Cidade em seu nome e de Seu Rend.ro Fr.co Branco que o foi da Renda do Couto de Tauarede Renda Nossa, e Reeo da outra João de Brito de Figueiredo morador no dito Couto de Tauarede a qual causa era Sobre e por rezão que do ao diante Se fará mais larga, expressa, e declarada menção. Pellos quais Autos, e termos delles entre outras mais cousas em elles contheudas, e declaradas Se mostraua “Que no Anno do nascimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil, e Seis Centos, e outenta, e tres annos aos vinte, e outo dias do mes de Abril do dito anno nesta Cidade de Coimbra e passo do auditorio Ecclesiastico della em publica audiencia que aos feitos, e partes estaua fazendo o dito meu antecessor o Doutor João de Almeida Ahi na dita audiencia parecerão o Lecenciado Manoel de Freitas, em nome e como Procurador dos ditos Autores o m.to R.do Cabido da See desta cidade, e Seu Rend.ro Fr.co branco que o auia Sido da Sua Renda Sita no dito Couto de Tauarede, e seus arredores por elle fora dito, e requerido que à sua petição p.a a presente audiencia estava Citado o Reo João de Brito de Fig.do morador no dito Couto de Tauarede p.a vir jurar pessoalm.te em Sua alma o quanto lhe estaua a deuer de Sete annos de dizimo, e reção de Laranjas da China, como de outras frutas, e Collomeas por tudo lhe quererem deixar em Sua alma, e que não vindo pessoalm.te jurar Ser cõdenado de Cominação no que declararem Se estaua a deuer por Seu Rendeiro Requerendo o mandasse apregoar pello porteiro do Auditorio e que apregoando o, e não parecêdo a Sua Reuelia o ouuesse por Citado p.a o que dito era, termos juis athé final Sentença dada no Cazo, e o tornasse a mandar apregoar pello porteiro da Auditorio Ecclesiastico, e não parecendo à Sua Reuelia o tornasse a auer por Citado p.a o que dito era termos, e autos judiciais, e tornando a apregoar, deu fee não parecia a Sua Reuelia mandasse ficasse esperado pera a primeira audiencia o que visto pello meu dito antecessor, e enformado de fee da Citação Ser feita ao Reo João de Brito de Fig.do o mandara apregoar, e o fora pello porteiro do auditorio que o apregoara, e dera Sua fee não parecia, e à Sua Reuelia o ouuera por Citado p.a todo o que dito era, termos, e autos Judiciais athe final Sentença dada no Cazo, e o tornara a mandar apregoar, e o fora pello mesmo porteiro do auditorio que o tornou a apregoar, e deu Sua fee não pareceia e a Sua Reuelia mandara ficasse esperado à primeira audiencia &ª Segundo que todo estou assim e tão Compridam.te Se Continha, era Contheudo, e declarado em o dito termo de aução, e Citação dos ditos autores, que Sendo assim feito, e Continuado pello Escriuão que esta Sobescreueo a quem for destribuida a aução a elle Se ajustara a petição, mandado, e procuração dos Autores, e Sendo tudo junto aos ditos Autos outroSim Se mostraua que aos quatro dias do mes de Mayo de mil, e Seis centos, e outenta e tres annos nesta Cidade de Coimbra e no passo do Auditorio Ecclesiastico della em publica audiencia que aos feitos, e partes estaua fazendo, o dito meu antecessor o Doutor João de Almeida Arcediago da Santa See desta dita Cidade Ahi parecera o dito Lecenciado Manoel de Freitas Procurador dos ditos autores o R.do Cabido da Santa See desta dita Cidade, e de Seu Rendeiro Fr.co Fernandes branco Rendeiro do dito R.do Cabido Sita no Couto de Tauarede deste dito bispado, e por elle fora dito, e requerido ao dito meu antecessor que da audiencia passada à sua petição ficara auido por Citado e esperado à presente o dito Reo João de Brito de Figueiredo morador no dito Couto de Tauarede pera vir jurar pessoalmente em Sua alma o quanto lhe estaua a deuer de Sete annos de Dizimo, e Reçoens de Laranjas da China, e de outras frutas, e Collomeias por lho querer deixar em Sua alma Com Cominação de que não vindo jurar pessoalmente Ser Condenado de Cominação no que declarasse o Rendeiro delle Reuerendo Cabido Francisco Fernandes branco que presente estaua na dita audiencia pera declarar por Seu juramento o quanto lhe estaua a deuer de Dizimos, e Reçoens de Laranjas da China, e de outras frutas de Sete annos que Requeria o mandasse apregoar pello porteiro do auditorio e que apregoando o e dando Sua fee elle não parecia o condenasse, e ouuesse por Condenado ao dito Reo João de Brito de Figueiredo de Cominação no que o dito Seu Rendeiro dos Autores,
e Autor Francisco fernandes branco que presente estaua na dita audiencia declarasse, Sem juramento o quanto lhe estava a deuer, e nas custas dos Autos da dita aução o que visto pello dito meu antecessor, Seu Requerimento, e informado de todo o Sobredito o mandou apregoar ao dito Reo João de Brito de Figueiredo, e o fora pello ditoporteiro do auditorio, e que apregoando o dera Sua fee elle não parecia e à Sua Reuelia por estar prezente o dito Rêdeiro dos Autores Francisco Fernandes branco, e declarar que o dito Reo João de Brito de Figueiredo lhe estaua a deuer de Sete annos de Dizimos, e Reçoens assim de Laranjas da China, como de outras frutas, e Collomeias quarenta mil reis, e pello declarar que bem, e verdadeiramente lhe estava a deuer, e aos autores, a ditaa quãtia, Condenou, e ouue por Condenado de Cominação ao dito Reo João de Brito de Figueiredo pero os ditos autores nos ditos quarenta mil reis, que declarado tinha lhe estaua a deuer, e nas Custas dos autos da dita aução de que mandou fazer termo de Condenação que assinou &ª Segundo que tudo esto assim, e tão Compridamente Se Continha, era Contheudo, e declarado em o dito termo de Condenação e Sendo assim feito, e assinado pello dito meu antecessor o Doutor João de Almeida, Ora por parte dos m.to Reuerendos Autor o Reuerendo Cabido, que pela Conseruação do Seu direito, e Justiça, e de Se por em Seu Cartorio a presente minha Sentença lha mandasse dar, e passar dos autos do processo minha Carta de Sentença pera Conseruação de Seu direito, e Justiça e Se por em Seu Cartorio, e mandei Se lhe passasse como nella Se Contem, e vai rellatado, e como pello dito meu antecessor he julgado Sentenciado, determinado, visto e mandado Sem duuida, nem embargo algum, que a ella Se ponha, nem seja posto em Juizo, nem fora delle, Pella qual Condenou o dito meu antecessor, e ouue por Condenado ao dito Reo João de Brito de Figueiredo pera os Autores nos quarenta mil reis de Cominação que seu Rendeiro Francisco Fernandes branco declarou lhe estaua a deuer de Dizimos, e Reçoens de Sete annos assim de Laranjas da China, como de outras, frutas, e Collomeas, e nas Custas dos Autos tudo na forma, e maneira do termo da condenação atràs escrita Julgado por Sentença. E Sendo ella assim dada, e publicada por parte do Reo João de Brito de Figueiredo Sendo elle Condenado no pedido pellos Autores e no proprio dos Dizimos, e custas, e depois da Sentença Sellada, e assinada della por Seu Procurador veio a pidir vista, e entre muitos requerimentos que de parte a parte ouue a ella veio com embargos os quais vindo me conclusos entre muitos requerimentos os pronûciei por çeo despacho no theor Seguinte &ª.


Julgo os embargos Recebidos por não prouados e mando Se cumpra o monitorio Embargado, e Se de à Sua deuida execução Coimbra em mesa de Março quatro de Seiscentos, e outenta, e Sete - Doutor Costa - Spinola - Mesquita - Leitão. Segundo que todo este assim, e tão cumpridamente Se continha, e era Contheudo, e declarado em o dito meu despacho, Sendo assim por mim dado, e publicado em audiencia publica que aos feitos, e partes fazia o Lecenciado Manoel Rodrigues Botelho de minha Commissão aos outo dias do mes de Março de mil, e Seiscentos, e outenta, e Sete annos, no passo do auditorio Ecclesiastico desta dita cidade, E Sendo o dito Despacho assim publicado à Reuelia destas partes, e Seus Procuradores dando sse dos ditos autos vista ao Procurador do dito João de Brito de Figueiredo, os deu com hûa cotta dizendo não ter informação por bem do que e a requerimento dos ditos autores o Reuerendo Cabido da Santa See desta Cidade foi requerido lhe mandasse dar, e passar minha Carta de Sentença dos Autos do processo pera Seu titulo, e Conseruação de Seu direito, por bem do que Se lhe passou a presente que mando Se cumpra, e guarde muito inteiramente, como em ella Se Contem, e vai Contheudo, relatado, e Sentenciado Sem Embargo algum que a ella Se ponha ou Seja posto em Juizo, ou fora delle, E pera de tudo constar a todo o tempo, a Requerimentos dos ditos autores Se lhe passou a presente minha Carta de Sentença que vai por mim assinada, e Sellada com o Sello do Illustrissimo Senhor Bispo Conde que ante mim Serue em os doze dias do mes de Agosto de mil e Seiscentos, e outenta, e outo annos - Pagou de feitio desta minha Carta de Sentença trezentos, e Cincoenta reis, e do Sello nada por ser do Reuerendo Cabido. Antonio Collaço a Sobescreuj
Diº Gomes
Ao Sello---------------------------------------------------------------------------Cabido
Ao Escriuão ---------------------------------------------------------------------- 350

Sentença pª. o Cartorio do Reuerendo Cabido”

(autenticada com o selo do Bispo Conde D. João de Melo: seis besantes entre uma cruz dobre e bordadura, pôsto num losango de papel colado à sentença por obreia.
No verso do documento: S.na per que se iulgou neste juizo Ecclesiastico do Vig.ro G.al que os dizimos das Laranias da China com as Murciarias, e colmeias do Couto de Tauarede pertensem e se deuem ao R.do Cabb.do.e pertensem e se deuem ao R.do Cabb.do.
G. 13 R. 2º m. 2º nº 36)


(Album Figueirense)
Fotos: 1 - Laranjas de Tavarede (Ecos da Terra do Limonete - 1981; 2 - Ana Maria Caetano (Laranja - Marcha do Centenário - 2004)

Um baptismo do ar - Medina Júnior

Desde que um dia poisei em Sintra, onde existe a Escola de Aviação da Granja do Marquês, que em meu íntimo prevalecia a grande vontade de voar, por môr de ver e admirar, do país dos passarinhos, tudo isto cá por baixo, por onde caminha a raposa - como pitorescamente dizem aqueles que, a respeito de voar...
...que vôem os outros, pois se encontram bem mais seguros em terra firme, calcurriando estradas e caminhos, montes ou vales...
Porém, e sem pretender ser mais valentão do que êsses outros, a ideia foi-se arreigando cada vez mais em meu espírito - e um dia dispuz-me a pedir que me voassem.
Não sei porquê, nunca me inclinei muito a pedir tal favor aos distintos e ilustres oficiais-aviadores da Granja do Marquês, que é possível não viessem a estabelecer qualquer dificuldade.
Todavia, não duvidando, de forma alguma, da sua honrosa competência, e não sendo bem medo da minha banda, mas uma coisa parecida, eu fui-me recordando das barbas do vizinho...
...e imediatamente punha as minhas de môlho.
É que na Granja - di-lo a fama, que possivelmente é filha dalgum proveito - os ilustres pilotos pintam-se por ferrarem a sua partidinha aos futricas caloiros do ar, e vai daí, esta ideia, se me fazia rir, também me causava a tal coisa a que, por desmedida benevolência do têrmo evocativo da dura verdade, se deve chamar... falta de coragem... - ou receio, como queiram...
Receio por mim, nem entendido, que não desejava tornar-me alvo dos duestos alheios, tanto mais que tão honroso e nobilitante profissionalismo não foi, não é e nem será nunca o preferido pela veia que caracteriza a minha vocação para qualquer coisa de útil cá neste mundo...
* * * * *
Tenho lido, em diversos jornais e revistas, que lá fora, nos outros países, onde a Aviação tem seus foros de formidável (refiro-me, apenas, à quantidade e qualidade de aparelhos), é tarefa facilima proceder-se ao baptismo do ar seja de quem fôr que manifeste êsse desejo. Mais: que a rapaziada firme da Imprensa tem seu quê de privilégios sôbre outras quaisquer pessoas.
Ora esta distinção pelos jornalistas é absolutamente aceitável, se atendermos à delicada missão dos mesmos. É que, através da Imprensa, dos grandes como dos pequenos orgãos, só se pode fazer uma boa e acertada propaganda da Aviação - voando-se.
Os “reporters” tomam lugar num avião. Dão o seu passeio mais curto ou mais longo. Vêem, observam bem a sublimidade do ineditismo, experimentam as múltiplas sensações do vôo. Aterram. A alegria, o prazer, a satisfação experimentados no passeio, reflectem-se, depois, nas colunas dos jornais, onde, decididamente, não vão dizer o contrário do que de belo se disfructa do ar e da superior comodidade a bordo do veículo alado, pois tal seria utópico, inconcebível, anti-jornalistico.
E o que advem destas boas descrições, feitas consoante a inteligência de uns, a sensibilidade e sensação de outros?
Decididamente, uma rica propaganda para a Aeronáutica, que para tantissima gente ainda é considerada aventura de doidos. Assim mesmo: aventura de doidos...
No nosso país, infelizmente, ainda se não olha para a Aviação com aquele respeito e carinhosa consideração que lhe são devidos - por justiça. Para muitos portugueses, um avião é um engenho de morte. E quem neles se mete dentro - é um doido!!...
A “nossa” eterna tacanhez em tudo...
O avião, enquanto a nós, é a mais formal demonstração do quanto pode e vale o génio humano.
Disse alguém: “A Aviação é a Vida. Ela tem de ser olhada pelo que vale e nunca como um agrupamento de máquinas barulhentas e perigosas que, dirigidas por “desiquilibrados”, sulcam o espaço, rasgando curvas elegantes e vistosas nas suas evoluções audazes e acrobáticas, num desafio à morte! Não! Nunca! Voar não é morrer! É sentir a vida, sem peias, prenhe de liberdade, de fôrça, de inteligência, de domínio. O Avião deve ser julgado pelos que amam a Vida, pelos que querem Viver, como uma sacudidela acertada do Progresso, absolutra e indiscutivelmente prática e de vantagens inumeráveis para as necessidades da época em que é dado viver. O Avião frágil e aparentemente pouco seguro, é a chave da vida moderna”.
E é assim mesmo.
Desastres...
... quem dêles não é vitima, num automovel, numa motocicleta, num simples carro tirado a dois cavalos velozes ou a uma junta de bois pachorrentos?
E quem dêstes não é vitima inocente quantas vezes?
*****
Fui há dias almoçar com o meu estimado amigo, sr. tenente Humberto da Cruz. Contei-lhe a minha vontade - que poderia ser uma jornalicite aguda. Sorridentemente, o heróico dominador do espaço disse-me:
-Pois sim. Apareça você, um dia, bem cedo, na Amadora. Tenho muito prazer em ser o padre que ohá de baptisar no ar...
-Oh “velho” tenente (eu chamo-lhe “velho” tenente, porque o sinónimo abrange duas coisas: somos amigos desde a infância; e o glorioso Aviador apegou-se aos dois galões anda por doze anos...): fico-lhe muito grato pela sua franca acquiescência aos meus desejos, mas quero, ao mesmo tempo, pedir-lhe um favor: que não me ferre partida... - no ar.
*****
Após uma animadora garantia, eu aguardei, impacientemente, o dia do baptismo - que chegou, finalmente.
Manhã cedo. Sol doirado sombando sôbre o país terreno. Amadora. Os “hangars”. De lá de dentro, quais ninhos gigantescos guardando, tranquilamente, um bando de aves enormes adormecidas ao calor das próprias asas, sai a primeira. É uma avioneta ligeira, branquinha como uma pomba, parecendo sorrir-se para o sol, por a haverem libertado dali. Tinha ânsias de voar...
Velozmente, salta para seu seio, o pulso forte que a sabe dominar...
Depois, devidamente equipado - salto eu. Amarram-me. Os mecânicos riem-se...
... para mim. Eu retribuo a “gentileza”...
Contacto. As hélices movem-se, arrastando, atrás de si, uma nuvem enorme de terra pardacenta que jazuia no solo...
A ave, como que sentindo pejo de estar ali, corre, célere, campo em fora. Quási sem dar por isso, sinto-me no ar. Cinquenta metros, acusa, na minha frente, o altimetro. Cem metros. Duzentos, trezentos, etc. O ponteiro das rotações da hélice acusa um número que quási se segura sempre em 185 por minuto. A marcha faz-se a mais de 170 quilómetros à hora...
Voámos direito a Mafra. A gradação de cambiantes dos montes e dos vales, das várzeas e dos vergeis, a 500 metros e 600 metros, assemelham-se, francamente, a uma colgadura gigantesca, feita de pedacitos diversos de chitas polícromas que a mão habilidosa de uma senhora de bom gôsto soube aproveitar e congregar...
... sôbre elas se espreguiçando, em zigue-zagues voluptuosos, cobras muito compridas, brancas, umas; pretas, outras...
São as estradas.
Mafra. O secular convento. Passámos sôbre um amontoado de caixas de fósforos bem delineadas...
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Tôrres. Caldas da Rainha. S. Martinho do Pôrto. Que maravilha, a enseada de S. Martinho do Pôrto, vista lá de cima, do país das gaivotas...
Pinhal de Leiria, no seu manto verde-negro que encanta... A orla do mar imenso, no seu esmeraldino forte, por vezes manchado, aqui e acolá, pelo ensombrado das nuvens de puro algodão em rama... A espuma branquíssima das ondas, espreguiçando-se, lânguidamente, nas areias cintilantes das praias...
Tudo tão lindo! Tudo tão belo! Tudo tão formidável assunto, digno de descrição pela pena privilegiada de quem soubesse...
Eu confesso a minha insuficiência e eterna pequenês intelectual ante tão elevado altar de Ubérrima Beleza...
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Figueira da Foz à vista! A mão forte e vigorosa do “velho” tenente bate para a carlinga deanteira onde eu ia - felizmente tão decente como quando entrei no “barquinho”... Era a chamar a minha atenção para a nossa terra à vista...
O meu coração deu um estremeção fortíssimo - muito mais forte do que aquêles dois estremeções do avião, entre Caldas e S. Martinho do Pôrto, que eu supunha ser real partida do meu rico condutor, mas que foram devidos (soube-o na Figueira), a dois “senhores” poços de ar que ali existem...
Estamos sôbre a cidade moderna, a cidade bem delineada que é a minha terra. Casas gigantes, médias ou pequenas, são, para meus olhos, um amontoado polícromo de quadros simbólicos, bizarros, jactantes, que embevecem a avidez de meus olhos e embriagam o bairrismo de meu coração...
Nunca tinha visto, de tão alto, a minha terra! Conheço-a, como conheço as minhas mãos - e perdi-me, “dentro dela”, na carlinga de um avião...
O querido tenente adivinhou o meu pensamento: sobrevoar a Figueira a diversas alturas - para me maravilhar bem nela...
A Praça Nova... A Praça Freire de Andrade... O Bairro do Pinhal... O imponente Bairro Novo... A magestosa Praia... O poético Rio Mondego...
Tudo, tudo é lindo, ali, visto do ar... - ou em terra...
E o berço em que eu nasci? A Tavarede-burgo, tanta vez cantada por poetas e trovadores.. A terra da lúcia-lima...
A terra onde tenho, felizmente vivos, os meus queridos Pais, os meus irmãos - a minha família, os meus amigos, emfim...
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Murraceira. Campo “Humberto da Cruz”. Aterragem bonissima. Eu receiava a sensação da aterragem. Não é, afinal, aquilo que me diziam. Custa mais descer o elevador de Santa Justa...
O “homem do leme” salta em terra. Eu não sabia desamarrar-me. Ri-se, de mim, neste particular, o amigo tenente Cruz. Tira-me das correias fortes - e sorri-se, então, para mim...
Estávamos ambos contentes. Êle, por me ver bem disposto e alegre que nem um pardal que tem a ventura de se escapar à boca tigrina de um gato. Eu, por ver no tenente um companheirão para estas coisas de baptisar um sujeito no ar...
...sem novidade de espécie alguma - felizmente...
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Abraços. Vêm os primeiros abraços. Um rapaz alto, forte, varonil, que se conduz, ali, de bicicleta. É o meu irmão Ricardo. O mais novo do “quinteto” Medináceo...


Depois...
... quási na Ponte que atravessa o Mondego, uma mulher a correr...
... a correr muito...
Era minha Mãi! Sedenta de beijos, aquêle coração de oiro do mais puro e valioso, nunca supôs o seu filho mais velho capaz de uma odisseia assim...
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E lá fui, cheiinho de respeito e consideração, assistir ao grande beijo da Mãi Cruz ao seu queridíssimo Filho, ao seu Idolo, ao seu Amor - à sua Vida...
Eu também sei entrar na “catedral do Bem” - e beijar Santas assim...
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Passámos um rico dia na nossa terra. Mas mesmo um rico dia, francamente.
Depois, às 6 e meia da tarde, avião em marcha e a praxista marcha do tenente amigo sôbre o sagrado lugar onde repousam os restos mortais de seu saudoso Pai, em beijo de devoção por Êle, significando “adeus” - e tomámos a direcção do mar, que contornamos...
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e daí a pouco estamos, por outros “caminhos”, em Peniche, Berlengas, etc. Eu como, com imenso apetite, cerejas vermelhas que numa saca minha irmã Violinda havia levado ao mano aviador...
Eram, na Figueira, a cruzado o quilo! Em Sintra corriam a três mil reis...
Merecia pois a pena ir buscar uma saquinha de seis quilos delas, de avião, ali abaixo à terra...
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Estamos na Ericeira. Olhem que a Ericeira, vista de um píncaro assim, não é nada feiota, não senhores...
Depois... Colares - e Sintra. Que amor! Sintra! O vetusto Castelo dos Mouros e o magestoso Palácio da Pena sempre são muito anõesitos...
E o Palácio Nacional da Vila, ainda mais...
Vão. Vão lá acima ver e depois digam-me se tenho ou não razão em tal afirmar...
Anões, vistos da escada altíssima de onde eu os vi num relâmpago. Grandes, sempre muito grandes, vistos de onde quási tôda a gente os vê, os contempla, e os admira com ternura e embevecimento: em terra, no país das raposas,
onde se ergue o idilio terreal que enebriou Byron, inspirou Garrett - e nos embriaga a todos, seus sinceros e verdadeiros admiradores a amigos...
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Amadora. Aterragem. No firmamento amplo e limpo, começavam a notar-se os primeiros filões ígneos, denunciadores de um dia, mais, que tombava no regaço enigmático das trevas da noite que surgia...
A “ave” gigante, saciados os seus desejos de liberdade, ía recolher ao ninho enorme, onde a aguardavam, em carinhoso sorriso, tôdas as suas “irmãs”, possivelmente despeitadas pela sorte dela naquele dia...
... em que se registou o meu baptismo do ar - e o casamento da minha satisfação com o orgulho de voar com o “velho” tenente Humberto da Cruz...
... que não fêz, realmente, a sua partidinha ao “caloiro” que, em pouco mais de duas horas, percorreu o inesquecível itinerário de Amadora - Figueira da Foz - Amadora, quando, de combóio vulgar, são precisas algumas 13 ou 14 horas!
Abençoada seja, pois, a Aviação de todo o mundo - e o meu rico padre Cruz...

Sintra - Junho-935 - António Medina Júnior

(Copiado do Album Figueirense - 2º. ano)

Fotos: 1 . António Medina Júnior com o então Tenente Humberto da Cruz, antes da partida da Amadora; 2 . O irmão Ricardo, ciclista amador, com alguns prémios recebidos