segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 15


Foi um ano histórico, o de 1928, para a Sociedade de Instrução. A sua secção dramática teve uma actividade extraordinária. Bastará dizer que, no relatório da direcção, se escreve “... seja-nos permitido dizer que esta verba (17.000$00), nunca até hoje atingida em espectáculos de anos anteriores, representa um esforço de grande valor e digno da maior admiração e reconhecimento de todos os que fazem parte desta Sociedade, para com o seu grupo dramático...”.
Antes de pormenorizar um pouco do que se realizou em espectáculos, vamos transcrever mais um pouco daquele relatório, mas, agora, sobre a escola nocturna: “... tinha esta direcção o maior empenho em transformar completamente a sua escola, dotando-a com um professor efectivo profissional, apetrechá-la com o necessário material escolar e ainda introduzir-lhe alguns melhoramentos internos e o rasgamento de portas e janelas necessárias para a tornar, enfim, aquilo que de facto deve ser uma escola de primeiras letras: Higiénica, Alegre, Atractiva, Confortável e Útil”. Boas intenções, sem dúvida, mas que só parcialmente foram realizadas, por falta de verbas.
Pelas comemorações do 24º aniversário, Tavarede esteve em festa, “sendo evidente o entusiasmo e alegria com que a população se associou ao regozijo dos associados da colectividade, cuja acção educativa vem sendo proficuamente exercida há mais de duas dezenas de anos”.
Fez parte do espectáculo de gala mais uma revista sobre os usos e costumes da terra do limonete. Foi seu autor José da Silva Ribeiro, com versos de Gaspar de Lemos e a música era de António Simões. Chamava-se “Retalhos e Fitas”. Pelo Carnaval, além desta revista e de uma comédia, representou-se D. Ferrabrás de Alexandria, tragédia burlesca, em verso, com música e representada duma “maneira original”. Quando lemos esta notícia, logo nos veio à memória nossa tia Helena Figueiredo Medina, que, quando se encontrava bem disposta, já centenária, evocava tantas vezes esta peça, começando com “um dia, numerosa cavalgada...”, continuando o seu recitativo sem hesitações e com uma memória admirável.

E em Abril de 1928, mais precisamente, no dia 28, é levada à cena aquela peça que se tornaria no emblema maior do nosso grupo cénico, “O Sonho do Cavador”. Uma das muitas notícias de então, depois de comentar a estreia da peça, conclui “em resumo: O Sonho do Cavador marca em Tavarede, que é uma pequena e bem pobre aldeia, um acontecimento de certo relevo artístico”.
Mas, qual terá sido a razão para tão grande sucesso? “A peça encerra a história, que é apresentada com fantasia dentro da qual a verdade tem lugar, dum cavador que a ambição da riqueza leva a abandonar a aldeia, depois de atirar fora a enxada e amaldiçoar o trabalho. Como trabalha desde pequeno, julga ter conquistado o direito à felicidade – e para ele – a felicidade não se encontra fora da riqueza e esta não se alcança cavando a terra. Na própria ambição encontra o castigo do seu erro; vê-se mais pobre do que era, e as figuras simbólicas dos três homens felizes mostram-lhe como os pobres, os humildes, também, podem gozar a felicidade; o cavador regressa à aldeia, onde o esperam ainda a enxada leal e a noiva fiel – e a peça fecha com o elogio da vida simples e humilde do

campo, na qual a saúde do corpo anda sempre junta à alegria da alma”.
É este o fio condutor da peça, desde a abertura, com a sesta do Manuel da Fonte em que, mais uma vez, ele sonha com a riqueza, e o final, em que o cavador, guiando a charrua puxada por uma junta de bois, abre os sulcos na terra, onde, um pouco atrás, Rosa, já sua esposa, vai espalhando a semente.
Pelo meio, no decorrer nos dez quadros que compunham a versão primeira, desfilavam cenas e figuras caracteristicamente tavaredenses, como o cortejo da Merenda Grande, e figueirenses, com a presença do afamado Concurso Hípico.
Grande parte do êxito é da responsabilidade dos 28 números de música, que compõem a partitura da maestro amador António Simões. A quinta representação, em 26 de Maio, é em sua homenagem. “António Simões foi alvo duma ovação no final do primeiro acto, ovação que se repetiu calorosamente no fim do espectáculo, quando, em nome dos intérpretes da peça, lhe foi entregue um lindo ramo de cravos. O palco ficou coberto de flores”.

Fotos: 1 - O Tio João da Quinta, dando o 'sim' à filha, Rosa e ao Manuel da Fonte. 2 - 3 - 4- As mesmas figuras em desenhos do Prof. Alberto de Lacerda

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Vitalina Gaspar Lontro

Recordei, ainda não há muito tempo, a minha estreia como amador teatral, pelo Natal de 1949.

Fazia o papel de minha mãe a Vitalina. Faleceu ontem, 20 de Fevereiro e foi hoje a sepultar no cemitério da sua e nossa terra: Tavarede.


Como todas as raparigas e rapazes dos anos 20, 30, etc., fez parte do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, fazendo a sua estreia em 1936, na peça 'Canção do Berço', com o papel de Sóror Maria de Jesus. Ainda no mesmo ano representou na reposição de 'O Sonho do Cavador'.

A partir de então e até 1955, muitas foram as peças em que interveio. A Morgadinha de Valflor, Entre Giestas, Recompensa, Envelhecer, O Grande Industrial, Horizonte, Génio Alegre, Raça, Pé de Vento, Serão Homens Amanhã, Ana Maria (que foi a última, em 1955), passando por muitas outras, como comédias, autos de Gil Vicente, etc.

Na primeira série do 'Chá de Limonete' fez os papéis de Chá, Sebastiana Luiz, A mulher da gamela, etc.
Em 1952 os amadores tavaredenses foram a Leiria apresentar a peça 'Raça'. Eis a nota que o crítico Miguel Franco, escreveu sobre a Vitalina: "D. Vitalina Lontro, curiosa na 'Viscondessa': duma comicidade, às vezes hesitante, mas sempre sóbria, elegante até. Merece felicitações especiais por ter conseguido dominar o quantas vezes indomável: o 'fácil' da figura, e ainda por outros motivos que se prendem com a estrutura da sua personagem e a maneira como foi compreendida, quando teria sido tão natural interpretá-la de modo diverso'.


Em 1994, comemorando os 100 anos do nascimento de Mestre José Ribeiro, a nossa conterrânea Ana Maria Caetano escreveu 'Palavras de uma Vida', na qual a Vitalina Lontro regressou ao palco da SIT para interpretar o papel dela própria, num acontecimento a que assistiu, aquando da prisão de Mestre José Ribeiro, quando ia com ela, a pé, para Tavarede, depois de um dia de trabalho.

A Sociedade de Instrução Tavaredense concedeu-lhe o diploma de Sócia Honorária em 1946.

Emigrante durante vários anos, regressou definitivamente à sua terra natal, onde viveu até agora. Que descanse em paz esta nossa conterrânea que agora nos deixou.
É muito interessante o seu depoimento publicado no livro do Centenário da SIT.
Fotos: 1 - Auto da Barca do Inferno "Anjo"; 2 - Chá de Limonete "O Forno da Poia" (segunda da direita); 3 - Em Tomar, nos anos 40 (primeira da direita)

O S. Paio e a sua capela

Hoje volto a escrever umas coisas sobre o S. Paio do Prazo e a sua capela.

Deveria, esta capela e este santo, ter bastantes devotos em Tavarede. No ano de 1564, o Cabido da Sé de Coimbra, proprietário de todo aquele local, enviou uma carta de confirmação 'para haver licença de bôdo, junto à ermida de São Paio, no Couto de Tavarede'.



Mas... quem foi este Santo? Vejamos a história deste santo segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira:

Pelágio ou Paio (S) - Mártir; festa litúrgica na diocese de Coimbra, a 26 de Junho. Era, ao que parece, originário de Tui. Tendo ficado cativo na batalha de Val de Junquera seu tio Hermoíglo, bispo de Tui, foi o jovem Pelágio, que contava apema 10 anos de idade, dado em reféns pela sua libertação. Enviadfo para Córdova, esteve encarcerado três anos, ao fim dos quais foi martirizado por ordem de Abderramão III. As actas do martírio foram escritas por um presbítero chamado Ragnel, pouco depois do acontecimento. Aí se diz que o menino passava o tempo na prisão lendo as 'Escrituras' e conversando com outros cristãos cativos ou que iam visitá-lo. Um dia foram ao cárcere uns ministros de Abderramão que, encantados pela sua beleza, falaram nele ao califa. Mandou este que o levassem à sua presença e tentou convertê-lo às práticas muçulmanas e atraí-lo a actos desonestos. Como o menino resistisse, mandou-o matar. Os algozes cortaram-no aos pedaços, ainda vivo, em horroroso suplício que durou três horas, das 11,3o da manhã às 2,30 da tarde, no domingo 25 de Julho de 925. Os cristãos de Córdova recolheram as relíquias, colocando a cabeça na igreja de S. Cipriano e o resto na de S. Gens. A fama do martírio espalhou-se rapidamente por toda a Península e em breve ultrapassou as fronteiras. Pelo ano de 960, uma poetisa, de origem saxónica, chamada Rowinta, consagrou-lhe uma composição em versos latinos. O culto de S. Paio tornou-se muito popular em Portugal, passados poucos anos depois do seu martírio. Há umas sessenta e cinco igrejas paroquiais que o têm como titular.

Surgiu-nos, então uma enorme surpresa! A imagem que representa o santo e que está no altar da capela não é, de forma alguma, a de um menino de treze anos! Já homem de idade, com cerrada barba preta, não é, de forma alguma, aquela beleza que encantou os ministros de Abderramão! Mas parece não haver dúvidas de que o S. Paio venerado em Tavarede é aquele martirizado menino.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

António de Oliveira Lopes

Nasceu em Tavarede no dia 9 de Fevereiro de 1903, filho de Joaquim Lopes e de Augusta G. Oliveira. Foi casado com Emília Rodrigues Cordeiro e tiveram um filho, António Francisco. Faleceu no dia 5 de Outubro de 1974, contando 71 anos de idade.
Fez a instrução primária em Tavarede, tendo por professora D. Maria Amália de Carvalho, de quem sempre se mostrou, em toda a sua vida, devotado admirador.


Continuou os estudos na Escola Dr. Bernardino Machado e empregou-se nos escritórios da Companhia da Beira Alta.
Desde muito novo que o associativismo o atraiu. Foi elemento activo nos corpos sociais do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, desempenhando o cargo de presidente da Direcção durante o período difícil que acabou por levar a colectividade a vender o edifício da sua sede e a terminar com a sua secção dramática.
Entretanto, dedicou-se com entusiasmo ao desporto. Como corredor pedestre, participou em variadas competições, nomeadamente em voltas pedestres à Figueira, chegando a campeão distrital da légua, numa prova disputada em Coimbra, em Agosto de 1923. O remo foi outra modalidade desportiva em que se distinguiu, integrando uma tripulação do Ginásio Clube Figueirense que se sagrou campeã nacional em 1931.

Prestou serviço militar em Coimbra, sendo soldado na bateria de Artilharia 2.
Enquanto colaborador do Grupo Musical, foi professor na escola nocturna, encarregando-se também da aula de ginástica. Esteve presente, igualmente, na fundação do Atlético Clube Tavaredense.
Foi ele quem adquiriu o edifício sede do Grupo Musical, nas condições da colectividade ali continuar a exercer a sua actividade, mediante o pagamento de uma renda mensal. Todavia, como a associação falhou a liquidação da renda, tendo um atraso de dois ou três meses, mandou executar uma ordem de despejo e acabou por vender a casa à Diocese de Coimbra que, por acção do padre Cruz Dinis, ao tempo pároco em Tavarede, ali instalou uma nova colectividade, o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense.
Abandonou temporariamente o associativismo para se dedicar à autarquia local. Entretanto, em 1955, foi eleito presidente da Direcção da Sociedade de Instrução Tavaredense, cargo que desempenhou em 11 gerências, até ao ano de 1969, tendo tido primordial acção nas obras de remodelação e ampliação da sede, inauguradas em 1965.
Desempenhou, ainda, o cargo de presidente da Assembleia Geral do Grupo Musical durante vários mandatos.
A sua acção principal em Tavarede, foi, contudo, como membro da autarquia local. Politicamente, nunca o ocultou, foi um fervoroso adepto do regime anterior, mas sempre utilizou a sua militância na defesa dos interesses da sua terra. Além de secretário e regedor, foi presidente da Junta de Freguesia durante 14 anos.
“Arranjo urbanístico de largos e alargamento e pavimentação das ruas, abastecimento de água ao domicílio na sede da freguesia, construção de lavadouros, recuperação de fontes para abastecimento de água às populações (a fonte de Tavarede, que embelezou, era a sua ‘menina dos olhos’), a electrificação pública de lugares da freguesia, ampliação do cemitério, etc., foram alguns dos melhoramentos que conseguiu realizar durante os seus mandatos”.
É claro que foi uma figura controversa. Tavarede tinha forte tradição republicana, o que acabou por originar algumas questões polémicas. Uma realidade ficou, todavia. Para ele, a sua terra estava sempre em primeiro lugar. Bastará ver, como exemplo, um telegrama que José Ribeiro, o grande defensor dos sagrados princípios da Liberdade e da Democracia, lhe enviou por ocasião em que um grupo de tavaredenses lhe promoveu uma homenagem como “justa consagração pública da obra bairrista”. “Alheando-me significado politico homenagem e reafirmando minha oposição actos políticos que condeno, junto meu aplauso aos de nossos patrícios louvando tua entusiástica dedicação, infatigável persistência ao serviço da nossa terra”.
Aquando do seu falecimento, escreveu-se numa notícia “… Tavarede perde um dos maiores obreiros do seu progresso. Na presidência da Junta, cargo para que foi eleito diversas vezes e a que só resignou por motivo de doença, ele desenvolveu notável actividade, realizando uma série de obras, que muito beneficiaram os diversos lugares da freguesia”.


Foi de sua iniciativa a homenagem promovida à primeira professora primária oficial da localidade, D. Maria Amália de Carvalho, e da colocação do monumento à criança no largo que tem o nome daquela professora.
Foi dado o seu nome a uma praceta em Tavarede, perto do Paço.

Caderno: Tavaredenses com história

Fotos: 1 - António de Oliveira Lopes; 2 - Acompanhando D. Maria Amália de Carvalho, aquando da homenagem que lhe foi prestada.

Fernando Severino dos Reis

Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 3 de Março de 1913, filho de Joaquim Severino dos Reis e de Etelvina Tondela. Casou com Carolina de Oliveira Alhadas, tendo uma filha: Maria Isabel.
Marceneiro e carpinteiro da maior competência, foi empregado nas oficinas dos Caminhos de Ferro, onde atingiu a posição de chefe de brigada, com que reformou.
Foi amador dramático de notáveis recursos. Começou no Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, de que seu pai havia sido um dos fundadores, e transferiu-se para o grupo cénico da Sociedade de Instrução quando aquela colectividade acabou com a sua secção dramática.
Também fez parte da célebre Tuna do Grupo Musical, onde tocava ”pandeireta”. Durante a sua longa carreira teatral desempenhou mais de cem “papéis”, começando, na Sociedade de Instrução, na peça Justiça de Sua Majestade e terminando em Comédia da Vida e da Morte, no papel de Conde do Laranjeiro, levada à cena em Outubro de 1980.
A Morgadinha de Valflor, O Grande Industrial, Entre Giestas, Génio Alegre, A Nossa Casa, Horizonte, Auto da Barca do Inferno, Raça, Frei Luís de Sousa, Serão Homens Amanhã, Catão, Israel, Ana Maria, Peraltas e Sécias, A Conspiradora, Os Velhos, As Árvores Morrem de Pé, O Dia Seguinte, Omara, Para Cada Um Sua Verdade, O Processo de Jesus, Romeu e Julieta, e O Avarento, foram algumas das peças em que figurou, desempenhando sempre papéis relevo.
Nas peças de sabor local, como O Sonho do Cavador, Chá de Limonete, Terra do Limonete, Cântico da Aldeia e Ontem, Hoje e Amanhã, além de outras, também deu a sua colaboração artística. Nestas, talvez as interpretações mais notáveis tenham sido a do Velho Tavarede e O Velho Palácio, em Chá de Limonete, onde compôs aquelas duas figuras com elevada craveira.
“Senhor absoluto do seu papel, conserva durante todo o espectáculo a mesma calma e o mesmo sentido de responsabilidade (Velho Tavarede)… ….surge o portão do palácio. Batem. Abre-se o portão e a figura do palácio de Tavarede aparece, gasta, alquebrada, mutilada. Voz fraca e cansada pelas injustiças dos homens. E a evocação surge – cheio de emoção e de mágoa pelo mal feito. Fernando Reis foi bem escolhido para o papel, desempenhando-o com magnífico acerto” (Chá de Limonete).
“… deu um Romeiro de que nada há a dizer que não seja um merecido elogio. Não podia pedir-se mais. E, como em Peraltas e Sécias lhe coube um papel de feição completamente diverso, igualmente desempenhado com impecável correcção, teve ensejo, pelo contraste, de revelar o seu real merecimento”. (Frei Luís de Sousa e Peraltas e Sécias).



A Sociedade de Instrução Tavaredense nomeou-o “Sócio Honorário” em 1979 e, em Janeiro de 1993, prestou homenagem à sua memória, descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre da colectividade.
“O Teatro faz parte da minha vida. Chega-se a uma altura em que se não pode passar sem ele”, disse, como resposta, a uma pergunta feita por um jornalista de Lisboa. “Faço teatro desde os 14 anos. Levanto-me todos os dias às 6 horas, para poder estar no emprego às 7,30, mas isso nunca foi motivo para deixar de ir aos ensaios”, dizia com certo orgulho.
Tinha dois passatempos: a pesca e os pássaros. Quando o verão se aproximava, ia colocar um tabuleiro com água, em pinhal escolhido, onde todos os dias ia renovar a água, para os pardais se irem habituando a lá irem beber. Depois, quando lhe parecia boa ocasião, levantava-se de madrugada e, ainda antes da aurora romper, ia montar a rede no bebedouro e fazer a barraca onde, pacientemente, aguardava a ida dos incautos pássaros a beber.
Fernando Reis faleceu no dia 1º de Maio de 1986, no Hospital da Universidade de Coimbra, precisamente naquele dia que ele mais aguardava durante todo o ano. Era um dos mais entusiastas participantes do grupo “Os Inseparáveis”, que nesse dia se reuniam em alegre convívio e confraternização.
Em Agosto de 1954, o grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense deslocou-se a Condeixa, onde apresentou a peça Frei Luís de Sousa. O palco foi montado ao ar livre. Na cena do incêndio, final do primeiro acto, ao pegar fogo a um cartucho que simulava o incêndio, uma fagulha foi incendiar um segundo cartucho, pegando fogo, inadvertidamente, às barbas e fato de Romeiro, pois já estava pronto para entrar em cena no segundo acto. Apressadamente foi levado ao hospital local para lhe ser prestado socorro. Já estava fechado, pelo que tiveram de bater à porta, com bastante violência, para um rápido atendimento. Este hospital era assistido por freiras. Quando uma delas abriu a porta e se deu de caras com aquela figura do Romeiro, desatou a fugir pelo corredor em altos gritos. Apesar das dores que estava a sentir, Fernando Reis não resistiu a soltar uma boa gargalhada! Foi uma situação sem grande consequência, mas que poderia ter sido bastante grave.
Sua esposa, Carolina de Oliveira Alhadas, (1911 – 1985), integrou o grupo dramático da SIT durante vários anos. Iniciou a sua participação em 1926 na opereta Noite de S. João.
O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, O Grande Industrial, A Morgadinha de Valflor e Entre Giestas foram algumas das peças em que interveio.
Em 1954, no espectáculo preparado para as comemorações das Bodas de Ouro, reviveu uma das suas antigas personagens.


Caderno: Tavaredenses com história
Foto: 1 - O Velho Tavarede (desenho de Zé Penicheiro - Chá de Limonete); 2 - Contracenando com Violinda Medina e Silva, na peça 'Ana Maria'; 3 - Casamento.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 11

Regresso, agora, às notas da actividade cultural atraz interrompidas. Em Novembro de 1924, a tuna e a secção dramática do Grupo Musical deslocaram-se a Brenha, à Troupe Recreativa Brenhense, onde deram um espectáculo com as peças “Um erro judicial” e “Medicomania”. E a 7 de Dezembro foram a Maiorca com o mesmo programa.

No espectáculo comemorativo do 13º. aniversário e da inauguração das obras, foram representadas, a comédia “A pega de toiros”, interpretada por Violinda Nunes Medina, José Medina, António Medina Júnior, Adriano Silva e Manuel Nogueira e Silva, e a opereta “A herança do 103”, com Violinda Nunes Medina, António Medina Júnior, José Francisco da Silva e Manuel Nogueira e Silva.

Em Janeiro e 1925 o Grupo Musical recebeu a visita dos amadores da Sociedade Filantrópica e Instrução, de Buarcos, que aqui apresentaram as peças “Os Reis Magos” e “O criado distraído”, que foram muito aplaudidas. No mesmo espectáculo, um amador do Grupo cantou, com muita graça, a cançoneta “Rebenta a bexiga”. E no dia 11 do mesmo mês, o grupo levou à cena o drama “Os reis de Peniche” (uma adaptação do Reis Magos) e algumas cenas pastoris. Neste espectáculo tomou conta da parte musical o figueirense Eduardo Pinto de Almeida.

No mês de Maio foram dar um novo espectáculo à Figueira, no Parque-Cine, com uma opereta entretanto posta em cena, “Ninotte”, da autoria de António Amargo, com música de Pinto de Almeida, e que já fora apresentada em Tavarede por mais de uma vez.

A 31 do mesmo mês, uma comissão de sócios organizou uma festa dedicada ao seu grupo cénico. Foi animadíssima e aqui deixo uma reportagem sobre a mesma:

“Noticiou “O Figueirense” a realização, em Tavarede, da festa das flôres, no Grupo Musical e d’Instrução.
Teve efectivamente lugar essa explendida diversão espiritual no passado domingo, decorrendo por fórma a satisfazer plenamente todos quantos a ela assistiram.
A comissão organizadora, constituída por António Victor Guerra, José da Silva Lopes, Joaquim Gomes d’Almeida, José Francisco da Silva, João d’Oliveira, Adelino Joaquim de Faria, Adelino Alves Pereira e António Medina - precisamente a mesma que há dias levou ao amplo Parque-Cine, da Figueira, a aplaudida opereta “Ninotte”, interpretada por 52 amadores - havia convidaddo vários cavalheiros dessa cidade a emprestarem, com o seu valioso concurso, um cunho de maior luzimento e brilhantismo a essa tão simpática festa, que era dedicada ao grupo dramático da florescente colectividade que na nossa terra está prestando um óptimo serviço à educação do povo.
E esses cavalheiros, duma cativante gentileza, acederam pronta e satisfatoriamente a esse convite e vieram.


Assim, e em cumprimento de um indeclinável dever de gratidão, não devemos olvidar esse favor grandioso, motivo porque ousamos servirmo-nos das colunas deste jornal para nelas perpetuarmos a nossa admiração veemente a Ildefonso Rosa, e a seu irmão Guilherme, guitarristas de mérito, que mimosearam com muita arte os orgãos auditivos da numerosa assistência, que num silencio sepulcral sentiu, como nós, vibrações na alma, ao som dos melodiososa acordes duns fadinhos tão repassados de sentimentalismo, tão portugueses...; a Raúl Martins, como os primeiros, amigo bem sincero, alma bem lavada de snobismos hipócritas, que cantou primorosamente alguns trechos, acompanhado pelos manos Rosas; e a José Mano, que recitou muitissimo bem poesias de vários autores.
Todos estes quatro amigos foram obrigados, pelos delirantes aplausos que expontaneamente partiam da assistência, a bisar todos os números com que se exibiram, tendo os guitarristas de retomar as cadeiras e tocar trechos bonitos e díficil execução. O Martins, cantou, a pedido, a “Louca”, por sinal com muito sentimentalismo. Possue uma boa garganta. Causa-nos inveja, acreditem.
Recitaram também versos e monólogos, além dos números dos figueirenses, a quem - diga-se sem favor - se deve o brilhantismo máximo da festa de domingo passado, vários sócios do Grupo Musical, como António Lopes, Manuel Nogueira e Manuel Cordeiro d’Oliveira.
Todos foram aplaudidos.
Recomeçou então o baile, tendo-se dançado animadamente até altas horas horas da madrugada, aos últimos acordes dum “one-step”.
Lastimamos deveras não termos vagar para nos alongarmos, em palavriado pobre mas bem sincero, na descrição minuciosa da festa de domingo - toda bem-estar, toda perfume e alegria - motivo porque para seu registo recorremos à lacónica notícia.
No entanto devemos afirmar em verdade que ela foi de molde a marcar mais um passo no bom caminho da vida do simpático Grupo Musical, que dia a dia, se nos vai afirmando uma colectividade muito útil e vitalícia.
- As salas do Grupo estavam engalanadas com ricas colgaduras e espelhos, predominando a policromia enebriante e encantadora das pétalas mimosas e dôdes das flores naturaes, banhadas de catadupas de luz clara e brilhante que espargia a chusma de lâmpadas eléctricas porque a famosa colectividade é iluminada...
- Pelas meninas Violinda Nunes Medina, Helena Gomes, Maria Amorim e Clarice d’Oliveira Cordeiro, foram oferecidos ricos “bouquets” de flores naturaes, em nome da secção dramática da colectividade em festa, aos amigos Raúl Martins, Ildefonso e Guilherme Rosa, e José Mano; a Direcção, ofereceu-lhes um copo-de-àgua e um devotado amigo do Grupo um “copo” de bom “champagne” d’Anadia.
Oxalá festas destas se repitam, para nome da colectividade onde elas se levam a efeito e de quem as promove”.



No dia 7 de Junho a tuna encorporou-se no “magestoso cortejo tauromáquico e assistiu à garraiada” que, na Figueira, foi promovida pela Associação Naval 1º. De Maio.

Ainda no ano de 1925, o grupo cénico efectuou os seguintes espectáculos:

_ Em Junho, no Grupo Caras Direitas, em Buarcos, com uma opereta (Ninotte?) e duas comédias;

_ A 13 de Setembro, em Montemor-o-Velho, no Teatro Ester de Carvalho, com o drama “Um erro judicial” e a comédia “Casa doisa...”;

_ Em Outubro, mais um extraordinário êxito numa deslocação à Marinha Grande. É indispensável aqui deixar transcrita a reportagem: (ver 'As primeiras saídas' - Associativismo)

Fotos: 1 - Clarice de Oliveira Cordeiro; 2 - Manuel Nogueira e Silva

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 10

Concluidas as obras, organizou-se o programa para a sua inauguração nos dias 20 e 21 de Dezembro daquele ano. Para recordação, aqui registo o tal programa:


Dia 20 às 21 horas

1ª. parte - Apresentação da tuna, que apresentará um programa escolhido, sob a hábil direcção do maestro sr. Pinto d’Almeida;
2ª. parte - Representação da hilariante comédia em 1 acto “As pegas de toiros”;
3ª. parte - Variedades músico-teatrais, sobressaindo um explêndido número - guitarradas - por consumados amadores;
4ª. parte - Representação da opereta em 1 acto, ornada de 7 números de música - “A herança do 103”;
5ª. parte - Apoteose final.

Dia 21

Às 7 horas - Salva de 21 morteiros e alvorada por uma fanfarra;
Às 10 horas - Recepção à Filarmónica “10 de Agosto”;
Às 11 horas - Bodo a 25 pobres mais necessitados da freguesia de Tavarede;
Às 12 horas - Exposição da séde;
Às 14 horas - Recepção a tunas e à Filarmónica “Figueirense”;
Às 16 horas - Sessão solene, em que usarão da palavra alguns oradores e descerramento do retrato dum sócio há pouco falecido (D. Maria Àguas Ferreira);
Às 21 horas - Baile servido.

Comissões para tratar de todos os assuntos necessários para efectivação destes festejos:

- Limpeza e aformoseamento do quintal: António Francisco da Silva e Joaquim Marques;
- Ornamentação da séde: Adelino Joaquim de Faria;
- Licenças necessárias: António Medina Júnior e José Francisco da Silva;
- Iluminação feérica: Faustino Ferreira e Aníbal Fernandes Caldas;
- Acquisição de fogo: Adriano Augusto da Silva;
- Acquisição dos artigos necessários para o bufete: António Francisco da Silva e António Custódio.

Somente a título informativo, registo que, tempos antes, tinha havido nova saída de colaboradores da Sociedade de Instrução que, no início do ano de 1924, aderiram ao Grupo Musical, passando, de imediato, a fazer parte dos elementos directivos e que foram, sem qualquer favor, grandes dinamizadores das obras e expansão artística. Foram eles João de Oliveira, António Francisco da Silva e José Francisco da Silva.

Pois, como acima se disse, fizeram coincidir a inauguração das obras da nova sede com a festa do 13º. Aniversário. Lembro, a este propósito, que havia entretanto sido deliberado festejar os aniversários do Grupo nos finais de Dezembro, para, assim, coincidirem com o ano civil. Mais tarde retomaram a tradição de comemorar mesmo na data da fundação, 17 de Agosto, ou num dos fins de semana mais próximos.

É oportuno, e antes de retomar a actividade cultural referindo os acontecimentos mais significativos, transcrever uma reportagem, publicada na “Gazeta da Figueira” e escrita pelo seu correspondente em Tavarede, relatando aquelas festas. Não quero, também, deixar de copiar um pequeno apontamento da notícia que, sobre o mesmo assunto, escreveu a “Voz da Justiça”: “Foi uma festa animadíssima, que deixou satisfeitos os directores do Grupo Musical. O seu entusiasmo é enorme, constando-nos que preparam no seu teatro récitas sensacionais. O Grupo conta, para esse efeito, com grandes dedicações, a ponto de até o vice-presidente da Direcção, sr. António Francisco da Silva, não obstante a sua idade e não ter nunca representado, tomar também conta de um papel. Oxalá não esfriem no seu entusiasmo e vejam acentuarem-se as prosperidades do Grupo Musical Tavaredense”. E, agora, a referida reportagem.


“ Embora tardiamente, pois já vão volvidos mais de oito dias, não queremos nem devemos deixar no olvido a noticia das festas que o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense levou a efeito nos dias 20, 21 e 22 do mez corrente.
É certo que pouco mais podemos adiantar que o digno redactor deste jornal que a eles assistiu. No entanto, e na qualidade de seu correspondente nesta encantadora aldeia - que nos foi berço e por quem nutrimos aquele inabalável amor de bairrista que se présa - no entanto sempre nos queremos ocupar de tão palpitante assunto - não passando, todavia, o nosso propósito, de noticia laconica e despretenciosa.
Devemos principar por dizer que o Grupo Musical e d’Instrução, organizando, para os seus festejos, um programa fóra do vulgar, o cumpriu á risca, ou antes, ainda o ampliou para melhor.
Assim, podemos afoitamente dizer - sem receio de desmentidos - que ainda se não fez em Tavarede uma festa associativa tão simpática e tão completa como a que o Grupo Musical agora levou a efeito.
Sim, senhores, honra lhes seja!...
No dia 20, á noite, teve lugar um sarau musico-teatral, que constituiu um galhardo serão.
Apresentou-se a tuna no palco que executou, sob a proficiente direcção do maestro sr. Pinto d’Almeida, nosso particular amigo, um repertorio escolhido, que a numerosissima assistencia se não cançou de aplaudir.
Um grupo de gentis senhoras e de loiras criancinhas surgem no palco, com muitas fitas de sêda, para serem colocadas no estandarte glorioso da colectividade em festa que tem estampado um soberbo e honroso trabalho a oleo do saudoso António Ramalho, maravilhoso pintor que tão bem soube enaltecer a sua e nossa Patria, após o que António Augusto Esteves, bom e leal amigo, usando da palavra, improvisa um brilhante discurso, entrecortado, por vezes, com as aclamações da assistencia.
Ao findar, a tuna toca o seu hino, confundindo-se os acordes com os entusiasticos “vivas” que a expontaneidade fez sair do peito de todos os amigos do Grupo Musical, dessa simpática colectividade para onde lançam odios revoltantes certas nulidades que se esquecem propositadamente do bom nome da sua terra - das freguezias do concelho da Figueira aquela que ainda hoje caminha na vanguarda da instrução - para só pôr em prática covardes propósitos que se traduzem em reles bairrismo da parte de quem não tem a ombridade de se apresentar de fronte levantada, a fazer traficancias contra uma Associação que nasceu ha 13 anos e que portanto já tem raízes fecundas que dificilmente deixam tombar tão bemdita Arvore...
Porque, se para uns a capa do anonimato serve de pretexto para encobrir a figura meiga e pura da Caridade, para outros, então, é o melhor recurso para pôr em execução planos traiçoeiros que só prestigiam a covardia!
João d’Oliveira, brioso presidente da direcção, surge no palco, com outros directores, e oferece ao maestro um simpático brinde, que este agradece sensibilisado, abraçando-o cordealmente. Uma prolongada salva de palmas ressôa na plateia, confundido-se de novo as aclamações.
A tuna executa a 2ª. parte do seu escolhido programa, seguindo-se a representação duma comedia em 1 acto, que muito agradou.
A 3ª. parte do espectaculo é composta de recitativos e guitarradas. Os maiores aplausos foram para o distinto guitarrista-amador Manuel da Cunha Paredes, de Coimbra, que a amizade do autor destas modestas linhas trouxe até Tavarede. Acompanhado a viola por Alberto d’Oliveira, da Figueira, faz um sucesso. Cantou alguns fados de Coimbra, daqueles fadinhos bem portugueses que enebriam a nossa alma e que o Paredes tão bem sabe cantar, sendo-lhe oferecido, como ao Alberto, um “bouquet” de flores naturais, por duas inocentes criancinhas.
Segue-se a opereta em 1 acto - “A Herança do 103” - ornada de 7 numeros de fina musica, que agrada.
A orquestra muito concorreu para o feliz sucesso obtido, graças á sua boa organisação e á batuta proficiente de Pinto d’Almeida.
Para terminar - uma Apoteose.
Não póde a nossa pobre pêna descrever o que foi o fim deste sarau. Uma Apoteose explendida, deslumbrante, mesmo. Tudo se deve ao fino gosto dos srs. Manuel Mesquita e Adelino Joaquim de Faria, da Figueira. Tudo!


Num alto pedestal, uma corôa de loiros e uma lira, a oiro, ladeadas de lampadas de variadas côres, dispostas por Anibal Caldas, electricista do Grupo. Violinda Medina, junto do pedestal, empunhando o estandarte do Grupo. Mais uns pedestais, sobre o que estavam pousadas uns tenros inocentes simbolisando a instrução das letras, da musica e do teatro. Mais criancinhas, muitas criancinhas, envoltas em festões de loiro e flores, empunham os gloriosos estandartes da Naval, do Ginásio, dos Caixeiros, da Cruz Vermelha, dos Caras Direitas, da Filantropica, do Instrução e Sport, etc., etc. No proscenio, significando a “Fama”, duas meninas, com trombetas. Catadupas de luz por todo o palco imprimem ao significatico áto o maior e mais completo brilhantismo, exalçando então a magnificencia dos ricos fatos alegoricos, em sêda, que as crianças vestiam.
Emquanto a orquestra executa o hino do Grupo, a assistencia irrompe em delirantes aclamações á associação em festa, a Tavarede, ao Progresso, á Instrução, etc., etc., havendo lagrimas de satisfação, das lagrimas que do coração acodem aos olhos, a embaciar orbitas de pessoas que experimentaram naquela ocasião um dos momentos mais felizes, mais alegres, mais sublimes que na vida se é dado gosar!
E assim terminou aquele serão de belo e invulgar passa tempo espiritual, que marcou bem claramente mais um passo agigantado no caminho do Progresso e da Instrução - por onde a nossa terra, que estremecemos, tão digna e caprichosamente tem sabido trilhar.
No domingo, 21, ás 7 horas, uma salva de 21 morteiros põe em sobressalto toda a povoação. Uma fanfarra percorre as ruas da terra, soltando ao ar as notas estridentes do hino do Grupo. Foguetorio rijo corta vertiginosamente o espaço em direcção ao ceu azul que com um sol claro e quente quiz também associar-se á nossa festa.
São 10 horas. A Filarmonica “10 de Agosto” entra em Tavarede, tocando o hino do Grupo. É recebida de braços abertos. Após o “copo-d’agua” retirou para essa cidade, na altura em que a jovem mas esperançosa tuna do Gremio Recreativo União Caceirense dava entrada na aldeia. Ha os cumprimentos do estilo e os caceirenses ingressam no Grupo, onde se demoram até á noite.
O Grupo Musical tambem quiz dar um Bodo aos pobres, numero sempre simpatico em todas as festas - e deu-o. Havia destinado a distribuição de 2$50 a 25 pobres. Porém, apareceram 30, mais 5 portanto, que tambem levaram esmola. Saíram satisfeitos, balbuciando palavras de agradecimento e pedindo a Deus muitas felicidades para o Grupo Musical. Sentiam-se alegres, os pobresinhos, como alegres se sentiam todos aqueles que estavam a ver coroado do mais feliz resultado a boa organização de tão simpáticos festejos, que tanto prestigiam a nossa terra.
Das centenas de pessoas que visitaram o Grupo Musical, engalanado a capricho pelo socio Adelino Joaquim de Faria, cremos não haver uma só que dele não se refira em abonatórios termos.
São aproximadamente 4 horas quando a Filarmonica “Figueirense” dá entrada em Tavarede, onde é recebida carinhosamente, como tributo á sua cativante expontaneidade.
Prepara-se o inicio da sessão soléne - outro numero que vincou bem claramente a vitalidade do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense. O sr. Francisco Martins Cardoso assume a presidencia, convidando para o secretariar os srs. Pedro Colet-Meygret, delegado do Ginásio Clube Figueirense, e João Maria Pereira de Sousa, delegado dos Bombeiros Voluntarios.
Lidas mais de 100 saudações de individualidades, de associações, etc., e depois de dar posse aos novos corpos gerentes, que vão ao palco, sua exª., com aquela serenidade e inteligencia que o caracterisam, discursa demoradamente. No final levanta um “viva” ao Grupo Musical, viva esse que foi secundado pela numerosissima assistencia.
Dando a palavra a Antonio Victor Guerra, do conselho fiscal do Grupo, este faz um belo e eloquente discurso, convidando a certa altura a menina Acidalia Nogueira, gentil filha do saudoso Augusto Nogueira, a descerrar o retrato da srª. D. Maria Aguas Ferreira, extremecida esposa que foi do sr. José da Cunha Ferreira.
Alude, com palavras sinceras e comovidas, ao passado daquela santa mulher, que foi uma grande amiga da sua e nossa terra e do Grupo Musical, de que era socia quasi de fundação.
Ao terminar, foi muito cumprimentado e felicitado.
O sr. presidente pede um minuto de silencio em sinal de sentimento pela extincta benemerita - o que se cumpre religiosamente.
É em seguida dada a palavra ao rabiscador destas linhas - que se honra muito em ser tavaredense e socio fundador do Grupo Musical, que deseja vêr cada vez mais engrandecido e prestigiado - o qual, em palavras pobres de coloridos e rendilhados, mas ricos de sinceridade e ponderação, descreve a vida do Grupo e os seus efeitos na terra em que nasceu.
Em todo o seu modesto discurso, como em todos os outros, não se encontram as afirmações de esmagar jesuitas... como malevolamente foi dito por pessoa que não assistindo á sessão soléne concretisou, todavia, a mentira atrevida, descabida e estupida dalguns informadores baratos que ainda não pensaram que na terra não passam de ser uns pobres pedantes, uns pobres de espirito, uns traficantes de se lhes cuspir nas ventas - por desprêso.
É o que faz o autor destas linhas. É o que fazem todos aqueles que teem brio, que teem criterio e honra...
Mas... perdão, não fujamos do assunto do Grupo Musical e prossigamos na noticia...
O nosso amigo sr. Gomes d’Almeida, usando da palavra, faz, ao terminar, um apêlo aos bons tavaredenses para que secundem o gésto nobre dos encorajados cavalheiros que, para bom nome da sua terra, primaram na organização de tão simpática festa, que é bem a clara demonstração de mais um passo na senda bemdita dos Progressos dos Povos e portanto da Patria Portuguesa.
Este nosso particular amigo termina o seu discurso pondo incondicionalmente á disposição do Grupo o jornal O Figueirense, de que é director-proprietario, pois assim o tem feito a muitas outras associações de instrução e beneficencia.
É fartamente aplaudido.
O amigo sr. Eduardo Catita tambem não escapou. Convidado, sem o esperar, a usar da palavra, improvisa um explendido discurso, em que mais uma vez provou os seus dotes oratorios.
Antonio d’Oliveira Lopes, membro da assembleia geral do Grupo, fechou a sessão com um discurso brilhante, em que demonstrou as suas qualidades de rapaz estudioso e inteligente.
Foi justamente felicitado e aplaudido.
Não havendo mais ninguem que quizesse usar da palavra, o sr. presidente, com termos muito elogiosos para o Grupo e para Tavarede, encerrou aquela explendida sessão soléne, que ficou marcando uma festa cuja beleza jámais se apagará do espirito de quantos a ela assistiram.
A “Figueirense” tocou, por vezes várias, o “Hino do Grupo”.
Faltaram, por motivo de força maior, os oradores exmos. srs. drs. Rafael Sampaio e Antonino Cardoso.
Seguiu-se o baile, que era esperado pela gente môça e irrequieta, para quem a dança, hoje tanto em voga, constitue o melhor prazer de todos os mortais...
Nos intervalos, o nosso amigo Candido José Ferreira, de Anadia, exibiu-se em violão, pois é um artista no género, assobiando divinalmente alguns trechos dificeis e bonitos.
Emfim, foi uma festa que veiu a terminar tardissimo, reinando sempre em todos os corações a mais franca alegria e animação.
Na segunda-feira, 22, houve o almoço de confraternização, a que assistiram mais de 30 convivas, compartilhando da abundancia alguns pobres de Tavarede.
Durante o baile de domingo e o almoço de segunda-feira, teve a assistencia o prazer de apreciar uns belos discos no gramofone do nosso amigo Adriano Silva, que o cedeu da melhor boa-vontade ao gramofonista Zé Medina.
Não podiam ser melhor, os festejos do Grupo Musical.
Em Tavarede ainda se não fez coisa egual. Na Figueira, mesmo, que é cidade e tem excelentes associações, não ha tanto capricho como aqui na aldeia...
Não sabemos porquê, mas é verdade...
Parabens ao Grupo Musical, com os desejos de que muitos mais anos conte, trilhando sempre aquele caminho recto, honroso e dignificante que fácilmente o conduzirá á situação de destaque e de valor que ambiciona”.



Fotos: 1 - Emblema do Grupo Musical; 2 - João de Oliveira (à data presidente da Direcção); 3 - Violinda Medina (principal amadora e figura central na apoteose)