quarta-feira, 3 de março de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 18


Vão ser, talvez, um pouco “maçudos” estes dois ou três capítulos das nossas histórias. Mas, para vida da Sociedade, foi um período assaz importante, e, assim, não nos atrevemos a “passar em branco” alguns factos sucedidos em 1929, 1930 e 1931, embora o façamos o mais resumidamente possível.
Já transcrevemos alguma coisa sobre “A Cigarra e a Formiga”. Faltou-nos referir que os versos desta fantasia são da autoria do professor Alberto de Lacerda, que também colaborou com José Ribeiro na feitura do enredo. Nos dias 15 e 16 de Junho de 1929, o grupo cénico tavaredense foi à Figueira da Foz, ao Parque-Cine, apresentar as fantasias “A Cigarra e a Formiga” e “O Sonho do Cavador”.
Uns dias antes, o jornal “O Século” havia publicado uma extensa reportagem sobre a primeira destas fantasias. “Em Tavarede, a dois passos da Figueira da Foz, há uma sociedade de instrução, a Sociedade de Instrução Tavaredense, que dispõe dum pequeno teatro, uma autêntica “boite”, como agora se diz, onde costuma realizar espectáculos curiosíssimos, récitas em que representa uma “companhia” de amadores absolutamente excepcionais. Basta dizer que a constituem humildes trabalhadores do campo ou das oficinas, que trabalham de sol a sol e à noite aprendem, estudam, ensaiam com as dificuldades que se adivinham, sabendo-se que entre eles muitos há que nem sabem ler”. Refere-se, a seguir, à peça. “... é um trabalho de notável merecimento literário, bem construída, interessando do princípio ao fim e visando a produzir um efeito moral dos mais salutares, qual o duma lição clara que prende os que a recebem – todos os que assistem – e fica por certo nos espíritos de todos melhor que a mais profunda prédica”.



Descreve, depois, o enredo detalhadamente. E antes de fazer uma apreciação ao desempenho, escreve: “Se é certo que a peça é, a todos os títulos, um trabalho notabilíssimo, digno mesmo dum ambiente mais amplo que um simples teatrinho de aldeia, o que principalmente interessou foi a “companhia”. É que não conhecemos nada que se compare. Temos visto muita vez grupos de “furiosos”, mais ou menos desastrados, mais ou menos aproveitáveis, mas nunca víramos um conjunto tão curiosamente organizado e tão excepcional pela circunstância de ser recrutado entre gente do campo e de profissões humildes”.
Termina a extensa reportagem da seguinte forma: “Exemplos como os da Sociedade de Instrução Tavaredense devem ser seguidos por toda a parte, deviam mesmo ser auxiliadas pelo Estado estas simpáticas iniciativas, que roubam à ociosidade e à taberna um punhado de bons trabalhadores e servem para recolher proventos destinados ao cofre duma Escola. É possível que muitos leitores destas linhas tenham para o que fica dito o encolher de ombros desdenhoso, natural em quem não acredita sem ver. Pois é pena que Tavarede fique ainda assim tão longe. Vendo se convenceriam de quanto pode conseguir a boa vontade ao serviço duma ideia generosa e sob todos os aspectos simpática”. Cite-se que esta reportagem foi da autoria do crítico e escritor teatral, de Lisboa, dr. José Tocha.


Um outro crítico, este figueirense, escreveu também uma longa notícia de que só vamos transcrever uns breves apontamentos. “Tavarede..... possui uma cigarra cantadeira, uma formiga agenciadora e um cavador com sonhos de riqueza. Pois, da cigarra, da formiga e do cavador..... fizeram duas peças teatrais a que chamaram fantasias e fantasias são de sua imaginação de artistas, a que deram toda a graça de Tália, apresentando-as ao público no palco de um modesto teatrinho de aldeia. A Fama, que não veio à Terra só para dar notícia da crueldade dos Deuses, trouxe à Figueira o nome destas fantasias, e atrás do nome vieram as próprias fantasias ao palco do grande teatro do Parque, onde nos proporcionaram, em duas noites seguidas, fugídias horas daquele prazer íntimo que se chama deleite. A cigarra fez-me sentir a alegria de viver e o cavador deu-nos uma bela lição moral”.
A extensão destes comentários tem uma razão. No próximo capítulo se verá o motivo porque o fizemos.


Entretanto, também desta vez foram feitas fotografias, as quais, e em primeiro lugar, se apresentaram numa festa de homenagem, que a direcção da colectividade ofereceu a todo o grupo cénico. Uma notícia refere que “... a projecção no écran de mais de 200 fotografias das duas peças foi vista com grande satisfação, manifestando a assistência frequentes vezes a sua alegria”.

Fotos - 1 - António Graça; 2 - Ceifeira (1928); 3 - Junta de bois lavrando a terra

Sociedade de Instrução Tavaredense - 17

Com a melhor das intenções, a direcção da colectividade anuncia, em Fevereiro de 1929, a “realização dum certame hortícola-pomícola, iniciativa interessantíssima da qual os agricultores da freguesia de Tavarede hão-de colher ensinamentos e as consequentes vantagens”.
Tratava-se duma exposição de produtos agrícolas, não criados especialmente para este fim, mas sim de produção corrente, a promover em 15 de Junho e 15 de Setembro. Abrangia três secções: Raízes e tubérculos; Caules e folhas; Flores e frutos; e Arranjo das culturas. A direcção técnica estaria a cargo do regente agrícola, sr. José Maria de Jesus. Encontrámos algumas referências a esta iniciativa, dizendo que o entusiasmo entre os agricultores era enorme. Mas, nas datas referidas, não encontrámos quaisquer notícias da sua efectivação.
No dia 26 de Janeiro de 1929, o grupo cénico da Sociedade foi, pela primeira vez, dar um espectáculo ao teatro do Casino Peninsular. Representou-se “O Sonho do Cavador” e a receita reverteu a favor da Santa Casa da Misericórdia, da Figueira. A receita bruta foi de 5.578$70 e a despesa, “conforme os documentos que a Mesa da Santa Casa tem em seu poder”, foi de 576$00, resultando um lucro de 5.002$70. Esta instituição, em reunião de 10 de Fevereiro, “resolveu conferir à Sociedade de Instrução Tavaredense a mais alta distinção honorífica consignada nos estatutos: o diploma de irmã benemérita”.
A escola nocturna, sempre a funcionar com toda a regularidade, foi dotada com “material apropriado, e introduzido melhoramentos bastantes, para proporcionar aos alunos o necessário conforto de que há muito carecia”. Também foi criada uma “biblioteca agrícola, para a qual já foram oferecidos diversos livros e, na sala de leitura, encontrarão os associados jornais agrícolas, sendo-lhes também prestadas informações e facilitada a aquisição de catálogos, sementes, etc.”.


E a 18 de Maio, nova estreia se verifica no nosso palco. Tratou-se de “A Cigarra e a Formiga”. E se “O Sonho do Cavador” teve êxito fora do vulgar, esta fantasia não o teve menor. A propósito da sua estreia, o professor Rui Fernandes Martins, que depois foi presidente da assembleia geral da colectividade, durante muitos anos, escreveu o seguinte comentário:
“Estive anteontem na Sociedade de Instrução Tavaredense, onde assisti à primeira representação da fantasia em três actos “A Cigarra e a Formiga”.
Esplêndidamente levada à cena, “A Cigarra e a Formiga” em nada fica àquem do festejadíssimo “Sonho do Cavador”.
E, assim, eu mais uma vez fiquei com a soberba consoladora convicção de que naquela Sociedade há um grande culto pela Arte; de que naquela Sociedade a valer se trabalha para que o nome de Tavarede, ou mais ainda – o da Figueira -, se engrandeça e nobilite.
A Sociedade de Instrução Tavaredense marca indubitavelmente um lugar de incontestável destaque entre as suas congéneres.


Trilhando com nobreza uma directriz formosa, surda a doestos próprios de répteis; indiferente perante os dispautérios de inteligências falidas; sempre trabalhando com paixão fervorosa dos fortes, dos que sabem querer, a Sociedade de Instrução Tavaredense é uma sociedade que tem um passado glorioso, e diante de si um futuro risonho.
De ascenção em ascenção, de triunfo em triunfo, ela chegou onde hoje se encontra: ao cume glorioso que todas as Sociedades congéneres, que muito prezem o seu nome, que muito trabalhem pelo seu engrandecimento, devem apetecer galgar.
Mas, neste concelho, já tive ocasião de observar – e com bastante satisfação o registo – que quase em todas as localidades os homens bons colectivamente trabalham por desviar a população dos antros onde a miséria, a embriaguez e o vício proliferam.
Não é só a Sociedade de Instrução Tavaredense”.




A crítica foi muito favorável. Vamos transcrever um pequeno apontamento.
“Agradou muito a peça, pela sua simplicidade, pelos conceitos que nela aparecem, pela sua função educativa, pela finalidade moral que encerra. Mas os versos que pelos 3 actos estão espalhados surpreenderam pelo seu encanto, pela beleza que neles palpita e pela arte com que estão trabalhados. Versos como os da Cigarra e a Formiga, só um artista de fina sensibilidade e profundos conhecimentos de arte de versejar poderia fazê-los. Citamos ao acaso: a poesia maravilhosamente bela A Fantasia, o Desleixo e o Fatalismo, profundos de observação; o soneto A Tenacidade, modelar na forma e rico de expressão enérgica; o recitativo da Toilette, graciosíssimo de comentário ligeiro; e para não falarmos nas lindas quadras ao sabor popular que se cantam na Desgarrada do 2º. acto, no Prólogo, na Alegria de Viver e em outros números, citaremos os belíssimos versos que fecham a peça – O Amor – que são simplesmente maravilhosos, arrebatadores.
Digamos ainda que a partitura é formosíssima. Sem querermos diminuir o valor da linda música do Sonho do Cavador, afigura-se-nos que na Cigarra e a Formiga tem António Simões um trabalho valiosíssimo, magistral como interpretação do poema, rico pela variedade de expressão. António Simões bem mereceu a chamada entusiástica com que a assistência fundamente impressionada, o alvejou logo no fim do 1º. acto. Muito bem!
E do desempenho que dizer? Que excedeu em muito o que poderia esperar-se do grupo modesto da Sociedade de Instrução. O principal papel foi confiado a João Cascão, que no José Cigarra se manteve brilhantemente à altura a que ascendeu no Manuel da Fonte. Muito bem! No final do número “A cigarra tem guitarra, e a formiga tem barriga”, primorosamente cantado, a assistência irrompeu na mais calorosa e entusiástica ovação que ali temos ouvido, sucedendo o mesmo no recitativo final. Jaime Broeiro cheio de naturalidade no Desleixo e no António do Moleiro; o mesmo diremos de António Broeiro – o seu trabalho no 2º. acto é perfeito, cingido às rubricas da peça, mantendo admiravelmente a figura de João Viúvo dentro da necessária discrição; Emília Monteiro, Maria José da Silva, Maria Tereza, Guilhermina de Oliveira e Carolina de Oliveira mereceram os aplausos que ouviram, devendo também citar-se António Graça, que disse muito bem o Prólogo, Francisco Carvalho (esplêndida voz de barítono), José Vigário e F. Loureiro. Duas boas vozes que brilharam: Alzira de Oliveira e César Figueiredo. E todos os restantes, nos coros, se mantiveram nos seus lugares, formando um bom conjunto”.
Fotos - Sonho do Cavador (1928) - 1 - Sonho Cor de Rosa(Maria Eugénia de Oliveira); 2 - Concurso Hipico; 3 - A Vindima (Alzira Oliveira Fadigas)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 15

Permitam-me os meus caros leitores, se porventura os tiver, que regresse um pouco atrás. Já disse que, em 1925, aconteceu um caso interessante: a apresentação de duas operetas, uma na Sociedade de Instrução Tavaredense (Em busca da Lúcia-Lima) e outra no Grupo Musical e de Instrução Tavaredense (Ninotte). Pois é sobre esta peça que hoje vou recordar um pouco, uma vez que, tal como a 'Em busca da Lúcia-Lima', deu aso a uma polémica bastante interessante. Foram seus autores, António Amargo e Eduardo Pinto de Almeida, respectivamente do texto e da música.


"Como este jornal noticiou oportunamente, o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense adquiriu há pouco, para a sua secção dramática levar à scena, uma opereta em 3 actos, que se intitula Ninotte e é ornada de 21 números de musica.
Coisa fina, assunto regional bem estudado, daquele assunto a que nem todos os dramaturgos modernos ligam a importância que ele merece, poesia excelente, a Ninotte é uma peça de valor, desde os pés á cabeça, e é da auctoria do consumado poeta e jornalista nosso amigo sr. António Amargo.
Isto basta a quem não ignora o valor do pai da Ninotte, para acreditar que o sr. Amargo é incapaz de se virar á machadada à obra doutrem, roubar-lhe o titulo que o seu auctor lhe deu na pia batismal das suas locubrações, e crisma-la a seu belo talante, com o fim de ludibriar amadores d’aldeía...
Mas não. Tal não alcança toda a gente, de cuja plêiade faz parte o parvo que ali na Voz da Justiça, manejando a pena à canhota, está sempre a procurar meios malévolos e mesquinhos para atrevidamente lançar ao Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense pedaços do ódio sectário que por ele nutre.
Não é verdade a Ninotte ser o João Ratão "arranjado" por António Amargo para amadores. O que é verdade é ser Ninotte uma opereta que António Amargo, de reconhecida competência, acaba de escrever inéditamente para a troupe dramática do Grupo Musical.
O que também é verdade é que António Amargo não tinha precisão de estar a copiar o João Ratão do impresso para o manuscrito, para apresentar ao Grupo uma Ninotte, com vinte e tantos personagens, sem papeis dobrados, afora a massa coral, constituída por próximo de vinte rapazes e raparigas...
E o que também não é mentira é que o parvo que ali na Voz vomita veneno contra o Grupo - de alicerces fortes e bem enraizada vida...- não o "grama" nem por sonhos, por vêr que é hoje uma das melhores e mais prosperas colectividades do districto de Coimbra.
É inútil tanta propaganda contra o Grupo Musical. Lembre-se o parvo que o jornal é o porta-voz da opinião publica e que portanto não deve ser utilisado em navalhadas contra o Grupo Musical.
Com que auctoridade vem dizer que Ninotte é o João Ratão "arranjado" para amadores, se nunca a leu, se nunca a lerá, se nunca viu nenhum dos poucos ensaios que já tem?
O Amargo arranjista...
Resta saber se ele foi pedir a algum poeta tavaredense para lhe fazer o verso...
Podia limitar-se a dizer que a opereta da sua sociedade é que é boa, é que é fina, é que é excelente, é que é original, é que é rica de scenários, pois até um acto é passado na China...
Assim, vindo á baila com o nome duma sociedade andam a bulir cá com o rapaz, que tinha recolhido à privada e metido a viola no saco, também eu tenho o direito de meter a minha colherada.
Discutem periódicos se a minha dramatúrgica pessoa empalmou "João Ratão", que é português e macho metamorfoseou em "Ninotte", que é francesa e fêmea.
Mas que teem eles com isso?"


É claro que António Amargo não se calou.


"A "Ninotte" é tão minha filha que até uma das minhas filhas tem uma boneca preta, a quem baptisou de "Ninotte". É imitada do "João Ratão"? Mas isso mesmo já se disse e redisse - e eu escrevo o que me apetece. Roubei? Pois chamem para o caso a atenção da polícia e espetem comigo na cadeia!
Mas pelo amor de Deus não me macem...
Que culpa tenho eu que os dois grupos dramáticos de Tavarede andem de candeias às avessas e que eu ande metido na baila como Pilatos no credo? Lá se avenham um com o outro, mas deixem-me em paz.
O sr. que da terra da srª D. Lúcia Lima manda lerias para "A Voz da Justiça" entretenha-se lá com as intrigas do burgo tavaredense e faça referências à "Ninotte" e a mim... depois da opereta ir à scena É boa? É má?... O futuro a Deus pertence...
Então não querem lá ver? Eu a apanhar por tabela e a servir de pim pam pum no meio de rivalidades com que eu nada tenho!
O diabo não tem sono!... ".


Eis uma outra notícia sobre o mesmo assunto:


"No Grupo Musical e de Instrução Tavaredense continuam com toda a regularidade os ensaios de leitura da opereta em 3 actos - Ninotte - da auctoria de António Amargo, devendo muito brevemente começar os ensaios de palco, sob a direcção do amigo sr. Vicente Ferreira, amador de reconhecida habilidade e demonstrada competência
O maestro sr. Pinto d’Almeida está - agora - a escrever a musica. Dos 5 números que até hoje, quarta-feira, nos mandou, só temos a dizer em abono da verdade, que são duma inspiração deliciosissima. E os restantes 16, cremos bem, não deixarão nada a desejar...
Os amadores que interpretam a Ninotte, numa totalidade de quarenta e tantos, entre raparigas e rapazes, andam com muita vontade e esperam fazer boa figura nos papeis que lhes foram confiados.
Não são a fina flor de Tavarede, mas são amadores do Grupo Musical, pouco habituados a andar de noite, e às ocultas, a escutar bisbilhoteiramente o que se passa na casa alheia... - na casa da autentica e aristocrática fina flor de Tavarede.
E isto basta para se avaliar que no Grupo Musical só se encontra gente firme e... limpa; gente briosa e honesta; gente de que ninguém pode rir-se; gente que nunca foi lançada no ridiculo... Mulheres, fazem papeis de mulher; homens, fazem papeis de homem...
Felizmente que encontrámos na peça do literato Amargo esta vantagem aos hábitos do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - apesar de haver muita gente nova...
E felizmente também que a nenhum dos mesmos amadores foi distribuído mais do que um papel...
Sempre é uma peça que não mete personagens com papeis dobrados...
Nem dobrados, nem invertidos...
O Amargo é um teso...


(continua)

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 14

Entretanto, sabe-se que a última peça ensaiada por Vicente Ferreira foi a opereta “Ninotte”, seguindo-se, na direcção do grupo cénico, António Santos Júnior e António Medina Júnior. Foi este último quem ensaiou a espectáculo acima referido, mas, como ensaiadores, tiveram uma curta passagem pela actividade.

Não tenho grandes notícias sobre espectáculos no ano de 1927, mas, em Novembro desse ano, sofreu o Grupo Musical uma rude perda. Morreu, ainda muito novo, o grande amador e entusiasta da colectividade José Medina. Mas, pouco tempo antes, em 19 de Julho, haviam-se apresentado na Figueira, no Teatro do Parque Cine, com a opereta “Os Cirandeiros”, levada já à cena em Tavarede, e que alcançou imenso êxito. Neste espectáculo, o Grupo Musical apresentou, também, um grupo coral composto por mais de 70 figuras, “que cantou um escolhido reportório”.


Em 1928, entretanto já sob a direcção de Raúl Martins, levou à cena um novo espectáculo de grande efeito. Chamava-se “Noite de Santo António” e era da autoria de Raúl Martins, música de Herculano Rocha, sendo a orquestra dirigida por João Cunha. Como comentário, e porque são coisas que vale sempre a pena recordar, transcrevo a crítica publicada em “O Figueirense”.

“E visto que os grupos dramáticos dos clubes figueirenses adormeceram num criminoso far-niente, não ha remedio senão o amador de espectaculos teatrais - que não estão dispostos a comer sempre o indigesto acepipe cinematográfico - ir até fóra do burgo aos domingos divertir-se um pouco nos teatrinhos de aldeia.

E foi por isso que, no passado domingo, fomos ao teatrinho da Rua Direita, em Tavarede, assistir á reprise, dada em matinée, da opereta em 2 actos de Raul Martins, a Noite de Santo Antonio, adubada com versos de Antonio Amargo e enriquecida com explendida musica de Herculano Rocha - que desta vez ensaiou e foi reger a orquestra com a sua extraordinaria maestria de artista invulgar.

Nada queremos dizer da peça, que por varios palcos do concelho tem sido exibida com geral agrado - como o demonstram as suas multiplas representações - que a critica local tem sabido merecidamente elogiar pela pêna imparcial dos seus jornalistas-criticos. Tão sómente desejamos referir-nos ao desempenho.

Incontestavelmente, o Grupo Musical e de Instrucção Tavaredense possui a dentro da sua secção dramatica alguns dos melhores amadores do concelho. Desfalcada embora a secção com a ausência de Antonio Medina Junior e com a perda irreparavel do grande cómico que foi o saùdoso José Medina - apesar de tudo mantêm o seu logar de previlégio com os antigos elementos e com a preciosa aquisição de outros nomes.

A reprise da Noite de Santo Antonio constituiu mais um triunfo para o grupo, que caprichou em apresentar-se galhardamente, tanto pela correcção dos amadores como pelo rigor do guarda roupa, como ainda pelo meticuloso apuro da mise-en-scéne, para não falarmos tambem da perfeita execução da orquestra.

Violinda Medina foi a explendida artista de sempre, pelo seu á-vontade em scena, pela sua impecavel dicção, pelo seu maravilhoso timbre de voz, que a tornam - sem favor e sem exagêro - a melhor e a mais completa amadora de todo o concelho.

Raul Martins - encarnou bem o papel de galã, embora por vezes nos parecesse um pouco frio, talvez por temperamento próprio, talvez pela sua preocupação constante de ensaiador e de alma de todo o trabalho.

Clarisse de Oliveira tem voz tem gesto, mas... teve mêdo, que a levou a fraquejar em certa altura. Deve perder êsse mêdo; quando se possuem qualidades reaes e verdadeiras, como ela possui, não há de que temer e deve-se fazer realçar todos os recursos.

Manoel Nogueira e Manoel Cordeiro são dois excelentes cómicos, principalmente o primeiro. São êles a graça e o riso da opereta, nas suas passagens de gargalhada, que muitas tem e bem interessantes.

Não nos deteremos na apreciação das personagens uma por uma, o que alongaria demasiado esta simples noticia sem pretenções a critica que para tanto nos falta competência. E estamos certos de que os correctos amadores não nos levarão isso a mal. Bastará a nossa afirmação de que o conjunto - salvas pequenas falhas, pois nada existe perfeito - foi absolutamente harmónico no geral como no particular: pode o grupo Musical orgulhar-se do seu magnifico grupo dramático que tem a mesma amisade pela arte e no mesmo amor pela sua Associação, que dificilmente encontrará entre nós outro que se lhe avantage.

Ao Grupo Musical e Instrução Tavaredense, aos seus belos amadores teatraes, a Raul Martins e a Herculano Rocha - os nossos sinceros parabéns pelo êxito da matinée de domingo”.

Foi apresentada, também, a comédia “Casar para morrer”.

Fotos: 1 - José Medina; 2 - Grupo cénico da peça 'Os Cirandeiros', tirada na Quinta da Borlateira; 3 - Outra fotografia do grupo cénico, julgamos que igualmente tirada na Borlateira.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 13

E vem, então, a noticia das comemorações do dito aniversário.

“ Como tinhamos noticiado, foi nos passados dias 18 e 19, sábado e domingo, que o florescente Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, comemorou a passagem de mais um aniversário - o décimo quinto.
Nós, que nos orgulhavamos, e orgulhamos, de vêr passar sobre o seu glorioso estandarte mais um ano de esforços e de iniciativas, devemos dizel-o e confessal-o abertamente, que as festas que a simpatica colectividade local organisou, deixou-nos no mais recondito do nosso coração, uma imorredoira e inesquecivel recordação.
E não só no nosso intimo que ficaram estes dias marcados como tambem no daqueles que teem o orgulho de se dizerem tavaredenses e por certo em todas as pessoas que a elas assistiram. Porque é sempre belo e seductor o vêr passar sobre o nome d’uma colectividade de Instrução ou Recreio mais um ano de vida, que representa um ano de esforços.
Como marcava o programa das festas, realisou-se no sábado á noite um espectaculo de gala, para sócios e suas familias com as peças anunciadas, Os dois Nénés, comédia n’um acto e Amores no Campo, opereta em 2 actos.
No desempenho da comédia, temos, a nosso vêr, a salientar em primeiro logar a interpretação consciente da conhecida e apreciada amadora, D. Violinda Nunes Medina e Silva, que nos deu a impressão de que não era uma amadora, mas sim uma artista de carreira pelos seus conhecimentos, e pela sua apresentação é pois digna dos nossos elogios.
Em segundo logar temos o trabalho seguro e proficiente do amador Antonio Medina Junior e seu tio José Medina; e em seguida temos tambem o bom trabalho de D. Idalina d’Oliveira Fernandes e João d’Oliveira, todos já conhecidos do nosso povo.
Finda a representação d’esta comédia, realisou-se a apresentação dos alunos da Escola do Grupo, que executaram sob a direcção do seu professor - o nosso amigo, António d’Oliveira Lopes, alguns numeros de ginastica suéca, tendo sido muito ovacionados, pela maneira correcta como se apresentaram.
Desceu o pano. E pouco depois subiu novamente, entrando no palco as amadoras Srªs. D.D. Clarisse d’Oliveira Cordeiro e Idalina Fernandes, tendo esta convidado a vir ao palco o Sr. Antonio Victor Guerra, para lhe fazer a entrega duma linda bandeira, oferecida pelas amadoras da Secção Dramática do Grupo e d’um lindo e artístico livro em sêda, pintado pelo distincto artista Sr. Antonio Piedade, oférta dos Srs. Manuel Nogueira e Silva e Adriano Augusto da Silva, lindos laços de sêda com dedicatórias, oferecidos pela menina Maria Luiza Medina, filha do Sr. Adriano A. Silva e pelos Grupos de “Foot” - Sportesinhos Foot-Ball Club e Tavarede Foot-Ball Club.
Finda as entregas feitas ao Sr. Antonio Guerra pelas Srªs. Idalina Fernandes e Clarisse Cordeiro, a orquestra executou o hino do Grupo, tendo sido levantados muitos vivas.
Segundo a praxe foram colocadas no estandarte do Grupo Musical, pela Srª. D. Clarisse d’Oliveira Cordeiro.
Em seguida o Sr. Antonio Guerra, agradeceu em seu nome e em nome da colectividade que representava, proferindo algumas palavras sobre o convite que lhe acabavam de fazer, e por ultimo terminou elogiando as amadoras do teatro e os teams de Foot Ball.
Depois tivémos recitativos por José Maria de Carvalho e Belarmino Pedro.
Seguindo-se, conforme o estabelecido no programa, as guitarradas, por elementos da Tuna do Ginásio Club Figueirense, e que foram caprichosamente executadas pelos Srs. Rodrigues Quaresma Galvão, Alberto d’Oliveira, José Maria Marques Violante e Benedicto Guerra, pelo que foram bisados e aplaudidos frenéticamente.
E, nós, devemos dizer aqui publicamente, que foi um esplendido número que compoz o programa das festas, porque, em abono da verdade, são incontestávelmente os melhores guitarristas da Figueira.
Os bonitos números que executaram, caíram-nos na alma, como as suaves melodias dos rouxinóis em manhãs de plena primavéra.
Seguiu-se a representação da linda e aparatosa operêta em 2 actos, de Firmino de Vilhena, musicada inteligentemente pelo maestro Sr. Eduardo Pinto d’Almeida, Amores no Campo...
Do desempenho só podemos dizer que correu muito bem.
Salientando-se no entanto o trabalho de A. Medina Junior e Violinda Medina, que andaram muito bem.
Emfim, todos os amadores se esforçaram para que a representação da mesma fôsse de molde a merecer os fartos aplausos que lhes dispensaram todos os espectadores.
E terminou aqui o espectaculo de Gala. Deixando em todos, as melhores impressões e saudades d’aquela noite de arte e beleza.
Como tambem marcava o programa, tivémos no domingo pelas 7 horas a clássica salva d’umas dezenas de morteiros e alvorada pela Tuna do Grupo, que percorreu as principais ruas de Tavarede.
Ao meio dia o bodo aos pobres mais necessitados da freguezia. Pelas duas horas, exposição da séde que se encontrava caprichosamente engalanada por um devotado amigo e sócio do Grupo Musical.
Seriam umas cinco horas, quando teve começo a Sessão Solene, á qual presidiu o sr. Antonio Victor Guerra, secretariado pelos srs. José da Silva Lopes, Delegado do A Figueira Desportiva, e Antonio d’Oliveira Cordeiro.
Terminada a leitura do expediente que era numeroso, foi dada a posse aos novos Corpos Gerentes e em seguida usou da palavra o Comandante sr. Julio Valente da Cruz, que fez uma brilhante conferencia, versando o tema da instrução.
Seguiu-se no uso da palavra os Srs. Antonio Medina Junior, Antonio d’Oliveira Lopes, Belarmino Pedro e Antonio da Silva Lopes. Tendo em seguida o Sr. Presidente encerrado a Sessão.
Durante esta foi pela Tuna executado diversas vezes o hino do Grupo Musical, pelo que se ouviram muitos vivas.
E para que o programa fôsse cumprido á risca, realisou-se um baile que decorreu animadamente, tendo terminado perto das duas horas da madrugada.
E pronto - estavam terminadas as festas de mais um aniversário do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, que tiveram sempre a coroal-as como de costume, uma grande animação e entusiásmo”.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 12

_ Em Novembro, novamente houve uma deslocação a Montemor-o-Velho, desta vez com as peças “As pegas de toiros”, “Medicomania” e a “Herança do 103”;

_ E, finalmente, em Dezembro, na sua sede, mais uma estreia. Foi apresentada a comédia “Sempre o mesmo tio Torcato”, com interpretação de Violinda Medina, Helena Gomes, José Medina, Adriano Silva, José Francisco da Silva e José Augusto Mota.

No ano seguinte, 1926, em Janeiro, o Grupo Musical fez deslocar o seu grupo cénico à Figueirense, para apresentação das comédias “As pegas de toiros”, “Sempre o mesmo tio Torcato”, e a opereta “A herança do 103”. No mês seguinte, ainda naquela mesma sala da Figueira, novo espectáculo com as comédias “As duas gatas”, “O Senhor” e “Os gagos”.

Em Junho de 1926, mais uma deslocação e mais um triunfo. Foi a Santo Varão. Aqui deixo, igualmente, a notícia.

“Uma parte da secção dramática do próspero e florescente Grupo Musical e de Instrução Tavaredense foi no pretérito domingo a Santo Varão, suburbios de Formoselha, realizar um espectáculo com as conhecidas peças do seu vasto repertório - Erro Judicial e Cada Doido...
Da representação das peças devo dizer, em abono da verdade, que se salientaram os amadores António Medina, José Medina, José Silva, etc., não esquecendo o soberbo trabalho do seu ensaiador, o nosso amigo António Medina Júnior e de sua irmã D. Violinda Medina e Silva, que mais uma vez receberam d’uma plateia fina e delicada, aplausos particulares e sinceros, de que, aliaz, são bem dignos, pois nada mais do que eles fazem se pode exigir a amadores de teatro. Que nos desculpem ferir-lhes a sua modéstia, mas isto é a verdade.
Uma orquestra do mesmo Grupo, sob a direcção de António Ferreira Jerónimo, elemento distinto do mesmo, abrilhantou o espectáculo, ouvindo-se fortes aplausos.
Isto é o menos para a minha pretenção. Agora, o mais, o que não pode nem deve ficar no tinteiro, é a expressão sincera dos meus parabéns ao povo de Santo Varão, pela forma bizarramente bela e acolhedora com que recebeu os rapazes de Tavarede.
Sim, senhores!
Assim é que se chama fazer estreitamento de amizades. Assim é que se chama receber bem um hóspede. Enfim: a isto é que se chama a verdadeira confraternização de povos.
Há tempos deu-se a verdadeira antítese numa outra terra onde o Grupo também foi, para o mesmo fim, terra essa que é o berço de dois dos principais elementos do mesmo grupo...
E esses elementos - devo frizá-lo - são geralmente estimados nessa terra...
Mas... cada terra com seu uso e...

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Logo de manhã, os amigos António Ferreira Jerónimo e José Silva conseguiram, da benevolência de Manuel Martinho Júnior, o empréstimo do seu barco, no qual “navegaram”, além destes, Manuel Fé Varela, António Ferreira, António Ferreira Menano e Francisco José Ferreira Menano Júnior, que conseguiram pescar na enorme vala que vae desaguar no rio Mondego, entre Santo Varão e Formoselha, incontestavelmente um dos pontos mais belos do lugar, uma suculenta dose de peixe, da qual foi feita uma caldeirada para os Tavaredenses, pelo sr. Luiz Fé Varela, que é autentico culinário no género.


Promoveram-se vários passeios fluviaes na poética vala, passeios esses que ficarão bem gravados no mais recondido de todos os rapazes de Tavarede, que não havia maneira de sairem dos barquinhos frágeis que com eles deslizaram dôcemente sobre a quietude das aguas, onde se reflectiam os esguios choupos e os frondosos salgueiros, que proporcionavam agradáveis túneis de verdura onde se gozava a frescura d’uma sombra agradabilissima e benéfica...
Os rouxinois, os pintassilgos, os melros e tantos outros passarinhos, que tinham escondido seus ninhos nas hastes ramalhudas das arvores que ladeiam a fresca vala onde se realizou o passeio fluvial, timbram em seus gorgeios despreocupados e alegres, regalando-nos os ouvidos e enebriando-nos a alma...
Quem pudesse traduzir por palavras aquilo que de agradável e poético nos foi dado gosar em Santo Varão...


Muitos Tavaredenses, como Medina Júnior, João d’Oliveira, Adriano e José Silva, José M. Gomes, Manuel Nogueira e Silva, Pedro e Jorge Medina, Manuel Cordeiro, etc., etc., não esquecendo as srªs. D.D. Guilhermina Cordeiro, Violinda Medina e Silva, Emília Pedrosa Medina, Laura Ramos Ferreira, etc., etc., só abandonaram a “flotilha” quando a noite começou por lançar seu manto nêgro sôbre os sanguíneos raios de sol de um dia que tombava, depois de imensa felicidade espiritual para quem, como os tavaredenses, sabe gozar um pouco das belêsas naturaes, com que a natureza fadou a terra!”.

Refiro que a maior parte destes espectáculos se destinavam à angariação de fundos, a favor da aquisição da sede e custo dispendido com as obras realizadas. Como simples curiosidade, anoto que o preço dos bilhetes para os espectáculos na sua sede, para sócios e familiares, era de um escudo, para balcão, cadeiras e superior, e cinquenta centavos, para a geral. Nos bailes e “matinées” dançantes era mais caro, pois custava cada entrada um escudo e cinquenta centavos.

Com o mesmo fim, nas festas ao São João, na nossa terra, e naquele ano de 1926, foram montadas barracas em diversos locais, com vários divertimentos e nas quais colocaram tabuletas com a seguinte inscrição: “Para as escolas do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense”.

Ainda antes de passarmos à nova festa, que teve lugar em Dezembro de 1926, para as comemorações do 15º. aniversário, não quero deixar de transcrever uma reportagem, publicada no jornal “O Figueirense”, em que se comenta a intensa actividade da colectividade.

“ Um director do florescente Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, colectividade que em Tavarede - a vizinha e pitoresca aldeia que de todas as freguezias do concelho está em mais intimo contacto com a Figueira - vive com muito trabalho e sacrifício, do povo e para o povo, mas mais para o povo, do que de êle, convidou-nos há dias para uma vizita, á noite, à séde da colectividade da qual é um devotado amigo.
Com franqueza, assim com estas noites, em que os diques angelicais primam em converter num “pinto” um pobre mortal que não tenha a dita de possuir uma rica “impermeàvel”, tal proposta não veio muito a tempo...
Mas, por consideração para com o nosso amigo e ainda pela insistente maneira como nos pediu, lá fomos há dias a Tavarede, a vizitar as aulas nocturnas, que sob a direcção de dois sócios, funcionam no Grupo Musical e d’Instrução.
A nossa alma atingiu o cumulo da satisfação: - por chegarmos e regressarmos de Tavarede sem apanharmos gôta de água, e mais ainda por, ao ingressarmos naquela colectividade, depararmos com uma chusma de crianças, rapazes e raparigas, alguns já adultos, a receberem a luz sublime da Instrução.
N’uma ampla sala, toda claridade, toda higiéne e de cujas parêdes pendem retratos vários, entre os quáis o da insinuante figura do imortal maestro figueirense David Souza, em tamanho natural, rodeiam umas mezas grandes algumas dezenas de alunos. São filhos de sócios e muito principalmente filhos de não sócios. São, emfim, tavaredenses que procuram uma escola competente onde possam aprender á noite o que de dia se lhes torna impossível fazer. É seu professor o António Lopes, ajudante de António Victor Guerra, que por motivo dos seus muitos afazeres ainda não poude ir exercer as funções do seu cargo.
É a aula nº. 2, em que os alunos recebem as antigas regras da instrucção primária (1º. e 2º. graus) e algumas explicações de francês.
Mais adiante, outra sala, a nº. 1, em que uns 20 meúdos aprendem, pelo método João de Deus, as primeiras letras, tendo por professor o José Francisco da Silva.
Em face da grande amizade que nos prende ao nosso apresentante, tivémos a liberdade de lhe fazer esta pergunta:
- Porque motivo não substitúem as mezas por carteiras?
- Pela razão absolutamente natural de que nós não temos verba para as mandar fazer. Vivemos com muitas dificuldades, meu amigo, andamos uma duzia e meia de sócios mais devotados a trabalhar pela vida do meu Grupo. Não ignora que no verão temos dado espectaculos por Brenha, Maiorca, Montemór, que fizémos ultimamente uma excursão á Marinha Grande, onde démos tambem dois espectaculos, cujo produto foi muito favoravel ás nossas necessidades.
- E o Grupo pagou todas as despezas dos excursionistas?
- Não, meu amigo. Cada um tomou de sua conta as despezas de comboio e hospedagem. De contrário, não merecia a pêna pensarmos em mais excursões...
- Essa acção é meritória - retorquimos. E porque não trabalham assim os restantes sócios em quem vejam algum aproveitamento para o teatro ou para a musica? Pois se a casa do Grupo é de todos...
- A essa pergunta só eles podiam responder...
- Mas isso não se compreende. Sacrificio mútuo é que é necessário para a vossa obra. Caso contrário, o desânimo apodéra-se, mais dia, menos dia, daqueles que trabalham, dos verdadeiros caminheiros do progresso desta colectividade, e os resultados serão verdadeiramente desagradaveis para ela.
- Não. Não é bem assim. Não vê que nós, no nosso livro de actas, temos uma proposta dum sócio que foi unanimemente aprovada e que é para os que de qualquer fórma trabalham um incitamento a um melhor esforço, a uma melhor boa-vontade para o fazerem?
- ?
- Consta d’isto: - Há por exemplo um grupo de 12 homens que dá um espectaculo ou que toca num rancho. Rende êsse trabalho uma determinada importância, que é dividida por todos êles. Em essas quotas partes atingindo a soma de 50$00 escudos, cada um dêsses homens tem direito a uma acção do Grupo. Assim, posso afoitamente dizer-lhe, que por este processo só não tem acções todo aquêle que não quer trabalhar. Esses não são considerados amigos do Grupo.
- É realmente boa, essa iniciativa. Cada um que trabalha, gósta sempre de vêr uma justa recompensa.
- Já vê, pois, o meu amigo, que para sustentarmos o bom funcionamento das nossas escolas, ou antes, da nossa colectividade, não é a insignificância das quotas, apenas de 1 escudo mensal...”

Terminada a pequena palestra o nosso amigo conduziu-nos ainda á aula de musica, onde Antonio d’Oliveira Cordeiro dava lições a alguns alunos.
Entrámos na plateia, onde 5 plafons expargiam luz electrica a jôrros, e vimos no palco os velhos amigos do Grupo Musical - Zé e Antonio Medina - rodeados de filhos e de mais alguns elementos da parte dramática. Ensaiavam uma peça para breve levarem á scena.
Em conclusão. Tudo ali trabalhava, desde o João d’Oliveira, na Direcção até ao mais humilde dos amadores scenicos, tudo no Grupo Musical trabalhava em pról do mesmo e da instrução do povo.
Tavarede, assim, colóca-se bem. Ou antes, colóca-se melhor. Bem vista, já toda a gente sabe que ela está. E devido a quê? Positivamente aos esforços, á persistente inergia dos seus filhos mais intimos - dos seus filhos mais apaixonados e mais bairristas!
Retirámos de Tavarede belamente impressionados com a nossa visita ao Grupo Musical, de quem ouviamos falar, de quem nos falavam tantos amigos - mas de quem nunca fizémos ideia fôsse aquilo que justamente é: - uma colectividade filantrópica e benemérita, uma colectividade, verdadeiramente útil e simpática, que honra e enobrece cada vez mais a linda e encantadora terra do Limonete.
E é precisamente para colectividades como o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense que os nossos govêrnos deviam olhar...
Quantas e quantas escolas primárias ha por êsse país fóra, com professores só para receberem as respectivas mensalidades, que não apresentam um terço da obra do Grupo Musical, que vive só á custa daquêles que de dia trabalham na oficina e á noite na Associação?
Quantos?
Que nos respondam aquêles que de vez em quando apregôam moralidade, Instrução e... principio associativo... “.

Fotos: 1 - António Oliveira Cordeiro; 2 - Emília Pedrosa Medina; 3 - Adriano Augusto Silva

Sociedade de Instrução Tavaredense - 16



Voltaremos a falar sobre “O Sonho do Cavador”. Com várias reposições, a última das quais em 1987, recebeu diversas alterações ao texto inicial, tendo nós encontrado quatro versões, muito embora nelas sempre se tenha mantido a linha base inicial.
Uma notícia de Junho de 1928, dá-nos conhecimento de que se realizou na Sociedade “uma interessantíssima sessão, na qual foi passada uma fita contendo mais de 100 fotografias de tipos e cenas de O Sonho do Cavador, projectadas, com admirável nitidez, num écran especial”.
A este propósito, informamos que se tratou de um trabalho do fundador e proprietário da Casa Havanesa, então situada ao Cais da Alfândega, na Figueira. Bem gostariamos de ver estas fotografias, mas, até hoje, ainda não as conseguimos localizar, não sabendo, aliás, se ainda existem. Por uma outra notícia, sabemos que estas fotografias, ou parte, estiveram, depois, expostas nas montras de vários estabelecimentos, sendo muito admiradas, pois “algumas das fotografias expostas, são perfeitas e honram a secção fotográfica da Casa Havanesa, onde foram executadas”.
Pelo aniversário comemorativo do 24º ano da fundação, em Janeiro de 1928, um grupo de amigos da colectividade, que se haviam autodenominado de “Grupo dos Dez Fixes”, fez integrar no programa um almoço, “servido em três grandes mesas, no palco”, a 50 crianças da freguesia. E na sessão solene foram descerrados dois retratos.





Coube ao dr. Manuel Gomes Cruz fazer o elogio e apresentação dos homenageados. “As suas primeiras palavras são de felicitação para a colectividade a que se honra de pertencer, e cujos serviços à educação do povo de Tavarede põe em relevo. Alude à homenagem que acabava de ser prestada, mostrando como a Sociedade de Instrução sabe manifestar a sua gratidão aos que a ajudam na sua nobre missão. António Simões é um elemento valiosíssimo, que, com a sua competência e dedicação sem limites, conseguiu fazer brilhar, da maneira de todos conhecida, o grupo dramático; Manuel Tondela foi durante cerca de vinte anos o professor de primeiras letras da aula nocturna, prestando ali grandes e desinteressados serviços”.



Aproximam-se as comemorações das “Bodas de Prata”. Depois de uma série de 17 representações, as duas últimas em Buarcos, no Grupo Caras Direitas, “O Sonho do Cavador” interrompeu a sua carreira. E começaram os preparativos para as festas de aniversário. “Sob a direcção do sr. António Simões, coadjuvado pelo sr. José Nunes Medina, organizou-se o orfeão desta Sociedade, constituído por umas 50 figuras. Fazem parte dele os alunos da escola nocturna, as amadoras e amadores do grupo dramático e ainda outros sócios”.

Vejamos, então, o programa que foi distribuido.
Sábado – 19 de Janeiro – Récita de gala: I parte – Hino da Sociedade de Instrução (vozes e orquestra), pelo orfeão, dirigido por António Simões; Amor Filial, de Tomás Borba; Rapsódia, de Joice; e Zé Pereira, de Armando Leça. II parte – Recitativos e música, com a gentil colaboração da distinta poetisa srª D. Maria de Jesus e do sr. José Maria de Jesus. III parte – Representação da opereta em 2 actos As duas mantas do Diabo, com 12 números de música do sr. José L. Páscoa.
Domingo – 20 de Janeiro – Alvorada, às 7 horas, por um fanfarra; almoço, às 11 horas, a 50 crianças da freguesia; às 15, sessão solene; e às 21, baile de gala.
Entretanto a assembleia geral reuniu para apresentação das contas. “A leitura do relatório da direcção produziu uma impressão esplêndida. É um documento em que se faz uma exposição clara do que foi este ano de gerência. Tudo ali se relata com clareza, de modo que todos os sócios ficaram conhecendo a aplicação que tiveram as receitas da Sociedade. O esforço da secção dramática foi admirável e permitiu que se saldassem os dois empréstimos – das obras do edifício e da instalação eléctrica. A gerência liquidou estes empréstimos, pagando cerca de uma dezena de contos, e deixou para a nova gerência um saldo de mais de 800$00”.


As festas decorreram com o costumado brilho. A imprensa refere que as espectativas não só foram confirmadas, mas, mesmo, excedidas. “Dificilmente poderá realizar-se com maior simplicidade, mais alto significado e maior brilhantismo a comemoração do aniversário duma colectividade cujo programa se subordina a este tema geral – Instrução e Educação”.


Fotos: Os homenageados nesta sessão solene: António Maria de Oliveira Simões e Manuel Rodrigues Tondela