sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 21


Entretanto, alheando-se às citadas questões político-religiosas, a Sociedade de Instrução Tavaredense prosseguia a sua actividade. “Na verdade, a acção desenvolvida é admirável, sob todos os pontos de vista. Mantém, há quase três dezenas de anos, uma escola nocturna, onde se recebem alunos, menores e adultos, sócios ou não sócios, aos quais é fornecido gratuitamente todo o material escolar. Não se limita a isso a sua função, vai mais longe: entra no capítulo da educação e da cultura artística, limitada, como se compreende, às condições do meio, servindo-se, para isso, do livro, da palestra e do teatro. A influência moral e educativa exercida por intermédio do teatro, tanto sobre os que nela representam como nos espectadores, é evidente. Para atingir este objectivo, segue-se na escolha das peças – algumas das quais escritas para este fim – o critério de que o teatro não deve servir apenas para proporcionar distracção, deve, principalmente, ser um veículo de educação moral e cívica e, até, num meio como é o da aldeia, um instrumento de cultura”. Eram, afinal, os princípios estabelecidos pelos seus fundadores que, como se sabe, tinham sido plenamente conseguidos.
E, nos princípios de Julho de 1930, dá-se a primeira “internacionalização” do grupo cénico. Com as peças “O Sonho do Cavador” e “A Cigarra e a Formiga” foram a Tomar, efectuar dois espectáculos em benefício da Misericórdia local. Foi uma jornada triunfal “...... a recepção que aqui teve a excursão da SIT. Imponência, beleza, entusiasmo, sinceridade – eis as características dessa admirável recepção, que não esquece aos que da Figueira vieram a Tomar.....”.
Como curiosidade referimos que, três meses antes, esteve marcada uma deslocação a Vizeu com aquelas duas peças, para benefício de “uma obra contra a mendicidade e do Asilo de Santo António”. No entanto, a empresa proprietária do Teatro Avenida, daquela cidade, viu-se “impedida de ceder a sua casa de espectáculos para os dias desejados”, pelo que não foi possível efectuar esta deslocação, que seria a primeira fora do concelho da Figueira.
Em Setembro daquele ano, houve uma festa à portuguesa na sede da colectividade. “A sala estava transformada num lindo arraial português, com ornamentação e iluminação apropriadas......... Era grande o número de raparigas que vestiam à Moda do Minho......... A nota capital desta linda festa, foi a visita dos tomarenses, tão queridos da nossa terra, que não esquece a forma invulgarmente cavalheiresca e carinhosa como Tomar recebeu, em Julho findo, a excursão da nossa colectividade. Vieram expressamente de Tomar, em visita à nossa terra, muitos amigos a quem nos unem laços de amizade e simpatia e que agora mais se apertaram”. Houve foguetes, a filarmónica “10 de Agosto” esteve presente e, pela uma hora da madrugada, foi servida uma ceia aos visitantes, “que decorreu num ambiente de alegria e simpatia sem mancha”.
Esta festa deu um saldo positivo de 700$65, o qual “foi aplicado na compra de mobiliário escolar para a aula nocturna”. Merece uma anotação o facto da sede da colectividade ter sido visitada, em Novembro de 1930, pelo Visconde de Tinalhas, que percorreu as instalações “colhendo agradáveis impressões”, principalmente com a escola nocturna, “que estava a funcionar com mais de 40 alunos”.
Para as comemorações do aniversário seguinte, em Janeiro de 1931, José Ribeiro escreveu um acto, que intitulou de “Evocação”, em que recordou alguns dos maiores êxitos musicais de espectáculos anteriores. Foram eles: “As Cinco Pastoras”, do Presépio; “General Bum”, de O Casamento da Grã-Duqueza; “Coros e danças”, de Os Amores de Mariana; “Coro da Avé-Maria”, de Entre duas Avé-Marias; “Valsa das Alcachofras”, de Noite de S. João; “Canção da Cotovia”, de Em busca da Lúcia-Lima; “Canção da Árvore”, de Grão-ducado de Tavarede; e “Coro interno”, de O Sonho do Cavador. Este espectáculo alcançou um enorme êxito junto do público.
E do relatório da Direcção, aprovado em Janeiro de 1931, recortamos o seguinte apontamento: “Atendendo a que o benemérito cidadão, Exmo. Sr. Joaquim Felisberto da Cunha Sotto Maior, ofereceu a esta Sociedade, como se verifica das contas, por sua expontânea e livre vontade, uma quantia que bem se pode considerar avultada (500$00), propõe esta Direcção que àquele ilustre cidadão seja conferido o grau de Sócio Honorário”.´
Foto: Grupo cénico da SIT em 1928

Sociedade de Instrução Tavaredense - 20


“Das bandas de Tavarede, onde a seita dos três pontinhos ilumina a obtusidade de meia dúzia de campónios ensinando-os a dar á perna num jeito lôrpa e a proferir sandices de olhos em alvo, chegou ao teatro “Parque Cine” da Figueira um grupo dramático, apregoado pelos arautos da grande imprensa neste “Século” tartufo, como a expressão máxima – que fino!... – da arte de Talma.
E, assim, tivemos nós um hilariante espectáculo com a representação sumida duma fantasia “A cigarra e a formiga” história absolutamente inédita no dizer do infeliz “prólogo” – um homenzinho ridículo, dum ridículo inconsciente.
A peça é uma amálgama de bocadinhos alheios onde não falta a piada porca, a forçar gargalhadas pela torpeza, sem teatro e sem arte, pretexto apenas para a apresentação da companhia. Uns bocados de aqui, uns versos de acolá, uma sugestão de além, isto tudo muito mal cerzido, falho de unidade, distribuído por três actos e 10 quadros. Há um prólogo a apresentar em versos imbecis, sem gramática e sem métrica, os dois personagens principais – uma Formiga, lua cheia vestida de cinzento, de voz monocórdica e sem gestos, e a outra, um bicharôco verde que consegue atravessar o palco continuamente, de princípio ao fim, com um risinho lôrpa engatilhado nos lábios desmesuradamente abertos. Durante este primeiro acto, sem preparação teatral, recorre-se a um desenrolar monótono de fantoches manejados sabe Deus como e porquê.
No segundo acto, por certo o menos pior da fantasia, assiste-se a um pandemónio amoroso em que a filha não quer casar, mas que diz que quer porque o pai quer, ficando o namoro desprezado sem saber o que quer, no meio duma confusão tão grande que não há forma de se perceber nada. O segundo quadro deste acto fornece-nos um arraial de S. João, sem movimento, sem cor e sem vida, mero pretexto para uma mísera desgarrada.
O terceiro acto continua a baboseira inicial, terminando por uma estupidificante apoteose ao amor, muito ridícula e pobrinha.
Como se vê tudo isto é nojento em demasia, tanto mais que os vinte e sete números de música anunciados se resumem, na sua concepção a uma monótona e bafienta repetição de motivos.
Dos cenários: o do primeiro quadro, especialmente, é um pastelão de cores com as perspectivas erradas; o do segundo sofre-se; o do terceiro apresenta-nos um cofre tão bem pintado de azul que é o melhor efeito cómico da peça. De resto como muito bem diz a cigarra, tudo aquilo é fantasia.
Do valor literário da obra, ainda que muito pese ao habilitado crítico do Século, a nossa apreciação, nada pode encarecer. Quizéramos fazer algumas transcrições, mas o espaço falta-nos. Não resistimos contudo a esta edificante quadra:

Ai minha mãe, minha mãe!
Vivesses tu tinha eu pai!
Assim se o pranto me cai,
Não tenho pai nem ninguém!

E basta!... que isto de se gritar pela mãe, quando se pretende chamar o pai que fugiu através da mãe por a menina chorar, é o que de melhor conhecemos no género Rosalino Cândido, Calino & Companhia.
A interpretação, não supre as faltas atrás anotadas, antes continua a asneira. Iletrados, ou pouco menos, as sílabas saiem-lhes da boca numa inconsciência tal que comove.
A Sociedade de Instrução Tavaredense melhor faria, se ensinasse as boas regras do A B C aos seus associados em vez de os meter num palco a fazerem rir pelo ridículo das suas pretensões artísticas”.
Mais haveria a transcrever dos comentários deste jornal à colectividade tavaredense. Mas, para as nossas histórias, chegam perfeitamente as transcrições feitas.
A política e a religião, deve dizer-se, tiveram grande influência na vida associativa tavaredense. E aproveitamos para recordar um acontecimento que, naqueles anos de 1929 a 1931, acabou por ter enorme importância no nosso grupo cénico. Como referimos num dos capítulos anteriores, por dissidência de amadores desta colectividade, foi fundado o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Dedicada ao teatro e à música, teve esta colectividade um período extraordinário, entre os anos de 1915 a 1929. Auxiliada por um sócio, Manuel da Silva Jordão, abastado proprietário nos Carritos, transformou o edifício da sua sede, para onde se mudara em 1914, numa moderna casa de espectáculos. Já sabemos que era a “velha casa de Joaquim Águas”, ali ao meio de Tavarede.
Com as obras e com a “compra” da casa, contraíram pesadíssimo encargo. Referimos “compra” porque, na verdade, compraram, mas... não pagaram! O proprietário, o referido sócio dos Carritos, só recebeu metade do valor, ficando o restante garantido por letra, avalisada por alguns sócios, a pagar quando o Grupo tivesse possibilidades de o fazer. O seu teatro e a sua tuna alcançaram enorme fama. Foi o seu teatro, aliás, o primeiro grupo tavaredense a sair do concelho. Verride, Montemor-o-Velho, Santo Varão e, depois, Marinha Grande, receberam e aplaudiram as suas récitas. Foi neste Grupo, recorde-se, que se iniciou no palco aquela que viria a ser a grande amadora Violinda Medina e Silva. Foi no drama “Erro Judicial” que, por volta dos seus dezassete anos, fez a sua estreia em papéis de relevo.
Mas, tramas políticas e religiosas que nos dispensamos aqui de narrar, levaram a que a tal letra fosse apresentada à cobrança em 1929... Aquela casa despertara cobiça. Como não tinham dinheiro para o pagamento tiveram que a vender. Ficaram como arrendatários. Bastaram, porém, dois meses de renda em atraso para serem desalojados. Mudaram-se para o solar dos Condes de Tavarede, mas acabaram com a secção teatral, pois não dispunham de sala de espectáculos.


E naquela casa, que foi adquirida pela diocese de Coimbra, instalou-se o Grémio Educativo e de Instrução, sob a égide do então pároco de Tavarede, o reverendo Padre José Martins da Cruz Dinis, que ficou conhecido, pelo povo tavaredense, por “papa-léguas”, certamente pelo seu muito caminhar. Durou pouco aquela colectividade.
Violinda Medina não podia abandonar o teatro. Ele já fazia parte da sua própria vida. E depois de uma brevíssima passagem pelo grupo cénico do Ginásio Clube Figueirense, ingressou no teatro da Sociedade de Instrução. Outros amadores a acompanharam, numa “mudança de camisola” que provocou fortes reacções contrárias. Um pouco mais adiante saberemos da sua estreia nesta colectividade.

(Estas recordações do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense e do Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense serão desenvolvidas na história destas colectividades.)

Foto: Violinda Medina contracenando com Severo Biscaia, na peça 'O Rei da Lã', pelo grupo cénico do Ginásio Figueirense.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manuel Cardoso Marta



Um figueirense ilustre que para sempre ficará ligado a Tavarede. Nasceu em 5 de Abril de 1882 e morreu a 17 de Setembro de 1958.
Fez os seus estudos no Seminário de Coimbra, que frequentou no período de 1894 a 1903, e chegou a tomar ordens menores, mas acabou por não seguir a vida eclesiástica.
Exerceu o professorado livre na Figueira. Foi um dos fundadores do semanário “A Razão”, em 1904, do Centro Republicano Dr. José Falcão, da Biblioteca Pública Municipal, do Grupo “Studium”, da Sociedade Arqueológica e do Colégio Liceu Figueirense.
Deu larga colaboração a diversos jornais figueirenses e deixou publicados, relativamente à Figueira: “Folclore da Figueira da Foz”, de colaboração com Augusto Pinto; “J. M. Santiago Prezado”; “Jornalismo Figueirense”; “Um museu etnográfico na Figueira”; e “In-memorian de Aníbal Fernandes Tomás”, com Elói do Amaral.
Investigador estudioso da história local, foi ele quem descobriu, num manuscrito setecentista, o soneto “Descrição do sítio de Tavarede”, da autoria de Frei Manuel de Santa Clara, e que publicou no Boletim da Comissão Municipal do Turismo, em Julho de 1947.
“Rejubile a fidalga Tavarede com a notícia desta peça literária, e tome-a como uma jóia mais a engastar na sua coroa condal”, escreveu ele depois de transcrever o soneto.
Poeta de inspirada sensibilidade, são de sua autoria as quadras que se encontram na nossa fonte, nos bonitos azulejos desenhados por Rogério Reynaud, ali fixados em 1946:


Cardoso Marta era um grande amigo da nossa terra e aqui firmara grandes relações de amizade. Mesmo quando se mudou para Lisboa, em 1909, nunca esqueceu a terra do limonete.
“Entre os mimos que este abençoado torrão de Tavarede produz e manda ao mercado da Figueira, há que especializar um vinhinho palhete, a quem os apreciadores rendem as suas homenagens. Cardoso Marta, figueirense ilustrado que vive na capital há já longos anos, é um velho amigo e frequentador da terra do limonete e conhecedor do seu precioso néctar.
Sabendo isso, um seu amigo tavaredense, presenteou-o há tempos com um pipozito desse palhete, que o inspirou para o seguinte soneto, a que deu o título de “A um certo vinho de Tavarede”:

Encho o meu copo, à luz do claro dia
De um néctar precioso – o vinho amigo,
Puro, sem confecções, como o bebia
O bíblico Noé, no tempo antigo.

Depois, em contra luz, me delicia
Sua cor de rubi; e enquanto sigo
Na toalha o reflexo, a fantasia
Me diz mais que diria quanto eu digo…

Das cepas do torrão de Tavarede,
Ó vinho, sê benvindo à minha sede,
Tu, que de muitos és exemplo e espelho.

Gole a gole, dou co’a língua um estalinho
E razão a quem disse que o bom vinho
Traz alegria ao moço e sangue ao velho.

Mantinha permanente contacto com o grupo de tavaredenses e figueirenses residentes na zona da capital e que, frequentemente, confraternizavam. Um dia leu num jornal a notícia de que o seu amigo Medina Júnior ia fazer uma patuscada em Sintra, tendo por menu umas caras e línguas de bacalhau, que um figueirense amigo lhe enviara. Não perdeu tempo. No jornal seguinte, lá vem ele a dar-se por convidado, terminando desta forma:

Dou-me já por convidado
Para pagares o patau
Das cabeças, das entrechas
E línguas de bacalhau.

Diz-me pois, de qualquer forma,
Por bilhete, ou no jornal,
Com que é que devo contar
P’ra meu governo, afinal.

O estrago não será grande;
Pouca papa já me farta.
Saudades aos teus. Um abraço
Do amigo Cardoso Marta.
Caderno: Tavaredenses com história

segunda-feira, 15 de março de 2010

S. João de Tavarede

Nem todos os anos se realizaram os festejos ao S. João de Tavarede, até ao ano de 1927 em que acabaram de vez, conforme já aqui contei há tempos.
Em 1923 também não se realizaram. "Não queremos acreditar que, como nos disseram há dias, se realisem este anno, na nossa parvonia, os tradicionaes festejos a S. João, simples e unicamente por na épocha actual ninguem se dispôr a trabalhar sem a respectiva remuneração, motivo porque aquela festa não mais se realisará aqui segundo crêmos.
Para o anno de 1921 organisou-se uma brilhante comissão para levar a efeito aquelles festejos, começando por pegar na bandeira, após a entrega da mesma ao nosso paroco, pela comissão de 1920, mas só para meter figura na ocasião, visto que era acompanhada por musica e foguetes, a percorrer as ruas da terra, fazendo depois fraca figura perante os seus conterraneos, por nada mais ter feito, seguindo-se aquele numero as festas do anno citado.
D’ali para cá nunca mais se pensou em tal assumpto, razão porque não acreditamos que este ano hajam creaturas que pensem em realisar os tradicionaes festejos ao santo casamenteiro da nossa terra, sendo para lastimar que tal não aconteça, pois que, em muitas povoações deste e outros concelhos, se realisam todos os anos as costumadas festas, e só aqui se veja no esquecimento a do S. João, que sempre eram tão ambicionados pela gente moça, para dar largas á sua alegria!...".
Mas, se naquele ano não houve festas em Tavarede, nem por isso deixou a freguesia de festejar o Santo casamenteiro. "Varios logarejos desta freguezia, até os mais minusculos, tem este ano conseguido organisar o seu festivalsinho, com danças populares e foguetorio.
Compreende-se apezar de já o termos ouvido dizer – que os seus habitantes resolveram promover aquelas festitas para vergonha dos de Tavarede e ao mesmo tempo com o intuito de os entusiasmar, tirando-os da apatia em que se teem conservado há 3 anos, para levarem a efeito os tradicionaes festejos a S. João.
Com bastante magoa notámos que quasi todos não se incomodaram, não obstante ter havido alguns – muito poucos – com vontade de pôr mãos á obra e trabalhar de fórma a não deixar passar em branco, mais um ano, as festas dedicadas áquele santo (que nos anteriores a 1921 deixaram boa impressão em todos os forasteiros que a ellas assistiram), não vendo realisados os seus desejos, por não terem encontrado quem os auxiliasse e por ficarem para muito tarde, apezar do S. João a todo o tempo ter vez.
Que tenham paciencia todos os apreciadores das festas realisadas na nossa terra, e que esperem até ao ano de 1924, que, estou por certo, se converterão no mesmo das do corrente: em nada".
Foi no Casal da Robala, depois na Chã e ainda no Casal dos Piratas. No meio destas realizaram-se iguais festejos na Ferrugenta. Eis o recorte que recolhi sobre estas últimas:
Desta vez foi na Ferrugenta, que é um logarejo ali à beira da estrada que vai para Brenha. Meia dúzia de casas, cujas paredes são duma alvura invulgar e invejável, aliás muito dignas do nome do casal...
Não lhes serve de nada as nuvens espessas de poeira clara da estrada, que nortadas fortes dos lados de Brenha sobre elas arremessam, como que a dizer-lhes: lavem a cara, oh porcas...
Mas vivem bem naquele antro do chalé compadre Casimiro, que é, além da Ti’Maria da Ferrugenta, mulher entendida em curativos da espinhela e pragas de bruchas, a figura de relevo do logar, pois que até tem tasca.
Calhou a fazerem no domingo ultimo a sua festa... a Bacho, a qual constou, ao que me dizem, de danças de sábado para domingo e neste dia de tarde até altas horas da noite. Tocaram num elegante coreto, armado sob uma figueira de S. João, que é d'aquelas que dá figos graúdos, 4 (!!) rapazes de Tavarede. Queimaram foguetes em barda. A iluminação chegou a ser de candeias de azeite penduradas na arvore que servia de tecto aos muzicos e dançarinos... O Fandango mais o Mocho eram também da comissão. Como não sabem lêr prescindiram do lápis e do papel e fizeram contas a traços na estrada, tendo por caneta um cajado do primeiro, que é um dos bons pastores do logar. Os músicos tremeram por momentos ao soar-lhes aos ouvidos estas negras e ingramaveis palavras: - o dinheiro não chega; faltam 17 melreis...
Mas os homens pagaram-lhes honradamente, como bons patrões que foram...
Conclusão. Por todos os cantos há festanças, há folguedos, e só o coração da freguezia anda negro como as habitações da Ferrujenta, não acordando de vez da letargia em que jaz vai para 3 anos.
Parece-nos que também vai haver bródio num outro logar denominado Casal dos Piratas.
Se olharem bem para o nome, os forasteiros são capazes de para lá irem armados até aos dentes, afim de, prevendo qualquer eventualidade, poderem bem gosar amanhando-se mutuamente...
Eu é que não ia nesse bote...
Ora os piratas!

sábado, 6 de março de 2010

Manuel Jorge Cruz


Nasceu em Tavarede, no dia 9 de Outubro de 1880, filho José Jorge Silva e Maria da Cruz.
Tipógrafo da antiga Imprensa Lusitana, adquiriu, em 1 de Janeiro de 1904, a Tipografia Popular e o jornal ”A Voz da Justiça”, do qual foi director durante quase quarenta anos, tornando-o num dos jornais da província mais considerados.
Desempenhou cargos públicos, tendo sido, por diversas vezes, procurador à Junta Geral do Distrito, enquanto se manteve o regime republicano. Deu valiosa colaboração a várias associações de classe, como a Associação Comercial, ou de cultura popular e recreio, como a Associação Artística e a Sociedade de Instrução Tavaredense, de que foi o primeiro presidente eleito da Assembleia Geral, em Janeiro de 1905. Foi ele, aliás, quem escreveu o primeiro Regulamento Interno da colectividade.

Era casado com D. Virgínia Alves de Assunção Cruz e pai de Jorge de Assunção Cruz.
Preso político por diversas vezes e o seu jornal suspenso pela censura, sofreu rude golpe com o roubo que a polícia política fez à sua Tipografia Popular, donde levaram todo o recheio, deixando-lhe unicamente as paredes.
O desgosto que teve terá sido a principal causa da sua morte, no dia 2 de Novembro de 1941. Foi sepultado em Tavarede.
“Andam tão coçados por um uso imoderado e incontinente os adjectivos, que a memória do Manuel Jorge Cruz, sepultado no cemitério de Tavarede em 3 do corrente, exige só estas palavras: era um bom!
Atestaram-no, os centenares de pessoas de todas as categorias, que lhe apresentaram as últimas despedidas.
Humilde tipógrafo na antiga Imprensa Lusitana, tipógrafo quis continuar sempre.
Eterno sonhador, adquiriu há muitos anos a Tipografia Popular, na rua do Estendal.
Ali, durante largo período, cerca de três décadas, foi sempre o companheiro dos seus operários, praticando autêntica obra de solidariedade social.
Ninguém pagava melhor; o salário mantinha-se em caso de doença; concediam-se períodos de descanso remunerados, como se houvesse trabalho efectivo - isto, há muitos anos.
Foi o representante de uma corrente politica, com o seu periódico “A Voz da Justiça”, que se impôs entre a imprensa da província.
Existência imaculadíssima - a do Manuel Jorge Cruz!
Mais tarde, instalou a sua tipografia em edifício próprio, ainda inacabado.
Sonhava mais, ao passo que ia realizando os seus sonhos, em prole dos outros.
Queria fazer da sua oficina um modelo, onde os operários se sentissem bem, com salão para conferências, a impressão apartada da composição, modelares instalações higiénicas.
Obteve-o em parte.
Dificuldades insuperáveis levaram-no a parar, julgava que momentaneamente.
Constituiu-se então a empresa “Tipografia Popular, Lda”, honrando esta cidade com uma das oficinas de artes gráficas mais completas no país.
Nos últimos três anos e meio, votado a inactividade forçada, passou a viver martirizado fisicamente, com sofrimento minaz.
Ao mesmo tempo, oprimia-o sem tréguas sofrimento moral tremendo.
Sem um queixume...
Não deixa um inimigo, tendo sido alguém na politica local.
É que a integridade de um carácter e a brancura de uma alma, parece que ainda mandam no mundo.
Descanse, afinal, em paz, quem não recorda, do último quartel da vida, mais que a esposa, o filho e um punhado minguado de amigos.”
Transcrevemos um outro recorte, publicado aquando da sua morte, da autoria do seu amigo Raimundo Esteves: “… não sei se o Manuel Jorge, que era de Tavarede, e trazia no seu trato uma ponta de humildade e um travo de timidez de aldeão, foi a enterrar na sua terra. Gostaria que tivesse ido. Sinto que ficava bem, por baixo dos torrões do cemiteriozito rústico, de onde se ouvem ramalhar os pinhais do Saltadouro nas noites vesgas, e nos dias doces, cantar a linfa clara que desce da Serra e vem, entre madressilvas cheirosas, fertilizar o chão criador das várzeas onde o limonete oloresce o fino ar.
O Manuel Jorge devia ir farto dos postiços, das vaidades, das mentiras convencionais em que a engrenagem da vida o colheu, o triturou, o reduziu a um fantasma de si próprio! Era deixá-lo voltar ao campo tranquilo onde viu a luz do dia, regressar à aldeia garrida de que partiu com um riso fresco à flor do lábio, os olhos nadando em claridade, todo o seu ser num vibrante anseio de fraternidade humana, - idealista que ingenuamente traduzia a sua aspiração de amor pelo próximo, deixando aflar as pontas da sua eterna gravata à La Vallière, que sempre e romanticamente lhe cobriu o peito, onde batia um generoso, um afável, um bondosíssimo coração”.

Fotos: 1 - Manuel Jorge Cruz; 2 - Jornal A Voz da Justiça; 3 - Regulamento da SIT (manuscrito por Manuel Jorge Cruz)

Caderno : Tavaredenses com História

D. Francisco de Mendanha

Nasceu em Tavarede e morreu em 17 de Novembro de 1561, no Convento de Santa Cruz.
Filho de João de Mendanha e de Isabel de Azambuja, “ambos da mais qualificada nobreza de Coimbra”. Estudou na Universidade de Paris, “onde saiu eminente em Filosofia, Teologia e Direito Pontifício, em cuja Faculdade se graduou.
Regressado a Portugal, recebeu, parece que por sugestão de seu avô, Francisco Mendanha, varão ilustrado, o canónico hábito de S. Agostinho, no convento de Santa Cruz, a 18 de Janeiro de 1528. “Tanto se distinguiu na exacta observância do seu instituto, que o achou digno Frei Tomás de Barros, reformador da Congregação dos Cónegos Regulares, para que fosse introduzir a reforma em o Convento Real de S. Vicente de Fora de Lisboa, no ano de 1537, onde foi eleito Prior trienal desta magnífica Casa, com beneplácito do Prior-mor D. Fernando de Vasconcelos e Meneses, Bispo de Lamego, que nele largou o governo.
Na Capítulo Geral, celebrado em o ano de 1551, saiu eleito Prior Geral, e neste ano assistiu como Cancelário da Universidade de Coimbra ao plausível acto de Mestre em Artes, que recebeu o Senhor D. António, filho do Sereníssimo Infante D. Luís.
Segunda vez subiu ao lugar de Prior Geral, sendo eleito a 7 de Novembro de 1555, em cujo governo alcançou insignes privilégios da Sé Apostólica para a sua Congregação.
Querendo satisfazer aos desejos do Sumo Pontífice Paulo III, compôs na língua italiana – “Descrição do Convento de Santa Cruz”. Esta obra foi traduzida, por ordem de El-Rei D. João o III, na língua portuguesa, e a mandou imprimir o mesmo Príncipe.
Saiu a tradução, que parece ter sido feita do latim e não do italiano, dos prelos do Convento de Santa Cruz, em 1541. Este trabalho de D. Francisco de Mendanha “um dos opúsculos históricos mais raros da nossa literatura, pode competir, em estilo e linguagem, com alguns dos melhores escritos do século XVI. A reprodução integral deste opúsculo é portanto um serviço eminente prestado à literatura e igualmente à arqueologia”.
Tavarede perpetuou o seu nome atribuindo-o a uma das suas ruas.
Aquando da estreia da peça Chá de Limonete, de José Ribeiro, um crítico lamentou a omissão de uma cena recordando D. Francisco de Mendanha, sugerindo, como de excepcional efeito, um final de acto com o acto de Mestre em Artes recebido por D. António, o Prior do Crato, na presença do nosso conterrâneo “Cancelário da Universidade de Coimbra”.


Caderno: Tavaredenses com História

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 19

De Fevereiro a Outubro de 1929, publicou-se, na Figueira da Foz, um semanário sob o título “O Jornal da Figueira”. De feição declaradamente situacionista e conservador, manteve, durante a sua curta existência, violentos ataques a tudo quanto fosse republicano ou maçónico.
A Sociedade de Instrução Tavaredense, a que estavam ligados homens como José da Silva Ribeiro, Manuel Jorge Cruz, Manuel e José Gomes Cruz e outros, republicanos e maçons, foi um alvo preferencial para os ataques virulentos daquele periódico. Quando representou, no Penincular, em espectáculo de benefício para a Santa Casa da Misericórdia, em 26 de Janeiro de 1929, “O Sonho do Cavador”, escreveram uma extensa reportagem. Transcrevamos alguns retalhos.


“Limitamo-nos, apenas, a registar o entusiasmo, verdadeiramente bizantino, com que a “plateia” da Figueira recebeu esta peça, representada “ab initio” num modesto teatro do ridente povoado de Tavarede.
Mas registando o facto, somos forçados a abordá-lo, ainda que simplesmente ao de leve, para que ele desça a ocupar a posição devida – uma bem velada meia sombra da maior parte das “teatradas” levadas à cena por amadores.
Não vamos incidir as nossas considerações sobre certas confusões de linguagem; sobre a falsa colocação de pormenores que atraiçoam a unidade do enredo; nem tão pouco sobre várias cenas que se repetem, confundindo, entediando e monotizando a pouca acção que já por si se revela.
Não procuramos esclarecer o espírito crítico dos leitores, referindo a falta de colocação de incidentes verdadeiramente inverosímeis que quebram o legítimo equilíbrio dos detalhes; nem apresentamos o mau emanharamento deste ou daquele quadro; e a ilógica e pouca racional iniciação do “cavador” na cidade.
Não salientamos sequer as cenas que, exageradamente românticas, se apresentam sob a vida negra dessa ilusão perdida em face de “amazonas” mal engendradas que só existem na “precoce” imaginação do autor.
Não repetimos o que sobre a peça escreveu um colega local: “a peça não vale nada”...; nem mesmo revelamos o péssimo gosto de vários quadros, com manchas verdadeiramente insonsas de fraco tom e falhas de mínima e mais prudente concepção.
Nada disso fazemos, porque se a “plateia” da Figueira é, de facto, “plateia” – ela, de facto, também, já julgou definitivamente.
Como explicar, então, este grande entusiasmo que de certo público se apoderou, para apresentar o original de “João José” como a “oitava maravilha do mundo”; o verdadeiro “formigueiro” que de longada ia estrada além, até Tavarede, para assistir ás primeiras representações; a partida de tal grupo dramático de Tavarede em “vento norte” a Buarcos; e daqui, a este assalto ao Peninsular?!...
Valor intrínseco da peça, positivamente que não, porque fazendo eco dessa local a que nos referimos – “a peça não vale nada”.


Valor de partitura, também não pode ser, visto a “plateia” da Figueira estar habituada a ouvir o que há de bom e de melhor.
Nem mesmo sequer nos podemos integrar na forma como decorre a acção, ou pela maneira por que os factos se sucedem, sem qualquer particularidade que emocione verdadeiramente o público.
E no entanto, o O Sonho do Cavador que o espírito “judaico-franco-maçon” de Tavarede nos exportou, é uma revista-fantasia de bons costumes, com uma bem acentuada nota regionalista...”
Mais à frente, continua: “...Sendo assim, como é de facto, não se explica duma forma plausível a verdadeira corrida democrática que da peça se tem feito, fazendo dela uma verdadeira “parada” política.
É que, na verdade, o O Sonho do Cavador com uma nota acentuadamente regionalista, transbordando de amor à terra e pela terra, é uma peça tudo quanto há de mais antidemocrática, promovendo a par e passo uma atmosfera nacional que a Democracia não pode perfilhar, por ser estruturalmente anti-nacional.


E, se o público a aplaudiu por mera questão política, fazendo dela uma “Grande Parada”, não soube integrar-se nela, na coerência dos seus próprios princípios, visto ela ser a máxima negação de todos os “máximos” princípios do Número, para ser uma peça que representa a verdadeira arte nacional, na tese que pretende defender.
Nem todos, porém, assim o compreenderam. E, desta forma, o tal “público” fala, ouve e quere fazer falar e ouvir os outros – os indiferentes.
E, assim, esse “público” fazendo da peça uma “Grande Parada”, conseguiu arrastar a Tavarede, outro público novo e incrédulo, propagueando mil e uma coisas, e enaltecendo ao máximo um valor intrínseco desse O Sonho do Cavador que, de verdade, nada, ou pouco, vale em si.
Não se satisfazendo ainda, arrasta-o, em pleno sucesso, até Buarcos, e daqui, ao Peninsular.
E porquê?!... Simplesmente porque o autor – tenho muito prazer em dizê-lo – é um irmão democrático que se encobre com o pseudónimo de “João José” e faz parte das hostes aguerridas que combatem a actual situação política, vivendo aliás na sua dependência, porque a serve como seu funcionário.
Da peça, fizeram, pois, mais uma manifestação política, aproveitando a “boa-fé” de certo público que pretende divertir-se, criando de tal modo, um certo espírito de unidade política que na realidade não existe e que sem grande elevação de pensamento pretende sustentar o “fogo sagrado” das trincheiras maçónicas da Figueira e seus arredores”.
Cinco meses depois, o grupo cénico, como já se referiu, apresentou, no Parque Cine, da Figueira, dois espectáculos, com “O Sonho do Cavador” e com “A Cigarra e a Formiga”. Do primeiro, já temos os apontamentos acima. E da segunda? As críticas, por aquele jornal, ainda foram mais violentas. Veremos, a seguir.
Fotos: 1 - Cenário da Igreja de Tavarede; 2 - Dama da Batota (Sonho do Cavador); 3 - Grupo cénico que representou O Sonho do Cavador e A Cigarra e a Formiga (Tomar)