quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um Tavaredense... mesmo Saloio!


Ando a fazer uma recolha, nos meus apontamentos, para um pequeno 'trabalho' sobre 'Os Quatro Caminhos do Senhor da Areeira', que julgo bastante interessante, nomeadamente sobre o Santo, a Escola, a Cerâmica, etc., e vou encontrando algumas notas recolhidas que julgo merecerem a sua divulgação, pela curiosidade, pela antiguidade e por alguns intervenientes. É o caso desta nota de hoje. Já aqui publiquei a biografia do interveniente, António Medina Júnior. A história passou-se em Sintra, logo nos princípios da sua estadia naquela linda terra.

A Feira dos namorados -Três figueirenses atiradiços -Uma catástrofe em eminencia

S. Pedro é um dos bairros mais populosos de Sintra. Lá existe, entre outros, um amplo e bem arborisado largo, onde de quinze em quinze dias tem lugar uma enormissima feira.
Ali se encontra de tudo.
Se um sujeito pretende, por exemplo, um relogio qualquer e de qualquer marca, vai lá, procura-o e encontra-o. Se carece de um objecto d’oiro, mas oiro de lei, vai á feira de S. Pedro e encontra esse objecto. Se precisa de um fato, de um sobretudo, de uma capa á alentejana, ou emfim, de outra espécie de roupa, vai ali encontrar o que deseja.
Tambem não falta o género sapataria, nova ou usada, quinquilherias, rendeiro, ferragens, ferro-velho, oculista, etc., etc., etc.
É então uma feira muito fertil em bons gados. Os saloios, “enaipados” na sua praxista calça justa a abrir boca de sino sobre as botas de elastico, de jaléca com arabescos ou de blusa afeminada com um grande cordão de botões de osso branco, de barrete com grande borla espetado na cabeça, primam em levar as suas vacas com os uberes cheinhos, até mais não, lá p’ra riba p’ra fêra (como eles dizem), onde depois tratam da sua vida conforme melhor podem.
Chegam a fazer-se ali tranzações importantissimas. A feira de Maiorca, a do Paião, etc., em nada se assemelham á feira de S. Pedro de Sintra. Digo-o com auctoridade, pois bem conheço umas e outra. E oxalá que as nossas assim fôssem...
De modo que, como o leitor está a vêr, o movimento em Sintra, e nomeadamente em S. Pedro, é em dia de fêra qualquer coisa de extraordinário.
Custa mesmo a andar pelas amplas ruas - demais com petizes. E quem para lá fôr com eles, não está bem - por todos os motivos e por mais um...
É que lá vem um encontrão, um palavrão grosseiro, uma pizadela desalmadamente estupida, com cardas e tudo, etc., e lá surge, sobretudo, o edilio da pequenada, que vem a ser a enorme dóse de tendas com as multiplas variedades de brinquedos tentadores que os pregoeiros anunciam:
- A dez tostões; é tudo a dez tostões!...
Ora dez tostões d’aqui; dez tostões d’acolá, e daí a pouco mais um pedido: “oh paisinho, só mais este brinquedo, que eu dou-te um beijinho” e quejandas meiguices em que o meu casalsito é fértil para levar os paisinhos á certa..., o caso é que para ali só se pode ir com a pequenada e respectiva consorte - mas com muitos dez tostões na algibeira...
Ha então designado um dia no ano em que os casados que ainda teem cára com que possam passar por solteiros, não deve levar á fêra, nem a consorte nem os filhos...
É na primeira quinzena de Março, a chamada “feira dos namorados”.
Eu explico por quê:
Nesse dia fica vaga de botequins, de tendas e de tudo quanto sejam estabelecimentos, uma das mais amplas ruas do largo da feira. Só para lá vai fazenda - mas boa fazenda feminina... É denominada rua dos derretes... Isto é, toda a fêmea solteira que pretenda macho, (o mesmo que dizer noivo), vai para aquela rua. Geralmente são saloias sádias e roliças. Raparigas do campo, visivelmente saudaveis. Não usam chale, como as nossas pequenas daí. É tudo casaco. Mas bons casacos, com grandes peles e recheiados de bordados de sêdas garridas. Usam botas de botões ao lado. Algumas põem na cabeça lindos “cachenéts” e outras aboseiram-se de chapeu... á cabeça! Ao pescoço, uma verdadeira montra de oiro tentador que lhe cai sobre a parte exterior dos volumosos seios, escondidos sob um vestido berrante em que predominam rendas caras, muitas rendas caras... Debaixo de um braço, uma bolsa xadrez orlada de borlasitas de lãs de côres diversas. Os olhos espetados no chão, onde a ponteira de uma sombrinha entretidamente se diverte, as pretendentes assim estão horas e horas, á espera de quem não prometeu ir...
Os rapazes, que se apresentam como melhor podem, esses vão, olham, escolhem a que mais lhe convêm, aproximam-se dela, metem fala. Se são correspondidos é porque a pequena gosta deles. Começa então o namôro. Mas namôro que ali se arranja, naquele dia, é casamento certo, tornando-se curioso o facto de a maior parte desses namorados só dali se conhecerem... Alguns há que só naquela ocasião se viram pela primeira vez!...
Um saloio fez isto: Gostou de uma saloia. Foi comprar uma gaita de bôca. Chegou ao pé dela. Não tinha coragem para se declarar. O que fez? Poz-se a tocar, a tocar. Ao fim de 2 horas de toque, a noiva lança-se-lhe nos braços, como quem diz: sou tua; ou então: não toques mais que desafinas a gaita; e pespegaram-se ambos a dançar...
Estava o casamento preparado...
Outros estão horas e horas juntos, a brincar com os pés na areia do solo, atirando com eles mutuas chapadinhas, mas sem coragem para romper o seu profundo silencio que os envolve. São ambos “mudos”...
Aquilo tudo, é emfim, um soberbo pratinho para a rapaziada de Sintra (propriamente dita), que para ali vai “gosá-los” com uma destas disposições francamente raras e boas para um sujeito desopilar a rir com a maior satisfação...


Três figueirenses, O Zé Dias Leitão, o João Monteiro, sargentos de aviação, lá debaixo da Granja, e eu, fomos todos até á “feira dos namorados”. Bem entendido, tudo podia escapar-nos, mas menos a rua dos “derretes”...
O Dias, com seu respeitavel nariz pombalináceo, dirige-se a uma mocetona de truz e fala baixinho, declara-se em segredo...
Não tardou que levasse com o vexatório e vergonhoso meio tostão. (Nós aí chamamos uma cabaçada, quando nos bailes convidamos uma moça a dançar e ela nos diz impertigadamente: não senhor! Aqui é um meio tostão...
A saloia deu-lhe, pois, com o meio tostão e “repicou” alto e bom som, qual sino em dia de festa:
-Então, hein! Cuida que não o conheço! Ora vá lá para a sua mulher e para o seu filho, ande! Forte atrevido que me saiu o casadão... Eu bem conheço os soltêros pela pinta...
O Zé Dias raspou-se logo, bem entendido, p’rá tenda do Maneta de Colares, onde afogou, num copo de tão genuino termo, tão fatal desilusão...
O Monteiro, esse teve mais sorte. Meteu tréla. Foi correspondido. Conversou, conversou, mas de repente apresenta-se ao lado dos “namorados” um rapagão valente, mais forte do que o Paiva do Ginásio, de cacête nas unhas, que disse:
- “É r’periga, “abala” daí que o mê sargento é casado. Querias tu voar, hein? Nan vês que é pardal com azas?!”...
O Monteiro teve que conformar-se e ir ao encontro do Dias, que ria a bandeiras despregadas. Invejosos, porém, com a minha sorte, pois eu estava realmente bem “encostado” os desiludidos procuraram muitos amigos, contaram-lhes o sucedido e eles aí estão a passar constantemente junto de mim e da minha noiva, que até já me tinha dado o praxista ramo de flôres...
Muito sizudamente, fazendo de conta que os não conhecia, para não me “desmanchar”, tive no entanto de mudar de lugar. Foi peor, porque momentos depois apareceu-me uma senhora conhecida, que muito propositadamente me cumprimentou desta maneira:
- Adeus, sr. Medina. Está bem? E a sua senhora? E os seus filhos?
Fiquei varado...
Ora o leitor está a vêr o pratinho que isto tudo constituiu para os meus invejosos conterrâneos, que logo por sorte assistiram à derrocada toda...
Riram-se de mim - como eu me ri primeiro dêles. Depois.. tive de me rir tambem de mim...
A minha derretidinha é que se metamorfoseou repentinamente de anjo em féra e de féra em automovel relampago...
Ripa-me da mão aos flôres amurchidas pelo calôr do meu terno e meigo coração, olha-me de revéz, mira-me dos pés à cabeça, atira fóra o ramo, e espumando, chama-me um nome feissimo que felizmente não tenho. Nisto engata o motôr e ela aí vai em prise directa até junto dos seus velhotes - dos meus simpaticos sogros...
Bem entendido, o Medina, o Dias e o Monteiro fizeram marcha em sentido contrario, não quizesse o diabo que aparecesse de repente algum padre para nos casar as costelas com algum bom marmeleiro, que éra, segundo a minha consciência, o que isto tudo precisava, para vêr se havia mais juizo...
E aqui está como a “feira dos namorados”, de S. Pedro de Sintra, este ano foi passada entre três figueirenses que pretenderam recordar, aos 31 anos, o que na nossa rica praia com niñas guapitas fizeram aos 20 anos - em que não havia ainda a grilheta da família (que hoje é, vamos lá, a minha maior alegria e satisfação).
De modo que se ainda cá estiver para o ano e o destino caprichar em me conservar a fisionomia solteirissimamente nova (nova e bonita, claro está...) confesso que a respeito de namorar, antes quero ter a fama do que o proveito...
Nada que o diabo ás vezes tece-as. E eu não tenho as costelas no seguro...
Livra!...


Esperteza saloia ou... esperteza tavaredense?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Anselmo Cardoso Júnior


Nasceu em Brenha, no ano de 1894 e morreu nas Alhadas, onde fixou residência após o seu casamento.
Profissionalmente, exerceu funções nos Serviços Municipalizados da Figueira da Foz.
Teve uma acção notável no campo associativo, como dirigente, músico e compositor musical. Foi um dos fundadores do Ateneu Alhadense.
Como violinista, formou, com seu primo Álvaro de Oliveira Cardoso, o naipe de primeiros violinos na orquestra dos teatros da Sociedade de Instrução Tavaredense. Depois da morte de António Simões, passou a dirigir aquela orquestra, enquanto viveu. Compositor muito inspirado, musicou muitas revistas levadas à cena nas Alhadas. Para Tavarede, Anselmo Cardoso Júnior será sempre recordado, pois, entre os diversos números que compôs para as fantasias teatrais de Mestre José Ribeiro, destaca-se a “Canção do Limonete” que, ainda hoje, é o verdadeiro hino do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.
No ano de 1951, esta colectividade nomeou-o seu “Sócio Honorário”, como prova de gratidão pelos brilhantes serviços que lhe prestou e “… prestou-lhe singela homenagem que, nem pelo facto de ser simples, deixou de comover aquele nosso bom amigo, pela sinceridade que a caracterizou”.
Caderno: Tavaredenses com história

António Correia Pinto de Almeida (António Amargo)

Jornalista, escritor e poeta figueirense, António Amargo escreveu, em 1925, para a secção dramática do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, uma opereta a que deu o título de Ninotte, versão livre da conhecida obra João Ratão.
Igualmente, mas em colaboração com Raul Martins que escreveu o texto, são de sua autoria os versos das operetas Noite de Santo António e Mãe Maria, igualmente levadas à cena por aquele grupo tavaredense. A propósito dos versos de Mãe Maria, encontrámos uma nota de um crítico que não gostou deles, dizendo que os da Noite de Santo António eram melhores e nem pareciam do mesmo autor.
António Amargo, como resposta, mandou um “postal” dizendo: “Pareceram-lhe muito inferiores os versos de António Amargo – os versos meus – comparados com os de Noite de Santo António, outra opereta da mesma trempe, a tal ponto que dir-se-ia não serem do mesmo autor. Evidentemente, quem anda a lidar com as caprichosas senhoras Musas faz versos melhores ou piores, dependendo o facto dum largo conjunto de circunstâncias. E depois… gostos pessoais não são discutíveis; mas, com franqueza, não dei por tão grande inferioridade, nem compreendo como conseguiu fazer de cor o cotejo dos versos das duas peças, quando eu, o seu autor, não me atreveria a fazê-lo… sem ler uns e outros antes de fazer a crítica”.
Por ocasião das representações de Ninotte, um grupo de amigos ofereceu-lhe um almoço de confraternização, na nossa terra. António Amargo, para essa reunião, escreveu o seguinte soneto, que leu à sobremesa:

Se esta vida afinal são só dois dias,
Cada um deve gozá-los como pode,
Buscando horas tranquilas de pagode
E esquecendo tristezas e arrelias.

Em meio do prazer e de alegrias,
Sem que o incerto amanhã nos incomode,
Que cada qual se adapte e se acomode
A bem viver as horas fugidias.

Quando a sorte nos mostra o lado mau,
Bendigamos o sumo da parreira
E o mar, que p’ra nós cria o bacalhau.

Tristezas só as tem quem tiver fome:
Só se leva da vida verdadeira
Aquilo que se bebe e que se come!

Faleceu, em Lisboa, em Maio de 1933.
Caderno: Tavaredenses com história

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 16

E depois das comemorações do 17º. aniversário, nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1928, no primeiro dia com a repetição da peça “Noite de Santo António” e um acto de variedades, e no dia seguinte, domingo, com a tradicional alvorada e sessão solene, o grupo cénico, em Janeiro de 1929, levou à cena a opereta em 3 actos “Entre duas Avé-Marias”. Fica aqui, também, a transcrição dos comentários dum espectador, publicados em “O Figueirense”.

“No passado domingo assitimos, na terra do limonete, á 1º. representação da linda opereta em 3 actos Entre Duas Avé-Marias, que a secção dramática do distincto Grupo Musical e de Instrução Tavaredense levou á scena.
Dispensamo-nos de descrever o enredo da peça, porque êle já é de sobra conhecido pelo publicp da Figueira e arredores. Tambem o que vamos dizer ácêrca do desempenho, não é uma critica, mas tão sómente uma opinião muito nossa.
Em primeiro logar, é dever nosso citar o nome de Herculano Rocha, êsse verdadeiro artista de génio que, como regente da orquestra, foi um dos elementos que mais contribuiu para o explendido exito que mais uma vez obtiveram os distinctos amadores do G.M.I.T.
A seu lado colocamos Rosa, a aldeã, papel interpretado por D. Violinda Medina e Silva, para mim, a melhor, a mais completa amadora do nosso concelho. Quando é preciso chorar, fá-lo com tal sentimento, que nos comove; e quando é preciso rir, tambem o faz com aquela graça com que só artistas de nome o sabem fazer. E a tudo isto alia um timbre de voz unico, perfeito, que encanta e seduz uma plateia inteira. Para ela, para essa excelente amadora, vão os nossos mais sinceros parabens.
André. desempenhado por José Silva, foi admirável em todas as scenas. Boa voz, optimo gesto e com um á vontade proprio dum homem d’aldeia que tem caixa do correio e Retiro dos pacatos.
Zé Cochicho, por Jorge Medina, muito bom, o que não admira porque é filho de peixe... e está tudo dito.
Narcizo, por Manuel Cordeiro, bem; é um dos amadores novos, mas de recursos para o palco.
Mordomo, gostámos. É um personagem que requere um certo esfôrço para dele se tirar partido, e António Medina conseguiu-o sem dificuldades.
O Carteiro, muito bem por João Nogueira; pena é que a sua voz não possa elevar-se mais, de resto andou em tudo admiravelmente.
Jorge, por Manuel Nogueira, foi correcto; mas devemos confessar que o encontramos um pouco deslocado do seu temperamento. Este, é um dos bons amadores tavaredenses, mas... como dizemos, o papel que desempenhou agora, não lhe está muito a caracter.
O Morgado, foi interpretado com aquele rigor absoluto, único,que só nos grandes amadores, como Raul Martins, se pode encontrar.
Propositadamente, deixamos para o fim o Aniceto Boticario, papel desempenhado por Adriano Silva, de quem não gostamos muito. Para que muda este cavalheiro de voz? Porque não fala naturalmente? Se assim fizesse, teria brilhado muito mais, visto ter explendidas qualidades para a arte de Taalma.
Nos finaes de acto, houve chamadas especiaes ao Ensaiador, e Herculano Rocha, e a D. Violinda Medina, tendo a Direcção no final do 2º. acto oferecido a estes elementos bouquets de flores naturaes.
E eis, caros leitores, a opinião que formulei acerca da opereta Entre duas Avé-Marias, levada á scena por um dos mais completos grupos dramaticos do concelho desta linda cidade”.

No mês seguinte, fizeram nova deslocação à Marinha Grande. Vejamos como correu.

“É com a maior satisfação que hoje notiamos a ida da Secção Dramática do benemérito Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, acompanhado de muitos sócios, à laboriosa e hospitaleira Vila da Marinha Grande, assim como bem hão-de dizer todos aqueles que, mais de perto, sentiram, arfar-lhe no peito, uma jubilosa alegria, que só se sente quando estreitamos nos braços um povo amigo e bom como são os marinhenses.
Já esperávamos o resultado obtido, pois que nem outra coisa era de esperar, dado as qualidades de que são dotados todos os filhos da Marinha Grande, e ás simpatias de que ali gosam os nossos conterrâneos.
Ora, como motivos vários e imprevistos nos impediram que os acompanhássemos, e para melhor e mais minuciosamente ilucidarmos os nossos leitores, era-nos necessário, indispensável mesmo, que entre um nucleo tão compacto, como foi aquele que até à Marinha debandou no último sábado, escolhessemos uma pessoa que nos informasse do que mais notavel ali se tivesse passado.
Escolhemos o nosso particular amigo sr. Raul Martins.
- Chegados á estação - disse-nos - uma enorme multidão enchia completamente a gare, á nossa chegada, vendo-se entre ela o estandarte do Operario Club Marinhense e representantes dos Bombeiros Voluntários e Atlético Club Marinhense, d’aquela terra, que á chegada dos tavaredenses levantaram vivas ao Grupo Musical e Tavarede, que foram correspondidos por este.
Trocados os cumprimentos, formou-se um cortejo imponente, que se dirigiu, visto o adeantado da hora, para o Teatro Stephens, propriedade dos Bombeiros Voluntários, e onde se realisaram os espectaculos.
Momentos depois, a casa principiou a encher-se, notando-se, no entanto, algumas falhas na plateia, e representou-se a opereta Entre Duas Avé-Marias, que foi calorosamente aplaudida nas passagens mais notaveis, tendo sido feitas chamadas especiaes ao ensaiador, Violinda Medina, Manuel Nogueira e Herculano Rocha.
- Passamos ao dia seguinte, domingo, 3.
- Depois de percorridos varios pontos de paisagem verdadeiramente exuberantes e visitados alguns logares mais notaveis da Vila, fomos assistir a um match de foot.ball, que devia ter lugar entre um forte onze do Atletico Club Marinhense e um composto por elementos da Secção Dramatica.
- Depois de uma renhida luta, sairam vencedores os nossos adversários pelo elevado score de 5-1; tendo, no entanto, merecido aplausos os jogadores nossos, Manuel Cordeiro, Manuel Nogueira e João Medina, que, sem exagero, foram os melhores homens da tarde.
- Depois fomos assistir a uma festa que, por volta das 4 horas teve lugar na Associação Humanitaria dos Bombeiros Voluntarios d’aquela vila, onde foram trocados calorosos brindes.
- E depois de satisfazer-mos as exigencias do estomago fomos novamente para o Teatro.
- Qual o nosso espanto quando ouvimos dizer que jà não havia bilhetes para o espectaculko, que a seguir ia ter lugar.
- Efectivamente, muito antes da hora marcada, a casa estava completamente á cunha. E representou-se a opereta Noite de Santo Antonio, tendo a completar um Acto Arrevistado, que foi muito aplaudida, tendo sido feitas, novamente, chamadas especiaes aos amadores, ensaiador e maestro.
- No final do espectaculo, foi, por um grupo de habitantes da Marinha, pedido para que fôsse executada novamente a marcha Figueira da Foz, que no final foi calorosamente aplaudida, tendo todos retirado com explendidas impressões.
E depois de nos dizer o que aí fica, ia a retirar-se, quando o prendemos ainda com algumas palavras sobre o dia de segunda-feira, ao que nos respondeu:
- Olhe, meu amigo. Já andavamos um pouco massados pelas noites perdidas, mas no entanto, ainda percorremos algumas fabricas de vidros e cristaes, que, com grande deferência ali fômos recebidos, e... mais nada.
- Agora, para fechar, termino com estas palavras que, com a maior sinceridade as pronuncio: - A Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, póde orgulhar-se do êxito obtido nesta louvavel iniciativa, onde soube engrandecer, mais uma vez, o nome da colectividade e da terra que lhe dão o nome, colhendo loiros tão belos, grinaldas tão floridas, que se ostentam hoje, e sempre, triunfal e orgulhosamente na flâmula querida daquele estandarte... - e apontou-nos o estandarte do Grupo Musical.
É pois, daqui, desta modesta tribuna, onde combatemos pelo desenvolvimento do Grupo Musical, como um valioso baluarte da Instrução, que póde orgulhar-se de ser, e sobretudo o nome de Tavarede, saudamos, franca e abertamente, a pleiade de rapazes e raparigas que constituem a aureolada Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, assim como á sua digna Direcção”.

Meses depois, foi a tuna do Grupo que se deslocou à Martingança. Foi no regresso desta viagem que, no Mosteiro da batalha, deixaram uma lápide de homenagem ao Soldado desconhecido e que, ainda há muito pouco tempo, lá estava afixada, conjuntamente com muitas outras, mas, da última vez que ali estive, tinham todas sido arrancadas e, possivelmente, transferidas para outro local.

Entretanto, a terrível crise que havia, tempos antes, atingido o Grupo Musical e que procurarei descrever no capítulo seguinte, dificultava a acção cultural da colectividade, que cada vez lutava mais com imensas dificuldades.

Mas ainda vou aqui registar a deslocação, no dia 1 de Abril, à vizinha Alhadas.

“Simplesmente brilhante a récita de segunda feira, 1, no teatro da Boa União Alhadense, pela secção dramática do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Na nossa terra deixou o simpático Grupo as melhores impressões. Se bem que nos mereçam as mais lisongeiras referências os distintos amadores, abstemo-nos de as fazer, não devendo, porém, deixar de endereçar as nossas sinceras felicitações à distinta amadora D. Violinda Medina.
“Entre Duas Avé-Marias” é uma opereta conhecidíssima, mas agrada sempre, e o Grupo de Tavarede representou-a de forma a agradar bem. Já isso prebvíamos, atendendo ao meticuloso cuidado de Raúl Martins e à competência musical de Herculano Rocha. E, a propósito, já que falamos deste distinto maestro, queremos-lhe dar aqui, espitirualmente, um abraço pela feliz inspiração da sua “Marcha” de abertura do espectáculo, cuja execução pela orquestra foi magistral, prendendo a atenção da numerosa e escolhida assistência que, no final, o presenteou com uma lomga salva de palmas”.

E em Maio ainda apresentaram na Figueira um novo espectáculo. “Supômos que os autores da “Mãe Maria” pensavam fazer uma peçasinha ligeira e fácil, com motivos populares e simples. Música sob a regência de Herculano Rocha – e está tudo dito, que este músico distinto, tem feitos seus créditos. Violinda Medina, a excelente amadora de sempre. Coros fartos enchendo a cena. E vá sem favor – primorosas raparigas, de lindos rostos e garrido aspecto. A casa cheia... E aplausos nos remates de acto. Estas récitas são sempre um motivo de cultura. Por isso de elogiar os seus organizadores. O que fazemos com gosto”.

E chegamos a 1930. O edifício da sede foi vendido. Ainda lá estiveram, em regime de aluguer e como veremos adiante, mais uns tempos. Praticamente cessaram as actividades culturais. Ainda foi possível reorganizar a Tuna para uma deslocação a Vizeu, no dia 14 de Setembro, integrada numa excursão organizada pela Comissão de Iniciativas da Figueira da Foz.

Com todas as dificuldades, e tendo sido decidido que só participassem sócios da colectividade, foi a primeira vez que se apresentaram com o elevado número de 40 figuras. Foi seu ensaiador e dirigente o nosso conterrâneo António de Oliveira Cordeiro.

Mas os anos dourados haviam terminado. E, diga-se com verdade, culturalmente, foi um período brilhantíssimo da colectividade. Mas a história é implacável e os problemas surgidos com a compra da sede e com as obras de restauro, bem como as elevadas despesas com o grupo cénico, a tuna, a escola nocturna e demais actividades, não conseguiram ser ultrapadssadas, apesar dos esforços das sucessivas direcções e componentes artísticos. À distância, longe de viver aquela dramática situação, ocorre-me a pergunta: terá valido de alguma coisa o sacrifício e luta de cêrca de uns longos e difíceis dez anos? A resposta tem de ser afirmativa. A colectividade ganhou e perdeu. A terra do limonete, o mesmo. Mas os tavaredenses, como pessoas ambiciosas de cultura, ganharam, com toda a certeza. Meia dúzia, uma dúzia, ou talvez mais, de algumas dedicações à associação, sofreram muito, é certo, tiveram mesmo um enorme prejuizo económico, mas a história do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense ganhou o pleno direito à admiração e respeito de todos os tavaredenses que se seguiram àquela conturbada época.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 21


Entretanto, alheando-se às citadas questões político-religiosas, a Sociedade de Instrução Tavaredense prosseguia a sua actividade. “Na verdade, a acção desenvolvida é admirável, sob todos os pontos de vista. Mantém, há quase três dezenas de anos, uma escola nocturna, onde se recebem alunos, menores e adultos, sócios ou não sócios, aos quais é fornecido gratuitamente todo o material escolar. Não se limita a isso a sua função, vai mais longe: entra no capítulo da educação e da cultura artística, limitada, como se compreende, às condições do meio, servindo-se, para isso, do livro, da palestra e do teatro. A influência moral e educativa exercida por intermédio do teatro, tanto sobre os que nela representam como nos espectadores, é evidente. Para atingir este objectivo, segue-se na escolha das peças – algumas das quais escritas para este fim – o critério de que o teatro não deve servir apenas para proporcionar distracção, deve, principalmente, ser um veículo de educação moral e cívica e, até, num meio como é o da aldeia, um instrumento de cultura”. Eram, afinal, os princípios estabelecidos pelos seus fundadores que, como se sabe, tinham sido plenamente conseguidos.
E, nos princípios de Julho de 1930, dá-se a primeira “internacionalização” do grupo cénico. Com as peças “O Sonho do Cavador” e “A Cigarra e a Formiga” foram a Tomar, efectuar dois espectáculos em benefício da Misericórdia local. Foi uma jornada triunfal “...... a recepção que aqui teve a excursão da SIT. Imponência, beleza, entusiasmo, sinceridade – eis as características dessa admirável recepção, que não esquece aos que da Figueira vieram a Tomar.....”.
Como curiosidade referimos que, três meses antes, esteve marcada uma deslocação a Vizeu com aquelas duas peças, para benefício de “uma obra contra a mendicidade e do Asilo de Santo António”. No entanto, a empresa proprietária do Teatro Avenida, daquela cidade, viu-se “impedida de ceder a sua casa de espectáculos para os dias desejados”, pelo que não foi possível efectuar esta deslocação, que seria a primeira fora do concelho da Figueira.
Em Setembro daquele ano, houve uma festa à portuguesa na sede da colectividade. “A sala estava transformada num lindo arraial português, com ornamentação e iluminação apropriadas......... Era grande o número de raparigas que vestiam à Moda do Minho......... A nota capital desta linda festa, foi a visita dos tomarenses, tão queridos da nossa terra, que não esquece a forma invulgarmente cavalheiresca e carinhosa como Tomar recebeu, em Julho findo, a excursão da nossa colectividade. Vieram expressamente de Tomar, em visita à nossa terra, muitos amigos a quem nos unem laços de amizade e simpatia e que agora mais se apertaram”. Houve foguetes, a filarmónica “10 de Agosto” esteve presente e, pela uma hora da madrugada, foi servida uma ceia aos visitantes, “que decorreu num ambiente de alegria e simpatia sem mancha”.
Esta festa deu um saldo positivo de 700$65, o qual “foi aplicado na compra de mobiliário escolar para a aula nocturna”. Merece uma anotação o facto da sede da colectividade ter sido visitada, em Novembro de 1930, pelo Visconde de Tinalhas, que percorreu as instalações “colhendo agradáveis impressões”, principalmente com a escola nocturna, “que estava a funcionar com mais de 40 alunos”.
Para as comemorações do aniversário seguinte, em Janeiro de 1931, José Ribeiro escreveu um acto, que intitulou de “Evocação”, em que recordou alguns dos maiores êxitos musicais de espectáculos anteriores. Foram eles: “As Cinco Pastoras”, do Presépio; “General Bum”, de O Casamento da Grã-Duqueza; “Coros e danças”, de Os Amores de Mariana; “Coro da Avé-Maria”, de Entre duas Avé-Marias; “Valsa das Alcachofras”, de Noite de S. João; “Canção da Cotovia”, de Em busca da Lúcia-Lima; “Canção da Árvore”, de Grão-ducado de Tavarede; e “Coro interno”, de O Sonho do Cavador. Este espectáculo alcançou um enorme êxito junto do público.
E do relatório da Direcção, aprovado em Janeiro de 1931, recortamos o seguinte apontamento: “Atendendo a que o benemérito cidadão, Exmo. Sr. Joaquim Felisberto da Cunha Sotto Maior, ofereceu a esta Sociedade, como se verifica das contas, por sua expontânea e livre vontade, uma quantia que bem se pode considerar avultada (500$00), propõe esta Direcção que àquele ilustre cidadão seja conferido o grau de Sócio Honorário”.´
Foto: Grupo cénico da SIT em 1928

Sociedade de Instrução Tavaredense - 20


“Das bandas de Tavarede, onde a seita dos três pontinhos ilumina a obtusidade de meia dúzia de campónios ensinando-os a dar á perna num jeito lôrpa e a proferir sandices de olhos em alvo, chegou ao teatro “Parque Cine” da Figueira um grupo dramático, apregoado pelos arautos da grande imprensa neste “Século” tartufo, como a expressão máxima – que fino!... – da arte de Talma.
E, assim, tivemos nós um hilariante espectáculo com a representação sumida duma fantasia “A cigarra e a formiga” história absolutamente inédita no dizer do infeliz “prólogo” – um homenzinho ridículo, dum ridículo inconsciente.
A peça é uma amálgama de bocadinhos alheios onde não falta a piada porca, a forçar gargalhadas pela torpeza, sem teatro e sem arte, pretexto apenas para a apresentação da companhia. Uns bocados de aqui, uns versos de acolá, uma sugestão de além, isto tudo muito mal cerzido, falho de unidade, distribuído por três actos e 10 quadros. Há um prólogo a apresentar em versos imbecis, sem gramática e sem métrica, os dois personagens principais – uma Formiga, lua cheia vestida de cinzento, de voz monocórdica e sem gestos, e a outra, um bicharôco verde que consegue atravessar o palco continuamente, de princípio ao fim, com um risinho lôrpa engatilhado nos lábios desmesuradamente abertos. Durante este primeiro acto, sem preparação teatral, recorre-se a um desenrolar monótono de fantoches manejados sabe Deus como e porquê.
No segundo acto, por certo o menos pior da fantasia, assiste-se a um pandemónio amoroso em que a filha não quer casar, mas que diz que quer porque o pai quer, ficando o namoro desprezado sem saber o que quer, no meio duma confusão tão grande que não há forma de se perceber nada. O segundo quadro deste acto fornece-nos um arraial de S. João, sem movimento, sem cor e sem vida, mero pretexto para uma mísera desgarrada.
O terceiro acto continua a baboseira inicial, terminando por uma estupidificante apoteose ao amor, muito ridícula e pobrinha.
Como se vê tudo isto é nojento em demasia, tanto mais que os vinte e sete números de música anunciados se resumem, na sua concepção a uma monótona e bafienta repetição de motivos.
Dos cenários: o do primeiro quadro, especialmente, é um pastelão de cores com as perspectivas erradas; o do segundo sofre-se; o do terceiro apresenta-nos um cofre tão bem pintado de azul que é o melhor efeito cómico da peça. De resto como muito bem diz a cigarra, tudo aquilo é fantasia.
Do valor literário da obra, ainda que muito pese ao habilitado crítico do Século, a nossa apreciação, nada pode encarecer. Quizéramos fazer algumas transcrições, mas o espaço falta-nos. Não resistimos contudo a esta edificante quadra:

Ai minha mãe, minha mãe!
Vivesses tu tinha eu pai!
Assim se o pranto me cai,
Não tenho pai nem ninguém!

E basta!... que isto de se gritar pela mãe, quando se pretende chamar o pai que fugiu através da mãe por a menina chorar, é o que de melhor conhecemos no género Rosalino Cândido, Calino & Companhia.
A interpretação, não supre as faltas atrás anotadas, antes continua a asneira. Iletrados, ou pouco menos, as sílabas saiem-lhes da boca numa inconsciência tal que comove.
A Sociedade de Instrução Tavaredense melhor faria, se ensinasse as boas regras do A B C aos seus associados em vez de os meter num palco a fazerem rir pelo ridículo das suas pretensões artísticas”.
Mais haveria a transcrever dos comentários deste jornal à colectividade tavaredense. Mas, para as nossas histórias, chegam perfeitamente as transcrições feitas.
A política e a religião, deve dizer-se, tiveram grande influência na vida associativa tavaredense. E aproveitamos para recordar um acontecimento que, naqueles anos de 1929 a 1931, acabou por ter enorme importância no nosso grupo cénico. Como referimos num dos capítulos anteriores, por dissidência de amadores desta colectividade, foi fundado o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Dedicada ao teatro e à música, teve esta colectividade um período extraordinário, entre os anos de 1915 a 1929. Auxiliada por um sócio, Manuel da Silva Jordão, abastado proprietário nos Carritos, transformou o edifício da sua sede, para onde se mudara em 1914, numa moderna casa de espectáculos. Já sabemos que era a “velha casa de Joaquim Águas”, ali ao meio de Tavarede.
Com as obras e com a “compra” da casa, contraíram pesadíssimo encargo. Referimos “compra” porque, na verdade, compraram, mas... não pagaram! O proprietário, o referido sócio dos Carritos, só recebeu metade do valor, ficando o restante garantido por letra, avalisada por alguns sócios, a pagar quando o Grupo tivesse possibilidades de o fazer. O seu teatro e a sua tuna alcançaram enorme fama. Foi o seu teatro, aliás, o primeiro grupo tavaredense a sair do concelho. Verride, Montemor-o-Velho, Santo Varão e, depois, Marinha Grande, receberam e aplaudiram as suas récitas. Foi neste Grupo, recorde-se, que se iniciou no palco aquela que viria a ser a grande amadora Violinda Medina e Silva. Foi no drama “Erro Judicial” que, por volta dos seus dezassete anos, fez a sua estreia em papéis de relevo.
Mas, tramas políticas e religiosas que nos dispensamos aqui de narrar, levaram a que a tal letra fosse apresentada à cobrança em 1929... Aquela casa despertara cobiça. Como não tinham dinheiro para o pagamento tiveram que a vender. Ficaram como arrendatários. Bastaram, porém, dois meses de renda em atraso para serem desalojados. Mudaram-se para o solar dos Condes de Tavarede, mas acabaram com a secção teatral, pois não dispunham de sala de espectáculos.


E naquela casa, que foi adquirida pela diocese de Coimbra, instalou-se o Grémio Educativo e de Instrução, sob a égide do então pároco de Tavarede, o reverendo Padre José Martins da Cruz Dinis, que ficou conhecido, pelo povo tavaredense, por “papa-léguas”, certamente pelo seu muito caminhar. Durou pouco aquela colectividade.
Violinda Medina não podia abandonar o teatro. Ele já fazia parte da sua própria vida. E depois de uma brevíssima passagem pelo grupo cénico do Ginásio Clube Figueirense, ingressou no teatro da Sociedade de Instrução. Outros amadores a acompanharam, numa “mudança de camisola” que provocou fortes reacções contrárias. Um pouco mais adiante saberemos da sua estreia nesta colectividade.

(Estas recordações do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense e do Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense serão desenvolvidas na história destas colectividades.)

Foto: Violinda Medina contracenando com Severo Biscaia, na peça 'O Rei da Lã', pelo grupo cénico do Ginásio Figueirense.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manuel Cardoso Marta



Um figueirense ilustre que para sempre ficará ligado a Tavarede. Nasceu em 5 de Abril de 1882 e morreu a 17 de Setembro de 1958.
Fez os seus estudos no Seminário de Coimbra, que frequentou no período de 1894 a 1903, e chegou a tomar ordens menores, mas acabou por não seguir a vida eclesiástica.
Exerceu o professorado livre na Figueira. Foi um dos fundadores do semanário “A Razão”, em 1904, do Centro Republicano Dr. José Falcão, da Biblioteca Pública Municipal, do Grupo “Studium”, da Sociedade Arqueológica e do Colégio Liceu Figueirense.
Deu larga colaboração a diversos jornais figueirenses e deixou publicados, relativamente à Figueira: “Folclore da Figueira da Foz”, de colaboração com Augusto Pinto; “J. M. Santiago Prezado”; “Jornalismo Figueirense”; “Um museu etnográfico na Figueira”; e “In-memorian de Aníbal Fernandes Tomás”, com Elói do Amaral.
Investigador estudioso da história local, foi ele quem descobriu, num manuscrito setecentista, o soneto “Descrição do sítio de Tavarede”, da autoria de Frei Manuel de Santa Clara, e que publicou no Boletim da Comissão Municipal do Turismo, em Julho de 1947.
“Rejubile a fidalga Tavarede com a notícia desta peça literária, e tome-a como uma jóia mais a engastar na sua coroa condal”, escreveu ele depois de transcrever o soneto.
Poeta de inspirada sensibilidade, são de sua autoria as quadras que se encontram na nossa fonte, nos bonitos azulejos desenhados por Rogério Reynaud, ali fixados em 1946:


Cardoso Marta era um grande amigo da nossa terra e aqui firmara grandes relações de amizade. Mesmo quando se mudou para Lisboa, em 1909, nunca esqueceu a terra do limonete.
“Entre os mimos que este abençoado torrão de Tavarede produz e manda ao mercado da Figueira, há que especializar um vinhinho palhete, a quem os apreciadores rendem as suas homenagens. Cardoso Marta, figueirense ilustrado que vive na capital há já longos anos, é um velho amigo e frequentador da terra do limonete e conhecedor do seu precioso néctar.
Sabendo isso, um seu amigo tavaredense, presenteou-o há tempos com um pipozito desse palhete, que o inspirou para o seguinte soneto, a que deu o título de “A um certo vinho de Tavarede”:

Encho o meu copo, à luz do claro dia
De um néctar precioso – o vinho amigo,
Puro, sem confecções, como o bebia
O bíblico Noé, no tempo antigo.

Depois, em contra luz, me delicia
Sua cor de rubi; e enquanto sigo
Na toalha o reflexo, a fantasia
Me diz mais que diria quanto eu digo…

Das cepas do torrão de Tavarede,
Ó vinho, sê benvindo à minha sede,
Tu, que de muitos és exemplo e espelho.

Gole a gole, dou co’a língua um estalinho
E razão a quem disse que o bom vinho
Traz alegria ao moço e sangue ao velho.

Mantinha permanente contacto com o grupo de tavaredenses e figueirenses residentes na zona da capital e que, frequentemente, confraternizavam. Um dia leu num jornal a notícia de que o seu amigo Medina Júnior ia fazer uma patuscada em Sintra, tendo por menu umas caras e línguas de bacalhau, que um figueirense amigo lhe enviara. Não perdeu tempo. No jornal seguinte, lá vem ele a dar-se por convidado, terminando desta forma:

Dou-me já por convidado
Para pagares o patau
Das cabeças, das entrechas
E línguas de bacalhau.

Diz-me pois, de qualquer forma,
Por bilhete, ou no jornal,
Com que é que devo contar
P’ra meu governo, afinal.

O estrago não será grande;
Pouca papa já me farta.
Saudades aos teus. Um abraço
Do amigo Cardoso Marta.
Caderno: Tavaredenses com história