segunda-feira, 19 de abril de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 18

Apesar de todos os problemas que, naqueles conturbados tempos, afligiam a colectividade, nem por isso as 'alfinetadas' deixaram de surgir na imprensa figueirense. Sob o título "BOA PIADA!", foi publicada, no jornal 'O Figueirense', de Dezembro de 1928, a seguinte nota:
"O nosso colega desta terra, do outro jornal da Figueira é, por vezes, interessante.
Na sua correspondência de 6 do corrente, insére um esclarecimento – Para evitar equivocos – que bem demonstra à evidência a maneira agil e certeira, mas disfarçada, como se ergue ao ar para pregar o seu panásio.
Diz o tal escrito que, tendo constado nessa cidade que no domingo, 9, haverá “matinée”, - e prosseguia – para evitar equivocos esclarecemos que não é no grupo... – da sua Sociedade, está claro, que se dava a matinée.
Esta é da gente se benzer...
Com certeza o auctor do tal equivoco não percorreu as principais ruas da Figueira: porque se o tivésse feito, viria espalhados em quási todas as montras dos estabelecimentos, um largo cartaz-réclame e em letras bem viziveis: -
Teatro no Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, representando-se a opereta, Noite de Santo Antonio.
O colega perdeu uma bela ocasião de estar calado, porque em nada prejudicou o brilho com que se organisou a matinée de domingo, porque o teatro encheu-se completamente com gente que veio aqui, provavelmente por engano...
Lembre-se, sr. correspondente, que escusado será atacar o Grupo Musical, directa ou indirectamente, porque ainda há dentro das suas paredes homens capazes de o defender, quando atingido pelos inimigos.
Boa piada... ou palermice?..."
Mas, dias depois, surge, no mesmo jornal, uma carta dirigida ao director do mesmo por um ex-amador do grupo cénico do Grupo Musical, em que continua a bater na mesma 'tecla'.
A PROPÓSITO DAQUELA = BÔA PIADA

"Amº. Snr. Gomes d’Almeida - Como os tectos do seu jornal ainda são aqueles que noutros tempos deram guarida à minha pobre dedicação e expontanea amizade, eu não receio acreditar que mais uma vez as suas colunas sejam capazes de albergar duas dasataviadas e descoloridas linhas, escritas e rubricadas por mim - que sou maior e vacinado.
Trata-se dum caso a que achei imensa graça. Tanta, que me não coíbo de afirmar que ha muito tempo me não rio com tamanha vontade, tal o espírito que o revéste...
Eu conto:
- Com aquele entusiasmo aliás bem próprio de quem está ausente e muito gosta da sua terra - embora dela, por circunstancias da vida, ande expontaneamente arredio -, eu leio aqui os jornais da Figueira com grande sofreguidão, tal a sêde de um melhor e mais agradavel contacto com as coisas que se prendem com o seu movimento moral e material.
Sucede que ha dias deparei com uma correspondencia n’A Voz, sobre assuntos de Tavarêde e logo a seguir com outra n’O Figueirense, em que o seu auctor se ocupava da sobredita cuja...
Li uma e outra e, francamente, achei imensa piada áquele dos correspondentes que mais piada tinha e que possivelmente ainda hoje tem e ha de ter sempre, tal o espírito gracioso que lhe está na massa do pêlo - salvo seja...
Ora sendo eu de Tavarêde e muito bem conhecendo o meio, apezar de ha perto de dois anos residir em Sintra, tambem sobre o caso quero meter colherada, não para estar com retóricas com quem as não merece, mas simplesmente para dar um conselho - passe o termo - ao sr. C. que da minha terra para O Figueirense escreve coisas, entre outras sobre o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, que tambem é muito da minha afeição, graças a Deus.
Este conselho resume-se nisto:
Como o Grupo Musical e d’Instrução é indubitavelmente uma das associações de Tavarêde que mais incansavelmente pugna pelo seu melhor futuro e consequentemente pelo cada vez mais digno e honroso nome da linda aldeia onde alicerçou a sua vida; como o Grupo Musical e d’Instrução, com a sua explendida e gloriosa secção dramatica, com a sua magnifica e afamada tuna, com as suas aulas de instrução primária e de música, etc., está muito acima do nível em que o pretende pôr o requintado e venenoso ódio de um infeliz qualquer que pensa que nas luctas entre classes, entre correntes ou facções só se triunfa humilhando os adversários; como o Grupo Musical e d’Instrução é constituido por gente absolutamente digna e limpa, eu dou por conselho ao sr. C. de O Figueirense que não deve de futuro esmurrar o bico da sua... bota com semelhante bípede (??) se por ventura ele lhe tornar a sahir assim tão atrevidamente ao caminho. Quando muito, limite-se, como eu, a rir, a rir sempre...
Não se podem gabar: no Coliseu dos Recreios, de Lisboa, os palhaços, nem no Jardim Zoologico os habitantes da respectiva “Aldeia dos Macacos”, indubitavelmente mais gastronomos duma requintada e expontanea comicidade, que já dalguma vez fossem capazes de me fazer rir com tanta vontade como a leitura do tal aviso do amigo dos progressos de Tavarêde ha dias inserto nas colunas d’ A Voz da Justiça.
Para evitar equivocos, o tal aviso - publicado com certeza por equivoco do director daquele jornal -, anunciava às gentes frequentadoras de matinées em Tavarede que aquela que ia ter logar não era da sua sociedade...
Isto é simplesmente piramidal, palavra d’honra!!!
O que queria o luminoso correspondente dizer com isto?
Provavelmente que a peça da “trempe” Amargo, Martins & Rocha era um pouco... extemporânea.
Efectivamente, uma opereta que se intitula Noite de Santo Antonio, em pleno e rigoroso Dezembro, francamente, cheira a Presepio...
E nas noites interminavelmente longas e frias de inverno, em que predomina a boa castanha e a saltitante agua-pé, o que mais apetece é... agua-pé... e castanhas...
Ora continue o G.M. e d’I.T. a sua sublime obra, luctando titanicamente pela conquista do Sacrosanto Pendão do seu Ideal que o resto o futuro o dirá.
Se Tavarede possue hoje o legítimo orgulho de ser no districto de Coimbra uma das povoações que vae na vanguarda, da instrução e na educação musico teatral, para isso o Grupo Musical, em 17 anos de vida honesta e briosa, com alguma coisa concorreu.
Ha alguem de reconhecida probidade e são criterio capaz de o negar?
Desculpe, sr. director, este massador que grato se confessa pela atenção dispensada, e aqui se põe incondicionalmente ao dispôr do seu jornal, no que lhe possa ser util.
Mas que quer. Como sou possivelmente mais velho que o solicito correspondente da minha terra e tenho portanto, mais pratica da vida, quiz dar-lhe o conselho de se rir com o feliz meteoro que surgiu ali no Estendal."
Numa coisa este último correspondente tinha, sem dúvida, grande razão. Foi devido às duas colectividades então existentes, que Tavarede se desenvolveu culturalmente e se tornou conhecida por esse País fora. Infelizmente não foi esta rivalidade que levou ao fim do brilhante grupo cénico do Grupo Musical. Nas, enfim, depois veremos o que aconteceu.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 17

Como fiz referência no capítulo anterior, a nova sede do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense foi inaugurada, com toda a pompa e circunstância, nos dias 20 e 20 e 21 de Dezembro de 1924.

Sabemos, também, que o valor acordado para a compra do edifício, então pertença do sócio Manuel da Silva Jordão, na altura considerado benemérito da colectividade e que até já merecera a honra de ver o seu retrato descerrado, em acto solene, havia sido fixado em 20 contos de reis.

A colectividade não dispunha, porém, daquela importância. E como o empréstimo autorizado pela Assembleia Geral, para ser feito por meio de uma emissão de acções, no valor total de 25 000$00, ou seja, 500 acções do valor unitário de 50$00, obteve fraco acolhimento por parte de grande maioria dos associados, necessário se tornou obter outra fonte para o financiamento.

E, concordemos, a deliberação tomada pela referida Assembleia, de que cada sócio fosse obrigado a subscrever, no mínimo, duas acções, era um bocado violenta. Cem escudos, naquele tempo, era bastante dinheiro, mormente quando a maior parte dos associados seriam operários e trabalhadores rurais, com baixos proventos e nem sempre garantidos, tornavam-se muitas vezes bem escassos para provir às carências familiares. Mesmo assim, ainda foram subscritas bastantes títulos. Pelo menos garantiram, em parte, as despesas ocorridas com as obras de restauro e melhoramento das instalações, pois, presumo, o valor orçamentado para estas rondaria os cinco mil escudos, uma vez que o empréstimo por acções previa os 25 contos e o financiamento posteriormente acordado, para pagamento da casa, foi só de 20 contos.

Também fiz referência às condições obtidas do vendedor, para o pagamento da verba negociada. Metade seria emprestada pelo próprio vendedor, com pagamento facilitado até 3 anos, sem cobrança de quaisquer juros, e a outra metade, por meio de letra aceite por três sócios de reconhecida idoneidade por aquele vendedor.

Imediatamente se ofereceram três sócios para assinarem a mencionada letra. Foram eles, João de Oliveira, António Francisco da Silva e António Medina, respectivamente, presidente, vice-presidente e tesoureiro da Direcção. Para colaborar com estes na responsabilidade, logo se ofereceu o elemento do Conselho Fiscal, José Maria Costa. De mencionar que os encargos com esta letra eram elevadíssimos, com uma taxa de juro de vinte por cento ao ano. E isto, repare-se, foi assumido a título pessoal por aqueles quatro sócios, sem que o Grupo figurasse como responsável pela dívida, embora a escritura da compra do edifício fosse feita em seu nome.

Havia, portanto, que tomar as providências e cautelas que se impunham. Uma das medidas mais importantes foi a deliberação de solicitar ao presidente do Conselho Fiscal, António Victor Guerra, a organização da escrita da colectividade, tarefa de que foi encarregado “pela sua categoria técnica”. Logo se depreende que, até então, as contas seriam feitas, como se diz, um tanto “à balda”.

Outra das medidas também tomadas foi a de aumentar a quotização mensal. Se a partir de Junho de 1924 era de $75 escudos, passou a ser de 1$00 a Janeiro de 1925 para diante. Em seis meses, um aumento bem substancial: cem por cento, pois, anteriormente, estava fixada em cinquenta centavos. A jóia passou de 5$00 para 10$00.

Mas não se podia somente fazer exigências aos sócios. Havia que lhes dar, em contrapartida, alguns benefícios, pelo que, em reunião de Direcção de 8 de Janeiro de 1925, foi “resolvido que, no intuito de estimular todos os amadores do nosso Grupo Dramatico, incutindo-lhes a boa vontade de trabalhar e, consequentemente, de tomarem parte em futuras récitas, se lhes facultasse um bilhete para cada espectaculo que se realize na nossa séde, o qual se denominará “bilhete de serviço”, e que será oferecido, por cada um, a qualquer pessoa de sua familia, ou a quem entendam, e bem assim a escolha de logares.Igual concessão será feita a todos os executantes que prestem serviço nos mesmos espectaculos quer sejam ou não socios do Grupo.
Mais foi aprovado que em todos os espectaculos realizados pelo nosso Grupo Dramatico, se dê entrada a todos os filhos de socios, com menos de 15 anos, sendo-lhes, portanto, fornecidos os competentes bilhetes, a titulo de oferecimento, tendo-se em atenção para este facto, o haver alguns associados que teem familias numerosas, sendo-lhes pesadissima a obrigação de comprar as entradas para os seus filhos, o que dava um resultado de nunca lhes distrair os espiritos, atenta a avultada importancia que, para tal fim, teriam de dispender”.

Igualmente foi resolvido fazer uma campanha com o grupo cénico, pelo que foram contactadas diversas colectividades das povoações limítrofes, afim de darem alguns espectáculos, com a finalidade da angariação de fundos para fazer face aos grandes encargos anuais com os juros vincendos.

É oportuno recordar um apontamento da acta da Direcção de 9 de Junho daquele ano que refere “foi deliberado que, no futuro, fossem lançados em livro especial, arranjado para tal fim, todas as importâncias correspondentes aos serviços prestados ao Grupo por cada sócio, as quais, à medida que fossem atingindo o valor de uma acção, ser esta entregue a quem competir, proposta esta que tem unicamente em mira estimular todos os associados a trabalharem com mais ardor pelo bem da nossa causa”.

Em 10 de Janeiro de 1926, houve uma Assembleia Geral extraordinária em que foram apresentadas as contas, as quais foram aprovadas após ter sido lido “lido, em nome da direcção cessante, um bem elaborado relatório, por onde se pôude apreciar dos esforços e da bôa orientação da gerencia finda; bem como as contas, pela leitura das quaes se ficou conhecendo a situação financeira do Grupo.
Apresentados os seguintes agradecimentos: Dr. José Rafael Sampaio, por ter tomado conta da nossa questão contra os srs. Fonseca & Cª.; António Francisco da Silva, João d’Oliveira, António Medina e José Maria Costa, por se terem responsabilizado perante o Banco de Portugal pelo empréstimo alí contraído pelo Grupo e perante o empréstimo em Brenha; ao sr. José Francisco Silva, pela oferta de todos os artigos necessários á secretaria; so sr. Adelino Joaquim faria, pelas inumeras ornamentações gratuitas que tem feito na nossa séde e ainda pela oferta d’algum dinheiro; ao sr. António Medina, tesoureiro, por ter facilitado muito a missão dos restantes corpos gerentes com relação a recebimentos e pagamentos, pois que a-pesar-de termos um movimento de sessenta contos, muito pouco dinheiro lhe passou pelas mãos; ao sr. José da Cunha Ferreira, pela oferta do retrato de sua bondosa Esposa, algum dinheiro e viveres para o bodo aos pobresinhos da nossa terra; ao sr. Vicente Ferreira, pela forma desinteressada com que prestou os seus serviços como ensaiador da nossa secção dramática; ao sr. Eduardo Pinto de Almeida, pelos relevantes serviços que, na qualidade de mestre de música, nos prestou, muito tendo contribuido para o bom nome da nossa Tuna; ao sr. Alvaro Mesquita, pelos serviços prestados como caracterisador; á Imprensa da Figueira da Foz pela assinatura gratuita dos seus jornaes e pelas bôas referencias que tem feito á nossa colectividade.
Seguidamente foi apresentada e justificada pelo sócio António Medina Junior a seguinte proposta: Proponho que o nosso distinto e inteligente consocio Exmo. Sr. Antonio Victor Guerra seja louvado, pela direcção que hoje toma posse, pela fórma brilhante e desinteressada como soube escriturar as contas algo embaraçadas que durante a gerencia finda se tiveram de fazer dentro da vida do Grupo.
Foram ainda aprovados votos de agradecimentos ao sr. Carlos da Silva Pestana, pelos relevantes serviços prestados ao Grupo, e ao sr. Antonio d’Oliveira Guerra, pelo oferecimento de madeira em elevado valor.
Pelo sr. António Guerra, e referindo-se aos espectáculos realisados pelo Grupo em Figueira da Foz, Quiaios, Brenha, Maiorca, na Marinha Grande e Montemor o Velho, onde colheram os melhores louros para a nossa bandeira, exortando os paes a que mandem as suas filhas aos ensaios e pedindo a colaboração assídua do respectivo director de scena. Sobre a Tuna, que considera o filho mais velho do Grupo, pede a todos os executantes que lhe dediquem o melhor dos seus esforços, pois que é uma boa fonte de receita que convém não desperdiçar. Em instrução e ginástica insta com os sócios para que não deixem de frequentar as suas aulas, bem como mandarem os seus filhos para o mesmo fim.
Nesta assembleia foi proposto e aprovado que no 1º. domingo de cada ano se proceda á eleição dos corpos gerentes e à prestação de contas, e no 3º. domingo se façam as festas de aniversário”.

Mas as coisas não corriam de feição. O grupo cénico não estava a corresponder e isto por ter um responsável provisório. Vale a pena ler um extracto da acta da reunião da Direcção de 14 de Março daquele ano.

“O sr. Presidente começou por declarar que, para evitar mal-entendidos, ia abordar um assunto de grande importancia, não na qualidade de amigo pessoal do Director Scenico, sr. Antonio Medina Junior, mas sim na de Presidente da Direcção. Que como era do conhecimento de todos os Directores, havia sido previamente resolvido, em uma das reuniões de Direcção transacta, a que aquele sr. Director Scenico assistiu, que fosse levado a efeito, em Verride, um espectaculo pela nossa Secção Dramatica, cuja recita se destinaria a amortisar parte da divida ao banco de Portugal (400$00 esc.), espectaculo este que não se chegou a realisar devido à incuria do mesmo sr., votando ao abandono, por alguns dias, aquela secção, quando é certo que o vencimento da letra na importancia acima indicada se aproximava. E que, por tal motivo, se viu obrigado a recorrer a um amigo particular, estranho à Colectividade, para que este lhe emprestasse, em seu nome, a mesma quantia para satisfazer o compromisso tomado afim de, por esta fórma, salvaguardar o bom nome da nossa Associação e, sobretudo, a dos aceitantes da letra, entre os quais figurava o sr. Antonio Medina, pae do aludido Director Scenico. Se assim não procedesse, aliás como se lhe impunham os deveres do seu alto cargo, o credito dos aludidos aceitantes, cessaria, de uma vez para sempre, naquele estabelecimento bancario. Depois do exposto e tendo aparecido nesta ocasião o sr. Antonio Medina Junior, lamentou sinceramente o seu irregular procedimento, expressando ao mesmo tempo a sua profunda mágua, por vêr que existiam estas divergências, as quaes eram em absoluto, prejudiciaes á vida do nosso Grupo, que até aqui tem caminhado na senda do progresso, ao lado das suas congeneres mais prosperas. Sobre este assunto, o sr. Director scenico justificou a sua atitude, prestando declarações que foram, em parte, inaceitaveis, prometendo, de futuro, dedicar a sua atenção, com mais regularidade, e como lhe cumpre, á Secção que proficientemente tem sabido dirigir”.

É interessante, também, uma nota extraída de uma acta seguinte, em que se escreve “o senhor presidente expôs a necessidade de se proceder à cobrança das importâncias em dívida para a subscrição dos retratos dos nossos consócios srs. António Medina e José Medina e que, por todas as formas, se conseguisse a ultimação da mesma, para liquidação da conta em débito”. Quer dizer, mesmo os retratos que eram descerrados, eram pagos por subscrição aberta entre os sócios!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

UM DIA "1º. DE MAIO", HÁ UM RÔR D'ANOS...

Raimundo Esteves foi um brilhante escritor e jornalista figueirense que, tal como António Augusto Esteves (Carlos Sombrio), Mário Azenha, Cardoso Marta e outros, nos deixaram escritos encantadores sobre a nossa terra, sobre os nossos conterrâneos, sobre os costumes e tradições da terra, etc. Já tenho recordado alguns. Hoje, e como estamos a chegar ao primeiro de Maio (antigamente um dos grandes dias para as gentes da terra do limonete), vou transcrever uma história daquele jornalista. Foi ele que lhe deu o título acima.
A menina Armandina, uma rucita que valia um poêma, redondinha como uma rôla, um tudo nada bélfa, um sorrisinho marôto, olhos com áscuas de lume e beiços sensuaes debruados de vermelho vivo, - topára-me na vespera, mesmo à esquina da R. da Fé, perto da sua casa, na R. das Figueirinhas:
= Ah menino! Olhe que ámanhã, às 4 da madrugada, lá estêmos na Varzea! A gente vae aqui pelo Cruzeiro. E já sabe que não quero outro par...
Foram ali duas mãozadas têzas a selar o compromisso. Lá estaria como um cão. Haviamos de dançar as estopinhas. E quando o sol fizesse botar aos caracóes os corninhos de fóra, viriamos ao Mercado e mercariamos a merenda para a tarde, - rosquilhas da Alhada, peixe para fritar e morangos, - uma grande dóse de morangos...
N’essa noite, no Ginásio e n’uma roda d’amigos, o Abinadab, começou porem a contar com pormenores de fazer crescer agua na bôca ao mais dado a temperança, que um primo lhe mandára por regalado presente, um paio soberbo, - oh meninos é só lombo puro! – umas laranjas mais dôces que mel, e um pipo de vinho, cristalino e claro, tão palheto e oloroso, que a falada ambrosia dos Deuses, lhe não passava à certa as lampas!


D’ahi a nada estavamos todos na Travessa dos Banhos. Lembro-me que ia o Mario Alves, o Manuel de Sousa, o Carlos Martins, não sei quem mais, - mas que da róda fazia parte o Augusto Veiga (Filho) e este vosso creado, isso é que não tenho duvidas...
Comeu-se bem, bebeu-se melhor, tagalesou-se à farta, e depois d’uma volta pela Esplanada, fundeamos no Barba-Azul, como era da praxe..
Às tantas a Senhora Libania, disse amavelmente, = que eram horas dos meninos se irem deitar. O meu relogio, um velho relogio de prata, com mostrador preto, que o Chico Rocha, jurava e batia fé, que lhe dava azar, marcava trez horas. Eu e o Veiga, achámos que não valia a pena enfiarmo-nos em lençóes. D’ahi a migalho já podiamos ir até à Varzea. E de sopetão veio a proposta:
= Olha lá, isto agora, para ajudar a varar a madrugada, o que fazia bem era um gôle de vinho do Porto. O meu pae ainda ontem abriu uma garrafa. Vamos nós a ele?...
Meu dito meu feito! O Veiga morava pegado. E vá de marinhar as escadas, de entrar pé ante pé, de escalar o aparador da sala de jantar, e de fazer as honras ao nectar côr de topazio, a uma arrufada de Coimbra, e a uma loira taça de marmelada...
Sahimos, já só piscavam nos altos as ultimas estrelas. Iamos palavrósos. Não me recordo do assunto, mas haviamo-nos enredado n’uma discussão valente. Esperámos um bocado à porta da quinta do George Laidley, a vêr se vinham as cachópas. Passaram umas sopeiras com potes como mangericos. Depois uma malta tangendo violas, berrando gritarias de fados. E resolvemos seguir o nosso caminho...
Era lusco-fusco. Do nascente vinham as primeiras tintas da alvorada, d’um tom esmaecido de violeta. E a nossa teima azedava-se. Estavamos pirrónicos, teimosos, irritados. Era cada passada de legua e terça. E já clareava a manhã, já boiavam nuvens tintas de rósa vivo, quando ao cabo de vasto calcurriar, topámos uma padeira, com um burro carregado de cestas com pão, na peugada...
= Eh tiasinha! Onde raio está a gente?...


Salve-os Deus! Os meninos estão em Brenha...
Fizémos marcha atraz. Quando alcançámos a Varzea de Tavarede, ia no largo da fonte, um restolho dos diabos. Zurravam gaiteiros. Uma tuna de aldeia, fazia ouvir com regalo modinhas de roda. Havia estalados, malhões gritantes, viras-valsados a preceito. Tilintavam risos. Foguetes estoiravam entre penachos de fumo que o oiro do sol, muito amarelinho e vivo, sorvia com doçura. Tanto andei que topei a Armandina. Andava enaipada com um caixeiro de modas, que a trazia mais agarrada que se fosse um polvo. Fiz-lhe sinal. Ela riu, encostou-se mais ao par, deu mais fortes os estalidos dos dedos. E estava apetitosa, o diabo da rapariga, o chale caido dos hombros roliços, a face afogueada, a bôca entre-aberta a mostrar os dentes certos, os cabelos em desordem.
E a endiabrada môça pulava, saltava, rodopiava como um fuso em unha lesta, e ao passar à minha beira, ironica, trocista, largou na sua vosita prêsa e dificil...
= Quem vem tarde, mólha no vinagre...
... Pobre de mim, n’essa manhã, por causa do pae do vinagre, nem no vinagre molhei! (Raym)


Foi publicado no jornal 'O Figueirense', em 2 de Maio de 1929.
Fotos: 1 - Rancho de Tavarede - 1954; 2 - Tuna do Rancho - 1946

Um Tavaredense... mesmo Saloio!


Ando a fazer uma recolha, nos meus apontamentos, para um pequeno 'trabalho' sobre 'Os Quatro Caminhos do Senhor da Areeira', que julgo bastante interessante, nomeadamente sobre o Santo, a Escola, a Cerâmica, etc., e vou encontrando algumas notas recolhidas que julgo merecerem a sua divulgação, pela curiosidade, pela antiguidade e por alguns intervenientes. É o caso desta nota de hoje. Já aqui publiquei a biografia do interveniente, António Medina Júnior. A história passou-se em Sintra, logo nos princípios da sua estadia naquela linda terra.

A Feira dos namorados -Três figueirenses atiradiços -Uma catástrofe em eminencia

S. Pedro é um dos bairros mais populosos de Sintra. Lá existe, entre outros, um amplo e bem arborisado largo, onde de quinze em quinze dias tem lugar uma enormissima feira.
Ali se encontra de tudo.
Se um sujeito pretende, por exemplo, um relogio qualquer e de qualquer marca, vai lá, procura-o e encontra-o. Se carece de um objecto d’oiro, mas oiro de lei, vai á feira de S. Pedro e encontra esse objecto. Se precisa de um fato, de um sobretudo, de uma capa á alentejana, ou emfim, de outra espécie de roupa, vai ali encontrar o que deseja.
Tambem não falta o género sapataria, nova ou usada, quinquilherias, rendeiro, ferragens, ferro-velho, oculista, etc., etc., etc.
É então uma feira muito fertil em bons gados. Os saloios, “enaipados” na sua praxista calça justa a abrir boca de sino sobre as botas de elastico, de jaléca com arabescos ou de blusa afeminada com um grande cordão de botões de osso branco, de barrete com grande borla espetado na cabeça, primam em levar as suas vacas com os uberes cheinhos, até mais não, lá p’ra riba p’ra fêra (como eles dizem), onde depois tratam da sua vida conforme melhor podem.
Chegam a fazer-se ali tranzações importantissimas. A feira de Maiorca, a do Paião, etc., em nada se assemelham á feira de S. Pedro de Sintra. Digo-o com auctoridade, pois bem conheço umas e outra. E oxalá que as nossas assim fôssem...
De modo que, como o leitor está a vêr, o movimento em Sintra, e nomeadamente em S. Pedro, é em dia de fêra qualquer coisa de extraordinário.
Custa mesmo a andar pelas amplas ruas - demais com petizes. E quem para lá fôr com eles, não está bem - por todos os motivos e por mais um...
É que lá vem um encontrão, um palavrão grosseiro, uma pizadela desalmadamente estupida, com cardas e tudo, etc., e lá surge, sobretudo, o edilio da pequenada, que vem a ser a enorme dóse de tendas com as multiplas variedades de brinquedos tentadores que os pregoeiros anunciam:
- A dez tostões; é tudo a dez tostões!...
Ora dez tostões d’aqui; dez tostões d’acolá, e daí a pouco mais um pedido: “oh paisinho, só mais este brinquedo, que eu dou-te um beijinho” e quejandas meiguices em que o meu casalsito é fértil para levar os paisinhos á certa..., o caso é que para ali só se pode ir com a pequenada e respectiva consorte - mas com muitos dez tostões na algibeira...
Ha então designado um dia no ano em que os casados que ainda teem cára com que possam passar por solteiros, não deve levar á fêra, nem a consorte nem os filhos...
É na primeira quinzena de Março, a chamada “feira dos namorados”.
Eu explico por quê:
Nesse dia fica vaga de botequins, de tendas e de tudo quanto sejam estabelecimentos, uma das mais amplas ruas do largo da feira. Só para lá vai fazenda - mas boa fazenda feminina... É denominada rua dos derretes... Isto é, toda a fêmea solteira que pretenda macho, (o mesmo que dizer noivo), vai para aquela rua. Geralmente são saloias sádias e roliças. Raparigas do campo, visivelmente saudaveis. Não usam chale, como as nossas pequenas daí. É tudo casaco. Mas bons casacos, com grandes peles e recheiados de bordados de sêdas garridas. Usam botas de botões ao lado. Algumas põem na cabeça lindos “cachenéts” e outras aboseiram-se de chapeu... á cabeça! Ao pescoço, uma verdadeira montra de oiro tentador que lhe cai sobre a parte exterior dos volumosos seios, escondidos sob um vestido berrante em que predominam rendas caras, muitas rendas caras... Debaixo de um braço, uma bolsa xadrez orlada de borlasitas de lãs de côres diversas. Os olhos espetados no chão, onde a ponteira de uma sombrinha entretidamente se diverte, as pretendentes assim estão horas e horas, á espera de quem não prometeu ir...
Os rapazes, que se apresentam como melhor podem, esses vão, olham, escolhem a que mais lhe convêm, aproximam-se dela, metem fala. Se são correspondidos é porque a pequena gosta deles. Começa então o namôro. Mas namôro que ali se arranja, naquele dia, é casamento certo, tornando-se curioso o facto de a maior parte desses namorados só dali se conhecerem... Alguns há que só naquela ocasião se viram pela primeira vez!...
Um saloio fez isto: Gostou de uma saloia. Foi comprar uma gaita de bôca. Chegou ao pé dela. Não tinha coragem para se declarar. O que fez? Poz-se a tocar, a tocar. Ao fim de 2 horas de toque, a noiva lança-se-lhe nos braços, como quem diz: sou tua; ou então: não toques mais que desafinas a gaita; e pespegaram-se ambos a dançar...
Estava o casamento preparado...
Outros estão horas e horas juntos, a brincar com os pés na areia do solo, atirando com eles mutuas chapadinhas, mas sem coragem para romper o seu profundo silencio que os envolve. São ambos “mudos”...
Aquilo tudo, é emfim, um soberbo pratinho para a rapaziada de Sintra (propriamente dita), que para ali vai “gosá-los” com uma destas disposições francamente raras e boas para um sujeito desopilar a rir com a maior satisfação...


Três figueirenses, O Zé Dias Leitão, o João Monteiro, sargentos de aviação, lá debaixo da Granja, e eu, fomos todos até á “feira dos namorados”. Bem entendido, tudo podia escapar-nos, mas menos a rua dos “derretes”...
O Dias, com seu respeitavel nariz pombalináceo, dirige-se a uma mocetona de truz e fala baixinho, declara-se em segredo...
Não tardou que levasse com o vexatório e vergonhoso meio tostão. (Nós aí chamamos uma cabaçada, quando nos bailes convidamos uma moça a dançar e ela nos diz impertigadamente: não senhor! Aqui é um meio tostão...
A saloia deu-lhe, pois, com o meio tostão e “repicou” alto e bom som, qual sino em dia de festa:
-Então, hein! Cuida que não o conheço! Ora vá lá para a sua mulher e para o seu filho, ande! Forte atrevido que me saiu o casadão... Eu bem conheço os soltêros pela pinta...
O Zé Dias raspou-se logo, bem entendido, p’rá tenda do Maneta de Colares, onde afogou, num copo de tão genuino termo, tão fatal desilusão...
O Monteiro, esse teve mais sorte. Meteu tréla. Foi correspondido. Conversou, conversou, mas de repente apresenta-se ao lado dos “namorados” um rapagão valente, mais forte do que o Paiva do Ginásio, de cacête nas unhas, que disse:
- “É r’periga, “abala” daí que o mê sargento é casado. Querias tu voar, hein? Nan vês que é pardal com azas?!”...
O Monteiro teve que conformar-se e ir ao encontro do Dias, que ria a bandeiras despregadas. Invejosos, porém, com a minha sorte, pois eu estava realmente bem “encostado” os desiludidos procuraram muitos amigos, contaram-lhes o sucedido e eles aí estão a passar constantemente junto de mim e da minha noiva, que até já me tinha dado o praxista ramo de flôres...
Muito sizudamente, fazendo de conta que os não conhecia, para não me “desmanchar”, tive no entanto de mudar de lugar. Foi peor, porque momentos depois apareceu-me uma senhora conhecida, que muito propositadamente me cumprimentou desta maneira:
- Adeus, sr. Medina. Está bem? E a sua senhora? E os seus filhos?
Fiquei varado...
Ora o leitor está a vêr o pratinho que isto tudo constituiu para os meus invejosos conterrâneos, que logo por sorte assistiram à derrocada toda...
Riram-se de mim - como eu me ri primeiro dêles. Depois.. tive de me rir tambem de mim...
A minha derretidinha é que se metamorfoseou repentinamente de anjo em féra e de féra em automovel relampago...
Ripa-me da mão aos flôres amurchidas pelo calôr do meu terno e meigo coração, olha-me de revéz, mira-me dos pés à cabeça, atira fóra o ramo, e espumando, chama-me um nome feissimo que felizmente não tenho. Nisto engata o motôr e ela aí vai em prise directa até junto dos seus velhotes - dos meus simpaticos sogros...
Bem entendido, o Medina, o Dias e o Monteiro fizeram marcha em sentido contrario, não quizesse o diabo que aparecesse de repente algum padre para nos casar as costelas com algum bom marmeleiro, que éra, segundo a minha consciência, o que isto tudo precisava, para vêr se havia mais juizo...
E aqui está como a “feira dos namorados”, de S. Pedro de Sintra, este ano foi passada entre três figueirenses que pretenderam recordar, aos 31 anos, o que na nossa rica praia com niñas guapitas fizeram aos 20 anos - em que não havia ainda a grilheta da família (que hoje é, vamos lá, a minha maior alegria e satisfação).
De modo que se ainda cá estiver para o ano e o destino caprichar em me conservar a fisionomia solteirissimamente nova (nova e bonita, claro está...) confesso que a respeito de namorar, antes quero ter a fama do que o proveito...
Nada que o diabo ás vezes tece-as. E eu não tenho as costelas no seguro...
Livra!...


Esperteza saloia ou... esperteza tavaredense?

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Anselmo Cardoso Júnior


Nasceu em Brenha, no ano de 1894 e morreu nas Alhadas, onde fixou residência após o seu casamento.
Profissionalmente, exerceu funções nos Serviços Municipalizados da Figueira da Foz.
Teve uma acção notável no campo associativo, como dirigente, músico e compositor musical. Foi um dos fundadores do Ateneu Alhadense.
Como violinista, formou, com seu primo Álvaro de Oliveira Cardoso, o naipe de primeiros violinos na orquestra dos teatros da Sociedade de Instrução Tavaredense. Depois da morte de António Simões, passou a dirigir aquela orquestra, enquanto viveu. Compositor muito inspirado, musicou muitas revistas levadas à cena nas Alhadas. Para Tavarede, Anselmo Cardoso Júnior será sempre recordado, pois, entre os diversos números que compôs para as fantasias teatrais de Mestre José Ribeiro, destaca-se a “Canção do Limonete” que, ainda hoje, é o verdadeiro hino do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense.
No ano de 1951, esta colectividade nomeou-o seu “Sócio Honorário”, como prova de gratidão pelos brilhantes serviços que lhe prestou e “… prestou-lhe singela homenagem que, nem pelo facto de ser simples, deixou de comover aquele nosso bom amigo, pela sinceridade que a caracterizou”.
Caderno: Tavaredenses com história

António Correia Pinto de Almeida (António Amargo)

Jornalista, escritor e poeta figueirense, António Amargo escreveu, em 1925, para a secção dramática do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, uma opereta a que deu o título de Ninotte, versão livre da conhecida obra João Ratão.
Igualmente, mas em colaboração com Raul Martins que escreveu o texto, são de sua autoria os versos das operetas Noite de Santo António e Mãe Maria, igualmente levadas à cena por aquele grupo tavaredense. A propósito dos versos de Mãe Maria, encontrámos uma nota de um crítico que não gostou deles, dizendo que os da Noite de Santo António eram melhores e nem pareciam do mesmo autor.
António Amargo, como resposta, mandou um “postal” dizendo: “Pareceram-lhe muito inferiores os versos de António Amargo – os versos meus – comparados com os de Noite de Santo António, outra opereta da mesma trempe, a tal ponto que dir-se-ia não serem do mesmo autor. Evidentemente, quem anda a lidar com as caprichosas senhoras Musas faz versos melhores ou piores, dependendo o facto dum largo conjunto de circunstâncias. E depois… gostos pessoais não são discutíveis; mas, com franqueza, não dei por tão grande inferioridade, nem compreendo como conseguiu fazer de cor o cotejo dos versos das duas peças, quando eu, o seu autor, não me atreveria a fazê-lo… sem ler uns e outros antes de fazer a crítica”.
Por ocasião das representações de Ninotte, um grupo de amigos ofereceu-lhe um almoço de confraternização, na nossa terra. António Amargo, para essa reunião, escreveu o seguinte soneto, que leu à sobremesa:

Se esta vida afinal são só dois dias,
Cada um deve gozá-los como pode,
Buscando horas tranquilas de pagode
E esquecendo tristezas e arrelias.

Em meio do prazer e de alegrias,
Sem que o incerto amanhã nos incomode,
Que cada qual se adapte e se acomode
A bem viver as horas fugidias.

Quando a sorte nos mostra o lado mau,
Bendigamos o sumo da parreira
E o mar, que p’ra nós cria o bacalhau.

Tristezas só as tem quem tiver fome:
Só se leva da vida verdadeira
Aquilo que se bebe e que se come!

Faleceu, em Lisboa, em Maio de 1933.
Caderno: Tavaredenses com história

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 16

E depois das comemorações do 17º. aniversário, nos dias 22 e 23 de Dezembro de 1928, no primeiro dia com a repetição da peça “Noite de Santo António” e um acto de variedades, e no dia seguinte, domingo, com a tradicional alvorada e sessão solene, o grupo cénico, em Janeiro de 1929, levou à cena a opereta em 3 actos “Entre duas Avé-Marias”. Fica aqui, também, a transcrição dos comentários dum espectador, publicados em “O Figueirense”.

“No passado domingo assitimos, na terra do limonete, á 1º. representação da linda opereta em 3 actos Entre Duas Avé-Marias, que a secção dramática do distincto Grupo Musical e de Instrução Tavaredense levou á scena.
Dispensamo-nos de descrever o enredo da peça, porque êle já é de sobra conhecido pelo publicp da Figueira e arredores. Tambem o que vamos dizer ácêrca do desempenho, não é uma critica, mas tão sómente uma opinião muito nossa.
Em primeiro logar, é dever nosso citar o nome de Herculano Rocha, êsse verdadeiro artista de génio que, como regente da orquestra, foi um dos elementos que mais contribuiu para o explendido exito que mais uma vez obtiveram os distinctos amadores do G.M.I.T.
A seu lado colocamos Rosa, a aldeã, papel interpretado por D. Violinda Medina e Silva, para mim, a melhor, a mais completa amadora do nosso concelho. Quando é preciso chorar, fá-lo com tal sentimento, que nos comove; e quando é preciso rir, tambem o faz com aquela graça com que só artistas de nome o sabem fazer. E a tudo isto alia um timbre de voz unico, perfeito, que encanta e seduz uma plateia inteira. Para ela, para essa excelente amadora, vão os nossos mais sinceros parabens.
André. desempenhado por José Silva, foi admirável em todas as scenas. Boa voz, optimo gesto e com um á vontade proprio dum homem d’aldeia que tem caixa do correio e Retiro dos pacatos.
Zé Cochicho, por Jorge Medina, muito bom, o que não admira porque é filho de peixe... e está tudo dito.
Narcizo, por Manuel Cordeiro, bem; é um dos amadores novos, mas de recursos para o palco.
Mordomo, gostámos. É um personagem que requere um certo esfôrço para dele se tirar partido, e António Medina conseguiu-o sem dificuldades.
O Carteiro, muito bem por João Nogueira; pena é que a sua voz não possa elevar-se mais, de resto andou em tudo admiravelmente.
Jorge, por Manuel Nogueira, foi correcto; mas devemos confessar que o encontramos um pouco deslocado do seu temperamento. Este, é um dos bons amadores tavaredenses, mas... como dizemos, o papel que desempenhou agora, não lhe está muito a caracter.
O Morgado, foi interpretado com aquele rigor absoluto, único,que só nos grandes amadores, como Raul Martins, se pode encontrar.
Propositadamente, deixamos para o fim o Aniceto Boticario, papel desempenhado por Adriano Silva, de quem não gostamos muito. Para que muda este cavalheiro de voz? Porque não fala naturalmente? Se assim fizesse, teria brilhado muito mais, visto ter explendidas qualidades para a arte de Taalma.
Nos finaes de acto, houve chamadas especiaes ao Ensaiador, e Herculano Rocha, e a D. Violinda Medina, tendo a Direcção no final do 2º. acto oferecido a estes elementos bouquets de flores naturaes.
E eis, caros leitores, a opinião que formulei acerca da opereta Entre duas Avé-Marias, levada á scena por um dos mais completos grupos dramaticos do concelho desta linda cidade”.

No mês seguinte, fizeram nova deslocação à Marinha Grande. Vejamos como correu.

“É com a maior satisfação que hoje notiamos a ida da Secção Dramática do benemérito Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, acompanhado de muitos sócios, à laboriosa e hospitaleira Vila da Marinha Grande, assim como bem hão-de dizer todos aqueles que, mais de perto, sentiram, arfar-lhe no peito, uma jubilosa alegria, que só se sente quando estreitamos nos braços um povo amigo e bom como são os marinhenses.
Já esperávamos o resultado obtido, pois que nem outra coisa era de esperar, dado as qualidades de que são dotados todos os filhos da Marinha Grande, e ás simpatias de que ali gosam os nossos conterrâneos.
Ora, como motivos vários e imprevistos nos impediram que os acompanhássemos, e para melhor e mais minuciosamente ilucidarmos os nossos leitores, era-nos necessário, indispensável mesmo, que entre um nucleo tão compacto, como foi aquele que até à Marinha debandou no último sábado, escolhessemos uma pessoa que nos informasse do que mais notavel ali se tivesse passado.
Escolhemos o nosso particular amigo sr. Raul Martins.
- Chegados á estação - disse-nos - uma enorme multidão enchia completamente a gare, á nossa chegada, vendo-se entre ela o estandarte do Operario Club Marinhense e representantes dos Bombeiros Voluntários e Atlético Club Marinhense, d’aquela terra, que á chegada dos tavaredenses levantaram vivas ao Grupo Musical e Tavarede, que foram correspondidos por este.
Trocados os cumprimentos, formou-se um cortejo imponente, que se dirigiu, visto o adeantado da hora, para o Teatro Stephens, propriedade dos Bombeiros Voluntários, e onde se realisaram os espectaculos.
Momentos depois, a casa principiou a encher-se, notando-se, no entanto, algumas falhas na plateia, e representou-se a opereta Entre Duas Avé-Marias, que foi calorosamente aplaudida nas passagens mais notaveis, tendo sido feitas chamadas especiaes ao ensaiador, Violinda Medina, Manuel Nogueira e Herculano Rocha.
- Passamos ao dia seguinte, domingo, 3.
- Depois de percorridos varios pontos de paisagem verdadeiramente exuberantes e visitados alguns logares mais notaveis da Vila, fomos assistir a um match de foot.ball, que devia ter lugar entre um forte onze do Atletico Club Marinhense e um composto por elementos da Secção Dramatica.
- Depois de uma renhida luta, sairam vencedores os nossos adversários pelo elevado score de 5-1; tendo, no entanto, merecido aplausos os jogadores nossos, Manuel Cordeiro, Manuel Nogueira e João Medina, que, sem exagero, foram os melhores homens da tarde.
- Depois fomos assistir a uma festa que, por volta das 4 horas teve lugar na Associação Humanitaria dos Bombeiros Voluntarios d’aquela vila, onde foram trocados calorosos brindes.
- E depois de satisfazer-mos as exigencias do estomago fomos novamente para o Teatro.
- Qual o nosso espanto quando ouvimos dizer que jà não havia bilhetes para o espectaculko, que a seguir ia ter lugar.
- Efectivamente, muito antes da hora marcada, a casa estava completamente á cunha. E representou-se a opereta Noite de Santo Antonio, tendo a completar um Acto Arrevistado, que foi muito aplaudida, tendo sido feitas, novamente, chamadas especiaes aos amadores, ensaiador e maestro.
- No final do espectaculo, foi, por um grupo de habitantes da Marinha, pedido para que fôsse executada novamente a marcha Figueira da Foz, que no final foi calorosamente aplaudida, tendo todos retirado com explendidas impressões.
E depois de nos dizer o que aí fica, ia a retirar-se, quando o prendemos ainda com algumas palavras sobre o dia de segunda-feira, ao que nos respondeu:
- Olhe, meu amigo. Já andavamos um pouco massados pelas noites perdidas, mas no entanto, ainda percorremos algumas fabricas de vidros e cristaes, que, com grande deferência ali fômos recebidos, e... mais nada.
- Agora, para fechar, termino com estas palavras que, com a maior sinceridade as pronuncio: - A Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, póde orgulhar-se do êxito obtido nesta louvavel iniciativa, onde soube engrandecer, mais uma vez, o nome da colectividade e da terra que lhe dão o nome, colhendo loiros tão belos, grinaldas tão floridas, que se ostentam hoje, e sempre, triunfal e orgulhosamente na flâmula querida daquele estandarte... - e apontou-nos o estandarte do Grupo Musical.
É pois, daqui, desta modesta tribuna, onde combatemos pelo desenvolvimento do Grupo Musical, como um valioso baluarte da Instrução, que póde orgulhar-se de ser, e sobretudo o nome de Tavarede, saudamos, franca e abertamente, a pleiade de rapazes e raparigas que constituem a aureolada Secção Dramatica do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, assim como á sua digna Direcção”.

Meses depois, foi a tuna do Grupo que se deslocou à Martingança. Foi no regresso desta viagem que, no Mosteiro da batalha, deixaram uma lápide de homenagem ao Soldado desconhecido e que, ainda há muito pouco tempo, lá estava afixada, conjuntamente com muitas outras, mas, da última vez que ali estive, tinham todas sido arrancadas e, possivelmente, transferidas para outro local.

Entretanto, a terrível crise que havia, tempos antes, atingido o Grupo Musical e que procurarei descrever no capítulo seguinte, dificultava a acção cultural da colectividade, que cada vez lutava mais com imensas dificuldades.

Mas ainda vou aqui registar a deslocação, no dia 1 de Abril, à vizinha Alhadas.

“Simplesmente brilhante a récita de segunda feira, 1, no teatro da Boa União Alhadense, pela secção dramática do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense. Na nossa terra deixou o simpático Grupo as melhores impressões. Se bem que nos mereçam as mais lisongeiras referências os distintos amadores, abstemo-nos de as fazer, não devendo, porém, deixar de endereçar as nossas sinceras felicitações à distinta amadora D. Violinda Medina.
“Entre Duas Avé-Marias” é uma opereta conhecidíssima, mas agrada sempre, e o Grupo de Tavarede representou-a de forma a agradar bem. Já isso prebvíamos, atendendo ao meticuloso cuidado de Raúl Martins e à competência musical de Herculano Rocha. E, a propósito, já que falamos deste distinto maestro, queremos-lhe dar aqui, espitirualmente, um abraço pela feliz inspiração da sua “Marcha” de abertura do espectáculo, cuja execução pela orquestra foi magistral, prendendo a atenção da numerosa e escolhida assistência que, no final, o presenteou com uma lomga salva de palmas”.

E em Maio ainda apresentaram na Figueira um novo espectáculo. “Supômos que os autores da “Mãe Maria” pensavam fazer uma peçasinha ligeira e fácil, com motivos populares e simples. Música sob a regência de Herculano Rocha – e está tudo dito, que este músico distinto, tem feitos seus créditos. Violinda Medina, a excelente amadora de sempre. Coros fartos enchendo a cena. E vá sem favor – primorosas raparigas, de lindos rostos e garrido aspecto. A casa cheia... E aplausos nos remates de acto. Estas récitas são sempre um motivo de cultura. Por isso de elogiar os seus organizadores. O que fazemos com gosto”.

E chegamos a 1930. O edifício da sede foi vendido. Ainda lá estiveram, em regime de aluguer e como veremos adiante, mais uns tempos. Praticamente cessaram as actividades culturais. Ainda foi possível reorganizar a Tuna para uma deslocação a Vizeu, no dia 14 de Setembro, integrada numa excursão organizada pela Comissão de Iniciativas da Figueira da Foz.

Com todas as dificuldades, e tendo sido decidido que só participassem sócios da colectividade, foi a primeira vez que se apresentaram com o elevado número de 40 figuras. Foi seu ensaiador e dirigente o nosso conterrâneo António de Oliveira Cordeiro.

Mas os anos dourados haviam terminado. E, diga-se com verdade, culturalmente, foi um período brilhantíssimo da colectividade. Mas a história é implacável e os problemas surgidos com a compra da sede e com as obras de restauro, bem como as elevadas despesas com o grupo cénico, a tuna, a escola nocturna e demais actividades, não conseguiram ser ultrapadssadas, apesar dos esforços das sucessivas direcções e componentes artísticos. À distância, longe de viver aquela dramática situação, ocorre-me a pergunta: terá valido de alguma coisa o sacrifício e luta de cêrca de uns longos e difíceis dez anos? A resposta tem de ser afirmativa. A colectividade ganhou e perdeu. A terra do limonete, o mesmo. Mas os tavaredenses, como pessoas ambiciosas de cultura, ganharam, com toda a certeza. Meia dúzia, uma dúzia, ou talvez mais, de algumas dedicações à associação, sofreram muito, é certo, tiveram mesmo um enorme prejuizo económico, mas a história do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense ganhou o pleno direito à admiração e respeito de todos os tavaredenses que se seguiram àquela conturbada época.