sexta-feira, 23 de abril de 2010
Urnanização Vale do Sampaio
Procurei responder para o email 'preciosa.fileno@yahoo.com.br' , tendo sido agora informado que não havia sido entregue.
Peço, portanto, o favor de me enviar o endereço para o qual devo remeter o email em questão.
Vitor Medina
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Um aniversário da Escola Noturna do Terreiro
É-me grato, pois, gravar aqui meia dúzia de palavras que traduzam a verdadeira expressão do meu sentir, que testemunhem emfim o meu mais sincero agradecimento aos auxiliadores da prestimosa obra que há três annos se vem edificando.
E a festa de domingo não foi motivo de jubilo só para mim. Foi-o para todos que se interessam pelo desenvolvimento intellectual do povo; foi-o para os que só vêem na instrucção a poderosa alavanca que há de levantar milhares de homens do rebaixamento em que vão arrastando o seu triste viver: foi-o emfim para os que vêem no analphabetismo a gigantesca barreira que se impõe altiva e conquista de tantas aspirações e á solução de tantos ideaes!
É da instrucção que dimana a luz do espirito, é este que nos guia nos actos da nossa vida, e é da sua educação que nascem quasi sempre os bons sentimentos. É portanto necessário que se eduque o homem, para que a sociedade lhe abra seus braços amigos e para que elle possa então representar dignamente o seu papel de ente civilisado.
Escrevo para os meus patrícios: sois pobres; bem sei que as circumstancias de muitos não permitem que dêem aos filhos uma regular educação. Não é, porém, nos tempos d’hoje que por falta de meios se deixa de aprender a lêr e a escrever. Temos as escolas regias, temos outras particulares gratuitas, que vão prestando generosamente os seus serviços em prol dos que d’elles necessitam, e n’estes casos se encontra a Escola Nocturna, que no domingo festejou o 3o anno de existência. Três annos de vida em que se desbravaram dezenas de espíritos cerrados ao conhecimento das lettras, e os que tão louvável e desinteressadamente se teem entregado áquelle árduo trabalho, devem decerto folgar por verem que não teem sido improfícuos os seus esforços, porque d’entre os alumnos por si leccionados há alguns que muito os honram pelo seu estado de adeantamento.
Não posso no emtanto deixar de lamentar a indifferença com que certos paes olham a educação dos filhos, apesar de com ella serem pouco sobrecarregados; isto, porque a frequência de vários alumnos tem sido irregular, sem isso preocupar aquelles que moralmente deviam obstar a tão condemnavel procedimento, e também porque conhecemos por aqui alguns indivíduos que não tratam de mandar os filhos para a escola.
É triste para mim o ter de revelar estes factos, mas o desgosto que elles me incutem são motivo demasiado para que eu os não possa occultar e não deixe de os censurar amargamente.
É preciso que todos os meus conterrâneos comprehendam o fim para que esta escola foi creada
Não devem todos os paes eximir-se ao dever de para ali enviar as creanças que careçam do ensino das primeiras lettras, pois que as portas estão abertas de par em par para os receber, e, para os que dentro d'ella se propozeram a ensinal-as, será muito satisfatório o ir riscando do numero dos analphabetos esses pobres seres que hoje são uns ignorantes, uns irresponsáveis, mas que amanhã, quando homens, terão direito a accusar os auctores dos seus dias, se estes não lhes mandarem dar a educação necessária para elles poderem viver na sociedade.
Fique isto bem gravado no espirito dos tavaredenses que me lerem, e só lhes peço que secundem sempre os esforços dos que trabalham para o engrandecimento moral e intellectual da terra que nos viu nascer, a qual, em instrucção, já hoje pode caminhar na vanguarda d’algumas outras localidades mais importantes.
Mas, comtudo, não vos esqueçaes nunca dos deveres de gratidão a cumprir.
O jantar servido aos alumnos da escola foi abundante, e durante a refeição via-se em todos os seus rostos uma alegria immensa que communicava com intensidade ao coração dos que presenciavam aquelle acto.
Á noite, o espectáculo em que se executou o programma já conhecido dos leitores da Gazeta, teve uma concorrência extraordinária, não havendo disponível um único canto do theatro.
É suspeita a minha apreciação sobre o desempenho das duas partes do reportorio: dramática e musical. Mas tenho a fazer-lhes justiça e a falarem por mim as calorosas e enthusiasticas ovações feitas aos pequenos debutantes da arte de Talma, e as salvas de palmas que coroavam o final de qualquer das peças musicaes tocadas por um escolhido grupo de rapazes também de Tavarede.
Por aqui se vê o agrado da recita, e o que eu posso asseverar é que nunca n'esta localidade houve festa theatral que mais sensação causasse, pela novidade dos actores e pela maneira correcta como se houveram.
As salas, tanto a dos espectáculos como a da escola, estavam ornamentadas com festões de verdura, palmas, bandeiras, livros, escriptas, etc. Na aula liam-se alguns trechos dos Lusíadas, copiados pelos alumnos mais adeantados, e
viam-se também distribuídos pelas paredes os nomes de vários cavalheiros que generosamente teem contribuido com donativos para aquella casa de instrucção.
De tarde, uma commissão de alumnos da Escola Popular Bernardino Machado de Buarcos, acompanhada do respectivo professor sr. Emygdio Serrão, veio entregar uma mensagem de felicitação aos seus collegas de Tavarede, documento que trazia 56 assignaturas, e ao qual vão responder os alumnos da Escola Nocturna d'aqui agradecendo tão significativa prova de consideração que lhes foi tributada.
E basta de massada por hoje, pois que esta minha epistola excedeu já os limites da ordem. Decerto que as columnas da Gazeta não se destinam simplesmente a assumptos tavaredenses, não é assim?
O casamento do Alto Vareta, comedia de costumes em 1 acto, de P. d’Alcântara Chaves;
Tavarede, mazurka de G. Ribeiro; Ça mord, intervallo para duas creancas;
Uma gavotte;
Bohemios, passo ordinário, de F. Lopes de Macedo;
Luctas Civis, comedia em 1 acto, de Cezar de Sá;
Hymno da Escola Nocturna.
O desempenho da parte dramática será exhibido pelos alumnos da escola referida, e a parte musical executada por um grupo de rapazes também de Tavarede,
De tarde servir-se-á um jantar a todos os alumnos d’aquella aula, para o qual teem sido generosamente offerecidos donativos por vários cavalheiros.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Sociedade de Instrução Tavaredense - 23
Num espectáculo levado a efeito no Parque Cine, em benefício da Misericórdia da Figueira da Foz, foi representada a peça “O Amigo Fritz”, que teve a particularidade de reunir, nos principais papéis, amadores da Associação Naval e do Ginásio Figueirense, nomeadamente Alda Pereira, Maria Virgínia Ribas de Sousa, Severo Biscaia, António Neves, José Esteves Martins e José Dias. O papel de “Fritz” foi desempenhado por José da Silva Ribeiro, e o de “Susél”, a protagonista, pela actriz Ilda Stchini, que também ensaiou e dirigiu a representação. Um verdadeiro elenco de luxo!
Na “Voz da Justiça”, de 3 de Outubro de 1931, sob o pseudónimo de “Espectador da 1ª plateia”, surge publicada uma crítica na qual, depois de elogiar e felicitar todos os personagens pelas magníficas interpretações dadas aos seus personagens, excepção feita a José Ribeiro, escreve:
“Deixámos para o fim a referência ao Fritz, que é o mais importante papel da peça.
Reconhecemos as suas dificuldades, e compreendemos que só um bom comediante, dotado de especiais faculdades, poderia vencê-las cabalmente.
Isso, porém, não deve impedir-nos, e não nos impede, de fazermos ao trabalho de José Ribeiro as restrições que nos parecem justas. Porque, na verdade, não podemos dar-lhe um elogio incondicional. Hão-de objectar-nos que se trata de uma récita de amadores. É verdade. Mas estes amadores são de tal categoria e têm tais responsabilidades – representaram com Ilda Stichini e foram ensaiados por ela... – que merecem, em homenagem ao seu valor, ser apreciados como profissionais. De resto, os leitores deste jornal, não estranharão, porque assim foram tratados os amadores que aqui na Figueira representaram certa peça ensaiada por uma actriz de grande nome no teatro português.
Esclareçamos ainda um outro ponto: não é por José Ribeiro ser crítico teatral que vamos exigir-lhe que seja... actor, como se exige dum crítico de pintura que seja... pintor. Não tem nada uma coisa com a outra. Mas a verdade é que, se o crítico não se sentia com forças para fazer de... actor, quem o mandou subir ao palco? Porque deixou a sua cadeira vizinha daquela em que me sentei, onde ele gosta de estar e onde nós gostamos de o ver?
José Ribeiro venceu em muitos pontos as dificuldades tremendas do seu papel; noutros, porém, sucumbiu.
Duma maneira geral pareceu-nos que seguiu a linha própria da personagem, marcando-lhe sempre o carácter e assinalando-lhe o estado de espírito que a domina em cada acto: porque na verdade, sendo a personagem um só, sendo humana e tendo unidade, em cada acto se nos mostra diferente e cada acto tem de ser feito de maneira diferente. O 1º e o 2º demandam um esforço físico enorme e um meticuloso trabalho de composição: no 1º acto é o Fritz Kobus amigo de pândegas, comedor e bebedor, solteirão inconvertível, bonacheirão, a boca constantemente abrindo-se em gargalhadas que o fazem rebolar-se na cadeira de braços, como nos diz a sua velha criada; no 2º dominam as mesmas características, mas a graça singela, a beleza sem artifício cheirando a violetas e a habilidade culinária de Suzel tocaram-lhe a alma bondosa e inexperiente nestas coisas do amor – e agora, quando o vemos rir encantado com a rapariguita, o Fritz é uma criança grande. O 3º acto, onde vibra mais forte a nota sentimental, requere as faculdades dum artista e dum comediante. José Ribeiro compreendeu tudo isto – mas não pôde fazer isto tudo.
Logo de entrada nos impressionou desagradavelmente aquele cesto de garrafas que vinham da frasqueira dos Kobus: era uma coisa ignóbil. José Ribeiro não tinha o direito de apresentar-nos aquelas garrafas destapadas e uma ou duas com rolha... mas quase fora do gargalo. Uma, a que chamaram Riquevir, ou lá o que é, bem se viu ao encher dos copos para a saúde ao violinista, que vinha quase vazia!
E não teria José Ribeiro um espelho para ver pelo rosto que remoçara, e que em vez de aproximar-se dos 40 regressara aos 20? O corpo, o andar, certas atitudes estariam bem se a cara nos mostrasse mais uma dezena de anos, pelo menos.
Gostámos da cena com Suzél no 2º acto, dialogada com naturalidade. Foi bem marcada a gulodice pelas cerejas na forma como as comeu, engolindo as primeiras com caroço. Pena foi que não acompanhasse – e seria difícil! – Ilda Stichini quando esta ri na cerejeira, em gorjeios maravilhosos que o próprio rouxinol não suplantaria, e ele ri cá em baixo, no meio da cena. Faltou-lhe expressão. O monólogo junto ao poço, não nos satisfez inteiramente. Por sinal que, mal se encostou, o poço rangeu e logo na plateia se esboçou uma risada discreta. Insuficiências da montagem que também não passam – noblesse oblige... – sem o nosso reparo.
No 3º acto há pedaços bem representados e há hesitações evidentes. Bem marcado o final, quando reaparece o Fritz do 1º acto, já com o estômago curado”.
Não deixa de ser estranho, tanto mais que em “O Figueirense” se diz que: “José Ribeiro, que foi representar pela primeira vez, fugiu àquela regra prática de que um bom encenador é quase sempre um mau executante, pois que, arcando com um papel difícil, o desempenhou de forma a deixar satisfeito o mais exigente. É tão difícil saber rir, e ele até nisso cumpriu”. No número seguinte da “Voz da Justiça”, José Ribeiro, em nome do “Fritz Kobus”, responde da forma seguinte:
“O redactor que neste jornal costuma publicar as suas impressões de teatro, recebeu de “Fritz Kobus” a carta seguinte:
Amigo:
Aqui me tens a agradecer-te efusivamente a liberdade que concedeste ao sr. “Espectador da 1ª plateia, etc”. para dizer com largueza de sua justiça sobre a representação da comédia em que sou protagonista. E oh! que protagonista!
Agradeço-te porque, se não fôra a liberdade que concedeste para a publicação duma crítica que se estendeu por duas longas colunas de letra miudinha – mas que se entende muito bem... -, o meu trabalho passaria despercebido do público que não foi ao teatro, como se fôra uma interpretação banal esta com que me afoitei a escalar as muralhas da Fama e os píncaros da Glória (a Glória tem já os píncaros muito derribados), e eu seria forçado a contentar-me com as palmas dos amigos da claque que contratei para me consagrarem na récita famosa.
Supôs muita gente que eu ia ficar arrazado com aquela formidanda pratalhada de crítica, e o próprio cozinheiro chegou certamente a supor que aí lhe não aceitavam o pitéu, por vir carregadito de pimenta. Ora adeus! O estômago de ferro do “Fritz Kobus” funciona admiravelmente e digere sem maior esfôrço toda a espécie de pastelão.
Gostei da crítica, palavra de honra! E tanto que já dei ordem à Catarina para me separar da frasqueira uma dúzia de garrafas do tal vinhito cor de rosa das Olivettes, que hei-de mandar-lhe de presente. Porque ele tem razão. É verdade que podia ter dito aquilo com outro jeito, mas lá percebeu que eu não tenho pêlo por onde seja possível correr habilidosa mão, e por isso pôs ali tudo, preto no branco, “p á pá, Santa Justa”. Ora assim é que é. Amor com amor se paga...
Punhamos de banda a Ilda, essa extraordinária Artista que é tão grande no seu génio de comediante e no seu talento criador como no seu fulgurante espírito crítico. Se eu tivesse de falar dela, iria por aí fora em longa conversa sobre o que ela fez e se viu e sobre o que ela quis fazer e não pôde ver-se na comédia que tem por nome o meu. Perder-me-ia a discretear sobre o ambiente que deu à comédia, a valorização de efeitos que descobriu, o sentido teatral com que ergueu a peça e o ritmo que imprimiu à representação e em que consistiu o milagre de nos mostrar uma obra em que, sem a desrespeitar, os defeitos da idade passam despercebidos a nossos olhos. Aos meus companheiros nesta ascenção gloriosa que fizemos desde os pavimentos térreos – para onde a generosa empresa do teatro nos mandou e onde não havia sequer um banco ou uma tábua sobre que nos descalçassemos – à ribalta ofuscante do tablado, o sr. “Espectador da 1ª plateia”, etc não fez favor nenhum nos elogios que lhes dispensou, pois se trata de amadores considerados bons entre os melhores. E a mim – que diabo! – tu bem sabes que ele me fez justiça. Há certo rigor na atribuição de responsabilidades, como, por exemplo, naquilo das garrafas desrolhadas – grave delito, na verdade, sujeitar assim à azedia os preciosos vinhos dos Kobus! Eu podia desculpar-me lembrando que o actor não trata dos adereços: mas seria apenas uma explicação e não me justificaria do descuido de não ter evitado o precalço. Duma maneira geral, o improvisado crítico do teu jornal foi justo comigo.
Como haviam de magoar-me as suas tão sensatas restrições, que têm ainda o mérito da franqueza? E vamos lá, que ele podia ir mais longe, como certos críticos que não chegaram ao jornal e que foram para o teatro com binóculos de ver ao longe. Porque não sei se sabes que o binóculo, depois de muito ter procurado pelo chão, denunciou este meu grave delito: eu engoli cerejas sem lhe tirar o caroço, ou então eram cerejas... sem caroço! Que descuido o meu! E nem sequer já estou a tempo de provar aos de binóculo que efectivamente as cerejas tinham caroço... porque só agora, passados tantos dias, vim a saber da descoberta.
Muito a sério te digo: o que verdadeiramente me chocou foi o confronto com que desumanamente pretendeu esmagar-me um e não sei se mais dos vários críticos que assim vêm ao meu caminho, quando menos os esperava, a cortarem-me a carreira. Pois tu queres saber? Confrontaram-me com o Augusto! Sim, porque o crítico viu o Augusto, o Brasão, o Rosa – e era assim com eles “tu cá, tu lá, vamos ali ao Magalhãis”.
Oh! a ingratidão humana! Confrontar-me depreciativamente com o Augusto , - tu sabes, o Augusto, o Augusto Rosa, aquele que foi Actor! Porque eu, quando aceitei encarnar a figura em que te escrevo – e talvez te escreva noutra figura... – fi-lo com a certeza de apresentar coisa superiormente grande, senão para suplantar ao menos para igualar o Augusto! Foi com esta coragem que me atirei ao papel. Nem eu o aceitaria para outro fim!
Paciência! Desisto. A Suselzita me enxugará as lágrimas, e as mágoas hei-de afogá-las nos anestésicos da frasqueira herdada de meus avós. Renuncio à Fama e aos píncaros da Glória. E renuncio também ao monumento com que aí, numa praça, se havia de imortalizar o meu génio. Não seria um monumento de corpo inteiro: eu contentar-me-ia com um busto – desde que fosse um busto com braços, o que permitiria tomar as convenientes e propositadas atitudes de certas figuras das Caldas.
Quanto ao teu “Espectador da 1ª plateia”, etc, dize-lhe que marque lá duas à preta. E nunca as mãos lhe doam. Teu do coração – Fritz Kobus. (José Ribeiro)”
Pois bem, esclareçamos a verdade. O “espectador da 1ª plateia” e José Ribeiro eram uma e a mesma pessoa. Os jornais figueirenses não tinham ido muito longe nos seus comentários a este espectáculo e José Ribeiro, não podendo fazer uma crítica elogiosa a si próprio, mas desejando elogiar os seus companheiros de cena, usou este estratagema. Bem nos dizia ele, e muitas vezes isso aconteceu, que, enquanto jornalista, quando não tinha ninguém de quem dizer mal, dizia-o dele próprio!...
Sociedade de Instrução Tavaredense - 22
Nesta sessão, usou também da palavra o “inteligente académico sr. dr. Manuel Lontro Mariano.......... que se referiu, com elevação, aos largos benefícios que trazem às povoações, colectividades que se impõem pela generosidade dos seus programas e pela elevação da sua obra de beleza, em cujo número, com justiça, tem de se contar com a simpática Sociedade de Instrução Tavaredense”.
Em Setembro de 1931 faleceu o sócio número 1 da colectividade, da qual havia sido um dos fundadores, Manuel Rodrigues Tondela. Durante muitos anos, enquanto a sua saúde o permitiu, foi professor da escola nocturna. Suas filhas, foram das mais valiosas amadoras do grupo dramático.
E em Maio do mesmo ano, outra grande figura da história da colectividade faleceu, João dos Santos, proprietário da casa onde se achava instalada a sede da Sociedade que, juntamente com a quinta dos Condados e outras propriedades, herdara de João José da Costa e de sua esposa, D. Emília Duarte da Costa. “..... sendo esta colectividade um poderoso elemento de educação popular na nossa terra, é de justiça dizer que a Sociedade de Instrução teve em João dos Santos um benemérito amigo, a quem muito ficou devendo: além de outros auxílios materiais, cedeu à prestante colectividade, desde a sua fundação, a casa onde funciona, sem nunca lhe cobrar a mais insignificante renda”. Os seus herdeiros, durante cerca de uma dezena de anos, seguiram o mesmo exemplo.
Merece registo um espectáculo que, em Julho de 1931, se realizou no Casino Peninsular, em benefício do Jardim-Escola João de Deus. Representaram, uma vez mais, a fantasia “A Cigarra e a Formiga” mas, nesta récita, o grupo cénico tavaredense teve a honra da participação de uma das maiores actrizes portuguesas da época, Ilda Stichini. “Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida do público figueirense. Os versos da “Fantasia” disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do “Riso”, que Alberto de Lacerda escreveu expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que a ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido”.
Esta artista, em Outubro seguinte, visitou a sede da colectividade, em Tavarede, tendo sido recebida por, além de outros elementos, “todas as amadoras do grupo, que ofereceram à gloriosa actriz um ramo de flores”. Ilda Stichini, depois de visitar o teatro e a escola, ofereceu-lhe “uma fotografia sua com gentil dedicatória”.
A época teatral de 1931/1932 abriu no dia 28 de Novembro. Representou-se “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, uma adaptação do célebre romance de Júlio Dinis. Entre os intérpretes “têm papéis importantes os distintos amadores Violinda Medina e Silva e Manuel Nogueira, que eram dos melhores valores do Grupo Musical Tavaredense”.
Sobre esta estreia, escreveu-se no relatório daquele ano: “É de notar que “Os Fidalgos da Casa Mourisca” apenas foram à cena quatro vezes e que somente na primeira representação as famílias dos sócios não tiveram 60% de desconto nas suas entradas. Contava a Direcção que a peça se representasse mais vezes, razão que a levou a diminuir bastante o preço dos bilhetes das famílias dos sócios, medida que lhes pareceu seria recompensada por um maior número de representações. Infelizmente factores diversos, contrários e imperiosos à sua vontade, e também à do ilustre director da secção dramática, obstaram a que a peça continuasse em cena por mais tempo. Dizendo que a peça agradou é pura verdade. Que os amadores são óptimos, ninguém o poderá negar. Que a Direcção os admira, todos o sabem e até eles próprios, visto que nas quatro representações efectuadas, lhes deveria ter vibrado bem a sua alma de tavaredenses, com as aclamações frenéticas recebidas, até de ilustres figueirenses”.
Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 18
Na sua correspondência de 6 do corrente, insére um esclarecimento – Para evitar equivocos – que bem demonstra à evidência a maneira agil e certeira, mas disfarçada, como se ergue ao ar para pregar o seu panásio.
Diz o tal escrito que, tendo constado nessa cidade que no domingo, 9, haverá “matinée”, - e prosseguia – para evitar equivocos esclarecemos que não é no grupo... – da sua Sociedade, está claro, que se dava a matinée.
Esta é da gente se benzer...
Com certeza o auctor do tal equivoco não percorreu as principais ruas da Figueira: porque se o tivésse feito, viria espalhados em quási todas as montras dos estabelecimentos, um largo cartaz-réclame e em letras bem viziveis: - Teatro no Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, representando-se a opereta, Noite de Santo Antonio.
O colega perdeu uma bela ocasião de estar calado, porque em nada prejudicou o brilho com que se organisou a matinée de domingo, porque o teatro encheu-se completamente com gente que veio aqui, provavelmente por engano...
Lembre-se, sr. correspondente, que escusado será atacar o Grupo Musical, directa ou indirectamente, porque ainda há dentro das suas paredes homens capazes de o defender, quando atingido pelos inimigos.
Boa piada... ou palermice?..."
"Amº. Snr. Gomes d’Almeida - Como os tectos do seu jornal ainda são aqueles que noutros tempos deram guarida à minha pobre dedicação e expontanea amizade, eu não receio acreditar que mais uma vez as suas colunas sejam capazes de albergar duas dasataviadas e descoloridas linhas, escritas e rubricadas por mim - que sou maior e vacinado.
Trata-se dum caso a que achei imensa graça. Tanta, que me não coíbo de afirmar que ha muito tempo me não rio com tamanha vontade, tal o espírito que o revéste...
Eu conto:
- Com aquele entusiasmo aliás bem próprio de quem está ausente e muito gosta da sua terra - embora dela, por circunstancias da vida, ande expontaneamente arredio -, eu leio aqui os jornais da Figueira com grande sofreguidão, tal a sêde de um melhor e mais agradavel contacto com as coisas que se prendem com o seu movimento moral e material.
Sucede que ha dias deparei com uma correspondencia n’A Voz, sobre assuntos de Tavarêde e logo a seguir com outra n’O Figueirense, em que o seu auctor se ocupava da sobredita cuja...
Li uma e outra e, francamente, achei imensa piada áquele dos correspondentes que mais piada tinha e que possivelmente ainda hoje tem e ha de ter sempre, tal o espírito gracioso que lhe está na massa do pêlo - salvo seja...
Ora sendo eu de Tavarêde e muito bem conhecendo o meio, apezar de ha perto de dois anos residir em Sintra, tambem sobre o caso quero meter colherada, não para estar com retóricas com quem as não merece, mas simplesmente para dar um conselho - passe o termo - ao sr. C. que da minha terra para O Figueirense escreve coisas, entre outras sobre o Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense, que tambem é muito da minha afeição, graças a Deus.
Este conselho resume-se nisto:
Como o Grupo Musical e d’Instrução é indubitavelmente uma das associações de Tavarêde que mais incansavelmente pugna pelo seu melhor futuro e consequentemente pelo cada vez mais digno e honroso nome da linda aldeia onde alicerçou a sua vida; como o Grupo Musical e d’Instrução, com a sua explendida e gloriosa secção dramatica, com a sua magnifica e afamada tuna, com as suas aulas de instrução primária e de música, etc., está muito acima do nível em que o pretende pôr o requintado e venenoso ódio de um infeliz qualquer que pensa que nas luctas entre classes, entre correntes ou facções só se triunfa humilhando os adversários; como o Grupo Musical e d’Instrução é constituido por gente absolutamente digna e limpa, eu dou por conselho ao sr. C. de O Figueirense que não deve de futuro esmurrar o bico da sua... bota com semelhante bípede (??) se por ventura ele lhe tornar a sahir assim tão atrevidamente ao caminho. Quando muito, limite-se, como eu, a rir, a rir sempre...
Não se podem gabar: no Coliseu dos Recreios, de Lisboa, os palhaços, nem no Jardim Zoologico os habitantes da respectiva “Aldeia dos Macacos”, indubitavelmente mais gastronomos duma requintada e expontanea comicidade, que já dalguma vez fossem capazes de me fazer rir com tanta vontade como a leitura do tal aviso do amigo dos progressos de Tavarêde ha dias inserto nas colunas d’ A Voz da Justiça.
Para evitar equivocos, o tal aviso - publicado com certeza por equivoco do director daquele jornal -, anunciava às gentes frequentadoras de matinées em Tavarede que aquela que ia ter logar não era da sua sociedade...
Isto é simplesmente piramidal, palavra d’honra!!!
O que queria o luminoso correspondente dizer com isto?
Provavelmente que a peça da “trempe” Amargo, Martins & Rocha era um pouco... extemporânea.
Efectivamente, uma opereta que se intitula Noite de Santo Antonio, em pleno e rigoroso Dezembro, francamente, cheira a Presepio...
E nas noites interminavelmente longas e frias de inverno, em que predomina a boa castanha e a saltitante agua-pé, o que mais apetece é... agua-pé... e castanhas...
Ora continue o G.M. e d’I.T. a sua sublime obra, luctando titanicamente pela conquista do Sacrosanto Pendão do seu Ideal que o resto o futuro o dirá.
Se Tavarede possue hoje o legítimo orgulho de ser no districto de Coimbra uma das povoações que vae na vanguarda, da instrução e na educação musico teatral, para isso o Grupo Musical, em 17 anos de vida honesta e briosa, com alguma coisa concorreu.
Ha alguem de reconhecida probidade e são criterio capaz de o negar?
Desculpe, sr. director, este massador que grato se confessa pela atenção dispensada, e aqui se põe incondicionalmente ao dispôr do seu jornal, no que lhe possa ser util.
Mas que quer. Como sou possivelmente mais velho que o solicito correspondente da minha terra e tenho portanto, mais pratica da vida, quiz dar-lhe o conselho de se rir com o feliz meteoro que surgiu ali no Estendal."
Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 17
Sabemos, também, que o valor acordado para a compra do edifício, então pertença do sócio Manuel da Silva Jordão, na altura considerado benemérito da colectividade e que até já merecera a honra de ver o seu retrato descerrado, em acto solene, havia sido fixado em 20 contos de reis.
A colectividade não dispunha, porém, daquela importância. E como o empréstimo autorizado pela Assembleia Geral, para ser feito por meio de uma emissão de acções, no valor total de 25 000$00, ou seja, 500 acções do valor unitário de 50$00, obteve fraco acolhimento por parte de grande maioria dos associados, necessário se tornou obter outra fonte para o financiamento.
E, concordemos, a deliberação tomada pela referida Assembleia, de que cada sócio fosse obrigado a subscrever, no mínimo, duas acções, era um bocado violenta. Cem escudos, naquele tempo, era bastante dinheiro, mormente quando a maior parte dos associados seriam operários e trabalhadores rurais, com baixos proventos e nem sempre garantidos, tornavam-se muitas vezes bem escassos para provir às carências familiares. Mesmo assim, ainda foram subscritas bastantes títulos. Pelo menos garantiram, em parte, as despesas ocorridas com as obras de restauro e melhoramento das instalações, pois, presumo, o valor orçamentado para estas rondaria os cinco mil escudos, uma vez que o empréstimo por acções previa os 25 contos e o financiamento posteriormente acordado, para pagamento da casa, foi só de 20 contos.
Também fiz referência às condições obtidas do vendedor, para o pagamento da verba negociada. Metade seria emprestada pelo próprio vendedor, com pagamento facilitado até 3 anos, sem cobrança de quaisquer juros, e a outra metade, por meio de letra aceite por três sócios de reconhecida idoneidade por aquele vendedor.
Imediatamente se ofereceram três sócios para assinarem a mencionada letra. Foram eles, João de Oliveira, António Francisco da Silva e António Medina, respectivamente, presidente, vice-presidente e tesoureiro da Direcção. Para colaborar com estes na responsabilidade, logo se ofereceu o elemento do Conselho Fiscal, José Maria Costa. De mencionar que os encargos com esta letra eram elevadíssimos, com uma taxa de juro de vinte por cento ao ano. E isto, repare-se, foi assumido a título pessoal por aqueles quatro sócios, sem que o Grupo figurasse como responsável pela dívida, embora a escritura da compra do edifício fosse feita em seu nome.
Havia, portanto, que tomar as providências e cautelas que se impunham. Uma das medidas mais importantes foi a deliberação de solicitar ao presidente do Conselho Fiscal, António Victor Guerra, a organização da escrita da colectividade, tarefa de que foi encarregado “pela sua categoria técnica”. Logo se depreende que, até então, as contas seriam feitas, como se diz, um tanto “à balda”.
Outra das medidas também tomadas foi a de aumentar a quotização mensal. Se a partir de Junho de 1924 era de $75 escudos, passou a ser de 1$00 a Janeiro de 1925 para diante. Em seis meses, um aumento bem substancial: cem por cento, pois, anteriormente, estava fixada em cinquenta centavos. A jóia passou de 5$00 para 10$00.
Mas não se podia somente fazer exigências aos sócios. Havia que lhes dar, em contrapartida, alguns benefícios, pelo que, em reunião de Direcção de 8 de Janeiro de 1925, foi “resolvido que, no intuito de estimular todos os amadores do nosso Grupo Dramatico, incutindo-lhes a boa vontade de trabalhar e, consequentemente, de tomarem parte em futuras récitas, se lhes facultasse um bilhete para cada espectaculo que se realize na nossa séde, o qual se denominará “bilhete de serviço”, e que será oferecido, por cada um, a qualquer pessoa de sua familia, ou a quem entendam, e bem assim a escolha de logares.Igual concessão será feita a todos os executantes que prestem serviço nos mesmos espectaculos quer sejam ou não socios do Grupo.
Mais foi aprovado que em todos os espectaculos realizados pelo nosso Grupo Dramatico, se dê entrada a todos os filhos de socios, com menos de 15 anos, sendo-lhes, portanto, fornecidos os competentes bilhetes, a titulo de oferecimento, tendo-se em atenção para este facto, o haver alguns associados que teem familias numerosas, sendo-lhes pesadissima a obrigação de comprar as entradas para os seus filhos, o que dava um resultado de nunca lhes distrair os espiritos, atenta a avultada importancia que, para tal fim, teriam de dispender”.
Igualmente foi resolvido fazer uma campanha com o grupo cénico, pelo que foram contactadas diversas colectividades das povoações limítrofes, afim de darem alguns espectáculos, com a finalidade da angariação de fundos para fazer face aos grandes encargos anuais com os juros vincendos.
É oportuno recordar um apontamento da acta da Direcção de 9 de Junho daquele ano que refere “foi deliberado que, no futuro, fossem lançados em livro especial, arranjado para tal fim, todas as importâncias correspondentes aos serviços prestados ao Grupo por cada sócio, as quais, à medida que fossem atingindo o valor de uma acção, ser esta entregue a quem competir, proposta esta que tem unicamente em mira estimular todos os associados a trabalharem com mais ardor pelo bem da nossa causa”.
Em 10 de Janeiro de 1926, houve uma Assembleia Geral extraordinária em que foram apresentadas as contas, as quais foram aprovadas após ter sido lido “lido, em nome da direcção cessante, um bem elaborado relatório, por onde se pôude apreciar dos esforços e da bôa orientação da gerencia finda; bem como as contas, pela leitura das quaes se ficou conhecendo a situação financeira do Grupo.
Apresentados os seguintes agradecimentos: Dr. José Rafael Sampaio, por ter tomado conta da nossa questão contra os srs. Fonseca & Cª.; António Francisco da Silva, João d’Oliveira, António Medina e José Maria Costa, por se terem responsabilizado perante o Banco de Portugal pelo empréstimo alí contraído pelo Grupo e perante o empréstimo em Brenha; ao sr. José Francisco Silva, pela oferta de todos os artigos necessários á secretaria; so sr. Adelino Joaquim faria, pelas inumeras ornamentações gratuitas que tem feito na nossa séde e ainda pela oferta d’algum dinheiro; ao sr. António Medina, tesoureiro, por ter facilitado muito a missão dos restantes corpos gerentes com relação a recebimentos e pagamentos, pois que a-pesar-de termos um movimento de sessenta contos, muito pouco dinheiro lhe passou pelas mãos; ao sr. José da Cunha Ferreira, pela oferta do retrato de sua bondosa Esposa, algum dinheiro e viveres para o bodo aos pobresinhos da nossa terra; ao sr. Vicente Ferreira, pela forma desinteressada com que prestou os seus serviços como ensaiador da nossa secção dramática; ao sr. Eduardo Pinto de Almeida, pelos relevantes serviços que, na qualidade de mestre de música, nos prestou, muito tendo contribuido para o bom nome da nossa Tuna; ao sr. Alvaro Mesquita, pelos serviços prestados como caracterisador; á Imprensa da Figueira da Foz pela assinatura gratuita dos seus jornaes e pelas bôas referencias que tem feito á nossa colectividade.
Seguidamente foi apresentada e justificada pelo sócio António Medina Junior a seguinte proposta: Proponho que o nosso distinto e inteligente consocio Exmo. Sr. Antonio Victor Guerra seja louvado, pela direcção que hoje toma posse, pela fórma brilhante e desinteressada como soube escriturar as contas algo embaraçadas que durante a gerencia finda se tiveram de fazer dentro da vida do Grupo.
Foram ainda aprovados votos de agradecimentos ao sr. Carlos da Silva Pestana, pelos relevantes serviços prestados ao Grupo, e ao sr. Antonio d’Oliveira Guerra, pelo oferecimento de madeira em elevado valor.
Pelo sr. António Guerra, e referindo-se aos espectáculos realisados pelo Grupo em Figueira da Foz, Quiaios, Brenha, Maiorca, na Marinha Grande e Montemor o Velho, onde colheram os melhores louros para a nossa bandeira, exortando os paes a que mandem as suas filhas aos ensaios e pedindo a colaboração assídua do respectivo director de scena. Sobre a Tuna, que considera o filho mais velho do Grupo, pede a todos os executantes que lhe dediquem o melhor dos seus esforços, pois que é uma boa fonte de receita que convém não desperdiçar. Em instrução e ginástica insta com os sócios para que não deixem de frequentar as suas aulas, bem como mandarem os seus filhos para o mesmo fim.
Nesta assembleia foi proposto e aprovado que no 1º. domingo de cada ano se proceda á eleição dos corpos gerentes e à prestação de contas, e no 3º. domingo se façam as festas de aniversário”.
Mas as coisas não corriam de feição. O grupo cénico não estava a corresponder e isto por ter um responsável provisório. Vale a pena ler um extracto da acta da reunião da Direcção de 14 de Março daquele ano.
“O sr. Presidente começou por declarar que, para evitar mal-entendidos, ia abordar um assunto de grande importancia, não na qualidade de amigo pessoal do Director Scenico, sr. Antonio Medina Junior, mas sim na de Presidente da Direcção. Que como era do conhecimento de todos os Directores, havia sido previamente resolvido, em uma das reuniões de Direcção transacta, a que aquele sr. Director Scenico assistiu, que fosse levado a efeito, em Verride, um espectaculo pela nossa Secção Dramatica, cuja recita se destinaria a amortisar parte da divida ao banco de Portugal (400$00 esc.), espectaculo este que não se chegou a realisar devido à incuria do mesmo sr., votando ao abandono, por alguns dias, aquela secção, quando é certo que o vencimento da letra na importancia acima indicada se aproximava. E que, por tal motivo, se viu obrigado a recorrer a um amigo particular, estranho à Colectividade, para que este lhe emprestasse, em seu nome, a mesma quantia para satisfazer o compromisso tomado afim de, por esta fórma, salvaguardar o bom nome da nossa Associação e, sobretudo, a dos aceitantes da letra, entre os quais figurava o sr. Antonio Medina, pae do aludido Director Scenico. Se assim não procedesse, aliás como se lhe impunham os deveres do seu alto cargo, o credito dos aludidos aceitantes, cessaria, de uma vez para sempre, naquele estabelecimento bancario. Depois do exposto e tendo aparecido nesta ocasião o sr. Antonio Medina Junior, lamentou sinceramente o seu irregular procedimento, expressando ao mesmo tempo a sua profunda mágua, por vêr que existiam estas divergências, as quaes eram em absoluto, prejudiciaes á vida do nosso Grupo, que até aqui tem caminhado na senda do progresso, ao lado das suas congeneres mais prosperas. Sobre este assunto, o sr. Director scenico justificou a sua atitude, prestando declarações que foram, em parte, inaceitaveis, prometendo, de futuro, dedicar a sua atenção, com mais regularidade, e como lhe cumpre, á Secção que proficientemente tem sabido dirigir”.
É interessante, também, uma nota extraída de uma acta seguinte, em que se escreve “o senhor presidente expôs a necessidade de se proceder à cobrança das importâncias em dívida para a subscrição dos retratos dos nossos consócios srs. António Medina e José Medina e que, por todas as formas, se conseguisse a ultimação da mesma, para liquidação da conta em débito”. Quer dizer, mesmo os retratos que eram descerrados, eram pagos por subscrição aberta entre os sócios!
quarta-feira, 14 de abril de 2010
UM DIA "1º. DE MAIO", HÁ UM RÔR D'ANOS...
= Ah menino! Olhe que ámanhã, às 4 da madrugada, lá estêmos na Varzea! A gente vae aqui pelo Cruzeiro. E já sabe que não quero outro par...
Foram ali duas mãozadas têzas a selar o compromisso. Lá estaria como um cão. Haviamos de dançar as estopinhas. E quando o sol fizesse botar aos caracóes os corninhos de fóra, viriamos ao Mercado e mercariamos a merenda para a tarde, - rosquilhas da Alhada, peixe para fritar e morangos, - uma grande dóse de morangos...
N’essa noite, no Ginásio e n’uma roda d’amigos, o Abinadab, começou porem a contar com pormenores de fazer crescer agua na bôca ao mais dado a temperança, que um primo lhe mandára por regalado presente, um paio soberbo, - oh meninos é só lombo puro! – umas laranjas mais dôces que mel, e um pipo de vinho, cristalino e claro, tão palheto e oloroso, que a falada ambrosia dos Deuses, lhe não passava à certa as lampas!
D’ahi a nada estavamos todos na Travessa dos Banhos. Lembro-me que ia o Mario Alves, o Manuel de Sousa, o Carlos Martins, não sei quem mais, - mas que da róda fazia parte o Augusto Veiga (Filho) e este vosso creado, isso é que não tenho duvidas...
Comeu-se bem, bebeu-se melhor, tagalesou-se à farta, e depois d’uma volta pela Esplanada, fundeamos no Barba-Azul, como era da praxe..
Às tantas a Senhora Libania, disse amavelmente, = que eram horas dos meninos se irem deitar. O meu relogio, um velho relogio de prata, com mostrador preto, que o Chico Rocha, jurava e batia fé, que lhe dava azar, marcava trez horas. Eu e o Veiga, achámos que não valia a pena enfiarmo-nos em lençóes. D’ahi a migalho já podiamos ir até à Varzea. E de sopetão veio a proposta:
= Olha lá, isto agora, para ajudar a varar a madrugada, o que fazia bem era um gôle de vinho do Porto. O meu pae ainda ontem abriu uma garrafa. Vamos nós a ele?...
Meu dito meu feito! O Veiga morava pegado. E vá de marinhar as escadas, de entrar pé ante pé, de escalar o aparador da sala de jantar, e de fazer as honras ao nectar côr de topazio, a uma arrufada de Coimbra, e a uma loira taça de marmelada...
Sahimos, já só piscavam nos altos as ultimas estrelas. Iamos palavrósos. Não me recordo do assunto, mas haviamo-nos enredado n’uma discussão valente. Esperámos um bocado à porta da quinta do George Laidley, a vêr se vinham as cachópas. Passaram umas sopeiras com potes como mangericos. Depois uma malta tangendo violas, berrando gritarias de fados. E resolvemos seguir o nosso caminho...
Era lusco-fusco. Do nascente vinham as primeiras tintas da alvorada, d’um tom esmaecido de violeta. E a nossa teima azedava-se. Estavamos pirrónicos, teimosos, irritados. Era cada passada de legua e terça. E já clareava a manhã, já boiavam nuvens tintas de rósa vivo, quando ao cabo de vasto calcurriar, topámos uma padeira, com um burro carregado de cestas com pão, na peugada...
= Eh tiasinha! Onde raio está a gente?...
Salve-os Deus! Os meninos estão em Brenha...
Fizémos marcha atraz. Quando alcançámos a Varzea de Tavarede, ia no largo da fonte, um restolho dos diabos. Zurravam gaiteiros. Uma tuna de aldeia, fazia ouvir com regalo modinhas de roda. Havia estalados, malhões gritantes, viras-valsados a preceito. Tilintavam risos. Foguetes estoiravam entre penachos de fumo que o oiro do sol, muito amarelinho e vivo, sorvia com doçura. Tanto andei que topei a Armandina. Andava enaipada com um caixeiro de modas, que a trazia mais agarrada que se fosse um polvo. Fiz-lhe sinal. Ela riu, encostou-se mais ao par, deu mais fortes os estalidos dos dedos. E estava apetitosa, o diabo da rapariga, o chale caido dos hombros roliços, a face afogueada, a bôca entre-aberta a mostrar os dentes certos, os cabelos em desordem.
E a endiabrada môça pulava, saltava, rodopiava como um fuso em unha lesta, e ao passar à minha beira, ironica, trocista, largou na sua vosita prêsa e dificil...
= Quem vem tarde, mólha no vinagre...
... Pobre de mim, n’essa manhã, por causa do pae do vinagre, nem no vinagre molhei! (Raym)