quarta-feira, 28 de abril de 2010

Excursão a Fátima - Desastre

Ocorrido no caminho de Fátima, deu-se no último, 12, (Agosto), por volta das 5 horas da tarde, um lamentável desastre, que poz em perigo a vida de duas pessoas, e originou a morte de uma.
Como noticiámos, com destino a Fátima partiu no último domingo, numa camionete pertencente à firma Pascoal & Cª dessa cidade, uma pequena peregrinação constituída na sua maior parte, por gente deste logar.
Presenciámos a partida! Nunca nos passou pela mente o terrível desastre que ia dar-se, visto o contentamento de que todos iam possuídos.
Como se deu o desastre - Por informações dadas por algumas das vítimas deste terrível desastre colhemos o seguinte:
- Que a pouca distancia de Fátima, quando a camionete da firma Pascoal & Cª, Lda seguia com o maior cuidado, - pois assim foram todo o caminho – uma camionete manobrada por um “chaufeur” de Alcobaça – que nem carta possuía – que precedia aquela, pediu passagem. Mas quando a camioneta desta cidade principiava a dar-lha, a outra arrancava vertiginosamente, indo de encontro às rodas de direcção da sinistrada, fazendo-a virar imediatamente para a ribanceira, voltando-se logo a seguir, e cuspindo alguns peregrinos a longa distancia, ficando outros debaixo dela.
O que depois se passou, nada podemos dizer. Só afirmamos que foi um momento cheio de dor, de aflições, um momento de alucinação!...
Quando a nossa informação chegou a este momento, em que o nosso interlocutor nos contava como viu tanta vítima, conhecemos nele qualquer coisa aflita, como para sufocar um choro!
Os feridos – Depois de transportados para Leiria, todos os feridos em automóveis, mobilizados pela policia, deram entrada no Hospital D. Manuel de Aguiar, onde lhes foi prestado pronto socorro e pensados convenientemente pelo clínico sr. dr. Serafim Lopes Pereira, coadjuvado por todo o pessoal de enfermagem, as seguintes pessoas: Revdº Pároco da nossa freguesia, sr. Manuel Vicente, que sofreu uma grande comoção cerebral, lesões internas, e escuriações pelo corpo, inspirando o seu estado bastantes cuidados; Abílio Simões Baltazar, da “Quinta do Robim” com rotura da pleura e contusões pelo corpo, originando a morte do malogrado ancião; António Morais, barbeiro nessa cidade, com grandes ferimentos na cabeça e contusões; Maria José Pedro, esposa do extincto Abílio Simões; Beatriz Pedro, filha destes; Maria Palmira Morais, filha do barbeiro acima referido; e Emília Sansôa, creada do Revdº Manuel Vicente. Todas estas victimas ficaram gravemente feridas.
Também receberam tratamento no mesmo hospital os srs. Jacinto Pedro, Joaquim Lavoura, Belarmino Pedro, Adelino José de Carvalho, de Belide, Condeixa, todos com grandes ferimentos e algumas escoriações; e João Pereira, dos Condados, com um, braço fracturado e varias lesões.
Também seguiam na camionete sinistrada, que felizmente não sofreram nada, os srs. António, Pedro Manuel Vicente, da “Quinta do Robim”, José Rodrigues, Joaquim Rodrigues e sua esposa Estrela Saraiva, Luiza Pedro e Aurora Marques.
As victimas que inspiravam menos cuidados, regressaram na segunda-feira, a suas casas, ficando internados no hospital D. Manuel de Aguiar, o Revdº Manuel Vicente, António Morais e filha. Abílio Simões e esposa, foram transportados em automóvel para sua casa, tendo chegado por volta das 2 horas da madrugada de terça feira, e falecendo horas depois o proprietário, sr. Abílio.
Dizem-nos que o “chaufeur” que deu origem ao desastre, se encontra preso no Governo Civil de Leiria, pois a ele se atribuem todas as responsabilidades do ocorrido.
Bom será que as autoridades daquela cidade façam entrar na ordem todos os condutores de automóveis e camionetas, para que desastres tão pavorosos se não tornem a repetir.
A todas as victimas desejamos o seu breve e completo restabelecimento.

O falecimento – Faleceu ontem de manhã, na “Quinta do Robim”, e da qual era um dos proprietários, o sr. Abílio Simões Baltazar, de 79 anos, esposo da srª Maria José Pesdro, e pai do nosso amigo, José Simões Baltazar, e das srªas Maria Luiza, Arminda Beatriz e Luiza Pedro.
O extinto, que sofreu dolorosamente em poucas horas, era um carácter probo, cheio de dignidade, e dotado de excelente coração, pelo que a sua morte foi pranteada por todos os seus conhecidos, - em que contava numerosos amigos.
O seu funeral, realizado ontem de tarde, foi concorridíssimo, tendo-se, além de muitas pessoas de familia e amigos do extinto, encorporado muitos sócios do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense com o seu estandarte, e realisado vários turnos durante o pequeno trajecto.
À familia enlutada, apresentamos as nossas condolências. E áquele a quem a morte foi traiçoeira, deixámos sobre o seu leito mortuário lágrimas sentidas e saudosas.
Melhoras – Vão melhorando um pouco algumas victimas desta triste noticia, estando ainda gravemente enfermos os srs. Padre Manuel Vicente, João Pereira, António Morais e a srª Maria José Pedro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 25

Nos finais de Janeiro de 1933, a amadora Violinda Medina e Silva adoeceu. Aconselhada pelo seu médico, o dr. Pinhal Palhavã, a mudar de ares, foi passar uns tempos a Celorico da Beira. Seu marido, empregado nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, conseguiu que, temporariamente, lhe dessem o lugar de chefe da estação daquela localidade.
Para ocupar as suas longas horas de solidão, solicitou, a Mestre José Ribeiro o empréstimo de algumas peças de teatro, para ler, pedindo-lhe, igualmente, o seu conselho quanto a estas leituras. Vale a pena aqui deixar parte da resposta que recebeu.
“É a “Morgadinha de Valflor”, jóia admirável do nosso teatro romântico. É possível que já tenha visto representada. Mesmo assim, fará bem lendo esse belo e intenso drama. A sua leitura dar-lhe-á uma impressão mais forte da técnica então usada. Verá na Morgadinha os extensos monólogos a que hoje, - porque o teatro se aproxima da verdade, fogem os dramaturgos, mesmo quando escrevem peças a que podemos chamar também românticas, pela psicologia das personagens e pelo assunto.
Em seguida a esta levar-lhe-ei outras peças que há-de gostar de ler porque, para quem tem espírito a quem interessa o teatro, agrada conhecer, porque são modelos de forma, de técnica, de estilo. Do teatro chamado lírico, vale a pena ler “A Madrugada”, que a Ilda (Stichini) vai representar em S. Carlos; é uma peça encantadora, em verso, de Fernando Caldeira, autor também da “Mantilha de renda” e “Sapatinho de cetim”. Como teatro em português, pelas figuras e costumes, as comédias de D. João da Câmara, como “Os Velhos”, mais algumas das obras do profundo dramaturgo Marcelino Mesquita: a tragédia esmagadora da “Dor Suprema”, o drama “Envelhecer”, a comédia “Peraltas e Sécias” – três géneros diferentes. Vai lendo isto vagarosamente, pouco a pouco, e por certo tomará gosto à leitura de obras teatrais. Depois lerá peças de autores modernos – direi melhor, de autores vivos, porque aqueles ainda não são antigos. Assim as suas faculdades críticas ir-se-ão apurando, a ponto de gostar de ler alguns autos do Gil Vicente, velhos de quinhentos anos, mas que parecem de hoje - e que aborrecem algumas pessoas de cultura que supõem desenvolvida e que são tidas como conhecedoras de teatro.
Possuo as obras que indico, e a Violinda lê-las-á quando quiser, à medida que lhe fôr possível. Certamente o que mais há-de desejar conhecer são os autores portugueses; mas, se desejar, poderá ler também alguma coisa das celebridades estrangeiras mais citadas. Isto aborreceria outra pessoa, que não a Violinda, em cujo espírito se alimenta a paixão do teatro. Por isso levo tão longe esta conversa teatreira”.
É interessantíssimo, para quem gosta de teatro, ver a sequência da leitura das peças referidas. Violinda Medina encontrara o mestre de teatro que precisava para desenvolver a sua extraordinária apetência pelo palco.
Entretanto preparava-se mais uma nova peça de teatro português, A Morgadinha dos Canaviais. “Logo que a Violinda venha, começaremos a ensaiar activamente. Parto, bem entendido, da certeza de que a Violinda virá fazer a protagonista, conforme ficou combinado. Julgo que não conseguiram alterar as suas disposições...”.
José Ribeiro escrevia isto porque tinha conhecimento de que aquela amadora havia novamente sido solicitada pelo Ginásio Figueirense. Mas ela estava decidida. Só representaria no teatro da sua terra.
“O que eu lhe desejo é que a sua estada aí tenha aproveitado à sua saúde, que está acima de tudo. Venha bem disposta, para que o teatro – quando ele é orientado com bom critério assim sucede – exerça no seu espírito, como distracção ao menos, salutar influência. Não veja apenas o interesse do ensaiador nestes votos, que partem da minha leal amizade”. Esta carta está datada de 14 de Março de 1933. Violinda Medina breve regressou à Figueira e aos ensaios e, no dia 27 de Maio, como veremos adiante, “A Morgadinha dos Canaviais” foi levada à cena no palco de Tavarede, protagonizada por ela.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 24

A carreira da peça “Os Fidalgos da Casa Mourisca” foi interrompida por doença de um dos principais intérpretes, João Cascão. E para a récita de gala do aniversário, foi organizado um espectáculo que terminou com a representação da opereta “A Herança do 103” que, curiosamente, foi desempenhada pelos mesmos amadores que a haviam interpretado no Grupo Musical: Violinda Medina e Silva, José Francisco da Silva, Manuel Nogueira e Silva e Pedro Nunes Medina.
O repertório do grupo cénico ia alargando. Os amadores aumentaram em número e em qualidade e o ensaiador, José Ribeiro, conhecedor do gosto do público, fez representar, em 9 de Abril de 1932, uma outra peça notável e de acentuado sabor popular, “As pupilas do Senhor Reitor”. “Toda a montagem representa um esforço grande, digno de nota e nada vulgar em amadores. Acrescente-se a tudo isto a bela partitura de Filipe Duarte – 23 números de música deliciosamente portuguesa, de melodia que cai agradavelmente no ouvido e de esplêndidos efeitos de orquestração”.


Digno de registo o apontamento de que “a Sociedade utiliza o seu teatro como instrumento de educação e não de lucros monetários. Atendendo a isto, o autor da peça, sr. Penha Coutinho, e a viúva do maestro Filipe Duarte, cederam a obra à SIT com dispensa absoluta de todos os direitos”. O êxito terá sido enorme, segundo a crítica encontrada.
Em fins de Maio daquele ano, acedendo às solicitações que lhe foram feitas, a amadora Violinda Medina, ainda foi colaborar com o grupo cénico do Ginásio Figueirense, na representação da peça “O Rei da Lã”, a que se referiu um crítico escrevendo “..... o desempenho foi entregue a um grupo de bons amadores, entre eles alguns, sem favor, dos melhores que conhecemos na Figueira. Violinda Medina e Silva, amadora distinta, que tem na partitura a parte principal, de grande responsabilidade, brilhou e venceu”. Terá sido, nesta peça, a última vez que Violinda Medina colaborou no grupo cénico do Ginásio. Embora mais vezes solicitada, inclusivamente por seu marido, que também foi um devotado amador do Ginásio, nunca mais representou noutro grupo que não o de Tavarede, sua terra natal.
“As pupilas do Senhor Reitor” e “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, que entretanto reiniciou a sua carreira, foram apresentadas em Tomar, Figueira e Buarcos. A propósito da representação da segunda daqueles peças em Buarcos, o jornal “Gazeta de Coimbra” publica a seguinte apreciação do antigo amador conimbricense e autor de várias peças teatrais, Carlos de Almeida. “ ... a récita no teatro de Buarcos pelo excelente grupo cénico de Tavarede, que representou o drama “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, uma das mais bonitas peças extraídas da obra de Júlio Dinis. Mais uma vez fiquei assombrado com o desempenho dado a uma peça cheia de dificuldades por gente modesta, sem cultura dramática. Por vezes me esqueci e julguei estar vendo representar autênticos profissionais e não gente duma simpática aldeia, em geral operários. O grupo de mulheres possui competências que não se discutem”.

Em Outubro desse ano, novo êxito começou a ser ensaiado em Tavarede, “Canção do Berço”, numa tradução e adaptação do espanhol pelo distinto poeta dr. Carlos Amaro, que gentilmente a ofereceu à SIT. “ Canção do Berço ” é um mimo literário, uma verdadeira obra de arte, cuja acção decorre num convento de freiras dominicanas”. Mais para a frente recordaremos um caso interessante ocorrido com esta peça, numa récita dada na Figueira, em benefício da Misericórdia.

A propósito destas últimas peças, a Direcção escreveu no seu relatório a seguinte nota: “..... foram bastante animadores os resultados obtidos pela secção dramática, por isso que, apesar da avultada verba dispendida com os cenários e guarda-roupa das peças “As pupilas do Senhor Reitor” e “Canção do Berço”, deu ainda a secção um saldo bastante apreciável. Muito maior teria sido esse saldo se muitos dos nossos consócios tivessem assistido aos espectáculos que na sede se efectuaram. É de todos sabido o enorme sacrifício feito pela secção dramática em apresentar ao público peças de alto valor artístico. Compete-nos, pois, a nós, corresponder de algum modo, ao esforço feito pelos nossos admiráveis amadores, frequentando os espectáculos, pois só assim lhes poderemos manifestar a nossa admiração e simpatia. Alguns sócios haverá que, conquanto tenham tido bastante vontade de comparecer ao teatro, o não tenham feito por falta de recursos, mas muitos haverá que certamente as causas serão apenas de comodidade. De resto, a Direcção tem atendido à crise que se atravessa, reduzindo 60% o preço dos bilhetes para sócios e famílias”.
Fotografias: 1 - Partitura de 'As pupilas do senhor Reitor'; 2 - 'Canção do Berço'.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Urnanização Vale do Sampaio

Dirijo-me pessoalmente à minha conterrânea D. Preciosa Fileno Mota, emigrada no Brasil, que me questionou sobre o nome dado à Urbanização Vale do Sampaio ao bairro construido na antiga Quinta do senhor José Duarte, o que bastante estranhou, visto o Vale do Sampaio ser situado bastante longe deste local.
Procurei responder para o email 'preciosa.fileno@yahoo.com.br' , tendo sido agora informado que não havia sido entregue.
Peço, portanto, o favor de me enviar o endereço para o qual devo remeter o email em questão.

Vitor Medina

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um aniversário da Escola Noturna do Terreiro

Ao continuar as minhas buscas nos meus apontamentos, encontrei a notícia do terceiro aniversário da escola noturna do Terreiro (posteriormente da Sociedade de Instrução Tavaredense), que teve lugar no dia 23 de Fevereiro de 1902, na sala do Grupo de Instrução Tavaredense. Julgo interessante a notícia, muito curioso o programa e, como se trata de um assunto escolar, apresento no final da reportagem, uma foto, não de Tavarede, mas sim da Escola Primária Conde de Ferreira, da Figueira. Toda aquela 'rapaziada' era aluno do professor Rui Fernandes Martins, que anteriormente tinha sido professor em Tavarede durante vários anos, e anteriormente, em Brenha. A fotografia tem a data de 1938. É uma curiosidade, nada mais.

"Para mim, assim como para quantos amam a instrucção e se entregam desinteressadamente ao honroso mister de a diffundir pelos espiritos incultos, representou a festa de domingo passado um acontecimento de significativo valor, porque se commemorava o anniversario d’uma ESCOLA. Basta esta palavra, que por si só symbolisa uma das coisas que eu mais amo e mais attrahe as minhas sympathias, para que eu, como filho de Tavarede, obedecendo aos impulsos d’um coração agradecido, venha saudar d’aqui todos os cavalheiros que teem contribuido para o progressivo e ininterrupto caminhar d’aquelle estabelecimento. Faço-o como tavaredense, porque a minha consciência isso me impõe, porque é só aos meus patrícios que a Escola Nocturna está beneficiando, porque só elles podem d’ella auferir os benéficos influxos do brilhante pharol que lhes está illuminando o caminho que os conduz á civilisação.
É-me grato, pois, gravar aqui meia dúzia de palavras que traduzam a verdadeira expressão do meu sentir, que testemunhem emfim o meu mais sincero agradecimento aos auxiliadores da prestimosa obra que há três annos se vem edificando.
E a festa de domingo não foi motivo de jubilo só para mim. Foi-o para todos que se interessam pelo desenvolvimento intellectual do povo; foi-o para os que só vêem na instrucção a poderosa alavanca que há de levantar milhares de homens do rebaixamento em que vão arrastando o seu triste viver: foi-o emfim para os que vêem no analphabetismo a gigantesca barreira que se impõe altiva e conquista de tantas aspirações e á solução de tantos ideaes!
É da instrucção que dimana a luz do espirito, é este que nos guia nos actos da nossa vida, e é da sua educação que nascem quasi sempre os bons sentimentos. É portanto necessário que se eduque o homem, para que a sociedade lhe abra seus braços amigos e para que elle possa então representar dignamente o seu papel de ente civilisado.
Escrevo para os meus patrícios: sois pobres; bem sei que as circumstancias de muitos não permitem que dêem aos filhos uma regular educação. Não é, porém, nos tempos d’hoje que por falta de meios se deixa de aprender a lêr e a escrever. Temos as escolas regias, temos outras particulares gratuitas, que vão prestando generosamente os seus serviços em prol dos que d’elles necessitam, e n’estes casos se encontra a Escola Nocturna, que no domingo festejou o 3o anno de existência. Três annos de vida em que se desbravaram dezenas de espíritos cerrados ao conhecimento das lettras, e os que tão louvável e desinteressadamente se teem entregado áquelle árduo trabalho, devem decerto folgar por verem que não teem sido improfícuos os seus esforços, porque d’entre os alumnos por si leccionados há alguns que muito os honram pelo seu estado de adeantamento.
Não posso no emtanto deixar de lamentar a indifferença com que certos paes olham a educação dos filhos, apesar de com ella serem pouco sobrecarregados; isto, porque a frequência de vários alumnos tem sido irregular, sem isso preocupar aquelles que moralmente deviam obstar a tão condemnavel procedimento, e também porque conhecemos por aqui alguns indivíduos que não tratam de mandar os filhos para a escola.
É triste para mim o ter de revelar estes factos, mas o desgosto que elles me incutem são motivo demasiado para que eu os não possa occultar e não deixe de os censurar amargamente.
É preciso que todos os meus conterrâneos comprehendam o fim para que esta escola foi creada
Não devem todos os paes eximir-se ao dever de para ali enviar as creanças que careçam do ensino das primeiras lettras, pois que as portas estão abertas de par em par para os receber, e, para os que dentro d'ella se propozeram a ensinal-as, será muito satisfatório o ir riscando do numero dos analphabetos esses pobres seres que hoje são uns ignorantes, uns irresponsáveis, mas que amanhã, quando homens, terão direito a accusar os auctores dos seus dias, se estes não lhes mandarem dar a educação necessária para elles poderem viver na sociedade.
Fique isto bem gravado no espirito dos tavaredenses que me lerem, e só lhes peço que secundem sempre os esforços dos que trabalham para o engrandecimento moral e intellectual da terra que nos viu nascer, a qual, em instrucção, já hoje pode caminhar na vanguarda d’algumas outras localidades mais importantes.
Mas, comtudo, não vos esqueçaes nunca dos deveres de gratidão a cumprir.
O jantar servido aos alumnos da escola foi abundante, e durante a refeição via-se em todos os seus rostos uma alegria immensa que communicava com intensidade ao coração dos que presenciavam aquelle acto.
Á noite, o espectáculo em que se executou o programma já conhecido dos leitores da Gazeta, teve uma concorrência extraordinária, não havendo disponível um único canto do theatro.
É suspeita a minha apreciação sobre o desempenho das duas partes do reportorio: dramática e musical. Mas tenho a fazer-lhes justiça e a falarem por mim as calorosas e enthusiasticas ovações feitas aos pequenos debutantes da arte de Talma, e as salvas de palmas que coroavam o final de qualquer das peças musicaes tocadas por um escolhido grupo de rapazes também de Tavarede.
Por aqui se vê o agrado da recita, e o que eu posso asseverar é que nunca n'esta localidade houve festa theatral que mais sensação causasse, pela novidade dos actores e pela maneira correcta como se houveram.
As salas, tanto a dos espectáculos como a da escola, estavam ornamentadas com festões de verdura, palmas, bandeiras, livros, escriptas, etc. Na aula liam-se alguns trechos dos Lusíadas, copiados pelos alumnos mais adeantados, e
viam-se também distribuídos pelas paredes os nomes de vários cavalheiros que generosamente teem contribuido com donativos para aquella casa de instrucção.
De tarde, uma commissão de alumnos da Escola Popular Bernardino Machado de Buarcos, acompanhada do respectivo professor sr. Emygdio Serrão, veio entregar uma mensagem de felicitação aos seus collegas de Tavarede, documento que trazia 56 assignaturas, e ao qual vão responder os alumnos da Escola Nocturna d'aqui agradecendo tão significativa prova de consideração que lhes foi tributada.
E basta de massada por hoje, pois que esta minha epistola excedeu já os limites da ordem. Decerto que as columnas da Gazeta não se destinam simplesmente a assumptos tavaredenses, não é assim?


PROGRAMA

Como tem noticiado o nosso correspondente d’aquella localidade, realisa-se effectivamente amanhã o sarau comemorativo do 3o anniversario da Escola Nocturna d’ali, e cujo programma constará do seguinte: Hymno da Escola Nocturna - composição de G. Ribeiro; Republica das Lettras, comedia em 1 acto, de F. Palha; Surpreza, valsa característica de Simões Barbas;
O casamento do Alto Vareta, comedia de costumes em 1 acto, de P. d’Alcântara Chaves;
Tavarede, mazurka de G. Ribeiro; Ça mord, intervallo para duas creancas;
Uma gavotte;
Bohemios, passo ordinário, de F. Lopes de Macedo;
Luctas Civis, comedia em 1 acto, de Cezar de Sá;
Hymno da Escola Nocturna.
O desempenho da parte dramática será exhibido pelos alumnos da escola referida, e a parte musical executada por um grupo de rapazes também de Tavarede,
De tarde servir-se-á um jantar a todos os alumnos d’aquella aula, para o qual teem sido generosamente offerecidos donativos por vários cavalheiros.


E agora a fotografia:



segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 23

A nossa história de hoje, embora não seja uma história da Sociedade de Instrução, está a ela ligada e ao seu teatro, por ter sido protagonizada pelo seu director cénico, José da Silva Ribeiro.
Num espectáculo levado a efeito no Parque Cine, em benefício da Misericórdia da Figueira da Foz, foi representada a peça “O Amigo Fritz”, que teve a particularidade de reunir, nos principais papéis, amadores da Associação Naval e do Ginásio Figueirense, nomeadamente Alda Pereira, Maria Virgínia Ribas de Sousa, Severo Biscaia, António Neves, José Esteves Martins e José Dias. O papel de “Fritz” foi desempenhado por José da Silva Ribeiro, e o de “Susél”, a protagonista, pela actriz Ilda Stchini, que também ensaiou e dirigiu a representação. Um verdadeiro elenco de luxo!
Na “Voz da Justiça”, de 3 de Outubro de 1931, sob o pseudónimo de “Espectador da 1ª plateia”, surge publicada uma crítica na qual, depois de elogiar e felicitar todos os personagens pelas magníficas interpretações dadas aos seus personagens, excepção feita a José Ribeiro, escreve:
“Deixámos para o fim a referência ao Fritz, que é o mais importante papel da peça.
Reconhecemos as suas dificuldades, e compreendemos que só um bom comediante, dotado de especiais faculdades, poderia vencê-las cabalmente.
Isso, porém, não deve impedir-nos, e não nos impede, de fazermos ao trabalho de José Ribeiro as restrições que nos parecem justas. Porque, na verdade, não podemos dar-lhe um elogio incondicional. Hão-de objectar-nos que se trata de uma récita de amadores. É verdade. Mas estes amadores são de tal categoria e têm tais responsabilidades – representaram com Ilda Stichini e foram ensaiados por ela... – que merecem, em homenagem ao seu valor, ser apreciados como profissionais. De resto, os leitores deste jornal, não estranharão, porque assim foram tratados os amadores que aqui na Figueira representaram certa peça ensaiada por uma actriz de grande nome no teatro português.
Esclareçamos ainda um outro ponto: não é por José Ribeiro ser crítico teatral que vamos exigir-lhe que seja... actor, como se exige dum crítico de pintura que seja... pintor. Não tem nada uma coisa com a outra. Mas a verdade é que, se o crítico não se sentia com forças para fazer de... actor, quem o mandou subir ao palco? Porque deixou a sua cadeira vizinha daquela em que me sentei, onde ele gosta de estar e onde nós gostamos de o ver?
José Ribeiro venceu em muitos pontos as dificuldades tremendas do seu papel; noutros, porém, sucumbiu.
Duma maneira geral pareceu-nos que seguiu a linha própria da personagem, marcando-lhe sempre o carácter e assinalando-lhe o estado de espírito que a domina em cada acto: porque na verdade, sendo a personagem um só, sendo humana e tendo unidade, em cada acto se nos mostra diferente e cada acto tem de ser feito de maneira diferente. O 1º e o 2º demandam um esforço físico enorme e um meticuloso trabalho de composição: no 1º acto é o Fritz Kobus amigo de pândegas, comedor e bebedor, solteirão inconvertível, bonacheirão, a boca constantemente abrindo-se em gargalhadas que o fazem rebolar-se na cadeira de braços, como nos diz a sua velha criada; no 2º dominam as mesmas características, mas a graça singela, a beleza sem artifício cheirando a violetas e a habilidade culinária de Suzel tocaram-lhe a alma bondosa e inexperiente nestas coisas do amor – e agora, quando o vemos rir encantado com a rapariguita, o Fritz é uma criança grande. O 3º acto, onde vibra mais forte a nota sentimental, requere as faculdades dum artista e dum comediante. José Ribeiro compreendeu tudo isto – mas não pôde fazer isto tudo.
Logo de entrada nos impressionou desagradavelmente aquele cesto de garrafas que vinham da frasqueira dos Kobus: era uma coisa ignóbil. José Ribeiro não tinha o direito de apresentar-nos aquelas garrafas destapadas e uma ou duas com rolha... mas quase fora do gargalo. Uma, a que chamaram Riquevir, ou lá o que é, bem se viu ao encher dos copos para a saúde ao violinista, que vinha quase vazia!
E não teria José Ribeiro um espelho para ver pelo rosto que remoçara, e que em vez de aproximar-se dos 40 regressara aos 20? O corpo, o andar, certas atitudes estariam bem se a cara nos mostrasse mais uma dezena de anos, pelo menos.
Gostámos da cena com Suzél no 2º acto, dialogada com naturalidade. Foi bem marcada a gulodice pelas cerejas na forma como as comeu, engolindo as primeiras com caroço. Pena foi que não acompanhasse – e seria difícil! – Ilda Stichini quando esta ri na cerejeira, em gorjeios maravilhosos que o próprio rouxinol não suplantaria, e ele ri cá em baixo, no meio da cena. Faltou-lhe expressão. O monólogo junto ao poço, não nos satisfez inteiramente. Por sinal que, mal se encostou, o poço rangeu e logo na plateia se esboçou uma risada discreta. Insuficiências da montagem que também não passam – noblesse oblige... – sem o nosso reparo.
No 3º acto há pedaços bem representados e há hesitações evidentes. Bem marcado o final, quando reaparece o Fritz do 1º acto, já com o estômago curado”.
Não deixa de ser estranho, tanto mais que em “O Figueirense” se diz que: “José Ribeiro, que foi representar pela primeira vez, fugiu àquela regra prática de que um bom encenador é quase sempre um mau executante, pois que, arcando com um papel difícil, o desempenhou de forma a deixar satisfeito o mais exigente. É tão difícil saber rir, e ele até nisso cumpriu”. No número seguinte da “Voz da Justiça”, José Ribeiro, em nome do “Fritz Kobus”, responde da forma seguinte:
“O redactor que neste jornal costuma publicar as suas impressões de teatro, recebeu de “Fritz Kobus” a carta seguinte:
Amigo:
Aqui me tens a agradecer-te efusivamente a liberdade que concedeste ao sr. “Espectador da 1ª plateia, etc”. para dizer com largueza de sua justiça sobre a representação da comédia em que sou protagonista. E oh! que protagonista!
Agradeço-te porque, se não fôra a liberdade que concedeste para a publicação duma crítica que se estendeu por duas longas colunas de letra miudinha – mas que se entende muito bem... -, o meu trabalho passaria despercebido do público que não foi ao teatro, como se fôra uma interpretação banal esta com que me afoitei a escalar as muralhas da Fama e os píncaros da Glória (a Glória tem já os píncaros muito derribados), e eu seria forçado a contentar-me com as palmas dos amigos da claque que contratei para me consagrarem na récita famosa.
Supôs muita gente que eu ia ficar arrazado com aquela formidanda pratalhada de crítica, e o próprio cozinheiro chegou certamente a supor que aí lhe não aceitavam o pitéu, por vir carregadito de pimenta. Ora adeus! O estômago de ferro do “Fritz Kobus” funciona admiravelmente e digere sem maior esfôrço toda a espécie de pastelão.
Gostei da crítica, palavra de honra! E tanto que já dei ordem à Catarina para me separar da frasqueira uma dúzia de garrafas do tal vinhito cor de rosa das Olivettes, que hei-de mandar-lhe de presente. Porque ele tem razão. É verdade que podia ter dito aquilo com outro jeito, mas lá percebeu que eu não tenho pêlo por onde seja possível correr habilidosa mão, e por isso pôs ali tudo, preto no branco, “p á pá, Santa Justa”. Ora assim é que é. Amor com amor se paga...
Punhamos de banda a Ilda, essa extraordinária Artista que é tão grande no seu génio de comediante e no seu talento criador como no seu fulgurante espírito crítico. Se eu tivesse de falar dela, iria por aí fora em longa conversa sobre o que ela fez e se viu e sobre o que ela quis fazer e não pôde ver-se na comédia que tem por nome o meu. Perder-me-ia a discretear sobre o ambiente que deu à comédia, a valorização de efeitos que descobriu, o sentido teatral com que ergueu a peça e o ritmo que imprimiu à representação e em que consistiu o milagre de nos mostrar uma obra em que, sem a desrespeitar, os defeitos da idade passam despercebidos a nossos olhos. Aos meus companheiros nesta ascenção gloriosa que fizemos desde os pavimentos térreos – para onde a generosa empresa do teatro nos mandou e onde não havia sequer um banco ou uma tábua sobre que nos descalçassemos – à ribalta ofuscante do tablado, o sr. “Espectador da 1ª plateia”, etc não fez favor nenhum nos elogios que lhes dispensou, pois se trata de amadores considerados bons entre os melhores. E a mim – que diabo! – tu bem sabes que ele me fez justiça. Há certo rigor na atribuição de responsabilidades, como, por exemplo, naquilo das garrafas desrolhadas – grave delito, na verdade, sujeitar assim à azedia os preciosos vinhos dos Kobus! Eu podia desculpar-me lembrando que o actor não trata dos adereços: mas seria apenas uma explicação e não me justificaria do descuido de não ter evitado o precalço. Duma maneira geral, o improvisado crítico do teu jornal foi justo comigo.
Como haviam de magoar-me as suas tão sensatas restrições, que têm ainda o mérito da franqueza? E vamos lá, que ele podia ir mais longe, como certos críticos que não chegaram ao jornal e que foram para o teatro com binóculos de ver ao longe. Porque não sei se sabes que o binóculo, depois de muito ter procurado pelo chão, denunciou este meu grave delito: eu engoli cerejas sem lhe tirar o caroço, ou então eram cerejas... sem caroço! Que descuido o meu! E nem sequer já estou a tempo de provar aos de binóculo que efectivamente as cerejas tinham caroço... porque só agora, passados tantos dias, vim a saber da descoberta.
Muito a sério te digo: o que verdadeiramente me chocou foi o confronto com que desumanamente pretendeu esmagar-me um e não sei se mais dos vários críticos que assim vêm ao meu caminho, quando menos os esperava, a cortarem-me a carreira. Pois tu queres saber? Confrontaram-me com o Augusto! Sim, porque o crítico viu o Augusto, o Brasão, o Rosa – e era assim com eles “tu cá, tu lá, vamos ali ao Magalhãis”.
Oh! a ingratidão humana! Confrontar-me depreciativamente com o Augusto , - tu sabes, o Augusto, o Augusto Rosa, aquele que foi Actor! Porque eu, quando aceitei encarnar a figura em que te escrevo – e talvez te escreva noutra figura... – fi-lo com a certeza de apresentar coisa superiormente grande, senão para suplantar ao menos para igualar o Augusto! Foi com esta coragem que me atirei ao papel. Nem eu o aceitaria para outro fim!
Paciência! Desisto. A Suselzita me enxugará as lágrimas, e as mágoas hei-de afogá-las nos anestésicos da frasqueira herdada de meus avós. Renuncio à Fama e aos píncaros da Glória. E renuncio também ao monumento com que aí, numa praça, se havia de imortalizar o meu génio. Não seria um monumento de corpo inteiro: eu contentar-me-ia com um busto – desde que fosse um busto com braços, o que permitiria tomar as convenientes e propositadas atitudes de certas figuras das Caldas.
Quanto ao teu “Espectador da 1ª plateia”, etc, dize-lhe que marque lá duas à preta. E nunca as mãos lhe doam. Teu do coração – Fritz Kobus. (José Ribeiro)”
Pois bem, esclareçamos a verdade. O “espectador da 1ª plateia” e José Ribeiro eram uma e a mesma pessoa. Os jornais figueirenses não tinham ido muito longe nos seus comentários a este espectáculo e José Ribeiro, não podendo fazer uma crítica elogiosa a si próprio, mas desejando elogiar os seus companheiros de cena, usou este estratagema. Bem nos dizia ele, e muitas vezes isso aconteceu, que, enquanto jornalista, quando não tinha ninguém de quem dizer mal, dizia-o dele próprio!...

Sociedade de Instrução Tavaredense - 22

Na sessão solene comemorativa do 27º aniversário, foi prestada homenagem ao amador Jaime da Silva Broeiro, cujo retrato foi, então, descerrado. “Jaime Broeiro, de lágrimas nos olhos, não esconde a sua surpresa e a sua comoção”. Mais uma vez, foi o dr. Manuel Gomes Cruz quem discursou sobre este acto referindo “a consagração, o prémio ao trabalho, à devoção. Aquela homenagem tinha, além dessa significação, o exemplo às gerações vindouras, que veriam, sempre que houvesse motivo para isso, o preito do reconhecimento da colectividade”.
Nesta sessão, usou também da palavra o “inteligente académico sr. dr. Manuel Lontro Mariano.......... que se referiu, com elevação, aos largos benefícios que trazem às povoações, colectividades que se impõem pela generosidade dos seus programas e pela elevação da sua obra de beleza, em cujo número, com justiça, tem de se contar com a simpática Sociedade de Instrução Tavaredense”.
Em Setembro de 1931 faleceu o sócio número 1 da colectividade, da qual havia sido um dos fundadores, Manuel Rodrigues Tondela. Durante muitos anos, enquanto a sua saúde o permitiu, foi professor da escola nocturna. Suas filhas, foram das mais valiosas amadoras do grupo dramático.



E em Maio do mesmo ano, outra grande figura da história da colectividade faleceu, João dos Santos, proprietário da casa onde se achava instalada a sede da Sociedade que, juntamente com a quinta dos Condados e outras propriedades, herdara de João José da Costa e de sua esposa, D. Emília Duarte da Costa. “..... sendo esta colectividade um poderoso elemento de educação popular na nossa terra, é de justiça dizer que a Sociedade de Instrução teve em João dos Santos um benemérito amigo, a quem muito ficou devendo: além de outros auxílios materiais, cedeu à prestante colectividade, desde a sua fundação, a casa onde funciona, sem nunca lhe cobrar a mais insignificante renda”. Os seus herdeiros, durante cerca de uma dezena de anos, seguiram o mesmo exemplo.
Merece registo um espectáculo que, em Julho de 1931, se realizou no Casino Peninsular, em benefício do Jardim-Escola João de Deus. Representaram, uma vez mais, a fantasia “A Cigarra e a Formiga” mas, nesta récita, o grupo cénico tavaredense teve a honra da participação de uma das maiores actrizes portuguesas da época, Ilda Stichini. “Quando Ilda Stichini apareceu em cena, a assistência irrompeu numa extraordinária, prolongada e calorosa ovação, que bem lhe deve ter mostrado como é querida do público figueirense. Os versos da “Fantasia” disse-os a Artista ilustre com a vibração da sua delicada sensibilidade e a magia da sua voz. A assistência aplaudiu demoradamente, com sincero entusiasmo. Mas o número do “Riso”, que Alberto de Lacerda escreveu expressamente para Ilda Stichini, deixou verdadeiramente encantados os que a ouviram e se manifestaram com uma das mais vibrantes e expontâneas e demoradas ovações que naquele teatro se têm ouvido”.
Esta artista, em Outubro seguinte, visitou a sede da colectividade, em Tavarede, tendo sido recebida por, além de outros elementos, “todas as amadoras do grupo, que ofereceram à gloriosa actriz um ramo de flores”. Ilda Stichini, depois de visitar o teatro e a escola, ofereceu-lhe “uma fotografia sua com gentil dedicatória”.
A época teatral de 1931/1932 abriu no dia 28 de Novembro. Representou-se “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, uma adaptação do célebre romance de Júlio Dinis. Entre os intérpretes “têm papéis importantes os distintos amadores Violinda Medina e Silva e Manuel Nogueira, que eram dos melhores valores do Grupo Musical Tavaredense”.


Sobre esta estreia, escreveu-se no relatório daquele ano: “É de notar que “Os Fidalgos da Casa Mourisca” apenas foram à cena quatro vezes e que somente na primeira representação as famílias dos sócios não tiveram 60% de desconto nas suas entradas. Contava a Direcção que a peça se representasse mais vezes, razão que a levou a diminuir bastante o preço dos bilhetes das famílias dos sócios, medida que lhes pareceu seria recompensada por um maior número de representações. Infelizmente factores diversos, contrários e imperiosos à sua vontade, e também à do ilustre director da secção dramática, obstaram a que a peça continuasse em cena por mais tempo. Dizendo que a peça agradou é pura verdade. Que os amadores são óptimos, ninguém o poderá negar. Que a Direcção os admira, todos o sabem e até eles próprios, visto que nas quatro representações efectuadas, lhes deveria ter vibrado bem a sua alma de tavaredenses, com as aclamações frenéticas recebidas, até de ilustres figueirenses”.
Fotos: 1 - João dos Santos; 2 - 'Os Fidalgos da Casa Mourisca' (Violinda Medina e Manuel Nogueira, contracenando com António Graça, ao centro)