quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma história macabra...

Num periódico figueirense, em Julho de 1903, deparo com uma notícia assaz curiosa, como podem observar:
Disse há dias que o serviço de limpeza do cemiterio parochial, se fazia com morosidade. Agora, bem informado, soube que o andamento do serviço depende do burro do coveiro. Para não haver confusões, explico:
O coveiro tem um jumento que se sustenta da erva cortada no cemiterio. O animal, como é de pequenas proporções, com pouco se alimenta, e como o homem-coveiro só corta o que carece, esperaremos que o jerico devore a erva por um lado até crescer pelo outro, e assim teremos sempre ali o matagal de que em tempos fallou um dos actuaes membros da junta da parochia.
Este coveiro deshumano, que se confessa todos os annos na epocha quaresmal, e que não sepulta cadaveres senão por dinheiro, até mesmo os pobresinhos, devia ser mais zeloso e menos interesseiro.
Como, na nossa terra, era costume antigo fazerem-se corridas de burros (rosquilhadas), logo surgiu uma sugestão:
Todos os annos, n’esta epocha costuma realizar-se aqui uma apparatosa corrida de burros. Diz-se que será muito breve.
Lembro à commissão promotora que não deixe d’inscrever, para tomar parte no torneio, o burro do coveiro, o tal que vive à mercê da erva que vegeta no cemiterio.
É claro que pessoas diversas não acharam nenhuma graça:
O cemiterio d’esta freguezia está cheio de herva e por isso ser talvez occasião de melhorar as refeições do burro do coveiro...
Aquillo assim não está bem. É vergonhoso e demonstra que os membros da junta se interessam pouco pelo aceio d’aquelle recinto, que todos deviam fazer por que se conservasse em estado de se ir lá sem que ninguem podesse levantar qualquer censura.
Vá, senhores da junta: vejam este nosso reparo e evitem que continuemos a falar no caso.
Em Novembro de 1904 houve eleições para a Junta da Paróquia de Tavarede:
No dia 27, o designado para eleição da Junta da Parochia, é provavel que haja por aqui vinho em abundancia, visto dizer se que a lucta será renhidissima entre regeneradores e republicanos.
Por nossa parte, o que desejamos, é que triumphe a lista regeneradora, porque os republicanos, que lá teem estado trez annos, deixam apanhar a erva do cemitério para o burro do coveiro que é amigo do real parlapatão de Quiaios, e os regeneradores são capazes de fazer tudo e mais alguma coisa.
Finalmente o caso foi resolvido. Vejamos como tudo acabou:
Pela Junta de parochia foi expulso o coveiro do cemiterio d’aqui. Deu causa à acertada resolução da junta o negar-se aquelle figurão a abrir a sepultura para o infeliz Antonio Fadigas, pelo facto da familia não ter meios para lhe pagar esse serviço. Aquelle maldito coveiro há muito que deveria ser expulso, não só pelo pessimo serviço que fazia, mas tambem por sustentar o burro e as cabras com a erva que cortava no cemiterio.
Não haja dúvidas de que, já então, as 'coisas' demoravam um pouco de tempo para se resolverem.

Padre Manuel Vicente


Paroquiou a freguesia de Tavarede desde finais de 1901 até Agosto de 1928.
Faleceu vitimado pelo acidente ocorrido no dia 12 de Agosto de 1928, em Reguengo do Fetal, com a camioneta que levava um grupo excursionista de tavaredenses e figueirenses, numa excursão, por si organizada, a Fátima.
Foi coadjutor em Quiaios. Disse a primeira missa em Tavarede, no dia de Natal de 1901. “Logo que às obrigações de pároco presida sempre a boa vontade aliada a um espírito superior ou, pelo menos, falho de instintos mesquinhos e inferiores, jamais nenhum pároco terá de queixar-se deste povo, que afinal é todo bom e respeitador das pessoas dignas e sensatas”, escreveu um correspondente local, por ocasião da sua nomeação.
E, na verdade, o padre Vicente correspondeu em absoluto ao que dele esperavam. Bondoso, afável, amigo de todos, procurou desempenhar a contento a sua missão. E, diga-se, foi num período bastante difícil, pois, politicamente, viveu a implantação da República e as difíceis relações entre Estado e a Igreja, em 1910, e o golpe de estado, em 1926, que originou a instalação do regime totalitário.
Cumpridor escrupuloso da sua missão espiritual, não abdicava de, nos tempos livres, cultivar ele próprio a sua horta. Era o seu passatempo favorito, como se vê por este pequeno recorte. “… A notícia da sua morte, embora esperada, consternou as pessoas que o conheciam e com ele conviviam. Era um homem que na sua freguesia dava o exemplo do trabalho. Passava na igreja apenas o tempo indispensável à prática dos seus deveres religiosos, os quais cumpria sem provocar conflitos e sem os exageros perigosos, que vão até à provocação do desassossego e da quebra de harmonia no lar, hoje frequentíssimos na consequência da acção que alguns padres novos vão desenvolvendo. As horas que lhe ficavam livres, ocupava-as no amanho das suas terras, que tratava com muito cuidado”.
Era natural de Condeixa e contava 55 anos à data da sua morte.


Caderno: Tavaredenses com história

Excursão a Fátima - Desastre

Ocorrido no caminho de Fátima, deu-se no último, 12, (Agosto), por volta das 5 horas da tarde, um lamentável desastre, que poz em perigo a vida de duas pessoas, e originou a morte de uma.
Como noticiámos, com destino a Fátima partiu no último domingo, numa camionete pertencente à firma Pascoal & Cª dessa cidade, uma pequena peregrinação constituída na sua maior parte, por gente deste logar.
Presenciámos a partida! Nunca nos passou pela mente o terrível desastre que ia dar-se, visto o contentamento de que todos iam possuídos.
Como se deu o desastre - Por informações dadas por algumas das vítimas deste terrível desastre colhemos o seguinte:
- Que a pouca distancia de Fátima, quando a camionete da firma Pascoal & Cª, Lda seguia com o maior cuidado, - pois assim foram todo o caminho – uma camionete manobrada por um “chaufeur” de Alcobaça – que nem carta possuía – que precedia aquela, pediu passagem. Mas quando a camioneta desta cidade principiava a dar-lha, a outra arrancava vertiginosamente, indo de encontro às rodas de direcção da sinistrada, fazendo-a virar imediatamente para a ribanceira, voltando-se logo a seguir, e cuspindo alguns peregrinos a longa distancia, ficando outros debaixo dela.
O que depois se passou, nada podemos dizer. Só afirmamos que foi um momento cheio de dor, de aflições, um momento de alucinação!...
Quando a nossa informação chegou a este momento, em que o nosso interlocutor nos contava como viu tanta vítima, conhecemos nele qualquer coisa aflita, como para sufocar um choro!
Os feridos – Depois de transportados para Leiria, todos os feridos em automóveis, mobilizados pela policia, deram entrada no Hospital D. Manuel de Aguiar, onde lhes foi prestado pronto socorro e pensados convenientemente pelo clínico sr. dr. Serafim Lopes Pereira, coadjuvado por todo o pessoal de enfermagem, as seguintes pessoas: Revdº Pároco da nossa freguesia, sr. Manuel Vicente, que sofreu uma grande comoção cerebral, lesões internas, e escuriações pelo corpo, inspirando o seu estado bastantes cuidados; Abílio Simões Baltazar, da “Quinta do Robim” com rotura da pleura e contusões pelo corpo, originando a morte do malogrado ancião; António Morais, barbeiro nessa cidade, com grandes ferimentos na cabeça e contusões; Maria José Pedro, esposa do extincto Abílio Simões; Beatriz Pedro, filha destes; Maria Palmira Morais, filha do barbeiro acima referido; e Emília Sansôa, creada do Revdº Manuel Vicente. Todas estas victimas ficaram gravemente feridas.
Também receberam tratamento no mesmo hospital os srs. Jacinto Pedro, Joaquim Lavoura, Belarmino Pedro, Adelino José de Carvalho, de Belide, Condeixa, todos com grandes ferimentos e algumas escoriações; e João Pereira, dos Condados, com um, braço fracturado e varias lesões.
Também seguiam na camionete sinistrada, que felizmente não sofreram nada, os srs. António, Pedro Manuel Vicente, da “Quinta do Robim”, José Rodrigues, Joaquim Rodrigues e sua esposa Estrela Saraiva, Luiza Pedro e Aurora Marques.
As victimas que inspiravam menos cuidados, regressaram na segunda-feira, a suas casas, ficando internados no hospital D. Manuel de Aguiar, o Revdº Manuel Vicente, António Morais e filha. Abílio Simões e esposa, foram transportados em automóvel para sua casa, tendo chegado por volta das 2 horas da madrugada de terça feira, e falecendo horas depois o proprietário, sr. Abílio.
Dizem-nos que o “chaufeur” que deu origem ao desastre, se encontra preso no Governo Civil de Leiria, pois a ele se atribuem todas as responsabilidades do ocorrido.
Bom será que as autoridades daquela cidade façam entrar na ordem todos os condutores de automóveis e camionetas, para que desastres tão pavorosos se não tornem a repetir.
A todas as victimas desejamos o seu breve e completo restabelecimento.

O falecimento – Faleceu ontem de manhã, na “Quinta do Robim”, e da qual era um dos proprietários, o sr. Abílio Simões Baltazar, de 79 anos, esposo da srª Maria José Pesdro, e pai do nosso amigo, José Simões Baltazar, e das srªas Maria Luiza, Arminda Beatriz e Luiza Pedro.
O extinto, que sofreu dolorosamente em poucas horas, era um carácter probo, cheio de dignidade, e dotado de excelente coração, pelo que a sua morte foi pranteada por todos os seus conhecidos, - em que contava numerosos amigos.
O seu funeral, realizado ontem de tarde, foi concorridíssimo, tendo-se, além de muitas pessoas de familia e amigos do extinto, encorporado muitos sócios do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense com o seu estandarte, e realisado vários turnos durante o pequeno trajecto.
À familia enlutada, apresentamos as nossas condolências. E áquele a quem a morte foi traiçoeira, deixámos sobre o seu leito mortuário lágrimas sentidas e saudosas.
Melhoras – Vão melhorando um pouco algumas victimas desta triste noticia, estando ainda gravemente enfermos os srs. Padre Manuel Vicente, João Pereira, António Morais e a srª Maria José Pedro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 25

Nos finais de Janeiro de 1933, a amadora Violinda Medina e Silva adoeceu. Aconselhada pelo seu médico, o dr. Pinhal Palhavã, a mudar de ares, foi passar uns tempos a Celorico da Beira. Seu marido, empregado nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, conseguiu que, temporariamente, lhe dessem o lugar de chefe da estação daquela localidade.
Para ocupar as suas longas horas de solidão, solicitou, a Mestre José Ribeiro o empréstimo de algumas peças de teatro, para ler, pedindo-lhe, igualmente, o seu conselho quanto a estas leituras. Vale a pena aqui deixar parte da resposta que recebeu.
“É a “Morgadinha de Valflor”, jóia admirável do nosso teatro romântico. É possível que já tenha visto representada. Mesmo assim, fará bem lendo esse belo e intenso drama. A sua leitura dar-lhe-á uma impressão mais forte da técnica então usada. Verá na Morgadinha os extensos monólogos a que hoje, - porque o teatro se aproxima da verdade, fogem os dramaturgos, mesmo quando escrevem peças a que podemos chamar também românticas, pela psicologia das personagens e pelo assunto.
Em seguida a esta levar-lhe-ei outras peças que há-de gostar de ler porque, para quem tem espírito a quem interessa o teatro, agrada conhecer, porque são modelos de forma, de técnica, de estilo. Do teatro chamado lírico, vale a pena ler “A Madrugada”, que a Ilda (Stichini) vai representar em S. Carlos; é uma peça encantadora, em verso, de Fernando Caldeira, autor também da “Mantilha de renda” e “Sapatinho de cetim”. Como teatro em português, pelas figuras e costumes, as comédias de D. João da Câmara, como “Os Velhos”, mais algumas das obras do profundo dramaturgo Marcelino Mesquita: a tragédia esmagadora da “Dor Suprema”, o drama “Envelhecer”, a comédia “Peraltas e Sécias” – três géneros diferentes. Vai lendo isto vagarosamente, pouco a pouco, e por certo tomará gosto à leitura de obras teatrais. Depois lerá peças de autores modernos – direi melhor, de autores vivos, porque aqueles ainda não são antigos. Assim as suas faculdades críticas ir-se-ão apurando, a ponto de gostar de ler alguns autos do Gil Vicente, velhos de quinhentos anos, mas que parecem de hoje - e que aborrecem algumas pessoas de cultura que supõem desenvolvida e que são tidas como conhecedoras de teatro.
Possuo as obras que indico, e a Violinda lê-las-á quando quiser, à medida que lhe fôr possível. Certamente o que mais há-de desejar conhecer são os autores portugueses; mas, se desejar, poderá ler também alguma coisa das celebridades estrangeiras mais citadas. Isto aborreceria outra pessoa, que não a Violinda, em cujo espírito se alimenta a paixão do teatro. Por isso levo tão longe esta conversa teatreira”.
É interessantíssimo, para quem gosta de teatro, ver a sequência da leitura das peças referidas. Violinda Medina encontrara o mestre de teatro que precisava para desenvolver a sua extraordinária apetência pelo palco.
Entretanto preparava-se mais uma nova peça de teatro português, A Morgadinha dos Canaviais. “Logo que a Violinda venha, começaremos a ensaiar activamente. Parto, bem entendido, da certeza de que a Violinda virá fazer a protagonista, conforme ficou combinado. Julgo que não conseguiram alterar as suas disposições...”.
José Ribeiro escrevia isto porque tinha conhecimento de que aquela amadora havia novamente sido solicitada pelo Ginásio Figueirense. Mas ela estava decidida. Só representaria no teatro da sua terra.
“O que eu lhe desejo é que a sua estada aí tenha aproveitado à sua saúde, que está acima de tudo. Venha bem disposta, para que o teatro – quando ele é orientado com bom critério assim sucede – exerça no seu espírito, como distracção ao menos, salutar influência. Não veja apenas o interesse do ensaiador nestes votos, que partem da minha leal amizade”. Esta carta está datada de 14 de Março de 1933. Violinda Medina breve regressou à Figueira e aos ensaios e, no dia 27 de Maio, como veremos adiante, “A Morgadinha dos Canaviais” foi levada à cena no palco de Tavarede, protagonizada por ela.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 24

A carreira da peça “Os Fidalgos da Casa Mourisca” foi interrompida por doença de um dos principais intérpretes, João Cascão. E para a récita de gala do aniversário, foi organizado um espectáculo que terminou com a representação da opereta “A Herança do 103” que, curiosamente, foi desempenhada pelos mesmos amadores que a haviam interpretado no Grupo Musical: Violinda Medina e Silva, José Francisco da Silva, Manuel Nogueira e Silva e Pedro Nunes Medina.
O repertório do grupo cénico ia alargando. Os amadores aumentaram em número e em qualidade e o ensaiador, José Ribeiro, conhecedor do gosto do público, fez representar, em 9 de Abril de 1932, uma outra peça notável e de acentuado sabor popular, “As pupilas do Senhor Reitor”. “Toda a montagem representa um esforço grande, digno de nota e nada vulgar em amadores. Acrescente-se a tudo isto a bela partitura de Filipe Duarte – 23 números de música deliciosamente portuguesa, de melodia que cai agradavelmente no ouvido e de esplêndidos efeitos de orquestração”.


Digno de registo o apontamento de que “a Sociedade utiliza o seu teatro como instrumento de educação e não de lucros monetários. Atendendo a isto, o autor da peça, sr. Penha Coutinho, e a viúva do maestro Filipe Duarte, cederam a obra à SIT com dispensa absoluta de todos os direitos”. O êxito terá sido enorme, segundo a crítica encontrada.
Em fins de Maio daquele ano, acedendo às solicitações que lhe foram feitas, a amadora Violinda Medina, ainda foi colaborar com o grupo cénico do Ginásio Figueirense, na representação da peça “O Rei da Lã”, a que se referiu um crítico escrevendo “..... o desempenho foi entregue a um grupo de bons amadores, entre eles alguns, sem favor, dos melhores que conhecemos na Figueira. Violinda Medina e Silva, amadora distinta, que tem na partitura a parte principal, de grande responsabilidade, brilhou e venceu”. Terá sido, nesta peça, a última vez que Violinda Medina colaborou no grupo cénico do Ginásio. Embora mais vezes solicitada, inclusivamente por seu marido, que também foi um devotado amador do Ginásio, nunca mais representou noutro grupo que não o de Tavarede, sua terra natal.
“As pupilas do Senhor Reitor” e “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, que entretanto reiniciou a sua carreira, foram apresentadas em Tomar, Figueira e Buarcos. A propósito da representação da segunda daqueles peças em Buarcos, o jornal “Gazeta de Coimbra” publica a seguinte apreciação do antigo amador conimbricense e autor de várias peças teatrais, Carlos de Almeida. “ ... a récita no teatro de Buarcos pelo excelente grupo cénico de Tavarede, que representou o drama “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, uma das mais bonitas peças extraídas da obra de Júlio Dinis. Mais uma vez fiquei assombrado com o desempenho dado a uma peça cheia de dificuldades por gente modesta, sem cultura dramática. Por vezes me esqueci e julguei estar vendo representar autênticos profissionais e não gente duma simpática aldeia, em geral operários. O grupo de mulheres possui competências que não se discutem”.

Em Outubro desse ano, novo êxito começou a ser ensaiado em Tavarede, “Canção do Berço”, numa tradução e adaptação do espanhol pelo distinto poeta dr. Carlos Amaro, que gentilmente a ofereceu à SIT. “ Canção do Berço ” é um mimo literário, uma verdadeira obra de arte, cuja acção decorre num convento de freiras dominicanas”. Mais para a frente recordaremos um caso interessante ocorrido com esta peça, numa récita dada na Figueira, em benefício da Misericórdia.

A propósito destas últimas peças, a Direcção escreveu no seu relatório a seguinte nota: “..... foram bastante animadores os resultados obtidos pela secção dramática, por isso que, apesar da avultada verba dispendida com os cenários e guarda-roupa das peças “As pupilas do Senhor Reitor” e “Canção do Berço”, deu ainda a secção um saldo bastante apreciável. Muito maior teria sido esse saldo se muitos dos nossos consócios tivessem assistido aos espectáculos que na sede se efectuaram. É de todos sabido o enorme sacrifício feito pela secção dramática em apresentar ao público peças de alto valor artístico. Compete-nos, pois, a nós, corresponder de algum modo, ao esforço feito pelos nossos admiráveis amadores, frequentando os espectáculos, pois só assim lhes poderemos manifestar a nossa admiração e simpatia. Alguns sócios haverá que, conquanto tenham tido bastante vontade de comparecer ao teatro, o não tenham feito por falta de recursos, mas muitos haverá que certamente as causas serão apenas de comodidade. De resto, a Direcção tem atendido à crise que se atravessa, reduzindo 60% o preço dos bilhetes para sócios e famílias”.
Fotografias: 1 - Partitura de 'As pupilas do senhor Reitor'; 2 - 'Canção do Berço'.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Urnanização Vale do Sampaio

Dirijo-me pessoalmente à minha conterrânea D. Preciosa Fileno Mota, emigrada no Brasil, que me questionou sobre o nome dado à Urbanização Vale do Sampaio ao bairro construido na antiga Quinta do senhor José Duarte, o que bastante estranhou, visto o Vale do Sampaio ser situado bastante longe deste local.
Procurei responder para o email 'preciosa.fileno@yahoo.com.br' , tendo sido agora informado que não havia sido entregue.
Peço, portanto, o favor de me enviar o endereço para o qual devo remeter o email em questão.

Vitor Medina

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um aniversário da Escola Noturna do Terreiro

Ao continuar as minhas buscas nos meus apontamentos, encontrei a notícia do terceiro aniversário da escola noturna do Terreiro (posteriormente da Sociedade de Instrução Tavaredense), que teve lugar no dia 23 de Fevereiro de 1902, na sala do Grupo de Instrução Tavaredense. Julgo interessante a notícia, muito curioso o programa e, como se trata de um assunto escolar, apresento no final da reportagem, uma foto, não de Tavarede, mas sim da Escola Primária Conde de Ferreira, da Figueira. Toda aquela 'rapaziada' era aluno do professor Rui Fernandes Martins, que anteriormente tinha sido professor em Tavarede durante vários anos, e anteriormente, em Brenha. A fotografia tem a data de 1938. É uma curiosidade, nada mais.

"Para mim, assim como para quantos amam a instrucção e se entregam desinteressadamente ao honroso mister de a diffundir pelos espiritos incultos, representou a festa de domingo passado um acontecimento de significativo valor, porque se commemorava o anniversario d’uma ESCOLA. Basta esta palavra, que por si só symbolisa uma das coisas que eu mais amo e mais attrahe as minhas sympathias, para que eu, como filho de Tavarede, obedecendo aos impulsos d’um coração agradecido, venha saudar d’aqui todos os cavalheiros que teem contribuido para o progressivo e ininterrupto caminhar d’aquelle estabelecimento. Faço-o como tavaredense, porque a minha consciência isso me impõe, porque é só aos meus patrícios que a Escola Nocturna está beneficiando, porque só elles podem d’ella auferir os benéficos influxos do brilhante pharol que lhes está illuminando o caminho que os conduz á civilisação.
É-me grato, pois, gravar aqui meia dúzia de palavras que traduzam a verdadeira expressão do meu sentir, que testemunhem emfim o meu mais sincero agradecimento aos auxiliadores da prestimosa obra que há três annos se vem edificando.
E a festa de domingo não foi motivo de jubilo só para mim. Foi-o para todos que se interessam pelo desenvolvimento intellectual do povo; foi-o para os que só vêem na instrucção a poderosa alavanca que há de levantar milhares de homens do rebaixamento em que vão arrastando o seu triste viver: foi-o emfim para os que vêem no analphabetismo a gigantesca barreira que se impõe altiva e conquista de tantas aspirações e á solução de tantos ideaes!
É da instrucção que dimana a luz do espirito, é este que nos guia nos actos da nossa vida, e é da sua educação que nascem quasi sempre os bons sentimentos. É portanto necessário que se eduque o homem, para que a sociedade lhe abra seus braços amigos e para que elle possa então representar dignamente o seu papel de ente civilisado.
Escrevo para os meus patrícios: sois pobres; bem sei que as circumstancias de muitos não permitem que dêem aos filhos uma regular educação. Não é, porém, nos tempos d’hoje que por falta de meios se deixa de aprender a lêr e a escrever. Temos as escolas regias, temos outras particulares gratuitas, que vão prestando generosamente os seus serviços em prol dos que d’elles necessitam, e n’estes casos se encontra a Escola Nocturna, que no domingo festejou o 3o anno de existência. Três annos de vida em que se desbravaram dezenas de espíritos cerrados ao conhecimento das lettras, e os que tão louvável e desinteressadamente se teem entregado áquelle árduo trabalho, devem decerto folgar por verem que não teem sido improfícuos os seus esforços, porque d’entre os alumnos por si leccionados há alguns que muito os honram pelo seu estado de adeantamento.
Não posso no emtanto deixar de lamentar a indifferença com que certos paes olham a educação dos filhos, apesar de com ella serem pouco sobrecarregados; isto, porque a frequência de vários alumnos tem sido irregular, sem isso preocupar aquelles que moralmente deviam obstar a tão condemnavel procedimento, e também porque conhecemos por aqui alguns indivíduos que não tratam de mandar os filhos para a escola.
É triste para mim o ter de revelar estes factos, mas o desgosto que elles me incutem são motivo demasiado para que eu os não possa occultar e não deixe de os censurar amargamente.
É preciso que todos os meus conterrâneos comprehendam o fim para que esta escola foi creada
Não devem todos os paes eximir-se ao dever de para ali enviar as creanças que careçam do ensino das primeiras lettras, pois que as portas estão abertas de par em par para os receber, e, para os que dentro d'ella se propozeram a ensinal-as, será muito satisfatório o ir riscando do numero dos analphabetos esses pobres seres que hoje são uns ignorantes, uns irresponsáveis, mas que amanhã, quando homens, terão direito a accusar os auctores dos seus dias, se estes não lhes mandarem dar a educação necessária para elles poderem viver na sociedade.
Fique isto bem gravado no espirito dos tavaredenses que me lerem, e só lhes peço que secundem sempre os esforços dos que trabalham para o engrandecimento moral e intellectual da terra que nos viu nascer, a qual, em instrucção, já hoje pode caminhar na vanguarda d’algumas outras localidades mais importantes.
Mas, comtudo, não vos esqueçaes nunca dos deveres de gratidão a cumprir.
O jantar servido aos alumnos da escola foi abundante, e durante a refeição via-se em todos os seus rostos uma alegria immensa que communicava com intensidade ao coração dos que presenciavam aquelle acto.
Á noite, o espectáculo em que se executou o programma já conhecido dos leitores da Gazeta, teve uma concorrência extraordinária, não havendo disponível um único canto do theatro.
É suspeita a minha apreciação sobre o desempenho das duas partes do reportorio: dramática e musical. Mas tenho a fazer-lhes justiça e a falarem por mim as calorosas e enthusiasticas ovações feitas aos pequenos debutantes da arte de Talma, e as salvas de palmas que coroavam o final de qualquer das peças musicaes tocadas por um escolhido grupo de rapazes também de Tavarede.
Por aqui se vê o agrado da recita, e o que eu posso asseverar é que nunca n'esta localidade houve festa theatral que mais sensação causasse, pela novidade dos actores e pela maneira correcta como se houveram.
As salas, tanto a dos espectáculos como a da escola, estavam ornamentadas com festões de verdura, palmas, bandeiras, livros, escriptas, etc. Na aula liam-se alguns trechos dos Lusíadas, copiados pelos alumnos mais adeantados, e
viam-se também distribuídos pelas paredes os nomes de vários cavalheiros que generosamente teem contribuido com donativos para aquella casa de instrucção.
De tarde, uma commissão de alumnos da Escola Popular Bernardino Machado de Buarcos, acompanhada do respectivo professor sr. Emygdio Serrão, veio entregar uma mensagem de felicitação aos seus collegas de Tavarede, documento que trazia 56 assignaturas, e ao qual vão responder os alumnos da Escola Nocturna d'aqui agradecendo tão significativa prova de consideração que lhes foi tributada.
E basta de massada por hoje, pois que esta minha epistola excedeu já os limites da ordem. Decerto que as columnas da Gazeta não se destinam simplesmente a assumptos tavaredenses, não é assim?


PROGRAMA

Como tem noticiado o nosso correspondente d’aquella localidade, realisa-se effectivamente amanhã o sarau comemorativo do 3o anniversario da Escola Nocturna d’ali, e cujo programma constará do seguinte: Hymno da Escola Nocturna - composição de G. Ribeiro; Republica das Lettras, comedia em 1 acto, de F. Palha; Surpreza, valsa característica de Simões Barbas;
O casamento do Alto Vareta, comedia de costumes em 1 acto, de P. d’Alcântara Chaves;
Tavarede, mazurka de G. Ribeiro; Ça mord, intervallo para duas creancas;
Uma gavotte;
Bohemios, passo ordinário, de F. Lopes de Macedo;
Luctas Civis, comedia em 1 acto, de Cezar de Sá;
Hymno da Escola Nocturna.
O desempenho da parte dramática será exhibido pelos alumnos da escola referida, e a parte musical executada por um grupo de rapazes também de Tavarede,
De tarde servir-se-á um jantar a todos os alumnos d’aquella aula, para o qual teem sido generosamente offerecidos donativos por vários cavalheiros.


E agora a fotografia: