segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ranchos do S. João

Encontramos muitas notas sobre a exibição dos ranchos que se organizavam em Tavarede por ocasião das festas ao São João, e não só. Algumas dessas notícias são bastante curiosas. Normalmente, e nos principios do século vinte, havia dois pavilhões: um no largo do Paço e outro no largo do Forno. Também muitas vezes tinham lugar no Terreiro e no largo da Igreja e a rivalidade não tinha limites. Desta vez vamos até ao ano de 1906, há, precisamente, cento e quatro anos.
Eis a primeira nota:
Lavra grande discordia entre as raparigas que fizeram parte dos dois ranchos que se exibiram na noite de S. João. Todas querem a primazia, e d’ahi lançam mão de certos meios que não depõem nada a favor d’umas e outras. Os epítetos grosseiros e obscenos de que se servem, são improprios de raparigas honestas e sobretudo das que possuam uns rudimentos de boa educação.
Lamentamos estes factos e para eles chamamos a atenção dos chefes de familia afim de evitarem que suas filhas, sem o minimo vislumbre de pudor, usem publicamente d’uma linguagem só adequada a colarejas.
Todas dançaram muito bem, e se tivessem cantado, melhor seria, porque lhes faltava agora a corda e falariam menos.
Na segunda feira realisou-se a costumada corrida de burros. Com grande animação, a rapaziada divertiu-se muito bem, havendo peripecias que despertaram a gargalhada. E assim fecharam as festas de S. João, por este ano.

Mas a má língua continuava...

Continuam as dessidencias entre as dançarinas dos ranchos de S. João. D’uma sabemos nós que foi consultar a Santinha, do Saltadouro e parece que esta afamada feiticeira lhe aconselhou um passeio no dia 25, à Ferreira, e depois de dar ali tres voltas no exterior da egreja com um pé no ar e uma agulha de fazer meia atravessada na lingua, à laia d’arganel, pôr o barrete de S. Tomé na cabeça e à saida do templo lavar a bôca na pia d’agua benta. Deve levar na algibeira um chifre de carneiro de quatro annos d’edade.
Deus permita que a receita dê bom resultado para descanço de tão laxativas pessoas.
O caso, porém, agravou-se...
Prosseguiu hontém a luta entre os dois ranchos dançarinos da localidade. À meia noite começou a campanha e ao raiar a manhã ainda os pares se seracoteavam com toda a galhardia ao som dos trombones, que, sem cessar, nos aturdiam os ouvidos.
Vencido era o primeiro rancho que suspendesse a dança, mas às nove horas da manhã nem um nem outro davam signal de baquear, embora interviessem por vezes algumas potencias estranhas, aconselhando o armistício.
-”É tempo de usar dos direitos que me são concedidos pela lei fundamental da nação portugueza e códigos apensos”, exclamou o nosso conspícuo regedor, que é homem a bulhas contrário, como dizia Tolentino. Dirigindo-se com toda a diplomacia aos chefes das duas facções, com eles parlamentou largamente, e às dez horas, no relógio do António Mota, o mesmo sr. regedor lançava aos ares um foguete, os trombones roncaram o hino da carta adorada, terminando assim a memorável batalha d’hontem.
Vencedores - os donos dos estabelecimentos locaes.
Vencidos - os chefes de família e a ala de tuberculosas d’amanhã.
O pavilhão da vitória deve ser arvorado no alto de S. Martinho e o registo de recompensas faz-se no livro negro dos taberneiros.
Dizem-nos que os ranchos se denominam: um - das solteiras, outro - das casadas. Vae crear-se outro - de viúvas... bem conservadas.
Tem sido muito censurado o procedimento do sr. regedor, dizendo algumas pessoas que ele devia ser enforcado ou metido perpetuamente na penitenciaria. Veremos se o não matam este anno.
Em breve tudo estaria em paz e, no ano seguinte, novamente os ranchos teriam semelhantes notícias.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 20

Na verdade, para se tomar a drástica medida da retirada imediata do retrato, além da suspensão de sócio, impele-me a pensar que, com toda a certeza, muito de grave teriam tido os tais desabafos. Não esqueçamos que, anos antes, haviam eleito aquele sócio como benemérito e protector do Grupo Musical. E sem dúvida que o foi, temos que ser justos. É preciso ser muito amigo de uma colectividade para a ajudar como ele a ajudou. E desinteressadamente, diga-se. Mas, claro, tudo tem limites e aqui, volto a referir que, em minha opinião, houve influências políticas de terceiros.

Em Agosto de 1928, havia falecido o pároco de Tavarede, Manuel Vicente, vítima de um acidente a caminho de Fátima. Sucedeu-lhe, na paróquia, um sacerdote ainda novo, José Martins da Cruz Dinis, recém formado e que chegou a Tavarede cheio de vontade de recolocar a Igreja na posição de que havia sido destituída pela lei da separação surgida com a implantação da República. Mas, isso, são outros contos. Aqui, só muito levemente abordo este caso que, espero, ainda desenvolverei num outro caderno de “Recordando”, pois é uma história digna de ser recordada, pois que não deixou de ter capital importância na vida social e colectiva da freguesia.

Em Janeiro de 1929 havia sido contratado para regente da tuna o maestro Herculano Rocha. E tinham decidido “dar um espectáculo com a opereta em 3 actos, Entre duas Avé-Marias, na nossa sede, o qual, conquanto não nos traga uma receita apreciável, serve de preparação para outros espectáculos a realizar noutras localidades, pois que, como é notório, aqueles que se realizam na nossa sede, só nos teem dado uma receita diminuta ou, até, prejuizo”.

Tornou-se imperioso obter um empréstimo que permitisse a estabilização económica da colectividade. Só depois de resolvido este problema, seria possível decidir o futuro da colectividade e das suas múltiplas actividades. E mo dia 23 de Maio deste ano, uma nova proposta foi discutida e aprovada, por unanimidade, em Assembleia Geral.

“Assembleia extraordinária com a ordem de trabalhos: “Discussão de uma proposta da Direcção”.
Foram comunicadas, pelo presidente da Direcção António de Oliveira Lopes, as “demarches” realisadas com o Crédito Predial, concluindo por afirmar que, não tendo podido obter o empréstimo, tivera que se sugeitar ele e outros amigos do Grupo a tomarem á sua conta esse empréstimo, o que fazem ao juro de 15%, preço porque individualmente têm que pedir o dinheiro, ficando, bem entendido, à conta do Grupo o encargo de todas as despesas pela hipoteca do prédio para garantia desse empréstimo. Nessas condições, apresenta a seguinte proposta: “Tendo-me a Assembleia Geral extraordinária de 7 de Janeiro p.p., dado plenos poderes para contrair um empréstimo, por meio de hipoteca da sede do Grupo, afim de solver todos os seus compromissos em letras e como tenho de figurar na respectiva escritura como credor, tenho a honra de propor: que a Direcção, representada como outorgante pelo seu vice-presidente, sr. Luiz Pedsro Pinto, contraia um empréstimo de Esc. 35 800$00 com hipoteca do prédio, que é propriedade e sede do Grupo ao juro máximo de 15% ao ano, aos sócios srs. José Maria da Costa, António Medina, João de Oliveira e eu proponente António de Oliveira Lopes”. Foi aprovada por unanimidade”.

Como se verifica, devido ao volume dos custos dos juros, as dívidas iam-se avolumando. E continuam os conflitos, agora, até, ao nível daqueles que até então tanto se haviam esforçado e lutado pela causa da colectividade. Dois meses depois daquela deliberação, há necessidade da obtenção de um novo empréstimo.

“Assembleia extraordinária, com a ordem da noite: “Liquidação por meio de segundo empréstimo das restantes dívidas do Grupo”. Destinado a solver todos os compromissos do Grupo, em dívida e sem letra, especialmente o crédito do sr. João de Oliveira, cujas instâncias para o seu reembolso levou a Direcção a pedir este novo sacrifício à colectividade.Dóra á vante o Grupo fica obrigado aos sócios que tomaram o compromisso dos seus débitos e para cujo fim tem uma hipoteca da sede da Associação, pedindo, por isso, para que seja aprovada a proposta da Direcção, para um novo empréstimo de Esc. 5 000$00 ao juro igual ao anterior de 15%. Depois de lidos os nomes dos credores e as importâncias em dívida, que vão ser pagas, a proposta foi aprovada por unanimidade. (Não refere nomes nem valores)”.

Infelizmente a situação estava longe de ser controlada. E, inevitavelmente, passou a encarar-se a hipótese da venda do edifício da sede como única forma de resolver e liquidar os débitos. E, então, perante o agravamento das dificuldades, surge, na reunião da Assembleia Geral de 28 de Maio de 1930, uma proposta “para a venda de sede do Grupo, em condições vantajosas, do sócio António de Oliveira Lopes”. Porque, contudo, que “dada a importância do assunto e o facto dos avisos convocatórios não estarem de harmonia com a gravidade do assunto a resolver”, a Assembleia foi da opinião que a Direcção tratasse primeiro de concretizar alguma proposta que considerasse a melhor para a defesa dos interesses do Grupo, após o que a Assembleia se pronunciaria.

Foi assim que foi elaborado, pelo presidente da Direcção em exercício, José Francisco da Silva, um relatório bastante circunstanciado sobre a real situação da colectividade e que foi apresentado à reunião da Assembleia Geral em 11 de Junho seguinte.

“Conforme resolução tomada pela digna Assembleia Geral, que reuniu no dia 27 de Maio p. passado, foi esta adiada sine-die, por não se encontrar devidamente esclarecido e detalhadamente exposto o assunto a tratar, que é já do conhecimento de todos, e com o fim de serem colhidos os necessarios e indispensaveis elementos, para serem apresentados com toda a minuciosidade.
Já sabeis, pois, que o assunto de capital importancia a tratar nesta Assembleia Geral, é o da venda do predio da séde social.
Como informação, dir-lhes-hei que, no dia 7 do corrente, se reuniram no gabinete da Direcção os crédores do Grupo, srs. João d’Oliveira, José Maria da Costa, António Medina e António d’Oliveira Lopes, juntamente com alguns membros da Direcção para combinarem e apreciarem a situação e assentarem definitivamente no caminho a seguir, ou fosse a realisação da venda do predio.
Assim, foram unanimes em que o predio se vendesse ao nosso consocio sr. António d’Oliveira Lopes, pela importancia que se permitiu oferecer (25.000 Esc.), nas condições que já foram apresentadas e que passarei a descriminar mais uma vez.
A resolução tomada pelos citados crédores foi baseada, segundo declararam, na grande vontade de que se encontram possuidos em que continue a viver o nosso Grupo, pois que, monetariamente, ficam mais sacrificados, visto que era natural o aparecimento de outr5o pretendente ao predio, com oferta superior.
Era muito natural, de facto, que tal sucedesse, mas estou absolutamente certo de que as condições impostam seriam bem diversas das apresentadas pelo nosso consocio sr. Antonio d’Oliveira Lopes, condições que não nos conviriam, de fórma alguma, visto o nosso ardente desejo ser o de continuarmos vivendo, ocupando este predio, para nele podermos livremente desenvolver o nosso raio de acção e para podermos auferir o maximo de receita, não só para solvermos o compromisso que vamos tomar, que é a renda da casa, como tambem para indemnisarmos, o mais depressa possivel, os aludidos crédores, que agora são altamente prejudicados.
Já aqui apresentei, na Assembleia Geral do dia 27 do mez findo, que a importancia em divida aos srs. João d’Oliveira, José Maria da Costa, António Medina e Antonio d’Oliveira Lopes, atinge a importante soma de 35.800 Esc. (hipoteca e juro correspondente). Aqueles Senhores teem, além disto, a responsabilidade de mais 5.000 Esc., ou seja a quantia que em Junho do ano findo foi emprestada pelo nosso consocio sr. António Migueis Fadigas, para pagamento de dividas que existiam então, importancia aquela que vence o juro anual de 15%, ou sejam 750 Esc., que, junto ao capital, soma 5.750 Escudos.
Para elucidação e compreensão completa, vou passar a descriminar a importancia total que o nosso Grupo actualmente deve aos crédores em referencia.
Temos, pois:
Hipoteca 31.130$00
Juro 4.670$00
Contribuição de juro para o estado 467$00
“ “ “ “ a Camara 191$00
Total 36.458$00
Desde que a resolução da digna Assembleia Geral seja a de se proceder á venda do predio, os crédores citados tomarão á sua responsabilidade, e sem encargos de espécie alguma para o Grupo, a divida dos 5.750 Esc. (proprio e juro) ao sr. António Migueis Fadigas, com o fim unico de desaparecer para sempre o cancro que até hoje tem minado a nossa colectividade: - os juros.
Assim, juntando mais esta importancia ao total da hipoteca, temos:
Hip. 36.458$00
Letra 5.750$00
Total 42.208$00
Ora se a importancia oferecida pelo predio apenas atinge 25.000 Esc., e se a divida total aos crédores é de 42.208$00, regista-se a seguinte diferença para menos:
42.208$00
- 25 000$00
17.208$00
diferença esta que vai ser paga por aqueles, depois de dividida em partes eguais, o que acusa o prejuizo de 4.202$00 a cada um.
Desta importancia (17.208$00) ficará o Grupo sendo devedor aos aludidos senhores, sem vencimento de juros, ou quaisquer outros encargos, por meio de letra ou compromisso oficial, tomado pela Assembleia Geral e pelas Direcções presente e futuras, indemnisando-os á proporção das disponibilidades monetarias anuais do nosso cofre.
Como tambem já foi dito, todos os encargos, todos os compromissos que até hoje nos tem sugado todo o dinheiro que se tem conseguido arranjar, desaparecerão com a transação em vista, pois que só teremos de pagar anualmente (por mezes) a renda do prédio, que será fixada em 2.000 Esc.
Além desta condição, ou seja o pagamento de 2.000 Esc. de renda, por ano, ha que atender á principal, que é a de continuar o Grupo a ocupar o seu actual predio, por tempo indeterminado, e desde que se cumpra com que estipulará o respectivo contracto de arrendamento a elaborar.
Além da divida que venho de descriminar, ha a considerar mais as seguintes:
A António d’Oliveira Lopes 1.748$45
a Cesario Artur & Filhos 80$40
á Tipografia Peninsular 210$00
a Emilia Rodrigues Cordeiro Lopes 280$00
a Manuel Ferreira 260$00
á Tipografia Popular 200$00
aos musicos que fizeram serviço em Leiria 650$00
á Tipografia Mondego 113$50
outras dividas pequenas (aproximação) 100$00
Total 3.542$35
Esta importancia, segundo meu entender, deve ser liquidada na primeira oportunidade, para então se pensar na indemnisação a pagar aos 4 crédores do Grupo.
Tambem se deve ter em vista que existe mais um débito, na importancia de 7.150$00 Esc., correspondente a 143 acções que se encontram em poder de muitos associados, e que, com justiça, reclamam amigavelmente a sua liquidação em ocasião oportuna.
O Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Geral, melhor do que ninguem, se dignará expôr este assunto e, estou certo, conseguirá a sua solução, a contento de todos.
Nesta exposição rapida, mas conscienciosa, creio ter dado execução ao trabalho exigido para o funcionamento desta Assembleia Geral, por isso, vou terminar, apresentando-lhes, um numeros exactos, a actual divida do nossoi Grupo:
Aos Crédores - Hipoteca 31.130$00
Juro 4 670$00
Contribuição de juros 658$00 36.458$00
Letra a António M. Fadigas 5.000$00
Juro de 15% 750$00 5.750$00
A diversas casas comerciais 3.542$00
Acções em divida 7.150$00
Total geral 52.900$00

Tavarede, 10 de Junho de 1930”

Depois do relatório, transcrevo a acta da reunião que apreciou o mesmo.

“Assembleia extraordinária. Ordem de trabalhos: “Venda do prédio da sede social e outras importantes propostas da Direcção”. O presidente da Direcção lê uma boa exposição sobre o estado financeiro do Grupo e apresenta á Assembleia as duas seguintes propostas: - 1ª. “A direcção, devidamente autirizada pelo sócio sr. António de Oliveira Lopes, que está presente a esta reunião, propõe a venda do prédio-sede deste Grupo - sito na Rua Direita deste logar e freguezia de Tavarede, ao referido sócio, pela quantia de 25 000$00 com a condição do Grupo ficar habitando, como inquilino, pagando a renda mensal de 166$70.Fica mais estabelecido que, em caso de venda, esta colectividade terá o direito de opção”. 2ª. A Direcção, devidamente autorizada pelos credores, propõe que, conforme a exposição feita a esta Assembleia pelo Presidente da Direcção, sr. José Francisco da Soilva, que seja feita a venda do prédio da sede do Grupo ao credor sr. António de Oliveira Lopes, de harmonia com outra sua proposta também apresentada nesta Assembleia, obrigando-se os credores srs. João de Oliveira, José Maria da Costa, António Medina e António de Oliveira Lopes a tomar a seu cargo o pagamento da hipoteca do prédio, juro e contribuições do Estado e Câmara Municipal, no valor de Esc. 36 458$00; bem como o vcredito do sr. António Migueis Fadigas, constante de uma letra de que os mesmos credores são fiadores, no valor de Esc. 5 000$00, que, com os juros vencidos e a vencer, no valor de 750$00, perfaz um total bruto de 42 208$00, importancia esta de que materialmente o Grupo se desobriga, restando-lhe a obrigação moral do reembolso da diferença do valor entre a venda do prédio (25 000$00) e o do seu crédito bruto, Esc. 42 208$00, Esc. 17 208$00, sem juros e pagos conforme as disponibilidades do cofre da Sociedade.. Esta proposta é assinada pelo Presidente da Direcção e pelos quatro crédores interessados, ficando desde já auctorisado o Presidente da Direcção, sr. José Francisco da Silva, a outorgar perante o Notário, afim de dar cumprimento, em nome do Grupo, a esta proposta”.
Estas propostas foram aprovadas por unanimidade, ficando, assim, aprovada a venda do edifício da sede do Grupo, pelo valor de 25 000$00.
dada a palavra ao socio e credor sr. João d’ Oliveira, este passa a expôr aos dignos socios o que tem sido a vida do Grupo desde a compra da sede, a solvencia de compromissos e os sacrificios monetarios que os quatro credores citados na segunda proposta teem feito para levarem a bom termo a missão a que se propuzeram. Pede com grande interesse a todos os socios que auxiliem as Direcções, presente e futuras, a trabalharem com vontade e amôr pelo Grupo, para que possa continuar, como até aqui, a honrar a sua terra, em pról da Instrução.
Depois de várias considerações sobre a vida da colectividade, desde a compra da sede, a solvência dos compromissos e os sacrifícios monetários que os quatro crédores citados teem feoito para levarem a bom termo a missão que se propuzeram, e para minorar as dificuldades financeiras, os seguintes sócios ofereceram as acções que tinham ainda em seu poder do empréstimo inicial: António Duarte Silva, duas; António Francisco da Silva, seis; Adriano Augusto Silva, duas; Violinda Medina e Silva, duas; José Maria da Costa, dez; Manuel da Silva Jordão, vinte, João de Oliveira, quatro; António de Oliveira Lopes, duas; António Medina, dez; José Francisco da Silva, duas; António de Oliveira Cordeiro, duas; Manuel Mendes Ferreira, duas; Adriano Augusto Silva, averbadas em nome de António Migueis Fadigas, duas; Luís Pedsro Pinto, duas; Armando Amorim, três; Armando Amorim, averbadas em nome de Luciano Amaro Coelho, uma; Manuel de Oliveira, duas; Joaquim Severino dos Reis, duasd; num total de 76 acções, representando Esc. 3 800$00.
Antes de encerrar esta sessão, o presidente da Assembleia “agradece novamente, em nome do Grupo, a todos os sócios que ofereceram as suas acções e em especial ao sr. António Duarte Silva, por ter sido o incitador de todas estas dádivas, revelando o gesto de todos os ofertantes a vontade que teem de que o Grupo prossiga no caminho por que enveredou e que tem sabido trilhar, sem desdouro para o seu bom nome e para o da sua terra”.

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 19

O ano de 1927 correu normal, com os esforços da angariação de fundos. Mas as receitas continuavam a ser insuficientes. Apesar dos espectáculos terem sempre muita assistência, mesmo os realizados fora da sede, os proventos obtidos, depois de deduzidas as despesas normais, deveriam ser reduzidos. Além disso, os custos de montagem das peças, nomeadamente cenários e guarda-roupa, bem como a manutenção do instrumental da tua, do material necessário ao funcionamento da escola nocturna, onde o ensino era inteiramente gratuito, e demais despesas correntes e de conservação, absorviam, por compelto, não só estas receitas como, inclusivamente, os valores obtidos com a quotização.

Desta forma, não admira que as dívidas fossem aumentanto. Havia, portanto, que tomar novas medidas. Em Janeiro de 1928, com intuitos de reactivar e dinamizar toda a actividade, a Direcção tomou a inciativa de proceder às seguintes nomeações, posteriormente ratificadas em Assembleia Geral: Director cénico, Raúl Martins; Ponto, Joaquim de Sousa Braz; Arquivista de músicas, António de Oliveira Cordeiro; Bibliotecário, Manuel Nogueira e Silva; e Electricista, José Maria Matias. A tuna era ensaiada, no mesmo ano, por António de Oliveira Cordeiro e tinha a regência efectiva de Eduardo Pinto de Almeida.

Ainda continuava o problema das acções. E, em 22 de Janeiro de 1928, a Asembleia Geral que ratificou as nomeações acima, votou favoravelmente a seguinte proposta da Direcção.

“Relativamente aos sócios que tomaram o encargo de ficar com obrigações do Grupo, a quem a Direcção, para facilitar o pagamento, permitiu que fossem dando um tanto por semana até perfazerem o seu valor e acontecendo que alguns sócios nunca chegaram a totalizar o valor das obrigações e querem agora achar-se com direito ao reembolso do dinheiro dado por conta, como se o devedor fosse o Grupo, “tem a honra de propor para que a esses sócios sejam já entregues as obrigações com que se subscreveram e que, como caução, estavam em poder da Direcção, bem como a todos os sócios subscritores que ainda não concluiram o seu pagamento, quer tenham ou não em seu poder as respectivas obrigações, sejam considerados devedores do Grupo, sem direito algum ao dinheiro que já deram, salvo quando, por sorteio, lhes couber a amortização das mesmas””.

E para a emissão de várias propostas importantes, no mês seguinte reuniu novamente a Assembleia Geral que, por unanimidade, aprovou os seguintes documentos apresentados pela Direcção:

1ª. Proposta: “1º. - Propomos que provisoriamente seja facultada a admissão de sócios correspondentes aos individuos residentes ou não na freguesia; 2º. - que, como a situação de sócio foi criada por deliberação da A. G. de doze de Dezembro de mil novecentos e vinte e cinco, e não lhe limitou nem garantiu direitos, propomos: que os sócios correspondentes, como é uso e costume nputras associações, não tenham direito a voto, nem a serem votados para qualquer cargo dos corpos gerentes, usufruindo, de resto, todas as regalias dos sócios efectivos”.
2ª. Proposta, baseada na necessidade financeira do Grupo: “Propomos a organisação de uma garraiada no Coliseu Figueirense, no próximo mez de Maio.
3ª. Proposta: “Com o fim de esclarecer dúvidas que possam suscitar-se ácerca da acquisição do prédio onde se encontra instalada a sede do Grupo, propomos para que seja dado conhecimento do conteúdo da escritura de compra do referido edifício à Assembleia Geral, na parte que respeita ao assunto”.

É nítida a intenção da tentativa de angariar mais sócios e a realização de dinheiros para honrar os compromissos assumidos que, como se depreende da terceira proposta, já davam origem a boatos malévolos. Tanto assim que, datada de 28 de Fevereiro de 1928, e assinada pelo sócio José Maria de Carvalho, vem publicada no jornal “O Figueirense”, a seguinte carta dirigida ao seu director:

“Permita-me, Snr. Director, que eu, não abusando da sua benevolência e bom acolhimento, lhe venha roubar um bocadinho do seu mui lido e apreciado jornal, com o fim unico e exclusivo, de defender os interesses e o bom nome náo só desta colectividade, como tambem o de dois homens que estão sendo alvos da mais vil e torpe calúnia.
Ora vamos por pontos e por partes: Como é do conhecimento de todos nós, sócios da colectividade de que venho referir-me, a casa onde hoje se encontra instalada a sua séde, foi, ha uns anos, adquirida por meio de acções, ao Sr. Manuel da Silva Jordão, dos Carritos. E como fossem os Snrs. João d’Oliveira e Antonio Medina os compradores do referido prédio. tem-se pretendido, agora, fazer acreditar de que a casa estava em nome dos compradores, e não do Grupo Musical, e de que todos os sócios haviam sido vigarisados.
Não está certo. O que é certo, e é realmente verdade, é serem os Snrs. João d’Oliveira e Antonio Medina, quem compraram a casa, mas não em seu nome. Pois se a escritura reza da seguinte maneira: Vendedores, Manuel da Silva Jordão, e Esposa, e comprador Grupo Musical Tavaredense, - portanto, é a casa pertencente á mesma colectividade. Assim é que está certo.
E, para mais, os srs. João d’Oliveira e António Medina, eram pessoas incapazes de praticar um acto tão censuravel de, com o dinheiro de algumas dezenas de socios, adquirir a casa em seu nome e para si.
Bem sei, sr. Director, que são as aves nêgras, aquelas aves de pio agoirento, que querem difamar duma maneira tão baixa e nojenta, o nome duma colectividade que bastantes beneficios vem prestando ao povo tavaredense, ministrando-lhe de noite, aulas de música e instrução.
Com que direito se difama assim, não só o nome duma colectividade que tem sabido manter o nome já bastante honroso que disfruta no nosso concelho, como tambem os nomes de dois homens que estão muito acima de qualquer calunia mesquinha que lhes seja lançada?
Com que direito se quer caluniar, quem, nem sequer, importancia liga a tais mizérias?
Eu, sr. Director, não sei, qual a vantagem que tem essa difamação, sobre o nome do grupo Musical Tavaredense, que tantas vezes tem sabido colher loiros não só para si como tambem para a sua terra, que bastante beneficia.
Termino, pois, mas não sem deixar aqui bem vincada a minha maior indignação contra todos aqueles que lançam suspeitas sobre o Grupo Musical Tavaredense, e tambem sobre aqueles que se encontram á sua frente, trabalhando pelo seu progresso e desenvolvimento.
E mais uma vez digo, em abono da verdade, que os nomes dos srs. João d’Oliveira e António Medina, se encontram muito acima de qualquer calunia mesquinha e aleivosas que lhes sejam dirigidas.
Confesso-me agradecido pela publicação desta”.

Ora aqui começam a surgir, na vida da colectividade, as influências de um novo caso político nacional, entretanto ocorrido a 28 de Maio de 1926. Ainda sem os terríveis efeitos que, meses depois, tiveram de enfrentar, notavam-se, perfeitamente, que, mais dia menos dia, se ocorreria uma cisão entre os elementos principais da associação, situação a que não eram alheios os elementos ditos mais conservadores, a quem aquele movimento veio dar grande apoio.

Não admira, pois, que em Junho de 1928, a Direcção recebesse uma carta de Manuel da Silva Jordão “avisando que o seu saque, aceite do Grupo, se vence no dia 10 de Novembro e que deseja a sua liquidação”. Pois era verdade! O financiamento acordado aquando da escritura da compra do prédio, em que o vendedor se propuzera financiar, ele próprio, metade do valor, para pagamento num prazo razoável, parece que nunca sofrera qualquer amortização por conta. E, note-se, a outra letra, aceite pelos quatro sócios referidos lá atrás, havia sido regularizada mas com recurso a outros financiamentos, nomeadamente do Banco de Portugal.

A Direcção, entretanto, deliberou “não se responder sem primeiro se averiguar se se consegue hipotecar o prédio a outro pela dívida principal do Grupo”.

A 7 de Janeiro de 1929, nova Assembleia Geral para tratar da “Autorização para contrair um empréstimo por meio de hipoteca do prédio da nossa sede, que se destina a liquidar todos os debitos actuais”.
Por informação do presidente da Direcção o débito orçava por 33 contos, aproximadamente, solicitando a colaboração dos sócios, prontificando-se ele a emprestar 5 contos. O sócio sr. João de Oliveira “acha pouco prática, na actual emergência, o empréstimo interno, pelo que é de opinião que se deve autorisar a Direcção a contrair o empréstimo com a garantia hipotecária da sede”.
Depois de discutida foi aprovada a seguinte proposta: “A Assembleia Geral reunida extraordinariamente, a pedida da Direcção para tratar do contraimento dum empréstimo único, cujo fim é destinado a solver todos os outros débitos, resolve dar plenos poderes á Direcção, na pessoa do seu Presidente, sr. António d’Oliveira Lopes, para obter nas melhores condições para este Grupo, um empréstimo de 30 contos, sôbre hipoteca do prédio que é propriedade e sede do Grupo, juntando-se a essa garantia, caso seja necessária, a responsabilidade dos nossos dedicados consócios srs. José Maria Costa, João de Oliveira, António Medina e António de Oliveira Lopes”.

Entretanto não tinham conseguido solver o débito vencido em Novembro do ano anterior. E, igualmente, não tinham tido sucesso as tentativas de obter o empréstimo, pelo que tiveram os directores de resolver a situação, como se constata destes retalhos da reuniões da Direcção, primeiro de 13 de Março, “Nesta sessão, o presidente da Direcção, António de Oliveira Lopes, deu conhecimento que já havia liquidado contas com o credor do Grupo, sr. Manuel da Silva Jordão, propondo que o mesmo sr. fosse suspenso de sócio até à realização da primeira Assebleia Geral, pela qual deverá ser demitido, para o que se tem em vista o que se encontra estatuído, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da sua Direcção e ainda que, em atenção à incorrecção manifestada, ou por outra, posta em prática pelo mesmo sr. Jordão, propoz também que fosse retirado imediatamente, da nossa sala de espectáculos, a sua fotografia, que ali se achava exposta, o que poude ser feito acto contínuo, visto que nada existe escrito e, portanto, com caracter oficial, que obrigasse a sua estada naquele local, até resolução superior, não deixando, no entanto, de ser levado este gesto ao conhecimentoda digna Assembleia Geral, na primeira oportunidade. Estas propostas foram aprovadas por unanimidade” e na semana seguinte, “Pelo presidente foi dado conhecimento de que tinha conseguido do director do Banco Nacional Ultramarino, sr. Fernando Mendes, um empréstimo da importância necessária para a liquidação de contas com o sr. Manuel da Silva Jordão, por desconto de uma letra de 12 000$00, aceite por ele, presidente, e tendo por sacador o sr. António Medina, com garantia dos srs. João de Oliveira e José Maria da Costa. Esta letra será liquidada logo que se consiga o empréstimo de 30 000$00 do Crédito Predial, que se encontra negociado. A importância paga ao sr. Manuel da Silva Jordão, foi de 11 319$30.

Não se sabe o que terá ocorrido para levar à tomada da posição referida na acta de 13 de Março. O credor, Manuel da Silva Jordão, certamente magoado com a falta de resposta à sua carta e com o não cumprimento do combinado quanto ao pagamento da dívida, terá tido algum, ou alguns desabafos, talvez mais inconvenientes e que melindraram os directores do Grupo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Uma história macabra...

Num periódico figueirense, em Julho de 1903, deparo com uma notícia assaz curiosa, como podem observar:
Disse há dias que o serviço de limpeza do cemiterio parochial, se fazia com morosidade. Agora, bem informado, soube que o andamento do serviço depende do burro do coveiro. Para não haver confusões, explico:
O coveiro tem um jumento que se sustenta da erva cortada no cemiterio. O animal, como é de pequenas proporções, com pouco se alimenta, e como o homem-coveiro só corta o que carece, esperaremos que o jerico devore a erva por um lado até crescer pelo outro, e assim teremos sempre ali o matagal de que em tempos fallou um dos actuaes membros da junta da parochia.
Este coveiro deshumano, que se confessa todos os annos na epocha quaresmal, e que não sepulta cadaveres senão por dinheiro, até mesmo os pobresinhos, devia ser mais zeloso e menos interesseiro.
Como, na nossa terra, era costume antigo fazerem-se corridas de burros (rosquilhadas), logo surgiu uma sugestão:
Todos os annos, n’esta epocha costuma realizar-se aqui uma apparatosa corrida de burros. Diz-se que será muito breve.
Lembro à commissão promotora que não deixe d’inscrever, para tomar parte no torneio, o burro do coveiro, o tal que vive à mercê da erva que vegeta no cemiterio.
É claro que pessoas diversas não acharam nenhuma graça:
O cemiterio d’esta freguezia está cheio de herva e por isso ser talvez occasião de melhorar as refeições do burro do coveiro...
Aquillo assim não está bem. É vergonhoso e demonstra que os membros da junta se interessam pouco pelo aceio d’aquelle recinto, que todos deviam fazer por que se conservasse em estado de se ir lá sem que ninguem podesse levantar qualquer censura.
Vá, senhores da junta: vejam este nosso reparo e evitem que continuemos a falar no caso.
Em Novembro de 1904 houve eleições para a Junta da Paróquia de Tavarede:
No dia 27, o designado para eleição da Junta da Parochia, é provavel que haja por aqui vinho em abundancia, visto dizer se que a lucta será renhidissima entre regeneradores e republicanos.
Por nossa parte, o que desejamos, é que triumphe a lista regeneradora, porque os republicanos, que lá teem estado trez annos, deixam apanhar a erva do cemitério para o burro do coveiro que é amigo do real parlapatão de Quiaios, e os regeneradores são capazes de fazer tudo e mais alguma coisa.
Finalmente o caso foi resolvido. Vejamos como tudo acabou:
Pela Junta de parochia foi expulso o coveiro do cemiterio d’aqui. Deu causa à acertada resolução da junta o negar-se aquelle figurão a abrir a sepultura para o infeliz Antonio Fadigas, pelo facto da familia não ter meios para lhe pagar esse serviço. Aquelle maldito coveiro há muito que deveria ser expulso, não só pelo pessimo serviço que fazia, mas tambem por sustentar o burro e as cabras com a erva que cortava no cemiterio.
Não haja dúvidas de que, já então, as 'coisas' demoravam um pouco de tempo para se resolverem.

Padre Manuel Vicente


Paroquiou a freguesia de Tavarede desde finais de 1901 até Agosto de 1928.
Faleceu vitimado pelo acidente ocorrido no dia 12 de Agosto de 1928, em Reguengo do Fetal, com a camioneta que levava um grupo excursionista de tavaredenses e figueirenses, numa excursão, por si organizada, a Fátima.
Foi coadjutor em Quiaios. Disse a primeira missa em Tavarede, no dia de Natal de 1901. “Logo que às obrigações de pároco presida sempre a boa vontade aliada a um espírito superior ou, pelo menos, falho de instintos mesquinhos e inferiores, jamais nenhum pároco terá de queixar-se deste povo, que afinal é todo bom e respeitador das pessoas dignas e sensatas”, escreveu um correspondente local, por ocasião da sua nomeação.
E, na verdade, o padre Vicente correspondeu em absoluto ao que dele esperavam. Bondoso, afável, amigo de todos, procurou desempenhar a contento a sua missão. E, diga-se, foi num período bastante difícil, pois, politicamente, viveu a implantação da República e as difíceis relações entre Estado e a Igreja, em 1910, e o golpe de estado, em 1926, que originou a instalação do regime totalitário.
Cumpridor escrupuloso da sua missão espiritual, não abdicava de, nos tempos livres, cultivar ele próprio a sua horta. Era o seu passatempo favorito, como se vê por este pequeno recorte. “… A notícia da sua morte, embora esperada, consternou as pessoas que o conheciam e com ele conviviam. Era um homem que na sua freguesia dava o exemplo do trabalho. Passava na igreja apenas o tempo indispensável à prática dos seus deveres religiosos, os quais cumpria sem provocar conflitos e sem os exageros perigosos, que vão até à provocação do desassossego e da quebra de harmonia no lar, hoje frequentíssimos na consequência da acção que alguns padres novos vão desenvolvendo. As horas que lhe ficavam livres, ocupava-as no amanho das suas terras, que tratava com muito cuidado”.
Era natural de Condeixa e contava 55 anos à data da sua morte.


Caderno: Tavaredenses com história

Excursão a Fátima - Desastre

Ocorrido no caminho de Fátima, deu-se no último, 12, (Agosto), por volta das 5 horas da tarde, um lamentável desastre, que poz em perigo a vida de duas pessoas, e originou a morte de uma.
Como noticiámos, com destino a Fátima partiu no último domingo, numa camionete pertencente à firma Pascoal & Cª dessa cidade, uma pequena peregrinação constituída na sua maior parte, por gente deste logar.
Presenciámos a partida! Nunca nos passou pela mente o terrível desastre que ia dar-se, visto o contentamento de que todos iam possuídos.
Como se deu o desastre - Por informações dadas por algumas das vítimas deste terrível desastre colhemos o seguinte:
- Que a pouca distancia de Fátima, quando a camionete da firma Pascoal & Cª, Lda seguia com o maior cuidado, - pois assim foram todo o caminho – uma camionete manobrada por um “chaufeur” de Alcobaça – que nem carta possuía – que precedia aquela, pediu passagem. Mas quando a camioneta desta cidade principiava a dar-lha, a outra arrancava vertiginosamente, indo de encontro às rodas de direcção da sinistrada, fazendo-a virar imediatamente para a ribanceira, voltando-se logo a seguir, e cuspindo alguns peregrinos a longa distancia, ficando outros debaixo dela.
O que depois se passou, nada podemos dizer. Só afirmamos que foi um momento cheio de dor, de aflições, um momento de alucinação!...
Quando a nossa informação chegou a este momento, em que o nosso interlocutor nos contava como viu tanta vítima, conhecemos nele qualquer coisa aflita, como para sufocar um choro!
Os feridos – Depois de transportados para Leiria, todos os feridos em automóveis, mobilizados pela policia, deram entrada no Hospital D. Manuel de Aguiar, onde lhes foi prestado pronto socorro e pensados convenientemente pelo clínico sr. dr. Serafim Lopes Pereira, coadjuvado por todo o pessoal de enfermagem, as seguintes pessoas: Revdº Pároco da nossa freguesia, sr. Manuel Vicente, que sofreu uma grande comoção cerebral, lesões internas, e escuriações pelo corpo, inspirando o seu estado bastantes cuidados; Abílio Simões Baltazar, da “Quinta do Robim” com rotura da pleura e contusões pelo corpo, originando a morte do malogrado ancião; António Morais, barbeiro nessa cidade, com grandes ferimentos na cabeça e contusões; Maria José Pedro, esposa do extincto Abílio Simões; Beatriz Pedro, filha destes; Maria Palmira Morais, filha do barbeiro acima referido; e Emília Sansôa, creada do Revdº Manuel Vicente. Todas estas victimas ficaram gravemente feridas.
Também receberam tratamento no mesmo hospital os srs. Jacinto Pedro, Joaquim Lavoura, Belarmino Pedro, Adelino José de Carvalho, de Belide, Condeixa, todos com grandes ferimentos e algumas escoriações; e João Pereira, dos Condados, com um, braço fracturado e varias lesões.
Também seguiam na camionete sinistrada, que felizmente não sofreram nada, os srs. António, Pedro Manuel Vicente, da “Quinta do Robim”, José Rodrigues, Joaquim Rodrigues e sua esposa Estrela Saraiva, Luiza Pedro e Aurora Marques.
As victimas que inspiravam menos cuidados, regressaram na segunda-feira, a suas casas, ficando internados no hospital D. Manuel de Aguiar, o Revdº Manuel Vicente, António Morais e filha. Abílio Simões e esposa, foram transportados em automóvel para sua casa, tendo chegado por volta das 2 horas da madrugada de terça feira, e falecendo horas depois o proprietário, sr. Abílio.
Dizem-nos que o “chaufeur” que deu origem ao desastre, se encontra preso no Governo Civil de Leiria, pois a ele se atribuem todas as responsabilidades do ocorrido.
Bom será que as autoridades daquela cidade façam entrar na ordem todos os condutores de automóveis e camionetas, para que desastres tão pavorosos se não tornem a repetir.
A todas as victimas desejamos o seu breve e completo restabelecimento.

O falecimento – Faleceu ontem de manhã, na “Quinta do Robim”, e da qual era um dos proprietários, o sr. Abílio Simões Baltazar, de 79 anos, esposo da srª Maria José Pesdro, e pai do nosso amigo, José Simões Baltazar, e das srªas Maria Luiza, Arminda Beatriz e Luiza Pedro.
O extinto, que sofreu dolorosamente em poucas horas, era um carácter probo, cheio de dignidade, e dotado de excelente coração, pelo que a sua morte foi pranteada por todos os seus conhecidos, - em que contava numerosos amigos.
O seu funeral, realizado ontem de tarde, foi concorridíssimo, tendo-se, além de muitas pessoas de familia e amigos do extinto, encorporado muitos sócios do Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense com o seu estandarte, e realisado vários turnos durante o pequeno trajecto.
À familia enlutada, apresentamos as nossas condolências. E áquele a quem a morte foi traiçoeira, deixámos sobre o seu leito mortuário lágrimas sentidas e saudosas.
Melhoras – Vão melhorando um pouco algumas victimas desta triste noticia, estando ainda gravemente enfermos os srs. Padre Manuel Vicente, João Pereira, António Morais e a srª Maria José Pedro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 25

Nos finais de Janeiro de 1933, a amadora Violinda Medina e Silva adoeceu. Aconselhada pelo seu médico, o dr. Pinhal Palhavã, a mudar de ares, foi passar uns tempos a Celorico da Beira. Seu marido, empregado nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, conseguiu que, temporariamente, lhe dessem o lugar de chefe da estação daquela localidade.
Para ocupar as suas longas horas de solidão, solicitou, a Mestre José Ribeiro o empréstimo de algumas peças de teatro, para ler, pedindo-lhe, igualmente, o seu conselho quanto a estas leituras. Vale a pena aqui deixar parte da resposta que recebeu.
“É a “Morgadinha de Valflor”, jóia admirável do nosso teatro romântico. É possível que já tenha visto representada. Mesmo assim, fará bem lendo esse belo e intenso drama. A sua leitura dar-lhe-á uma impressão mais forte da técnica então usada. Verá na Morgadinha os extensos monólogos a que hoje, - porque o teatro se aproxima da verdade, fogem os dramaturgos, mesmo quando escrevem peças a que podemos chamar também românticas, pela psicologia das personagens e pelo assunto.
Em seguida a esta levar-lhe-ei outras peças que há-de gostar de ler porque, para quem tem espírito a quem interessa o teatro, agrada conhecer, porque são modelos de forma, de técnica, de estilo. Do teatro chamado lírico, vale a pena ler “A Madrugada”, que a Ilda (Stichini) vai representar em S. Carlos; é uma peça encantadora, em verso, de Fernando Caldeira, autor também da “Mantilha de renda” e “Sapatinho de cetim”. Como teatro em português, pelas figuras e costumes, as comédias de D. João da Câmara, como “Os Velhos”, mais algumas das obras do profundo dramaturgo Marcelino Mesquita: a tragédia esmagadora da “Dor Suprema”, o drama “Envelhecer”, a comédia “Peraltas e Sécias” – três géneros diferentes. Vai lendo isto vagarosamente, pouco a pouco, e por certo tomará gosto à leitura de obras teatrais. Depois lerá peças de autores modernos – direi melhor, de autores vivos, porque aqueles ainda não são antigos. Assim as suas faculdades críticas ir-se-ão apurando, a ponto de gostar de ler alguns autos do Gil Vicente, velhos de quinhentos anos, mas que parecem de hoje - e que aborrecem algumas pessoas de cultura que supõem desenvolvida e que são tidas como conhecedoras de teatro.
Possuo as obras que indico, e a Violinda lê-las-á quando quiser, à medida que lhe fôr possível. Certamente o que mais há-de desejar conhecer são os autores portugueses; mas, se desejar, poderá ler também alguma coisa das celebridades estrangeiras mais citadas. Isto aborreceria outra pessoa, que não a Violinda, em cujo espírito se alimenta a paixão do teatro. Por isso levo tão longe esta conversa teatreira”.
É interessantíssimo, para quem gosta de teatro, ver a sequência da leitura das peças referidas. Violinda Medina encontrara o mestre de teatro que precisava para desenvolver a sua extraordinária apetência pelo palco.
Entretanto preparava-se mais uma nova peça de teatro português, A Morgadinha dos Canaviais. “Logo que a Violinda venha, começaremos a ensaiar activamente. Parto, bem entendido, da certeza de que a Violinda virá fazer a protagonista, conforme ficou combinado. Julgo que não conseguiram alterar as suas disposições...”.
José Ribeiro escrevia isto porque tinha conhecimento de que aquela amadora havia novamente sido solicitada pelo Ginásio Figueirense. Mas ela estava decidida. Só representaria no teatro da sua terra.
“O que eu lhe desejo é que a sua estada aí tenha aproveitado à sua saúde, que está acima de tudo. Venha bem disposta, para que o teatro – quando ele é orientado com bom critério assim sucede – exerça no seu espírito, como distracção ao menos, salutar influência. Não veja apenas o interesse do ensaiador nestes votos, que partem da minha leal amizade”. Esta carta está datada de 14 de Março de 1933. Violinda Medina breve regressou à Figueira e aos ensaios e, no dia 27 de Maio, como veremos adiante, “A Morgadinha dos Canaviais” foi levada à cena no palco de Tavarede, protagonizada por ela.