quinta-feira, 17 de junho de 2010

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 21

Atentemos neste facto: em Junho é decidido vender a casa e continuar a actividade como arrendatário. Logo a seguir demite-se a Direcção e, em nova reunião extraordinária, a Assembleia Geral nomeia uma Comissão Administrativa (Alberto Ferrão, José Maria Gomes, António Oliveira Cordeiro, José Francisco da Silva, Armando Amorim, Manuel Nogueira e José Reis) e uma Comissão Consultiva (António Oliveira Lopes, António Medina, João Oliveira, Jorge Medina e Manuel Oliveira). Três meses depois (9 de Setembro de 1930) a Comissão Administrativa recebe uma carta do novo proprietário da casa, António Oliveira Lopes, “em que manifestava o seu descontentamento por se não ter cumprido com o contrato de arrendamento enviando-lhe no fim do mês a importância devida, vendo-se, por este motivo, caso a referida importância não fosse satisfeita, a entregar a questão ao seu advogado, bem contra sua vontade. A Comissão Administrativa, depois de fazer contas de um espectáculo anterior, deliberou chamar o sr. António Lopes e lhe entregar o valor da renda do mês em dívida”.

A renda estabelecida era elevada para as possibilidades da colectividade. Aquela Comissão toma a seguinte deliberação na reunião de 26 de Setembro: “Devido à grande despesa que esta colectividade tem sobre si e sendo a renda da casa um encargo de responsabilidade com que a sociedade tem de arcar, e como nem sempre se dispõe mensalmente da importância necessária para se fazer face à despesa indispensável desta colectividade, foi resolvido também levar a efeito

Dois dos principais intervenientes nestas histórias e dos quais recordamos alguns apontamentos
uma inscrição dos sócios que quiserem contribuir com uma cota mensal de 5$00, ficando ilibados da cota mensal de 1$50, para que depois de conseguida essa inscrição com o número de sócios suficientes se procedesse à respectiva cobrança, com o fim de se pagar pontualmente a renda da casa e que é de…”. O valor está em branco mas sabemos que a renda estabelecida era de 2 000$00 anuais, ou 166$70 mensais.

Afinal de contas, o cinematógrafo, em que havia tantas esperanças, não resultou. Porquê? Porque também não conseguiram pagar a máquina! Também a firma Castelo Lopes, Lda, fornecedora da máquina de projecção de filmes, reclamou o pagamento das prestações vencidas e não pagas. “Resolvido escrever-se-lhes contando os fracassos de que tínhamos sido vitimas, pedindo-lhes mais uma vez que nos desculpassem e que no fim do mês (Outubro) lhe mandaríamos a importância relativa às prestações decorridas, pois estávamos a realizar uns festejos e que com o lucro que porventura eles nos possam dar, satisfaremos a importância que nos for possível”.

Como se costuma dizer contaram com o ovo…, mas o azar é que, devido a um falecimento, os tais festejos não se realizaram e, não havendo aquela prevista receita, tiveram que recorrer a outra solução. “Foi aceite uma letra ao sr. Armando Amorim, na importância de 1 000$00, ao juro anual de 10%, para: 1º - quinhentos escudos por conta do débito à Casa Castelo Lopes, Lda; 2º - quatrocentos escudos para pagamento de dois meses de renda; e 3º - cem escudos para despesas de viagem de três sócios, que foram incumbidos de ir a Lisboa para junto da Casa Castelo Lopes, Lda, ver o que lhes diziam sobre a nossa máquina, que já lhes tinha sido enviada dias antes e entrar em negociações com outra que nos pudesse dar resultado, caso as condições fosse aceitáveis”.
António Francisco da Silva e António Medina (dois dos principais protagonistas)

A tentativa não resultou, pois aqueles enviados informaram a Direcção (Comissão Administrativa) que aquela casa não aceitava a nossa máquina para vender, pois não vendiam artigos em segunda mão e que também não a aceitavam por conta de uma outra, bem como “a máquina que nos convinha custava perto de dez mil escudos e que devíamos entrar de princípio com quatro mil escudos e depois em prestações mensais de mil escudos”. O negócio não se concretizou e também não encontrámos qualquer outra informação quanto à máquina que o Grupo tinha enviado para Lisboa.

Queremos esclarecer que todos os elementos referidos foram obtidos do primeiro livro de actas da Direcção que conseguimos encontrar. Começa em 1924 e a acta seguinte à recolha desta última informação (ida a Lisboa) tem a data de 12 de Outubro de 1932, seguindo-se uma outra com a data de 14 de Outubro de 1933. Estas duas últimas actas, que tratam unicamente de assuntos de expediente, já se referem a reuniões “na nova sede”, no antigo solar dos Condes de Tavarede.

Além de muito interessante para a história, todo este processo foi bastante complicado, pelo que ainda nos vamos debruçar um pouco mais sobre o mesmo para acrescentarmos alguns elementos que reputamos de interesse.

As actas da Assembleia Geral encontradas também datam do mesmo período, de 1924 a 1932. Depois, só em 1936. E antes de resumirmos as actividades teatrais e musicais de 1930 e 1931, portanto, ainda na casa antiga, vamos recordar mais uns apontamentos para as nossas histórias, estes retirados nas últimas actas da Assembleia Geral.

A acta da reunião de 27 de Julho de 1931 é mais uma curiosidade. Por cima desta acta encontra-se a seguinte anotação escrita a lápis: “o sr. João de Oliveira disse na presença dos srs. José Maria Gomes e José Severino dos Reis que esta acta era falsa”. Tinha como ordem da noite “Apresentação dos últimos acontecimentos – Dissolução do Grupo”. “Havia, na altura, uma Comissão Administrativa. O Vice-Presidente da mesma. sr. José Maria Gomes, referindo-se aos últimos acontecimentos, propõe que o Grupo saia, sim, mas para outra casa. Falando de seguida o sr. José Lopes, disse ser “para lamentar o triste estado a que o Grupo chegou, mercê da pouca atenção e carinho das sucessivas direcções que têm estado à frente do Grupo, lhe têm dispensado”. Estabelece depois o confronto entre o trabalho da direcção que foi orientada pelo sr. António Vítor Guerra, e as que lhe sucederam e caustica energicamente todas as direcções que não souberam cumprir com o que prometiam nas Assembleias, e elogia o espírito de sacrifício do sr. António de Oliveira Lopes, o qual empregou os melhores esforços para que o Grupo vivesse com desafogo.

O sócio António de Oliveira Cordeiro defende as direcções das acusações feitas, baseando-se no facto do desinteresse dos sócios pela colectividade. Replica o sr. José Lopes com este facto bem elucidativo: “A Direcção não tem actas lavradas desde Novembro último. É elucidativo e eloquente este facto em matéria administrativa”. Termina e propõe:
1º. “Que a Direcção, apresentando pessoa que se responsabilize pelas dívidas contraídas, após a data da concordata negociada conforme Acta da Assembleia, que acaba de ser lida, pode sair livremente, logo que aos credores essa pessoa ou pessoas, mereçam confiança.
2º. (acaba aqui a acta, havendo somente linhas em branco até ao final da página).
No dia 27 de Agosto de 1931 houve nova assembleia extraordinária. A acta respectiva começa por referir que “depois de lida a acta anterior”, foi referido o facto da mesma não ter sido concluída, pediu-se para que a mesma fosse terminada mas, mesmo como estava, foi aprovada. Parece, portanto, que a indicação que lhe foi acrescentada de que era falsa, não está correcta. Também se refere que a reunião se efectua na nova sede do Grupo, portanto, já na casa do Paço
.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

João António da Luz Robim Borges

Quando aqui publiquei a pequena biografia de João António da Luz Robim Borges, o fundador da Quinta do Robim, referi que o mesmo tinha casado com Pastora Garcia Mensurado, na igreja de Tavarede. Este casamento realizou-se no dia 25 de Junho de 1908. Robim Borges faleceu, na referida Quinta, em Novembro do mesmo ano, com a idade de 50 anos.

Recebi, há dias, um mail com o pedido, feito por um neto daquela senhora, para eu o informar, caso o soubesse, de mais informações sobre a sua avó, que, segundo me dizia, havia primeiro casado com seu avô (de quem não sabe o nome) que morreu, em 1899, antes do pai nascer naquele mesmo ano.

Procurei saber alguma coisa sobre o assunto e, para aditamento à biografia de João António da Luz Robim Borges, a seguir menciono os elementos que obtive:

Foi na igreja de Tavarede e pelo padre Manuel Vicente, que no dia 25 de Junho de 1908 se realizou o casamento de João António da Luz Robim Borges e Dona Pastora Garcia Mensurado, também conhecida por Dona Pastora Joana Gumersinda Luísa da Puríssima Conceição e da Santíssima Trintade. (de la Purissima Concepcion y de la Santíssima Trinidad).

Ele, de cinquenta e um anos de idade, era viúvo de D. Catarina da Anunciação Pimenta Ferreira Borges, falecida em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, era proprietário, natural de Lisboa e daquela mesma freguesia, morador na Vila Robim, filho legítimo de João Pereira Borges, natural da freguesia e concelho da Figueira da Foz, e de D. Maria da Conceição da Luz Robim Borges, natural de Lisboa, freguesia de S. Paulo.

Ela, de 41 anos de idade, era solteira, doméstica, natural da freguesia de S. Vicente, Sevilha, Espanha e moradora na Vila Robim, era filha legítima de D. Ramon Garcia, natural de Polahelena, Astúrias, e de D. Luisa Mensurado, natural de Estepona, Málaga.

Neste mesmo acto do casamento, João António da Luz Robim Borges e D. Pastora Garcia Mensurado, na presença do pároco Manuel Vicente e das testemunhas depois indicadas, "reconheceram por seus verdadeiros e legítimos filhos a Joaquim, nascido no dia 18 de Janeiro de 1902, e baptizado em Tavarede como "filho ilegítimo" de João António da Luz Robim Borges e de D. Pastora Garcia Mensurado; Helena, nascida no dia 1 de Julho de 1903, também baptizada em Tavarede como "filha ilegítima" dos mesmos João António e D. Pastora; e Luís, nascido no dia 23 de Junho de 1904, que, como seus irmãos, foi baptizado em Tavarede como "filho ilegítimo" de João António da Luz Robim Borges e de D. Pastora Garcia Mensurado".

Foram testemunhas do acto, o Conselheiro Rodrigo Afonso Pequito, ministro de Estado Honorário, morador na Rua de S. Bento, em Lisboa, e Joaquim José Mascarenhas da Silveira, proprietário, morador na vila de Abrigada, Alenquer.

Não haja quaisquer dúvidas que é muito interessante procurar saber coisas antigas, como estas.

Fica, assim, mais completa a biografia do fundador da Quinta do Robim. Tenho pena de não poder dar mais informações aso sr. Joaquim Manuel Trigo Mira Mensurado, morador em Sintra, neto daquela senhora, Pastora Garcia Mensurado, e filho de João Garcia Mensurado. Não sabe o nome do avô que, segundo diz, havia casado secretamente com D. Pastora. Aponta a hipótese de ser seu avô José Augusto Rego de Freitas. Será que algum dos meus leitores, que conheça melhor do que eu a história da Quinta do Robim, possa ajudar nalguma coisa?

domingo, 13 de junho de 2010

A Escola dos Quatro Caminhos

Há poucos dias fui à Escola Primária dos Quatro Caminhos do Senhor do Arieiro conversar com alguns alunos sobre o teatro em Tavarede e outros assuntos que ocorriam de momento.

Está quase a fazer 68 anos em que eu, pela primeira vez, entrei naquela Escola para frequentar a instrução primária. Mas, exteriormente, embora tenham sido feitas algumas alterações, o edifício está absolutamente reconhecível. Interiormente é que não. Está muito diferente, para melhor, naturalmente.

No fim da conversa houve algumas perguntas. Entre elas achei deveras curiosa a seguinte: "Para si, qual é a melhor época da história de Tavarede?". Não tive qualquer dúvida na resposta. "Para mim, a época que é mais interessante de estudar e conhecer, é a década de 1920 a 1930".

É claro que para muitos tavaredenses aquela década pouco ou nada diga. Têm as suas razões, assim como eu tenho as minhas. Mas, vejamos os motivos que me levaram a escolher aquele período.

E começo pelo associativismo. A Sociedade de Instrução Tavaredense, depois do regresso de Mestre José Ribeiro do serviço militar, iniciava um percurso extraordinário. Além da reposição e estreia de algumas operetas, começou, em 1925, a representar peças escritas propositadamente para o seu grupo cénico, versando os temas da história, dos costumes e dos usos e tradições, com a peça "Em busca da Lúcia-Lima", de Gaspar de Lemos, a que se seguiram "Pátria Livre", "Grão Ducado de Tavarede" (já com a colaboração no texto de José Ribeiro), "Retalhos e Fitas" e dois grandes êxitos que ainda hoje são recordados "O Sonho do Cavador", em 1928, e "A Cigarra e a Formiga", em 1929. Destas peças, todas elas com música do saudoso maestro amador António Maria de Oliveira Simões, são agora recordadas, felizmente, pelo grupo coral "Cantigas de Tavarede", daquela colectividade, muitas das canções que, quando escutadas pelos mais saudosistas, sempre lhes trazem, ao canto do olho, algumas lágrimas saudosas.

A outra colectividade, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, teve o seu períodio áureo naquela época. O seu grupo dramático, onde estava integrada a enorme e talentosa amadora Violinda Medina e Silva, dirigido, então, por Vicente Ferreira e, entre mais alguns, por Raul Martins, conheceu enormes triunfos, com a representação de dramas, comédias e operetas, a maior parte também escritas propositadamente por este grupo cénico. Outra actividade da colectividade foi a música. A sua tuna, considerada a mais bem organizada deste concelho, obteve constantes êxitos
nas terras para onde era convidada a actuar. É desta época, depois de uma actuação em Martingança, que a tuna do Grupo Musical entregou, no Mosteiro da Batalha, uma placa de homenagem ao Soldado Desconhecido e que ainda lá existe.

Também em 1921 foi fundado o Grupo Musical Carritense, que manteve, durante muitos anos, uma tuna que igualmente teve muita fama, e um grupo de teatro, ainda em actividade.

No desporto recordamos o Atlético Clube Tavaredense, o Sportzinhos Futebol Clube e o Tavarede Futebol Clube. Embora modestas, exerceram a sua actividade desportiva durante vários anos e não só no futebol.

Política e religiosamente, também foi um período extraordinariamente importante para Tavarede. O movimento do 28 de Maio de 1926, e a posterior implantação do chamado Estado Novo, de Salazar, foi movimento de enormes desavenças na nossa terra. Coincidiu com a morte do padre Vicente e a vinda, para paroquiar Tavarede, do padre José Martins da Cruz Dinis. As questões emergentes daquele movimento foram muitas. O conservadorismo que o padre Dinis quis fazer renascer, o liberalismo e o republicanismo da maioria dos tavaredenses foram motivo de duras lutas, especialmente em várias polémicas travadas nos jornais figueirenses.



Claro que muitos outros assuntos, vividos naqueles conturbados anos, são aliciantes para um estudo mais detalhado. Para mim, naturalmente.

Mas foi, principalmente, o associativismo, a política e a religião os temas que me levaram a considerar a década de 1920 a 1930 como a mais aliciante da história da minha terra natal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Novas e velhas notas de Tavarede

Peço desculpa aos meus possíveis visitantes mas, devido a um problema verificado com o disco do meu computador, teve o mesmo de ser substituido e ainda estão a ver se conseguem a recuperação do que lá tinha, tanto de textos como de fotografias.
Terei, agora, de ter algum tempo e disposição para fazer uma busca nos meus CD, DVD e pen's para reconstituir alguns trabalhos.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Manuel Fernandes Tomás

Era figueirense e não tavaredense. No entanto, resolvi hoje dedicar um pouco do meu espaço à memória de tão ilustre e saudoso cidadão. Foi político destacado. Graças a Manuel Fernandes Tomás a Pátria Portuguesa renasceu.

Eu não sou político, nem percebo nada de política. É certo que tive uma pequena experiência autárquica em 1975 mas não me deixou saudades nenhumas, nem vontade de continuar. Leio, porém, os jornais e vejo, diariamente, as notícias televisivas.

Como acontecerá a tantos, fico constrangido a ler e ouvir, em tempo de tão apregoada austeridade, a informação de faraónicas despesas e enormes mordomias de tantos, em contraste com o apregoado. Talvez por isso me tenha lembrado de Manuel Fernandes Tomás e de um quadro que Mestre José Ribeiro escreveu e fez representar na fantasia "Ecos da Terra do Limonete", no ano de 1981. Transcrevo essa cena.



Entrevistador - ... A carta que nos mandou mostra-nos que tem um tema para a palestra que nos vai oferecer: Manuel Fernandes Tomás.

João José - Exactamente.

Entrevistador - Um tema aliciante, rico de sugestões, escolhido muito a propósito e com louvável bairrismo, pois Manuel Fernandes Tomás é uma glória da Figueira da Foz, onde nasceu.
João José - Não apenas da Figueira da Foz, mas uma autêntica glória nacional.

Entrevistador - Muito de louvar o culto dedicado à memória do grande figueirense.

João José - É que todos aqui o conhecemos bem, desde que o vimos e ouvimos em Tavarede.

Entrevistador - Como?! Manuel Fernandes Tomás morreu há mais de um século!...
João José - Sabemos. A 19 de Novembro de 1822. Vimo-lo e ouvimo-lo em Tavarede graças a um desses milagres que o Teatro pode realizar. Ouvimo-lo, a 24 de Agosto de 1820, a ler da varanda do Paço do Governo no Porto, o "Manifesto aos Portugueses"; vimo-lo nas sessões das Constituintes, a proclamar e a defender a soberania nacional residindo no Povo, a defender a liberdade de imprensa e a combater a censura prévia. Fernandes Tomás foi o pulso forte do Sinédrio preparando a revolução, foi a inteligência esclarecida e a alma forte nas Constituintes.

Entrevistador - Muito justamente foi considerado Patriarca da Liberdade e libertador da Pátria.

João José - Esse homem, de vigorosa inteligência e rara envergadura como jurista, ocupou na vida do país os mais altos lugares. Pela sua mão passaram os mais importantes e variados negócios, e podia servir-se da sua preponderância para enriquecer. E morreu pobre. Na sua doença não havia em casa com que comprar uma galinha para fazer um caldo. Isto não é figura de retórica, é literalmente a verdade. Abriu-se uma subscrição pública para o sustento da viúva e dos filhos. Dêeem-me licença para ler esta nota que extratei dum resumo das actividades de Fernandes Tomás no primeiro período parlamentar das Constituintes. (lendo) "Março 13 - Declarou que se recusava a receber o ordenado que o Congresso acabava de arbitrar como membro do Governo Provisório, alegando que fizera esse serviço apenas a bem da Pátria". (pausa) Este foi Manuel Fernandes Tomás, o glorioso figueirense, o eminente jurisconsulto, a mais alta figura das Constituintes, o político austero, o Homem incorruptível, o grande Português - e morreu pobre.

Entrevistador - E certamente o Governo de então não fez aprovar uma lei mantendo aos deputados os seus ordenados mesmo para além do encerramento das Cortes.
João José - Muito oportuna e expressiva a observação de V.Exa. Manuel Fernandes Tomás, que recusara o ordenado como membro do Governo Provisório, recusaria com a mesma dignidade qualquer remuneração que lhe fosse atribuída por uma actividade que não exercia. Não nos esqueçamos: - este notável político morreu pobre. (levanta-se)

Entrevistador - Bem haja por ter vindo. Glória a Fernandes Tomás. (fecha a cortina)

E, assim, acaba o quadro. Em sua casa nem sequer havia com que comprar uma galinha para lhe fazer um caldo!!! E morreu pobre!!!
E quem choramos nós,
Quem lamentam os portugueses... (Alexandre Herculano)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O Palácio do Conde de Tavarede

Curiosidades historicas

Escasseou-nos para tal forma o espaço, no ultimo numero da Gazeta da Figueira, que não podemos sequer notar um leve equivoco em que se embaraçou o distincto autor do artigo “À Beira-Mar”, que publicámos. Fallando da ellegante construcção que se entrevê ao aproximarmo-nos de Tavarede, diz o sr. visconde de Benalcanfôr que é propriedade do visconde de Trancoso.
Não; é propriedade do conde de Tavarede, que começou a edifical-o há annos sobre os alicerces de uma antiga torre, ou vigia, alli existente, e nas fundações da qual se encontraram ainda uns estreitos carceres com argolões que se desfizeram ao tocar-lhes, como se fôra madeira pôdre - resistindo, aliaz, muito bem á oxydação o chumbo que os fixava á pedra, e que se achou perfeitamente conservado.
O equivoco proveiu, naturalmente, de possuir a casa de Tavarede largas propriedades em Trancoso, as quaes constituiam um morgado, que por casamento se uniu áquella casa em vida do primeiro barão e primeiro conde de Tavarede. Nada tem de commum com os Tavaredes o actual visconde de Trancoso, que ha annos contrahiu matrimonio com uma dama, aparentada com a familia reinante de Hespanha.
O presente conde de Tavarede, o sr. João Carlos Emilio Vicente Francisco de Almada Quadros de Sousa Lencastre Fonseca Saldanha e Albuquerque, é neto do 1º. barão e 1º. conde de Tavarede, e de D. Maria Emilia da Fonseca Pinto de Albuquerque, filha e herdeira do Superintendente das coudelarias da comarca de Trancoso, d’onde elle era natural, e d’onde provém á casa de Tavarede as propriedades de Trancoso.
O 1º. barão e 1º. conde de Tavarede, Padroeiro do Convento de Santo António, da Figueira, era filho do grande D. Francisco de Almada e Mendonça, corregedor perpetuo da comarca do Porto, a quem tanto deve aquella cidade, e que casou com D. Antónia Magdalena de Quadros e Sousa, herdeira da antiga casa de Tavarede, de que foi 10º. senhora.
Com a mãe do actual conde de Tavarede, a srª. D. Eugenia de Saldanha, deu-se a notavel coincidência de nascer a 25 d’um mez, casar a 25, viuvar a 25 e fallecer a 25.
Em quasi todos os documentos remotos da casa de Tavarede figuram os appellidos de Quadros, que parece ter sido a familia mais antiga na ascendencia. Tem a data de 1 de Agosto de 1541 o Brazão das Armas das Familias dos Quadros e Barretos, passado a Antonio Fernandes de Quadros, Adail de Azamor, e Comendador da Ordem de Christo, descendente das ditas familias
Uma das mais antigas e principaes regalias dos senhores de Tavarede era a de receberem um imposto de cada fôrno de cozer pão, não podendo ninguem construir algum nos coutos de Tavarede sem licença dos seus senhores. N’um testamento de 1540 e n’outro de 1551 instituiram antepassados da familia Quadros um vinculo de Morgado, em que, além d’outros bens, se incluiam os “Fornos de Tavarede”. N’uma sentença de 1592 são os moradores das Lamas condemnados, a requerimento de Pedro Lopes de Quadros, a não poderem ter Fornos de coser Pão fora dos fornos do dito senhor, ou Poya, ou sem éla, com a pena de dez cruzados obrando o contrario.
Em 1711 justificava Pedro Lopes de Quadros, perante o juiz ordinario do Couto de Tavarede, que elle e seus antepassados, havia mais de 300 annos se conservavam na pose de não haver no dito Couto outros Fornos de cozer Pão senão os seus, e que os ditos Fornos estavam vinculados no Morgado da sua Casa de Tavarede.
Em 1751 concedera licença para poder fazer um forno n’uma casa, com a obrigação de pagar 800 reis cada anno.
Em 1787 é, por escritura, concedida licença a hum morador da Figueira para poder fazer hum Forno de cozer Pão broa nas suas casas com a obrigação de pagar de Foro duas Gallinhas, e na falta de cada hua dellas duzentos e quarenta reis por cada hua á escolha do Foreiro.
A esta casa pertenceu em tempo a Insoa que antigamente se chamava a Voiroa, e agora se chama a Morraceira (documento de 1537), a qual foi adquirida para a casa por transacção com o Infante D. Henrique, Arcebispo de Braga, Commendador e Administrador do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, ao qual fôra doada, em Março de 1116, por D. Afonso Henriques.

(In "Gazeta da Figueira - 23 de Outubro de 1887")

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Rui Monteiro de Sousa

A Junta de Freguesia de Tavarede vai levar a efeito, nos próximos dias 29 e 30 do corrente mês de Maio, uma exposição de "Artesanato em madeira", sob o nome de "A VIDA FEITA PELA PONTA DE UMA NAVALHA".

É autor dos trabalhos a expôr o nosso conterrâneo e amigo Rui Monteiro de Sousa. Colega de trabalho durante dezenas de anos, nunca me passou pela cabeça que o Rui tivesse tal dom para trabalhar bocados de madeira, com a ponta do seu canivete. Já tinha visto alguns trabalhos seus, no Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro, na Sociedade de Instrução Tavaredense e numa montra de um estabelecimento na Rua da República. Mas, segundo o folheto distribuido, o Rui vai apresentar novos trabalhos e, pela amostra, serão dignos da maior admiração.


Se a Junta de Freguesia de Tavarede merece parabéns pela iniciativa, não podemos deixar de louvar o trabalho, a dedicação e a arte do nosso amigo Rui.


Permito-me aqui apresentar alguns dos trabalhos a expôr para que possam ser admirados por aqueles que costumam dar uma vista de olhos por este blogue.


Os pais do Rui Monteiro de Sousa tinham umas terras no vale de Sampaio, que amanhavam carinhosamente. Praticamente todos os dias lá iam os pais (Benjamim e Isabel), acompanhados pelos filhos, tratar dos amanhos necessários. O trabalho acima é uma visão estilizada daquela zona pelo Rui. Ao centro lá está a capela do S. Paio, à direita a casa da srª Aurora (tia), e à esquerda o pequeno edifício da entrada da mina da captação das águas para fornecimento à Figueira. Em baixo, ao centro, é a velha azenha, defronte da bica, com a caleira aérea que transportava a água que fazia movimentar a roda. Até a pequena casa de arrumações não foi esquecida.
Durante muitos anos o Rui foi músico do Rancho Etnográfico Os Cavadores do Saltadouro, do Grupo Desportivo e Amizade do Saltadouro. É de apreciar os pares dançando. O colorido é muito bom e dá grande realce aos bonecos.


O Rui também foi remador da Naval 1º. de Maio. E reproduziu um barco com a sua tripulação de remadores.


Como músico que foi, alguns dos seus companheiros mereceram a sua homenagem. Este boneco estilizado, representa o saudoso amigo António de Sousa 'Bichão', falecido já há alguns anos e que foi grande compositor e excelente intérprete musical, grande amigo da nossa terra, em cuja 'tuna' participou muito tempo.

Nesta fotografia da 'tuna' de Tavarede, vimos, em primeiro plano, à esquerda, o António Bichão, e, lá atrás, tocando bombo, o Rui de Sousa.

Termino estes breves apontamentos com uma fotografia do saudoso 'Lúcia-Lima-Jazz', de que o Rui Monteiro de Sousa fez parte. Aqui, tocava rabecão. O Helder (terceiro da esquerda) e o Rui (primeiro à direita), são os sobreviventes. Que o sejam por muitos e bons anos. E muitos parabéns ao Rui e que continue a dar que fazer ao seu canivete para nos recordar mais alguns pedaços da nossa terra.