terça-feira, 22 de junho de 2010

João da Silva Cascão

Não, não é do nosso caro amigo maestro que vou contar qualquer coisa. É do pai, do saudoso João Cascão, um dos maiores amadores do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. Aliás, já aqui contei um pouco da sua biografia.


Estava há pouco a rever velhas fotografias, o que é sempre um enorme prazer para mim, quando deparei com a foto que agora publico. Não sei dizer quantos anos terá, pois a foto não está datada.

Mas vemos nela o nosso amigo João Cascão, casaco ao ombro e garrafão da mão, tal qual como um grande 'latifundiário', na sua pequena quinta, ali ao caminho da Chã, defronte da Escola e da Junta de Freguesia, e à qual dera o nome de baptismo de 'A Primorosa'. E, na verdade, era mesmo um primor quando a horta estava cuidadosamente tratada e o pomar bem arranjado.

Mas, para ele, a melhor colheita e proveito que ele tirava daquela exploração agrícola, era as uvas dos compridos corrimões e que ele transformava num vinho, nem sempre muito graduado, mas que era sempre, isso sim, um saboroso e fresco 'palhete'. Para o João Cascão era todos os anos 'o melhor de Tavarede e arredores'.

E então dava-lhe sempre um nome. Um dia, chegado o tempo de 'espichar' o pipo, quando chegou a Tavarede à sua adega, acompanhado de alguns amigos, entendeu ser oportuno fazer a prova da pinga daquele ano. Espicho aberto, copo cheio e erguendo-o à luz apreciou-lhe a cor. Depois provou-o, saboreou-o, deu o habitual estalinho com a língua, e acabou o copo. Voltou a encher para os amigos. Boa pinga, disseram eles.

Conversa puxa conversa, mais um copito agora e outro depois, quando se levantou do banco onde estava sentado, sentiu-se um pouco toldado. "Eh! pá, este marra no dono!", disse ele. Pois foi o nome dado à colheita daquele ano: O MARRA NO DONO.

Não se comparava, com toda a certeza, ao de outras colheitas, como o MORTE LENTA anterior. E foi esta pequena história que me lembrou ao ver a velha fotografia...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Virgínia Licungo


Vulgarmente era conhecida por todos como a “Virgínia Preta”. Era natural de Quelimane, Moçambique, donde a trouxera, muito pequena, João Gaspar de Lemos Amorim. Morreu, com 64 anos de idade, em Fevereiro de 1960.
“De pequenito nos habituámos a ver esta mulher de cor, com uma simpatia muito grande, dada a maneira como nos tratava. Fomos crescendo e sempre vimos nessa figura curiosa, uma amizade por nós, que justifica uma referência muito especial à sua memória.
… Faz-nos pensar nos ódios raciais, nas lutas diárias que se observam nalguns pontos do mundo. … Durante anos e anos vimo-la passar, de manhã cedo, ao lado da carroça que conduzia a fruta, a hortaliça e as flores para a venda. Era bondosa, alegre, sorridente, um tipo popular a que Tavarede se habituou e muito estimava”.


Caderno: Tavaredenses com História

José Maria de Carvalho

Natural de Almalaguês, onde nasceu no dia 1 de Abril de 1908, veio muito novo viver para a Vila do Robim, de que seu pai havia sido um dos compradores. Era filho de Ângelo de Carvalho e de Rosa Henrique de Oliveira.
Feita a instrução primária, logo se iniciou nas artes gráficas, aprendendo o ofício de tipógrafo. Integrou-se, também, no meio associativo local, com o maior entusiasmo. Foi dedicado amador teatral e director do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, até à extinção da sua secção dramática no ano de 1931, passando a fazer parte, nas mesmas actividades, no Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, que foi fundado em 1932, por iniciativa do pároco local, José Martins da Cruz Dinis, de quem foi grande amigo.
Durante muitos anos foi o correspondente local do jornal “O Figueirense”. Foi, também, presidente da Junta de Freguesia de Tavarede.
Foi sócio gerente da Escola Gráfica Figueirense e fundador do jornal “A Voz da Figueira”, cujo primeiro número saiu no dia 1 de Janeiro de 1953.
Casou com Maria Evangelina Lopes Migueis, (que faleceu no dia 4 de Fevereiro de 1951, com 42 anos de idade), tendo tido três filhos: Maria de Lourdes, Carlos Alberto e Maria Celeste. Enviuvando, casou, em segundas núpcias, com Carmina Tondela dos Reis Carvalho, (falecida em 13 de Fevereiro de 1983, com a idade de 69 anos) não havendo descendentes desta união.
Tinha 78 anos de idade, quando faleceu no dia 4 de Maio de 1986.

José Maria de Carvalho com a esposa, Carmina Tondela dos Reis Carvalho


“Era um homem ainda não acabado, mas ciente de que o fim estava próximo. Várias vezes afirmava isso mesmo: - ‘Para o ano já cá não estarei. Sinto-me cansado, mesmo muito cansado!’. Mas dizia isto trabalhando na sua tipografia, compondo e executando os diversos afazeres do dia a dia. No dia seguinte, lá estava às nove horas, para a abertura da sua oficina, que é também a redacção do jornal. … ou até mais tarde, a cavaquear em ambiente de lanche, sem restrições, a consolar um amigo, a preocupar-se com qualquer situação adversa, dando indicações e conselhos úteis, fruto da sua experiência e sabedoria geral”.
Por ocasião das “Bodas de Prata” do seu jornal, em Janeiro de 1978, reuniu, em confraternização, todos os seus colaboradores. Pronunciou, então, um comovente e apaixonado discurso de que destacamos:
“… Estamos em festa. Dou-vos as boas vindas e agradeço, do fundo do meu coração, a vossa presença neste acto (.....). O apoio humano torna possível a realização de grandes obras, a sua projecção, a sua continuidade; e o calor e a amizade da vossa presença neste acto é, só por si, sinónimo de que devemos continuar: “No Mundo por Portugal, e em Portugal pela Figueira”.
Bem hajam.
Há 25 anos que “A Voz da Figueira” é a voz firme desta linda, encantadora e muito querida cidade da Figueira da Foz. Servimo-la com toda a dedicação na defesa dos seus legítimos interesses e na expansão e engrandecimento das suas inigualáveis belezas de cidade praia-mar-serra. Só por isso – e não só – todos, mas todos, sabem que “A Voz da Figueira” tem cumprido com independência e dignidade, o seu dever de jornal figueirense e é verdade – é imperioso que se diga – que bons e leais timoneiros ela encontrou ao longo destes 25 anos vividos!”.

Caderno: Tavaredenses com História

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 26


Começamos este capítulo com um apontamento que julgamos interessante. Em Dezembro de 1932 e Janeiro de 1933, a peça “O Sonho do Cavador” foi representada pelo grupo cénico do Grupo Instrução e Recreio, de Quiaios, a quem foi emprestada. Colaborou nas representações, como protagonista, o amador tavaredense João da Silva Cascão, que já a havia protagonizado na nossa terra, e que, segundo lemos, foi sempre muito aplaudido.
Na sessão solene realizada no dia 15 de Janeiro de 1933, foi descerrada uma fotografia “que se encontrava coberta pelo velho estandarte”, a do benemérito Joaquim Felisberto Sotto Maior. Esta sessão foi presidida pelo Desembargador Dr. João Massagró que, a propósito do homenageado, “traçou o seu perfil moral, mostrando como a bondade da sua alma e as virtudes cívicas souberam conquistar a veneração de todo o povo do concelho da Figueira. O seu nome está inscrito a ouro na história das instituições de beneficência e de instrução que tem auxiliado, como está indelevelmente gravado no coração de tantos e tantos infelizes que lhe devem socorro inesquecível. Se todos os homens que possuem fortuna tomassem como exemplo a vida deste benemérito cidadão, nenhum pobre teria palavras de maldição para os ricos.....”.
Entretanto... “Teatro do Povo, pelo Povo e para o Povo” podia ser a divisa da Sociedade de Instrução naqueles já recuados tempos. Aos “Fidalgos” e às “Pupilas”, mais uma outra obra popular de Júlio Dinis foi posta em cena: “A Morgadinha dos Canaviais”. Deu a primeira representação no dia 27 de Maio de 1933.

Violinda Medina, em “A Morgadinha dos Canaviais

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 22


Havia, segundo o conteúdo desta acta, a hipótese de acabar com o Grupo Musical e fundar uma outra colectividade, pois que foi apresentada uma proposta em que se diz “se o Grupo deve ficar ou não com o mesmo título, sendo aprovado por maioria que o Grupo conserve o mesmo nome”. Continuava o problema de sempre, que eram as dívidas. Foi então nomeada uma Comissão de Contas para estudar a situação financeira da colectividade e aprovada uma proposta para que se publicasse, nos jornais figueirenses, um anúncio para que, no prazo de 8 dias a contar da publicação, os credores do Grupo apresentasse as suas contas. Devido a esta proposta, a assembleia foi suspensa, tendo recomeçado os trabalhos no dia 12 de Setembro seguinte.
A conclusão daquele grupo de trabalho foi a seguinte: “O total das contas recebidas atinge o valor de 2 408$10 a que acrescentando uma letra de 1 000$00 de que é credor o sócio Armando Amorim, se atinge o total de 3 408$10. Entretanto, alguns dos membros da Comissão de contas avistaram-se com todos os credores, pedindo-lhes uma redução entre 40 a 50% garantindo-lhes, sob sua palavra, a liquidação das que lhe diziam respeito, dentro do mais curto prazo de tempo possível, e informando-os ao mesmo tempo de que, se não anuíssem ao pedido feito, ficariam na eminência de nada receberem, porque se faria a entrega de todos os haveres a uma comissão liquidatária. Todos concordaram e a dívida ficou reduzida a 2 412$50. Considerava também a Comissão que a própria letra de 1 000$00 do sócio credor Armando Amorim não ofereceria qualquer problema pois este, certamente, daria todas as facilidades de prorrogação, com a indispensável reforma e garantia dos fiadores actuais”.
A última acta deste período diz respeito a uma assembleia realizada em 13 de Outubro de 1932, na qual são nomeados dois sócios honorários e um benemérito (Marcelino Duarte Pinto), sendo de seguida apresentada a seguinte proposta: “Que fique exarado na acta desta Assembleia Geral um voto de muito reconhecimento à benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, pelo grande auxílio prestado ao Grupo aquando da representação em nosso benefício da peça Os Fidalgos da Casa Mourisca. Um voto de muito reconhecimento ao ensaiador sr. José da Silva Ribeiro e a todos os amadores e pessoal de cena que na mesma peça prestaram o seu auxílio. Um voto de agradecimento ao jornal A Voz da Justiça, na pessoa do seu Director, sr. Manuel Jorge Cruz, pela propaganda desinteressada que do nosso Grupo o mesmo jornal tem feito nas suas colunas”.
Vamos, agora, muito resumidamente, dar nota da actividade desenvolvida pelo Grupo, apesar de todos os problemas mencionados.
Para que pudessem levar sessões cinematográficas, foi necessário pedir uma vistoria à Inspecção Geral dos Teatros e o resultado foi que “se encontra em óptimas condições para tais efeitos, podendo funcionar”. Foram vários os filmes apresentados. No dia 23 de Abril de 1930, uma notícia diz que “nos próximos domingo e segunda-feira vão os amadores do Grupo Musical, de Tavarede, representar a Leiria as operetas Entre duas Ave-Marias, Rosas de Nossa Senhora e Herança do 103. Os amadores vão animados do desejo de agradar em ambos os espectáculos”. Não encontrámos qualquer outra notícia sobre esta deslocação, mas no dia 13 de Julho houve récita na sede com aquelas duas últimas operetas, e no sábado seguinte, em espectáculo organizado pelos Sargentos da Guarnição Militar da Figueira, em benefício do Sanatório dos Sargentos, realizado no Teatro do Peninsular, o Grupo deu a sua colaboração com a representação do drama A cruz de guerra e a comédia Educação Inglesa. Pela noite de Natal, depois de vários anos de interrupção, o grupo cénico voltou a representar os Autos Pastoris.
Pelo Carnaval de 1931 foram apresentadas as comédias A propósito, Casar para morrer e Hospedaria infernal. Apesar da crise este espectáculo foi grátis para sócios e famílias. Em Abril foram a Maiorca apresentar Os dois nenés, Casar para morrer e Herança do 103. Certamente que terão havido outros espectáculos na sede, mas não temos registo. Em Agosto realizou-se uma reunião para se tentar a reorganização da tuna. Foi eleito, por maioria de votos, José Francisco da Silva para regente. Teve logo uma adesão de mais de 35 elementos e, ainda nesse mês, efectuaram diversas saídas para abrilhantar festas na Figueira, no Casal da Robala e em Gatões.
Com a mudança para a casa do Paço, o grupo cénico acabou. Ficou a música e, surge, pouco depois, esta informação na imprensa “na nova sede do Grupo Musical, que entrou numa fase de firme desenvolvimento, continuam as obras. As instalações ficarão muito boas, permitindo a realização de festas que a esplêndida tuna do Grupo abrilhantará”. A inauguração desta sede teve lugar no dia 18 de Outubro de 1931, festejando, também, o 20º aniversário da fundação. “O Grupo Musical entrou numa fase de desenvolvimento consciente e com firmeza, escolhendo com decisão o caminho que quer seguir. Com um esforço enorme, admirável – e quando alguém poderia supor que o Grupo ia morrer ingloriamente e sem o conforto dos sacramentos da Igreja – os rapazes do Grupo Musical conseguiram já reorganizar a sua tuna, agora constituída com muitos e valiosos elementos, e instalar-se na sua nova sede”. O programa constou de bailes, alvorada, almoço de confraternização e sessão solene.
Terminara, digamos que de forma inglória, um período cultural extraordinário. O teatro, com um grupo dramático composto por muitos valiosos elementos, saíra da sua sede e fora apresentar-se em vários palcos, frente a plateias conhecedoras e exigentes. A música, com a sua tuna considerada como a mais completa e bem organizada do concelho, alternou períodos bons com outros menos bons. As aulas nocturnas, de instrução primária, desenho, música e ginástica, deixaram de ter as condições necessárias ao seu funcionamento. Na nova sede, como veremos, a música ainda teve continuidade, assim como, durante algum tempo, as aulas da instrução primária.
Mas, antes de continuarmos, permitam-nos algumas reflexões. Para colmatar a falta do padre Manuel Vicente, morto devido ao acidente de viação ocorrido a caminho de Fátima, foi nomeado pároco da freguesia o padre José Martins da Cruz Dinis. Quando este aqui chegou, constatou que a Igreja era pouco frequentada pelos tavaredenses e pensou alterar a situação. Acabado de sair do Seminário, conservador convicto e admirar professo das ideias do Estado Novo, logo iniciou árduo trabalho para conseguir os seus objectivos. Não cabe aqui narrar a luta travada. Tavarede tinha bem arreigados no seu povo os princípios republicanos e bastará ler os jornais figueirenses da época para nos apercebermos do que foram aqueles tempos na terra do limonete. O padre Cruz Dinis, pessoa muito inteligente, procurou cativar os seus paroquianos através da instrução. As duas colectividades tinham aulas nocturnas e havia a escola primária oficial. No entanto, a freguesia era muito populosa e muitas crianças, e até adultos, não conseguiam frequentar aquelas aulas por falta de vagas. Resolveu, portanto, abrir nova aula para ensino das primeiras letras. Em breve a frequência atingiria os 40 a 50 alunos. A sua casa não tinha condições para manter as lições. Havia que procurar outro local capaz.
Além disso, também sabia que o teatro e a música, como antigas tradições locais, eram meios ideais para atrair a si novos fiéis. Porque não fundar nova colectividade estreitamente ligada à Igreja? Era difícil num meio tão pequeno e pobre. Haveria, talvez, uma outra solução. Certamente que nas colectividades já existentes haveriam muitos católicos, até mesmo praticantes... O Grupo Musical terá sido o alvo escolhido. Como conseguiu chamar a si e trazer para seu lado tantos grupistas que, esquecendo-se do trabalho desenvolvido pela colectividade em benefício da terra, permitiram e, mesmo, colaboraram na queda do Grupo, obrigando-o a vender a sua sede?

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 21

Atentemos neste facto: em Junho é decidido vender a casa e continuar a actividade como arrendatário. Logo a seguir demite-se a Direcção e, em nova reunião extraordinária, a Assembleia Geral nomeia uma Comissão Administrativa (Alberto Ferrão, José Maria Gomes, António Oliveira Cordeiro, José Francisco da Silva, Armando Amorim, Manuel Nogueira e José Reis) e uma Comissão Consultiva (António Oliveira Lopes, António Medina, João Oliveira, Jorge Medina e Manuel Oliveira). Três meses depois (9 de Setembro de 1930) a Comissão Administrativa recebe uma carta do novo proprietário da casa, António Oliveira Lopes, “em que manifestava o seu descontentamento por se não ter cumprido com o contrato de arrendamento enviando-lhe no fim do mês a importância devida, vendo-se, por este motivo, caso a referida importância não fosse satisfeita, a entregar a questão ao seu advogado, bem contra sua vontade. A Comissão Administrativa, depois de fazer contas de um espectáculo anterior, deliberou chamar o sr. António Lopes e lhe entregar o valor da renda do mês em dívida”.

A renda estabelecida era elevada para as possibilidades da colectividade. Aquela Comissão toma a seguinte deliberação na reunião de 26 de Setembro: “Devido à grande despesa que esta colectividade tem sobre si e sendo a renda da casa um encargo de responsabilidade com que a sociedade tem de arcar, e como nem sempre se dispõe mensalmente da importância necessária para se fazer face à despesa indispensável desta colectividade, foi resolvido também levar a efeito

Dois dos principais intervenientes nestas histórias e dos quais recordamos alguns apontamentos
uma inscrição dos sócios que quiserem contribuir com uma cota mensal de 5$00, ficando ilibados da cota mensal de 1$50, para que depois de conseguida essa inscrição com o número de sócios suficientes se procedesse à respectiva cobrança, com o fim de se pagar pontualmente a renda da casa e que é de…”. O valor está em branco mas sabemos que a renda estabelecida era de 2 000$00 anuais, ou 166$70 mensais.

Afinal de contas, o cinematógrafo, em que havia tantas esperanças, não resultou. Porquê? Porque também não conseguiram pagar a máquina! Também a firma Castelo Lopes, Lda, fornecedora da máquina de projecção de filmes, reclamou o pagamento das prestações vencidas e não pagas. “Resolvido escrever-se-lhes contando os fracassos de que tínhamos sido vitimas, pedindo-lhes mais uma vez que nos desculpassem e que no fim do mês (Outubro) lhe mandaríamos a importância relativa às prestações decorridas, pois estávamos a realizar uns festejos e que com o lucro que porventura eles nos possam dar, satisfaremos a importância que nos for possível”.

Como se costuma dizer contaram com o ovo…, mas o azar é que, devido a um falecimento, os tais festejos não se realizaram e, não havendo aquela prevista receita, tiveram que recorrer a outra solução. “Foi aceite uma letra ao sr. Armando Amorim, na importância de 1 000$00, ao juro anual de 10%, para: 1º - quinhentos escudos por conta do débito à Casa Castelo Lopes, Lda; 2º - quatrocentos escudos para pagamento de dois meses de renda; e 3º - cem escudos para despesas de viagem de três sócios, que foram incumbidos de ir a Lisboa para junto da Casa Castelo Lopes, Lda, ver o que lhes diziam sobre a nossa máquina, que já lhes tinha sido enviada dias antes e entrar em negociações com outra que nos pudesse dar resultado, caso as condições fosse aceitáveis”.
António Francisco da Silva e António Medina (dois dos principais protagonistas)

A tentativa não resultou, pois aqueles enviados informaram a Direcção (Comissão Administrativa) que aquela casa não aceitava a nossa máquina para vender, pois não vendiam artigos em segunda mão e que também não a aceitavam por conta de uma outra, bem como “a máquina que nos convinha custava perto de dez mil escudos e que devíamos entrar de princípio com quatro mil escudos e depois em prestações mensais de mil escudos”. O negócio não se concretizou e também não encontrámos qualquer outra informação quanto à máquina que o Grupo tinha enviado para Lisboa.

Queremos esclarecer que todos os elementos referidos foram obtidos do primeiro livro de actas da Direcção que conseguimos encontrar. Começa em 1924 e a acta seguinte à recolha desta última informação (ida a Lisboa) tem a data de 12 de Outubro de 1932, seguindo-se uma outra com a data de 14 de Outubro de 1933. Estas duas últimas actas, que tratam unicamente de assuntos de expediente, já se referem a reuniões “na nova sede”, no antigo solar dos Condes de Tavarede.

Além de muito interessante para a história, todo este processo foi bastante complicado, pelo que ainda nos vamos debruçar um pouco mais sobre o mesmo para acrescentarmos alguns elementos que reputamos de interesse.

As actas da Assembleia Geral encontradas também datam do mesmo período, de 1924 a 1932. Depois, só em 1936. E antes de resumirmos as actividades teatrais e musicais de 1930 e 1931, portanto, ainda na casa antiga, vamos recordar mais uns apontamentos para as nossas histórias, estes retirados nas últimas actas da Assembleia Geral.

A acta da reunião de 27 de Julho de 1931 é mais uma curiosidade. Por cima desta acta encontra-se a seguinte anotação escrita a lápis: “o sr. João de Oliveira disse na presença dos srs. José Maria Gomes e José Severino dos Reis que esta acta era falsa”. Tinha como ordem da noite “Apresentação dos últimos acontecimentos – Dissolução do Grupo”. “Havia, na altura, uma Comissão Administrativa. O Vice-Presidente da mesma. sr. José Maria Gomes, referindo-se aos últimos acontecimentos, propõe que o Grupo saia, sim, mas para outra casa. Falando de seguida o sr. José Lopes, disse ser “para lamentar o triste estado a que o Grupo chegou, mercê da pouca atenção e carinho das sucessivas direcções que têm estado à frente do Grupo, lhe têm dispensado”. Estabelece depois o confronto entre o trabalho da direcção que foi orientada pelo sr. António Vítor Guerra, e as que lhe sucederam e caustica energicamente todas as direcções que não souberam cumprir com o que prometiam nas Assembleias, e elogia o espírito de sacrifício do sr. António de Oliveira Lopes, o qual empregou os melhores esforços para que o Grupo vivesse com desafogo.

O sócio António de Oliveira Cordeiro defende as direcções das acusações feitas, baseando-se no facto do desinteresse dos sócios pela colectividade. Replica o sr. José Lopes com este facto bem elucidativo: “A Direcção não tem actas lavradas desde Novembro último. É elucidativo e eloquente este facto em matéria administrativa”. Termina e propõe:
1º. “Que a Direcção, apresentando pessoa que se responsabilize pelas dívidas contraídas, após a data da concordata negociada conforme Acta da Assembleia, que acaba de ser lida, pode sair livremente, logo que aos credores essa pessoa ou pessoas, mereçam confiança.
2º. (acaba aqui a acta, havendo somente linhas em branco até ao final da página).
No dia 27 de Agosto de 1931 houve nova assembleia extraordinária. A acta respectiva começa por referir que “depois de lida a acta anterior”, foi referido o facto da mesma não ter sido concluída, pediu-se para que a mesma fosse terminada mas, mesmo como estava, foi aprovada. Parece, portanto, que a indicação que lhe foi acrescentada de que era falsa, não está correcta. Também se refere que a reunião se efectua na nova sede do Grupo, portanto, já na casa do Paço
.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

João António da Luz Robim Borges

Quando aqui publiquei a pequena biografia de João António da Luz Robim Borges, o fundador da Quinta do Robim, referi que o mesmo tinha casado com Pastora Garcia Mensurado, na igreja de Tavarede. Este casamento realizou-se no dia 25 de Junho de 1908. Robim Borges faleceu, na referida Quinta, em Novembro do mesmo ano, com a idade de 50 anos.

Recebi, há dias, um mail com o pedido, feito por um neto daquela senhora, para eu o informar, caso o soubesse, de mais informações sobre a sua avó, que, segundo me dizia, havia primeiro casado com seu avô (de quem não sabe o nome) que morreu, em 1899, antes do pai nascer naquele mesmo ano.

Procurei saber alguma coisa sobre o assunto e, para aditamento à biografia de João António da Luz Robim Borges, a seguir menciono os elementos que obtive:

Foi na igreja de Tavarede e pelo padre Manuel Vicente, que no dia 25 de Junho de 1908 se realizou o casamento de João António da Luz Robim Borges e Dona Pastora Garcia Mensurado, também conhecida por Dona Pastora Joana Gumersinda Luísa da Puríssima Conceição e da Santíssima Trintade. (de la Purissima Concepcion y de la Santíssima Trinidad).

Ele, de cinquenta e um anos de idade, era viúvo de D. Catarina da Anunciação Pimenta Ferreira Borges, falecida em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, era proprietário, natural de Lisboa e daquela mesma freguesia, morador na Vila Robim, filho legítimo de João Pereira Borges, natural da freguesia e concelho da Figueira da Foz, e de D. Maria da Conceição da Luz Robim Borges, natural de Lisboa, freguesia de S. Paulo.

Ela, de 41 anos de idade, era solteira, doméstica, natural da freguesia de S. Vicente, Sevilha, Espanha e moradora na Vila Robim, era filha legítima de D. Ramon Garcia, natural de Polahelena, Astúrias, e de D. Luisa Mensurado, natural de Estepona, Málaga.

Neste mesmo acto do casamento, João António da Luz Robim Borges e D. Pastora Garcia Mensurado, na presença do pároco Manuel Vicente e das testemunhas depois indicadas, "reconheceram por seus verdadeiros e legítimos filhos a Joaquim, nascido no dia 18 de Janeiro de 1902, e baptizado em Tavarede como "filho ilegítimo" de João António da Luz Robim Borges e de D. Pastora Garcia Mensurado; Helena, nascida no dia 1 de Julho de 1903, também baptizada em Tavarede como "filha ilegítima" dos mesmos João António e D. Pastora; e Luís, nascido no dia 23 de Junho de 1904, que, como seus irmãos, foi baptizado em Tavarede como "filho ilegítimo" de João António da Luz Robim Borges e de D. Pastora Garcia Mensurado".

Foram testemunhas do acto, o Conselheiro Rodrigo Afonso Pequito, ministro de Estado Honorário, morador na Rua de S. Bento, em Lisboa, e Joaquim José Mascarenhas da Silveira, proprietário, morador na vila de Abrigada, Alenquer.

Não haja quaisquer dúvidas que é muito interessante procurar saber coisas antigas, como estas.

Fica, assim, mais completa a biografia do fundador da Quinta do Robim. Tenho pena de não poder dar mais informações aso sr. Joaquim Manuel Trigo Mira Mensurado, morador em Sintra, neto daquela senhora, Pastora Garcia Mensurado, e filho de João Garcia Mensurado. Não sabe o nome do avô que, segundo diz, havia casado secretamente com D. Pastora. Aponta a hipótese de ser seu avô José Augusto Rego de Freitas. Será que algum dos meus leitores, que conheça melhor do que eu a história da Quinta do Robim, possa ajudar nalguma coisa?