terça-feira, 22 de junho de 2010
João da Silva Cascão
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Virgínia Licungo
Vulgarmente era conhecida por todos como a “Virgínia Preta”. Era natural de Quelimane, Moçambique, donde a trouxera, muito pequena, João Gaspar de Lemos Amorim. Morreu, com 64 anos de idade, em Fevereiro de 1960.
“De pequenito nos habituámos a ver esta mulher de cor, com uma simpatia muito grande, dada a maneira como nos tratava. Fomos crescendo e sempre vimos nessa figura curiosa, uma amizade por nós, que justifica uma referência muito especial à sua memória.
… Faz-nos pensar nos ódios raciais, nas lutas diárias que se observam nalguns pontos do mundo. … Durante anos e anos vimo-la passar, de manhã cedo, ao lado da carroça que conduzia a fruta, a hortaliça e as flores para a venda. Era bondosa, alegre, sorridente, um tipo popular a que Tavarede se habituou e muito estimava”.
José Maria de Carvalho
Feita a instrução primária, logo se iniciou nas artes gráficas, aprendendo o ofício de tipógrafo. Integrou-se, também, no meio associativo local, com o maior entusiasmo. Foi dedicado amador teatral e director do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, até à extinção da sua secção dramática no ano de 1931, passando a fazer parte, nas mesmas actividades, no Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, que foi fundado em 1932, por iniciativa do pároco local, José Martins da Cruz Dinis, de quem foi grande amigo.
Durante muitos anos foi o correspondente local do jornal “O Figueirense”. Foi, também, presidente da Junta de Freguesia de Tavarede.
Foi sócio gerente da Escola Gráfica Figueirense e fundador do jornal “A Voz da Figueira”, cujo primeiro número saiu no dia 1 de Janeiro de 1953.
Casou com Maria Evangelina Lopes Migueis, (que faleceu no dia 4 de Fevereiro de 1951, com 42 anos de idade), tendo tido três filhos: Maria de Lourdes, Carlos Alberto e Maria Celeste. Enviuvando, casou, em segundas núpcias, com Carmina Tondela dos Reis Carvalho, (falecida em 13 de Fevereiro de 1983, com a idade de 69 anos) não havendo descendentes desta união.
Tinha 78 anos de idade, quando faleceu no dia 4 de Maio de 1986.
José Maria de Carvalho com a esposa, Carmina Tondela dos Reis Carvalho
“Era um homem ainda não acabado, mas ciente de que o fim estava próximo. Várias vezes afirmava isso mesmo: - ‘Para o ano já cá não estarei. Sinto-me cansado, mesmo muito cansado!’. Mas dizia isto trabalhando na sua tipografia, compondo e executando os diversos afazeres do dia a dia. No dia seguinte, lá estava às nove horas, para a abertura da sua oficina, que é também a redacção do jornal. … ou até mais tarde, a cavaquear em ambiente de lanche, sem restrições, a consolar um amigo, a preocupar-se com qualquer situação adversa, dando indicações e conselhos úteis, fruto da sua experiência e sabedoria geral”.
Por ocasião das “Bodas de Prata” do seu jornal, em Janeiro de 1978, reuniu, em confraternização, todos os seus colaboradores. Pronunciou, então, um comovente e apaixonado discurso de que destacamos:
“… Estamos em festa. Dou-vos as boas vindas e agradeço, do fundo do meu coração, a vossa presença neste acto (.....). O apoio humano torna possível a realização de grandes obras, a sua projecção, a sua continuidade; e o calor e a amizade da vossa presença neste acto é, só por si, sinónimo de que devemos continuar: “No Mundo por Portugal, e em Portugal pela Figueira”.
Bem hajam.
Há 25 anos que “A Voz da Figueira” é a voz firme desta linda, encantadora e muito querida cidade da Figueira da Foz. Servimo-la com toda a dedicação na defesa dos seus legítimos interesses e na expansão e engrandecimento das suas inigualáveis belezas de cidade praia-mar-serra. Só por isso – e não só – todos, mas todos, sabem que “A Voz da Figueira” tem cumprido com independência e dignidade, o seu dever de jornal figueirense e é verdade – é imperioso que se diga – que bons e leais timoneiros ela encontrou ao longo destes 25 anos vividos!”.
Caderno: Tavaredenses com História
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Sociedade de Instrução Tavaredense - 26
Começamos este capítulo com um apontamento que julgamos interessante. Em Dezembro de 1932 e Janeiro de 1933, a peça “O Sonho do Cavador” foi representada pelo grupo cénico do Grupo Instrução e Recreio, de Quiaios, a quem foi emprestada. Colaborou nas representações, como protagonista, o amador tavaredense João da Silva Cascão, que já a havia protagonizado na nossa terra, e que, segundo lemos, foi sempre muito aplaudido.
Na sessão solene realizada no dia 15 de Janeiro de 1933, foi descerrada uma fotografia “que se encontrava coberta pelo velho estandarte”, a do benemérito Joaquim Felisberto Sotto Maior. Esta sessão foi presidida pelo Desembargador Dr. João Massagró que, a propósito do homenageado, “traçou o seu perfil moral, mostrando como a bondade da sua alma e as virtudes cívicas souberam conquistar a veneração de todo o povo do concelho da Figueira. O seu nome está inscrito a ouro na história das instituições de beneficência e de instrução que tem auxiliado, como está indelevelmente gravado no coração de tantos e tantos infelizes que lhe devem socorro inesquecível. Se todos os homens que possuem fortuna tomassem como exemplo a vida deste benemérito cidadão, nenhum pobre teria palavras de maldição para os ricos.....”.
Entretanto... “Teatro do Povo, pelo Povo e para o Povo” podia ser a divisa da Sociedade de Instrução naqueles já recuados tempos. Aos “Fidalgos” e às “Pupilas”, mais uma outra obra popular de Júlio Dinis foi posta em cena: “A Morgadinha dos Canaviais”. Deu a primeira representação no dia 27 de Maio de 1933.
Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 22
Havia, segundo o conteúdo desta acta, a hipótese de acabar com o Grupo Musical e fundar uma outra colectividade, pois que foi apresentada uma proposta em que se diz “se o Grupo deve ficar ou não com o mesmo título, sendo aprovado por maioria que o Grupo conserve o mesmo nome”. Continuava o problema de sempre, que eram as dívidas. Foi então nomeada uma Comissão de Contas para estudar a situação financeira da colectividade e aprovada uma proposta para que se publicasse, nos jornais figueirenses, um anúncio para que, no prazo de 8 dias a contar da publicação, os credores do Grupo apresentasse as suas contas. Devido a esta proposta, a assembleia foi suspensa, tendo recomeçado os trabalhos no dia 12 de Setembro seguinte.
A conclusão daquele grupo de trabalho foi a seguinte: “O total das contas recebidas atinge o valor de 2 408$10 a que acrescentando uma letra de 1 000$00 de que é credor o sócio Armando Amorim, se atinge o total de 3 408$10. Entretanto, alguns dos membros da Comissão de contas avistaram-se com todos os credores, pedindo-lhes uma redução entre 40 a 50% garantindo-lhes, sob sua palavra, a liquidação das que lhe diziam respeito, dentro do mais curto prazo de tempo possível, e informando-os ao mesmo tempo de que, se não anuíssem ao pedido feito, ficariam na eminência de nada receberem, porque se faria a entrega de todos os haveres a uma comissão liquidatária. Todos concordaram e a dívida ficou reduzida a 2 412$50. Considerava também a Comissão que a própria letra de 1 000$00 do sócio credor Armando Amorim não ofereceria qualquer problema pois este, certamente, daria todas as facilidades de prorrogação, com a indispensável reforma e garantia dos fiadores actuais”.
A última acta deste período diz respeito a uma assembleia realizada em 13 de Outubro de 1932, na qual são nomeados dois sócios honorários e um benemérito (Marcelino Duarte Pinto), sendo de seguida apresentada a seguinte proposta: “Que fique exarado na acta desta Assembleia Geral um voto de muito reconhecimento à benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, pelo grande auxílio prestado ao Grupo aquando da representação em nosso benefício da peça Os Fidalgos da Casa Mourisca. Um voto de muito reconhecimento ao ensaiador sr. José da Silva Ribeiro e a todos os amadores e pessoal de cena que na mesma peça prestaram o seu auxílio. Um voto de agradecimento ao jornal A Voz da Justiça, na pessoa do seu Director, sr. Manuel Jorge Cruz, pela propaganda desinteressada que do nosso Grupo o mesmo jornal tem feito nas suas colunas”.
Vamos, agora, muito resumidamente, dar nota da actividade desenvolvida pelo Grupo, apesar de todos os problemas mencionados.
Para que pudessem levar sessões cinematográficas, foi necessário pedir uma vistoria à Inspecção Geral dos Teatros e o resultado foi que “se encontra em óptimas condições para tais efeitos, podendo funcionar”. Foram vários os filmes apresentados. No dia 23 de Abril de 1930, uma notícia diz que “nos próximos domingo e segunda-feira vão os amadores do Grupo Musical, de Tavarede, representar a Leiria as operetas Entre duas Ave-Marias, Rosas de Nossa Senhora e Herança do 103. Os amadores vão animados do desejo de agradar em ambos os espectáculos”. Não encontrámos qualquer outra notícia sobre esta deslocação, mas no dia 13 de Julho houve récita na sede com aquelas duas últimas operetas, e no sábado seguinte, em espectáculo organizado pelos Sargentos da Guarnição Militar da Figueira, em benefício do Sanatório dos Sargentos, realizado no Teatro do Peninsular, o Grupo deu a sua colaboração com a representação do drama A cruz de guerra e a comédia Educação Inglesa. Pela noite de Natal, depois de vários anos de interrupção, o grupo cénico voltou a representar os Autos Pastoris.
Pelo Carnaval de 1931 foram apresentadas as comédias A propósito, Casar para morrer e Hospedaria infernal. Apesar da crise este espectáculo foi grátis para sócios e famílias. Em Abril foram a Maiorca apresentar Os dois nenés, Casar para morrer e Herança do 103. Certamente que terão havido outros espectáculos na sede, mas não temos registo. Em Agosto realizou-se uma reunião para se tentar a reorganização da tuna. Foi eleito, por maioria de votos, José Francisco da Silva para regente. Teve logo uma adesão de mais de 35 elementos e, ainda nesse mês, efectuaram diversas saídas para abrilhantar festas na Figueira, no Casal da Robala e em Gatões.
Com a mudança para a casa do Paço, o grupo cénico acabou. Ficou a música e, surge, pouco depois, esta informação na imprensa “na nova sede do Grupo Musical, que entrou numa fase de firme desenvolvimento, continuam as obras. As instalações ficarão muito boas, permitindo a realização de festas que a esplêndida tuna do Grupo abrilhantará”. A inauguração desta sede teve lugar no dia 18 de Outubro de 1931, festejando, também, o 20º aniversário da fundação. “O Grupo Musical entrou numa fase de desenvolvimento consciente e com firmeza, escolhendo com decisão o caminho que quer seguir. Com um esforço enorme, admirável – e quando alguém poderia supor que o Grupo ia morrer ingloriamente e sem o conforto dos sacramentos da Igreja – os rapazes do Grupo Musical conseguiram já reorganizar a sua tuna, agora constituída com muitos e valiosos elementos, e instalar-se na sua nova sede”. O programa constou de bailes, alvorada, almoço de confraternização e sessão solene.
Terminara, digamos que de forma inglória, um período cultural extraordinário. O teatro, com um grupo dramático composto por muitos valiosos elementos, saíra da sua sede e fora apresentar-se em vários palcos, frente a plateias conhecedoras e exigentes. A música, com a sua tuna considerada como a mais completa e bem organizada do concelho, alternou períodos bons com outros menos bons. As aulas nocturnas, de instrução primária, desenho, música e ginástica, deixaram de ter as condições necessárias ao seu funcionamento. Na nova sede, como veremos, a música ainda teve continuidade, assim como, durante algum tempo, as aulas da instrução primária.
Mas, antes de continuarmos, permitam-nos algumas reflexões. Para colmatar a falta do padre Manuel Vicente, morto devido ao acidente de viação ocorrido a caminho de Fátima, foi nomeado pároco da freguesia o padre José Martins da Cruz Dinis. Quando este aqui chegou, constatou que a Igreja era pouco frequentada pelos tavaredenses e pensou alterar a situação. Acabado de sair do Seminário, conservador convicto e admirar professo das ideias do Estado Novo, logo iniciou árduo trabalho para conseguir os seus objectivos. Não cabe aqui narrar a luta travada. Tavarede tinha bem arreigados no seu povo os princípios republicanos e bastará ler os jornais figueirenses da época para nos apercebermos do que foram aqueles tempos na terra do limonete. O padre Cruz Dinis, pessoa muito inteligente, procurou cativar os seus paroquianos através da instrução. As duas colectividades tinham aulas nocturnas e havia a escola primária oficial. No entanto, a freguesia era muito populosa e muitas crianças, e até adultos, não conseguiam frequentar aquelas aulas por falta de vagas. Resolveu, portanto, abrir nova aula para ensino das primeiras letras. Em breve a frequência atingiria os 40 a 50 alunos. A sua casa não tinha condições para manter as lições. Havia que procurar outro local capaz.
Além disso, também sabia que o teatro e a música, como antigas tradições locais, eram meios ideais para atrair a si novos fiéis. Porque não fundar nova colectividade estreitamente ligada à Igreja? Era difícil num meio tão pequeno e pobre. Haveria, talvez, uma outra solução. Certamente que nas colectividades já existentes haveriam muitos católicos, até mesmo praticantes... O Grupo Musical terá sido o alvo escolhido. Como conseguiu chamar a si e trazer para seu lado tantos grupistas que, esquecendo-se do trabalho desenvolvido pela colectividade em benefício da terra, permitiram e, mesmo, colaboraram na queda do Grupo, obrigando-o a vender a sua sede?
Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 21
Dois dos principais intervenientes nestas histórias e dos quais recordamos alguns apontamentos
uma inscrição dos sócios que quiserem contribuir com uma cota mensal de 5$00, ficando ilibados da cota mensal de 1$50, para que depois de conseguida essa inscrição com o número de sócios suficientes se procedesse à respectiva cobrança, com o fim de se pagar pontualmente a renda da casa e que é de…”. O valor está em branco mas sabemos que a renda estabelecida era de 2 000$00 anuais, ou 166$70 mensais.
A tentativa não resultou, pois aqueles enviados informaram a Direcção (Comissão Administrativa) que aquela casa não aceitava a nossa máquina para vender, pois não vendiam artigos em segunda mão e que também não a aceitavam por conta de uma outra, bem como “a máquina que nos convinha custava perto de dez mil escudos e que devíamos entrar de princípio com quatro mil escudos e depois em prestações mensais de mil escudos”. O negócio não se concretizou e também não encontrámos qualquer outra informação quanto à máquina que o Grupo tinha enviado para Lisboa.
1º. “Que a Direcção, apresentando pessoa que se responsabilize pelas dívidas contraídas, após a data da concordata negociada conforme Acta da Assembleia, que acaba de ser lida, pode sair livremente, logo que aos credores essa pessoa ou pessoas, mereçam confiança.
2º. (acaba aqui a acta, havendo somente linhas em branco até ao final da página).
No dia 27 de Agosto de 1931 houve nova assembleia extraordinária. A acta respectiva começa por referir que “depois de lida a acta anterior”, foi referido o facto da mesma não ter sido concluída, pediu-se para que a mesma fosse terminada mas, mesmo como estava, foi aprovada. Parece, portanto, que a indicação que lhe foi acrescentada de que era falsa, não está correcta. Também se refere que a reunião se efectua na nova sede do Grupo, portanto, já na casa do Paço.