quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 27


Pelas comemorações do 30º aniversário da colectividade, não houve teatro. Dessa vez, houve cinema. José da Silva Ribeiro havia sido preso pela polícia política. Durante as festas comemorativas, a colectividade decorou a sua sala de espectáculos com colchas e verduras, “destacando-se, ao fundo da plateia, o retrato do seu dedicadíssimo director da secção dramática”.
Diga-se, entretanto, que José Ribeiro, durante o tempo que esteve preso, no Porto e em Angra do Heroísmo, nos Açores, escreveu uma nova peça, no seguimento das que anteriormente se haviam levado à cena. De Júlio Dinis e da obra “Serões da Província”, fez uma adaptação do conto “Justiça de Sua Majestade”, tendo como colaboradores Alberto de Lacerda, que escreveu os versos, e dos maestros Raul Ferrão e Raul Portela e do amador António Simões, na música.
A actividade teatral parou, praticamente. Em 1934, apenas deram dois espectáculos, com reposição de peças já ensaiadas e representadas. A escola nocturna, no período escolar de 1933/1934 teve enorme frequência, chegando a atingir os 72 alunos matriculados. No relatório de 1935 e a este respeito, escreveu-se: “Tem continuado a funcionar regularmente a escola nocturna, tendo este ano uma frequência excepcional, pois atingiu um número de alunos de perto de oitenta, isto sem dúvida por estar encerrada a escola oficial desta freguesia; temos feito tudo quanto é possível para os alojarmos o melhor possível, mas dada a exiguidade da nossa sala, tivemos de transformar o bufete em sala de aula e mesmo assim temos tido dificuldade em os arrumar por forma a que o ensino possa ser profícuo”.
Como curiosidade, referimos que no final de 1935 a colectividade tinha 171 sócios. Pelos elementos de que dispomos, o número mais elevado tinha acontecido em 1932, com 220 sócios.
José Ribeiro embarcou, nos Açores, para regresso, nos primeiros dias de Agosto e duas semanas depois já se encontrava em Tavarede, retomando, de imediato, a sua actividade na Sociedade de Instrução. Não lhe foi possível fazer representar a sua nova peça pelo aniversário de 1935. O chamado “espectáculo de gala” foi preenchido com duas peças em um acto cada e, para completar, houve a colaboração do Grupo Bandolinista David de Sousa “que, na execução do seu difícil programa, sob a direcção de Abinabad Nunes da Silva, mais uma vez se afirmou como um núcleo excelente, capaz de fazer boa figura em toda a parte”.
A estreia de “Justiça de Sua Majestade” constituiu um brilhante êxito. “...... a opereta firmou-se, definitivamente, no agrado do público. O entusiasmo foi invulgar. Todos os números de música aplaudidos e muitos deles bisados. E o agrado do público exteriorizou-se mais calorosamente nos finais de acto, fazendo-se chamadas ao palco e obrigando o pano a subir repetidamente.
A música é lindíssima. Dois números são do maestro Raul Portela e cinco do maestro Raul Ferrão, e confirmam os méritos já consagrados dos seus autores; mas o distinto amador, nosso patrício António Simões, que é o autor de todos os restantes números da partitura, bem mereceu as grandes manifestações de aplauso com que o público o distinguiu, porque compôs, para os formosos versos de Alberto de Lacerda, música admirável, encantadora na melodia, rica de expressão e sempre conjugando-se harmonicamente com a ideia do poeta e a situação teatral. Muito bem! António Simões tem direito a parabéns”.
E a notícia conclue: “.... é um espectáculo agradável. Bem posta em cena, com cenários lindos, bom guarda-roupa e harmoniosa interpretação é um belo êxito do grupo tavaredense”.
No dia 3 de Maio daquele ano, o grupo cénico tavaredense deslocou-se ao Porto, onde, no Teatro Sá da Bandeira e em benefício do Asilo de S. João, apresentou aquela opereta. No capítulo seguinte, transcreveremos algumas das apreciações feitas a esta récita.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 26

(continuação)
"... O seu grupo cénico tem elementos de inegável valor e apresenta um conjunto dificil de exceder em amadores da sua categoria; mas o que mais simpatias lhe tem conquistado e lhe confere um lugar distinto entre a generalidade dos grupos amadores, é o modo como utiliza o palco, fazendo do teatro um instrumento poderoso de educação moral e artística da sua gente simples, a quem especialmente dedica os seus espectáculos..... A nova peça, mostra que a SIT continua fiel a este critério, tendo mais em atenção o seu fim educativo que os resultados da bilheteira".
Pela terceira vez o grupo tavaredense foi a Tomar, novamente em benefício da Casa da Sopa dos Pobres. "Todos os intérpretes dos magníficos espectáculos (Morgadinha dos Canaviais, Três Gerações, O 66 e Canção do Berço), foram calorosamente aplaudidos, tendo havido chamadas especiais, com muitas flores à mistura".
E no dia 26 de Junho, acedendo ao convite que lhe dirigiu o Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria de Coimbra, que comemorava, então, as suas bodas de ouro, a Sociedade de Instrução foi, pela primeira vez, mostrar o seu teatro à capital do distrito. De referir que a apresentação do grupo foi feita pelo ilustre figueirense e professor da Universidade, Dr. Joaquim de Carvalho, com "um primoroso discurso".
Os elogios na imprensa sucedem-se. Enquanto o "Diário de Coimbra" escreveu que trata-se, de facto, dum notável agrupamento artístico em que todos os elementos, com rara vontade e acerto, se desempenham dos seus papéis de maneira a causar a melhor impressão e a merecer elogios, a "Voz Desportiva" referiu que a peça foi primorosamente representada e o triunfo alcançado excedeu toda a espectativa. "O Despertar", em escrito do seu director, Ernesto Donato, escritor e crítico teatral, disse no que respeita ao desempenho desta linda peça, pelo grupo cénico da SIT - distinto grupo de amadores que bem pode considerar-se um dos melhores que pisam palcos portugueses - diremos, apenas, que todos os seus componentes colheram calorosos e bem merecidos aplausos, podendo considerar como uma noite de consagração das suas aptidões cénicas a noite que viveram, na última segunda-feira, no nosso Teatro Avenida.
Em agradecimento a esta deslocação, a Direcção daquele Grémio e alguns sócios, vieram, em Setembro, a Tavarede, entregar o diploma de Sócio Benemérito, que outorgaram à nossa colectividade, acompanhando-o da seguinte mensagem:
"Ao entregarmos hoje à vossa generosa guarda o diploma de Sócio Benemérito do Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria de Coimbra, move-nos apenas o mais puro sentimento de gratidão. Vós haveis conquistado os nossos corações de uma forma profunda e perdurável, colaborando desinteressadamente nas festas das nossas Bodas de Ouro, e ao mesmo tempo haveis conseguido que Coimbra vibrasse uninamemente connosco nos mesmos sentimentos de aplauso e reconhecimento. Graças ao vosso glorioso grupo cénico, ficou memorável a noite de 26 de Junho de 1933, na qual o público de Coimbra, aplaudindo vibrantemente a primorosa representação de A Morgadinha dos Canaviais, simultaneamente aplaudiu a vossa arte e a vossa benemerência. É um eco desses aplausos e um testemunho de gratidão que vos oferece o Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria de Coimbra".

(Por lapso, devido à não leitura de uma das disquetes onde tenho gravadas estas recordações, não foi incluido o acima na anterior nota)

João da Silva Cascão

Não, não é do nosso caro amigo maestro que vou contar qualquer coisa. É do pai, do saudoso João Cascão, um dos maiores amadores do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. Aliás, já aqui contei um pouco da sua biografia.


Estava há pouco a rever velhas fotografias, o que é sempre um enorme prazer para mim, quando deparei com a foto que agora publico. Não sei dizer quantos anos terá, pois a foto não está datada.

Mas vemos nela o nosso amigo João Cascão, casaco ao ombro e garrafão da mão, tal qual como um grande 'latifundiário', na sua pequena quinta, ali ao caminho da Chã, defronte da Escola e da Junta de Freguesia, e à qual dera o nome de baptismo de 'A Primorosa'. E, na verdade, era mesmo um primor quando a horta estava cuidadosamente tratada e o pomar bem arranjado.

Mas, para ele, a melhor colheita e proveito que ele tirava daquela exploração agrícola, era as uvas dos compridos corrimões e que ele transformava num vinho, nem sempre muito graduado, mas que era sempre, isso sim, um saboroso e fresco 'palhete'. Para o João Cascão era todos os anos 'o melhor de Tavarede e arredores'.

E então dava-lhe sempre um nome. Um dia, chegado o tempo de 'espichar' o pipo, quando chegou a Tavarede à sua adega, acompanhado de alguns amigos, entendeu ser oportuno fazer a prova da pinga daquele ano. Espicho aberto, copo cheio e erguendo-o à luz apreciou-lhe a cor. Depois provou-o, saboreou-o, deu o habitual estalinho com a língua, e acabou o copo. Voltou a encher para os amigos. Boa pinga, disseram eles.

Conversa puxa conversa, mais um copito agora e outro depois, quando se levantou do banco onde estava sentado, sentiu-se um pouco toldado. "Eh! pá, este marra no dono!", disse ele. Pois foi o nome dado à colheita daquele ano: O MARRA NO DONO.

Não se comparava, com toda a certeza, ao de outras colheitas, como o MORTE LENTA anterior. E foi esta pequena história que me lembrou ao ver a velha fotografia...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Virgínia Licungo


Vulgarmente era conhecida por todos como a “Virgínia Preta”. Era natural de Quelimane, Moçambique, donde a trouxera, muito pequena, João Gaspar de Lemos Amorim. Morreu, com 64 anos de idade, em Fevereiro de 1960.
“De pequenito nos habituámos a ver esta mulher de cor, com uma simpatia muito grande, dada a maneira como nos tratava. Fomos crescendo e sempre vimos nessa figura curiosa, uma amizade por nós, que justifica uma referência muito especial à sua memória.
… Faz-nos pensar nos ódios raciais, nas lutas diárias que se observam nalguns pontos do mundo. … Durante anos e anos vimo-la passar, de manhã cedo, ao lado da carroça que conduzia a fruta, a hortaliça e as flores para a venda. Era bondosa, alegre, sorridente, um tipo popular a que Tavarede se habituou e muito estimava”.


Caderno: Tavaredenses com História

José Maria de Carvalho

Natural de Almalaguês, onde nasceu no dia 1 de Abril de 1908, veio muito novo viver para a Vila do Robim, de que seu pai havia sido um dos compradores. Era filho de Ângelo de Carvalho e de Rosa Henrique de Oliveira.
Feita a instrução primária, logo se iniciou nas artes gráficas, aprendendo o ofício de tipógrafo. Integrou-se, também, no meio associativo local, com o maior entusiasmo. Foi dedicado amador teatral e director do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, até à extinção da sua secção dramática no ano de 1931, passando a fazer parte, nas mesmas actividades, no Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, que foi fundado em 1932, por iniciativa do pároco local, José Martins da Cruz Dinis, de quem foi grande amigo.
Durante muitos anos foi o correspondente local do jornal “O Figueirense”. Foi, também, presidente da Junta de Freguesia de Tavarede.
Foi sócio gerente da Escola Gráfica Figueirense e fundador do jornal “A Voz da Figueira”, cujo primeiro número saiu no dia 1 de Janeiro de 1953.
Casou com Maria Evangelina Lopes Migueis, (que faleceu no dia 4 de Fevereiro de 1951, com 42 anos de idade), tendo tido três filhos: Maria de Lourdes, Carlos Alberto e Maria Celeste. Enviuvando, casou, em segundas núpcias, com Carmina Tondela dos Reis Carvalho, (falecida em 13 de Fevereiro de 1983, com a idade de 69 anos) não havendo descendentes desta união.
Tinha 78 anos de idade, quando faleceu no dia 4 de Maio de 1986.

José Maria de Carvalho com a esposa, Carmina Tondela dos Reis Carvalho


“Era um homem ainda não acabado, mas ciente de que o fim estava próximo. Várias vezes afirmava isso mesmo: - ‘Para o ano já cá não estarei. Sinto-me cansado, mesmo muito cansado!’. Mas dizia isto trabalhando na sua tipografia, compondo e executando os diversos afazeres do dia a dia. No dia seguinte, lá estava às nove horas, para a abertura da sua oficina, que é também a redacção do jornal. … ou até mais tarde, a cavaquear em ambiente de lanche, sem restrições, a consolar um amigo, a preocupar-se com qualquer situação adversa, dando indicações e conselhos úteis, fruto da sua experiência e sabedoria geral”.
Por ocasião das “Bodas de Prata” do seu jornal, em Janeiro de 1978, reuniu, em confraternização, todos os seus colaboradores. Pronunciou, então, um comovente e apaixonado discurso de que destacamos:
“… Estamos em festa. Dou-vos as boas vindas e agradeço, do fundo do meu coração, a vossa presença neste acto (.....). O apoio humano torna possível a realização de grandes obras, a sua projecção, a sua continuidade; e o calor e a amizade da vossa presença neste acto é, só por si, sinónimo de que devemos continuar: “No Mundo por Portugal, e em Portugal pela Figueira”.
Bem hajam.
Há 25 anos que “A Voz da Figueira” é a voz firme desta linda, encantadora e muito querida cidade da Figueira da Foz. Servimo-la com toda a dedicação na defesa dos seus legítimos interesses e na expansão e engrandecimento das suas inigualáveis belezas de cidade praia-mar-serra. Só por isso – e não só – todos, mas todos, sabem que “A Voz da Figueira” tem cumprido com independência e dignidade, o seu dever de jornal figueirense e é verdade – é imperioso que se diga – que bons e leais timoneiros ela encontrou ao longo destes 25 anos vividos!”.

Caderno: Tavaredenses com História

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 26


Começamos este capítulo com um apontamento que julgamos interessante. Em Dezembro de 1932 e Janeiro de 1933, a peça “O Sonho do Cavador” foi representada pelo grupo cénico do Grupo Instrução e Recreio, de Quiaios, a quem foi emprestada. Colaborou nas representações, como protagonista, o amador tavaredense João da Silva Cascão, que já a havia protagonizado na nossa terra, e que, segundo lemos, foi sempre muito aplaudido.
Na sessão solene realizada no dia 15 de Janeiro de 1933, foi descerrada uma fotografia “que se encontrava coberta pelo velho estandarte”, a do benemérito Joaquim Felisberto Sotto Maior. Esta sessão foi presidida pelo Desembargador Dr. João Massagró que, a propósito do homenageado, “traçou o seu perfil moral, mostrando como a bondade da sua alma e as virtudes cívicas souberam conquistar a veneração de todo o povo do concelho da Figueira. O seu nome está inscrito a ouro na história das instituições de beneficência e de instrução que tem auxiliado, como está indelevelmente gravado no coração de tantos e tantos infelizes que lhe devem socorro inesquecível. Se todos os homens que possuem fortuna tomassem como exemplo a vida deste benemérito cidadão, nenhum pobre teria palavras de maldição para os ricos.....”.
Entretanto... “Teatro do Povo, pelo Povo e para o Povo” podia ser a divisa da Sociedade de Instrução naqueles já recuados tempos. Aos “Fidalgos” e às “Pupilas”, mais uma outra obra popular de Júlio Dinis foi posta em cena: “A Morgadinha dos Canaviais”. Deu a primeira representação no dia 27 de Maio de 1933.

Violinda Medina, em “A Morgadinha dos Canaviais

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 22


Havia, segundo o conteúdo desta acta, a hipótese de acabar com o Grupo Musical e fundar uma outra colectividade, pois que foi apresentada uma proposta em que se diz “se o Grupo deve ficar ou não com o mesmo título, sendo aprovado por maioria que o Grupo conserve o mesmo nome”. Continuava o problema de sempre, que eram as dívidas. Foi então nomeada uma Comissão de Contas para estudar a situação financeira da colectividade e aprovada uma proposta para que se publicasse, nos jornais figueirenses, um anúncio para que, no prazo de 8 dias a contar da publicação, os credores do Grupo apresentasse as suas contas. Devido a esta proposta, a assembleia foi suspensa, tendo recomeçado os trabalhos no dia 12 de Setembro seguinte.
A conclusão daquele grupo de trabalho foi a seguinte: “O total das contas recebidas atinge o valor de 2 408$10 a que acrescentando uma letra de 1 000$00 de que é credor o sócio Armando Amorim, se atinge o total de 3 408$10. Entretanto, alguns dos membros da Comissão de contas avistaram-se com todos os credores, pedindo-lhes uma redução entre 40 a 50% garantindo-lhes, sob sua palavra, a liquidação das que lhe diziam respeito, dentro do mais curto prazo de tempo possível, e informando-os ao mesmo tempo de que, se não anuíssem ao pedido feito, ficariam na eminência de nada receberem, porque se faria a entrega de todos os haveres a uma comissão liquidatária. Todos concordaram e a dívida ficou reduzida a 2 412$50. Considerava também a Comissão que a própria letra de 1 000$00 do sócio credor Armando Amorim não ofereceria qualquer problema pois este, certamente, daria todas as facilidades de prorrogação, com a indispensável reforma e garantia dos fiadores actuais”.
A última acta deste período diz respeito a uma assembleia realizada em 13 de Outubro de 1932, na qual são nomeados dois sócios honorários e um benemérito (Marcelino Duarte Pinto), sendo de seguida apresentada a seguinte proposta: “Que fique exarado na acta desta Assembleia Geral um voto de muito reconhecimento à benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense, pelo grande auxílio prestado ao Grupo aquando da representação em nosso benefício da peça Os Fidalgos da Casa Mourisca. Um voto de muito reconhecimento ao ensaiador sr. José da Silva Ribeiro e a todos os amadores e pessoal de cena que na mesma peça prestaram o seu auxílio. Um voto de agradecimento ao jornal A Voz da Justiça, na pessoa do seu Director, sr. Manuel Jorge Cruz, pela propaganda desinteressada que do nosso Grupo o mesmo jornal tem feito nas suas colunas”.
Vamos, agora, muito resumidamente, dar nota da actividade desenvolvida pelo Grupo, apesar de todos os problemas mencionados.
Para que pudessem levar sessões cinematográficas, foi necessário pedir uma vistoria à Inspecção Geral dos Teatros e o resultado foi que “se encontra em óptimas condições para tais efeitos, podendo funcionar”. Foram vários os filmes apresentados. No dia 23 de Abril de 1930, uma notícia diz que “nos próximos domingo e segunda-feira vão os amadores do Grupo Musical, de Tavarede, representar a Leiria as operetas Entre duas Ave-Marias, Rosas de Nossa Senhora e Herança do 103. Os amadores vão animados do desejo de agradar em ambos os espectáculos”. Não encontrámos qualquer outra notícia sobre esta deslocação, mas no dia 13 de Julho houve récita na sede com aquelas duas últimas operetas, e no sábado seguinte, em espectáculo organizado pelos Sargentos da Guarnição Militar da Figueira, em benefício do Sanatório dos Sargentos, realizado no Teatro do Peninsular, o Grupo deu a sua colaboração com a representação do drama A cruz de guerra e a comédia Educação Inglesa. Pela noite de Natal, depois de vários anos de interrupção, o grupo cénico voltou a representar os Autos Pastoris.
Pelo Carnaval de 1931 foram apresentadas as comédias A propósito, Casar para morrer e Hospedaria infernal. Apesar da crise este espectáculo foi grátis para sócios e famílias. Em Abril foram a Maiorca apresentar Os dois nenés, Casar para morrer e Herança do 103. Certamente que terão havido outros espectáculos na sede, mas não temos registo. Em Agosto realizou-se uma reunião para se tentar a reorganização da tuna. Foi eleito, por maioria de votos, José Francisco da Silva para regente. Teve logo uma adesão de mais de 35 elementos e, ainda nesse mês, efectuaram diversas saídas para abrilhantar festas na Figueira, no Casal da Robala e em Gatões.
Com a mudança para a casa do Paço, o grupo cénico acabou. Ficou a música e, surge, pouco depois, esta informação na imprensa “na nova sede do Grupo Musical, que entrou numa fase de firme desenvolvimento, continuam as obras. As instalações ficarão muito boas, permitindo a realização de festas que a esplêndida tuna do Grupo abrilhantará”. A inauguração desta sede teve lugar no dia 18 de Outubro de 1931, festejando, também, o 20º aniversário da fundação. “O Grupo Musical entrou numa fase de desenvolvimento consciente e com firmeza, escolhendo com decisão o caminho que quer seguir. Com um esforço enorme, admirável – e quando alguém poderia supor que o Grupo ia morrer ingloriamente e sem o conforto dos sacramentos da Igreja – os rapazes do Grupo Musical conseguiram já reorganizar a sua tuna, agora constituída com muitos e valiosos elementos, e instalar-se na sua nova sede”. O programa constou de bailes, alvorada, almoço de confraternização e sessão solene.
Terminara, digamos que de forma inglória, um período cultural extraordinário. O teatro, com um grupo dramático composto por muitos valiosos elementos, saíra da sua sede e fora apresentar-se em vários palcos, frente a plateias conhecedoras e exigentes. A música, com a sua tuna considerada como a mais completa e bem organizada do concelho, alternou períodos bons com outros menos bons. As aulas nocturnas, de instrução primária, desenho, música e ginástica, deixaram de ter as condições necessárias ao seu funcionamento. Na nova sede, como veremos, a música ainda teve continuidade, assim como, durante algum tempo, as aulas da instrução primária.
Mas, antes de continuarmos, permitam-nos algumas reflexões. Para colmatar a falta do padre Manuel Vicente, morto devido ao acidente de viação ocorrido a caminho de Fátima, foi nomeado pároco da freguesia o padre José Martins da Cruz Dinis. Quando este aqui chegou, constatou que a Igreja era pouco frequentada pelos tavaredenses e pensou alterar a situação. Acabado de sair do Seminário, conservador convicto e admirar professo das ideias do Estado Novo, logo iniciou árduo trabalho para conseguir os seus objectivos. Não cabe aqui narrar a luta travada. Tavarede tinha bem arreigados no seu povo os princípios republicanos e bastará ler os jornais figueirenses da época para nos apercebermos do que foram aqueles tempos na terra do limonete. O padre Cruz Dinis, pessoa muito inteligente, procurou cativar os seus paroquianos através da instrução. As duas colectividades tinham aulas nocturnas e havia a escola primária oficial. No entanto, a freguesia era muito populosa e muitas crianças, e até adultos, não conseguiam frequentar aquelas aulas por falta de vagas. Resolveu, portanto, abrir nova aula para ensino das primeiras letras. Em breve a frequência atingiria os 40 a 50 alunos. A sua casa não tinha condições para manter as lições. Havia que procurar outro local capaz.
Além disso, também sabia que o teatro e a música, como antigas tradições locais, eram meios ideais para atrair a si novos fiéis. Porque não fundar nova colectividade estreitamente ligada à Igreja? Era difícil num meio tão pequeno e pobre. Haveria, talvez, uma outra solução. Certamente que nas colectividades já existentes haveriam muitos católicos, até mesmo praticantes... O Grupo Musical terá sido o alvo escolhido. Como conseguiu chamar a si e trazer para seu lado tantos grupistas que, esquecendo-se do trabalho desenvolvido pela colectividade em benefício da terra, permitiram e, mesmo, colaboraram na queda do Grupo, obrigando-o a vender a sua sede?