sexta-feira, 2 de julho de 2010

Garraiada







"Está despertando grande interesse esta diversão tauromáquica, que deve ter a sua realização no dia 7 do próximo mês de Outubro e é promovida pelo Grupo Musical Tavaredense.
O gado, que já se encontra apartado na acreditada ganadaria dos irmãos Plácidos, - dizem-me que é corpulento e bravos, para assim poderem satisfazer os mais exigentes.
A garraiada do próximo dia 7, constituirá uma diversão alegre e cheia de graça, e disto estamos convencidos, porque já formaram na precedente, a habilidade dos artistas que nela tomam parte.
Para bandarilheiros teremos, entre outros: Antonio Lopes, José Silva, Albino Pereira de Brito, José Marques, Joaquim Rodrigues, João Medina, Manuel Nogueira.
Os tancredos serão compostos por quatro destemidos rapazes; para moços de forcados estão já firmadas as assinaturas de Manuel Jorge Beato (cabo), Mario Cordeiro, José Fernandes Serra, Antonio Machado, João Nogueira, Abilio dos Santos, Luiz Guerra e Pedro Medina, que farão as pegas que lhe forem indicadas, e entre tantas outras pessoas que se destinam a esta diversão, com vários numeros interessantes, teremos dois cavaleiros, que nos dizem ser coisa boa e fina. Pois um deles é uma creança de 9 anos.
Como se vê, a garraiada de Tavarede – como muita gente por aí divulga – vai constituir uma diversão interessante, oxalá que assim suceda, para honra de seus organizadores. No estabelecimento da srª D. Emilia Cordeiro Lopes, já se encontram bilhetes à venda".

Esta notícia anuncia uma garraiada que o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense promoveu, no Coliseu Figueirense, para angariação de fundos, de que tanto necessitava para liquidar as suas dívidas. Mas os resultados financeiros não devem ter sido compensadores, como comenta uma nota seguinte.

"Os rapazes de Tavarede que no domingo realizaram a anunciada garraiada não tiveram a sorte de encher a casa, não obstante o sol ter aparecido livremente a animar a diversão. Mas conseguiram ainda levar ao Coliseu muitas centenas de aficionados.
A lide decorreu com as peripécias habituais, tendo por vezes fases animadas, provocadores de risota.
Alguns dos lidadores esforçaram-se por corresponder às exigências da arte de Montes; outros ficaram condenados a não tornarem a aparecer no redondel.
Música pela Figueirense, 10 de Agosto e tuna do Ervedinho. Povoléu no sol e galeria representando largamente as aldeias e casais dos arredores.

No ano seguinte promoveram nova diversão tauromáquica.

"Como noticiámos, realizou-se no dia 29 do corrente no Coliseu Figueirense, a garraiada organizada pelo Grupo Musical e d’Instrução Tavaredense. Não nos enganámos ao noticiar que a garraiada resultaria esplêndida se o tempo o permitisse. Assim foi. O tempo esteve agradável, e a garraiada foi brilhante. Todos os rapazes se desempenharam o melhor que puderam dos papeis de que estavam encarregados, e salientamos os cavaleiros que se portaram galhardamente.
Ainda bem".

Julgo que foi a última garraiada promovida por tavaredenses. Ainda tentaram em anos seguintes, mas as condições apresentadas pela gerência da praça, eram incomportáveis. Foi pena, pois, mesmo assim, ainda se realizaram quatro ou cinco vezes e sempre tinham agradado.
Fotos retiradas da internet

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 26


Por mais de uma vez, o Grupo Musical solicitou a colaboração da Sociedade de Instrução para a cedência da sua sala de espectáculos. A sala que dispunham na Casa do Paço precisava de ser ampliada e, com o acordo do proprietário, fizeram as obras.
Uma notícia, em Janeiro de 1935, refere que “estão em fase de acabamento as obras que desde algum tempo se estavam fazendo no salão deste Grupo. O salão fica magnífico, pois tem quase o dobro do tamanho que tinha, sofrendo ainda outras modificações e arranjos, etc. Para a sua inauguração está marcado um grande baile, no próximo sábado, 12, que será abrilhantado pelo “Jazz Figueira Orquestra”, sob a proficiente direcção do sr. António de Oliveira Cordeiro”.
A tuna, reforçada por novos elementos provenientes da sua escola de música, entretanto reposta em actividade, continuava a ser solicitada para abrilhantar diversas festas populares, muito em especial nos lugares vizinhos da aldeia.
Nas festas comemorativas do 25º aniversário da fundação, durante a sessão solene realizada no domingo, 25 de Outubro, “prestou-se homenagem a um dedicado amigo do Grupo Musical Tavaredense: foi descerrado, pela filhinha do homenageado, Maria Isabel, o retrato do sr. Marcelino Duarte Pinto… O sr. Presidente, referindo-se com palavras de justo louvor ao valioso auxílio prestado pelo sr. Marcelino Pinto à associação, justifica a homenagem prestada, demonstrando que os sócios do Grupo Musical não esquecem as pessoas que desinteressadamente os ajudam na vida associativa”. Acrescentamos que o homenageado, proprietário da casa do Paço, sempre recebeu uma renda praticamente simbólica.
Começaram, então, a realizar, com frequência, festas dançantes, que atraíam ao seu salão numerosa assistência. Aos sábados e domingos, com as melhores orquestras da região, a mocidade acorria e dançava animadamente. E davam sempre, a estas festas, os mais atractivos nomes. Por exemplo, em Maio de 1938, realizaram a “Festa da Primavera”.
“Excedeu tudo quanto prevíramos esta animadíssima festa, que teve início no sábado, pelas 22 e meia horas. A concorrência foi grande, apesar do mau estado do tempo.
Só pelas 3 e meia horas terminou este baile – primeiro dia da “Festa da Primavera”.
No domingo à tarde, pelas 16 horas, já o salão estava completamente cheio, sendo de lamentar que fosse tão pequeno para tão grande concorrência, pois, às vezes, dançava-se dificilmente.
Eram 16 e meia horas quando a orquestra deu inicio à “matinée”, e em seguida procedeu-se ao sorteio do brinde, que coube ao nº 1011. O bilhete premiado tinha sido dirigido à Direcção do Ateneu Alhadense, com mais quatro bilhetes juntos.
E o baile continuou com a mesma animação até perto das 21 horas.
As orquestras “Caixeiros Melody Jazz” e “Ginásio Jazz” agradaram muito, como de costume.
O salão estava vistosamente ornamentado”.


E no domingo 19 de Junho, mais uma vez em colaboração com a Sociedade de Instrução, realizaram novo passeio de confraternização, desta vez ao pinhal da Borlateira, nos Condados, gentilmente cedido para esse fim pelo seu proprietário, sr. Dr. Manuel Gomes Cruz. Foi uma tarde agradavelmente passada, comentam as notícias publicadas…

Foto - Dr. Manuel Gomes Cruz - proprietário da Quinta e Pinhal da Bogalheiro

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense - 25


A tuna, como já referimos, era dirigida pelo tavaredense José Francisco da Silva. Registemos o facto de, no domingo de Páscoa de 1932, visitar, pela primeira vez, a sede da Sociedade de Instrução, onde “foi gentilmente recebida pela Direcção”.
Nesse ano estas duas colectividades organizaram, em conjunto, festas populares, preparando e armando um pavilhão no largo do Paço. Diz uma notícia que “notou-se a presença de rapazes e raparigas que até aqui amaldiçoavam os organizadores do festival. Afinal, estas festas, em que a mocidade dá largas à folia, influência alguma poderia exercer na crença de cada um…”.
São escassas as notícias que se encontram na imprensa figueirense e, como já notámos, não existem actas nestes anos de 1933 a 1936. E os jornais publicitavam, e abundantemente, as actividades da Sociedade de Instrução e do Grémio Educativo, e muito pouco as do Grupo Musical.
No dia 13 de Maio de 1934, teve lugar uma “matinée” dramática-musical, organizada pelo Grupo Musical na sede da Sociedade de Instrução. “A tuna do Grupo, que executará parte do programa, será reforçada por vários elementos do concelho, num conjunto de 50 executantes. É de prever que este serão de arte deixe bem impressionado o público, porque os seus componentes se esforçarão em conquistar os maiores aplausos”.
“Teve bastante concorrência… ….e obteve quentes aplausos em todos os números que executou”. Na quinta-feira de Ascensão novamente as duas colectividades se uniram e promoveram um passeio à Serra da Boa Viagem, tendo a tuna abrilhantado o encontro.



As festas do 23º aniversário tiveram um programa diferente. Acabaram com um sarau, na sala da Sociedade de Instrução, com a “apresentação da tuna, que executará vários números de concerto; representação da pequena peça em 1 acto, em verso, 1023, de Júlio Dantas, pela secção dramática do Ginásio Clube Figueirense; e, fechando com chave de ouro, o excelente Grupo de Bandolinistas David de Sousa, que executará alguns números do seu reportório”.
“Tínhamos aqui dito que o sarau fecharia com chave de ouro. E assim foi. Os Bandolinistas David de Sousa formam um grupo tão homogéneo, tão equilibrado e de tão firme execução, que fará brilhante figura em qualquer parte onde se apresente, mesmo perante os amadores de música mais exigentes. Admirável o seu concerto de sábado no nosso teatro! Ouvimos, deliciados, todos os números, e tivemos ensejo de apreciar a disciplina dos vários elementos que constituem o grupo. A acção competentíssima do seu regente triunfou em tudo, fazendo-se sentir em todos os pormenores da brilhante execução. O sr. Abinabad Nunes da Silva tem motivos para estar contente, porque viu e sentiu que o seu trabalho foi frutuoso. Daqui o felicitamos muito sinceramente e aos seus cooperadores, juntando os nossos aos aplausos ao de toda a assistência”

Sociedade de Instrução Tavaredense - 30

O teatro, como Arte, tem uma alta função social a desempenhar. Alguém disse ser o teatro a escola da Vida. No entanto, quanto se tem afastado da sua finalidade, nos últimos tempos!... Mas não são unicamente as exigências do público que imperiosamente o determinam. E, assim, o próprio teatro de amadores que por aí temos visto, está longe de ser uma escola de educação, e não satisfaz ao fim que dele haveria a esperar. Por isso nos surpreende cada uma das representações da Sociedade de Instrução Tavaredense, cujo teatro é uma escola modelo de formação moral e espiritual”.
Retirámos este apontamento duma crítica publicada no Diário de Coimbra, a propósito de um espectáculo com a peça “A Cigarra e a Formiga”, em benefício da Obra do Enxoval do Recém-nascido da Maternidade Dr. Daniel de Matos. E depois de diversos comentários elogiosos, quer à peça, quer à música e encenação, refere-se aos versos de Alberto de Lacerda “cheios de lirismo, que, intervalados na peça, concorrem para um conjunto admirável, de forma a dar uma impressão de beleza e arte que jamais se apagará da memória dos que tiveram o prazer de a escutar”.
Transcreve, depois, o poema do Amor que João Cascão “disse com profundo sentimento” e acaba assim:
“E eu próprio, à face de Deus,
escolhendo a mãe dos meus
e abraçando-a com fervor;
eu próprio, neste momento,
sabeis o que represento?
= Curvai-vos, que é isto o amor!
É assim A Cigarra e a Formiga. Tem qualquer coisa de profundamente verdadeiro, aquela “fantasia”, e tudo nela é belo, humano e cristão!... No desempenho não queremos destacar qualquer dos componentes, de tal forma excedem todos o que de amadores teria de esperar o espectador mais exigente. O conjunto é homogéneo, equilibrado, superior a muitos que se dizem profissionais e que só aparecem tentando impingir-nos gato por lebre...”.
Das peças representadas por esta ocasião, destacou-se, também, A Morgadinha de Valflor, “jóia admirável do nosso teatro romântico”, como escreveu José Ribeiro. Da sua deslocação a Coimbra recortamos esta nota: “É a peça que, pelas suas dificuldades, menos se recomenda para amadores. Mas o grupo da Figueira (Tavarede) soube interpretá-la com uma elevação muito notável, conseguindo manter, de começo a final, um equilíbrio perfeito que lhe evitou o ridículo. Os componentes do referido grupo firmaram na noite de ontem os créditos que já tinham alcançado nesta cidade. Foram duma correcção absoluta e, em determinadas cenas, duma justeza que não deixaria mal colocados os profissionais”.


Como nota curiosa, transcrevemos mais este apontamento que encontrámos numa notícia relativa à mesma peça: “....muitas pessoas que aqui (Figueira) têm visto a Morgadinha de Valflor representada por várias companhias, encontrarão agora alguma coisa de novo: o grupo tavaredense apresenta o terceiro acto como Pinheiro Chagas o escreveu, com as cenas de romaria, de ambiente pitoresco, com as danças, os descantes, a musicata com rabecas e violas, o “estrondo” com o característico gaiteiro, etc.”.
Em Junho de 1936, uma comissão de sócios organizou uma festa dançante, que intitulou de “Festa da Lúcia-Lima”. “A ornamentação em toda a casa era de excelente efeito, pela profusão de rosas que se destacavam sobre o fundo verde das heras. O aroma a limonete predominava. A escada e o corredor estavam transformados num pitoresco e aprazível túnel de heras e de flores”. Deram a sua colaboração a esta festa duas excelentes orquestras figueirenses, de que bem nos recordamos: Caixeiros Melody Jazz e Ginásio Jazz.
Eram sempre bastante concorridas e animadas, tanto as realizadas dentro da sede como no terreno anexo, onde agora foi construído o pavilhão desportivo. Há já muitos, mesmo muitos anos que acabaram, em Tavarede, tais festas. Também, e diga-se com verdade, já não haveria limonete nem flores suficientes para uma ornamentação daquelas!...


Foto - A Morgadinha de Valflor (arquivo da SIT)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 29

É digno de registo o facto de, só nos anos de 1935 e 1936, o grupo tavaredense se ter deslocado a Coimbra efectuar oito espectáculos, sete em benefício e o último, em 14 de Dezembro de 1936, com a peça “O Sonho do Cavador”, numa organização de todas as instituições beneficentes daquela cidade e cuja receita ofereceram à colectividade.
“... teve uma receita líquida de 6.112$50. As casas de caridade que tinham convidado o nosso grupo dramático a ir ali, prepararam tudo de forma a que aos nossos amadores fosse fornecida uma refeição, o que demonstra que se não esquecem dos benefícios que o nosso grupo tem prestado às referidas casas de caridade”.
A reposição de “O Sonho do Cavador”, segundo o relatório da direcção, “... de tão gloriosas tradições, era pensamento que há muito animava o nosso director cénico, mas só agora levou a efeito essa ideia, para o que refundiu esta peça, tanto na parte literária, como na musical, que o nosso querido amigo e maestro desta Sociedade, sr. António Simões, encheu de lindíssimos números de música...”.
Como sabemos, uma das peças do reportório, naqueles anos, era “As pupilas do Senhor Reitor”. Do romance de Júlio Dinis, também foi feita uma adaptação cinematográfica. A este propósito, José Ribeiro recebeu uma carta de que transcrevemos: “Há largos meses, encontrava-me por acaso em Tomar, vi anunciado para essa noite um espectáculo com a opereta As pupilas do Sr. Reitor, por amadores de Tavarede. Fez-me o caso espécie e resolvi ir ao teatro. Julgava eu ir desopilar largamente a figadeira. Ao finalizar o primeiro acto – e repare que não digo ao principiar... – estava entusiasmado. O libretto é defeituoso. E compreende-se, em opereta extraída de romance. Mas o desempenho, os cenários, a indumentária e a música, formam um todo que não esquece facilmente. Em especial, colhe-se desse espectáculo o espírito das autênticas Pupilas. Respeita-se, com todo o escrúpulo, o intuito do autor.
Quis saber a que título vinha de tão longe da Figueira da Foz, um núcleo de amadores assim; quem o fizera, quais os objectivos. Para encurtar, porque V. era capaz de não consentir pormenores: fui-lhe apresentado e formei a par dos admiradores da sua Sociedade. E – deixe lá passar esta – ao sair do Parque, há dias, após a projecção da fita, tive pena, sincera mágoa, de não acompanhar de perto, desde o início, a filmagem. É que ter-me-ia permitido sugerir ao realizador, a preciosa ideia de obter uma representação das Pupilas do Senhor Reitor, pela companhia de Tavarede, para ver bem como pode fazer-se arte, com as Pupilas, as do Júlio Dinis”.


Na comemoração do 32º aniversário, o grupo cénico apresentou um espectáculo diferente. “..... os sócios acorreram com suas famílias à récita de gala, que foi uma bela noite de arte. A representação da encantadora peça “Canção do Berço”, oferecida à SIT pelo seu tradutor, o ilustre poeta dr. Carlos Amaro e que três dias antes fôra vista no cinema, na Figueira, sob o nome de “Filha de Maria”, serviu para nos mostrar um esplêndido grupo de dez amadoras, como só dificilmente se reunirá, algumas das quais estreantes e que fizeram figura brilhante”. Voltaremos, lá mais para a frente, a esta peça e a este filme, a propósito de um espectáculo organizado pela Misericórdia da Figueira.
A sessão solene daquele aniversário ficou memorável. Diversas instituições filantrópicas de Coimbra, gratas pelos espectáculos de beneficência dados, naquela cidade, pelo nosso grupo, vieram trazer expressivas mensagens de saudação e gratidão. Seria descabido estar aqui a transcrevê-las. Para a nossa história, somente deixamos uns pequenos recortes.
Da Associação dos Diabéticos Pobres: “... verdadeira justiça, que todos vós soubestes conquistar, honrando e enaltecendo a terra que vos foi berço, levando por toda a parte o nome de Tavarede a ser respeitado e considerado por todos, porque a vossa benemerente Sociedade espalha o BEM e exerce a CARIDADE, com tanta singeleza, com tanta modéstia, que a todos enternece, impressiona e encanta”.
Do Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria de Coimbra: “... Coimbra, numa soma bem elevada, é, já hoje, devedora à benemérita Sociedade de Instrução Tavaredense de muitas e muitas parcelas de gratidão. As colectividades beneficiárias têm podido, com o generoso auxílio de tão útil como benemérita instituição, levar algum bem-estar, alguns sorrisos aos seus respectivos protegidos”.

Foto - Entre Giestas (arquivo da SIT)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

João Carlos Oliveira Santos


João Carlos


Chegou a tua hora. Foi agora a tua vez de partir. Um a um, aquele grupo de crianças amigas que viviam nas proximidades da Sociedade de Instrução Tavaredense, vão desaparecendo. É pena, mas a vida é mesmo assim.

Recordo, com que imensa ternura, aqueles bocados da nossa meninice, em que brincávamos todos juntos. Tu moravas com os teus avós, na casa da SIT, com a entrada junto ao terreno onde jogávamos à bola (de trapos), e onde mais tarde fizeram um campo de basquete e, já recentemente, um pavilhão gimnodesportivo.

Quando o tempo não permitia brincadeiras na rua, juntávamo-nos naquele quartito, logo à entrada e do lado esquerdo, onde estava guardada, entre muitas bugigangas, uma velha máquina de projectar. E também lá havia umas bobines de filmes, bem antigos. Tu eras muito habilidoso e conseguias pôr a velha máquina a projectar aqueles filmes. O écran era a parede.

Lá havia, ainda, uma velha grafonola, daquelas que era preciso dar à manivela para trabalhar, e alguns discos. Tu lá conseguias arranjar música. Para dar ambiente às nossas sessões cinematográficas...

Uma vez, a SIT realizou um baile de passagem do ano. Ainda era a casa antiga. Uma janela que do palco dava para a rua, tinha sido tapada com papel de cenário. Quando tocaram as doze badaladas, uma criança, vestida como um 'S. João', rompe o papel e salta da janela para o palco. Eras tu, que figuravas o Novo Ano acabado de entrar...

Fizémos parte do grupo cénico. Uma vez, por um Carnaval, o Mestre José Ribeiro ensaiou-nos aos dois para representarmos 'As Comadres' do Sonho do Cavador. Nunca me esqueceu. Eu, com o pote da água à cabeça e de chinelas e tu com o molho da lenha... Quando recordo tudo isto não posso deixar de me comover. Mas a verdade é que, a pouco e pouco, aquele grupinho brincalhão vai desaparecendo para sempre...

Como habilidoso que eras seguiste a música. Além de bom executante, o que não admira pois teu Pai havia sido músico da Orquestra Ginásio e foi o último regente da célebre tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, também foste compositor. Tinhas talento.

Mas agora, e depois de, infelizmente, longo período de sofrimento, partiste e não mais regressas. Os teus amigos e companheiros da actual tuna de Tavarede vão sentir a tua falta. Paciência, é a lei da vida.

Até sempre, João Carlos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Reveles

Tenho uma costela Revelense, pois minha Mãe era dali natural. Curiosamente, por parte de meu Pai, também tenho origens de Verride, bem perto de Reveles.

Hoje vou recordar esta terra, onde eu tanto gostava de ir, especialmente pelas festas à Senhora da Saúde, porque encontrei uns retalhos muito interessantes.

"Foi no domingo passado a romaria da Senhora da Saúde, que se venera n’uma poetica ermida situada na encosta do monte de Revelles, à beira do nosso indolente Mondego. Esteve muito concorrida, e contra o costume dos outros annos, não houve d’esta vez a lamentar desordem alguma. De tarde viam-se numerosos ranchos de romeiros em alegres descantes". Foi publicado em Agosto de 1876.

Mas aqui vai uma descrição de Reveles, que também encontrei publicada na imprensa figueirense: "Vários escritores se têm referido com justificado louvor aos passeios que da Figueira, como centro de turismo, se poderão realizar em curtas horas a sítios que merecem ser visitados, quer pelos seus panoramas, quer pelos seus monumentos, como sejam entre outros: - Lagoas de Quiaios, Quinta do Canal, Montemor-o-Velho, S. Marcos, Conímbriga, Coimbra, Alcobaça, Batalha, Buçaco, etc..
Não temos lido, porém, alusão alguma a Reveles, donde se avista um dos mais belos panoramas do nosso distrito, o que atribuímos ao desconhecimento da existência desse recanto maravilhoso.
A viagem pode ser feita de automóvel por Santa Olaia, Ereira e Verride ou pelo caminho de ferro, cujo apeadeiro, que tem o seu nome, está situado muito próximo da localidade, e serve também Abrunheira e lugares circunvizinhos.
O lugar de Reveles, freguesia de Abrunheira, concelho de Montemor-o-Velho, era conhecido no século XII por Reebelles, e no século XV por Revelleis, foi habitado em tempos pré-históricos e durante a ocupação romana, como é comprovado pelos achados arquelógicos existentes no Museu Municipal Dr. Santos Rocha, da Figueira.
A Igreja Matriz, restaurada em 1640, está edificada no picoto da povoação e do seu adro contempla-se uma área enorme e surpreendente, que abrange dezoito freguesias, em vários sentidos, a saber: Verride, Vila Nova da Barca, Montemor-o-Velho, Means, Carapinheira, Tentúgal, Gatões, Seixo. Liceia, Lavos, Paião, Vinha da Raínha, Abrunheira, Ferreira-a-Nova, Maiorca, Alqueidão, Alfarelos e Santo Varão.
De ali se avista também uma grande parte de Coimbra, as serras do Buçaco e da Lousã, o Outeiro de Santa Olaia, a Insua da Morraceira, a montanha de Degracias, a Linha de Torres, o Mondego e os ribeiros nas diversas evoluções por férteis campos de diversa cultura, extensos vinhedos e arrozais, marinhas de sal com os seus talhos demarcados geometricamente, e os montes revestidos de pinhais e de tapetes de vegetação em diversos cambiantes que o divino sol fornece, desde o verde esmeraldino até ao amarelo topázio, num cenário maravilhoso que nos extasia por longo tempo.
Do alto mar se avista a Igreja. Os marinheiros e pescadores buarquenses do século passado, repartiam as suas promessas pela Senhora da Encarnação da sua terra natal, e a Senhora do Ó (também conhecida pela Senhora da Expectação, do Porto ou da Esperança), em paga de milagres de salvamento em momentos aflitivos ou de uma pesca abundante.
A Senhora do Ó que, no dizer de Frei Agostinho, “é de peregrina escultura, e mediana estatura, em forma nazarena, mas em tudo admirável que atrai a si os corações de quantos nela põem os olhos”, foi raptada do seu altar há muitos anos, havendo quem afirme que a mesma imagem existe na Igreja de Santa Maria da Alcaçova de Montemor-o-Velho, o que é crível, pois Reveles “em tempos remotos pertenceu à freguesia de Nossa Senhora da Alcaçova”, segundo nos informa Pinho Leal.
Reveles possui também uma antiquíssima capela dedicada à Nossa Senhora da Saúde, que ainda hoje tem muitos devotos, e que ali vão em romaria anual no primeiro domingo de Agosto.
Teve em séculos idos uma feira franca com a duração de três dias do mês de Julho, que era muito frequentada.
São muito apreciadas as cerejas desta região com largo consumo em Coimbra e Figueira.
Dos muitos homens ilustres naturais de Reveles, recorda-nos agora os seguintes: - Os irmãos desembargadores de apelido Neves, os irmãos Caldas - um médico e outro advogado, José Luís Ferreira, lente de Física pela Universidade de Coimbra e pai da Viscondessa da Ponte da Barca, o dr. José Pinto Ramos, preceptor de D. Miguel, que comprometeu a sua grande fortuna pela causa legitimista e se suicidou lentamente com sucessivos jejuns, o dr. Elísio Freire de Abreu Pessoa, que possuía um solar no lugar de Peres-Alves, próximo de Reveles, etc.
Aos que desconheçam este miradoiro de tanta grandeza, recomendamos uma visita, na certeza antecipada de que darão por bem empregado o seu tempo.
Só pedimos que não reparem nas faltas de uma boa estrada e de luz eléctrica, apesar da feliz Abrunheira - a dois passos - possuir o benefício dessa boa iluminação.
Reveles está como certas mulheres esbeltas, que não conseguem atrair os homens, apesar da sua beleza, por não terem - Sorte"
.

Pinho Leal, no seu Dicionário 'Portugal Antigo e Moderno, tem a seguinte descrição desta povoação:
Reveles - Freguezia, Douro, comarca de Montemor-o-Velho (foi comarca de Soure, concelho extinto da Abrunheira). 30 kms. a Oeste de Coimbra, 190 ao Norte de Lisboa, 250 fogos.
Em 1757 tinha 257 fogos.
Orago Nossa Senhora do Ó (ou da Ezperactação, do Porto, ou da Esperança, pois com todos esses nomes é conhecido).
Bispado e distrito de Coimbra.
A mitra apresentava o vigário, que tinha 170$000 réis de rendimento.
É terra fertil, e freguezia muito antiga.
Em tempos remotos, pertencia à freguesia de Nossa Senhora da Alcáçova, da villa de Montemor-o-Velho.
A egreja matriz está situada no alto do monte, proximo à povoação de Reveles.
***
A capela dedicada antigamente a Nossa Senhora a Velha, e, depois, a Nossa Senhora da Saude, é antiquissima, e consta que foi a primeira matriz da freguezia. Está situada ao pé de um monte, e junto ao Rio Mondego, a pouca distancia da quinta da Galêta, que foi dos jesuitas, de Coimbra.
Fica a ermida entre a freguezia de Reveles e a extinta de Peras-Alvas, e por isso tambem a denominavam Senhora de Reveles ou Senhora de Peras-Alvas.
Tambem fica perto da quinta da Alumieira, que foi dos cónegos de Santa Cruz, de Coimbra, e não muito distante da vila de Buarcos.
A imagem é de pedra, e de boa escultura, apesar da sua antiguidade. Tem um metro de altura.
A capela é de boa construção e ampla: tem altar-mor, e dous lateraes; sachristia e grande atrio. Está cercada de alpendres em volta, sustentados por colunas de pedra.
Faz-se a sua festa em dia de Sant’Ana, mãe de Nossa Senhora (a 30 de Julho). O rei lhe concedeu uma feira franca de trez dias, por tempo de cinco anos, na ocasião da festa; depois se lhe concedeu que fosse perpétua. Principiava no dia 26 de Julho, mas já há muitos anos que se não faz esta feira.
***
A nova matriz principiou a edificar-se em 1638, e continuaram as obras até 1640.
Com a restauração, se deu mais desenvolvimento às obras e foi a egreja acrescentada. É um bom templo.
Do seu adro se vê o Oceano, a barra da Figueira, Buarcos, o rio Mondego e varias povoações. Vê-se o mar a grande distancia.

Fotos tiradas cerca de 1950, por ocasião das festas à Senhora da Saúde