terça-feira, 13 de julho de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 34


Muitas vezes somos surpreendidos quando vasculhamos velhos arquivos. Na correspondência da nossa colectividade, que é pena não existir anterior a 1937, encontrámos uma carta do director cénico, datada de 5 de Maio de 1937 e dirigida à direcção, na qual ele refuta alguns ditos. “Não é a primeira vez que directamente me dizem que já não há espectáculos em Tavarede porque me recusei a ensaiar o grupo dramático. Nada menos verdadeiro”.
Sabemos, até por conhecimento pessoal, que muitas vezes o director cénico escreveu às direcções sobre problemas surgidos, muito em especial sobre a falta de assiduidade de alguns amadores aos ensaios por ele marcados. Mas, confessamos, esta carta não conhecíamos. E depois de rebater aquele dito, escreveu:
“Quanto ao mais, tudo continuarei a fazer como até aqui, pois muito bem sei eu que não é fácil substituir-me de momento na actividade que até aqui tenho desenvolvido. Continuarei, pois, a escolher peças, a tratar de direitos de autor, de cenários, de músicos, de guarda-roupa, de montagens, de propaganda, até mesmo de fazer a limpeza ao palco, se tanto fôr preciso – e já não seria a primeira vez. Acharão pouco ainda? Mas, afinal, o que é que eu me nego a fazer? Apenas isto: falar aos amadores, pedir-lhes o altíssimo favor ou dar-lhes ordens para comparecerem. Estou cansado de
pedir favores e fartíssimo de dar ordens. Nem mais uma vez o farei. Nenhum amador ou amadora irá representar porque eu dei ordem; nenhum amador ou amadora irá representar para me fazer favor.
Por momentos chega a parecer que só uma pessoa tem obrigação de trabalhar: eu. Os outros... fazem favor ou obedecem ao dono... Ora eu não estou disposto a ensaiar escravos, mas tenho, sim, grande prazer em ensaiar pessoas conscientes e livres. E também não quero proceder como se eu tivesse no teatro interesses que os outros não têm. Isto é tudo quanto há de mais claro, mas, se precisarem de mais desenvolvidas explicações, estou às ordens para dá-las imediatamente...”.
Todos quantos passaram alguns anos por esta Sociedade, como amadores, directores ou colaboradores, e tenham acompanhado a actividade de Mestre José Ribeiro, recordar-se-ão que, muitas vezes, ele tinha estes “desabafos”. Não raramente, até, um pouco injustos. Alguns amadores ou algumas amadoras, pela sua vida particular ou profissional, nem sempre podiam ter a disponibilidade de horários que ele estabelecia. Mas todos reconheciam que tudo o que ele dizia era fruto de uma dedicação sem limites, tanto à colectividade como ao teatro.
Recordamos agora que, desde a sua fundação, a Sociedade de Instrução sempre utilizou, gratuitamente, a casa do Terreiro, propriedade de João dos Santos e que, pelo seu falecimento em 1931, os herdeiros concordaram manter a mesma situação. Até que, em Maio de 1940, os directores tomam conhecimento de uma carta do sr. Arménio Santos, que, em seu nome e em nome dos restantes herdeiros, comunica que “em virtude da sua actual situação financeira, lhes era impossível continuar a ceder gratuitamente a sua casa”. Foi, então, efectuado um contracto de arrendamento estabelecendo a renda mensal de cento e setenta escudos.
Era um encargo bastante pesado para as posses da colectividade e pensaram na aquisição do prédio. Contactados os proprietários, eles informaram que estavam na disposição de vender o prédio por 50 mil escudos com o quintal, ou 40 mil sem o mesmo. Mas esta importância era incompatível com as possibilidades da associação, além de que entendiam o prédio não valer tal montante. Foi, então, convocada uma assembleia geral para tratar do caso.
“Depois de discutido o assunto, a assembleia deliberou que se comunicasse ao sr. Arménio Santos que à Sociedade era impossível pagar a renda de cento e setenta escudos; e na hipótese de ele não poder reduzi-la, a partir de 1 de Agosto próximo, para cem escudos ou vender o edifício por quantia compatível com os recursos da Sociedade, esta ver-se-ia coagida a sair da casa onde, desde a sua fundação, tem vivido, devendo neste caso a direcção entender-se com a direcção do Grupo Musical e alugar casa para instalação da sede e guarda do mobiliário e outros haveres, ao mesmo tempo que trataria das diligências necessárias para a construção duma sede”.


Por impedimento do presidente da assembleia geral, João Gaspar de Lemos Amorim, presidiu à sessão Mestre José Ribeiro, que “evocou a memória do fundador desta casa onde nos encontramos, que especialmente a adaptou a teatro – o extinto e benemérito cidadão João Costa, e a do nosso saudoso sócio benemérito João dos Santos, sem cuja generosidade a Sociedade de Instrução Tavaredense não poderia ter realizado a obra de que se orgulha. Recordou ainda que, após a morte de João dos Santos, procurando-se obter a passagem da sede para a pose da Sociedade, para o que era indispensável a aquiescência dos herdeiros, encontrou-se no herdeiro sr. Arménio Santos, a mais completa boa vontade e ampla generosidade, pois logo declarou que a sua parte a oferecia completamente à Sociedade, mas esta tentativa não pôde ir por diante, porque se esbarrou na negativa da herdeira srª D. Felismina Santos, que declarou que não cederia nem uma telha...”. As negociações continuaram.

Fotos: José da Silva Ribeiro e Grupo cénico 1938

Sociedade de Instrução Tavaredense - 33


Embora tivessemos vontade de recordar, ou antes, de dar a conhecer aos nossos leitores, tudo quanto Mestre José Ribeiro escreveu sobre teatro e, principalmente, sobre o teatro em Tavarede, durante a sua prisão, não é possível fazê-lo. Ocupar-nos-ia imenso espaço. Mas, é pena, porque, na verdade, tudo aquilo acaba por fazer parte integrante, embora indirectamente, da história da nossa centenária colectividade.



Cortejo Etnográfico 1940


Entretanto, e que nos seja perdoado o atrevimento, ainda vamos buscar mais dois retalhos, os quais escolhemos das cartas que escreveu à amadora Violinda Medina. O primeiro foi escrito no Porto, em Março de 1939. “........ oiça lá a promessa que lhe faço: hei-de ler-lhe os 5 actos da “Psyché”, de Molière, verdadeira maravilha do género. Quero que a Violinda fique fazendo uma ideia do que já o Molière fazia no século 17. A “Psyché” devia ser um espectáculo grandioso, cheio de delicadeza e ao mesmo tempo rico de fantasia, de grandiosidade espectacular, sem falar na riqueza literária, na qual Corneille tem também grande quinhão – o principal quinhão.
Não faz ideia! O pior é que, estando em francês e tendo eu de lha ler em português, sai coisa estropiada, porque é impossível traduzir à leitura sem estragar a linguagem. Mas quero que aprecie a técnica, a construção da peça, e a grandiosidade do espectáculo. Eu não conhecia isto! Que vergonha! Sou um ignorante! E alguns que por aí andam, com ares de saberem muito, conhecem de teatro ainda menos do que eu...”.
Finalmente, e na última carta que enviou à mesma amadora, em Maio de 1939, já de Lisboa, onde foi julgado e absolvido, José Ribeiro escreveu a determinada altura: “Poderá a Violinda voltar a fazer a Clara, do Entre Giestas? E quando? Sabe, estão aqui amigos que gostam de teatro e são amigos do Ramada (Curto). De modo que, a propósito da “Recompensa”, e como alguns companheiros vindos do Porto falaram do grupo tavaredense, entabulou-se conversa teatral. Durante mais de uma hora, os meus amigos Major Areosa, dr. Basílio, Coronel Ramos, Castro e outros, ouviram-me falar da “Canção do Berço”, da crítica estrangeira, da adaptação cinematográfica e da tradução portuguesa que a Sociedade de Instrução representou. O curioso é que, quando eu lhes descrevi a peça, ao terminar reparei que todos estavam comovidos e os olhos do Coronel Ramos e do dr. Basílio tinham lágrimas. Esta boa gente escuta-me, com atenção e não me chamam maçador!”.
Como dissemos, muito mais de interessante e que podia integrar-se nas nossas histórias, se encontra nas muitas cartas trocadas. Mas, sobre este assunto, ponto final, como se costuma dizer.


Ainda em 1938, a 24 de Abril, o grupo tavaredense levou à cena outra peça que deixou fama: “Génio Alegre”. E foi com esta peça que, no dia 22 de Julho de 1939, tendo, entretanto, regressado Mestre José Ribeiro e restabelecida a saúde de Violinda Medina, retomaram a actividade teatral, depois de um interregno superior a um ano, precisamente num espectáculo de homenagem àquela amadora que “depois da sua grave doença retoma o seu lugar no nosso grupo cénico”.
Com tanta energia e vontade se dedicaram aos ensaios e récitas que, de 22 de Julho de 1939 a 1 de Janeiro de 1940, realizaram doze espectáculos em Tavarede, Buarcos, Figueira, Coimbra e Quiaios, com as peças “Génio Alegre”, “Entre Giestas” e a nova peça “Recompensa”.
E do relatório da direcção do biénio 1938/1939, transcrevemos dois breves apontamentos. O primeiro, e depois dos habituais agradecimentos aos amadores, refere “...... para os outros, isto é, para os que, com razão ou sem ela, se afastaram sem a mais leve explicação, vai a indiferença fria e serena dos que ficaram. Igualmente para os que procuram fazer facilmente a digestão sem serem incomodados; para os que tudo criticam por prazer de criticar e que nada produzem em benefício da colectividade; para os chefes de comícios rebeldes de comissões de desagregação na via pública e na taberna, vai o nosso profundo desgosto e também a nossa indiferença!”. E terminam o referido relatório com este apelo: “à direcção que nos suceder e ao director do nosso grupo cénico, pedimos que se não esqueçam de auxiliar, na medida do possível, os associados doentes ou os sem trabalho; que se lembrem, sempre, que são os componentes do grupo cénico os mais sacrificados e, por conseguinte, tanto rapazes como raparigas, homens como mulheres, os que mais direitos têm em ser auxiliados”.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

António Pedro de Carvalho

Comerciante, com estabelecimento de mercearias e vinhos. Foi ele quem, em 1938, adquiriu à Diocese de Coimbra o edifício onde tiveram a sede o Grupo Musical e, depois, o Grémio Educativo. Este prédio era pretendido por uma comissão de moradores, encabeçada por Belarmino Pedro, para ali instalarem uma Casa do Povo. Não o conseguiram e António Pedro de Carvalho, instalando ali o seu estabelecimento, deu-lhe, ironicamente, o nome de Loja do Povo. Era natural do lugar de Lameira, da freguesia de Luso, Mealhada, e casou com Etelvina Pereira, da mesma localidade.
Profissionais do mesmo ramo, manteve grande rivalidade com António Lopes. Tiveram mesmo graves desavenças. No entanto, vamos recordar um episódio ocorrido entre os dois, que, na verdade, acabou por ter graça e que ocorreu em Agosto de 1961.
António Lopes deixara o cargo de presidente da Junta de Freguesia e era o correspondente local do jornal “O Figueirense”. Passou, até, a ser um grande crítico em relação à actividade daquele órgão autárquico. Escreveu, então, uma local, sobre o funcionamento do relógio da torre da Igreja, que havia sido adquirido por subscrição pública, onde referia “…um destes últimos dias, eram sete horas e dez minutos no nosso companheiro de há mais de quarenta anos e que diariamente acertamos pela Emissora Nacional, os ponteiros do relógio da torre de Tavarede marcavam seis e meia horas e ouvimos, nada mais nada menos, do que bater… treze badaladas!”.
António Carvalho não perdeu a oportunidade para mais uma “ferroada”. Escreveu para aquele jornal uma carta de onde recortamos este pedaço: “Tem toda a razão o seu solícito correspondente, sr. Director! Toda a razão!
Mas eu peço a devida licença para dizer que, com todo o arrazoado de agora — e outros de igual quilate em números transactos - o correspondente pretende talvez que, quem tem a infelicidade de o ler, se convença de que caiu sobre esta terra, de há dois anos para cá, uma série de desgraças só pelo facto da Junta de Freguesia não ser ainda presidida pela pessoa que durante 14 anos desempenhou essas funções a seu belo talante.
Se é como suponho, aconselho que tenha mais calma, pois pode candidatar-se daqui por dois anos e pico e montar negócio dentro do burgo. Isto, agora, é uma calamidade!
Mas o que eu lamento — e o que toda a gente de bom senso certamente também lamenta - é que só agora o seu correspondente veja que o relógio anda "desorientado", pois é doença - congénita! - que trouxe já da terra onde foi fabricado — Tarouca.
Ele sabe que é assim; o pobrezito já veio daquela terra enguiçado, e talvez tenha até - quem sabe? - responsabilidade na sua aquisição. E se a doença - de nascença! - tem cura, o remédio devia ter-lhe sido ministrado por quem de direito, há muitos anos, que bastante tempo para isso tiveram.
Quem hoje no caso podia intervir — se o mal tivesse remédio — responsabilidade alguma tem na aquisição de aparelhagem tão ordinária, que há dilatados anos - ou só agora? - vem desorientando o povo da terra do limonete.
Além disso, julgo não ser de admirar que o relógio "marque" tão pessimamente, se atendermos aquilo que o seu solícito correspondente diz a respeito do seu próprio relógio... "eram sete horas e dez minutos no nosso companheiro de mais de quarenta anos e que diariamente acertamos pela Emissora Nacional "...
Outra desgraça, senhores da terra do limonete!
Também regula mal o relógio do correspondente em Tavarede do jornal "O Figueirense", pois que diariamente desde há 40 anos, pelo menos, o acerta pela Emissora Nacional! É bem certo que uma desgraça nunca vem só! O facto, que deveras lamentamos! — leva-nos a concluir que o correspondente o adquiriu também na Tarouca; se assim não foi, isto é, se a proveniência é outra e de marca de confiança absoluta, o relógio não regulará bem, pelo facto, - talvez! da companhia...”.
Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 32


Encontram-se muitas críticas e comentários às diversas representações de “O Grande Industrial”. Recolhemos este apontamento: “...... Já nos tinham falado com admiração, dos amadores que aqui representaram (Coimbra) “O Grande Industrial”, no Teatro Avenida. Na verdade, é preciso raro talento da parte de quem escolheu entre humildes trabalhadores, as personagens que haviam de interpretar, não só as figuras exteriores, de casacas e vestidos elegantes, como o “interior”, a alma tão diferente, tão afastada, da dos seus intérpretes, pela sua condição..... Mas seria injusto deixar de confessar que entre os elementos do grupo de Tavarede existem surpreendentes vocações, alguns amadores tão bons como certos profissionais da cena”.
Pelas festas comemorativas do 34º aniversário da fundação, um novo êxito subiu à cena no palco de Tavarede. Estreou-se, no dia 22 de Janeiro de 1938, a peça “Entre Giestas”, do dramaturgo Carlos Selvagem.
Devemos referir que, em Julho de 1937, a polícia política havia suspendido a publicação do jornal figueirense “A Voz da Justiça”, dos tavaredenses Manuel Jorge Cruz e José da Silva Ribeiro, entre outros sócios da Tipografia Popular, saqueando e roubando todo o equipamento e maquinaria. A Sociedade de Instrução Tavaredense foi bastante prejudicada. Aquele jornal foi, desde a sua fundação, um verdadeiro “porta-voz” da colectividade. José Ribeiro, com a intenção de ajudar os operários daquela tipografia, que ficaram desempregados, tentou um novo periódico, “Jornal da Figueira”. Também por problemas políticos, esta publicação não vingou. Teve uma curtíssima existência, somente entre Abril e Julho de 1938. Com mais uma prisão do seu ensaiador, novamente o grupo cénico tavaredense se viu forçado a interromper a sua actividade, que, naquela ocasião, era já enorme, graças ao repertório em cena.







O Grande Industrial (Manuel Nogueira, António Graça e Violinda Medina)





Durante o seu cativeiro, desta vez na prisão do Aljube, no Porto, José Ribeiro esteve com o seu pensamento sempre em Tavarede e no teatro. A sua principal amadora, Violinda Medina e Silva, havia novamente adoecido. As notícias que José Ribeiro recebeu, sobre esta doença, afligiram-no. Escreveu-lhe, então, uma longa carta.
“........ Calcule a Violinda com que saudades lembro os ensaios... O meu grande desejo conhece-o a Violinda, conhece-o toda a sua família e conhecem-no todos os nossos amigos do teatro: que se restabeleça completamente. Com a saúde há-de voltar-lhe a alegria, que tanto lhe admiramos. A sua saúde é preciosa, para a sua filha, para a sua família, para mim e para os nossos companheiros do grupo. Olhe que o grupo não pode passar sem a Violinda! Esta afirmação, que é verdadeira, não pode servir para considerar interesseiros os meus desejos de melhoras. Não: acima de tudo a saúde da Violinda, mesmo com sacrifício do teatro, se tanto fosse preciso. E olhe que, se a Violinda agora deixasse o grupo, já lhe tinha prestado serviços relevantíssimos, inesquecíveis e que não podem ser-lhe pagos senão com a gratidão de todos nós – e à frente de todos, nesse preito de gratidão, coloco-me eu. Pense, pois, na sua saúde como primeira razão”.


Entre Giestas (Francisco Carvalho,Fernando Reis e João Cascão)


Também escreveu à direcção da colectividade, lembrando que “a exemplo de casos idênticos, era conveniente auxiliar-se, devido ao seu estado de saúde, a nossa amadora Violinda Medina, caso se verificasse que, efectivamente, ela necessitava de qualquer auxílio”. Como a direcção tivesse conhecimento de que, na verdade, “a doente tinha feito grandes despesas, logo que assentou no quantitativo a conceder, com a condição de se não divulgar, razão porque aqui é omitida”.
Realmente, e consultando o livro de caixa, não se encontra qualquer vestígio deste auxílio. Encontramos, sim, a compra de um aparelho de telefonia, da marca RCA, usado, por 700$00 e uma mobília com 13 peças, por 1.600$00!!! Como termo de comparação, registe-se que um espectáculo no Casino Peninsular, com a peça “O Grande Industrial” teve uma receita bruta de 2.288$00 e uma despesaa de 1.174$10. Acrescentemos que, naqueles tempos, os foguetes para o aniversário custaram 140$00 e que um almoço, oferecido por ocasião do Natal, aos amadores e colaboradores do grupo dramático, importou em 851$95, mais 100$00 pagos à orquestra “Caixeiros Melody-Jazz”, que abrilhantou o mesmo!

Sociedade de Instrução Tavaredense - 31


Havíamos dito que voltaríamos à peça “Canção do Berço”. A Misericórdia da Figueira organizou um espectáculo, no Casino Peninsular que, no dizer da imprensa de então, era “a primeira vez que, no nosso país, se apresenta um programa com estas características: permitir apreciar a mesma obra num só espectáculo, nas duas interpretações diferentes: a teatral e a cinematográfica”.
A primeira parte do programa constou da representação, pelo nosso grupo cénico, da peça Cancion de Cuna, de Martinez Sierra, traduzida pelo poeta dr. Carlos Amaro, com o título de “Canção do Berço”, e a segunda parte teve a projecção do filme “Filha de Maria”, uma adaptação cinematográfica daquela obra, realizada por Mitchell Lisen, para a Paramount. Este espectáculo, “em todos deixou a mais agradável impressão, recomendável pela sua feição artística e também porque o seu produto revertia a favor da benemérita instituição local que é a Misericórdia da Figueira”.
Na assembleia geral efectuada para a aprovação as contas de 1936, foi apresentada pela direcção uma proposta para “a criação duma caixa de socorros aos sócios necessitados nos casos de doença ou invalidez, e auxílio de funeral, e por isso vos propõe que seja nomeada uma comissão que estude a melhor forma de dar realização a este pensamento se acaso a digna assembleia o achar viável, e que a mesma comissão se encarregue de administrar as receitas que venham a ser angariadas para esse fim, isto para que se não diga que a nossa colectividade é mãe para os de fora e madrasta para os seus”.
Não era a primeira vez que se pensava neste assunto. A direcção continuava, dentro das suas modestas possibilidades, a socorrer os mais carenciados, muito em especial a alguns dos amadores, mas o seu cofre era pequeno. Foi por isso que, aprovando a ideia, a assembleia nomeou para constituirem aquela comissão os sócios António Augusto de Figueiredo, António Rodrigues dos Santos, António Ferreira Jerónimo e João da Silva Cascão.
Desde já acrescentamos que não teve finalização. Numa assembleia posterior, aquela comissão apresentou um relatório com as suas conclusões, informando que “não vê, esta comissão e de momento, possibilidade de se dar execução a este pensamento tão simpático, que exige receitas que não é possível obter, nem mesmo recorrendo a espectáculos, pois estes, como se tem visto, dão insignificante receita”.


Grupo cénico da S.I.T. em 1939

Ainda naquela assembleia geral foi proposto e aprovado um voto de sentimento pelo falecimento do sócio benemérito Joaquim Fernandes Estrada, que deixou em testamento a quantia de 6.000$00 a esta Sociedade. Três anos mais tarde, é comunicado à assembleia geral que “por motivo de questão que transitou em julgado”, aquele donativo ficou reduzido à importância de 497$70.
Pode dizer-se que, a partir do ano de 1936, há uma nítida evolução do grupo cénico, em termos de reportório. Recordemos que, aquando da fundação da colectividade, em 1904, os espectáculos teatrais consistiam na representação dos chamados “dramas de faca e alguidar”, terminando com uma comédia para aliviar tensões dramáticas. Passou-se depois, e isto por volta de 1912, ao teatro musicado, mais leve, mais vistoso e agradável, com canções que facilmente ficavam no ouvido dos espectadores e que dispunham bem. Fizeram época as pequenas revistas com sabor local e algumas operetas, muitos anos depois ainda recordadas com saudades.
Digamos que, dos “dramalhões” como “A mãe dos escravos” e o “Amor de Perdição”, se passou às aplaudidas peças “Os Amores de Mariana”, “Entre duas Avé-Marias” e “Noite de S. João”. Como as pequeninas fantasias “Na Terra do Limonete” e “Dona Várzea” haviam caído no agrado do povo, João Gaspar de Lemos e José Ribeiro, com a colaboração musical do maestro amador António Simões, retomaram aquela linha teatral, situando em Tavarede a acção de operetas e fantasias, como “Em busca da Lúcia-Lima”, até à “A Cigarra e a Formiga”, passando por “Pátria Livre”, “Grão-ducado de Tavarede” e “O Sonho do Cavador”. Em 1931, talvez devido a ter o grupo cénico reforçado com os elementos vindos do extinto teatro do Grupo Musical, iniciaram-se as representações de outro tipo de teatro, com as peças extraídas dos romances de Júlio Dinis, por exemplo, e que tanto sucesso alcançaram.


Estandarte oferecido por Joaquim Fernandes Estrada, inaugurado em 1929 (frente)

Uma ou outra peça diferente, e recordamos “Canção do Berço”, “As Três Gerações”, “A Morgadinha de Valflor” e mais algumas, terão sido o ponto de partida para a série de peças mais actuais, permitindo-nos citar, como referência, a apresentação, em 20 de Março de 1937, de “O Grande Industrial”. O romance de George Ohnet havia sido adaptado ao teatro por Ilda Stichini, dizendo-nos o programa da estreia que “é um romance que toda a gente conhece, que seduziu os produtores de cinema e foi transportado para o teatro com absoluta fidelidade, tanto nas figuras como na efabulação. Nos quatro actos da peça a acção acompanha o romance, desenvolvendo-se num crescente de interesse que se mantém até final”.

terça-feira, 6 de julho de 2010

José Martins da Cruz Dinis (Padre)

Em consequência da morte do padre Manuel Vicente, ocorrida em Agosto de 1928 devido a um acidente com a camioneta de excursionistas a Fátima, a paróquia de Tavarede foi entregue, interinamente, ao padre Alfredo Amado de Abrantes Couto, pároco de Buarcos. No mês de Dezembro seguinte assumiu o cargo da paróquia tavaredense o reverendo José Martins da Cruz Dinis.
Não foi fácil a sua integração na nossa terra. Recentemente formado, cheio de ideias conservadoras, veio encontrar uma freguesia em que os paroquianos se encontravam muito divididos religiosamente.
O seu antecessor, padre Manuel Vicente, por temperamento muito chegado ao povo e às suas tarefas quotidianas, havia ultrapassado, com relativa facilidade, dois períodos bastante difíceis para a Igreja: a implantação da República em 1910, e a consequente lei da separação da Igreja do Estado, e a revolução de 28 de Maio de 1926, que alterou profundamente a situação religiosa, com a Igreja a retomar muitos dos seus anteriores privilégios.
O padre Cruz Dinis, que ficou conhecido na nossa terra pela alcunha de “Papa-léguas”, certamente por muito caminhar no desempenho da sua missão, de imediato procurou o desenvolvimento da religião cristã e o chamamento a si dos fiéis que, entretanto, se haviam afastado das práticas religiosas.
Como sabemos, Tavarede tinha grande parte dos seus naturais fervorosamente arreigados ao regime republicano. Os métodos seguidos pelo padre Dinis para atrair os seus paroquianos, não foram do agrado de todos. O choque foi inevitável, mas uma verdade se impõe. Além da parte religiosa, ele de imediato procurou desenvolver a instrução e a educação em Tavarede. Encontram-se imensas notícias pró e contra as suas atitudes. Despertou, como se calcula, “ódios e paixões” entre os tavaredenses.



O Grupo Musical, por motivos ainda não totalmente esclarecidos, teve de vender a sua sede, o que o levou a acabar com a sua secção dramática. O padre Dinis conseguiu que a Diocese de Coimbra comprasse a casa e lhe cedesse a mesma, para ali instalar uma nova associação onde pudesse desenvolver a sua actividade de cultura popular, estreitamente ligada à Igreja local.
Fundou, então, o Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, assumindo o cargo de presidente da Direcção. Procurou manter a actividade teatral, e, aliás, foram muitos os anteriores amadores que ali continuaram. Teve, até, o cuidado de, além da escola que ali instalou e que chegou a albergar largas dezenas de crianças, criar uma secção cénica juvenil, levando à cena algumas peças, de cariz religioso, interpretadas por jovens.
Travou-se, na imprensa figueirense, dura luta entre ele e alguns seus amigos, que o defendiam acerrimamente, e os seus adversários religiosos e políticos. Talvez que alguns dos seus procedimentos, na igreja de que era pastor, não tivessem sido os melhores. É difícil, a quem não viveu a situação, julgar o ocorrido através das notícias publicadas. No entanto, e disso não temos dúvidas, desempenhou importante papel educativo e cultural em Tavarede durante a sua permanência na paróquia.
O ambiente, porém, acabou por se lhe tornar demasiado hostil e, em 1935, foi transferido, a seu pedido, para a freguesia de S. Paulo dos Frades, em Coimbra. O Grémio Educativo, de que ele era a alma, também não resistiu e fechou as portas.
Um caso curioso. Cerca de quatro anos depois da sua saída de Tavarede, foi encontrar-se, preso, com o seu grande adversário tavaredense, José Ribeiro, que estava igualmente detido por motivos políticos. Parece que houve reconciliação. A luta em Tavarede, aliás, já acabara.




Caderno: Tavaredenses com história

António de Oliveira Cordeiro



Natural de Tavarede, filho de João de Oliveira e de Guilhermina Rodrigues Cordeiro, nasceu no dia 23 de Maio de 1908.
Depois de fazer a instrução primária em Tavarede, frequentou o curso comercial da Escola Industrial e Comercial da Figueira da Foz.
Habilitado com o curso de violino, tendo por mestre o conhecido compositor Manuel Dias Soares. Foi elemento activo e ensaiador da tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, colectividade onde, durante largos anos, exerceu as funções de professor de música, além de director e de amador dramático. Fez parte de um quinteto musical, composto pelos melhores executantes da tuna do Grupo Musical que, além de abrilhantar as festas da colectividade, acompanhava cerimónias religiosas em Tavarede e noutras localidades. Participou na orquestra do Parque-Cine, que acompanhava a projecção dos filmes, ao tempo mudos. Também colaborou com a Filarmónica Figueirense, regendo a banda, dirigiu a orquestra do Rancho Flores de Portugal, para o qual orquestrou parte do reportório, fazendo parte ainda do conjunto musical que, durante a época balnear, actuava no Casino Oceano, na Figueira da Foz.
Em 1934, foi homenageado pelo Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense, ao qual passara a dar a sua colaboração depois da mudança do Grupo Musical para o Paço, tendo sido descerrado o seu retrato. Por esse tempo, era director e músico do “Jazz – Figueira – Orquestra”, que organizara.
Durante algum tempo actuou em conjuntos musicais que abrilhantavam as viagens de diversos paquetes portugueses, nas viagens para o Brasil, Angola e Moçambique.

Iniciou a sua profissão de funcionário público na Câmara Municipal da Figueira. Em 1941, tendo prestado provas de concurso para o Ministério do Interior, no qual ficou classificado nos primeiros lugares, foi colocado na Câmara de Paredes do Coura, onde exerceu as funções de chefe da secretaria. Passou, depois, pelas Câmaras de Condeixa, Azambuja e Oeiras.
Em 1964, “por motivo da nomeação para o honroso cargo de chefe de secção do quadro da Direcção-Geral da Administração Política e Civil do Ministério do Interior, o pessoal da Câmara Municipal de Oeiras e dos Serviços Municipalizados, Repartição de Finanças e Conservatórias dos Registos Civil e Predial daquele concelho, prestaram-lhe significativa homenagem”.
Reformou-se aos 68 anos de idade, após 40 anos de serviço, com a categoria de Técnico de 1ª. Classe.
Em 1938, correspondendo ao pedido que lhe foi dirigido pela Junta de Freguesia de Tavarede, compôs a música para a marcha que representou a terra do limonete no Cortejo Folclórico da Figueira. A letra era da autoria de sua mulher, Armandina Pinto Cordeiro, de quem enviuvou poucos anos depois. Voltou a casar mais tarde com Domicilia da Silva Cordeiro. Teve um filho de cada matrimónio, João José e António José, respectivamente.
Aqui deixamos a letra desta marcha, que ele mesmo enviou ao jornal “A Voz da Figueira” em Julho de 1998: (de notar que, certamente por lapso dele, não enviou os versos todos)

Tavarede tão airosa,
Foi berço de fidalguia,
Do concelho a mais formosa
Que nos mostra a luz do dia.

No mister da agricultura
Se emprega com grande afã
Muita santa criatura
Ganhando o pão d'amanhã.

Ali se cultiva a vinha,
Couve, feijão e batata,
A uva lá é rainha
De tanta fruta barata

Seus teatros têm fama,
Sua tuna fama tem,
E em ranchos leva a palma
A qualquer terra também.
Faleceu em Lisboa, com 94 anos de idade, no dia 6 de Setembro de 2002.
Caderno: Tavaredenses com história