sábado, 24 de julho de 2010

Tavarede - aldeia escola


UMA OBRA QUE DIGNIFICA

Em Tavarede, modesta aldeia da beira, ensina-se Teatro!
Para quem descreia da existência dum fogo sagrado, constante e generoso que lute através de todas as contigências e de todas as dificuldades por uma ideia digna e firme do verdadeiro sentido da Arte teatral, ponha os olhos e o cérebro em Tavarede, terra pobre, perdida na Beira pobre.
Esse agregado beirão tem uma associação cultural e recreativa, a Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 1904 e desde essa data lançada na maravilhosa missão de cultivar e difundir a cultura dos seus próprios associados.
Chega a pasmar como é possível manter-se uma obra duma projecção tão elevada e tão nobre num meio insuficiente, cheio de asperezas da sua condição geográfica e humana.
Desde há trinta anos que um homem de tenacidade e têmpera fora do vulgar, José da Silva Ribeiro, mantém um grupo cénico, na referida Sociedade. Esse grupo, com um reportório vastíssimo do qual indicamos, como representativos exemplos do critério de selecção “A Nossa Casa” de George Mitchel, “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, os Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” de Gil Vicente, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler, “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça, esse Grupo, repetimos, vem cumprindo tenazmente e com sacrifícios de vária ordem o programa do seu entusiástico orientador. Como a aldeia é pequena bem poucas são as famílias que não têm representação no agrupamento de amadores. E assim a ideia nascida num momento inspirado de amor pelos outros foi-se invertendo no espírito daqueles trabalhadores do campo e das oficinas, naqueles rapazes e raparigas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros que ao cair da noite, de corpo cansado pelo trabalho vão alimentar o espírito porque eles não se limitam a decorar as deixas dos seus “papéis” e recitá-los no momento oportuno com maior ou menor ênfase. Procura José da Silva Ribeiro que eles não sejam “fantoches para divertir o público”, como tão bem nos transmite no prefácio duma sua peça ali representada, mas que “tomem a consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes são alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, do ambiente em que se movem”. E assim, o grupo cénico tem uma actividade misturada de disciplina escolar e de prazer de passatempo. Suponhamos que foi escolhido para uma próxima apresentação o Auto da Barca do Inferno. À assembleia de actores amadores, ávida de conhecimentos, será exposta a obra vicentina, a época em que viveu o fundador do teatro português, a paisagem humana e social da corte de D. Manuel e de D. João III. Procurar-se-á na bibliografia correspondente o auxílio para uma melhor compreensão. E durante os ensaios os comparsas do auto não terão ùnicamente a preocupação de assimilar o contexto. Há sim uma posição inteligente e culta perante o problema que os seus lábios, os seus gestos e a sua expressão irão desenrolar no palco da aldeia.
Tudo isto é conseguido em tom de palestra, à medida que as peças vão sendo ensaiadas, sem ar de lição que decerto se tornaria insuportável para aqueles homens e mulheres de corpo cansado pelo trabalho mas de alma iluminada pela luz duma arte bem compreendida e ainda melhor ensinada.
De vez em quando são organizados programas de carácter acentuadamente cultural. Como exemplo, um programa já realizado com muito êxito e denominado “Noite do Teatro Português”: I Parte - teatro hierático - Auto da Barca do Inferno; II Parte - teatro romântico - 2º. acto da Morgadinha de Valflor; III Parte - teatro realista - 3º. acto de “Entre Giestas”.
Essas peças quando representadas no teatrinho da Sede obtêm receitas insignificantes que raramente pagam as despesas. E o Grupo, depois de apresentadas aos sócios, leva-as à Figueira da Foz procurando assim obter receitas que cubram as despesas de montagem.
É uma luta constante, uma luta nobre e velha de trinta anos.
A aldeia de Tavarede tem uma obra que dignifica não só os seus conterrâneos como o mundo teatral português. Uma Obra que se traduz não só em representações conscientes de verdadeiro Teatro como em palestras culturais e educativas feitas pelo director cénico.
Já foram abordados assuntos de interesse fundamental na cultura da arte de representar. As origens e evolução do Teatro (o teatro grego, em Roma, o drama religioso da Idade Média, a Renascença), o Teatro Português, as Trilogias Dramáticas (a trilogia ligada de Ésquilo - Oréstia, a Trilogia das Barcas de Gil Vicente, a Trilogia de O’Neill “Electra e os Fantasmas”) a Imortalidade do Teatro, tudo foi descrito em dissertações simples, acessíveis ao meio e sempre acolhidas com um entusiasmo que dá vontade de continuar, feliz e convicto de que quando se quer Teatro não é necessário muito dinheiro, muito público e muita cultura. É necessário, sim, defender e criar nos outros a convicção de que o espírito precisa de Teatro como alimento e não como pura distracção. E só assim se pode conseguir esse maravilhoso milagre teatral de Tavarede, lição puríssima e desassombrada da Arte pela Cultura dos povos.
Ainda há pouco no teatrinho da S.I.T. subiu à cena uma fantasia em três actos e 24 quadros de José da Silva Ribeiro, com música de António Simões, denominada “Chá de Limonete”. Essa fantasia que é a história singela da aldeia desde a sua fundação até aos nossos dias, foi montada a preceito, com cenários e guarda-roupa inteiramente novos, num esforço gigantesco que testemunha a vontade indómita e o admirável caminho seguido pelos amadores de Tavarede. Num livro de excelente apresentação gráfica e fotográfica do acontecimento, tivemos o prazer de constatar até que ponto o amor pelas coisas teatrais está espalhado naquele rincão da Beira. E comparando com o que por cá se passa, fazendo a proporção entre as centenas de Tavarede e os muito milhares de Lisboa fica-nos no cérebro o clarão duma Obra que dignifica, reconhecida não só pelo seu público como por diversas associações humanitárias por ela protegidas em diversas representações de beneficência.
E nós, como verdadeiros amantes do verdadeiro Teatro, daqui dizemos, orgulhosos em ajudar a transmitir a sua mensagem: operários e modistas, cavadores e ceifeiras de Tavarede, homens e mulheres dessa aldeia, reduto duma Arte Eterna, obrigado!

Jornal Magazine da Mulher - Novembro de 1951

Em louvor de Tavarede


Quem seria o Fr. Manuel de Santa Clara que subscreve o soneto adiante transcrito?
Pertenceria ao convento figueirense de Santo António? Ou algum religioso de outro mosteiro, estranho à terra, que por aqui passasse a recrear-se ou aqui viesse em uso de banhos (talvez até hóspede do convento) e nalguma digressão à risonha Tavarede ali se deixasse prender nos encantos da sua paisagem?
Ignoro-o. Poucas, que se nenhumas, infelizmente, são as notívias àcerca dos nossos franciscanos, uma vez sumido, creio que para todo o sempre, o arquivo da casa conventual.
Seja como for, é curioso o soneto desse frade, descritivo da “terra do Limonete”. Nele encontramos referências ao vale e outeiros circunvizinhos; ao regatito humilde que atravessa a povoação e que há perto de 170 anos (o soneto é datado de 1779) era, como se vê, ribeiro, portador, por certo, de mais água e menos lixo; ao palácio quinhentista dos Quadros, hoje mìseramente degradado com vergonhosas mutilações e reparações imbecis; e, finalmente, à abastança de frutos e verduras, do seu fecundo vale, por onde o frade-poeta o avantaja nada menos que ao de Tempe, aos pés do Olimpo, na Grécia de Píndaro e de Anacreonte.

Do manuscrito setecentista donde transcrevi o soneto constam duas versões, se assim apreciarmos umas alterações de pouca monta lançadas à margem dele: no 1º. verso, colinas cheias, em vez de outeiros vestidos; no penúltimo, assim ganhando em vez de assim levando. Escolhi a primeira, quando há anos tive nas mãos o manuscrito; a outra, agora, se me afigura preferível. Vejamos:

Descripção do sítio de Tavarede

Entre outeiros vestidos de verdura,
Um vale gracioso à vista ocorre
Onde um claro ribeiro em giros corre,
Banhando-o de eternal, grata frescura;

Quanto nele se avista, obrou Natura;
Só um nobre Palácio ali concorre
A mostrar que, subtil, o engenho acorre
À simétrica mão da Arquitectura.

Junto às casas e muros bracejando,
Verdes parreiras vão, entre a folhagem,
Seu roxo ou loiro fruto entremostrando.

E a Ceres e a Pomona vassalagem
Rende este vale ameno, assim levando
Ao de Tempe famoso alta vantagem!

1779 De Frei Manuel de Santa Clara

Rejubile a fidalga Tavarede com a notícia deste peça literária, e tome-a como uma jóia mais a engastar na sua coroa condal.

Cardoso Marta

(Boletim C.M.Turismo - 31.Julho.1947 - nº. 18)

Tavarede - Recordações de António da Silva Broeiro - Sobrinho

Quando se ronda pela casa dos trinta, falar da nossa terra, forçoso é que se evoque.
Ainda que não queiramos.
O nosso coração, o nosso sentimento, há-de por fôrça trazer a lume as recordações que estão algemadas à nossa vida...
A saudade aviventa, dá forma a essas recordações, que já se desfaziam na bruma do tempo, e surgem, enriquecidas pela nossa imaginação, as imagens dos nossos tempos de criança...
O nosso primeiro amor! Como ele anda ligado à saudade da nossa terra!?
Quem é que, ao lembrar os tempos ditosos da mocidade, não tem a ela ligado, por laços indeléveis, a lembrança do primeiro amor!? Quem!?
E eu lembro a minha aldeia! A aldeia onde nasci, onde me criei, onde corri, despreocupado e feliz, pelos oiteiros e pelos serrados; pela várzea e pela colina; ora caçando rãs nos valeiros, ora subindo aos choupos à caça de ninhos de pardal!...
... e as manhãs doiradas do sábado de aleluia em que os sinos repicavam festivos, e eu e os cachopitos da minha idade, esbaforidos, corriamos à igreja com uma caneca de água colhida no rio para que o senhor vigário Manuel Vicente no-la benzesse para as nossas mãis borrifarem as casas para que o espírito maldito do bruxedo lá não entrasse...
... e nas manhãs radiosas de domingo de páscoa, eu ia, de fato novo à marinheira, de colar engomado muito branco e laçarote pendente do pescoço, até à igreja, ouvir missa e beijar o menino Jesus que estava deitado numas palhinhas...
... mas meia hora depois, quando eu estivesse farto de andar na brincadeira, com o fato enxovalhado e porco, eu dava um doce a quem fôsse capaz de olhar para mim sem sentir vontade de me bater... Era uma dó! Um fato tão bonito...
Como eu brinquei! Como eu fui feliz...
Era uma criança e a vida não me preocupava.
Mas agora outras cadeias me prendem! Outros amores me preocupam!...
Mas a saudade da minha aldeia, de Tavarede, essa subsiste, e tão intensa, que daqui, eu vejo, com os olhos da alma, a casa onde nasci, e onde minha mãi me aconchegou, me deu os primeiros beijos, e os primeiros açoites...
E bem merecidos êles foram, pelo visto, porque, homem feito já, eu não os esqueço, para me servirem de estímulo em acções presentes...

Lúcia-Lima!

Tavarede, que fica a dois quilómetros e meio da Figueira, dos puxados, aconchega-se na várzea ubérrima, entre encostas verdejantes e floridas.
Quem vai da Figueira pela estrada, depara, sem esfôrço, com o antigo palácio dos Condes de Tavarede, pitoresca construção solarenga, com os seus pináculos ornamentados, as gárgulas e as janelas ogivais, em pedra magnificamente rendilhada.
Já esqueceu ao povo o déspota que em remotos tempos ali viveu intra-muros.
Agora, a apalaçada construção, morre, desprezada, com a sua arquitectura a esboroar-se com o rodar do tempo.
Mas Tavarede tem uma coisa mais pitoresca ainda que o seu histórico palácio: a Lúcia-Lima.
Em noites de verão, os banhistas que se afastam do bulício da cidade, são, quando se aproximam da ridente aldeia, deslumbrados por um perfume intensíssimo que se desprende desta planta.
O limonete, como lhe chamam, na sua linguagem chã, os tavaredenses, é a graça da terra..
Quando vêm, pelo S. João, as cavalhadas de Brenha ou Buarcos, as môças enfeitadas com ramilhetes de limonete no peito gracioso, tem encanto, tem frescura...
O ar recende! E o aroma da Lúcia-Lima no ar embalsamado, faz crer a quem o respira que aquela planta ali se cria com fértil prodigalidade...
E é verdade! Com tanta fartura, tanta, que até já alcunharam a minha linda aldeia de terra do limonete!

Teatro de amadores

Os furiosos do teatro, foram sempre, em Tavarede, dos mais ferrenhos...
Grata lembrança tenho eu na minha mente, a respeito de espectáculos de amadores...
Mas sem ser do meu tempo, já em mil oitocentos e setenta e tal se representavam em Tavarede, as mais difíceis peças no Teatro do Palácio.
A sala de espectáculos de então, é agora uma estrebaria...
O entusiasmo era de tal ordem já nêsse tempo, que a autoridade teve que mandar encerrar a sala de espectáculos por causa das desordens que os despiques provocavam...
A sala encerrou-se mas os amadores redobraram de capricho...
...E foi então que, em 1904, se fundou a actual Sociedade de Instrução Tavaredense.
Os seus fundadores foram: Manuel Rodrigues Tondela, Augusto Biscaia, Manuel Fernandes Júnior, César da Silva Cascão, João Miguens Fadigas, João d’Oliveira, José Cardoso, António Jorge da Silva, António Luiz Motta, Joaquim Saraiva, Fradique Baptista Loureiro, António Gomes d’Apolónia, Manuel dos Santos Vargas e Francisco Cordeiro.
A nova associação propunha-se manter uma escola nocturna que tem funcionado ininterruptamente até aos nossos dias. Para a sua manutenção, angariação de fundos se impunha.
E foi então que se criou um grupo de amadores que, num teatro que era pertença da referida associação, dava espectáculos cujo produto se destinava á subsistência da referida escola, fornecendo material escolar aos alunos, etc.
A instrução aos alunos, nos quais se contavam alguns já homens, era ministrada gratuitamente por amigos dedicados da associação, dos quais é justo destacar Manuel Tondela, já falecido, pai da espôsa do distinto artista figueirense e nosso prezado amigo sr. António Piedade.
Actualmente as aulas nocturnas da Sociedade de Instrução tem uma frequência superior a 80 alunos.
O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense, melhorou consideràvelmente desde que o brilhante jornalista e orador José Ribeiro foi nomeado ensaiador.
Espírito culto, conhecedor profundo da arte teatral, êle guindou o grupo de amadores de Tavarede a uma altura que, muito poucos, talvez mesmo nenhum grupo de amadores da província tenha atingido.
Falam a êsse respeito, e melhor do que nós, a quem podem acoimar de suspeito, os críticos das cidades onde se tem exibido, como Figueira da Foz, Porto, Coimbra, Tomar, Vizeu, Leiria, etc.
Críticos exigentes não lhe regatearam louvores.
O Primeiro de Janeiro, O Século, o Diário de Notícias, o Diário de Coimbra, etc. destacaram valores dentro do grupo; e os nomes de Violinda Medina, Emília Monteiro, Maria Tereza, João Cascão, Jaime Broeiro, António da Silva Broeiro, Manuel Nogueira, António Graça, António Santos, etc. surgem aureolados de fama.
O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense conta no seu activo com enorme quantidade de espectáculos de beneficência a favor do Asilo S. João do Porto, Ninho dos Pequeninos, Asilo da Infância Desvalida, Diabéticos Pobres, Maternidade, Associação de Socorros Mútuos dos Artistas e Grémio dos Empregados no Comércio e Indústria, de Coimbra, Misericórdia e Jardim escola João de Deus, da Figueira da Foz, Santa Casa da Misericórdia e Sopa dos Pobres, de Tomar, e Jardim escola das Alhadas.
O Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense teve já um convite para representar em Lisboa, em récita de gala, convite que não poude ser aceite por imperiosos motivos.
Peças representadas pelo Grupo Dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense:
O Sonho do Cavador, com 32 representações; A Cigarra e a Formiga, com 12 representações; Em busca da Lúcia-Lima, com 8 representações; Grão-Ducado de Tavarede; Evocação; Noite de Agoiro; Má Sina; A Espadelada (infantil), com 14 representações; Frei Tomaz; Os fidalgos da Casa Mourisca; As três gerações; As pupilas do Sr. Reitor; A canção do Berço; A Morgadinha dos Canaviais; Justiça de Sua Magestade; A Morgadinha de Val-flor; O Grande Industrial; Entre Giestas; Génio Alegre, etc.
O trabalho dessa gente, gente humilde, que trabalha de dia e à noite se instrui no teatro, sofre comparação com o trabalho de artistas...
E os críticos não se cançam!
E o grupo segue, na sua carreira triunfal.
Actualmente ensaia a Recompensa, oferta gentilíssima ao grupo do grande dramaturgo Dr. Ramada Curto. Esta oferta foi um triunfo para o grupo, porque a gentileza do Dr. Ramada Curto, distinguindo o grupo de Tavarede para a interpretação da sua famosa peça, fala mais, e mais alto, do que tôda a crítica portuguesa...

Mais outro grupo!

Mas quando era mais acesa a rivalidade entre os amadores tavaredenses, outro grupo se fundou: o Grupo Musical de Instrução Tavaredense.
Foram seus fundadores, António Medina, José Medina, Ricardo Simões Nunes, respectivamente pai e tios do director dêste jornal, Joaquim Severino dos Reis, Manuel Vigário, José Maria da Silva, José Migueis Fadigas, João Jorge da Silva, A. Medina Júnior, etc.
Lembro-me, de que, quando ainda era um garotelho, fugia de casa para ir assistir aos espectáculos.
António Medina Júnior, António Medina, José Medina, Emília Pedrosa Medina, Violinda Medina e Silva, Manuel Nogueira, etc., representavam então no novo grupo, num despique tão renhido com os de lá de cima, que só a êles se deve sem dúvida a magnífica pleiade actual de amadores que se esforçaram, à porfia, por fazer melhor uns que outros. E o resultado, pode dizer-se que foi maravilhoso...
Dêle saíram amadores que se podem classificar de grandes, em qualquer parte.
A Sociedade de Instrução Tavaredense mantém actualmente, em casa própria, um grupo de amadores teatral e uma escola onde recebem instrução para cima de oitenta alunos.
O Grupo Musical Tavaredense, instalado no Palácio dos Condes de Tavarede, mantém uma aula de música que é frequentada por mais de 40 alunos, não contando com a sua afamada e bem organizada Tuna - a popular Tuna de Tavarede.
Qualquer das associações tavaredenses marcaram já o seu lugar exuberantemente, a pontos de Alguém - com A grande - afirmar, solenemente, que Tavarede, em educação músico-teatral, caminhava na vanguarda de tôdas as terras suas semelhantes de Portugal!

Pic-Nics

Entre os componentes dos dois grupos tavaredenses cada vez são mais estreitas e afáveis as relações.
E assim, todos os anos se juntam, num passeio de franca confraternização, que pode ser para a Serra da Boa Viagem, ou para o pinhal do Sr. Dr. Cruz, na Borlateira. Para lá foi o dêste ano, e lá tirámos os pitorescos motivos fotográficos que publicamos.
As panelas fumegam, e refervem, e os pitéus, feitos ali, num alegre convívio e à sombra amiga dos pinheiros amigos, parece que têm outro sabor, o sabor da liberdade com que são comidos...
Depois há baile. Alegre baile, em que se bate, com mestria, o vira e o estalado.
E é vê-los, os pares, novos e velhos numa porfia, rodopiando e lançando ao ar embalsamado pela seiva dos pinheiros, as cantigas que dizem da alegria dos seus corações sempre moços...
São assim, alegres, os pic-nics da minha terra...
... E eu relembro-os, porque tenho saudades, saudades dos tempos em que, descuidoso, enlaçava a cintura das raparigas, airosas, risonhas, cheirando a limonete...
... e dançava, alegre, o vira e o malhão...

Água fresquinha...

Na várzea, mesmo na várzea, em pitoresca fonte, limpa, encantadora, brota a linfa cristalina... A água de Tavarede, famosa já pela sua pureza, leve e macia, de temperatura agradabilíssima tanto no verão como no inverno, caudal uniforme, é uma das preciosidades da aldeia.
A fonte tem poesia! À tardinha, ao morrer do sol no poente afogueado, as raparigas vão, airosas, de bilha à cabeça, colhêr a água pela fresca...
Em noites de luar, quando o ar está perfumado de limonete a frescura da fonte e os seus assentos de pedra convidam o banhista a um agradável repouso...
E a linfa murmura, murmura sempre, correndo das duas bicas da fonte, e no ar, rescendendo a limonete, a sua canção, canção que não se extingue, é doce inspiração para corações de namorados que adregam de refrescar suas bocas na água múrmura e cristalina da Fonte de Tavarede...

Paisagem!

Passeio magnífico, cheio de beleza, é o que se efectua indo para a Serra da Boa Viagem, passando por Tavarede e Brenha.
A várzea vicejante cortada por frescos canaviais, os ribeiros cantando no leito pedregoso, os vinhedos e os campos de trigo, cortados por extensas fileiras de esguios choupos, dão à paisagem tavaredense o aspecto das várzeas minhotas...
... e lá mais para cima, nos Canos, onde a água, a chapinar na roda das azenhas as faz mover, no rodar bendito que alimenta a mó que há-de transformar o trigo em farinha branca de neve, os salgueiros, delicados, a guardar as hortas, tornam a paisagem diáfana, com a sua folhagem tão mimosa...
... e as velas brancas dos moínhos a rodarem sem parança, no cimo dos montes, e lá dentro a mó rom-rom-rom, sempre, sempre sem descanço, dão ao bucólico panorama, movimento, vida...
... E dão o pão e a fartura aos lares dos aldeões...
... dos aldeões da minha terra!

Publicado em 'Jornal de Sintra' - 20/07/1938


Hospital Militar


Tivemos occasião um dia d’estes de visitar aquelle hospital, que, como se sabe, está instalado na casa que foi do fallecido dr. José Maria, ao alto do Pinhal, e onde posteriormente esteve estabelecido parte do collegio do sr. dr. Mendes Pinheiro.
Agradou-nos sensivelmente esta visita pela boa impressão que nos deixaram as diversas dependencias d’aquelle estabelecimento, que n’um praso muito curto, attenta a orientação que os seus dignos directores teem seguido no sentido de o dotar com todos os melhoramentos indispensaveis, se pode tornar uma casa de saude modelar.
Actualmente é seu director o sr. dr. José Gomes Cruz, digno facultativo civil.
(Gazeta da Figueira - 15.04.1915)

O Cavador e a SIT


O trabalhador é o braço forte do rico proprietario, porque este sem elle não terá o celleiro e a adega a trasbordar.
É do cavador que eu quero falar, d’esse operario que nenhuns direitos tem, o que menos instruido é, o que trabalha incansavelmente para garantir á familia o pão d’ámanhã. D’esse operario que cava a terra para fazer sahir d’ella loiras estrigas e que tem por lar uma casa infecta, onde vê morrer de fome os filhos.
Por toda a parte o cavador é dos operários que mais vive nas trevas da ignorancia, sendo raro o que frequenta a escola e o que manda para ella os seus filhos.
A escola d’elles é a taberna, esse covil de vicios e de crimes, onde todas as noites se juntam para jogar.

Francisco Loureiro - cavador e tocador de violino na Tuna do Grupo Musical

Já o temos dito muitas vezes e hoje repetimol-o: a taberna é o grande mal das classes trabalhadoras, porque é n’ella que o operario vae gastar – jogando e embriagando-se – o que ganha durante uma semana para sustentar a sua familia, que, faminta, se vê morrer n’uma casa infecta, victimada pela terrivel tuberculose.
Os meus patricios, esses escravos que de madrugada, descalços, de enxada ao hombro, encolhidos de frio, caminham para o seu trabalho, não comprehendem bem o que é a taberna, porque se o comprehendessem veriam n’ella todos os males da sociedade, todas as ruinas do operariado, e trabalhariam logo para a demolir.
Quereis passar bem as aborrecidas noites de inverno? Ide para a associação, porque n’esta localidade há uma, que muitas terras mais civilisadas do que a nossa, não possuem. Terão n’ella uma escola para aprenderem a lêr, arrancando se assim da sombra da ignorancia em que se envolvem, e para então comprehenderem os vossos deveres; terão um bom theatro para passarem algumas noites com vossas familias em fraternal alegria, como tambem se instruem, porque o theatro é uma escola.
É a Sociedade d’Instrucção Tavaredense a única associação que temos aqui, por isso todos os trabalhadores devem dar-lhe o seu apoio, reunindo-se n’ella todas as noites e fazendo os seus filhos frequentar a escola, affastando-os o mais possivel das casas dos vicios.
Sabemos que esta benemerita aggremiação dará esta época uma série de récitas aos seus associados, sendo muito breve a primeira com o sensacional drama – A Filha do Saltimbanco, que será desempenhada por alguns moços d’esta localidade e da Figueira.
A boa vontade da direcção da Sociedade d’Instrucção Tavaredense merece os applausos de todos aquelles que desejam vêl-a progredir.
Para a Associação, pois, trabalhadores, porque é ella a nossa escola, onde devemos, primeiro de tudo, instruirmo-nos para que, n’uma patria nova, como a nossa, possamos ser cidadãos conscientes!

(Publicada em 'Gazeta da Figueira - 10.11.1910)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 38


Nos dias 27 e 28 de Maio de 1944, a Sociedade de Instrução foi a Pombal dar dois espectáculos, com as peças “O Sonho do Cavador” e “O Grande Industrial”, a favor da “Obra dos Pobresinhos de Pombal” e dos Bombeiros Voluntários daquela localidade. No regresso “por interrupção de luz nos faróis do veículo, este saíu fora do leito da estrada, a pouca distância da referida vila, e tombou-se sobre uma das árvores das margens, a qual evitou uma queda de alguns metros de altura, que podia ter graves consequências”. Felizmente, diz a notícia, foi apenas o susto e este não foi pequeno.
A nossa colectividade não ficou indiferente aos horrores da guerra, e em colaboração com a colónia francesa residente em Portugal, realizou no Parque Cine um espectáculo, a favor das crianças francesas vítimas da guerra, com a peça “Entre Giestas”.


“No “écran” foi passado o mais recente documentário da guerra sobre a libertação de Paris com episódios impressionantes, e cenas de luta, de sangue, de alegria e patriotismo, que ficará como fiel documento pela história fora”. Pelo representante em Portugal do Governo provisório da República Francesa, que estava acompanhado por duas senhoras francesas, vestindo os trajos nacionais da Alsácia e Lorena, foi feito expressivo agradecimento à nossa colectividade.
Entre Giestas
Também, por esta ocasião, recomeçaram as palestras dedicadas, em especial, aos elementos da secção dramática. A primeira, de uma série intitulada “Origem e evolução do Teatro” mereceu, num jornal figueirense, o seguinte comentário:
“Mais vale tarde que nunca... e José Ribeiro, que é profundo em matéria teatral, descreveu-nos, com uma clareza extraordinária – acompanhada de algumas projecções – como foi criado o teatro e a sua origem. Era na verdade indispensável que o soubessem, quem há muitos anos se dedica à nobre arte de Talma. Com o seu formidável improviso e um invulgar poder descritivo, deu-nos imagens maravilhosas de beleza e realismo. Tão belas, que não foram necessários diapositivos nem lanternas para nós as vermos como se fossem projectadas num “écran”. José Ribeiro levou-nos – em pouco tempo – como se fossemos de avião, à Grécia, à Itália, à Inglaterra, à França e à Espanha. Depois desta “viagem” ninguém saía do seu lugar: todos queriam “viajar” mais... É que José Ribeiro descreve com uma facilidade e uma clareza admiráveis”.
Um ano depois, e para inauguração da época 1945/46, realizou-se a segunda palestra sobre o mesmo tema. O mesmo jornal escreve novo apontamento, de que retiramos: “Os amadores de Tavarede sentem-se orgulhosos por terem um ensaiador que conhece profundamente de teatro. Técnico distinto, ensaia duma forma admirável: conhecendo os segredos da Arte, ele consegue que os seus colaboradores façam milagres. Para conseguir o seu fim educativo não se limita só aos ensaios, quere que os amadores tenham um mínimo de cultura. E então resolveu ensinar, através das suas palestras, um pouco do muito que ele conhece sobre a arte de Talma. A segunda palestra não foi inferior à primeira. Apesar de não ter sido acompanhada de projecções – por não se conseguir lanterna para projectar gravuras – ela não deixou de ser brilhante. José Ribeiro consegue dar-nos através do seu grande poder descritivo imagens cheias de vida. Formidável diseur, leu-nos o célebre “Monólogo do Vaqueiro”, uma passagem de “A Castro” e os finais do 2º e 3º actos de “Frei Luís de Sousa”, que impressionaram a assistência pela maneira como foram ditos”.
Esta notícia está assinada por “Um dos amadores” e não erraremos se indicarmos o nome de António Jorge da Silva, como seu autor. A terceira e última palestra desta série, teve lugar no dia 20 de Julho de 1947, mas, contrariamente às primeiras, não encontrámos qualquer notícia.
No relatório do exercício de 1945, está exarado o seguinte “Reconhecimento - ..... uma especial referência ao exmo. sr. Manuel Frederico Pressler, cumprindo-nos o grato dever de levar ao conhecimento de todos os consócios que, além de lhe ficarmos a dever uma peça admirável como é o “Horizonte”, que mais veio enriquecer o nosso repertório, devemos-lhe, também, a cedência, em proveito do nosso fundo de obras, dos seus direitos de autor, que impôs como condição teríamos de receber mesmo nos espectáculos dados por nós em prol de instituições de assistência..... reconhecimento sincero que já uma vez tivemos o prazer de lhe testemunhar, convidando-o para assistir a um jantar que lhe dedicámos, na nossa sede, e a que nos deu a honra de assistir, tendo este decorrido num ambiente de franca cordialidade, de maneira a deixar todos satisfeitos”.
O ilustre dramaturgo respondeu “... agradecer as palavras tão gentis exaradas no vosso relatório e a grande honra que me fizeram nomeando-me Sócio Honorário dessa prestimosa Colectividade. Mais uma vez quero afirmar o prazer que tive em que “Horizonte” fosse representado pelo vosso Grupo Dramático que, em todas as representações desta peça, actuou de maneira notável. Quanto à cedência dos direitos, nada há a agradecer-me. Servindo a Sociedade de Instrução Tavaredense, mesmo modestamente como fiz, prestei um serviço ao Teatro português; e, se o Teatro é a vossa causa, é também a minha causa”.

Foto: 'Entre Giestas'

Sociedade de Instrução Tavaredense - 37

No dia 10 de Outubro de 1942, foi levado à cena “O Sonho do Cavador”. Calculou a direcção que seria a 50ª representação e pensou comemorar o facto. “Pode haver uma pequena diferença para mais ou para menos, pois apesar dos esforços feitos nesse sentido, ainda não nos foi possível precisar ao certo o número de representações, por falta de elementos”. Por este motivo, e atendendo a que a peça nunca pagou quaisquer direitos aos seus autores, foi deliberado que num dos intervalos daquela representação se homenageassem os referidos autores.
Foi uma festa surpresa. E, além de vários ramos de flores, foi feita a oferta ao ensaiador sr. José Ribeiro de um relógio de pulso e ao maestro e compositor sr. António Simões um objecto de prata. O nosso conterrâneo não gostou da atitude tomada e, de imediato, enviou à direcção a seguinte carta:





“A linda festa com que fui surpreendido comoveu-me e aviva mais ainda os motivos de reconhecimento que já tenho para com os componentes do grupo cénico. Lamento, sinceramente, que a vossa amisade não respeitasse as conveniências de todos – as da SIT e as minhas. O objecto que me ofereceram era dispensável: só serviu para empanar um tanto a grande alegria que a vossa festa me deu. O dinheiro da SIT, ganho com tanto esforço por todos nós, não é para ser mal gasto. Foi um mau acto que praticaram, tanto como de administração perdulária como incitamento à indisciplina. Não se devia esquecer isto, que agora pode dizer-se: o ensaiador tem obrigação de aturar porque... recebe presentes. Acresce que, não estando eu sozinho como presenteado, nem sequer posso corrigir o vosso erro pela única maneira viável, porque poderia ofender quem não deve ser ofendido”.
Como se costuma dizer, Mestre José Ribeiro “cavou sempre com a mesma enxada”. Num dia do seu aniversário natalício, a direcção, em colaboração com os amadores e amadoras do grupo cénico, resolveu ir cumprimentá-lo a sua casa. A amadora Violinda Medina, a pedido dos directores, havia comprado uma camisa para lhe oferecer. Aceitou-a, mas, depois, exigiu saber o seu custo e entregou à colectividade o respectivo valor... para não ficar em dívida!
Durante várias décadas, a nossa terra foi um verdadeiro “alfobre” de músicos. As tunas que aqui existiram bem o confirmam. No entanto, e por motivos que desconhecemos, esta arte passou a ser um pouco esquecida pelos tavaredenses. Para as peças musicadas, muito em especial a partir da segunda metade dos anos vinte, a orquestra passou a ter a colaboração de grandes e dedicados amigos da colectividade, nomeadamente de Brenha e Alhadas. A ilustre Família dos “Cardosos”, foi a principal fornecedora, praticamente única, em instrumentos de corda (violinos e violoncelo).
Pois é de dois músicos brenhenses que vamos transcrever dois apontamentos que encontrámos em cartões que enviaram por ocasião do aniversário comemorado em 1942. A sua dedicação à causa do teatro tavaredense merece bem esta breve evocação. O primeiro, é de Joaquim Cardoso, o mais velho na colaboração: “Sem a Sociedade de Instrução Tavaredense eu não saberia o que sei, não conheceria o que conheço nem sentiria o que de belo senti no decorrer dos anos que me foi grato conviver no seio de tão filantrópica colectividade. Por isso um abraço de agradecimento aos velhos veteranos da Sociedade, especializando o seu chefe da Secção Dramática, figura de inegualável valor e saber que é o meu querido amigo José da Silva Ribeiro”.
O outro apontamento foi enviado, na mesma data, por um outro velho amigo e colaborador brenhense, Eugénio Gomes Luís. Escreveu então: “Faço votos para que as novas gerações saibam compreender os esforços que os veteranos e os que já descansam a vida eterna, dispensaram em proveito da instrução de Tavarede, e regozijo-me por saber que acabam de adquirir a sede. Ávante, rapazes! Dos fracos não reza a história! Eu já estou velho e quase caduco, mas se mesmo assim vos prestar para alguma coisa, mandem sempre”.


Em Tomar, a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais resolveu atribuir à nossa colectividade o diploma de Sócio Honorário. E, juntamente com uma cópia da proposta, enviaram a carta de que copiamos: “....... atitudes como a vossa, deslumbram-nos; servindo de Exemplo do melhor e bem dignos de seguir, porquanto se nos depara surpreendente, pelo trabalho árduo e vivificador, cheio de beleza e sentimento de Arte Humana pela Vida, e de Vida pela Arte. Maravilhosa concepção esta, dum forte espírito disciplinado e criador, nas pessoas de todos os componentes do Grupo, e do eloquente e incontestados mérito e inteligência do nosso querido Amigo, José da Silva Ribeiro, que tão proficientemente sabe cimentar, mesmo no mais rude elemento, os melhores e salutares princípios de Solidariedade”.
Fotos: 1 - Auto da Mofina Mendes; 2 - O Grande Industrial