sexta-feira, 30 de julho de 2010

António José da Costa Pinto

Morgado da Vergieira, que foi instituído em 1753.
Era filho do dr. Matias da Costa Pinto, padre, natural de Presalves, Reveles, e de Isabel Milheira, de Ferreira a Nova. Casou com Rosa Maria de Matos Salazar e Vasconcelos, filha do dr. Simão Pedro, padre, e de Maria Teresa de Salazar e Vasconcelos.
“Foi um morgado de via reduzida e, para base de futuras linhagens fidalgas, excessivamente… sacrílego. Interessante progenitura o formou. Todas as pessoas que outorgaram nessa escritura (constituição de vínculo de morgado), tinham, na verdade, uma situação singular, tanto na família como na sociedade: os novos morgados devem ter sido muito tementes a Deus, pois abundantemente tinham em casa quem lhes pudesse ensinar a cartilha eclesiástica…”.
O morgado foi constituído por: “a quinta da Vergieira (que aforara em phateosim perpétuo, por um alqueire de milho. Situada em Caceira, no cruzamento do caminho que vai da Figueira para Maiorca. Devia estar em mau estado porque na escritura do aforamento só há referências a casebres em ruínas e matos, com terras de semeadura); uma casa na Figueira, na rua que mais tarde se chamou dos Ciprestes, residência do dador; um prédio de quarenta aguilhadas, no campo do Malafago, em Maiorca; e uma azenha na ribeira das Alhadas, de que lhe tinha feito mercê a Universidade de Coimbra. Isto por parte do pai da noiva, que ainda doou, em conjunto com a mãe, uma ínsua que tinham feito na Várzea e que partia com a fonte de El-Rei e com as marinhas do duque de Cadaval.
O pai do noivo doou muitas terras nos campos ao sul do Mondego, diversas quantias em dinheiro, o direito a uma acção litigiosa importante e, até, prédios em Torres Novas”.
Como era da praxe de então, ambos os dadores sujeitaram a doação a missas por alma deles e dos seus ascendentes. O casal teve um filho, Simão Pedro, que ficou na posse de todos os referidos bens, excepto do título de Morgado da Vergieira.


Caderno: Tavaredenses com História

Vicente Ferreira da Silva

Natural do Porto, onde nasceu em 1879, veio muito novo para a Figueira da Foz com sua família, e acabou por morrer em Sintra, em casa de um filho seu, em Março de 1946, com 67 anos de idade.
Foi um destacado amador teatral em diversos grupos dramáticos figueirenses.
Num apontamento seu, transcrito por José Ribeiro em “50 anos ao Serviço do Povo”, escreveu: “Entrei para a Sociedade de Instrução Tavaredense em Fevereiro de 1911 e despedi-me em 24 de Maio de 1915. Em 1910 foram representadas umas comédias sob a minha direcção…” Recorda, a seguir, o nome das peças que ensaiou e nas quais também representou como amador.
“… felicitamos o sr. Vicente Ferreira pela maneira brilhante como ensaiou os simpáticos amadores, que têm dado sobejas provas de se quererem instruir e ao mesmo tempo recrear os sócios”, diz-se numa nota de 1911.
Participou, activamente, na vida associativa, que reconhecia de grande utilidade para a instrução e cultura dos seus paroquianos. Em 1914, numa assembleia geral da Sociedade de Instrução Tavaredense, foi feito “o elogio breve, mas significativo, de Vicente Ferreira, agradecendo-lhe ao mesmo tempo todas as atenções e os seus sacrifícios em favor da Sociedade, dizendo que só um homem da sua tempera, com uma vontade igual à sua, seria capaz de tantas canseiras em prol de uma terra que lhe era desconhecida. Tanta noite perdida, indo longe da sua casa, muitas vezes debaixo de chuva, levar aos outros o produto do seu recurso intelectual, só da sua candura de alma se poderia obter”.
Em 1916 passou a colaborar com o Grupo Musical e de Instrução dirigindo a sua secção dramática. Além de diversas comédias e operetas, ensaiou o drama Erro Judicial, um dos grandes êxitos daquele Grupo. A última peça por si ensaiada com estes amadores, foi a opereta de António Amargo, Ninotte, em 1925.
Aquando do seu falecimento, encontrámos o seguinte apontamento: “Residente na Figueira há muitos anos, conquistando aqui amigos e consideração pelas suas qualidades de carácter e pela forma atenciosa como tratava. Cidadão trabalhador e honesto, foi também um apreciado amador dramático. Ultimamente dedicava-se a cobranças e era fiscal dos empregados no Teatro do Parque-Cine”.
Era sócio honorário da Sociedade de Instrução Tavaredense.


Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 40

Em Janeiro de 1947 foi inaugurado novo estandarte, do qual foi madrinha a srª D. Asta Willing da Cunha Esteves, esposa do sócio Capitão José da Cunha Esteves, da Quinta do Peso.
A Assembleia Figueirense, no dia 28 de Fevereiro de 1948, levou a efeito, no Parque Cine, uma festa em homenagem a Rogério Reynaud. Depois de um prólogo, em que foram apresentadas as cenas “Sol na Charneca”, “Beira-Mar” e “Desfolhada ao Luar”, houve mais quatro partes, a última das quais esteve a cargo do nosso grupo cénico. “A encantadora peça bíblica “O Nascimento do Messias”, foi escolhida expressamente para permitir serem postos em evidência quatro maravilhosos trabalhos de cenografia da autoria do homenageado”.


No ano de 1949 foi levada à cena, pela primeira vez, a peça “Raça”, e em Junho de 1950, foi a vez da comédia, dos Irmãos Quintero, “Pé de Vento”. Foram mais dois triunfos para a SIT. Mas, ainda mais um extraordinário êxito chegou neste último ano. No dia 28 de Outubro de 1950, na nossa sala de espectáculos, foi apresentada, em estreia, a fantasia “Chá de Limonete”, da autoria de José da Silva Ribeiro, com música de António Maria de Oliveira Simões. Encontrámos muitas críticas e comentários a esta fantasia. No entanto, entendemos que será interessante transcrever o que a direcção da colectividade escreveu no seu relatório daquele ano.
“Esta peça exigiu dos seus Autores um trabalho exaustivo, só muito palidamente avaliado por quem de mais perto com eles tratava. Tanto os amadores antigos como os que agora entraram de novo, tiveram nesta peça ensejo de demonstrar a sua boa vontade ensaiando sem descanço, todas as noites, durante cerca de dois meses, para que a peça fosse apresentada na data marcada, o que, por várias razões, era muito importante. Foi um esforço fora do vulgar que a direcção muito sinceramente agradece e que torna os componentes da nossa já famosa secção dramática cada vez mais dignos do reconhecimento da assembleia geral.
Na impossibilidade de registar aqui os nomes de todos os figurantes e demais os numerosos amigos que, de qualquer forma, prestaram o seu concurso, contribuindo assim para o êxito que “Chá de Limonete” obteve, seja-nos permitido citar o sr. José Nunes Medina que, tomando a seu cargo a parte musicada, foi um bom auxiliar do sr. José Ribeiro. Quando se pensou pôr em cena esta peça, foi posta de parte qualquer ideia de lucro; antes pelo contrário: contava-se em que a receita nunca chegaria a cobrir a elevada despesa que a mesma acarretaria. Porém, como se tratava duma peça educativa, com fundo histórico, que mostrava aos tavaredenses (e aos estranhos) muita coisa que desconheciam sobre a sua terra, resolveu-se ir para a frente, isto é, pô-la em cena, embora o resultado financeiro fosse mais que duvidoso”.
Verificou-se, porém, que depois de 14 representações seguidas, uma das quais no Casino Peninsular, “sempre com o maior agrado do público e as mais elogiosas, e algumas delas, honrosas referências, tanto à peça como ao desempenho, “Chá de Limonete” não só está pago mas ainda apresenta saldo”.
Aconteceu, e logo no dia da estreia, um lamentável acidente. “No final, foi feita uma chamada especial a Rogério Reynaud, autor de alguns dos belos cenários da peça. Quando aquele distinto artista descia a escada duma casa anexa para se furtar aos aplausos, caíu tão desastrosamente que sofreu fractura do crâneo e de uma clavícula”.
“A montagem da peça é sumptuosa: cenários, guarda-roupa, até os mais insignificantes adereços, tudo assinala a preocupação de impressionar bem o espectador. Até na urdidura da peça o autor, evitando o clássico “compère” para a ligação dos respectivos números, mostrou o propósito de apresentar obra diferente das outras revistas. Tratando-se, aliás, dum trabalho composto sobre fundo histórico, esse facto lhe conferia já assinalada diferença. A fantasia só colaborou o bastante para quebrar a aridez dos factos históricos, amenizar o espectáculo e levar o espectador a recebê-lo sem enfado. Consistiu nisso o principal e grande esforço do autor. Conseguiu seus fins”. Um pouco adiante, continua a notícia:
“Há até a assinalar quadros e passagens em que faz crítica salutar e construtiva, bem patente no elogio da vida rural, na condenação do vício da taberna, da psicose futebolística, do endeusamento ao fado, em contraste com a indiferença e menosprezo a que são votados os grandes valores intelectuais da Nação. Estamos também com o autor quando pela boca do “Endireita” condena indignamente o “mentiroso” e o “velhaco” que anda pelas igrejas a pretender alardear princípios que não vive. O hipócrita é um ser desprezível, abominável, monstruoso, onde quer que apareça e por maioria da razão quando desce a comprometer, com a doblez do seu procedimento, a causa sacratíssima de Deus”.
A rematar a nossa história de hoje, copiamos um protesto enviado ao fogueteiro habitual. “Embora com profundo desgosto, não podemos deixar de lhe apresentar o nosso veemente protesto pela sucata que nos enviou. Os morteiros de carga inteira para a salva iam-nos acarretando sérios dissabores, pois uma parte deles só rebentavam no chão e outra parte nem sequer rebentavam. Se deseja ter a confirmação do que afirmamos, dirija-se V.Sª. ao Presidente da Junta de Tavarede, que nos quis proibir de acabar de atirar a salva, em virtude do perigo que representavam, caíndo em plena via pública. Os foguetes de bataria também eram bastante fracos não subindo bem e rebentando mal”.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 39

“A garridice dos Trajos Portugueses, a que deve o título a festa, apresentou-se bem, em quantidade e em qualidade, quer por parte dos rapazes como por parte das raparigas. Vistosos trajos vestiam as mais lindas cachopas da alegre terra do limonete e das cercanias. O júri viu-se em palpos de aranha, quando quis classificar os três trajos mais expressivos que se apresentaram na festa, pois o salão regorgitava de pares dançantes, vestindo trajos de fantasia ou característicos das regiões portuguesas”. Foi assim que “Notícias da Figueira” comentou uma festa realizada na colectividade, em Outubro de 1946.
Além do concurso dos “Trajos”, também houve concurso de quadras, com referência obrigatória a trajos portugueses. E a notícia conclui: “Mas a terra do limonete não se fica por aqui! A festa continua – no dia 9 de Novembro, com a representação do seu excelente grupo cénico, numa “Noite de Teatro Português”, que há-de ficar memorável e, naturalmente, exige repetição, pois o teatro é pequenino demais para se levar à cena, apenas uma vez, coisa de tal envergadura. Três épocas do nosso teatro serão interpretadas, com as suas características das respectivas épocas e da Arte de Representar. Teatro hierático, com o “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente; Teatro romântico, com o 2º acto da “Morgadinha de Valflor”, de Pinheiro Chagas; e Teatro realista, com o 3º acto de “Entre Giestas”, de Carlos Selvagem. O velho Sílvio Pélico dizia a propósito de uns goivos, que eram verdadeiras maravilhas: “Goivos assim, ou de Nice... ou de Pereira!”. Podemos dizer agora “Uma coisa destas... só em Tavarede!”.
A propósito desta notícia, lemos no relatório daquele ano: “Foi um ano infeliz no que diz respeito à actividade da secção dramática... ... não se deu, nem afrouxamento da vontade de trabalhar por parte de todos, nem a mudança de orientação, mas tão somente a motivos de força maior, contra os quais nada podemos”. A ausência ou doenças de amadores e amadoras e o falecimento de familiares próximos, foram obstáculos intransponíveis. Este programa foi apresentado mais tarde, em Tavarede e, também, na Figueira e em Coimbra. E se “na Figueira fôra excepcionalmente apreciado, em Coimbra o êxito foi maior ainda, como ficou bem documentado no que disse a imprensa. Pelo seu valor cultural, pela sua apresentação e pelo desempenho, este espectáculo honra o grupo que o realizou. É nossa opinião que nunca a SIT apresentou programa mais valioso, sob todos os aspectos”.
Em Janeiro de 1947, no Parque Cine, foi apresentado o “Auto da Mofina Mendes”, “uma das mais belas obras de teatro histórico que nos deixou o genial fundador do teatro português e que pela primeira vez se representou na Figueira”. “É de notar como o grupo cénico da SIT enquadrou as personagens simbólicas num cenário propositadamente frio, rígido, representado como cumpria, quase sem “movimento de cena”, a contrastar com as personagens do primeiro plano, que representavam para aquém da cortina: os pastores e a Mofina, aqueles interpretando o “maravilhoso”; estes a “vida terrena””.
Pelo Natal e Ano Bom, foi apresentado um novo programa. “A SIT organizou, para recreio espiritual dos seus associados e pessoas de família, um interessantíssimo serão de arte dramática, ao qual foi dado o título genérico de “O Natal no Teatro”. ... o mais interessante de O Natal no Teatro e da interpretação e da montagem das três pequenas peças – que, como poderá supor-se, visto tratar-se do grupo cénico da SIT, foi impecável – na indumentária, nas caracterizações, nos belos cenários expressamente feitos pelo artista Rogério Reynaud e na boa música do distinto amador António Simões, na montagem, em suma – é que cada uma das peças mereceu especial encenação, visto tratar-se, embora com o mesmo tema, de épocas de teatro e “maneiras” consideravelmente distanciadas. E todos se houveram bem, como, aliás, era de esperar e de harmonia com o que explicou à assistência o director do grupo cénico, José Ribeiro, numa espécie de prólogo ou introdução ao que ia ver-se e ouvir-se, e no qual, em breve escorço, se referiu ao Teatro e à sua evolução, através dos tempos.
Assim, os “Mistérios”, escritos por Gil Vicente para serem “representados ao Príncipe D. João III endereçado às matinas do Natal, na era do Senhor de 1534”, são incluídos no Teatro
hierático, embora interessados com o entremês da “Mofina”; o “Presépio” foi representado conforme a tradição local (afinal mais antiga em Tavarede do que na Figueira), em perfeita liberdade de movimentos dos intérpretes, com os consabidos anacronismos de guarda-roupa, de referências de época, de situação geográfica, etc., tal qual o temos visto durante gerações e gerações, que lhe têm imprimido “coisas de sua casa” e chalaças de ocasião, nos conhecidos quadros dos “Pastores Brutos”, de “As Cinco Pastoras”, de “O Moço e o Cego”, da “Romagem do Diabo” (nesta particularidade está o segredo de jamais ter sido “retirado do cartaz”, em anos e mais anos, através de gerações e gerações, deliciando a assistência e tornando-se motivo de... orgulho de tantos conterrâneos nossos que têm cultivado a chamada arte de Talma. Finalmente subiu o pano e abriram-se as cortinas para a representação da peça bíblica em 1 acto e 4 cenas “O Nascimento do Messias”, com acção desenrolada em Nazaré e em Belém de Judá, no ano de 752 de Roma, peça sem indicação do nome do autor, mas que sabemos expressamente estudada e escrita para esta interessante e curiosa festa e que, muito justamente, agradou a todos!”.

domingo, 25 de julho de 2010

António Vitor Nunes Guerra


Nasceu na Figueira a 20 de Novembro de 1902 e morreu no dia 15 de Agosto de 1977.
Frequentou o Seminário de Coimbra não tendo chegado a ordenar-se.
Foi um dos fundadores do Colégio Academia Figueirense, onde leccionou as disciplinas de Português, Latim, Geografia e Ciências Naturais. No Seminário da Imaculada Conceição, da Figueira, também foi professor nas aulas de Latim, Francês e Ciências. Foi, ainda, professor na Escola Preparatória Dr. João de Barros.
Dedicou enorme actividade ao Museu Dr. Santos Rocha, de que foi director desde Agosto de 1938 e exerceu as mesmas funções na Biblioteca Pública Municipal, desde Janeiro de 1948 até ao ano de 1972, em que se aposentou.
Desempenhou diversos cargos públicos e colaborou com diversos jornais locais, exercendo, em determinado período, o lugar de director de “A Voz da Figueira”.
Casou, em Dezembro de 1923, com Angelina Flor Lopes, natural de Tavarede, filha dos tavaredenses José Lopes Moço e de Angélica Flor Lopes.
Na nossa terra, desempenhou importante actividade no Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, onde foi titular de diversos cargos nos órgãos sociais, nomeadamente de presidente da Direcção e da Assembleia Geral e professor na sua escola nocturna. Também pertenceu aos corpos sociais dos Bombeiros Voluntários da Figueira.
Dotado de boa voz de tenor, fez parte do grupo coral daquela colectividade que abrilhantava as missas solenes em diversas igrejas do concelho. “… missa solene, cantando ao coro um grupo de rapazes daqui, que a poder de muito trabalho e de uma forte dedicação, tendo à frente António Vítor Guerra, o ano passado se fez ouvir, pela primeira vez, com muito agrado”.
Também prestou valiosa colaboração à Sociedade de Instrução Tavaredense na montagem de diversas peças e a pedido de José Ribeiro, de quem era grande amigo.


Caderno: Tavaredenses com História


Nota do seu casamento, publicada no jornal '= Figueirense', em 13/12/1923


No sábado da ultima semana, dia Io de dezembro, teve lugar o casamento auspicioso do meu querido amigo António Victor Guerra, guarda-livros muito competente, com a simpática tavaredense menina Angelina Flor Lopes, dilecta filha do sr. José Lopes Moço, ferroviário, e da srª Angélica Flor Lopes.
Após a ceremonia civil, que teve lugar em casa da noiva, realisou-se a religiosa, em que foi celebrante o reverendo sr. Manuel Vicente, depois do que os noivos foram muito cumprimentados por grande numero de pessoas que se encontravam no templo.
Paraninfaram o acto: por parte da noiva, seus tios, srs. João dos Santos Davim e esposa D. Maria da Ascenção Davim; e por parte do noivo, o sr. Joaquim Mendes da Costa, respeitável e honrado industrial, dessa cidade, e a srª D. Belmira Flor Ferreira, tia da noiva.
Ao grande numero de convidados foi oferecido um lauto banquete, no decorrer do qual se notou que havia muita animação e bem-estar.
Ao toast, em que não faltou a champagne, foram levantados efusivos brindes pelas felicidades e venturas dos noivos, que delas são bem merecedores, graças às excelentes qualidades de caracter com que a natureza os dotou.
O noivo agradeceu, de uma forma fácil e fluente, aos amigos que em palavras tão repassadas de sinceridade lhe apeteciam um futuro perene e venturoso, retirando mais tarde, com sua noiva, para a Figueira, onde fixaram residência.
À noite, porem, e antes da sua retirada, houve concerto musical por um improvisado terceto - violino, flauta e violão -, executados por convivas, entre eles o meu particular amigo sr. P.e Vicente, que mais uma vez se mostrou um fixe dos fixes.
Quando o terceto entendeu que eram horas de se auzentar, porque o adeantado da hora já não estava para pandegas, pôz ponto final no concerto, momento esse que foi para alguém a melhor peça da noite, pois que se sentia mal disposto e com o corpo a pedir cama...Mais uma vez apeteço aos simpáticos nubentes muitas venturas e prosperidades na nova vida que acabam de encetar, pois que são delas bem dignos e merecedores.

sábado, 24 de julho de 2010

Tavarede - aldeia escola


UMA OBRA QUE DIGNIFICA

Em Tavarede, modesta aldeia da beira, ensina-se Teatro!
Para quem descreia da existência dum fogo sagrado, constante e generoso que lute através de todas as contigências e de todas as dificuldades por uma ideia digna e firme do verdadeiro sentido da Arte teatral, ponha os olhos e o cérebro em Tavarede, terra pobre, perdida na Beira pobre.
Esse agregado beirão tem uma associação cultural e recreativa, a Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 1904 e desde essa data lançada na maravilhosa missão de cultivar e difundir a cultura dos seus próprios associados.
Chega a pasmar como é possível manter-se uma obra duma projecção tão elevada e tão nobre num meio insuficiente, cheio de asperezas da sua condição geográfica e humana.
Desde há trinta anos que um homem de tenacidade e têmpera fora do vulgar, José da Silva Ribeiro, mantém um grupo cénico, na referida Sociedade. Esse grupo, com um reportório vastíssimo do qual indicamos, como representativos exemplos do critério de selecção “A Nossa Casa” de George Mitchel, “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, os Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” de Gil Vicente, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler, “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça, esse Grupo, repetimos, vem cumprindo tenazmente e com sacrifícios de vária ordem o programa do seu entusiástico orientador. Como a aldeia é pequena bem poucas são as famílias que não têm representação no agrupamento de amadores. E assim a ideia nascida num momento inspirado de amor pelos outros foi-se invertendo no espírito daqueles trabalhadores do campo e das oficinas, naqueles rapazes e raparigas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros que ao cair da noite, de corpo cansado pelo trabalho vão alimentar o espírito porque eles não se limitam a decorar as deixas dos seus “papéis” e recitá-los no momento oportuno com maior ou menor ênfase. Procura José da Silva Ribeiro que eles não sejam “fantoches para divertir o público”, como tão bem nos transmite no prefácio duma sua peça ali representada, mas que “tomem a consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes são alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, do ambiente em que se movem”. E assim, o grupo cénico tem uma actividade misturada de disciplina escolar e de prazer de passatempo. Suponhamos que foi escolhido para uma próxima apresentação o Auto da Barca do Inferno. À assembleia de actores amadores, ávida de conhecimentos, será exposta a obra vicentina, a época em que viveu o fundador do teatro português, a paisagem humana e social da corte de D. Manuel e de D. João III. Procurar-se-á na bibliografia correspondente o auxílio para uma melhor compreensão. E durante os ensaios os comparsas do auto não terão ùnicamente a preocupação de assimilar o contexto. Há sim uma posição inteligente e culta perante o problema que os seus lábios, os seus gestos e a sua expressão irão desenrolar no palco da aldeia.
Tudo isto é conseguido em tom de palestra, à medida que as peças vão sendo ensaiadas, sem ar de lição que decerto se tornaria insuportável para aqueles homens e mulheres de corpo cansado pelo trabalho mas de alma iluminada pela luz duma arte bem compreendida e ainda melhor ensinada.
De vez em quando são organizados programas de carácter acentuadamente cultural. Como exemplo, um programa já realizado com muito êxito e denominado “Noite do Teatro Português”: I Parte - teatro hierático - Auto da Barca do Inferno; II Parte - teatro romântico - 2º. acto da Morgadinha de Valflor; III Parte - teatro realista - 3º. acto de “Entre Giestas”.
Essas peças quando representadas no teatrinho da Sede obtêm receitas insignificantes que raramente pagam as despesas. E o Grupo, depois de apresentadas aos sócios, leva-as à Figueira da Foz procurando assim obter receitas que cubram as despesas de montagem.
É uma luta constante, uma luta nobre e velha de trinta anos.
A aldeia de Tavarede tem uma obra que dignifica não só os seus conterrâneos como o mundo teatral português. Uma Obra que se traduz não só em representações conscientes de verdadeiro Teatro como em palestras culturais e educativas feitas pelo director cénico.
Já foram abordados assuntos de interesse fundamental na cultura da arte de representar. As origens e evolução do Teatro (o teatro grego, em Roma, o drama religioso da Idade Média, a Renascença), o Teatro Português, as Trilogias Dramáticas (a trilogia ligada de Ésquilo - Oréstia, a Trilogia das Barcas de Gil Vicente, a Trilogia de O’Neill “Electra e os Fantasmas”) a Imortalidade do Teatro, tudo foi descrito em dissertações simples, acessíveis ao meio e sempre acolhidas com um entusiasmo que dá vontade de continuar, feliz e convicto de que quando se quer Teatro não é necessário muito dinheiro, muito público e muita cultura. É necessário, sim, defender e criar nos outros a convicção de que o espírito precisa de Teatro como alimento e não como pura distracção. E só assim se pode conseguir esse maravilhoso milagre teatral de Tavarede, lição puríssima e desassombrada da Arte pela Cultura dos povos.
Ainda há pouco no teatrinho da S.I.T. subiu à cena uma fantasia em três actos e 24 quadros de José da Silva Ribeiro, com música de António Simões, denominada “Chá de Limonete”. Essa fantasia que é a história singela da aldeia desde a sua fundação até aos nossos dias, foi montada a preceito, com cenários e guarda-roupa inteiramente novos, num esforço gigantesco que testemunha a vontade indómita e o admirável caminho seguido pelos amadores de Tavarede. Num livro de excelente apresentação gráfica e fotográfica do acontecimento, tivemos o prazer de constatar até que ponto o amor pelas coisas teatrais está espalhado naquele rincão da Beira. E comparando com o que por cá se passa, fazendo a proporção entre as centenas de Tavarede e os muito milhares de Lisboa fica-nos no cérebro o clarão duma Obra que dignifica, reconhecida não só pelo seu público como por diversas associações humanitárias por ela protegidas em diversas representações de beneficência.
E nós, como verdadeiros amantes do verdadeiro Teatro, daqui dizemos, orgulhosos em ajudar a transmitir a sua mensagem: operários e modistas, cavadores e ceifeiras de Tavarede, homens e mulheres dessa aldeia, reduto duma Arte Eterna, obrigado!

Jornal Magazine da Mulher - Novembro de 1951

Em louvor de Tavarede


Quem seria o Fr. Manuel de Santa Clara que subscreve o soneto adiante transcrito?
Pertenceria ao convento figueirense de Santo António? Ou algum religioso de outro mosteiro, estranho à terra, que por aqui passasse a recrear-se ou aqui viesse em uso de banhos (talvez até hóspede do convento) e nalguma digressão à risonha Tavarede ali se deixasse prender nos encantos da sua paisagem?
Ignoro-o. Poucas, que se nenhumas, infelizmente, são as notívias àcerca dos nossos franciscanos, uma vez sumido, creio que para todo o sempre, o arquivo da casa conventual.
Seja como for, é curioso o soneto desse frade, descritivo da “terra do Limonete”. Nele encontramos referências ao vale e outeiros circunvizinhos; ao regatito humilde que atravessa a povoação e que há perto de 170 anos (o soneto é datado de 1779) era, como se vê, ribeiro, portador, por certo, de mais água e menos lixo; ao palácio quinhentista dos Quadros, hoje mìseramente degradado com vergonhosas mutilações e reparações imbecis; e, finalmente, à abastança de frutos e verduras, do seu fecundo vale, por onde o frade-poeta o avantaja nada menos que ao de Tempe, aos pés do Olimpo, na Grécia de Píndaro e de Anacreonte.

Do manuscrito setecentista donde transcrevi o soneto constam duas versões, se assim apreciarmos umas alterações de pouca monta lançadas à margem dele: no 1º. verso, colinas cheias, em vez de outeiros vestidos; no penúltimo, assim ganhando em vez de assim levando. Escolhi a primeira, quando há anos tive nas mãos o manuscrito; a outra, agora, se me afigura preferível. Vejamos:

Descripção do sítio de Tavarede

Entre outeiros vestidos de verdura,
Um vale gracioso à vista ocorre
Onde um claro ribeiro em giros corre,
Banhando-o de eternal, grata frescura;

Quanto nele se avista, obrou Natura;
Só um nobre Palácio ali concorre
A mostrar que, subtil, o engenho acorre
À simétrica mão da Arquitectura.

Junto às casas e muros bracejando,
Verdes parreiras vão, entre a folhagem,
Seu roxo ou loiro fruto entremostrando.

E a Ceres e a Pomona vassalagem
Rende este vale ameno, assim levando
Ao de Tempe famoso alta vantagem!

1779 De Frei Manuel de Santa Clara

Rejubile a fidalga Tavarede com a notícia deste peça literária, e tome-a como uma jóia mais a engastar na sua coroa condal.

Cardoso Marta

(Boletim C.M.Turismo - 31.Julho.1947 - nº. 18)