sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 44


As Bodas de Ouro da colectividade, comemoradas durante o mês de Janeiro de 1954, alcançaram elevado nível. Relembremos um pouco dos comentários da direcção. “... com as visitas do “Orfeão de Leiria” e do “Grupo Miguel Leitão”, da mesma cidade; do “Grupo dos Estudantes da Universidade de Coimbra”; com os espectáculos “Revivendo o Passado”, nos quais colaboraram antigos elementos do nosso grupo cénico; as sessões solenes de abertura e encerramento, foram os factos mais salientes desta gerência que, se outros não houvessem, bastariam por si só para impor o nome prestigioso da SIT, pela forma brilhante como comemorou os 50 anos da sua prestimosa, cultural e beneficente existência”.

Na “Voz da Figueira” de 1 de Janeiro de 1954, vem publicada uma longa entrevista com o director do grupo cénico, que descreve, de forma admirável, a acção da nossa associação. É uma peça que merece ser lida. Leva-nos aos primeiros tempos do teatro em Tavarede e analisa, até com alguma amargura, a forma como então se fazia teatro. “... Partimos do princípio de que o teatro de amadores, praticado com devoção quase heróica pelas sociedades de educação e recreio espalhadas pelas vilas e aldeias de Portugal, constitui valioso elemento de cultura e recreio do povo, que interessa à nação manter em actividade. É assim que o Estado o encara? É seu dever, nesse caso, facultar-lhe e facilitar-lhe meios de vida. Presentemente as coisas passam-se como se os espectáculos de amadores fossem apenas... matéria colectável: cobram-se licenças, censuras das peças, vistos dos programas, imposto sobre espectáculos públicos (!) e contribuições para a Caixa Sindical de Previdência de Profissionais do Teatro (!!). Uma carga asfixiante! Não está certo. Se o Estado não presta outro auxílio, que ao menos não queira fazer dinheiro da actividade desinteressada do teatro de amadores”.


Evocação - O Sonho do Cavador - As duas Comadres (Maria José Figueiredo e Guilhermina de Oliveira)
Também José Ribeiro proferiu mais uma das suas palestras, que intitulou “A acção da Sociedade de Instrução Tavaredense como instituição de cultura e educação popular”, a qual foi muito apreciada por todos quantos a ouviram.

O primeiro acto cultural das comemorações, teve a participação do Orfeão de Leiria, “que entusiasmou a assistência, mantendo-se suspensa com a interpretação de alguns números do seu vastíssimo repertório”; do Grupo de Teatro Miguel Leitão, com a representação da peça de Anton Tchekov “O Urso”; e um acto de variedades musicais, “que deliciaram a assistência, tendo o público forçado, com os seus aplausos, a bisar alguns números”.

E no dia 30 de Janeiro, realizou-se uma “Noite Vicentina”, na qual o Grupo de Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, sob a direcção do Prof. Dr. Paulo Quintela, apresentou os “Auto da Barca do Inferno”, “Auto da Barca do Purgatório”, “Todo o Mundo e Ninguém” e “Súplica de Cananeia”. A sua actuação “foi calorosamente aplaudida pela assistência que enchia por completo, não só as cadeiras, mas também os corredores da sala de teatro”.

O grupo cénico tavaredense apresentou um curioso programa. No primeiro acto levaram à cena a comédia “Os Medrosos”, que tinha sido a primeira peça representada depois da fundação da colectividade, em Dezembro de 1904, e a segunda parte constou da peça “Evocação”. “Tivemos o ensejo e o prazer de ver representar, com um à-vontade de causar inveja a muitos novos, antigos amadores, desempenhando papéis que criaram, alguns há mais de 40 anos. Foi com verdadeira emoção e ternura que o público viu aparecer no palco as figuras remoçadas de Helena Figueiredo, Idalina Fernandes, Emília Fadigas, Maria José Figueiredo, António Coelho, António Graça, Francisco Carvalho e outros, a quem dispensou calorosas salvas de palmas, à medida que iam entrando em cena. Nos finais de acto, caíam sobre o tablado verdadeiras chuvas de flores, lançadas por algumas senhoras da assistência. Serviu de comentador ao espectáculo o sr. José da Silva Ribeiro, que antes de iniciar-se a representação de cada acto falou das peças a que pertenciam, fazendo a apresentação dos antigos, a quem saudou comovidamente, e dos novos amadores que iriam representá-las. Evocou também velhas figuras da cena tavaredense, como os irmãos Broeiro e tantos outros que, certamente, se pertencessem ainda ao número dos vivos, não deixariam de estar presentes naquelas inolvidáveis noites de saudade”.

Sessão solene - Bodas de Ouro - Presidiu à sessão o Prof. Dr. Joaquim de Carvalho

A sessão solene da abertura das comemorações teve a presidi-la a figura prestigiosa do grande Homem de Cultura figueirense Professor Doutor Joaquim de Carvalho que, encerrando a sessão, proferiu uma brilhante oração, em que louvou a acção da SIT, afirmando a determinado passo que “a Sociedade pela sua escola, pela sua vida associativa, pelo seu teatro, é exemplar no país e toda a gente a considera”.

Registamos o facto de que, depois do falecimento daquele ilustre figueirense, foi oferecido à Sociedade, por um dos seus filhos, “um autógrafo de seu Pai, que aqui se guarda como documento valioso e como preciosa relíquia, autógrafo que serviu de mero ideário para as palavras que proferiu na altura das Bodas de Ouro”.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 43



A iniciativa de levar teatro às aldeias e lugares do nosso concelho, e não só, foi bem sucedida. Nas Alhadas, o espectáculo, que teve lugar na Boa União, reverteu a favor do Jardim-Escola. A assistência, diz-nos o correspondente local, “vibrando de entusiasmo, aclamou os distintos actores, fazendo chamada especial a José Ribeiro, o impulsionador do Teatro no nosso concelho que, com certa comoção, agradeceu”. E conclue: “Que beleza de Teatro! Que belo desempenho! Que magnífica lição! Que apresentação tão distinta! Que naturalidade! Muito bem. Assim é que se faz Teatro!”.


Três Gerações - (Maria Aurélia Ribeiro, Violinda Medina e Silva e Maria Teresa Oliveira)

Depois do “Horizonte”, o grupo tavaredense deslocou-se a Leiria para apresentar “Raça”, “Frei Luís de Sousa” e “Pé de Vento”. Foram felizes em todas as deslocações. E se a “Raça” agradou inteiramente, como nos diz esta notícia: “Nunca tinhamos tido ocasião de apreciar este conjunto dramático, e à curiosidade natural dos que apreciam Teatro, juntava-se a de ver “como se portaria” um grupo de amadores, numa peça já nossa conhecida através do palco de maior responsabilidade do país, o do Teatro Nacional D. Maria II. Confessamos gostosamente que excedeu toda a nossa espectativa! A maneira como se apresentou, o à-vontade de todos estes actores-amadores, fazem-nos esquecer esse “amadorismo” tão vulgar, e até desculpável, em realizações desta natureza”, o agrado da récita com “Frei Luís de Sousa” não foi menor.

No jornal “República”, o dr. Vasco da Gama Fernandes, figura bem conhecida dos tavaredenses, depois de ter assistido à representação daquela peça, escreveu uma extensa reportagem sobre o teatro amador, referindo-se, muito especialmente, ao Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra e ao grupo cénico de Tavarede, e da qual recortamos: “... a arte excepcional do grupo de Tavarede, cujo “Frei Luís de Sousa” recentemente representado em Leiria, demonstra a que altura pode chegar a massa anónima do povo quando iluminada pelo talento e pela humana cultura dum José Ribeiro. ... Haverá melhor expressão de riqueza popular do que esses artistas proletários, debruçados, dia a dia, nos trabalhos duros da profissão e entregues nos longos serões à “compreensão” dos seus papéis, sem cultura, alguns analfabetos e outros sabendo ler mas ilaqueados pelas dificuldades intelectuais duma rápida assimilação? ... Mesmo que tenham à sua frente um homem invulgar como José Ribeiro, seu mestre e companheiro, como desconhecer o esforço hercúleo dessa massa erguendo-se à contemplação da beleza e sabendo-a transmitir de forma a causar inveja a alguns filiados no Sindicato profissional? ... Só quem, como nós, assistiu à representação do Frei Luís de Sousa pode avaliar da emoção, da verdade e da sinceridade, que estes proletários-artistas põem ao serviço de uma arte, que eles tanto sentem nos recessos das suas almas de eleição, embora tocados por uma simplicidade comovedora e aliciante”.

Também, e durante alguns anos, fizemos parte deste grupo. Praticamente como simples figurante. Contudo, ao lermos estas e tantas outras notícias sobre o grupo de que, como tavaredense que somos, tanto nos orgulhamos, pela elevação e divulgação que sempre fez da Cultura e do Bem, por tanta localidade do nosso País, temos, forçosamente, de sentir comoção. É por isso que, numa ou noutra destas historietas, nos temos excedido em transcrições. Mas, e agora que estamos a atingir o final dos primeiros cinquenta anos, dois terços desta nossa caminhada, entendemos que era da mais elementar justiça recordar, aos actuais, o passado glorioso da nossa colectividade. Muito em especial desta primeira parte da sua vida.

No final da representação de 'Horizonte', em Leiria

A terceira e última parte, pelo menos por agora, vai das “Bodas de Ouro” às “Bodas de Diamante”, e será muito mais resumida. O passado mais recente ainda não estará esquecido. Daremos nota dos acontecimentos mais marcantes, que servirão, pelo menos, de indicação a algum futuro interessado em aprofundar os seus conhecimentos sobre a Sociedade de Instrução e sobre Tavarede, de cuja história, indubitavelmente, esta colectividade faz parte em muitas páginas brilhantes.


Ainda foi apresentada uma outra peça, de grande categoria, antes das comemorações dos 50 anos. “Serão Homens Amanhã”, uma peça de que o crítico teatral do Diário de Lisboa escreveu: “Teatro muito agradável. Esta exposição modelar de factos e cenas, mantém-se do princípio ao fim, ainda quando a história nos dá alguns truques e imprevistos, ou mesmo inverosimilhanças. Deve repetir-se que o assunto é tão habilmente explorado que desejamos, à medida que os factos se vão desenvolvendo, que se dê, na verdade, aquilo que acontece, o que só por si é uma indicação clara e valiosa da forma como se acha tratado”.


Ainda pretendeu o grupo cénico representar outra peça, da autoria de Ramada Curto. Não lhe foi permitido pela censura. E, então, escreveu-se ao autor: “Foi desejo do grupo cénico da SIT representar o drama “Justiça”, de que V.Exª é autor. ... recebeu-se comunicação de que esta peça “estava proibida”! A “Justiça” não pode ser vista – nem por maiores de 18 anos! Parece que a peça é verdadeira... Sem afrontar o inatacável critério oficial – a que se deve obediência indiscutível – cumprimentamos o Autor daquela e de outras obras que situam Ramada Curto entre os primeiros dramaturgos nacionais contemporâneos, posição que, se em Portugal não lhe dá honra nem proveito, é título verdadeiramente honroso em nações civilizadas”

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Emília Duarte Costa

“Proprietária da Quinta dos Condados, em Tavarede, que há poucos dias se encontrava enferma, faleceu, notícia que consternou todas as pessoas que dela tiveram conhecimento e que apreciavam as distintas qualidades da veneranda senhora”.
Nascida em Liverpool (Inglaterra), filha de Tomás José Duarte e de Francês Jones Duarte, senhora de origem inglesa, viúva desde 1893 do sr. João José da Costa, “conservou-se sempre na sua confortável vivenda dos Condados, não quebrando as suas antigas relações com as melhores famílias da Figueira e multiplicando amoravelmente os actos de generosidade a favor de instituições humanitárias e de necessitados que a ela dirigiam o seu apelo.

Aspecto actual do palacete e da quinta dos Condados

Apesar dos seus 87 anos de idade, a srª. D. Emília Duarte Costa possuía ainda toda a lucidez do seu espírito culto, qualidade que mais cativava todas as pessoas que se honravam com a sua presença”.
Foi grande benemérita para a freguesia de Tavarede, especialmente para a Igreja Matriz, à qual concedeu diversos donativos. Também foi ela que deu o terreno necessário para a realização da feira de gado suíno, aos Quatro Caminhos do Senhor da Areeira.
Em Julho de 1911 foi agraciada com a medalha de filantropia e caridade do Instituto de Socorros a Náufragos.

Caderno: Tavaredenses com História

Diamantino Mendes da Rocha

Tavaredense, nasceu no Saltadouro, filho de Tomás Mendes Rocha e de Maria Matias. Casou com Maria de Jesus Silva, tendo três filhos, Alice, Lucília e António Manuel. Morreu no dia 27 de Agosto de 1980, com 70 anos de idade.
Alfaiate de profissão, tinha “atelier” em Tavarede, primeiro na Rua Direita e depois no Largo do Terreiro.
Tocador de concertina, era um grande animador das festas populares que então se realizavam, especialmente pelos santos populares. No Terreiro, formava orquestra com Pedro Medina, bandolim, e Manuel Lindote, pífaro e viola, mais um ou dois outros elementos que tocassem ferrinhos e pandeireta, instalavam-se nas velhas escadas da casa onde viviam José Vigário e a Ti Marquitas do Pires, que aproveitava a ocasião para fazer o seu negócio de venda de freiras e pevides. Intitulavam-se, jocosamente, como “Jazz da Malveira”.

Tocando sanfona no Cortejo Etnográfico do Concelho de Figueira da Foz - 1940

Por ocasião da romaria ao S. Paio, no primeiro domingo de Julho, era ele quem animava as tardes. Sentado num velho tronco, junto à capela, tocava animadamente as velhas modas de roda e o entusiasmante vira mandado, formando-se animada roda onde as palmas compassadas comandavam a dança.

Caderno: Tavaredenses com História

Frei Álvaro Teles

Filho de Pedro Lopes de Quadros e Sousa e de sua mulher Maria Teles de Meneses, nasceu em Tavarede.
“Tomou o hábito da ilustríssima Congregação de S. Bernardo, “cuja cogula he nevada gala”, argumento fatal da sua pureza, pois esta religião sagrada é o mimo daquela luz sem sombra, lua que não tem mancha, e sol que se não eclipsa, a Santíssima Nossa Senhora.
Deu-lhe obediência a ocupação de confessor do real convento de Lorvão, onde com exemplar procedimento desempenhou, que tinha por filho do Patriarca tão santo; daqui passou a ser mestre de teologia para aquele Escurial Lusitano, o grande, real e magnífico mosteiro de Alcobaça, donde seus discípulos tinham bem que aprender, pois lhe não faltavam virtudes que imitar, ficando os que o foram por abalizados, conhecidos, tendo neles que seguir os mais grandes exemplos, que quando a doutrina aproveita, é para o mestre a maior glória, sendo padrão que a estimação levanta a quem bem devotadamente se ocupa, e eterna a dívida em que se lhe fica, porque para o agradecimento é a vida curta e para a paga não há nem pode haver fazenda, e assim com razão se podem gloriar os seus discípulos deste mestre por terem a fortuna de que eles os animasse, e sempre se avaliará grande, quando a vida lhe perdure para que em tão exemplares empregos se exercite, e tão religiosamente se ocupe, donde foi promovido a abade de Seiça, em cujo governo mostrou o seu grande talento, porque contentar a muitos nunca foi pouco, e ser em todos geral o agrado sempre foi muito.
Desta ocupação passou a Prior de Alcobaça e executando-a louvavelmente algum tempo renunciou ao cargo, para que melhor sem encargos tratasse do espírito, porque o governar sempre inquieta por algum modo, sendo infalíveis os estragos do sossego e assim é mais seguro ter em pouco o que os outros estimam e não fazer caso do porque anhelam, pois neste desprezo cobrando forças o desengano se habilita um sujeito para o melhor triunfo”.


Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 42

No dia 11 de Janeiro de 1952, o nosso grupo cénico foi, pela primeira vez, representar a Leiria, num espectáculo que reverteu a favor do Jardim-Escola local. Apresentou a peça “Horizonte”. O jornal “Região de Leiria” teceu elogiosa crítica a esta récita. Desde a pontualidade do começo “como é louvável hábito do grupo de Tavarede”, à representação “da peça rústica de Manuel Frederico Pressler, Horizonte, cujo desempenho foi unanimemente considerado dos mais brilhantes a que se tem assistido no nosso teatro”, o crítico comenta a peça e sua interpretação, terminando da seguinte forma, relativamente à encenação: “À passagem do touro tresmalhado, vacas, cavalos e campinos, tudo se adivinha por detrás do muro que nos encobre o primor de técnica que José Ribeiro usou para tal. A suavidade daquela madrugada da abertura do 1º acto, com a passarada e os galos a cantar, encantou-nos.
Todas as cenas estão tratadas com saber e representadas com mestria, num conjunto harmónico e sem desnível, além do que resulta da maior evidência de alguns papéis e da maior capacidade interpretativa de certos elementos, o que é notório. Sente-se que há ali mão segura ao ordenar todo aquele movimento, que atinge por vezes proporções respeitáveis, como na cena da festa do casamento, com dezenas de figuras actuando naturalmente, vibrantemente, mas sem choque, ordenadas, em resumo – bem!
Ouvimos dizer que o público de Leiria tinha acabado de receber uma “lição de teatro”! Foi, sem dúvida, uma esplêndida noite, que oxalá as nossas companhias profissionais nos pudessem repetir mais vezes do que vem acontecendo há longos anos...”.
A 5ª palestra da série sobre o “Teatro”, que Mestre José Ribeiro proferiu, teve como tema “Garrett, novo fundador do teatro português”.
Frei Luís de Sousa - 1º. acto

No “Jornal Magazine da Mulher”, no seu nº 15, vem publicada um extensa reportagem, a propósito da representação de “Chá de Limonete”, que intitulou “Uma obra que dignifica. Em Tavarede, modesta aldeia da Beira, ensina-se Teatro”. É impossível estar agora a transcrever esta reportagem. Vem publicada no “Notícias da Figueira”, de 12 de Janeiro de 1952. Mas não deixamos de recolher algumas frases que entendemos mais significativas.
“Para quem descreia da existência dum fogo sagrado, constante e generoso que lute através de todas as contingências e de todas as dificuldades por uma ideia digna e firme do verdadeiro sentido de Arte teatral, ponha os olhos e o cérebro em Tavarede, terra pobre, perdida na Beira pobre... ... Chega a pasmar como é possível manter-se uma obra duma projecção tão elevada e tão nobre num meio insuficiente, cheio de asperezas da sua condição geográfica e humana... ...Ainda há pouco no teatrinho da SIT subiu à cena uma fantasia de três actos e 24 quadros, de José da Silva Ribeiro, com

música de António Simões, denominada “Chá de Limonete”. Essa fantasia que é a história singela da aldeia desde a sua fundação até aos nossos dias, foi montada a preceito, com cenários e guarda-roupa inteiramente novos, num esforço gigantesco que testemunha a vontade indómita e o admirável caminho seguido pelos amadores de Tavarede. Num livro de excelente apresentação gráfica e fotográfica do acontecimento, tivemos o prazer de constatar até que ponto o amor pelas coisas teatrais está espalhado naquele rincão da Beira. E comparando com o que cá se passa, fazendo a proporção entre as centenas de Tavarede e os muitos milhares de Lisboa, fica-nos no cérebro o clarão duma Obra que dignifica, reconhecida não só pelo seu público como por diversas associações humanitárias por ela protegidas em diversas representações de beneficência. E nós, como verdadeiros amantes do verdadeiro Teatro, daqui dizemos, orgulhosos em ajudar a transmitir a sua mensagem: operários e modistas, cavadores e ceifeiras de Tavarede, homens e mulheres dessa aldeia, reduto duma Eterna Arte, obrigado!”.

Ainda no ano de 1952, o grupo cénico tavaredense promoveu uma série de espectáculos, com duas peças de Gil Vicente (Auto da Barca do Inferno e Auto da Mofina Mendes) e uma outra, em 1 acto, de Ramada Curto (Três Gerações), levando-o a várias terras do nosso concelho, nomeadamente, Alhadas, Brenha, Caceira, Quiaios, Vila Verde, Santana e Lavos. Este espectáculo era antecedido por uma palestra, pelo director do grupo cénico, focando a época, a personalidade e a obra do fundador do teatro português “sublinhada sempre com fartos aplausos. Em toda a parte fomos recebidos com provas inequívocas de apreço, lamentando a maioria não ter instalações mais cómodas para podermos visitá-los mais vezes”.
O produto líquido de cada representação reverteu integralmente a favor das colectividades em cuja sede se realizou cada espectáculo. Como as despesas com guarda-roupa e cabeleiras eram elevadas e “sendo de admitir que numa ou noutra localidade a visitar, dada a sua pequena população e a pobreza do meio, a receita não chegará para as despesas; mas nem mesmo esta circunstância impedirá a visita dos tavaredenses, pois o “déficit” que se verificar será coberto pela Sociedade de Instrução Tavaredense”.
Frei Luís de Sousa - 3º acto - Romeiro e Telmo Pais

Sociedade de Instrução Tavaredense - 41

No número de 6 de Setembro de 1950, o jornal “Notícias da Figueira” publica uma extensa entrevista a José da Silva Ribeiro, a propósito de “Chá de Limonete”. Motivado por esta entrevista, o jornal lisboeta “A Voz”, publica uma crónica sobre o Teatro de Amadores:

“Falar da decadência do Teatro português é zangarrear em sanfona velha. A falação tem sido feita, há um ror de anos a esta parte, sob todos os aspectos e a todos os propósitos. Nunca, porém, é demais bater a tecla, enquanto se não enfiar por outro caminho. Já lá dizia o bom do Rosalino: “o Mundo não se emenda, mas eu não largarei jamais o Mundo!”. O homem não era, afinal, tão desassisado como o quizeram fazer.

Chá de Limonete - São Pedro e Frei Manuel de Santa Clara

Afere por este critério um jornalista que provou o seu pulso na imprensa provinciana, espírito vivo e sensato que é um apaixonado do Teatro, tendo organizado na ridente povoação de Tavarede, a par da Figueira da Foz, um grupo teatral na Sociedade de Instrução Tavaredense, formado por figurantes buscados nas mais humildes profissões – gentes dos campos, mesteirais, etc. Este núcleo, sob a sua inteligente orientação, tem interpretado com geral aplauso não só peças do seu organizador, como de outros autores nacionais e estrangeiros. É uma obra de cultura e patriotismo exemplar a imitar para que justo é dirigir as atenções de quantos se interessam pelo Teatro Português”.

Em pleno êxito, a fantasia “Chá de Limonete” foi retirada, temporariamente, de cena, para dar lugar a mais um outro extraordinário espectáculo. No dia 24 de Novembro de 1951, é apresentada, na sede, a imortal obra-prima do teatro português “Frei Luís de Sousa”. Do trabalho que deu a sua montagem, copiamos este apontamento do relatório desse ano:

“Vós que assististes cómoda, ou incomodamente instalados na plateia à representação do “Frei Luís de Sousa”, não podeis avaliar, e pena é que assim seja, porque se o pudesseis fazer isso significaria interesse pela vossa Sociedade e estimular-nos-ia a vossa presença amiga, não podeis avaliar, como se ia dizendo, a soma de sacrifícios, de desânimos, de estudo, de energia e trabalho enfim, despendidos na montagem desta peça inolvidável. Todos os amadores colaboraram com o seu saber e com a sua melhor boa vontade. Mas é, sem dúvida, e desnecessário seria dizê-lo porque todos vós o sabeis bem, ao dinamismo, à cultura, aos profundos conhecimentos das coisas de teatro, à superior inteligência do director cénico, que se fica devendo mais este triunfo da nossa Sociedade, delirantemente aplaudido por quantos assistiram ao Frei Luís de Sousa.

Quem, como nós, acompanhou a evolução do que se apresentava como um sonho pelo muito que tinha de arrojado, até à admirável realidade que todos presenciastes, tem por força de admirar e avaliar o enorme trabalho levado a efeito pelo nosso director cénico. A quantidade assombrosa de correspondência trocada para recolha de elementos necessários; a probidade com que a peça foi montada e posta em cena, levando o seu escrúpulo até à observância dos mais ínfimos pormenores, causando a admiração dos próprios profissionais de teatro; o dispêndio de importâncias do seu próprio bolso para correspondência, etc., e, sobretudo, o trabalho gigantesco e exaustivo, duma persistência única, realizado como encenador, impõem-no à nossa admiração e gratidão.

Não, nem todas as associações podem representar Frei Luís de Sousa. E nenhuma, por certo, o levaria à cena com o rigor e êxito com que nós o fizemos. Para isso seria necessário que pudessem contar com um elemento tão precioso como esse Homem que todos nos orgulhamos de ter por consócio e conterrâneo. Para o senhor José da Silva Ribeiro vai todo o nosso agradecimento de directores pelos seus ensinamentos, pelos seus preciosos conselhos e pela maneira generosa como sempre colaborou connosco; e as nossas homenagens de homens que muito querem à sua terra, pelo seu grande talento”.

A colectividade, nesse ano, fez uma edição, em livro, da peça “Chá de Limonete”, com o propósito de angariar fundos para os seus cofres e com destino às obras de ampliação e transformação da sede. Foi um êxito, encontrando-se, há já muitos anos, totalmente esgotado.

Chá de Limonete - Lamentos da Vila de Tavarede

Num dos capítulos seguintes contaremos alguma coisa mais sobre “Frei Luís de Sousa”. Como havíamos referido, no primeiro espectáculo de “Chá de Limonete”, o artista Rogério Reynaud sofreu grave acidente. E em Maio de 1951, com uma festa promovida pelas associações do concelho, como regozijo pelo seu restabelecimento, é-lhe prestada uma homenagem no Teatro Parque-Cine, que teve a participação do Grupo Coral da Figueira, da Associação Naval (ginástica), do Grupo Caras Direitas (dois quadros de revista), da Filarmónica Figueirense (entreacto Na Volta do Mar), e do nosso grupo cénico, que representou o “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente.

Ainda nesse ano, o director cénico efectuou a sua 4ª palestra sobre Teatro, com o título “As trilogias dramáticas”, com o sumário: “A trilogia ligada de Ésquilo – Oréstia”; “A trilogia das Barcas, de Gil Vicente”; “A trilogia de O’Neill – Electra e os Fantasmas”; e “Imortalidade do Teatro”. Respigamos este breve comentário: “e, embora nos desvaneça o facto da maior parte da assistência ser de indivíduos de fora, o que prova o interesse que aos estranhos merecem estas realizações, desgosta-nos sobremaneira o quase desinteresse manifestado pela maioria dos nossos consócios e conterrâneos, pelos assuntos que interessam à sua cultura”.