quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 52

O 4º centenário de William Shakespeare foi, também, comemorado pelo grupo cénico tavaredense. Pela primeira vez, em Maio de 1964, foi dado ao povo de Tavarede a oportunidade
de conhecer uma obra daquele genial dramaturgo. Apresentaram a peça “Romeu e Julieta”.

“Qualquer pessoa habituada a ver teatro, depressa chega à conclusão de que esta peça é difícil e de dispendiosa montagem. Só um homem com o querer e a proficiência de José Ribeiro se arrojaria a fazê-lo representar num palco de província e tirar dele o partido que ele conseguiu. Não é porque no palco de Tavarede se não tenha movimentado número mais elevado de figuras do que aquele que “Romeu e Julieta” apresenta perante os espectadores, mas pelas dificuldades naturais da peça. Todas essas dificuldades foram ladeadas e se “Romeu e Julieta” não fizer – porque não faz – carreira compensadora das canseiras e das despesas que a sua apresentação em cena ocasionou, isso deve-se única e exclusivamente ao violento clima passional em que decorre, clima que contende com os desejos de evasão dominantes no geral da massa frequentadora dos espectáculos teatrais. O público de hoje procura o teatro alegre, ainda que roce pela obscenidade. A representação de “Romeu e Julieta” patenteia equilíbrio, homogeneidade”.

Romeu e Julieta

Especialmente para ser representado aos participantes do Congresso de Medicina do Trabalho, realizado na Figueira em Setembro de 1964, ensaiou-se uma “Noite de Teatro Português”, que se compunha dos autos vicentinos “O auto do Vaqueiro” e o “Pranto de Maria Parda”, do segundo acto de “Frei Luís de Sousa” e da peça “O Dia Seguinte”.

Auto da Visitação ou do Vaqueiro

Nesse ano, e com o fim de subsidiar a aquisição de apetrechamentos do palco, a Fundação Calouste Gulbenkian concedeu novo subsídio, no valor de 98.690$00. Para o espectáculo do aniversário de 1965, o grupo cénico preparou um espectáculo extraordinário. Pela primeira vez, em Portugal, foi representada uma peça do dramaturgo hispano-mexicano Sigfredo Gordon. Foi a peça “Omara”. Sobre este dramaturgo, disse José Ribeiro numa entrevista que concedeu: “Foi o figueirense dr. Francisco Montezuma de Carvalho, crítico de alta craveira e apaixonado estudioso das literaturas latino-americanas, que nos proporcionou o feliz ensejo de travarmos conhecimento com o autor de “Omara”. Poeta e escritor, Sigfredo Gordon é um grande, um autêntico dramaturgo, com uma vasta obra de teatro: aos 54 anos de idade, 33 peças, 12 das quais já publicadas nos seus 4 volumes de teatro. E, deixe-me que lhe diga, é uma lástima que os nossos palcos, onde tantas vezes se exibem produções de obras cujos méritos residem somente no facto de serem estrangeiras, não tenham apresentado até hoje nenhuma deste notável escritor de teatro, que tão bem usa a forma clássica como a moderna e cuja apurada técnica é servida por uma linguagem de riquíssima expressão teatral, um grande poder de síntese criador de belas e vigorosas situações dramáticas e uma extraordinária facilidade de dialogar, seja nos domínios da arrojada fantasia ou da teatralização realista”.

E no espectáculo realizado no dia 30 de Janeiro de 1965, novamente Tavarede teve uma honrosa visita. Desta vez, a SIT recebeu, na sua sede, o sr. D. Juan Enrique Bécquer, representante na Europa do dramaturgo de “Omara”, que se dignou vir à nossa terra assistir à representação da peça que, com a autorização do autor, consentira fosse representada pelo nosso grupo cénico, pela primeira vez em Portugal.

Omara

“D. Juan Bécquer, chamado ao palco por entre estrondosas salvas de palmas, confessou o seu espanto pelo que vira e ouvira! “Omara” era uma peça difícil, até mesmo para alguns profissionais... Não fôra, pois, sem alguma preocupação, que acedera a permitir a sua representação pelos amadores de Tavarede. Entretanto, acabava de constatar uma encantadora realidade, uma verdadeira revelação! E não regateou elogios ao amigo D. José da Silva Ribeiro (como afirmou no seu saboroso espanhol) e a todos os amadores da terra do limonete, a quem abraçou cordialmente”.
Finalmente, nos dias 8 e 9 de Maio de 1965, procedeu-se à inauguração da nova sede, “belo edifício que, entre outras confortáveis instalações, comporta um magnífico teatro, grande aspiração daquela benemérita Sociedade, cujo grupo cénico, constituído por distintos amadores e dirigido pelo talentoso Mestre José da Silva Ribeiro, tem sido, a par de outras actividades educativas da SIT, um magnífico veículo de cultura e fonte de bem-fazer, levando a muitas terras do país, com o mais elevado nível artístico, as peças mais representativas do nosso teatro, com o que grangeou para a sua terra e para a Figueira da Foz títulos de merecida glória aureolados com a mais bela expressão de solidariedade humana, ao representar essas peças para fins puramente beneficentes”.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 51

Até ao final do ano de 1962 “Terra do Limonete” deu 24 representações. No dia 4 de Agosto daquele ano, a colectividade homenageou a amadora Violinda Medina e Silva. “Em cena aberta e depois do presidente da direcção e do director do grupo cénico proferirem palavras de louvor às admiráveis qualidades do talento de Violinda Medina e Silva, foram-lhe entregues, entre vibrantes e inesquecíveis aplausos da numerosa assistência que enchia completamente a sala de espectáculos, várias e significativas lembranças, entre as quais uma artística mensagem assinada por todos os seus companheiros de palco e pela direcção, que muito sensibilizaram a nossa amadora”.

Violinda Medina e Silva, em 'Terra do Limonete'

Violinda Medina agradeceu por carta. “Por não ter cumprido o meu dever, na ocasião própria, por me ter sido impossível devido à forte comoção em que me encontrava e como não pude exprimir o que o meu coração sentia, venho hoje, por este meio, agradecer a todos, direcção, grupo cénico e a todos os que tanto se interessaram para que o brilhantismo da festa que me dedicaram, na noite de 4 do corrente, noite para mim inesquecível, em que recebi tantas provas de carinho e amizade nessa linda festa, e que tão alto me colocaram, que por momentos imaginei que não passava de um sonho.

Grande recompensa me deram, amigos, por um trabalho que não é para mim nenhum sacrifício, antes pelo contrário, que só me dá alegria e satisfação. Creio mesmo que não poderia viver sem o meu rico e querido teatro, portanto tenho fé de poder continuar na nossa casa, por muitos anos, isto se o seu bondoso mestre, a quem tudo devo, tiver paciência para aturar esta má aluna, que tanto o tem arreliado, a quem daqui lhe peço muita desculpa e que o mestre aceite a minha maior gratidão”.

Terra do Limonete - O Rancho dos Potes Floridos na Fonte da Várzea

Na representação de 3 de Fevereiro daquele ano, 10ª récita, foi prestada pequena homenagem aos autores, José da Silva Ribeiro e Anselmo Cardoso. “Quando Helena Figueiredo Medina e Violinda Medina e Silva, amadoras mais antigas do grupo dramático, entregaram àqueles autores bonitos ramos de cravos e a veneranda senhora D. Maria Augusta Águas Cruz levou ao nosso ilustre conterrâneo um perfumado ramo de violetas, ao mesmo tempo que lhes eram lançadas flores, muitas flores, foi um momento de indescritível entusiasmo, de verdadeira apoteose aos autores da fantasia, que, há mais de dois meses, vem deliciando a plateia tavaredense, pela qual já passaram mais de quatro mil espectadores”.

A SIT, em Março de 1963, comemorou o “Dia Mundial do Teatro”, primeiro na sede e depois na Figueira da Foz, num espectáculo organizado pela Biblioteca Pública Municipal, em oferta ao povo figueirense. Foram três actos de Gil Vicente. Recortemos um pouco de uma das críticas desta récita.

“José Ribeiro é, talvez, o último abencerragem para cometimentos heróicos no tablado. A sua direcção e o seu saber, deram-nos um admirável espectáculo, triunfaram com mérito absoluto no teatrinho do Peninsular... ... Não podemos nem nos atreveríamos a apreciar as obras do Grande Mestre agora representadas. Sobre Gil Vicente, os maiores investigadores e mais notáveis literatos, têm escrito milhares de páginas... ... Os distintos amadores de Tavarede, que há dez anos tanto temos apreciado, elevaram a espinhosa incumbência de José Ribeiro, a um verdadeiro caso no Teatro Português, no à-vontade do desempenho, no diapasão das vozes e no ritmo dos movimentos. Velhos e novatos, mestres e discípulos, todos bem, homogéneos, sem um desfalecimento ou uma nota discordante. Contudo, permito-me destacar a – Amadora Grande Artista – Violinda Medina, no seu admirável trabalho de Maria Parda, difícil de aguentar em todo o extensíssimo monólogo, sem cair no grotesco, mas sem desfalecimentos, sem diminuir o interesse, medindo as pausas e os movimentos, com a Arte e o Saber de uma verdadeira profissional. Simplesmente notável!”.


O Fim do Caminho

Em Dezembro de 1963, foi promovida uma homenagem ao Prof. Alberto de Lacerda, “prova do apreço e gratidão pelos relevantes serviços prestados por sua excelência à nossa colectividade, quer como Artista de méritos notáveis, pintor consagrado e autor de algumas obras do repertório do nosso grupo cénico”. “Depois de representar mais uma vez a encantadora e lindíssima peça “O Fim do Caminho”, seguiu-se um acto de homenagem, com a evocação das figuras das peças “Ana Maria”, “A Cigarra e a Formiga” e “Justiça de Sua Majestade”, o que constituíu um magnífico e soberbo espectáculo, a reviver aquelas famosas peças que são, muito justamente, verdadeiras coroas de glória da SIT”.

Fizeram o elogio do homenageado o presidente da direcção e o director do grupo cénico que “destacou a preciosa dádiva da colaboração de Artista e Poeta que Alberto Lacerda tem prestado à colectividade, que vê nele um amigo dedicado, que lhe entregou o seu coração de verdadeiro criador de arte e cultor do mais belo e puro teatro”. O homenageado agradeceu a fidalga homenagem de simpatia que os seus queridos amigos lhe haviam dedicado, “não com palavras, que não podia proferir, mas com as lágrimas da mais profunda gratidão...”.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

José Vigário

Tavaredense, sapateiro, era filho de José Vigário e de Emília Monteiro. Nasceu no ano de 1899 e faleceu em Janeiro de 1973.

Vivia com a Ti Marquitas do Pires, que, nas escadas da casa onde viviam, no Largo do Terreiro, era “comerciante” de freiras e pevides.

Começou a representar no grupo cénico da Sociedade em 1924, na opereta Noite de S. João, mantendo-se em actividade até ao ano de 1961, na fantasia Terra do Limonete.

Entre muitas outras, participou nas peças Em busca da Lúcia-Lima, Pátria Livre, Grão-Ducado de Tavarede, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Os Fidalgos da Casa Mourisca, As pupilas do Senhor Reitor, Justiça de Sua Majestade, Génio Alegre, Entre Giestas, Auto da Barca do Inferno, Chá de Limonete, Frei Luís de Sousa, Peraltas e Sécias, etc.

Chá de Limonete - José Vigário (S.Pedro) e João Oliveira Júnior (Frei Manuel de Santa Clara)

Em Janeiro de 1968, esta colectividade atribuiu-lhe o diploma de sócio honorário.
Caderno: Tavaredenses com História

Fernando Duarte Santos

Natural de Tavarede, onde nasceu no ano de 1905. Era filho de João Santos e de Maria José Duarte Caldeira. Foi casado com Idalina Fernandes dos Santos e morreu no dia 29 de Março de 1985. O casal não deixou descendentes.

Sapateiro de profissão, era habilíssimo na sua arte. Tinha a oficina em sua casa, na sua Direita.

Foi um devotado elemento da Sociedade de Instrução Tavaredense e do seu grupo dramático, participando sempre em papéis secundários, mas sempre mostrando a melhor vontade em servir o seu grupo.

Como director, fez parte de diversas direcções, reservando para si o cargo de porta-estandarte. Também foi dedicado cobrador da colectividade. No ano de 1979, a Sociedade de Instrução Tavaredense nomeou-o seu “Sócio Honorário”.
Peça 'Ana Maria' - Fernando Santos é o quarto a contar da esquerda

Haviam-lhe posto a alcunha de “Xanato”. É que, por diversas vezes, chegava atrasado aos ensaios ou às reuniões e, pedindo desculpa, sempre se justificava por “ter estado a acabar um xanato” (conserto de sapatos).

Humilde e simples, fazia gosto em apresentar-se, dentro da sua modéstia, nas melhores condições. Não raras eram as vezes, quando o grupo se deslocava de camioneta a qualquer terra, ir de pé. “Para não engelhar as calças”, dizia ele…

Sua esposa, Idalina, foi amadora teatral na Sociedade de Instrução, desde 1920, na peça Os Amores de Mariana, até 1929, em A Cigarra e a Formiga.

Idalina Fernandes, que faleceu no dia 3 de Outubro de 1972, com 73 anos de idade, era filha de Manuel Fernandes Júnior, um dos fundadores da Sociedade de Instrução, e de Maria Augusta de Oliveira. Curiosamente, encontrámos uma indicação, numa acta do Grupo Musical, que diz o seguinte, referindo-se a esta tavaredense, em Março de 1926: “pelo sr. Manuel Fernandes, foi informado o vice-presidente da direcção, que sua filha Idalina, havia acedido ao pedido que lhes fora feito para fazer parte da nossa secção dramática. Pelo presidente, sr. António Vítor Guerra, estando aquela senhora presente, foram-lhe apresentadas as boas-vindas, ao mesmo tempo que lhe solicitou encarecidamente para que, quando desejasse fazer qualquer reclamação, por qualquer inconveniência, em que se sentisse melindrada, portas adentro do Grupo, que se dirigisse a esta Direcção, a qual estaria sempre pronta a resolver o assunto de forma a desaparecerem mal entendidos…”. Não temos mais qualquer nota da sua participação neste grupo cénico.

Também foi nomeada sócia honorária da SIT.

Caderno (Tavaredenses com História)

Adriano Augusto da Silva

Natural de Tavarede, onde nasceu no dia 18 de Agosto de 1898, filho de Augusta da Cruz e de António Francisco da Silva. Casou, em Maio de 1921, com Maria Joana da Cruz, filha de José Maria Cordeiro e de Ana da Cruz, da qual se divorciou em Outubro de 1924. Em segundas núpcias, casou com a conhecida amadora teatral Violinda Nunes Medina, em Julho de 1925. Faleceu no dia 26 de Outubro de 1979.


Exerceu actividade profissional nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro na Figueira, tendo sido destacado, ainda que por curtos períodos, para Celorico da Beira, onde ocupou o lugar de chefe da estação, especialmente durante uma doença de sua esposa, a amadora Violinda Medina, que, por recomendação médica, carecia dos puros ares da Serra.


Foi destacado elemento nas colectividades locais. No Grupo Musical e de Instrução, além de director, foi professor na sua escola nocturna e fez parte do seu grupo cénico, revelando-se um razoável amador, especialmente em operetas, pois era dotado de boa voz de tenor.

Era um dos três cantores que cantava no coro daquela colectividade nas festas religiosas para que era solicitado.


Quando aquele grupo cénico cessou a sua actividade, em 1931, acompanhou sua esposa na mudança para a Sociedade de Instrução, onde, enquanto a saúde lho permitiu, colaborou, no desempenho das funções de contra regra.


Também teve uma passagem, ainda que relativamente breve, pelo grupo cénico do Ginásio Clube Figueirense.


Como músico, fez parte da Tuna do Grupo Musical, tocando flauta. No ano de 1923, foi eleito membro da Junta de Freguesia.
Um dos trabalhos de Adriano Silva

Ocupava os seus tempos livres com uma actividade muito curiosa: vasculhava os locais onde sabia que despejavam lixos, procurando “cacos” de louça pintada, especialmente tigelas e chávenas. Utilizava, pacientemente, os pequenos retalhos em colagens que fazia em jarras e vasos, formando interessantes peças decorativas.
Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 50


As obras de ampliação e transformação do edifício da sede iniciaram-se, simbolicamente, no dia 28 de Maio de 1960. No final do espectáculo então realizado, no qual se fez a estreia de duas novas peças, “O Beijo do Infante” e “O Dia Seguinte”, todos os amadores, antigos e actuais, foram convidados a irem ao palco para, em despedida, pisarem as suas velhas tábuas pela última vez. “Sobre aquelas tábuas carunchosas, onde tantas e tantas horas de alegria e aborrecimentos imperecíveis eles passaram, assistiram ao arranque da primeira tábua, operação esta que foi executada pela categorizada e premiada amadora, srª D. Violinda Medina e Silva, e receber as entusiásticas saudações da numerosa assistência, que bem traduziam o seu reconhecimento pelos momentos de prazer que lhes haviam proporcionado”.
Esqª. - O Beijo do Infante


Dirtª - O Dia Seguinte



Enquanto esta singela cerimónia se realizava, “caíam sobre os amadores milhares de pétalas de flores”. E no dia imediato, durante um baile, a direcção procedeu a um leilão do camartelo que, pela meia noite, iria dar início às demolições. Coube à srª D. Conceição Ferreira Sotto-Maior a honra de dar a primeira martelada, pois foi ela quem ganhou esse direito naquele leilão.
Recordemos que, quando foi iniciado o arranque das velhas tábuas, a amadora Violinda Medina e Silva formulou o seguinte pedido, aos responsáveis: “Por favor, guardem umas tábuas, do proscénio, para irem comigo no meu caixão”. Foi-lhe feita a vontade. E algumas daquelas tábuas, onde o seu grande talento se manifestou em tantas e tantas representações, foram religiosamente guardadas e, cumprindo o seu desejo, acompanharam-na na sua derradeira viagem, no ano de 1982.
Com o decorrer das obras pararam os espectáculos na nossa terra. Mas, durante alguns meses, ainda prosseguiu a actividade do grupo cénico. Já haviam ido a Alcobaça e a Ourém. Seguiram-se, depois, deslocações a Torres Vedras, Amarante, Vila Real e, novamente, Vila Nova de Ourém. A propósito da deslocação a Amarante e Vila Real, uma jornada triunfante organizada pelo saudoso figueirense, Engenheiro António Maria Gravato e sua esposa, então residentes na primeira daquelas localidades, respigámos, das palavras proferidas à despedida: “... nós, aqui na Serra, orgulhamo-nos de possuir “águias”, mas lá para as bandas da Figueira da Foz, nos choupos e salgueiros do ribeiro da pitoresca aldeia de Tavarede, também se “criam” extraordinários “rouxinóis” que, pelas suas melodias e cantares, nos transportam, por momentos, às regiões do sonho”.
As obras caminharam com grande vontade. No entanto, o seu custo não tardou em ultrapassar as disponibilidades existentes. E assim, “entendeu a direcção, com perfeita concordância do director do grupo cénico, que seria grande erro dispor desde já de um excelente Teatro e não o utilizar, à espera que se concluissem, noutras dependências da sede, obras cuja realização a falta de recursos não permite encarar imediatamente. Reconhecida por todos a conveniência de o grupo cénico retomar, tão depressa quanto possível, a sua actividade, interrompida há um longo ano, resolveu-se pedir as vistorias à casa e à instalação eléctrica, que foram aprovadas. Assim, o teatro foi posto a funcionar, tendo-se dado o primeiro espectáculo no dia 16 de Dezembro de 1961, com a peça em 2 actos e 24 quadros “Terra do Limonete”.
É enorme a lista de entidades públicas e particulares, empresas e amigos da colectividade que, reconhecendo o merecimento da SIT, acorreram a prestar o seu generoso auxílio. Em materiais, oferecidos ou com preços mais reduzidos, mão de obra, transportes e dinheiro, imensas foram as ofertas. As associações congéneres do concelho e, até, algumas de fora do concelho, também contribuiram. Volumosa correspondência confirma o que referimos.
“A data de 16 de Dezembro de 1961 ficará assinalada nos anais da história da nossa querida terra, como marco imorredoiro. Em cerimónia simples, imposta pelas circunstâncias, retomou a sua actividade o grupo dramático da prestante associação. Lotação esgotada, contando-se entre a numerosa assistência figuras de relevo da distinta sociedade figueirense e muitos amigos de Tavarede, vindos das mais diversas localidades do País”

Na Terra do Limonete

Do êxito que foi a apresentação desta “Terra do Limonete”, não vamos referir nenhum comentário da imprensa. Preferimos transcrever a opinião de um “velho” amigo da colectividade, ilustre pedagogo e estudioso das “coisas” da nossa terra e da Figueira, que é o Professor Dr. José Pires de Azevedo, que assistiu, tempos depois, a uma récita e escreveu a Mestre José Ribeiro. “Dizer-lhe que gostámos, dizer só isso, positivamente não chega; mas também não estamos habilitados a fazer uma verdadeira crítica; até porque nos falta o tempo e assistimos a uma única exibição; e uma crítica requer estudo, meditação, revisão das cenas, coisas todas impossíveis para nós. Assim optamos por uma solução intermédia, apontando o que mais nos impressionou. Agradou-nos a sua “fantasia” salpicada de história; agradou-nos o carácter do mobiliário e encantaram-nos alguns cenários; agradaram-nos alguns números de lindo efeito coreográfico e a riqueza do guarda-roupa; agradaram-nos certos passos evocativos (por exemplo, as “velhas” do Garrett e o “palácio em ruínas”) e agradaram-nos os artistas (nunca vi melhor “Auto do Vaqueiro”, o melhor quadro, para mim); e alguns jogos de luz, alguma música e certos movimentos, em cena e fora de cena, igualmente nos agradaram. Mas nós fomos a Tavarede também para apreciar a “casa nova”. E é uma acolhedora salinha: a melhor actualmente existente na zona”.


Sessão solene da inauguração da nova sede (reconstrução)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 49

Merece, também, uma referência a oferta que o grande amigo da colectividade e distinto artista, professor Alberto de Lacerda, fez de um quadro, de sua autoria, para que fosse sorteado a favor das nossas obras. Esse quadro “Quimono”, esteve exposto numa montra do Bairro Novo. “Reconheci, na pureza das linhas e no valoroso equilíbrio dos tons, a arte de quem pinta como poucos... Quimono, uma figurinha de Musmée, é um trabalho perfeito, equilibrado, de colorido bizarro e difícil, que o pintor conseguiu com extraordinária visão e perfeita técnica. A cor baça, macilenta, sem brilho dos Orientais, em contraste com a luz e o esplendor das sedas e dos atavios é difícil de conseguir, principalmente em trabalhos a têmpera, nos quais a luminosidade, a nitidez e os contrastes só podem ser obtidos por artistas com larga experiência do género”, escreveu, então, Orsini Miranda, também ele pintor distinto.

E em Março de 1959, nova peça é representada pelo nosso grupo, “As árvores morrem de pé”, que foi um dos grandes êxitos da Companhia do Teatro Nacional, onde atingiu duas centenas de representações. Tivemos sorte em ver as duas representações: em Tavarede e em Lisboa. E, se não pudemos deixar de apreciar a extraordinária categoria de Palmira Bastos, no papel de Avó (aquela Palmira Bastos que foi casada com o tavaredense Almeida Cruz), também o mesmo papel teve interpretação de igual nível pela nossa amadora Violinda Medina. Isto no dizer de críticos de teatro de reconhecido valor. “Minucioso e perfeito no detalhe, correcto e elegante nas atitudes, belo na intuição e na intenção do dizer, nada mais dizemos a não ser que esta Amadora é uma Grande Artista!”. Estas palavras referiam-se à interpretação de Violinda Medina.




















E chegámos ao primeiro Concurso de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio. Quando recebeu o regulamento, a direcção quis ouvir o grupo cénico sobre o assunto. “O director do grupo cénico, senhor José Ribeiro, expôs o seu ponto, manifestando-se contrário à participação da SIT naquele concurso, prometendo, no entanto, assumir as responsabilidades atribuidas no regulamento aos ensaiadores dos grupos, se a Sociedade resolvesse concorrer. Após demorada troca de impressões resolveu-se, não obstante o parecer contrário do director cénico, que a SIT fizesse a sua inscrição”.

O resultado obtido é visivel nos diplomas que estão expostos na nossa sede. O grupo concorreu com as peças “Frei Luís de Sousa”, na categoria “drama”, e com “Os Velhos”, em “comédia”. Depois das provas eliminatórias realizadas em Tavarede, o nosso grupo foi apurado para a fase final com “Os Velhos”.

Recordamos, aqui, os prémios que nos foram atribuídos no referido concurso, na categoria B – comédia:
= Prémio “Francisco Taborda” – 2º lugar, para a colectividade;
= Prémio “Carlos Santos” – para o ensaiador;
= Prémio “Maria Matos” – Melhor interpretação feminina – Violinda Medina, no papel de “Emília”;
= Prémio “Chaby Pinheiro” – Melhor interpretação masculina – António Jorge da Silva, no papel de “Bento”.

Ainda foram atribuídas duas “Menções Honrosas”: a João da Silva Cascão, no papel de “Patacas” e a José da Silva Ribeiro, pela encenação de “Frei Luís de Sousa”.
Violinda Medina e Silva (Melhor interpretação feminina - comédia) - Na foto 'O Pranto de Maria Parda - outra das suas enormes criações

Como nota curiosa, recordamos que Violinda Medina e José Ribeiro ofereceram, para o fundo das obras, o valor pecuniário dos seus prémios. “Infelizmente, porém, o prémio do ensaiador não foi recebido, em virtude de contra o estabelecido no regulamento, o prémio “Carlos Santos” atribuído, ter sido reduzido para 2.500$00, recusando-se o sr. José da Silva Ribeiro a receber do SNI outra importância que não seja os 5.000$00 fixados no regulamento”. Lá ficaram!
Foi o grupo cénico que mais prémios obteve. Não resistimos a transcrever um bocado de uma crónica que, a propósito deste concurso, escreveram “Os engenheiros de obras feitas”, num jornal figueirense: “... Quer dizer, os primeiros Artistas-Amadores do teatro português de comédia, são tavaredenses. As distinções que definem bem o valor de uma colectividade com uma vida dedicada ao teatro, e que traduzem, ainda, uma enorme honra para a Figueira da Foz. E é aqui que queríamos chegar: Como se manifestou a Figueira no seu regozijo e no merecido agradecimento à Sociedade de Instrução Tavaredense? Em nada, absolutamente nada. Que contraste, que tristíssimo contraste com o acolhimento que a nossa vizinha Leiria dispensou ao seu grupo “Miguel Leitão”, que alcançou 2 prémios com a representação do drama “Tá-Mar”. O grupo leiriense foi recebido nos Paços do Concelho da sua terra por toda a vereação municipal, numa sessão solene em que participou toda a população. A Câmara Municipal, atribuindo-lhe a medalha de ouro da cidade deliberou, ainda, aumentar de 6 para 10 contos o subsídio que lhe dá anualmente”. Outras manifestações ainda teve o grupo “Miguel Leitão” pelos 2 prémios obtidos.

“E as entidades oficiais como é que manifestaram o seu reconhecimento à SIT pelos quatro prémios que ela alcançou para a nossa terra? Nem uma simples referência, nem um modesto voto de louvor se tornou público (e tem havido tantos nestes últimos tempos!) a galardoar tanto esforço, tanto trabalho pela instrução e pela beneficência do nosso concelho! E se nos anais da nossa Câmara há registos que honram e enobrecem, a obra da SIT devia ficar ali vinculada em letras de ouro, em preito do muito que ela tem prestigiado a nossa Figueira da Foz”.