quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Manuel da Silva Jordão

Natural de Lavos, viveu durante muitos anos no lugar dos Carritos, onde era dono de uma quinta. Possuidor de avultados meios de fortuna, foi um grande protector do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.

Fez um importante donativo à Câmara da Figueira para a compra do terreno onde está construída a escola primária dos Carritos, e doou o terreno necessário para a construção da Capela erigida no mesmo lugar.

Comprou os prédios, sitos na Rua Direita, onde viveu a família Águas e, conhecedor das deficientes condições em que estava instalado o Grupo Musical, cedeu-lhes aquelas casas para sua sede, sem lhes cobrar qualquer renda. Ainda colaborou nas obras ali realizadas para adaptação à sede, pelo que, em Janeiro de 1915, por ocasião da inauguração da referida sede, lhe foi prestada homenagem e descerrado o seu retrato, que foi colocado em lugar de destaque na sala de espectáculos.

Continuou, ao longo do tempo, a proteger aquela colectividade e, em 1924, anuindo à vontade manifestada pelos sócios, vendeu-lhes o aludido prédio em condições muito favoráveis e concedendo-lhes um dilatado prazo para pagamento de metade do valor da venda.

Por várias vezes a colectividade o homenageou e, pela Páscoa, todos os anos a Tuna o ia visitar aos Carritos para lhe desejar as Boas-Festas. No entanto, em 1928, como o Grupo Musical nunca havia feito qualquer amortização ao débito, exigiu a sua liquidação.

Não há muito conhecimento da forma como aconteceu a regularização da dívida, mas tudo terminou pela venda da sede e consequente mudança para outras instalações.

O que se sabe é que, em 1929, o presidente da Direcção da colectividade “deu conhecimento que já havia liquidado contas com o credor do Grupo, sr. Manuel da Silva Jordão, propondo que o mesmo senhor seja suspenso de sócio até à realização da primeira Assembleia Geral, pela qual deverá ser demitido, para o que se tem em vista o que se encontra estatuído, pois não só difamou o Grupo como menosprezou a honorabilidade de todos os componentes da Direcção e ainda que, em atenção à incorrecção manifestada, ou por outra, posta em prática pelo mesmo sr. Jordão, propôs também que fosse retirado imediatamente, da nossa sala de espectáculos, a sua fotografia, que ali se achava exposta, o que pôde ser feito acto contínuo, não deixando, no entanto, de ser levado este gesto ao conhecimento da digna Assembleia Geral, na primeira oportunidade”. Não comentamos e não conseguimos encontrar o retrato em questão. Mas sabemos que, em 1930, Manuel da Silva Jordão voltou a colaborar com o Grupo Musical, ofertando-lhe as acções de que era titular.

Também prestou colaboração ao Grémio Educativo e de Instrução Tavaredense.

Faleceu na sua terra natal, em Fevereiro de 1954, com a idade de 94 anos. Foi casado com Ana Maria da Silva Jordão, brasileira, que faleceu em Fevereiro de 1933, com 54 anos de idade.
Caderno: Tavaredenses com História

D. Francisco de Almada e Mendonça

Nasceu no dia 28 de Fevereiro de 1757 e morreu em 18 de Agosto de 1804, no Porto. Casou, em 26 de Dezembro de 1791, com D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa, 10ª Senhora de Tavarede.

“… a laboriosa gente tripeira conhecia-o pelo ‘Grande Almada’. E foi, de facto, um Homem Grande, pela verticalidade das suas atitudes, pelo seu espírito empreendedor e larga visão das coisas públicas, mas, principalmente, pela magnanimidade do seu coração. Na Misericórdia da Cidade Invicta deixou um rasto de humilde caridade, pouco vulgar no seu tempo, em homens da sua condição. E, pelos vistos, também Tavarede sentiu os efeitos da sua bondade em grau que seria interessante averiguar e divulgar.

No entanto, este Grande Homem, morreu pobre e quase esquecido de todos, por razões que ainda hoje não estão muito aclaradas, mas a que não seria estranha certa política rasteira e cavilosa de almas pequeninas. A estatura moral e cultural do Grande Governador não lhe permitiriam furtar-se às venenosas mordeduras dos invejosos”.

Bacharel em Leis e doutor em Cânones, pela Universidade de Coimbra, foi desembargador do Paço, 1º. Senhor donatário da vila de Ponte da Barca, 1º. Alcaide de Marialva, inspector das Obras Públicas nas províncias do Norte e Juiz-Geral das coutadas reais do Reino, encontra-se perpetuado na cidade do Porto, com o seu nome atribuído a uma das principais ruas. Está sepultado no Prado do Repouso, num mausoléu encimado por um busto esculpido por Soares dos Reis.

Mostrou sempre grande interesse pelo desenvolvimento cultural do povo. Foi ele quem mandou construir, no Porto, o Teatro de S. João, para o qual contratou as melhores companhias estrangeiras e nacionais, de teatro, ópera e bailado.

Passando grandes temporadas, com sua família, em Tavarede, presume-se ter sido ele o introdutor do teatro na terra do limonete, como meio de educação e instrução do povo tavaredense.
Caderno: Tavaredenses com História

Joaquim da Costa e Silva - Padre

Natural da Ereira, concelho de Montemor-o-Velho.

Foi provido no cargo de pároco de Tavarede em Junho de 1894, a que havia concorrido, por vaga devida à saída do padre António Augusto Nobreza. Era, então, coadjutor na paróquia de Paião.

Foi uma figura assaz controversa. Era uma pessoa muito inteligente e exerceu, em simultâneo com as funções paroquiais, o cargo de vereador na Câmara Municipal da Figueira. “Os próprios adversários políticos reconheciam-no como um denodado lutador pelo bem-estar dos povos das paróquias onde esteve”. Depois do Paião e Tavarede, foi transferido para Quiaios, em 1901, onde se manteve até ao seu falecimento em 28 de Dezembro de 1923.

“A doença que há tempo assaltava este sacerdote, há muitos anos colocado na freguesia de Quiaios, acabou na pretérita quinta-feira por subjugá-lo. O padre Joaquim da Costa e Silva que, antes de paroquiar Quiaios, esteve a dirigir a igreja de Tavarede, foi sempre um político activo, pondo a sua influência ao serviço dos homens que aqui defendiam a política regeneradora, antes de proclamada a República e, na vigência desta, dos que, monárquicos ou republicanos, combatiam a política democrática”.

Deve-se à sua influência a instalação da primeira escola primária oficial na nossa terra, no ano de 1896. Morou na casa da família Águas, tendo nós encontrado uma pequena nota que refere “… um ornamento da vida eclesiástica, que bem concebe, perante a ciência do século, qual o seu lugar como padre e como cidadão. Padres assim não destroem; moralmente, edificam”.

Teve uma história muito polémica na nossa terra. Quando teve conhecimento que o Conde de Tavarede, residente em Trancoso, havia resolvido vender a sua propriedade e solar, dirigiu-se àquela localidade para solicitar-lhe “um guarda-roupa para uma aplicação religiosa”.

Foi atendido e o Conde passou-lhe um bilhete para entregar ao seu feitor, no qual lhe ordenava que desse ao pároco “o que fosse preciso para a igreja”. Não vamos questionar o teor da conversa do padre Costa e Silva com o Conde. O que aconteceu é que levou muito mais mobília do que “um simples guarda-roupa”. De tal forma que, quando veio a Tavarede para assinar a escritura da venda e resolver o que fazer do restante de seus bens que aqui possuía, ao tomar conhecimento do que o pároco levara, teve o seguinte desabafo: “se a casa tivesse rodas também era capaz de a levar para casa dele”.

Todas estas notas foram recolhidas da imprensa local da época.
Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 56

Em Maio de 1971 e por proposta dos representantes dos jornais da Figueira da Foz, a nossa Colectividade é distinguida com o prémio “Divulgação e Propaganda da Figueira da Foz”, instituido pela Companhia de Seguros O Trabalho, tendo a respectiva medalha sido entregue durante um almoço efectuado na Piscina Praia.

O 68º aniversário, comemorado nos dias 22 e 23 de Janeiro de 1972, foi, uma vez mais, de excepcional relevo para a Sociedade de Instrução. No espectáculo de gala, foi levada à cena um nova peça de Shakespeare, Conto de Inverno, “pela primeira vez representada em Portugal, numa adaptação correcta e feliz de José Ribeiro. Foi, efectivamente, um êxito. A peça de Shakespeare é cuidadosamente posta em cena. O ritmo do espectáculo, a harmonia da movimentação das massas de figurantes, o luxo e a magnificência do guarda-roupa – são atributos dum espectáculo verdadeiramente invulgar”.

Medalha de Ouro da Cidade da Figueira da Foz - atribuida à Sociedade de Instrução Tavaredense

Na sessão solene, realizada na tarde de 23 de Janeiro, e que foi presidida pelo vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Figueira da Foz, dr. Carlos Albarino Maia, foi anunciado, por este autarca, que havia sido atribuida à nossa Colectividade a “Medalha de Ouro de Serviços Distintos”.

“Por proposta do então vereador do pelouro da Cultura, dr. Marcos Lima Viana, a edilidade cessante, com plena concordância do sr. presidente da Câmara Municipal, aprovou por unanimidade a concessão da “Medalha de Ouro de Serviços Distintos” às prestigiosas colectividades da nossa terra – Sociedade Filarmónica Figueirense e Sociedade de Instrução Tavaredense – galardão a que fizeram mais do que inteiro jus, através duma notável, vasta e prolongada acção cultural, artística e beneficente sobejamente conhecida de todos os figueirenses para que seja necessário referi-la em detalhe, comentá-la e exaltá-la, o que constituiria uma redundância e também de certa forma injustiça aos sentimentos de gratidão dos nossos conterrâneos, que pelas duas agremiações homenageadas nutrem bem sinceras, palpáveis e comprovadas, simpatia, estima e consideração, a que o bairrismo junta o sal de um grande orgulho por as ter no seu seio e pela maneira exemplar como têm servido e honrado a Figueira, orgulho sob todos os aspectos tão compreensível como legítimo”.

No dia 4 de Junho de 1972, durante um espectáculo realizado na Sociedade Filarmónica Paionense, que inaugurou o novo palco desta colectividade, foi prestada homenagem com o descerramento de uma lápida com a inscrição: “Homenagem ao grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense – Inauguração do nosso palco – 4.6.1972”. Foi ali representada a peça “A Forja”, que obteve enormes aplausos.

Fotografia de 'Camões e os Lusíadas'
Ainda neste ano “um outro espectáculo avultou, pelo seu interesse e real valor”. Foram as comemorações do “IV Centenário da Publicação de Os Lusíadas”, com um programa constituido pelo “Auto de El-Rei Seleuco”, de Luís de Camões, e “Camões e Os Lusíadas”, da autoria de Mestre José Ribeiro.

Na apresentação deste espectáculo no teatro do Casino Peninsular, foi entregue à Colectividade a “Medalha de Ouro de Mérito”, que nos havia sido concedida pela Câmara Municipal. E no dia 12 de Novembro do mesmo ano, estas comemorações foram encerradas com o mesmo espectáculo na nossa sede, estando presente o Prof. Dr. Hernâni Cidade, presidente da Comissão de Honra das Comemorações Camoneanas.

O Dr. Hernâni Cidade, na evocação a Luís de Camões

“Foi tudo para mim uma impressionantíssima surpresa! Sem me deter na maneira como fui acolhido, com simpatia de tão espontânea generosidade e com palavras de tão calorosa eloquência, prefiro falar-lhe do modo como eu próprio fui empolgado pela interpretação do auto camoneano – “El-Rei Seleuco”. Inteligente a interpretação, adequado o cenário, com a necessária dignidade o vestuário, e tudo em termos de dar a melhor evidência a certa grande realidade excepcional: uma exemplaríssima dedicação de José Ribeiro pela educação do povo humilde da sua aldeia e a colaboração de todos nessa obra admirável com a entusiástica aceitação dela – a melhor, a mais comovida e autêntica maneira de lha agradecer...”, escreveu, posteriomente, aquele ilustre visitante numa carta enviada a um seu amigo.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 55


“Dente por Dente” foi o peça seguinte de Shakespeare, apresentada ao público tavaredense. “Trata-se da tragicomédia em 2 partes e 14 quadros “Measure for measure”, na versão de Luís Francisco Rebelo, que em português lhe deu um sugestivo título: “Dente por Dente”. Fez a sua estreia no dia 6 de Julho de 1968.


Dente por Dente - de Shakespeare

A representação, resultou “boa prova de maturidade técnica de palco, cenários, trajos, sons e luzes; representação modesta mas honesta de um esforçado grupo de amadores”. O tradutor desta peça veio propositadamente a Tavarede assistir a uma representação. Depois do espectáculo, o dr. Luís Francisco Rebelo escreveu este apontamento para um jornal local: “Devo à gente de Tavarede, a todos os elementos do seu grupo teatral, desde José Ribeiro ao mais modesto e anónimo, e a todos os espectadores, porque é da conjunção de uns e outros que torna possível esta coisa extraordinária a que assisti – devo a todos, repito, uma das mais belas, mais puras e mais exemplares lições de amor, de verdadeiro amor pelo Teatro”.

Poucos meses depois, a SIT recebeu, uma vez mais, a honrosa visita do Prof. Doutor Paulo Quintela. A 1 de Fevereiro de 1969, em récita oferecida em sua honra, foi representada a comédia “O Avarento”, de Molière, numa tradução daquele ilustre Professor e Homem de Teatro. “Representar deve ser sempre um acto sério, para os amadores de Tavarede; mas representar diante do mestre de Teatro Paulo Quintela, era coisa bem mais grave: imprimia ao acto uma espécie de solenidade... E a prova foi positiva! As figuras gradas não deixaram de o ser e as mais humildes generosamente deram o melhor de si; certas posições no palco ganharam um pouco de à-vontade, algumas vozes adquiriram naturalidade maior, e a representação subiu toda”. E no final, Paulo Quintela foi ao palco. “E deu uma lição. As suas profundas raízes no povo, a sua completa escola de teatro, a sua cultura verdadeira, a sua vivência de professor, tudo ali se juntou, para uma lição inteira, com exposição e crítica, com aplauso e apelo”.

Na récita do aniversário de 1969, foi prestada significativa homenagem “a nossa prestigiosa e incansável amadora Maria Teresa de Oliveira, que desde os 11 anos tem prestado a sua inestimável colaboração ao nosso grupo cénico, e a quem se ficam a dever inesquecíveis criações. Homenagem justa a todos os títulos e que envolveu nesse dia a Maria Teresa de Oliveira do carinho e da simpatia que tão bem merece a mais antiga amadora em actividade no nosso grupo. Festa dum enternecedor encanto, bem digna da modéstia da Maria Teresa, que nos encheu o coração de rara e inesquecível beleza”.

Maria Teresa de Oliveira, homenageada pela Sociedade de Instrução Tavaredense

Seguiram-se novas peças. “Alguém terá de morrer”, de Luís Francisco Rebelo e “Tartufo”, de Molière, foram as representadas. Um dos comentários feitos à primeira, termina assim: “Esta Sociedade de Instrução Tavaredemse seria mesmo um dos casos mais dignos de interesse, no historial da iniciativa particular na Cultura local. Que tema, para uma tese de licenciatura!”. Sobre a segunda “mais uma vez, a representação foi um êxito: casa praticamente cheia, interessada, vivendo o sabor da acção que no palco ocorria, rindo-nos nos momentos de rir, sentindo menos os momentos de sentimento”. Mais adiante, surge este comentário: “... sente-se, de resto, neste precioso grupo amador, uma crise de gerações entre os mais velhos do palco e os novos nele, falta uma meia-idade; de onde, talvez, o desequilíbrio a que acabamos de aludir. Onde estarão os sucessores directos e naturais dos “velhos?”... Parece-nos que seria necessário aos jovens que lá andam que amadurecessem teatralmente depressa, muito depressa. E estará isso ao seu alcance?...”.

Um quadro da fantasia 'Histórias... e histórias de Tavarede', de Mestre José Ribeiro

Para o aniversário de Janeiro de 1971, Mestre José Ribeiro escreveu “Histórias... e História de Tavarede”, uma saborosa e curiosíssima fantasia. Com vistosos cenários, música alegre e guarda-roupa da época, “esta fantasia é, ao mesmo tempo, um regalo para os sentidos e uma proveitosa lição de história, desenvolvida com graça e leveza”.

Em Setembro de 1971, é representada, em Tavarede, “A Forja”, de Alves Redol. Como habitualmente em estreias, Mestre José Ribeiro fez aos assistentes desenvolvido comentário à peça. “...


Cena da tragédia 'A Forja', de Alves Redol

A propósito das críticas terem notado na “Forja” de Redol influência de Lorca e de Brecht, e lembrando outras palestras anteriores em que se falara aos tavaredenses dos estilos e das técnicas do teatro medieval, clássico e burguês, muito resumidamente referiu a técnica brechteriana da distanciação, o teatro épico, oposto à forma dramática do teatro: nesta, o teatro é activo, o actor toma o lugar do próprio personagem, o espectador sente a acção, é arrastado para ela; o teatro épico é narrativo, nele o actor não representa, não sente a acção, narra-a e o espectador não é imiscuido na acção, analisa-a e toma posição”. Mais adiante referiu: “A linha de encenação será diferente... Mesmo assim, a consciência diz-nos que não atraiçoámos Redol, antes o quizemos dar ao povo desta aldeia, com humildade, sim, mas com perfeito sentido de dignidade. Queremos que os actores tavaredenses sintam as suas personagens... desejamos que o público sinta a peça em toda a sua profundidade e extensão...”.

sábado, 18 de setembro de 2010

Uma conversa na Escola de Tavarede

Um dia, já lá vão mais de 12 anos, fui convidado para ir conversar um pouco com os alunos da Escola Primária de Tavarede, sita junto da Junta de Freguesia. Ao procurar ordenar as notas dispersas pelas muitas disquetes que tenho guardadas, encontrei a nota que escrevi e li àqueles alunos, que, diga-se desde já, ouviram com muita atenção e paciência, as divagações que fiz para lhes contar um pouco da história de Tavarede. E parece que gostaram, pois, no final, foram várias as questões postas e sobre as quais conversámos um bocado. Talvez seja ocupar um bocado de espaço desnecessariamente, mas resolvi transcrever aqui aquela conversa e aqui vai:


TAVAREDE - Um bocadinho de história

Se fossem uns anitos mais novos, começaria a nossa conversa sobre Tavarede da seguinte maneira:
“Era uma vez uma aldeia pequenina, muito linda e perfumada, que ficava situada perto da costa do mar e que em tempos muito antigos, ainda antes de haver reis em Portugal, já era uma terra muito importante...”
E, na verdade, a história de Tavarede presta-se bastante a ser assemelhada a um daqueles contos de fadas de que tanto gostávamos de ouvir quando eramos pequeninos. Bastará dizer que até tem uma lenda, uma linda lenda, aliás, em que aparecem cavaleiros andantes e mouras encantadas, tendo uma delas, depois de quebrado o encantamento, sido levada para uma “terra aprazível, rica de plantas aromáticas, de cheiro rústico e agradável, persistente e suave...” Era, nada mais nada menos, do que a nossa terra do limonete.
Mas isso seria para os mais pequeninos. Para vocês, a verdade da história da nossa terra já terá de ser contada de uma forma realista, tal qual ela aconteceu e como, pelo menos até agora, se conseguiu apurar desde os tempos mais antigos.
A primeira vez que, em documento oficial, aparece o nome de Tavarede, é numa doação feita, em 1092, a um poderoso fidalgo beirão, de nome João Gondezendis, do lugar de S. Martinho de Tavarede.
Tem muita curiosidade o facto desta doação, feita por D. Elvira e seu marido, então governador da cidade de Coimbra, falar na nossa terra dizendo: “concedemos-te na mesma já mencionada vila de S. Martinho todos os que outrora ali recebeu Cidel Paiz do Conde D. Sesnando, que Deus tenha, e estão situados no território de Montemor para o lado da praia ocidental”.
Recordando, um pouco, a nossa história, lembremos que a península Ibérica, no ano de 711, foi invadida pelos muçulmanos ou mouros. Os cristãos refugiaram-se nas serranias do norte e do noroeste da península donde, logo que reorganizados, iniciaram lentamente a reconquista do território invadido, a qual, como sabemos, só foi totalmente conseguida já no século XIV.
A cidade de Coimbra, importantíssima pela vasta área que dominava e pela relativa proximidade do mar, foi reconquistada aos mouros por Fernando I, o Magno, rei de Leão e Castela, no ano de 1064.
À medida que os mouros iam recuando no terreno, iam destruindo tudo quanto eram obrigados a deixar para trás. Não sendo cristãos, as igrejas e os templos eram os principais alvos da sua fúria destruídora.
Assim aconteceu nesta nossa região, depois da tomada de Coimbra. Nomeado governador da cidade D. Sisnando, que passou, então, a usar o título de conde, terá de imediato este fidalgo iniciado o repovoamento e reconstrução dos lugares e vilas nos territórios entretanto reconquistados.
Para Tavarede, ou melhor dizendo, para o lugar de S. Martinho da vila de Tavarede, nomeou Cidel Paiz, de quem pouco se sabe, mas que terá sido, com toda a certeza, o repovoador e reconstrutor da nossa terra.
Após a morte do Conde D. Sisnando, toda esta região terá passado à posse de sua filha, a já referida D. Elvira que, como vimos, a doou a João Gondezendis.

* * * * *

Antes de continuarmos com a nossa história, vamos recuar um pouco no tempo.
Sabemos que antes da conquista muçulmana Tavarede era habitado por um povo cristão, talvez lusitanos. Mas... e anteriormente?
Ainda se não sabe qual o origem da nossa terra. Há três ou quatro séculos, foram encontrados no então edifício da Câmara de Tavarede, uns pergaminhos que se não conseguiram ler, pelos seus caracteres estranhos e bastante sumidos, e que se encontram na Torre do Tombo, em Lisboa. Talvez que, quando decifrados, se faça finalmente luz sobre as origens da povoação de Tavarede.
Também do seu nome não há a certeza de que derive. Conhecem-se várias versões. Para nós, a mais convincente e que achamos mais lógica, é a seguinte:
“... uma das características da região tavaredense são os numerosos outeiros que, nos tempos antigos, eram os limites naturais da posse dos terrenos, e que, em liguagem hebraica, se chamavam TAVAH. Por outro lado, sabe-se que toda estava vasta zona por onde agora se estendem as várzeas, eram regiões pantanosas e insalubres. Admitindo, como já se disse, que Tavarede tivesse sido dominada pelos lusitanos e, após a derrota destes, pelos romanos, é natural que para darem o nome a esta região tivessem conservado o radical semita TAVAH e lhe acrescentassem a desinência latina ETUM que, combinadas, teriam levado a TAVAREDE. Aquela desinência é um substantivo latino, comum, que designa grande porção de seres ou objectos idênticos, como arvoredo, vinhedo, mosquedo, etc.
No nosso caso diremos que a palavra TAVAREDE é composta pelo radical TAVAH (outeiro ou limite) e pela desinência ETUM (mosquedo, absolutamente natural em terreno pantanoso).

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Retomemos a nossa história.
Os bens doados a João Gondezendis, voltariam, pela sua morte, a fazer parte integrante dos bens pertencentes ao entretanto fundado Condado Portucalense, passando, depois, para a coroa portuguesa, logo que o nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, conquistou a independência.
Seu filho e herdeiro, D. Sancho I, a quem a história deu o nome de “Povoador”, procurou continuar a obra já anteriormente começada pelo Conde D. Sisnando, repovoando e fixando as populações nos seus vastos domínios.
A igreja teve um papel importantíssimo nesta tarefa. As várias ordens religiosas, a quem o rei fazia grandes concessões, instalavam-se em vastas zonas e, pelos seus conhecimentos, desenvolveram variadíssimas actividades próprias à fixação das populações.
Toda esta enorme zona do baixo Mondego foi doada à Sé de Coimbra. No nosso caso, foi aquele rei D. Sancho I e sua mulher, a rainha D. Dulce, quem fez a doação do lugar de S. Martinho de Tavarede à igreja de Santa Maria de Coimbra, ao mesmo tempo que, coutando-a, lhe dava categoria para estabelecer as suas justiças.

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Tudo correu bem durante muitos e muitos anos.
O Cabido da Sé de Coimbra, como donatário de Tavarede, foi vendendo ou dando de arrendamento as várias parcelas de terreno dos seus domínios, para serem cultivados e explorados.
A agricultura sempre foi a principal actividade em Tavarede. Amanhando as suas terras, compradas e de que pagavam um fôro anual, ou arrendadas, e a renda normal era o chamado dízimo (décima parte da colheita), os lavradores tiravam das mesmas o seu sustento e de suas famílias, vendendo o excedente, normalmente nas feiras que periodicamente se realizavam.
É claro que Tavarede sempre teve outras actividades importantes, muitas ligadas à agricultura, como, por exemplo, a pastorícia, para produção e venda de leite. A saliência, no entanto, e naqueles tempos recuados, vai para uma outra: a extracção do sal. Havia, então, muitas marinhas de sal na nossa terra.
Toda aquela zona da Várzea, que em tempos mais recuados foi pantanosa, era banhada por um braço do rio Mondego que, em dimensão bastante superior, tinha o curso que agora segue o nosso ribeiro, desde o largo da igreja até perto da actual estação do caminho de ferro.
Nas suas margens, até perto da actual Vila do Robim, estavam instaladas marinhas de sal. Como centro principal, os barcos (os chamados batelões) vinham até Tavarede, pois era aqui que tinham que pagar as suas licenças e tributos.
Nos finais do século passado (XIX) ainda existiam, perto do largo de igreja, enormes argolas de ferro onde os barcos eram amarrados, para cargas e descargas.
Também toda aquela baixa das encostas da Vergieira e do Casal da Robala até Caceira era sede de muitas marinhas para produção de sal.
A propósito das marinhas em Tavarede, recordemos dois factos reais. Nos princípios do século XIV era dona de vastas propriedades na nossa terra, entre as quais algumas marinhas, uma fidalga de nome D. Maria Mendes Petite. Esta senhora era mãe de Pero Coelho, um dos assassinos da célebre D. Inês de Castro, ao qual, anos mais tarde, o rei D. Pedro mandou justiçar, sendo-lhe arrancado o coração pelas costas, como castigo pelo seu crime.
Esta fidalga, talvez para fugir ao mundo, fez doação dos seus bens em Tavarede a uma instituição religiosa estabelecida em Vila Nova de Gaia, acabando por lá se recolher.
O outro facto foi o de que, na primeira metade do século XVI, o fidalgo António Fernandes de Quadros, que havia estabelecido a sua casa em Tavarede, tomou de arrendamento a ilha da Morraceira, então denominada Insua da Oveirôa, e ali, e nas marinhas de Tavarede, activou enormemente a produção de sal, que se tornou a principal fonte de receita desta casa fidalga.
Outra actividade que também deixou nomeada em Tavarede foi a produção e exportação de laranja, especialmente para Roma, onde esta fruta foi bastante apreciada conforme documentação existente.
Naturalmente que outras actividades eram desempenhadas pelos tavaredenses para sua subsistência. De entre elas lembremos a pesca, nomeadamente no rio Mondego.
Para regulamentar estas actividades teria que haver leis. E se primeiramente elas tinham sido elaboradas pela Sé de Coimbra, foram definitivamente fixadas no ano de 1516 pelo foral que el-rei D. Manuel I deu a Tavarede.

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Referimos atrás que nos inícios do século XVI se estabeleceu em Tavarede o fidalgo António Fernandes de Quadros. Amigo e protegido do rei, possuidor de grande fortuna, casou com D. Genoveva da Fonseca, natural de Montemor e que em Tavarede era proprietária de diversas casas e terras.
Deste casamento surgiu a chamada casa dos fidalgos de Tavarede, os Quadros. Começou, então, uma terrível luta. Este fidalgo e os seus descendentes iam adquirindo terras aos pequenos proprietários para aumentarem os seus domínios, mas, contra o estabelecido legalmente, não pagavam o respectivo tributo ao donatário, a Sé de Coimbra.
Por sua vez, sentindo-se, e com razão, prejudicada pela perda destes valores, esta queixava-se continuamente à justiça real.
A luta travada foi longa e dura. Chegaram a estar presos e condenados a multas e indemnizações, mas os fidalgos, considerando-se superiores a tudo, insistiam em nada pagarem.
Acabou ingloriamente para a nossa terra esta luta. Cansado de tantas quezílias, e para acabar de vez com a situação, o poder real aproveitou a oportunidade. O célebre Marquês de Pombal, inimigo declarado do clero e da nobreza, resolveu, dum só golpe, eliminar os dois adversários. Elevou, em 1771, o lugar da Figueira da foz do Mondego a vila e para ali transferiu a câmara e justiças até então existentes em Tavarede. Perdeu a nossa terra, com esta transferência, todo o poder e grandeza que deteve durante séculos.
Antes de concluirmos esta parte, digamos que os fidalgos de Tavarede, os Quadros, não foram todos uns tiranos ou maus para o povo da nossa terra. Alguns foram-no em demasia, é verdade. Mas, também, tiveram alguns membros ilustres, até, ironicamente, figuras notáveis na igreja que combatiam, notabilizando-se em obras e trabalhos religiosos.
E também tiveram alguns que, na India, em África e nas nossas fronteiras da Beira, morreram em combate na defesa do nosso país. Como em tudo, tiveram o bom e o mau. O que é difícil é avaliar se a sua vida em Tavarede terá sido mais benéfica ou mais prejudicial para a nossa terra e suas gentes.
Mas o que é muito importante é não esquecer que se a Figueira se desenvolveu e cresceu o fez à custa de Tavarede.

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Mas não nos esqueçamos de, embora resumidamente, falar da tal lenda da moura encantada.
O castelo de Montemor, importante praça forte em toda a zona centro, foi conquistado aos mouros no ano de 848, pelas forças do rei de Leão, Ramiro I, que depois entregou o seu governo ao abade D. João de Montemor.
Os mouros, no entanto, não se conformaram com a perda desta praça de guerra e puzeram novo cêrco ao castelo. Quando julgavam que a vitória seria certa, obrigando os sitiados a renderem-se vencidos pela fome, eis que aquele abade, juntando as suas forças e pedindo-lhes um último esforço, saiu do castelo, rompeu o cêrco e travando batalha, derrotou os sitiantes, perseguindo-os até Seiça. Este feito é histórico, mas deu ocasião a uma outra lenda que também estamos certos de que irão gostar.
Os cristãos de Montemor estavam absolutamente convencidos de que iriam ser derrotados pelos mouros. Não querendo deixar refens nas mãos de tais inimigos, resolveram sacrificar todas as crianças e mulheres que viviam no castelo e mataram-nas, degolando-as.
Qual não foi o seu espanto quando, após a vitória e regressando ao castelo chorando as vítimas inocentes que haviam imolado, viram vir ao seu encontro todas aquelas mulheres e criamças não mortas mas cheias de vida.
Um dos chefes mouros tinha consigo as suas oito filhas. Antes da batalha, com receio de que o matassem e elas caissem nas mãos do inimigo, os cristãos, lançou-lhes um feitiço.
A uma delas, Katija, que seria a sua preferida, disse que o seu encanto somente seria quebrado quando um cavaleiro cristão se aproximasse dela e lhe dissesse, por três vezes, “sois bela como o sol”. Mais lhe disse, que quando fosse libertada, seria levada para a tal terra perfumada por uma planta rústica e delicada.
Já sabemos que o conde D. Sisnando enviou Cidel Pais para repovoar e reconstruir Tavarede. Um dos cavaleiros que resolveu acompanhar Cidel Pais, ao passar perto de Montemor, viu á entrada duma gruta, no monte de Santa Olaia, um grupo de mouras que fugiram quando o viram aproximar-se. Ficou uma para trás, Katija. Chegado junto dela, o cavaleiro, maravilhado com sua beleza, não se conteve e disse; “sois bela como o sol”, não uma nem três, mas sete vezes. Assim se desfez o encanto e a moura encantada seguiu o seu cavaleiro andante para a nossa terra, perfumada com o cheiroso limonete.
Sabe-se que esta planta é originária da América do Sul ou da Ásia. Certamente terá sido trazida por qualquer navegante ou soldado de uma das viagens áquelas paragens e que gostou do seu perfume.
Numa peça de teatro, representada em Tavarede nos primeiros anos deste século, e que foi escrita pelo poeta e jornalista João Gaspar de Lemos, que aqui viveu grande parte da sua vida, na sua Quinta da Mentana, agora em urbanização sob o nome de Vale do Pereiro, e a que deu o nome de “Em busca da lúcia-lima”, diz que o limonete foi trazido do Malabar, nas costas da Ásia, no ano de 1502, pelo capitão-mor D. Sancho Fagundes de Encerrabodes, que residiu em Tavarede na primeira metade do século XVI e que era aparentado com os Quadros.
A grande verdade é que, vinda da América ou de qualquer outro ponto de mundo, o limonete, ou lúcia-lima, bela-luísa, doce-lima, verbena, etc., conquistou o coração dos tavaredenses, pois, desde sempre, em quasi todos os quintais ou terrenos ajardinados, há um ou mais pés de limonete, que, além do seu delicado perfume, também é utilizado para fazer um chá que, se não faz bem também não faz mal.

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Vamos agora fazer um pequenino comentário à família Quadros, que já referimos e que dominou em Tavarede durante três séculos.
O primeiro foi António Fernandes de Quadros. Foi ele que mandou construir a casa do paço, embora não lhe tivesse dado aquele aspecto gracioso dos torriões que, apesar das ruínas, se apercebem ainda. Tinha, então, uma torre de ameias, o que denota a importância desta família, pois que só era autorizada a fidalgos muito poderosos.
Foi ele quem estabeleceu o morgadio de Tavarede. Morgadio é o conjunto de bens vinculados que se não podiam dividir nem alienar, e que por morte do titular passariam ao filho primogénito que, com os bens, também herdava o título de morgado.
Como era preciso autorização real para o estabelecimento dos morgadios, pediu ela concessão a el-rei, D. João III. No entanto, quando a autorização chegou já tinha falecido aquele fidalgo, pelo que, em nossa opinião, a primeiro morgado de Tavarede terá sido o seu filho primogénito e herdeiro.
O morgadio existiu até ao ano de 1804, data em que foi nomeado barão de Tavarede João d’Almada Quadros Sousa de Lencastre que, no ano de 1848, viu o seu baronato elevado a condado.
O último conde de Tavarede faleceu em 1903 e, com ele, extinguiu-se o título, embora tenha deixado descendentes directos.
Como curiosidade, lembremos apenas um dos imensos privilégios de que a casa de Tavarede foi senhora. Este, além de bastante gravoso, era mesmo vexatório para o povo de Tavarede e da Figueira, pois continuou durante bastante tempo depois da elevação a vila. Era o chamado “forno da poia”.
Em que consistia: Simplesmente nisto. Ninguém podia ter em casa um forno. Para coser pão ou broa, assar galinhas, coelhos ou qualquer carne, até para assar fruta, teriam de ir fazê-lo ao forno da poia, onde teriam que pagar o tributo estabelecido.

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É claro que a história de Tavarede não é só isto. Mas não é ocasião de ser demasiado minucioso. Tentamos fazer um resumo e dar uma ideia do que foi e aconteceu de mais significativo na nossa terra, ao longo dos seus dez séculos conhecidos.
Antes de descrever alguns dos principais costumes e tradições de Tavarede, vamos contar-lhes uma breve história de cada um dos três mais conhecidos santos venerados na nossa terra: S. Martinho, Santo Aleixo e S. Paio.
Todos nós sabemos que o S. Martinho está ligado ao vinho. Diz-se: em dia de S. Martinho vai á adega e prova o vinho. Porquê? É esta a história: um dia apareceu ao santo um mendigo, cheio de fome e andrajoso, pedindo-lhe esmola. S. Martinho que nada mais tinha que a sua capa, rasgou-a ao meio e deu metade ao mendigo.
Este entrou numa taberna e pediu de comer dando como paga a metade da capa. O taberneiro, tavez com pena do mendigo, deu-lhe de comer e agarrando na capa, atirou-a desdenhosamente para cima duma pipa. Passado tempo verificou que o vinho daquela pipa nunca acabava. Tirou-lhe de cima a capa e imediatamente o vinho parou de correr. Recolocando-a em cima, novamente o vinho voltou a jorrar pela torneira.
Há outras histórias sobre este santo, mas esta é a que o deixou ligado ao vinho.
O santo Aleixo terá vivido em Roma, como pedinte e com grande santidade. A sua capela, edifício bastante antigo, terá servido de hospício e acolhimento aos peregrinos.
O terceiro santo também tem uma história curiosa na nossa terra.
A sua pequena capela, lá em cima no prazo, na encosta da serra, foi mandada construir pelos frades de Santa Cruz, os crúzios. Com o correr do tempo caíu em ruínas. Quando, no século passado, a Igreja de Santa Cruz vendeu toda aquela propriedade impôs como condição a reconstrução da capela. Assim aconteceu. Quanto á imagem do santo ela foi encontrada na adega da casa ali existente, onde algumas vezes servia para calçar as pipas. Foi mandada restaurar e lá está na capela. Como facto intrigante, pelo menos para mim, é que S. Paio era um menino quando foi sacrificado pelos mouros e a imagem existente na capela é a figura de um homem com uma barba bem cerrada, nada condizente com os doze anos de S. Paio.
Outras histórias sobre outros santos de que veneraram em Tavarede também seriam interessantes de contar. Ficará para outra oportunidade.

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No século passado e princípios deste, Tavarede festejava com grandiosidade o S. João. Não deixa de ser interessante que sendo S. Martinho o orago da terra e havendo outras capelas, as únicas festas profanas e religiosas eram as de S. João.
Nunca se realizavam no dia deste Santo, a 24 de Junho. Normalmente, tinham lugar no segundo fim de semana de Julho. Eram grandiosas, com ruas ornamentadas, ranchos, muita música e a missa religiosa. Não havia procissão. Mas faziam as chamadas cavalhadas. Arranjavam um enorme número de cavalos e burros e, com a bandeira de S. João á frente, acompanhados de muita gente a pé, iam em cortejo até á Figueira da Foz com regresso por Buarcos. Como nota curiosa diremos que nestas cavalhadas se juntavam bastantes máscaras, pois na altura, o carnaval não era festejado nas ruas.
As ruas eram vistosamente engalanadas e cheias de balões que à noite se acendiam. Sabemos que havia danças nos largos da Paço, do Forno (actual jardim) e da Igreja.
Mas a festa popular que mais saudades deixou a todos os tavaredenses foi a da manhã do primeiro de Maio.
Diz a tradição que a fonte da Várzea era um local verdadeiramente aprazível, onde a água fresca e pura corria das suas bicas. A fonte agora já não existe e o local está coberto de silvas e ervas.
Manhã muito cedo, os músicos formavam a tuna e os pares, levando as raparigas à cabeça os potes cobertos de flores, que na véspera haviam cuidadosamente enfeitado, dirigiam-se a cantar até àquela fonte. Ali, o rancho de Tavarede juntava-se a outros: da Chã, da Vila do Robim, do Casal da Robala. Dançavam, bebiam a fresca água, descançavam e prosseguiam a viagem até à Figueira onde percorriam as ruas, sempre cantando e dançando.
Esta última parte seria, mais ou menos, como agora, em que se tenta reatar a tradição do rancho do primeiro de Maio e dos potes floridos de Tavarede.
Não vamos ser mais maçadores. Queremos, no entanto, ainda lembrar que, verdadeiramente, havia e ainda há duas grandes tradições em Tavarede: o teatro e a música.
Para lhes contar a história do teatro e da música em Tavarede seria preciso outro tanto tempo. Bastará dizer-vos que há notícia de teatro na nossa terra desde há cerca de duzentos anos. Antes das colectividades agora existentes outras houveram. E, dedicando-se a estas duas artes, muito fizeram pela divulgação da cultura na terra do limonete. A título de exemplo, sempre diremos que, muitos anos antes de haver escola primária em Tavarede, já as colectividades de então mantinham escolas nocturnas, para crianças e adultos, e que foi nelas que muitos tavaredenses aprenderam a ler e a escrever.
Muito, mas mesmo muito, haveria a contar sobre a história de Tavarede.Uma grande parte dessa história encontra-se contada nas peças de teatro , escritas pelo sr. José da Silva Ribeiro, e que foram representadas na Sociedade. Aos que quizerem saber um pouco mais sobre a nossa terra podem ler os livros “Chá de Limonete” e “Terra do Limonete” que encontram na biblioteca daquela colevctividade. Também o livro que em Março passado foi editado pela Junta e a que dei o título de “Tavarede - a terra de meus avós” se encontra bastante desenvolvida a história que resumidamente agora lhes contei.
Se quizerem, e não estiveram muito saturados, podemos conversar um pouco mais sobre qualquer assunto. Ou guardar para outra ocasião. Se a isso estiveram dispostos digo-lhes que, pela minha parte, gosto imenso de conversar sobre a história da minha e da vossa terra.

1997.12.10
(Nota - Devo referir, embora todos os tavaredenses o saibam, que a lenda da moura Katija, não é uma 'lenda real'. Ela deve-se, na verdade, à extraordinária imaginação do nosso saudoso Mestre José Ribeiro, que a escreveu para um quadro (o segundo) da sua fantasia 'Terra do Limonete')

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Augusto da Silva Jesus



Filho de José Maria de Jesus e de Maria da Silva, nasceu em 1919 e faleceu na Figueira no dia 12 de Fevereiro de 1990.

Casou com Berlarmina de Oliveira, tendo uma filha Maria Manuela.

Empregado nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro, foi dedicado e trabalhador elemento directivo do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, presidindo a diversos elencos. A colectividade nomeou-o sócio honorário no ano de 1951.

Um dos seus passatempos favoritos era a pesca amadora. Acompanhámo-lo muitas vezes. Quase sempre ia para o velho “Trapiche”. O seu sistema era interessante. Tinha uns ganchos em arame, com uma ponta aguçada que cravava nas tábuas e onde fixava as linhas, que deixava cair a prumo, com dois ou três anzóis iscados com sardinha. Presa ao gancho tinha, também, uma pequena lata, das de graxa, com pequenas pedras dentro. Quando as enguias ferravam e puxavam a linha, logo as latas tilintavam, dando-lhe a conhecer qual devia puxar. Era um sistema simples, mas que resultava.

Caderno: Tavaredenses com História