sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tavarede - Aldeia-Escola de Teatro


Quando aceitámos a direcção desta página imediatamente nos propusemos cumprir uma missão que há muito desejávamos realizar: a utilização deste espaço que o destino nos oferecia para, sempre que fosse possível, acompanharmos o esforço do teatro amador português. No meio de tanta desorganização, indisciplina e comercialismo - o barómetro parece indicar sensível melhoria de tempo... - determinados grupos de amadores representam uma luz muito viva a pretender atravessar o nevoeiro que, desde há um cereto tempo, caíu sobre alguns dos poucos palcos da nossa terra.
Para o leitor desprevenido o facto de iniciarmos esta primeira fase de colaboração com os amadores teatrais, escolhendo um grupo duma modesta aldeia beirã, Tavarede, poderá causar uma relativa estranheza. Mas Tavarede é um nome a fixar por todos quantos ainda sentem forças para lutar pelo progresso duma Arte que é um dos pilares mais sólidos da cultura dum país!
A aventura maravilhosa daquela aldeia pobre, a espreitar a Figueira da Foz, é uma verdadeira gesta de amor e de dedicação. Noite caída e ceia tomada, rapazes e raparigas de Tavarede, trabalhadores do campo e das oficinas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros dirigem-se para o pequenino palco-escola da Sociedade de Instrução Tavaredense, uma associação cultural e recreativa fundada em 1904, que tem, desde a sua fundação, mantido um extraordinário labor.
Esta associação derrama a sua benéfica e luminosa actividade numa aldeia muito pequena e esse mesmo motivo faz com que poucas famílias não tenham representação no seu grupo de amadores teatrais.
José da Silva Ribeiro tem conseguido o “milagre” de num espaço de trinta anos manter o fogo sagrado do Teatro em Tavarede. A sua invulgar têmpera e tenacidade, o seu sentido de orientação fez com que peças como “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “A Nossa Casa” de George Mitchel, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler e “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça fossem representadas no minúsculo palco da Sociedade de Instrução tavaredense. O drama “Frei Luís de Sousa” de Garrett - que ainda há pouco tempo foi apresentado em Coimbra - mereceu uma montagem que a todos tem deixado em espanto, pela verdade minuciosa da sua expressão plástica. E Gil Vicente, os Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” encontrou na boca do povo que ele tanto amou, o eco imortal das suas frases eternas.
Mas o aspecto para nós de maior realce na actividade de José da Silva Ribeiro está consubstanciado na sua ideia de tornar os amadores de Tavarede conscientes das personagens, dos seus sentimentos, das ideais que as determinam na época em que vivem e do ambiente em que essas mesmas personagens se movem. Tudo lhes é indicado através de pequenas palestras durante os ensaios, palestras que são esquematizadas sem ar de lição mas que são compreendidas pelo seu heterogéneo grupo de amadores.
Parece-nos que mais não será necessário escrever para que fique esclarecido porque chamámos a TAVAREDE, a aldeia-escola de Tatro.
E para começarmos o nosso entusiástico roteiro não poderiamos deixar de escolher esse admirável agregado beirão, composto de gente que trabalha àrduamente todo o dia e que, à noite, procura no Teatro a sua fonte de saúde mental.
Falámos de TAVAREDE. E isso muito nos honra!

(Jornal Actualidades - Década de 1950)

Um pouco de história

……..

Do domínio serraceno nenhum testemunho restou, apesar de, em 717, haver notícia de a povoação (S. Julião da Foz Mondego) ter sido assolada e destruída. A reconquisra cristã, empreendida por Fernando Magno de Leão, é orientada, na zona coimbrã, pelo conde Sesnando, moçárabe natural de Tentúgal e homem de confiança do rei, mais tarde investido nos cargos de governador de Coimbra e no de toda a Terra de Santa Maria. Em 1064, conquista Coimbra aos mouros. As zonas vizinhas, em mãos destes, são abandonadas, não sem antes terem sido alvo de saques e outras atrocidades. S. Julião é exemplo desta política de terra queimada, como zona tampão de alguma eficácia, verdadeiro espaço estratégico negativo entre dois contendores. Este acontecimento encontra-se implícito num documento do século XI, que situava S. Julião como o centro do povoado que ali teria existido. Depois de normalizada a situação, o conde Sesnando incumbe, em 1080, o abade Pedro de Coimbra, de reconstruir o lugar e a Igreja.

Em documento datado de 14 de Novembro de 1096, do Livro Preto da Sé de Coimbra, o mesmo abade doa estas suas propriedades àquela Sé, na pessoa do bispo D. Crescónio, por intenção da salvação da sua alma, como era então uso e costume, permitindo cronologicamente datar a reconstrução da igreja de S. Julião e do respectivo povoado entre os anos de 1080 e 1090. O abade Pedro viria a falecer, sergundo o Obituário da Sé de Coimbra, em 1100.

Estava este povoado da Figueira da Foz do Mondego ciente da sua importância económica (porto de mar) e geo-estratégica (acesso a Coimbra e à área económica circundante por via fluvial, bem como defesa da embocadura do rio), como se depreende de uma doação a Santa Eufémia, em 1092, onde é referida a existência de salinas na foz do Mondego, um dos principais produtos de exportação porrtugueses.

O Mosteiro de Santa Cruz inicia, por esta altura, o seu domínio efectivo sobre esta região, beneficiando da acção que desenvolve junto dos monarcas e de várias doações reais. Em 1134 adquire metade da vila de Eimide. Quatro anos mais tarde compra uma herdade na Foz do Mondego a Susana Martinho. Em 1139 toma posse da carta de venda da pesqueira do porto de Eimide. D. Afonso Henriques, no seu testamento de 1143, doa-lhe a outra metade da terra de Eimide. Em 1158, nova doação real permite ampliar os coutos crúzios, com a entrega da Ínsua da Ouveiroa, ou da Morraceira, com as suas salinas. O castelo de Santa Olaia, perto de Montemor-o-Velho, é igualmente doado a Santa Cruz por Afonso Henriques, no ano de 1166, incluindo a foz do Mondego, “por onde entram os navios”. Todo o estuário, barra e baía da actual Figueira eram couto daquele mosteiro, incluindo os interesses económicos que deste domínio advinham.

A partir desta última data, a Sé e Santa Cruz denominarão este povoado, nos seus documentos, de “Igreja de S. Julião” e “terras da Figueira”.

A 8 de Novembro de 1191, o cabido da Sé, por vontade de D. Sancho I e de D. Dulce, recebeu o couto de Tavarede pro jure hereditário in perpetuum, isento de todo o tributo régio ou episcopal. Tavarede era o povoado mais importante daquela vasta área, nele se fixando a chefia admninistrativa e económica das herdades que o cabido possuía na região. Em documento de 1 de Maio de 1237, o cabido doa a Domingos Joanes o Gago, Martim Miguéis e Martim Gonçalves, povoadores do termo de S. Julião e lavradores humildes, as herdades “rotas como não rotas” do lugar da Figueira, na foz de Buarcos. Estas herdades estendiam-se até à Tamargueira e ao Paul, “incluindo as águas que para este corriam e de todo o mesmo supradito lugar por circuito como nos seus termos se cerra”, e identificavam-se, no respectivo documento, com o lugar da Figueira e demarcando a Tamargueira como limite geográfico da Figueira.

A obrigatoriedade dos moradores de Redondos e da Póvoa da Torre em frequentar S. Julião espelha a antiguidade da Figueira.

O papel desempenhado pela Coroa nesta área circunscrevia-se, maioritariamente, ao exercício de direitos sobre a vida económica da região. Em 1338, Afonso IV coloca a possibilidade de adquirir as penhoras de certas casas da Figueira, pelo não pagamento de dívidas entretanto contraídas pelos respectivos proprietários, que se efectiva no ano seguinte. Cinco anos depois, em 1344, o cabido doava a Tamargueira, que confrontava com Buarcos, ao homem-bom Afonso Peres. O movimento mercantil da foz de Buarcos (isenta do pagamento de direitos de portagem ou outros, bem como da dízima), através do qual se exportavam vinhos e outras mercadorias de Coimbra para outros portos portugueses, bem como para França, importando-se vasilhame e madeiras para construção naquela cidade, mostra, em 1361, a crescente importância do porto e da respectiva alfândega, que transitará para a Figueira da Foz, durante o século XVII, quando esta ultrapassa Buarcos no crescimento económico (indústrias da construção naval, do sal e da pesca) e no demográfico.

Para melhorar a administração de Tavarede e do lugar da Figueira, o infante D. Pedro determina, em 1362, que o cabido da Sé e a cidade de Coimbra nomeiem os funcionários e os tabeliões, para benefício da dita Sé. E é Tavarede que estará na origem da progressiva autonomização administrativa da Figueira da Foz.

Em 1522, piratas atacam e saqueiam a costa da Figueira e de Buarcos. D. João III nomeia para feitos da alfândega de Buarcos e juiz das sisas de Tavarede o cavaleito da sua Casa Real – António Fernandes de Quadros, que recebe igualmente o senhorio de Tavarede.

A família deste fidalgo, senhor da Casa de Buarcos e de Vila Verde, filho do espanhol Alonso de Quadros, família poderosa que já servira o infante D. Pedro, dispunha de importantes relações na corte. Entre os vários serviços prestados contavam-se a ordenação, limpeza, secagem e regularização das valas, lezírias e paúis do reino, sendo provedor de tais trabalhos André de Quadros, seu primo co-irmão, e ambos comendadores da Ordem de Cristo. Senhor de Tavarede, casa com Genebra de Azevedo, detentora de importantes bens patrimoniais nesta região, pelo que amplia o senhorio recebido, o qual englobava vários outros domínios e a posse das lezírias vagas de Buarcos e Vila Verde, sendo-lhe atribuído brasão, por carta de cotta d’armas, a 1 de Agosto de 1541. Os Quadros organizaram na região um vasto domínio senhorial, passando aí a viver num paço, de qye hoje já só restam as janelas manuelinas (uma das quais no museu municipal da Figueira da Foz) e uma torre, ao mesmo tempo que exerciam o seu poder despoticamente. Dominando a câmara local, não respeitavam a jurisdição do cabido, do que resultou uma longa guerra política de direitos e relações de força entre ambas as partes, que teve início entre 1530 e 1535. O primeiro litígio circunscrevia-se a laudémios em dívida, reclamados muito justamente pelo cabido. Em 1544, Lopes de Quadros (Fernão Gomes de Quadros, filho e herdeiro de António Fernandes de Quadros) pressiona as populações de Tavarede e Figueira para que usem o seu forno de cozer o pão, levantando um protesto do cabido por esta ingerência. Mais tarde, o juiz do tribunal cível de Coimbra profere sentença contra os Quadros por estes fugirem aos pagamentos dos terradegos devidos ao cabido, na qualidade de donatário do couto de Tavarede. Os Quadros consideravam como seus direitos de administrar, comprar ou vender propriedades sem consultar ou pagar quaisquer impostos ao cabido. Como este se achava no seu direito ancestral de os colectar, iniciou a interposição de uma longa série de processos judiciais, alguns dos quais desfavoráveis, esquecendo, por vezes, o seu carácter de instituição com jurisdição cível. Na sequência de várias sentenças, recorreu infrutiferamente ao tribunal de Braga como tentativa suprema de dirimir este conflito em seu favor.

Em 1630, após novo ataque corsário, Fernão Gomes de Quadros escreve ao rei, relatando-lhe a fuga dos habitantes de Buarcos para a Figueira, por falta de artilharia e artilheiros para a consequente defesa da costa. Com a Restauração, D. João IV lembra a Fernão Gomes de Quadros para não descurar a defesa dos lugares a ele afectos, especialmente a costa da vila de Buarcos, determinando-se, em 1642, a sua subordinação ao capitão-mor de Coimbra, vindo a ser nomeado, em 1646, por alvará régio, capitão-mor da costa do mar da vila de Buarcos e seu distrito.

Esta querela entre as duas partes assiste, em 1759, ao pedido da transferência da Câmara de Tavarede para a Figueira pelo cabido, sonegando-a à influência dos Quadros, e permitindo-lhe retomar a administração da Figueira. Os Quadros opuseram-se, pelo que o pedido não foi atendido. Toda esta situação conduziu ao abandono das terras por rendeiros e foreiros e ao despovoamento de Tavarede, formando-se novos núcleos populacionais, cujo desenvolvimento irá lesar ambas as forças em litígio. O progressivo crescimento da Figueira da Foz, com o implícito beneplácito do cabido, acelera o projecto de separação administrativa e jurisdicional, agora com o parecer favorável da Administração Pública. O processo da transferência da Câmara de Tavarede para a Figueira da Foz consuma-se, de facto, no ano de 1770, dado o superior número de vereadores pela Figueira em relação aos de Tavarede. O cabido, que tudo fizera para derrotar o poderio dos Quadros, viu-se relegado para o entretanto despovoado couto de Tavarede. Elevada à categoria de vila com a designação de Figueira da Foz do Mondego, no dia 12 de Março de 1771, por decreto de D. José I, tinha por distrito os coutos de Maiorca, Alhadas, Quiaios, Tavarede, Lavos, as vilas de Buarcos e Redondos (entretanto unidas e em plena fase de retrocesso económico e demográfico), bem como os concelhos situados a sul do rio de Carnide ou do Louriçal, junto ao Moinho do Almoxarife, pertencentes ao distrito de Montemor-o-Velho. A esta elevação não é estranha a unificação, ao longo do século XVIII, dos diversos casais que circundavam o núcleo base da Figueira (Paço, Abadias, Vale de Lamas…), formando uma só povoação com 360 moradores, nem a acção e conveniência pessoais do Dr. José de Seabra da Silva, donatário da Quinta do Canal e grande amigo do marquês de Pombal, o qual lhe proporcionara importantes doações régias de bens confiscados à Companhia de Jesus situados nas imediações da Figueira. É criado o lugar de juiz-de-fora com jurisdição desanexada do distrito de Montemor-o-Velho, no qual é provido o Dr. Bento José da Silva, patrício e amigo de José Seabra da Silva.

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(Esta nota foi retirada do livro CIDADES E VILAS DE PORTUGAL, da autoria de José Pedro de Aboim Borges, edição Editorial Presença)

sábado, 2 de outubro de 2010

Virgílio Ramos

Tavaredense, (19.07.1905-12.09.1999) tipógrafo impressor, empregou-se em Coimbra, na Tipografia Rainha Santa. Era, também, empregado no Teatro Avenida.

Ele e sua esposa, Zaida Maia (30.05.1905-19.04.1981), eram duas presenças constantes nos Hospitais da Universidade, quando lá estava internado algum tavaredense. Não havia, praticamente um só dia em que, especialmente ela, não fosse fazer visita aos “seus” doentes, a quem levava sempre uma palavra de conforto. Tiveram dois filhos, Virgílio e Vitor.

É de sua autoria uma “relação das famílias de Tavarede e seus descendentes, que conheci, desde 1915 a 1935”. Descreve as famílias pelas casas em que moravam, iniciando na Casa do Paço e seguindo pela ala direita da rua principal até à Igreja, regressando depois pelo lado contrário. Percorre, em seguida, as restantes ruas da localidade.

É um trabalho muito interessante, embora, como foi feito à distância, contenha diversas omissões e erros. Tem a indicação de ter sido feita em 1988.

Também foi componente do grupo “Os Inseparáveis”.
Caderno: Tavaredenses com História

João Carlos Emílio Vicente Francisco de Almada Quadros Sousa Lencastre Fonseca Saldanha e Albuquerque


3º. Conde de Tavarede, em 26 de Novembro de 1853.


Filho de Francisco de Almada Quadros Sousa Mendonça de Lencastre da Fonseca e Albuquerque e de D. Eugénia de Saldanha de Oliveira Daun. “Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, comendador das Ordens de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e de Carlos III, de Espanha”.


Foi casado por duas vezes. Da primeira vez com D. Maria da Piedade e da segunda com D. Maria Justina Ribeiro de Melo, filha do escrivão de direito de Trancoso.

Foi este Conde de Tavarede que mandou fazer grandes obras de transformação no palacete de Tavarede, onde habitualmente vinham passar férias, tendo ali mandado construir um teatro, a que deu o nome de Teatro Duque de Saldanha, e no qual esteve instalada a Estudantina Tavaredense.


Foi o primeiro presidente da Direcção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz.


Faleceu no dia 11 de Julho de 1903.


Caderno: Tavaredenses com História

António Maria dos Santos Júnior

Ensaiou o grupo dramático do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense no ano de 1927, levando à cena a opereta Os Cirandeiros e a comédia Os mistérios do Carvalho Santo.
Grupo cénico do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, que representou a opereta 'Os Cirandeiros'

Uma nota crítica de Julho daquele ano, referindo que a opereta acima foi representada no Parque Cine, na Figueira, diz “A completar o espectáculo fez-se ouvir, em estreia, o grupo coral da colectividade que, sob a direcção do amador António Maria dos Santos Júnior, cantou diversos números muito aplaudidos pela assistência. Este grupo coral tinha cerca de 70 componentes”.


Também encontrámos uma referência “à missa solene do dia de Ano Bom de 1927”. Foi abrilhantada pelo grupo coral tavaredense, “constituído por elementos dos melhores da tuna do Grupo Musical”, referindo ainda que “tiveram a proficiente direcção de António dos Santos Júnior, que além de possuir uma rara vocação musical, em que é culto, tem o predicado de… cantar melhor. É ele o primeiro tenor do grupo coral…”.
Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 58

Ainda no ano de 1976, a nossa colectividade recebeu a visita do Secretário de Estado da Juventude e Desportos, o figueirense dr. Joaquim Barros de Sousa, acompanhado pela presidente da Câmara Municipal do nosso concelho, drª Maria Judite Pinto Mendes de Abreu, que, depois de uma visita atenta e demorada à nossa sede, concedeu um subsídio de cem mil escudos para as obras do pavilhão “tendo ficado admirado como era possível, numa terra tão pequena e pobre, fazer tal obra com os olhos postos na educação física dos seus filhos”.
A 15 de Janeiro de 1977, na récita comemorativa do 73º aniversário, subiu à cena a fantasia “Cântico da Aldeia”, de José Ribeiro.
A este propósito, o relatório daquele ano refere: “Ao analisarmos os relatórios das direcções anteriores, notamos que quase todas se queixavam de crise associativa em vários sentidos, augurando elas melhores dias para a nossa colectividade, esperançadas que os vindouros consigam trazer a solução prática para aquilo que em parte nos parece difícil: trazer ao convívio associativo os sócios mais próximos da nossa associação, conseguindo deles um mais profundo interesse pelos assuntos da nossa SIT, para que eles sintam que a nossa colectividade foi feita pelos nossos antepassados com os olhos postos no bem estar e cultura do nosso povo”.
Esperançados que um maior incremento da secção dramática trouxesse à nossa colectividade um maior número de presenças, a direcção solicitou ao director cénico uma nova peça “de molde a lembrarmos os bons velhos tempos do Sonho do Cavador, Chá de Limonete, Terra do Limonete e tantas outras que nos deram a delícia do bom teatro de que guardamos gratas recordações”. Foi, assim, que surgiu a referida fantasia “Cântico da Aldeia”.

Cântico da Aldeia
Foi um verdadeiro êxito. Deu 17 representações seguidas, sempre com lotações esgotadas.
Em Março daquele ano, o grupo cénico sofreu mais uma perda irreparável, a do amador João da Silva Cascão, “amador incansável, de craveira profissional, que tanto se sacrificou pela causa do nosso teatro”.
“Tudo está bem quando acaba bem”, de William Shakespeare, foi a peça que se seguiu. “... À hora pontual, como é hábito na Sociedade de Instrução Tavaredense, teve início a récita com uma exposição de Mestre José da Silva Ribeiro, que a jeito de intróito nos situou dentro da obra que se iria representar, e que simultaneamente, numa intencional linguagem simples e compreensível, nos deu um bela lição de teatro. Se mais não valesse, só para ouvir Mestre José Ribeiro, valeu bem deslocarmo-nos à SIT, pois que de um agradável espectáculo de teatro se tratou... ... Só quem, como nós, conhece o trabalho de bastidores, poderá compreender o esforço necessário para que, comodamente instalados nas nossas cadeiras, pudéssemos apreciar esta representação. – É todo um trabalho persistente de estudo, ensaios, o montar e desmontar das cenas – que não quebraram o ritmo do espectáculo – é enfim um mundo de ocupações...

Cântico da Aldeia

… Foi com simpatia que vimos no palco da SIT alguns jovens – hoje que a juventude se espalha por diversas ocupações, nem sempre as mais recomendadas – que a par de alguns “velhos”, nos deram um belo exemplo e nos fazem confiar no futuro da nossa juventude. Lado a lado com os já consagrados – João Medina, Fernando Reis, José Medina, Manuel Lontro, vimos, entre outros, os jovens Ana Paula Fadigas e Francisco Carvalho – que julgamos serem estreantes – e que julgamos serem promissoras as suas aptidões para o teatro, - nunca a coragem e boa vontade vos falte. – Uma palavra ainda para Maria Conceição Mota, que para nós foi uma agradável revelação”.
Tudo Está Bem Quando Acaba Bem

Sociedade de Instrução Tavaredense - 57

O ano de 1973 trouxe, novamente, Molière ao nosso palco. Foi reposta a peça “Médico à Força”, que também levámos a Arazede, Paião, Lavos, Vila Verde e Quiaios.
“... Nos últimos anos, as beneméritas actividades da Sociedade de Instrução Tavaredense, como as das agremiações da mesma índole, não têm conhecido tempos fáceis. Lutando com dificuldades e embaraços limitativos do seu amplo desenvolvimento, os grupos de amadores de teatro só subsistem mercê duma devoção total dos entusiastas. Para eles o palco é uma consciente opção de valorização própria e alheia, é uma consciente opção de valorização da cultura portuguesa. Algumas dessas agremiações deixam cair os braços, fica apenas a recordação de tempos que jamais esquecerão. Tempos de exemplar vida cívica, que não deviam ser indiferentes a uma comunidade que não pode perder o rumo duma vida dignificante”.
Estes lamentos não se referiam à nossa Colectividade, que prosseguia activamente a sua missão cultural.
Com um programa composto pelos autos de Gil Vicente “Barca do Inferno”, “Todo o Mundo e Ninguém” e “Pranto da Maria Parda”, e pela comédia “Uma Teima”, foi comemorado o 70º aniversário da fundação.
Todo o Mundo e Ninguém, de Gil Vicente

Mestre José Ribeiro, na sessão solene, referiu-se às dificuldades então vividas pelas colectividades de cultura popular e que acima referimos.
“... à acção das colectividades de cultura e recreio espalhadas por todas essas vilas e aldeias onde, e só graças a elas, o povo não perdeu ainda de todo o gosto do teatro, e perguntou: - Será o teatro um meio de cultura popular? Serão essas colectividades um instrumento útil e necessário à divulgação do teatro? Se se responde a estas perguntas pela afirmativa, então que se atente nas dificuldades com que lutam e tratemos de as remover. Ao Estado em primeiro lugar cumpre facultar-lhes os meios de vida, mas sem se lhes tocar na sua liberdade de acção, isto é, sem se lhes pretender impor um figurino único. Quais os meios para tal fim? Não será pedir muito ao Estado – se o Estado lhes reconhecer a utilidade pública – pretender que se adoptem as necessárias providências...”
Foram várias as providências apresentadas por Mestre José Ribeiro, a isenção de impostos nos espectáculos para os sócios, a eliminação das inúmeras dificuldades burocráticas com a classificação das peças e outras mais que nos dispensamos de estar aqui a transcrever.
O relatório de 1974 refere “com profunda tristeza” o falecimento de quatro grandes dedicações à SIT: Professor Rui Fernandes Martins, durante muitos anos presidente da Assembleia Geral; Anselmo de Oliveira Cardoso, competentíssimo amador musical que sucedeu a António Simões na regência da orquestra da colectividade e autor musical de muitos números de música de diversas “fantasias” aqui levadas à cena, de que destacamos a “Canção do Limonete”; António de Oliveira Lopes, presidente da Direcção por vários anos e dos principais impulsionadores das obras de remodelação e ampliação da sede; e o Professor Alberto de Lacerda, poeta e pintor a que já várias vezes nos temos referido.

Quadro 'O Ensaio', do pintor e poeta Alberto de Lacerda, exposto no Salão Nobre da SIT

No dia 22 de Fevereiro de 1975, uma nova “fantasia” é levada à cena, “Mesa Redonda”. No ensaio geral, feito na véspera, a Radiotelevisão Portuguesa fez uma recolha de algumas cenas e gravou uma entrevista com o director do grupo cénico, posteriormente transmitida.
Ainda naquele ano apresentou-se a peça “O Jogo do Amor e do Acaso”. Deixemos, também, o apontamento dos espectáculos que aqui vieram apresentar: em 1974, o Grupo Instrução e Recreio, de Quiaios, com a peça “Duas Causas”; em 1975, o Grupo Recreativo Vilaverdense, de Vila Verde, com “A Traição do Padre Martinho”; e o Grupo dos Trabalhadores Bancários, da Figueira da Foz, com “A Inês do Castro” e um acto de variedades com onze quadros. E no ano de 1976, foi o grupo cénico da Troupe Recreativa Brenhense, com a peça “A Mãe dos Escravos”.
Neste último ano, o nosso grupo representou a peça “Monserrate” e, no dia 27 de Março, Mestre José Ribeiro proferiu mais uma das suas palestras, com o tema “Liberdades e Abusos do Encenador”.


Jogo do Amor e do Acaso

Também prosseguiam as obras no pavilhão desportivo, “... a par e passo, com o desenvolvimento dos processos que a Comissão de Obras adoptou, era evidente que à medida que os trabalhos iam decorrendo, houve necessidade de ir estudando e adquirindo as condições indispensáveis para podermos organizar diversões que nos possibilitassem a angariação de fundos para o prosseguimento das referidas obras. Foi, na verdade, extremamente simpática e reveladora de verdadeiro espírito associativo a contribuição dada por algumas centenas de associados e amigos, que de qualquer forma deram, uns mais, outros menos, o seu esforço para a nossa Sociedade”.
Para que fosse concluída a primeira fase destas obras, foi necessário, uma vez mais, recorrer a um empréstimo, o qual foi obtido entre os sócios e teve o montante de 166 mil escudos.