sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pedro Nunes Medina

Nasceu em Tavarede, em 16 de Maio de 1906, filho de António Medina e de Otília Nunes. Casou com Maria Alves Garcia, tendo dois filhos: Violinda e Vítor Manuel.

Sapateiro de profissão, tentou seguir a carreira militar como músico, na banda do Regimento de Infantaria 20. Antevendo, no entanto, dificuldades em conseguir atingir uma breve promoção, deixou a tropa e empregou-se nas oficinas dos caminhos de ferro.

Seguindo o exemplo familiar, desde muito novo se integrou no Grupo Musical, fundado por seu pai, como amador teatral e músico. Tinha especial vocação para a opereta e para a comédia, havendo várias referências elogiosas a actuações suas.

Na Tuna, tocou bandolim, banjo e viola. Quando o Grupo Musical acabou com a secção dramática, foi um dos elementos que passaram a colaborar na Sociedade de Instrução. Iniciou-se, nesta colectividade, na opereta As pupilas do Senhor Reitor, participando, entre outras, em Entre Giestas e Recompensa. Em 1940 e 1941, foi um dos mais entusiasmados com a reposição que o Grupo Musical fez, no teatro da Sociedade, do “velho” Presépio.


Em 1940 foi um dos elementos iniciais do conjunto “Lúcia Lima Jazz”, organizado por seu irmão José, tocando trombone, instrumento que havia tocado na banda militar. Por motivo de saúde passou a tocar rabecão, mantendo-se no conjunto cerca de quinze anos.


Conjuntamente com seus primos Jorge e João e alguns amigos, fundou o grupo “Os Inseparáveis” que, todos os dias 1 de Maio, se reuniam em alegre confraternização. Com a aderência de muitos amigos, este grupo era bastante acarinhado, pois, esses dias, eram sempre dias de festa na terra, que eles acordavam bem cedo com a alvorada que faziam pelas ruas da aldeia, em alegre arruada.


Internado nos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde foi operado ao estômago, devido ao tormento que passou com a sede e conhecendo bem a frescura deliciosa da fonte do Prazo, fez a promessa de ir com a família, no primeiro domingo de Julho de cada ano, passar o dia junto da capela de S. Paio. Com o passar dos anos, além da família e amigos mais próximos, esta reunião tornou-se verdadeira romaria, com muita gente atraída pela dança e jogos de cartas e malhas que ali se realizavam. Uma desordem entre pessoas estranhas, levou a que esta romaria acabasse, passando unicamente, enquanto a saúde lho permitiu, a ali ir almoçar e passar um bocado da tarde com a família mais chegada.


De espírito alegre e divertido, sempre aparentando boa disposição, apesar da doença que o minava interiormente e o levou muito cedo, pois faleceu em 3 de Setembro de 1959, com 53 anos, tinha sempre uma anedota ou uma historieta para contar, algumas das quais um pouco picantes, mas que eram as mais desejadas de ouvir.

Abriu uma oficina de sapataria em Tavarede, primeiro na Rua Direita e depois em sua casa, no Largo do Terreiro, para consertos e obra nova, onde tinha bastante clientela, principalmente de companheiros seus no trabalho. Também fazia parte do grupo de caçadores que, na época própria, calcorreavam montes e vales vizinhos, em busca de um ou dois coelhos que, normalmente, eram comidos depois da caçada, na loja do Guerreiro.


Em 1953 foi nomeado regedor mas, devido à precária saúde, pediu escusa do cargo pouco tempo depois de tomar posse.


São muitas as histórias que ele “pregava” aos amigos. Algumas delas já estão contadas noutros trabalhos. Amanhava uma pequena leira na fazenda da Chã, que era de seus pais. Batatas e vinho eram a principal produção, assim como no pequeno quintal de sua casa. Mas, tanto isto como outros produtos, as chamadas novidades, eram sempre semeados e colhidos em pequeníssimas quantidades. O vinho, então, dos corrimões plantados à volta da terra, para chegar aos 100 litros era sempre necessário juntar alguns canecos de água da fonte. Um dia, querendo confraternizar com os amigos com uma merenda farta e para provarem a “colheita” desse ano, lembrou-se de ir perguntar ao Guerreiro, que explorava a loja que fora de Francisco Cordeiro e de sua filha Emília, se estava disposto a comprar vinho novo, de qualidade especial e que certamente chamaria farta clientela.


Há pouco tempo na terra, não desconfiou e interessado em vinho bom, do lavrador, isso nem se perguntava. Combinaram de imediato ir fazer a prova nessa tarde, para o que lhe disse para levar uma boa merenda. À hora marcada, lá apareceu o Guerreiro, com uma farta omeleta de chouriço e carne, bem como as indispensáveis azeitonas e o pão. A loja da casa era bastante escura, pois só uma pequenina janela permitia a entrada da luz. Num pequeno quarto que havia à entrada, já estava preparada a mesa e respectivos copos. Logo assentaram arraiais e vá de começar a petiscar para fazer o peito à pinga.


O Guerreiro bem procurava ver a adega e os tonéis, mas a escuridão era total. Quando o petisco estava quase no final, agarra numa picheira e aí vão todos à adega para espichar a pipa principal. Qual foi o espanto do Guerreiro quando se depara com um pequeno barril de 100 litros… Claro que tudo acabou com uma valente gargalhada e sem qualquer ressentimento.

Caderno: Tavaredenses com História

Anibal Nunes Cruz

Natural de Tavarede, onde nasceu no ano de 1891, filho de Romana Gomes Cruz e de Joaquim Nunes.

Exerceu a função de tipógrafo, na Figueira da Foz. Fundou e dirigiu, conjuntamente com outros companheiros de profissão, entre os quais o seu conterrâneo José da Silva Ribeiro, os jornais “O Rapaz”, “O Poeta”, “A Redenção” e “O Grito”, este no ano de 1920 e que foi um “verdadeiro porta-voz do operariado figueirense”.

Foi, também, um dos fundadores do Grupo da Juventude Republicana Dr. Bernardino Machado, de cujo grupo cénico foi amador, e do Grupo da Mocidade Operária Figueirense, do qual foi o primeiro presidente da direcção.

Até ao ano de 1912 foi correspondente em Tavarede do jornal “Gazeta da Figueira”, assinando as suas notícias sob o pseudónimo de “Ladina” e de “Labina”, este último anagrama do seu nome, Aníbal.

Fez parte do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense como secretário da assembleia geral e serviu de ponto ao seu grupo dramático.

Em 1912, foi trabalhar para a Anadia, para a Tipografia “Bairrada Livre” e, posteriormente, mudou-se para Lisboa, onde exerceu o cargo de “chefe dos serviços gráficos” numa importante tipografia, até à idade da reforma. Foi, também, chefe da redacção do jornal “Ecos de Cacia”.

Após ter atingido a reforma, esteve em Tavarede numa curta estadia, fixando residência em Anta, Maiorca, onde morreu a 28 de Dezembro de 1964.

Casou com Ester Duarte Mota Cruz e teve um descendente: Joaquim Nunes Cruz.

Colaborou ainda em outros jornais locais, como “A Voz da Justiça”, “O Figueirense” e “A Voz da Figueira”.

Foi ele que deixou a informação de que sua avó lhe contava que, no tempo das pequenas sociedades dramáticas, chegou a haver cinco presépios, ao mesmo tempo, em Tavarede.
Grande apaixonado pela sua terra natal, foi acérrimo defensor das velhas tradições tavaredenses. Entre outras, é de sua autoria a seguinte quadra:

A fonte de Tavarede,
Dia e noite a correr,
Dá frescura e prazer
A todos que tenham sede.

Caderno: Tavaredenses com História

Alberto Anahory


Nasceu no ano de 1906 e faleceu, em Lisboa, em 2000. Foi uma das mais dedicadas e valiosas colaborações que a Sociedade de Instrução Tavaredense recebeu. “Graças a ele, pelo seu sempre luxuoso e apropriado guarda-roupa com que vestiu grande número de peças representadas, alcançou o grupo cénico extraordinários êxitos”.

Em 1961, foi-lhe promovida uma festa de homenagem, tendo-lhe sido atribuído o diploma de sócio honorário. “Além de vestir a peça Terra do Limonete com a riqueza e gosto que nos foi dado observar, o que muito contribuiu para o êxito

alcançado, e em condições de aluguer excepcionalmente favoráveis, levou a sua generosidade ao ponto de tomar a seu cargo a resolução de muitos assuntos relacionados com o apetrechamento do palco, e ainda de toda a confecção e montagem do novo pano de boca, bambolinas e reguladores, que exigiram a sua permanência entre nós de vários dias, assim como de duas costureiras suas durante 20 dias a trabalhar na nossa sede, sem dispêndio algum para os cofres da colectividade”.

Só com a sua colaboração foi possível a montagem de muitas peças, pois, graças à sua amizade e generosidade, cobrava um preço verdadeiramente simbólico pelo aluguer do seu guarda-roupa, pois as receitas obtidas na bilheteira não conseguiriam suportar, nem de perto nem de longe, o seu custo real.

O seu retrato encontra-se no salão nobre da colectividade.

Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 60


Se as “Bodas de Ouro” haviam sido comemoradas com enorme brilhantismo, pode dizer-se que em nada desmereceram as comemorações das “Bodas de Diamante”.

Em Outubro de 1978 foi feita a apresentação do programa. “… Com um passado inteiramente dedicado à divulgação da Cultura, o nome da colectividade é conhecido em bastantes cidades, vilas e aldeias do País, principalmente através do seu grupo cénico, o qual, desde a sua fundação, sempre tem colaborado com as mais diversas associações de assistência e colectividades populares. Aproximando-se essa comemoração, a Direcção resolveu juntar a si um grupo de sócios com o fim de elaborar um programa comemorativo, de acordo com o passado de que Tavarede tanto se orgulha…”. Os principais actos então anunciados foram: início das comemorações, em 1 de Dezembro de 1978, com uma exposição evocativa; publicação de um livro em continuação ao “50 Anos ao Serviço do Povo”; estreia, em Janeiro, de uma nova peça escrita pelo director cénico, na linha das anteriormente dedicadas à história de Tavarede; espectáculos culturais e desportivos; confraternização de sócios e amigos, etc.

Com uma notícia em que largamente descreve a actividade da Sociedade de Instrução Tavaredense, o jornal “A Voz da Figueira”, comentando o programa apresentado e depois de recordar alguns dos principais acontecimentos do passado, escreve: “… Quem ousará, portanto, pôr em dúvida de que são, na verdade, notáveis as Bodas de Diamante da SIT? Ou negar que elas constituem a concludente e irrefutável prova do invulgar amor ao teatro, do bairrismo e da perseverança no esforço colectivo, mesmo dirigido apenas às coisas do espírito, da gente da terra do limonete?”.
Bodas de Diamante - A Mesa que presidiu à Sessão Solene

Foram, efectivamente, notáveis, as Bodas de Diamante. Salientemos, no entanto, somente três eventos: o lançamento do livro “75 Anos… e Caminhando”; o espectáculo de gala, com a fantasia “Ontem, Hoje e Amanhã”; e a sessão solene.

O livro, no seguimento de “50 Anos ao Serviço do Povo”, dá-nos, como só José Ribeiro o sabia fazer, a panorâmica completa da vida da colectividade ao longo dos seus 75 anos. “Um acto profundamente transcendente o trabalho executado pelo nosso querido Mestre José da Silva Ribeiro”, escreveu-se no relatório da Direcção.

Mestre José Ribeiro recebe das mão do Dr. David Mourão-Ferreira a Medalha de Ouro da Cidade da Figueira da Foz

“… com todos os elementos de agrado – variedade de assuntos, numa sucessão de cenas diferentes da história local de ontem e de hoje, de comentário alegre, de fantasia, que decorrem num conjunto de alegria, graça e beleza, com cenários sugestivos, música bonita, belo guarda-roupa, e numa interpretação excelente em que se admira um conjunto de 40 figuras em cena…”. Este foi um dos comentários então publicados na imprensa figueirense sobre o espectáculo apresentado.


A sessão solene, “o número mais brilhante do programa”, foi presidida pelo Secretário de Estado da Cultura, Professor Doutor David Mourão-Ferreira. Além da efeméride que se comemorava, outro acontecimento dominou esta sessão. Mestre José Ribeiro acedera a receber publicamente a “Medalha de Ouro da Cidade”, que a Câmara Municipal lhe atribuíra “numa justa homenagem ao Homem que de alma e coração se tem devotado, especialmente através do Teatro, à grande causa educativa que tanto enobrece a Sociedade de Instrução Tavaredense”.


“… Não é a minha presença que confere qualquer espécie de honra a este acto. Pelo contrário, eu é que me sinto particularmente honrado de ter vindo aqui a Tavarede, de ter ontem assistido à peça “Ontem, Hoje e Amanhã” e de ter tido ocasião de contactar com o povo de Tavarede e de ver não só o seu grau de cultura e educação cívica que esse povo tem – e isso já eu o sabia – mas de ver também os tesouros de sensibilidade que esse mesmo povo guarda dentro de si. E devo acrescentar que me emocionou particularmente ver ainda há pouco, quando o sr. José Ribeiro era alvo desta homenagem, que havia lágrimas em muitos olhos.


Seja como for, desempenhasse ou não as funções que desempenho agora, seria sempre meu dever, como simples cidadão interessado nos problemas da Cultura do nosso País, associar-me de qualquer modo que fosse à pública celebração da data de hoje…”. Estas citações são pequena parte do discurso proferido pelo Dr. Mourão-Ferreira ao encerrar a sessão solene das Bodas de Diamante.

Termina, aqui, a nossa tarefa de recordar um pouco do passado da Sociedade de Instrução Tavaredense. Muito, mesmo muito mais, haveria a recordar. Mas aquilo que ao longo destes 69 capítulos recordámos, chega, de sobejo, para se aquilatar o glorioso passado desta colectividade e, também, tudo quanto, no decorrer de mais de dois séculos, se tem feito em prol da cultura do povo da terra do limonete e, simultaneamente, da acção educativa e beneficente desta gloriosa Sociedade, afinal, uma extraordinária e digna continuadora das tradições culturais em Tavarede.

(Felizmente, a Sociedade de Instrução Tavaredense continua viva e activa. As historietas que tenho contado foram até às Bodas de Diamante. Há mais. Já ultrapassámos o Centenário. As nossas histórias vão continuar, pois ainda há muito que contar)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 59

Aproximamo-nos do fim da nossa tarefa. Estamos, finalmente, a chegar às “Bodas de Diamante”. Antes de darmos nota destas comemorações, ainda vamos relatar três apontamentos que reputamos de interesse para estas historietas.

Numa entrevista dada pelo Professor Dr. Paulo Quintela, ao jornal “Diário de Notícias” acerca da divulgação do teatro de Gil Vicente pelo Grupo de Teatro dos Estudantes de Coimbra, aquele Mestre de Teatro, aliás bem conhecedor da nossa actividade, omitiu o nome da nossa Sociedade e a nossa prestação ao Teatro Amador Português.

“…. Ora a verdade é que a velhinha Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada ali da vizinha e ridente povoação de Tavarede, a “Terra do Limonete”, em 1904 e desde então ininterruptamente dedicada, sem quebras nem desfalecimentos, a uma louvável obra de educação e cultura do povo, desfruta também de inteiro e inegável direito a figurar entre os agrupamentos cénicos que, de forma efectiva e permanente, têm dado notável contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente, fazendo-o com elevado nível artístico e invulgar persistência e dedicação.
O Bailarico

Há 62 anos sob a orientação do mesmo director artístico, José da Silva Ribeiro, um verdadeiro mestre de teatro e que o serve com uma devoção e uma competência inexcedíveis, bem pode afirmar-se, sem receio de contestação, que o grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, se conta hoje entre os melhores do país.
Mas este homem, dominado pela profunda convicção de que, perante os incapacitados para a leitura, a arte dramática deve ser, tem de ser, precioso elemento da grande obra de difusão da cultura, não podia deixar de dedicar particular atenção à escolha do respectivo reportório. E assim é que, para além de ter levado à cena, mais de uma dúzia de originais da sua autoria (só ou em colaboração) e mais de meia dúzia de traduções e adaptações por ele efectuadas, fez representar pelo menos quatro peças de Shakespeare, outras tantas de Molière e também dos Irmãos Quintero, além de teatro de Almeida Garrett, D. João da Câmara, Marcelino Mesquita, Pinheiro Chagas, Chagas Roquette e uma infinidade de outros mais, tanto portugueses como estrangeiros, mas sujeitos todos a criteriosa escolha e selecção. E toda essa vasta, vastíssima, galeria de obras, autores e personagens, encenada com rigorosa subordinação ao princípio de que, sobre as tábuas dum palco, os defeitos da representação atingem tal relevância, que chegam a perverter as próprias virtudes dos textos.

Cântico da Aldeia

Do que fica dito já será fácil prever que um homem de teatro como José da Silva Ribeiro dificilmente poderia deixar de dar no seu teatro, a Gil Vicente, o lugar de relevo que ele merece e toda a dimensão que estivesse ao seu alcance.
Assim, portanto, nenhuma admiração nos deve causar que ele tenha feito representar pelos seus amadores tavaredenses nada menos de onze originais vicentinos. A começar no “Auto da Mofina Mendes”, seguido do “Auto da Barca do Inferno”, de “Todo o Mundo e Ninguém” (do “Auto da Lusitânia”), do “Auto Pastoril Português, da “Farsa do Velho da Horta”, do “Pranto da Maria Parda”, do “Dom Duardos”, de fragmentos do “Auto Pastoril Português”, “Romagem dos Agravados” e “Breve Sumário da História de Deus” e a acabar no “Auto da Feira”.
Extraordinária sim, temos de considerar a divulgação desse reportório para além de Tavarede, através da famosa “campanha vicentina” em redor do concelho e visando as suas aldeias rurais. De deslocação a Coimbra, ao Teatro Avenida, com “Noite de Teatro Português”. De comemoração do “Dia Mundial do Teatro”. E de comemoração do “V Centenário do Nascimento de Gil Vicente”. Em qualquer dos casos em espectáculos realizados nesta cidade e promovidos pelos Serviços Culturais da Biblioteca Municipal da Figueira. Um repertório que havia também de dar lugar a uma admirável, inesquecível e verdadeira criação artística de Violinda Medina, no “Pranto da Maria Parda” e numa interpretação com a qual, sem o mínimo de exagero se pode dizer, poucas e destacadas profissionais seriam capazes de ombrear.
Para além do que fica referido, quanto não poderia e deveria ainda escrever-se sobre o assunto, se para tanto houvesse maior jeito e o espaço o permitisse.
Cremos, no entanto, que mais não será preciso para comprovar que houve lapso do Prof. Doutor Paulo Quintela quando não incluiu os amadores tavaredenses, de José da Silva Ribeiro, entre os que muito se empenharam em dar o seu contributo à divulgação do teatro de Gil Vicente”.
O segundo apontamento diz respeito a mais uma palestra de Mestre José Ribeiro. No Porto havia sido levada à cena a peça “Frei Luís de Sousa”, totalmente adulterada. “José Ribeiro, o homem de espírito e incontestável mestre de teatro de que justamente os seus patrícios se orgulham, efectuou na Sociedade de Instrução Tavaredense, subordinado ao tema “Liberdade e Abusos do Encenador”, uma conferência-protesto contra o vil desacato de que acaba de ser alvo a imortal obra-prima teatral “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, que um grupo cénico do Porto acaba de levar à cena, totalmente adulterada, a ponto de proporcionar um espectáculo indecoroso, aviltante, intragável, que nem o actual estado dos nossos costumes recebeu passivamente.

Violinda Medina - O Processo de Jesus - Última vez que pisou o palco

Aqui deixamos a José Ribeiro os aplausos pela sua viril e oportuna reacção contra o oportunismo torpe dos audaciosos envenenadores da sociedade portuguesa, que tudo fazem para a ver cada vez mais degradada, na certeza de que assim a podem mais facilmente tomar de assalto”.
Finalmente, a terceira nota diz respeito à reposição, no dia 30 de Setembro de 1978, da peça “O Processo de Jesus”. A nossa amadora Violinda Medina e Silva havia abandonado o palco, em 1975, depois do falecimento prematuro de sua única filha, Maria Luísa. Mas o seu amor ao teatro acabou por superar a sua imensa dor. Doente, alquebrada e quase cega, ainda arranjou forças para participar na reposição daquela peça. O seu papel, o de “A Velhinha”, personagem a quem haviam assassinado o filho por questões políticas, viveu-o ela intensamente nesta reposição. Transportou-o para si própria e para a sua triste realidade. Quem assistiu a estas representações, dificilmente esquecerá os momentos, verdadeiramente dramáticos, então vividos, quando Violinda Medina e Silva desempenhou este papel.
Foram dados quatro espectáculos com a reposição. No dia 2 de Junho de 1979, numa récita em benefício dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz, pisou, pela última vez, as tábuas do nosso palco…

domingo, 10 de outubro de 2010

Mais um pouco de história

Lancemos a vista sobre a bacia em que assenta Tavarede, povoação que é hoje objecto de infundamentadas questões sobre a conveniencia de trazer por dentro d’ella a estrada districtal que ha de ligar-nos a Aveiro.

Analysemos primeiramente os montes que a rodeiam, as vias de communicação que encerra, as producções da agricultura do terreno que a forma, e com esse conjuncto de apreciações poderemos mais uma vez avaliar a razão de obrigar a um desvio o traçado ja estudado.

Tavarede está situada nu fundo da bacia em um vale profundo, apenas a quatro metros acima do nivel do mar, na direcção do poente ao nascente até á Cumieira, a serra da Boa-viagem.

Duas ramificações d’esta serra partem - uma do ponto da povoação da Serra, prolongando-se pelos Condados para o sul, até chegar ao logar do Senhor do Areeiro a 600 metros ao poente de Tavarede, onde termina limitando o horizonte d’essa povoação por este lado; - outra - partindo da mesma serra e na direcção de Cabanas, estende-se pelo Saltadouro, Prazo, Araujo, Cazal da Robala, e principiando a deprimir-se n’este ultimo ponto acaba na margem do Mondego, junto dos Estaleiros.

Um outro monte principia a elevar-se junto do logar do Senhor do Areeiro, continuando a ramificação da serra perdida n’aquelle ponto. A partir d’alli, o monte continúa por alguma distancia e divide-se depois em trez partes: uma que segue para o Sudoeste, e é aquella em que assenta a nossa egreja matriz; a outra, parallela a esta, é a base da rua da Lomba; a terceira, crescendo do Pinhal para a Sueste, assenta n’ella o casal da Lapa, indo depois perder o nome junto dos estaleiros.

A bacia em que assenta Tavarede, emmoldurada do norte, nascente e poente, pelos montes que designei, é aberta ao sul do lado onde passa o Mondego, a dois kilometros abaixo d’aquella povoação. Tem de comprimento, do norte a sul 2:500 metros, e de largura 700, sendo atravessada longitudinalmente por um ribeiro que recebe as aguas das vertentes da Serra da Boa-viagem, e do Saltadouro, e, passado á extremidade do lado do nascente de Tavarede, deslisando pela planicie abaixo, vae pela fonte da Varzea a desaguar no Mondego. No decurso do trajecto do ribeiro estão montadas trez azenhas. A bacia, é em grande parte destituida de terreno proprio para ser agricultado, a parte mais prozxima do rio é ocupada por marinhas de sal, cujas propriedades pertencem a individuos d’esta villa, e terá uma area de 150:000 m.q. Segue-se-lhe para o norte quasi outro tanto de superficie de terreno em parte apaúlado, e abandonado a pousio e á espontanea vegetação de juncaes. Mais para acima, - talvez não erre a estima - um terço da superficie total da bacia que envolve Tavarede serve ao cultivo de cereaes e productos hortenses, mas em tão pequena quantidade, que mal compensam o trabalho do lavrador, tanto que, os proprietários, na maior parte da Figueira, têm preferido trazer arrendadas essas terras a cultival-as por sua conta. Os rendeiros, não obstante correr por suas mãos todo o serviço do cultivo, tiram bem magros recursos d’esse trabalho, e tanto que uma grande parte d’elles, não podendo viver unicamente d’estes proventos, vem aqui empregar-se quasi todo o anno, prestando os seus serviços braçaes nos armazens de vinhos, como carreiros, ou em outros misteres.

Quasi toda aquella planicie possue para esta villa um magnifico caminho a mac-adam, que, partindo da proximidade da quinta do sr. dr. Borges, a quatro centos metros abaixo de Tavarede, vem para o sul, em volta, a encontrar a fonte da Varzea, e para diante d’aqui sobe a um alto onde se bifurca para o sul a encontrar a extremidade d’esta villa pelo lado do Matto, e para o poente vem encostado ao cemitério, a sahir do Pinhal.

A extremidade norte da bacia tem a boa estrada a mac-adam que de Tavarede vem á Figueira.

Além d’essas estradas existem ainda uns caminhos menos importantes; um d’elles tem origem na estrada da Varzea, apoia-se na vertente do monte que limita a bacia pelo poente, e segue áquella povoação. Esta é muito concorrida pela gente que se dirige á Figueira. Pelo lado do sul temos a estrada dos Estaleiros, por onde é feito o serviço das marinhas que há n’aquelle local.

Ahi deixo esboçada a região que deverá servir de base a qualquer argumento material, attinente a querer forçar o traçado a passar por Tavarede.
(Este apontamento foi retirado de uma extensa notícia, publicada no jornal 'Gazeta da Figueira' e da autoria de Ernesto Fernandes Tomás, sobre o projecto para a construção na nova estrada Figueira da Foz - Aveiro, a chamada Estrada de Mira)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

TEATRO - UMA OBRA QUE DIGNIFICA


Em Tavarede, modesta aldeia da beira,
ensina-se Teatro!


Para quem descreia da existência dum fogo sagrado, constante e generoso que lute através de todas as contigências e de todas as dificuldades por uma ideia digna e firme do verdadeiro sentido da Arte teatral, ponha os olhos e o cérebro em Tavarede, terra pobre, perdida na Beira pobre.
Esse agregado beirão tem uma associação cultural e recreativa, a Sociedade de Instrução Tavaredense, fundada em 1904 e desde essa data lançada na maravilhosa missão de cultivar e difundir a cultura dos seus próprios associados.
Chega a pasmar como é possível manter-se uma obra duma projecção tão elevada e tão nobre num meio insuficiente, cheio de asperezas da sua condição geográfica e humana.
Desde há trinta anos que um homem de tenacidade e têmpera fora do vulgar, José da Silva Ribeiro, mantém um grupo cénico, na referida Sociedade. Esse grupo, com um reportório vastíssimo do qual indicamos, como representativos exemplos do critério de selecção “A Nossa Casa” de George Mitchel, “Recompensa” e “Três Gerações” de Ramada Curto, “Envelhecer” de Marcelino Mesquita, os Autos de “Mofina Mendes”, da “Barca do Inferno”, “Pastoril Português” e “Todo o Mundo e Ninguém” de Gil Vicente, “Horizonte” de Manuel Frederico Pressler, “A Herança” de Henrique Lopes de Mendonça, esse Grupo, repetimos, vem cumprindo tenazmente e com sacrifícios de vária ordem o programa do seu entusiástico orientador. Como a aldeia é pequena bem poucas são as famílias que não têm representação no agrupamento de amadores. E assim a ideia nascida num momento inspirado de amor pelos outros foi-se invertendo no espírito daqueles trabalhadores do campo e das oficinas, naqueles rapazes e raparigas, operários e cavadores, modistas e empregados de escritório, carpinteiros, serralheiros e pedreiros que ao cair da noite, de corpo cansado pelo trabalho vão alimentar o espírito porque eles não se limitam a decorar as deixas dos seus “papéis” e recitá-los no momento oportuno com maior ou menor ênfase. Procura José da Silva Ribeiro que eles não sejam “fantoches para divertir o público”, como tão bem nos transmite no prefácio duma sua peça ali representada, mas que “tomem a consciência das respectivas personagens, dos sentimentos que lhes são alma, das ideias que as determinam, da época em que vivem, do ambiente em que se movem”. E assim, o grupo cénico tem uma actividade misturada de disciplina escolar e de prazer de passatempo. Suponhamos que foi escolhido para uma próxima apresentação o Auto da Barca do Inferno. À assembleia de actores amadores, ávida de conhecimentos, será exposta a obra vicentina, a época em que viveu o fundador do teatro português, a paisagem humana e social da corte de D. Manuel e de D. João III. Procurar-se-á na bibliografia correspondente o auxílio para uma melhor compreensão. E durante os ensaios os comparsas do auto não terão ùnicamente a preocupação de assimilar o contexto. Há sim uma posição inteligente e culta perante o problema que os seus lábios, os seus gestos e a sua expressão irão desenrolar no palco da aldeia.
Tudo isto é conseguido em tom de palestra, à medida que as peças vão sendo ensaiadas, sem ar de lição que decerto se tornaria insuportável para aqueles homens e mulheres de corpo cansado pelo trabalho mas de alma iluminada pela luz duma arte bem compreendida e ainda melhor ensinada.
De vez em quando são organizados programas de carácter acentuadamente cultural. Como exemplo, um programa já realizado com muito êxito e denominado “Noite do Teatro Português”: I Parte - teatro hierático - Auto da Barca do Inferno; II Parte - teatro romântico - 2º. acto da Morgadinha de Valflor; III Parte - teatro realista - 3º. acto de “Entre Giestas”.
Essas peças quando representadas no teatrinho da Sede obtêm receitas insignificantes que raramente pagam as despesas. E o Grupo, depois de apresentadas aos sócios, leva-as à Figueira da Foz procurando assim obter receitas que cubram as despesas de montagem.
É uma luta constante, uma luta nobre e velha de trinta anos.
A aldeia de Tavarede tem uma obra que dignifica não só os seus conterrâneos como o mundo teatral português. Uma Obra que se traduz não só em representações conscientes de verdadeiro Teatro como em palestras culturais e educativas feitas pelo director cénico.
Já foram abordados assuntos de interesse fundamental na cultura da arte de representar. As origens e evolução do Teatro (o teatro grego, em Roma, o drama religioso da Idade Média, a Renascença), o Teatro Português, as Trilogias Dramáticas (a trilogia ligada de Ésquilo - Oréstia, a Trilogia das Barcas de Gil Vicente, a Trilogia de O’Neill “Electra e os Fantasmas”) a Imortalidade do Teatro, tudo foi descrito em dissertações simples, acessíveis ao meio e sempre acolhidas com um entusiasmo que dá vontade de continuar, feliz e convicto de que quando se quer Teatro não é necessário muito dinheiro, muito público e muita cultura. É necessário, sim, defender e criar nos outros a convicção de que o espírito precisa de Teatro como alimento e não como pura distracção. E só assim se pode conseguir esse maravilhoso milagre teatral de Tavarede, lição puríssima e desassombrada da Arte pela Cultura dos povos.
Ainda há pouco no teatrinho da S.I.T. subiu à cena uma fantasia em três actos e 24 quadros de José da Silva Ribeiro, com música de António Simões, denominada “Chá de Limonete”. Essa fantasia que é a história singela da aldeia desde a sua fundação até aos nossos dias, foi montada a preceito, com cenários e guarda-roupa inteiramente novos, num esforço gigantesco que testemunha a vontade indómita e o admirável caminho seguido pelos amadores de Tavarede. Num livro de excelente apresentação gráfica e fotográfica do acontecimento, tivemos o prazer de constatar até que ponto o amor pelas coisas teatrais está espalhado naquele rincão da Beira. E comparando com o que por cá se passa, fazendo a proporção entre as centenas de Tavarede e os muito milhares de Lisboa fica-nos no cérebro o clarão duma Obra que dignifica, reconhecida não só pelo seu público como por diversas associações humanitárias por ela protegidas em diversas representações de beneficência.
E nós, como verdadeiros amantes do verdadeiro Teatro, daqui dizemos, orgulhosos em ajudar a transmitir a sua mensagem: operários e modistas, cavadores e ceifeiras de Tavarede, homens e mulheres dessa aldeia, reduto duma Arte Eterna, obrigado!


Jornal Magazine da Mulher - Novembro de 1951