quinta-feira, 28 de outubro de 2010

S. MARTINHO

Bispo de Tours (actual Szambatkely, Hungria, 316 ou 317 - Candes, França, 8.11.397). Filho de um oficial do exército romano e nascido num posto militar fronteiriço, após estudos humanísticos, em Pavia, aos 15 anos entrou para o exército quando já a sua vontade o inclinava a fazer-se monge (aos 10 anos inscrevera-se como catecúmeno).

Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna no rigor do inverno encontrou um pobre seminu: não tendo à mão dinheiro para lhe valer, com a espada dividiu ao meio a sua clâmide que repartiu com o desconhecido. Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus, que disse: “Martinho, apesar de somente catecúmeno, cobriu-me com a sua capa”.

Recebeu a baptismo na Páscoa de 339, continuando como oficial da guarda imperial até aos 40 anos. Abandonando a vida castrense, foi ter com Santo Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras e lhe deu possibilidade de levar vida monacal: nasceu, assim, o famoso Mosteiro de Ligugé. Em breve ganhou fama de taumaturgo. Eleiro, por aclamação, bispo de Tours, foi sagrado provavelmente a 4.7.371.

Ardente propragador de fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde saíram notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização. Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil.

O fascínio das suas virtudes radicadas na generosidade do seu zelo, na nobreza do ser carácter e, sobretudo, na bondade ilimitada mantida para além da morte na prodigalidade dos seus milagres, magnificamente descritas pelo seu discípulo Sulpício Severo, fez com que São Martinho de Tours fosse durante muitos séculos o santo mais popular da Europa Ocidental.

A sua memória litúrgica é a 11 de Novembro.
UM MILAGRE DE S. MARTINHO
Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.

Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.

Este, cheio de fome, entro n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando podesse.

O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.

Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo.
A lenda do verão de São Martinho

Reza assim a lenda:

No alto de uma montanha agreste, despovoada e nua, vivia um monge miseravelmente... Alimentava-se de raizes, mortificava-se de jejuns e só de raro em raro descia às aldeias a mendigar... Um ano, porém, o inverno veio cedo, e os primeiros dias de Novembro foram de temporaes pegados, bramiam ventos uivando pelas penedias, rugiam coleras de raios as tempestades, urravam medonhamente os temporaes!...

Chuvas cantarejavam ás enxurradas, e a neve, como um lençol imenso de linho purissimo cobria tudo...

Entrou então a fome e o frio na choupana humilde de Martinho, e o pobre monge, acoçado pela inverneira, resignou-se a vir ao povoado pedir uma codea de pão que o alimentasse e uma acha de lenha que o aquecesse...

E embrulhando-se n’um farrapo esburacado, que era o seu unico manto, arrimou-se ao bordão, e pôz pés ao caminho...

Entresilhado de frio, tiritando, atravessava o bom do monge uma leiva em poisio, quando topou, desmaiado na nece, um caminhante velho, rôto e descalço como ele...

Condoeu-se, e tirando das costas o migalho de pano, todo de remendos, embrulhou n’ele o desgraçado...

Dos ceus, Deus, que tudo mira c’o seu olhar onipotente, sorriu...: e chamando o sol que beijava a lua sob a protéção das nuvens, mandou aproximar o Destino e escreveu no seu livro azul com letras d’oiro: -”Que todos os anos, por estes dias, o sol aqueça os que teem frio...”

O sol doirou a terra, nos roseiraes abriram-se botões de rosas, cravos exangues mostraram a chaga rubra da sua côr, trinaram rouxinoes, cantaram cotovias, assobiaram melros, voltaram andorinhas...

... E foi assim que nasceu o verão de S. Martinho!...
S. Martinho

Viva S. Martinho...

Reine a santa frescata... e chova vinho...

Ajoelhemos, tirando a barretina,

Ante o Santo que a todos nós domina.

Juremos, pondo a mão sobre o barril,

De fazer das guelas um funil

Quando o vinho corra... Viva! Viva

S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

sábado, 23 de outubro de 2010

A FESTA DO 1º. DE MAIO NA VÁRZEA DE TAVAREDE

Já os remotos druídas celebravam o “Bé-il-Tin”, - o começo do ano, - quando dealbava Maio.

É festa que vem de longe e, passeando em torno das idades, o seu guisalhar alegre e ruidoso.

O nome céltico de Maio, era “Cenduin”, - o primeiro mês, o primeiro tempo, - visto que era em Maio, que por êsses recuados e apartados dias, se dava comêço ao ano.

Na clara Grécia, na velha Galia, na soberana e olimpica Roma, - as “Floralias”, as “Palilias”, - os enormes fogareus lucilando e crepitando nos altos môrros, recordavam segundo a tradição de uma festa solar, vestígios de qualquer antiga comunidade pastoral.

Por todo o lado, no dôce e suave mês de Maio-Moço, em que a Natureza inteira veste galas em honra e louvor da Deusa Primavera, - o entrar de Maio, foi motivo e razão de bailos e folgares, - ou à luz radiosa do Sol, ou sob o manto rútilo das estrêlas!

A Igreja, festeja em Maio-Florido, - Nossa Senhora. É o Mês-de-Maria, - com os altares cheios de rosas claras. O cristianismo, repudiou em seu começo as rosas, - dado o culto pagão votado à aromática flôr, pelos adoradores de Vénus, - a Deusa do Amor e da Fecundidade!

Bem cedo porém as rosas regressaram a encher os templos cristãos, a cobrir de seu oloroso perfume as naves altas, a atapetar com as suas finas pétalas de sêda, os pés da Virgem Nossa Senhora. E por todo o Portugal formoso e crente, por capelas alpendradas no tôpo cinzento dos montes, por ermidas quietas e calmas, aninhadas no fundo das encostas ou erguidas ao remate das veigas tranquilas, se cantam e rezam, na doirada doçura das tardes macias dêste mês de Maio-Lindo, ladaínhas e litanias, erguendo aos Altos, - graças e louvores à Mãe-de-Deus!

Quando os Afonsos e os Sanchos, no alvorecer da nacionalidade, talavam a cortes de montante o solo da Nação, era em Maio que se organisavam as algaradas e se partia à reconquista cristã. Então se clamava: - “Vamos ao Maio!” – E o mesmo era que dizer que abalavam por vales e cêrros, ao encontro das hostes infieis, - gentes d’Algo, infanções, cavaleiros temíveis e bravia peonagem.

“Ir ao Maio”, - marcava a largada das mesnadas heróicas, que iam bater-se gloriosamente para cimentar a Pátria, que nascia e se firmava entre os golpes de uma espada e o erguer de uma cruz! As giestas, flôres d’oiro que cobrem em Maio-Formoso, tôda a faixa da Península, que vai do verde Minho ao moreno Algarve, simbolisam na sua arisca e rebelde graça, o mês mais contente de todo o ano.

Na manhã do primeiro dia de Maio, devem colher-se as giestas, e enramalhar com elas, as portas dos casais, os janelos, os currais do gado, a arca do pão e a talha do azeite.

... Para que Deus sempre dê fartura ao lar, e arrede maleitas e quartãs, - das gentes e do bicho vivo...

A giesta simbolisa o período da Primavera plena, e traduz o fino cantar do arroio calmo, o abrir da flôr no brotoejo dos ramos tenros, o chilreio dos ninhos e a vibração ligeira das azas que varam sem estôrvo o tranquilo e lavado azul!

Beber no alvôr da madrugada do 1º de Maio, água pura, gostosa e fresca, na Fonte milagreira da Varzea de Tavarede, - dá saúde, felicidade, alegria e sorte, para o ano inteiro! Por isso, tôda a gente das terras ao derredor da linda e risonha aldeia, se agrupa e junta na praxista manhã, no largo onde a bica rumoreja num fio cristalino. Não há moça de trabalho, que não consuma e môa a derradeira noite de Abril, a florir seu pote de barro vermelho, - que é grande o despique em apresentar caprichosamente enfeitadas, as cantaras airosas.

Urdem-se entre folhas de hera, os tenras ramagens de buxo ou loiro, círculos de rosas e cravos em coloridos e bizarros tons, que enastram o bôjo da vasilha, caem em aneis pelo talhe grêgo dos bocais, e pelo jeito em ânfora à roda das azas perfeitas. E grandes laçadas de fitas de sêda, descem pelos pucaros bem torneados, humidos e apetitosos, que matam sêdes de água e amor, a beiços de namorados...

Ainda o céu é um crivo de estrêlas e mal se laiva o nascente de uma ténue e branda claridade, já descem dos píncaros do Cruzeiro, das azinhagas do Robim, da estrada de Mira, - seguindo no caminho fácil e geitoso da Várzea-de-Tavarede – ranchadas de gente môça e garrula, cantando e bailando, entre risos e folgares. Em roda da Fonte, com seu arco moirisco, é bem uma romaria. Os toques, são às duzias. E andam pelo ar cantigas d’oiro, com résteas de Sol!

Chegou agora o grupo dos “Amorosos”. São de Brenha. A tuna, é de apetite. Os rapazes trazem bonés forrados de fustão branco. E as raparigas ramos de limonete e pandeiretas de onde pendem tiras vistosas de mil côres. Cantam, com acompanhamento de côro, a velha moda popular “Margarida-vai-à-Fonte”. Que linda voz tem a cantadeira...

Fui à Fonte-dos-Amores,
Fui à Fonte-dos-Amores,
P’ra ter um Amor também!
Puz na cantarinha flôres
E na Fonte-dos-Amores,
Fui encontrar o meu bem!

A água da cantarinha,
A água da cantarinha,
Mata a sêde dos desejos!
Junta a tua bôca à minha,
E à sombra da cantarinha,
Dá-me a água dos teus beijos...

Puz ao ombro a cantarinha,
Puz ao ombro a cantarinha,
Tôda florida a preceito!
Não há sorte como a minha,
Trago ao ombro a cantarinha,
Trago o teu Amor no peito!

Na Fonte-de-Tavarede,
Na Fonte-de-Tavarede,
Sabe a água a alecrim!
Meu Amor mata-me a sêde
Com água de Tavarede,
Que fôste buscar p’ra mim!

Este rancho que entra agora no largo, e tudo domina com o restôlho da pancadaria acêsa no bombo, marcando o compasso rubro e ardente duma chula nervosa, é do Saltadoiro. O tilintar dos ferrinhos vibra como um repique de sineta aguda em baptisado. A voz do rapaz é macia como um veludo. E a da rapariga, fina e ductil, lembra um doce trilo de rouxinol...

Trazes junto ao coração,
Um Senhor, no teu rosário...
= Quem me dera ter a sorte
De morrer nesse calvário...

Não sei se te hei-de amar,
Se fugir ao teu encanto!
Não sei se devo gostar,
De quem me faz sofrer tanto!

O nome que te puzeram,
= Maria! – não acho bem!
Maria, foi Mãe de Deus,
Nunca fez mal a ninguém...

O Sol rompeu, abriu, cobre tudo com a sua aza d’oiro. O ceu, é um esmalte puro, - dum azul sem nódoa ou ruga. E todo o claro espaço, cheira a madre-silva, a mangerico, a rosmaninho em flor! Da bica, tomba a linfa fresca, onde bocas gorgolejam. Uma cachopa, a fugir dum moço atrevido, deixou cair o vistoso pote, - catrapuz! – e foi um coro límpido de gargalhadas em redor...

A meio do largo, dança-se um “Malhão” barulhento – entre o zangarreio de guitarras, estridores de violões, ganidos de harmónicos, saltitares de chinelas, farfalheiros de oiros nos peitos das mulheres, nuvens de pó do sapateado acêso dos rapazes, estalidos dos dedos, e a voz rude e forte do marcador: = Volta” E vira! Uma cantiga... Uma voz sàdia de moço, atira ao fino ar:

“Vai à fonte quem têm sêde”...
= Este dito é impostôr!
Vim à fonte, sem ter sêde,
E morro à sêde de Amor...

Uma rapariga, morena como um bago de centeio, retruca de grimpa alta:

A Fonte-de-Tavarede,
Mata a sêde a quem a tem!
= Mata a sêde a quem tem sêde,
Não dá juizo a ninguém!

Há risos e palmas! O rapaz, nem toma folego, larga com desembaraço:

Oh mandador do “Malhão”
Mande-a cá! – Peço-lho eu...

= Três pares à frente! Agarradinhos! Voltinha ao par...

E mal a pulha nos braços, jungindo-a ao peito largo, enovelando-se com ela em duas voltas quentes e lestas:

Já lhe sinto o coração
Às marradinhas ao meu!

(Raimundo Esteves – Jogos Florais da Primavera de 1941, organizados pela Emissora Nacional. Menção honrosa em palestra radiofónica)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 61



100 ANOS – AO SERVIÇO DO POVO… E CAMINHANDO…

“Ontem, Hoje e Amanhã é o título da peçazita que se ensaia para a comemoração das “Bodas-de-Diamante”.
Ontem – a obra realizada; a certeza do Hoje fizemo-la com o Ontem; com a consciência de Hoje construir-se-á o Amanhã.
Uma nova jornada de 25 anos vai iniciar-se – para o Centenário. Aos rapazes e raparigas que são a seiva renovada e renovadora do Teatro de Tavarede, aos homens e mulheres a quem os anos não cansaram e aos que entraram na velhice e são ainda vigorosos de corpo e de espírito e na Sociedade de Instrução Tavaredense são força e guia, este livro pretende ser incentivo, encorajamento a prosseguir no rumo dos 75 anos, conscientes da utilidade social – ao Serviço do Povo – da nossa Colectividade. Para o autor, este livro das “Bodas-de-Diamante” tem o sabor doce-amargo da despedida, sentado na estrada a ver passar a marcha para o Centenário, com a mala pronta, como antes, para seguir a doce “Irmã-Morte” que já se avista e serenamente se aguarda”.

Foi desta forma que, em 1979, quando se iniciavam as comemorações festivas das “Bodas-de-Diamante” da Sociedade de Instrução Tavaredense, Mestre José da Silva Ribeiro terminou o seu segundo livro sobre a história da nossa Colectividade. Deu-lhe, então, o título de “75 Anos... e Caminhando”.

Já antes, por ocasião das “Bodas-de-Ouro”, em Janeiro de 1965, havia publicado o primeiro volume, que intitulou, muito apropriadamente, “50 Anos ao Serviço do Povo”. Com estes dois trabalhos, a história da Sociedade de Instrução Tavaredense está perpetuada para todo o sempre. Havia, portanto, que dar-lhe a merecida continuidade.

E nada mais justo, parece-nos, que com os títulos que o Mestre deu aos seus livros, uni-los e dar o nome ao livro publicado pelo Centenário. Foi isso que foi feito. E agora continuemos a nossa história.

E porque julgamos muito interessante, ainda, e relativamente às comemorações das ‘Bodas de Diamante’, aqui transcrevemos as palavras pronunciadas na sessão solene pelo nosso Padre António Matos Fernandes: “Eu estou aqui como Pároco de Tavarede, mas não para falar da Igreja, daquilo que a Igreja realiza com os erros dos homens certamente, mas com a Igreja com a actualidade no presente também, que recordamos até esta campanha em que andamos metidos do Ano Internacional da Criança em que temos a honra de a Igreja de Tavarede ter avançado primeiramente aqui no nosso concelho. Ainda ontem a Igreja de Tavarede esteve presente com a sua Catequese na Figueira.

Mas não venho aqui falar de Igreja. Também queria pedir muita desculpa de hoje eu não vir aqui falar de vós que sois de Tavarede, embora possa falar de vós que sois de Tavarede. Mas não vos venho falar directamente. Eu queria sobretudo que as minhas palavras fossem para o Senhor Secretário de Estado da Cultura, Dr. David Mourão Ferreira. A V.Exª eu quero dirigir-me de uma maneira especial. Em primeiro lugar para o saudar como ilustre membro do IV Governo Constitucional. Para lhe dizer que nós respeitamos a autoridade legitimamente constituida e que no Mundo em que depois de tantas mudanças, de tantas ilusões e de tantas desilusões, nós acreditamos neste punhado de homens competentes que além de muitos outros méritos têm o mérito de não ter medo. Eu penso que é muito importante. Por tudo isto eu saúdo V.Exª e queria lembrar à maneira de uma vivência pessoal deste pouco tempo em que estou aqui em Tavarede, queria lembrar alguma coisa desta gente. Queria lembrar que é gente simples, trabalhadora, que não vem aqui para o palco tecer um hino ao trabalho apenas de uma maneira teórica, mas porque o sente bem nas suas mãos, nos seus campos, na sua casa, nas oficinas, nos escritórios, sente o peso do trabalho, mas porque não encara o trabalho como um peso, tece um hino ao trabalho, esse trabalho que pode transformar o Mundo e que tem de ser, ele, o único a transformar este Portugal em que nós estamos. É gente bem educada, gente correcta, gente delicada, atenciosa. E eu digo isto tudo, não é para que eles depois digam que eu estive a dizer bem deles, não é por uma questão de emulação, mas é numa atitude de sinceridade, porque no convívio com eles em cada um tenho um amigo, por isso posso testemunhar todos estes predicados da boa gente de Tavarede.

Gente com um certo nível de cultura. Que ultrapassou um pouco aquele tempo da instrução primária, nós já sabemos porquê e já diremos porquê. Gente polida nas suas maneiras, é gente que sabe viver em grupo, em comunidade. Eu considero este ponto importantíssimo para uma comunidade em que as pessoas se isolam, em que cada uma não pensa única e simplesmente nas suas coisas, na sua casa. Tantas vezes à noite eu os vejo passar para esta casa, deixando as suas coisas. Mas é uma sociedade, é um grupo, é uma comunidade, é uma família. E até ainda neste aspecto de família, eu queria dar um testemunho muito grande. Quando há trabalho na Igreja, e independentemente das suas profissões religiosas, independentemente dos seus credos políticos, damo-nos as mãos mutuamente e tantas vezes eu tenho vindo aqui e eles me perguntam: - Então, Senhor Padre, quando é trabalho, tal coisa? Veja lá, marquemos com tempo, para depois podermos ser todos a trabalhar. Isto é importantíssimo numa terra, e é consolador para mim que sou o Pároco desta terra que é a minha.

Gente que trabalha em comum. Eu não tenho dúvidas nenhumas em dizer que todos estes valores humanos se devem a uma espécie de pequena Universidade que temos cá na terra, e a um magnífico Reitor. Eu refiro-me à Sociedade de Instrução Tavaredense e ao meu grande amigo José Ribeiro. Sociedade colocada aqui num alto, no cimo de Tavarede, como que a indicar uma espécie de Santuário para onde se dirige, para onde se congrega toda esta gente de Tavarede. Fica no alto para indicar que a vida tem de ser uma caminhada constante e que temos de sair daqueles individualismos, daquela mediania, duma vida lá em baixo. Sociedade colocada cá no alto, como que a servir de apelo para que vida possa ser mais alguma coisa do que fecharmo-nos em nós próprios. Esta Sociedade, este centro de encontro, colocado aqui no alto, à maneira da lareira onde as famílias se reunem para se aquecerem em comum, para falarem, para conversarem, para saberem dialogar, para falarem das suas coisas e aprenderem também as suas coisas, com os mestres e com o mestre. Esta casa importante, importante pelo que já ouvimos aqui dizer, pelas letras que começou a ensinar, a cultura do espírito, porque um povo sem cultura é um povo sem valor. Sociedade importante pelos seus teatros, pela Cultura que vai dando a esta gente, e eu dizia que ultrapassou a instrução primária precisamente devido a este trabalho aqui, neste palco de Tavarede. Está a dar os seus passos também no Desporto e é local de convívio desde que devidamente orientado e desde que as coisas sejam levadas com a devida correcção. O Desporto pode ser educação desde que não seja levado com paixão.

Tem esta casa, portanto, prestado altos serviços ao povo de Tavarede, ao povo da nossa terra. Por isso ela é digna da nossa admiração, do nosso respeito. Por isso mesmo esta casa merece e tem todo o direito de exigir os bons olhos e uma atenção especial da parte dos departamentos governamentais. E eu acredito, Senhor Secretário de Estado, que V.Exª certamente terá tudo isto muito em conta. Esta Casa merece a atenção da parte do Governo. Não foram eles que me pediram nada disto. Mas sou eu que na minha maneira de ver as coisas como homem que sou do tempo de hoje, empenhado nos problemas do tempo de hoje, entendo que esta Casa também merece a atenção do Governo. 75 anos ao serviço do povo. 75 anos repassados de trabalho numa educação constante do trabalho. 75 anos celebrados com uma peça que foi, ela também, um hino ao trabalho. Um hino à união de todos, naquela imagem do trabalho e do campo. Um hino à esperança, na mensagem de esperança na criança que aparece, a alegria da família. E a vida sem esperança é uma vida sem sentido. A esperança que dá sentido, a esperança que é o sol que ilumina, a esperança que é um apelo à energia, porque quando há esperança há sempre um pouco mais de força para ir mais além, a esperança que tem de ser o indicativo dum caminho. Esta peça indica. E a Sociedade de Instrução Tavaredense vai continuar. Esta peça indica que este bom povo de Tavarede vai continuar a contar com o bom trabalho desta Casa. Por isso eu hoje como Pároco, como amigo desta terra, saúdo esta Casa que é também a minha Casa. Para o senhor Secretário de Estado e juntamente também para esta nossa Sociedade de Instrução Tavaredense, que está a celebrar os seus 75 anos, eu pedia uma salva de palmas.

Festejos ao S. João

Novenas, illuminações, musicas, fogos do ar, exposição d’egreja, danças populares, missa a grande instrumental, cavalhadas, corridas de gericos, corridas de peões em saccos e de velocidade, e corridas de mulheres com potes, todas premiadas, tal foi o programma da festa que no sabbado, domingo e hontem, segunda feira, se realisou aqui em honra de S. João.

Passaram estes dias, passaram com elles os festejos annunciados, sem que houvesse o menor incidente perturbador da alegria e do socego do nosso povo, que teve ensejo para mostrar mais uma vez o genio pacato e ordeiro de que é dotado.

A commissão que promoveu os festejos desempenhou-se cabalmente da sua missão. Nada mais se poderia exigir do bello effeito que produzia a illuminação de sabbado, da boa ordem em que ia a numerosa cavallaria da bandeira, da animação que reinou nas corridas de hontem, e, emfim, de toda a série de distracções que realisou em proveito do povo que procura esquecer no meio das suas alegres festas as rprivações que soffre no labutar constante de cada dia.

Ainda assim, hoje, para a mocidade, nada ha mais querido do que a dança, esse divertimento em cujo rodopiar se trocam olhares fascinantes e em que os rapazes e raparigas sentem, quasi unidos, o palpitar amoroso dos seus apaixonados corações. Que importa dizerem medicos abalisados que a tysica é muitas vezes originaria da dança e que a ella se devem muitos dos cqsos succedidos por esse paiz fora? Todas essas tenebrosas affirmações pouco preocupam a mocidade, e era ver como ella, na noite de sabbado e tarde de domingo, se entregou ardentemente á expansão d’essa folia, ao som da Estudantina e formando um explendido rancho - Alegria - em que aqui e ali predominavam pares de salerosas niñas, que d’essa praia vieram associar-se garbosamente ao tributo d’homenagem que as raparigas de Tavarede dispensaram ao festejado S. João.

Uma infinidade de fieis assistiu á missa de domingo, em que foi celebrante o nosso vigário sr. J. da Costa e Silva e acolytos os revdºs. Emygdio Ramos Pinto, da Figueira, e J. N. Forte de Campos, de Villa Verde. Ouviram-se varias musicas sacras, executadas por musicos da philarmonica das Alhadas, que tomou parte nos festejos de sabbado e domingo.

Seguiu-se a formatura do cortejo da bandeira, poz-se em marcha para essa cidade e Buarcos, e regressou pelas 5 horas da tarde, quando o transito na rua Direita era enorme, acotovelando-se os forasteiros em passeio aprazivel, e quando á sombra de arvores proximas se manducavam em desprendido convivio grande numero de apetitosas merendas.

Duas horas depois, ao festivo estralejar de foguetes e ao som do hymno da Carta, vimos uma commissão composta dos srs. João Motta, João Jorge Paschoa, Antonio Marques Junior, Joaquim Miguens Fadigas, João Lopes Moço, José Maria Jorge Paschoa, Manuel Rocha e Augusto Marques, que, seguida de muito povileu, conduzia a bandeira de S. João, annunciando por isso a realisação dos festejos no proximo anno.

Porem, a tarde de hontem foi, a nosso vêr, a que mais agradou, porque todas as corridas que houve foram verdadeiramente engraçadas, principalmente as de burro, saccos e potes. Os espectadores conservaram-se sempre em perfeita hilaridade, provocada pelas continuas scenas de graça que se desenrolavam a cada instante.

Todos os vencedores eram enthusiasticamente saudados pela lendaria philarmonica Zé P’reira, essa genuina musica portugueza que é a alma das festas populares.

E assim acabaram pelas 8 horas e meia, quando a noite nos cobria com o seu azullado manto de estrellas, as festas que uma briosa commissão levou a effeito, embora tardiamente, mas que tem em sua defeza o velho rifão que nos diz que: O S. João a todo o tempo tem vez.

A toda essa commissão, ása pessoas que valiosamente a coadjuvaram, ás raparigas que organisaram o Alegria e á Estudantina, cumpre-nos enviar muitos parabens pelo exito brilhante que alcançaram os festejos, por cuja realisação algumas vezes pugnámos n’este logar.

O sr. regedor d’esta freguezia não deve por fórma alguma deixar de castigar os cocheiros que no domingo desobedeceram ás suas ordens, transitando com os carros pela rua Direita, entre grande agglomeração de povo, de quem ouvimos muitos protestos contra tal serviço.

(Gazeta da Figueira - 2.Agosto.1899)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CANTIGAS DE TAVAREDE


Sob o título 'CANTARES DE TAVAREDE ESTÃO CADA VEZ MELHOR' o Diário de Coimbra de 20 do mês corrente, noticiando mais uma edição dos 'Serões do Mondego', que, numa feliz iniciativa do Casino e da Associação das Colectividades do Concelho, têm sido efectuados no Salão Café do Casino da Figueira.
Estes 'serões' têm a colaboração das colectividades concelhias, que têm a oportunidade de apresentar naquela sala o melhor das suas actividades. Sempre fui colaborador e adepto do Associativismo. E o nosso concelho, nesse campo, dá cartas a qualquer outro. Felizmente.
Mas voltando àquela notícia, ficámos imensamente satisfeitos com a referência feita ao grupo coral da Sociedade de Instrução Tavaredense. E vamos aqui transcrevê-la: '... Se o concerto da Filarmónica Verridense, dirigido pelo maestro Duarte Garcia, constituíu uma surpresa agradável, a presença em palco dos "Cantares de Tavarede" sob a mestria de João Cascão, encantaram e encheram o público de alegria com temas teatrais conhecidos de muitos, com destaque para o guarda-roupa vistoso de todo o grupo. É bem visível que de espectáculo para espectáculo, o grupo está cada vez melhor".


Como tavaredense, sempre orgulhoso da Terra do Limonete, saúdo todos e todas os/as participantes no Grupo e o seu maestro, o nosso amigo João Cascão. E desejo, como certamente todos os meus conterrâneos, que continuem com o melhor ânimo.


domingo, 17 de outubro de 2010

CAPELA DO S. PAIO

Constou, há dias, que tinham assaltado a casa dos Monteiros, no Prazo, e vandalizado a capela do S. Paio. Teria sido um acto de puro vandalismo.

Esta semana, para esclarecer o caso, desci o caminho que desce da rua dos Pejeiros até ao vale, onde tem ligação com a estrada do Saltadouro. É um caminho impossível, diga-se desde já. Só de tractor ou à pé, que foi o que fiz. Mas a idade não perdoa e as 'dobradiças' queixaram-se bastante durante a subida que tive de fazer no regresso.
Mas, felizmente, tive uma boa compensação. A capela está intacta, pelo que parece ter sido rebate falso. Para confirmar publico fotos que tirei. A propósito, também publico mais duas fotos que vão destinadas ao Brasil, a quem peço o favor de as identificar.



































sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Em louvor de Tavarede


Quem seria o Fr. Manuel de Santa Clara que subscreve o soneto adiante transcrito?

Pertenceria ao convento figueirense de Santo António? Ou algum religioso de outro mosteiro, estranho à terra, que por aqui passasse a recrear-se ou aqui viesse em uso de banhos (talvez até hóspede do convento) e nalguma digressão à risonha Tavarede ali se deixasse prender nos encantos da sua paisagem?

Ignoro-o. Poucas, que se nenhumas, infelizmente, são as notívias àcerca dos nossos franciscanos, uma vez sumido, creio que para todo o sempre, o arquivo da casa conventual.

Seja como for, é curioso o soneto desse frade, descritivo da “terra do Limonete”. Nele encontramos referências ao vale e outeiros circunvizinhos; ao regatito humilde que atravessa a povoação e que há perto de 170 anos (o soneto é datado de 1779) era, como se vê, ribeiro, portador, por certo, de mais água e menos lixo; ao palácio quinhentista dos Quadros, hoje mìseramente degradado com vergonhosas mutilações e reparações imbecis; e, finalmente, à abastança de frutos e verduras, do seu fecundo vale, por onde o frade-poeta o avantaja nada menos que ao de Tempe, aos pés do Olimpo, na Grécia de Píndaro e de Anacreonte.

Do manuscrito setecentista donde transcrevi o soneto constam duas versões, se assim apreciarmos umas alterações de pouca monta lançadas à margem dele: no 1º. verso, colinas cheias, em vez de outeiros vestidos; no penúltimo, assim ganhando em vez de assim levando. Escolhi a primeira, quando há anos tive nas mãos o manuscrito; a outra, agora, se me afigura preferível. Vejamos:

Descripção do sítio de Tavarede

Entre outeiros vestidos de verdura,
Um vale gracioso à vista ocorre
Onde um claro ribeiro em giros corre,
Banhando-o de eternal, grata frescura;

Quanto nele se avista, obrou Natura;
Só um nobre Palácio ali concorre
A mostrar que, subtil, o engenho acorre
À simétrica mão da Arquitectura.

Junto às casas e muros bracejando,
Verdes parreiras vão, entre a folhagem,
Seu roxo ou loiro fruto entremostrando.

E a Ceres e a Pomona vassalagem
Rende este vale ameno, assim levando
Ao de Tempe famoso alta vantagem!

1779 De Frei Manuel de Santa Clara

Rejubile a fidalga Tavarede com a notícia deste peça literária, e tome-a como uma jóia mais a engastar na sua coroa condal.

Cardoso Marta
(Boletim C.M.Turismo - 31.Julho.1947 - nº. 18)