sábado, 30 de outubro de 2010

João dos Santos Júnior

Nasceu no ano de 1877, filho de João dos Santos.

Profissionalmente foi funcionário público, estando, durante bastantes anos, colocado na Câmara Municipal de Condeixa, com a categoria de chefe da secretaria.

No campo associativo, foi dedicado colaborador de seu pai, sendo eleito como primeiro presidente da direcção do Grupo de Instrução Tavaredense, em 1900, colectividade esta que foi a antecessora da Sociedade de Instrução.

Na escola nocturna desta colectividade foi o professor da aula de ginástica “prática então pouco comum, mesmo no sistema da instrução primária”. Nos saraus organizados pelos alunos, apresentava sempre uma classe de ginástica. “… os alunos da escola nocturna, que desempenharam com muita precisão, alguns exercícios de ginástica sueca, pelo que o seu instrutor, sr. João dos Santos Júnior, foi delirantemente aplaudido”.

A colectividade homenageou-o em 1914, nomeando-o seu sócio honorário e descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre.

Faleceu no ano de 1965.
Caderno: Tavaredenses com História

Fernão Gomes de Melo Quadros e Sousa

Morgado, 6º. Senhor de Tavarede.

Filho de Pedro Lopes de Quadros e de D. Maria Teles. Nasceu e viveu em Tavarede.

Casou com D. Brites Maria de Albuquerque e tiveram a seguinte descendência:

Pedro Lopes de Quadros e Sousa, herdeiro do morgado; D. António Coutinho de Quadros, Cónego Regrante de Santo Agostinho e depois Prior de S. Martinho de Salréu; Frei José, frade Bernardo; Manuel de Melo Pereira de Quadros, a quem chamaram “o moço”, que foi capitão e morreu na defesa de Castelo Rodrigo; Francisco de Meneses Teles, Freire de Avis, em Palmela; D. Mariana Coutinho, D. Inês Soares e D. Leonor Coutinho, freiras no Convento de Lorvão; e António Fernandes de Quadros.

Há registo, ainda, de dois filhos bastardos: João e António de Quadros.

Quando enviuvou entrou para o Seminário do Varatojo, onde tomou o hábito de leigo e “viveu em grande edificação”.

“… quando faleceu sua esposa, sofreu tal abalo moral que, vendo seus filhos criados, saiu furtivamente, noite alta, dos seus Paços e sem comunicar a pessoa alguma a resolução que tomara, dirigiu-se a pé ao Convento do Varatojo, onde se meteu frade leigo, com o nome de Frei José da Santa Maria, e onde viveu alguns anos, sem ser reconhecido, praticando os mais humildes serviços na Cerca e na Igreja do Convento, vindo a falecer após uma longa vida de sacrifício e santidade.

Um aspecto do Convento do Varatojo (Internet)

Assim desprezou as pompas do mundo, num raro gesto de renúncia, este nobre Senhor de Tavarede, fidalgo da Casa de El-Rei, Cavaleiro de Cristo e Comendador Hereditário de São Pedro das Alhadas, da mesma Ordem, brilhante homem da Corte, soldado ilustre das guerras do Ultramar e homem de muito e discreto saber”.

Caderno: Tavaredenses com História

Abílio Alves Fernandes Águas

Natural de Tavarede, onde nasceu a 17 de Outubro de 1841, faleceu na Figueira da Foz, no dia 20 de Janeiro de 1892. Contava, portanto, 82 anos de idade e era filho de Joaquim Alves Fernandes Águas e de Ana Ribeiro da Silva. Casou com Rosa Emília da Conceição.

Abastado proprietário e conceituado negociante, desenvolveu importante actividade comercial como exportador, principalmente de vinhos. Como armador, foi proprietário, só ou em sociedade, dos brigues Figueirense e Baía e da escuna Feiticeira, durante muitos anos matriculados na Capitania da Figueira.

Figurava nos primeiros lugares da lista dos 40 maiores contribuintes deste concelho.

Quinta da Borlateira (Ao Senhor da Arieira)

Militou, activamente, no Partido Regenerador que, pela sua morte, “lamentou a perda irreparável de um dos seus mais valiosos soldados”.

Foi venerável da Ordem Terceira de S. Francisco e mesário da Santa Casa da Misericórdia.

Em sua memória, a família, no dia 31 de Janeiro de 1892, fez a distribuição de esmolas aos pobres da Freguesia de Tavarede, “na sua Quinta da Borlateira”, aos Quatro Caminhos do Senhor da Arieira.

Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 62

Terminadas as festas comemorativas das ‘Bodas de Diamante’, que tanto êxito alcançaram, continuou a actividade teatral com a apresentação da peça ‘Ontem, Hoje e Amanhã’. Em Março, no jornal ‘A Voz da Figueira’, foi publicada a seguinte nota:

“Com o pé no estribo para uma curta viagem que não sei se será o prólogo de outra maior – a maior de todas as viagens – transmito ao teclado máquina de escrever o breve apontamento que se segue acerca do espectáculo a que há poucas horas assisti no bem reputado teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, com a revista “Ontem, Hoje e Amanhã” desse excepcional homem de teatro e apóstolo da cultura popular, que é José da Silva Ribeiro. Dizer que nos surpreendeu a boa confecção do espectáculo, não seria exprimir a verdade. Mas que nos surpreende como um homem com a provecta idade de 84 anos foi capaz, não dizemos de ensaiar mas de escrever o texto, boa parte do qual em verso – género difícil em teatro – verso bem construído, vigoroso, com rimas naturais, sem artifício de martelo, que nos lembram os grandes clássico das nossas letras, isso, sim, isso surpreendeu-nos e levou-nos, no final, a exclamar: abençoados 84 anos!

Doseando a fantasia com a história de forma a que o espectador aceite a mistura sem enfado – eis outra vitória do autor. A música, parte da qual transportada de números antigos que foram êxito e consagraram compositores como António Simões e Anselmo Cardoso – valoriza sem dúvida o espectáculo. João Cascão Filho dá também com a sua intervenção musical, uma nota de ternura muito grata aos que conheceram seu saudoso pai em incontestáveis êxitos que o impuseram como amador teatral de excepcional craveira.

Dessa fornada notável de amadores, dá gosto ver actuar ainda José Luiz do Nascimento, Fernando Reis, João de Oliveira Júnior e João e José Medina. São os grandes trunfos de ontem. Os de hoje seguem as suas pisadas. E os de amanhã não desmerecerão certamente os créditos dos antecessores, se o espírito de José Ribeiro continuar a presidir à caminhada teatral da SIT. Tavarede foi sempre um alfobre de grandes amadores teatrais!’.



Embora já o tenhamos referido, não queremos deixar de publicar a pequena notícia que ‘Barca Nova’ publicou em Maio de 1979, a propósito do regresso ao palco de Violinda Medina. Deu-lhe o título: ‘Uma legenda do teatro de Tavarede regressa ao palco’: “Já lá vai, talvez, uma trintena de anos, era eu ainda uma criança de calção e bibe. Em Tavarede, onde fora ao teatro pela mão de meu pai, recordo que pouco faltou para a casa vir abaixo, tamanha foi a trovoada de aplausos que culminou a representação da peça então em cena. Uma amadora era especialmente distinguida: Violinda Medina e Silva.

Passaram os anos, tudo naturalmente envelheceu. Se D. Violinda levar hoje os dias agarrada a recordações, não me admiro. Eu próprio, bem mais novo, me tenho visto já a debruçar nos terraços do tempo, buscando na memória pessoas e coisas que a emoção gravou. Violinda Medina e Silva é, por exemplo, uma delas. Recordo o seu porte majestoso no papel de Madalena de Vilhena; a sua naturalidade exemplar em Os Velhos, de João da Câmara; o seu admirável desempenho em As Árvores Morrem de Pé, de Alejandro Casona. Recordo tudo isso. Mas poderia lembrar muitas outras representações em que interveio o seu talento invulgar.

Pois Violinda Medina e Silva – essa extraordinária mulher da cena portuguesa – vai regressar ao palco. Em Tavarede, pois onde havia de ser? É ali que ela tem levado toda uma vida de devoção pelo teatro; foi ali que ela conheceu os maiores êxitos da sua carreira; é ainda ali que, religiosamente arrecadadas, velhinhas tábuas de um antigo palco aguardam, sem pressas, o dia de serem a mortalha da actriz.

NOTA: Talvez que o leitor se surpreenda com o último parágrafo, ou melhor, não compreenda bem… Se estiver nesse caso é porque não sabe que Violinda Medina e Silva deseja ter por caixão… as tábuas do antigo palco do Teatro de Tavarede. As tábuas estão arrecadadas, e a sua vontade cumprir-se-á. Oxalá que daqui por muitos, muitos anos…”

Fotos - 1 e 2 - Ontem, Hoje e Amanhã; 3 - Violinda Medina e Silva

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

S. MARTINHO DE DUME

Bispo de Dume e arcebispo de Braga. Era natural de Panónia, como S. Martinho de Tours, e dirigia-se da Palestina em peregrinação ao túmulo do seu homónimo quando encontrou os delegados do rei suevo Charrarico, que invocara o santo bispo de Tours numa doença de seu filho Teodomiro e agora enviava os seus emissários à Gália em busca das relíquias do santo. S. Martinho encaminou-se para a Península com as relíquias e desembarcou num dos portos da costa ocidental, talvez Portucale.

Iniciou S. Martinho a sua evangelização e fundou em Dume um mosteiro. Em 556 Dume era elevada à dignidade episcopal e S. Martinho escolhido para seu primeiro bispo.

Em 569 vagou a sé de Braga por morte do arcebispo Lucrécio e S. Martinho foi elevado a prelado, da metrópole bracarense, sem todavia deixar de ser bispo de Dume. E, 569 Teodomiro criou a nova metrópole de Lugo. Os prelados das duas dioceses reuniram em Braga o II Concílio (572) e como complemento da obra deste concílio, S. Martinho encarregou-se de ordenar uma Colecção dos Cânones dos Concílios Orientais. Publicou ainda outros muitos, como Fórmula honestae e De correctione rusticorum. Atribuem-se-lhe também várias composições poéticas.

S. Martinho de Dume faleceu em 2o.111.579 e foi sepultado na catedral de Dume. Em 1606 foram as suas relíquias depositadas na Sé de Braga, onde se celebra e sua festa a 20 de Março
.
OBRAS: Podem dividir-se em ascético-morais, vanónico-litúrgicas e poéticas. A) A Formula vitae honestae, dedicada ao rei Teodomiro, a cujo pedido foi escrita, é um excelente tratado de moral natural sobre as quatro virtudes cardeais, destinado à formação do rei e seus cortesãos. Esta espécie de “Espelho de príncipes” divulgou-se muito na Idade Média, mas atribuída, em geral, a Séneca, por ser muito influenciada pelo filósofo cordovês, denominando-se frequentemente De ( ou Liber de) quattuor virtutibus. De ira, obra de filos, moral, escrita a pedido de Vitimiro, bispo de Orense, é uma adaptação do livro homónimo de Séneca. Pro repellenda iactantia, De superbia e Exhortatio humilitatis, agrupados às vezes com o nome de Opus tripartitum, são três pequenos tratdos de inspiração evangélica sobre a moral cristã, a servir de remate à doutrina dos dois primeiros opúsculos. Sententiae patrum Aegyptiorum, colecção de apotegmas traduzida do grego para leitura espiritual e edificação dos monges. De correctione rusticorum, exortação pastoral, escrita a pedido de Polémio, bispo de Astorga, destinava-se a extirpar as práticas pagãs e superstições ainda vigentes sobretudo entre gente cristã dos campos, procurando levar os fiéis a cumprir as promessas feitas no baptismo. Um dos abusos condenados é a denominação pagã dos dias da semana. Esta obra é muito importante para conhecer os usos e costumes então vigentes entre nós. B) Além da epístola De trina mersione, enviada ao bispo Bonifácio, talvez de Itália, a defender o baptismo por tríplice imersão, temos no 2º. grupo os Capitula Martini ou Canones ex orientalium patrum synodis, colecção sistemática de 84 cânones em que Martinho de Dume adaptou a legislação de diversos concílios orientais e do I de Toledo às necessidades e circunstâncias peculiares da Igreja sueva, acrescentado-lhe algumas novas disposições. Por ter participado nos dois primeiros Concílios Bracarenses, atribui-se-lhe a redacção das respectivas actas. C) Restam dele três poesias, com um total de 38 exâmetros de sabor clássico: In basilica, na Igreja de S. Martinho de Tours, em Dume; In refectorio, gravada no refeitório do mosteiro, e o seu Epitaphium. Perdeu-se um Volumen Epistolarum de formação religiosa, que Santo Izidoro chegou a ler e também a correspondência trocada com Venâncio Fortunato, com a rainha Santa Radegundes e a superiora e religiosas do mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que poderia estar incluído no citado Volumen. Santo Isidoro atribui a Martinho de Dume outras obras, hoje desconhecidas: regulam fidei et sanctae religionis constituit (...) copiosaque praecepta piae institutionis composuit. A. Lambert atribui a Martinho de Dume o ofício da festa da ordenação de S. Martinho de Tours. Martinho de Dume escreveu um tratado de cômputo pascal, que se desconhece, não podendo aceitar-se como dele o De Pascha, que alguns lhe atribuem, porque este tratado defende doutrina priscilianista enèrgicamente combatida pelo nosso santo. São de autenticidade muito duvidosa os tratados senequistas De moribus e De paupertate. Martinho de Dume teve também influência na versão latina dos Aposphthegmata Patrum, feita a seu pedido por Pascásio de Dume, que, no prefácio, lhe pede para polir esta versão do grego: ut tuo polire sermone digneris exposco.

S. MARTINHO

Bispo de Tours (actual Szambatkely, Hungria, 316 ou 317 - Candes, França, 8.11.397). Filho de um oficial do exército romano e nascido num posto militar fronteiriço, após estudos humanísticos, em Pavia, aos 15 anos entrou para o exército quando já a sua vontade o inclinava a fazer-se monge (aos 10 anos inscrevera-se como catecúmeno).

Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna no rigor do inverno encontrou um pobre seminu: não tendo à mão dinheiro para lhe valer, com a espada dividiu ao meio a sua clâmide que repartiu com o desconhecido. Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus, que disse: “Martinho, apesar de somente catecúmeno, cobriu-me com a sua capa”.

Recebeu a baptismo na Páscoa de 339, continuando como oficial da guarda imperial até aos 40 anos. Abandonando a vida castrense, foi ter com Santo Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras e lhe deu possibilidade de levar vida monacal: nasceu, assim, o famoso Mosteiro de Ligugé. Em breve ganhou fama de taumaturgo. Eleiro, por aclamação, bispo de Tours, foi sagrado provavelmente a 4.7.371.

Ardente propragador de fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde saíram notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização. Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil.

O fascínio das suas virtudes radicadas na generosidade do seu zelo, na nobreza do ser carácter e, sobretudo, na bondade ilimitada mantida para além da morte na prodigalidade dos seus milagres, magnificamente descritas pelo seu discípulo Sulpício Severo, fez com que São Martinho de Tours fosse durante muitos séculos o santo mais popular da Europa Ocidental.

A sua memória litúrgica é a 11 de Novembro.
UM MILAGRE DE S. MARTINHO
Caminhava um dia o virtuoso santo em direcção á sua cidade de Tours, e tinha já dado aos pobres todo o dinheiro que levava consigo. Apparece lhe no caminho um mendigo andrajoso e faminto, supplicando uma esmola.

Martinho, que não tinha mais que dar, rasgou a meio a capa em que se embrulhava e deu metade ao pobre.

Este, cheio de fome, entro n’uma locanda e pediu alguma coisa para comer, mas como não tinha com que pagar, deixou em penhor a parte da capa que o santo lhe tinha dado, promettendo vir resgatal-a quando podesse.

O taberneiro atirou desdenhosamente com ella para cima d’uma das pipas d’onde tirava vinho para os freguezes, e passados dias notou com espanto que o vinho não diminuia no casco. Tirando a capa de cima da vasilha, acabava logo o vinho; tornava a collocal-a, e o divino licor jorrava logo espumante da torneira.

Eis porque os amantes do sumo da uva, escolheram para seu patrono o santo e caridoso bispo.
A lenda do verão de São Martinho

Reza assim a lenda:

No alto de uma montanha agreste, despovoada e nua, vivia um monge miseravelmente... Alimentava-se de raizes, mortificava-se de jejuns e só de raro em raro descia às aldeias a mendigar... Um ano, porém, o inverno veio cedo, e os primeiros dias de Novembro foram de temporaes pegados, bramiam ventos uivando pelas penedias, rugiam coleras de raios as tempestades, urravam medonhamente os temporaes!...

Chuvas cantarejavam ás enxurradas, e a neve, como um lençol imenso de linho purissimo cobria tudo...

Entrou então a fome e o frio na choupana humilde de Martinho, e o pobre monge, acoçado pela inverneira, resignou-se a vir ao povoado pedir uma codea de pão que o alimentasse e uma acha de lenha que o aquecesse...

E embrulhando-se n’um farrapo esburacado, que era o seu unico manto, arrimou-se ao bordão, e pôz pés ao caminho...

Entresilhado de frio, tiritando, atravessava o bom do monge uma leiva em poisio, quando topou, desmaiado na nece, um caminhante velho, rôto e descalço como ele...

Condoeu-se, e tirando das costas o migalho de pano, todo de remendos, embrulhou n’ele o desgraçado...

Dos ceus, Deus, que tudo mira c’o seu olhar onipotente, sorriu...: e chamando o sol que beijava a lua sob a protéção das nuvens, mandou aproximar o Destino e escreveu no seu livro azul com letras d’oiro: -”Que todos os anos, por estes dias, o sol aqueça os que teem frio...”

O sol doirou a terra, nos roseiraes abriram-se botões de rosas, cravos exangues mostraram a chaga rubra da sua côr, trinaram rouxinoes, cantaram cotovias, assobiaram melros, voltaram andorinhas...

... E foi assim que nasceu o verão de S. Martinho!...
S. Martinho

Viva S. Martinho...

Reine a santa frescata... e chova vinho...

Ajoelhemos, tirando a barretina,

Ante o Santo que a todos nós domina.

Juremos, pondo a mão sobre o barril,

De fazer das guelas um funil

Quando o vinho corra... Viva! Viva

S. Martinho qu’os bebedores captiva!...

sábado, 23 de outubro de 2010

A FESTA DO 1º. DE MAIO NA VÁRZEA DE TAVAREDE

Já os remotos druídas celebravam o “Bé-il-Tin”, - o começo do ano, - quando dealbava Maio.

É festa que vem de longe e, passeando em torno das idades, o seu guisalhar alegre e ruidoso.

O nome céltico de Maio, era “Cenduin”, - o primeiro mês, o primeiro tempo, - visto que era em Maio, que por êsses recuados e apartados dias, se dava comêço ao ano.

Na clara Grécia, na velha Galia, na soberana e olimpica Roma, - as “Floralias”, as “Palilias”, - os enormes fogareus lucilando e crepitando nos altos môrros, recordavam segundo a tradição de uma festa solar, vestígios de qualquer antiga comunidade pastoral.

Por todo o lado, no dôce e suave mês de Maio-Moço, em que a Natureza inteira veste galas em honra e louvor da Deusa Primavera, - o entrar de Maio, foi motivo e razão de bailos e folgares, - ou à luz radiosa do Sol, ou sob o manto rútilo das estrêlas!

A Igreja, festeja em Maio-Florido, - Nossa Senhora. É o Mês-de-Maria, - com os altares cheios de rosas claras. O cristianismo, repudiou em seu começo as rosas, - dado o culto pagão votado à aromática flôr, pelos adoradores de Vénus, - a Deusa do Amor e da Fecundidade!

Bem cedo porém as rosas regressaram a encher os templos cristãos, a cobrir de seu oloroso perfume as naves altas, a atapetar com as suas finas pétalas de sêda, os pés da Virgem Nossa Senhora. E por todo o Portugal formoso e crente, por capelas alpendradas no tôpo cinzento dos montes, por ermidas quietas e calmas, aninhadas no fundo das encostas ou erguidas ao remate das veigas tranquilas, se cantam e rezam, na doirada doçura das tardes macias dêste mês de Maio-Lindo, ladaínhas e litanias, erguendo aos Altos, - graças e louvores à Mãe-de-Deus!

Quando os Afonsos e os Sanchos, no alvorecer da nacionalidade, talavam a cortes de montante o solo da Nação, era em Maio que se organisavam as algaradas e se partia à reconquista cristã. Então se clamava: - “Vamos ao Maio!” – E o mesmo era que dizer que abalavam por vales e cêrros, ao encontro das hostes infieis, - gentes d’Algo, infanções, cavaleiros temíveis e bravia peonagem.

“Ir ao Maio”, - marcava a largada das mesnadas heróicas, que iam bater-se gloriosamente para cimentar a Pátria, que nascia e se firmava entre os golpes de uma espada e o erguer de uma cruz! As giestas, flôres d’oiro que cobrem em Maio-Formoso, tôda a faixa da Península, que vai do verde Minho ao moreno Algarve, simbolisam na sua arisca e rebelde graça, o mês mais contente de todo o ano.

Na manhã do primeiro dia de Maio, devem colher-se as giestas, e enramalhar com elas, as portas dos casais, os janelos, os currais do gado, a arca do pão e a talha do azeite.

... Para que Deus sempre dê fartura ao lar, e arrede maleitas e quartãs, - das gentes e do bicho vivo...

A giesta simbolisa o período da Primavera plena, e traduz o fino cantar do arroio calmo, o abrir da flôr no brotoejo dos ramos tenros, o chilreio dos ninhos e a vibração ligeira das azas que varam sem estôrvo o tranquilo e lavado azul!

Beber no alvôr da madrugada do 1º de Maio, água pura, gostosa e fresca, na Fonte milagreira da Varzea de Tavarede, - dá saúde, felicidade, alegria e sorte, para o ano inteiro! Por isso, tôda a gente das terras ao derredor da linda e risonha aldeia, se agrupa e junta na praxista manhã, no largo onde a bica rumoreja num fio cristalino. Não há moça de trabalho, que não consuma e môa a derradeira noite de Abril, a florir seu pote de barro vermelho, - que é grande o despique em apresentar caprichosamente enfeitadas, as cantaras airosas.

Urdem-se entre folhas de hera, os tenras ramagens de buxo ou loiro, círculos de rosas e cravos em coloridos e bizarros tons, que enastram o bôjo da vasilha, caem em aneis pelo talhe grêgo dos bocais, e pelo jeito em ânfora à roda das azas perfeitas. E grandes laçadas de fitas de sêda, descem pelos pucaros bem torneados, humidos e apetitosos, que matam sêdes de água e amor, a beiços de namorados...

Ainda o céu é um crivo de estrêlas e mal se laiva o nascente de uma ténue e branda claridade, já descem dos píncaros do Cruzeiro, das azinhagas do Robim, da estrada de Mira, - seguindo no caminho fácil e geitoso da Várzea-de-Tavarede – ranchadas de gente môça e garrula, cantando e bailando, entre risos e folgares. Em roda da Fonte, com seu arco moirisco, é bem uma romaria. Os toques, são às duzias. E andam pelo ar cantigas d’oiro, com résteas de Sol!

Chegou agora o grupo dos “Amorosos”. São de Brenha. A tuna, é de apetite. Os rapazes trazem bonés forrados de fustão branco. E as raparigas ramos de limonete e pandeiretas de onde pendem tiras vistosas de mil côres. Cantam, com acompanhamento de côro, a velha moda popular “Margarida-vai-à-Fonte”. Que linda voz tem a cantadeira...

Fui à Fonte-dos-Amores,
Fui à Fonte-dos-Amores,
P’ra ter um Amor também!
Puz na cantarinha flôres
E na Fonte-dos-Amores,
Fui encontrar o meu bem!

A água da cantarinha,
A água da cantarinha,
Mata a sêde dos desejos!
Junta a tua bôca à minha,
E à sombra da cantarinha,
Dá-me a água dos teus beijos...

Puz ao ombro a cantarinha,
Puz ao ombro a cantarinha,
Tôda florida a preceito!
Não há sorte como a minha,
Trago ao ombro a cantarinha,
Trago o teu Amor no peito!

Na Fonte-de-Tavarede,
Na Fonte-de-Tavarede,
Sabe a água a alecrim!
Meu Amor mata-me a sêde
Com água de Tavarede,
Que fôste buscar p’ra mim!

Este rancho que entra agora no largo, e tudo domina com o restôlho da pancadaria acêsa no bombo, marcando o compasso rubro e ardente duma chula nervosa, é do Saltadoiro. O tilintar dos ferrinhos vibra como um repique de sineta aguda em baptisado. A voz do rapaz é macia como um veludo. E a da rapariga, fina e ductil, lembra um doce trilo de rouxinol...

Trazes junto ao coração,
Um Senhor, no teu rosário...
= Quem me dera ter a sorte
De morrer nesse calvário...

Não sei se te hei-de amar,
Se fugir ao teu encanto!
Não sei se devo gostar,
De quem me faz sofrer tanto!

O nome que te puzeram,
= Maria! – não acho bem!
Maria, foi Mãe de Deus,
Nunca fez mal a ninguém...

O Sol rompeu, abriu, cobre tudo com a sua aza d’oiro. O ceu, é um esmalte puro, - dum azul sem nódoa ou ruga. E todo o claro espaço, cheira a madre-silva, a mangerico, a rosmaninho em flor! Da bica, tomba a linfa fresca, onde bocas gorgolejam. Uma cachopa, a fugir dum moço atrevido, deixou cair o vistoso pote, - catrapuz! – e foi um coro límpido de gargalhadas em redor...

A meio do largo, dança-se um “Malhão” barulhento – entre o zangarreio de guitarras, estridores de violões, ganidos de harmónicos, saltitares de chinelas, farfalheiros de oiros nos peitos das mulheres, nuvens de pó do sapateado acêso dos rapazes, estalidos dos dedos, e a voz rude e forte do marcador: = Volta” E vira! Uma cantiga... Uma voz sàdia de moço, atira ao fino ar:

“Vai à fonte quem têm sêde”...
= Este dito é impostôr!
Vim à fonte, sem ter sêde,
E morro à sêde de Amor...

Uma rapariga, morena como um bago de centeio, retruca de grimpa alta:

A Fonte-de-Tavarede,
Mata a sêde a quem a tem!
= Mata a sêde a quem tem sêde,
Não dá juizo a ninguém!

Há risos e palmas! O rapaz, nem toma folego, larga com desembaraço:

Oh mandador do “Malhão”
Mande-a cá! – Peço-lho eu...

= Três pares à frente! Agarradinhos! Voltinha ao par...

E mal a pulha nos braços, jungindo-a ao peito largo, enovelando-se com ela em duas voltas quentes e lestas:

Já lhe sinto o coração
Às marradinhas ao meu!

(Raimundo Esteves – Jogos Florais da Primavera de 1941, organizados pela Emissora Nacional. Menção honrosa em palestra radiofónica)