sábado, 30 de outubro de 2010

Uma visita a Tavarede

Tavarede – terra do limonete, é uma legenda cuja origem se perde na bruma dos tempos.

Mas realmente, é ela que classifica da maneira mais exacta aquele pedacinho da Figueira, gracioso e acolhedor, um pouco além do Pinhal das Águas.

Escolhemo-lo para nossa visita, dispostos a contar os encantos e os motivos de pitoresco que lá encontrássemos.

O sol já tinha feito a sua aparição e ia aquecendo os tapetes verdejantes, que despertavam do seu letargo saudando aquela matutina fonte de calor.

Pela estrada a chiadeira dos pesados carros de bois, inibem-nos de poder escutar os acordes melodiosos da passarada, que do alto de seculares árvores, travam curioso desafio.

Ao longe, a amplidão, a serra em toda a sua magnitude. Uma vegetação cerrada, vasta e emaranhada cobre o dorso da serrania, enquanto que espalhados e como que alicerçados sobre o mundo vegetal, pontos brancos, de uma alvura divina, atestam a existência de seres humanos.

Perto de nós, nos campos vizinhos, flores de milhentos matizes e pétalas setinosas, dão-nos ideias de borrões numa tela esverdeada.

Pelo caminho passam, pressurosas mulheres com açafates à cabeça transportando os vegetais, a fruta, os animais, que lhes garantirão no mercado o pão do quotidiano.

A par delas, encontram-se dispersos pela estrada, homens simples que, ostentando orgulhosos os apetrechos da lavoura, vão sorvendo preso ao canto da boca o primeiro cigarro da manhã.

De tempos a tempos o barulho de um automóvel ou o ladrar agoirento de um cão vêm quebrar o silêncio angélico desta manhã estival.

Absortos na contemplação do mundo vegetal, quase que não damos pela entrada da povoação a dois passos, de onde nos encontramos.

O Solar dos Condes, onde páginas imorredoiras de história estão gravadas, serve de fronteira à ridente e sugestiva – Tavarede.

O ar que aqui respiramos sobressai a todos os perfumes, dominando um cheiro activo de invulgar sedução.

Visitámos a fonte, quadro que nos magnetiza, “écran” que a nossa retina contempla extasiada.

O barulhar das águas a cair na lage inferior produz um incomensurável número de notas da mais estranha musicalidade, assim como o falar vivo das moçoilas, que enchem pressurosas os seus potes para se encontrarem com o seu namorado.

A “Fonte dos Encontros” como é conhecida pela fala ingénua e pura do povo, traduz com verdade toda a magia desse ponto de reunião.

“Ó mãe eu vou à fonte” – é a frase esteriotipada, para um encontro furtivo com o conversado.

E então abafadas pelo ruído cadenciado das águas surgem promessas de amor, espiadas por olhos indiscretos, para conhecerem o par.

Tão enlevados ficámos que fixámos as quadras estampadas nas paredes humedecidas da fonte.

Tu sequioso que vens
À Fonte de Tavarede
Cuida na água e seus bens
Enquanto matas a sede.

É casta, límpida e pura
E assim deves ser também
É calada, e se murmura
Nunca diz mal de ninguém.

Continuamos a passeata.

Os nossos olhos enxergam gora na verdura veludosa do pasto, vacas muito pretas malhadas de branco, marchando pachorrentamente, enquanto que um pouco mais distante um rebanho de ovelhas fuscas e muito negras apascentam-se irrequietas, nas ervas abundantes.

O toque bronzeo, dos sinos da velha Igreja, despertou-nos do êxtase em que nos encontramos.

Passámos pelo Grupo Musical, onde em dias de festa, moças e rapazes, numa atracção encandeante, bailam sentindo o arfar dos peitos apaixonados.

Na outra colectividade onde a arte de Apolo tem soberana interpretação, tudo é sossêgo.

Mais tarde, ao mirarmos de alto a baixo a velha Sé, veio-nos à ideia o fervor religioso do povo de Tavarede, onde nos dias santificados e muito especialmente no do Sagrado Coração de Jesus, marcham respeitosamente com os olhos no céu, pedindo graças ao Criador.

Continuamos a encontrar calcurriando os paralelípedos os sers que já atrás fizemos referência.

No entanto agora predomina o ambiente feminino e muito principalmente as simpáticas e sorridentes costureirinhas que desfilam descontraídas, sem notarem que são observadas pelos olhos do repórter, disfarçado através de duas lentes esverdeadas.

Tudo trabalha, nesta terra. Todos mourejam nos campos, na cidade ou em qualquer outro mister para garantirem o sustento.

Estamos a chegar o fim da nossa visita, e agora percorrido o rincão retomamos o caminho que até lá nos conduziu passando a admirar os mesmos panoramas.

Somente o sol tem menos brilho, os seus reflexos já são menos nítidos, a fauna já não se enxerga, o mundo vegetal entrega-se ao recolhimento.

As aves dormem no cimo das árvores, o cenário vai perdendo luz e animação – é noite.

E só a brisa tosando o característico limonete, se faz ouvir em silvos agudos como que a soletrar T A V A R E D E .
Publicada em 'O Figueirense'

Silvestre Monteiro da Cunha

Faleceu em 25 de Fevereiro de 1914. Antigo capitão da marinha mercante, residia em Tavarede e exercia o cargo de piloto da barra da Figueira.

“Relativamente novo, o seu passamento foi muito sentido pelos seus muitos amigos que lhe apreciavam as excelentes qualidades de carácter. Muito trabalhador, passara toda a vida na labuta rude do mar.

Iniciando-se na costa, bem depressa se lançou em carreiras mais longínquas, percorrendo muitos portos do Brasil e fazendo ali estações demoradas.

Adquirindo alguns meios de fortuna e resolvendo fixar definitivamente residência na sua casa de Tavarede, não quer ainda deixar de empregar a sua actividade, ocupando assim o lugar de piloto da nossa barra, que desempenhou com energia, revelando sempre conhecimentos técnicos que inspiravam confiança aos que têm interesses ligados à navegação que demanda o nosso porto”.
Viúvo de Belmira Jorge Lé da Cunha, falecida em Março de 1913, deixou uma filha, Palmira Lé da Cunha, que veio a casar com Arménio dos Santos, da Quinta dos Condados.

Fez parte dos corpos directivos da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Por ocasião da morte de sua esposa, encontrámos a seguinte nota: “… apesar de esperado o triste desenlace, foi imenso o sentimento que se apossou de todas as pessoas que conheciam as belas qualidades da extinta. Sofrendo há anos da doença que dia a dia lhe minava a existência, ela compadecia-se mais ainda das dores alheias e a ocultas, sem alardes, sabia exercer actos de verdadeira caridade. É por isso que hoje muitos infelizes, a quem valeu em momentos aflitivos, pranteiam sinceramente o seu desaparecimento”.
Foto: Rua Direita ao Largo do Paço - A primeira casa à esquerda foi a residência de Silvestre Monteiro da Cunha
Caderno: Tavaredenses com História

João dos Santos Júnior

Nasceu no ano de 1877, filho de João dos Santos.

Profissionalmente foi funcionário público, estando, durante bastantes anos, colocado na Câmara Municipal de Condeixa, com a categoria de chefe da secretaria.

No campo associativo, foi dedicado colaborador de seu pai, sendo eleito como primeiro presidente da direcção do Grupo de Instrução Tavaredense, em 1900, colectividade esta que foi a antecessora da Sociedade de Instrução.

Na escola nocturna desta colectividade foi o professor da aula de ginástica “prática então pouco comum, mesmo no sistema da instrução primária”. Nos saraus organizados pelos alunos, apresentava sempre uma classe de ginástica. “… os alunos da escola nocturna, que desempenharam com muita precisão, alguns exercícios de ginástica sueca, pelo que o seu instrutor, sr. João dos Santos Júnior, foi delirantemente aplaudido”.

A colectividade homenageou-o em 1914, nomeando-o seu sócio honorário e descerrando o seu retrato, que se encontra exposto no salão nobre.

Faleceu no ano de 1965.
Caderno: Tavaredenses com História

Fernão Gomes de Melo Quadros e Sousa

Morgado, 6º. Senhor de Tavarede.

Filho de Pedro Lopes de Quadros e de D. Maria Teles. Nasceu e viveu em Tavarede.

Casou com D. Brites Maria de Albuquerque e tiveram a seguinte descendência:

Pedro Lopes de Quadros e Sousa, herdeiro do morgado; D. António Coutinho de Quadros, Cónego Regrante de Santo Agostinho e depois Prior de S. Martinho de Salréu; Frei José, frade Bernardo; Manuel de Melo Pereira de Quadros, a quem chamaram “o moço”, que foi capitão e morreu na defesa de Castelo Rodrigo; Francisco de Meneses Teles, Freire de Avis, em Palmela; D. Mariana Coutinho, D. Inês Soares e D. Leonor Coutinho, freiras no Convento de Lorvão; e António Fernandes de Quadros.

Há registo, ainda, de dois filhos bastardos: João e António de Quadros.

Quando enviuvou entrou para o Seminário do Varatojo, onde tomou o hábito de leigo e “viveu em grande edificação”.

“… quando faleceu sua esposa, sofreu tal abalo moral que, vendo seus filhos criados, saiu furtivamente, noite alta, dos seus Paços e sem comunicar a pessoa alguma a resolução que tomara, dirigiu-se a pé ao Convento do Varatojo, onde se meteu frade leigo, com o nome de Frei José da Santa Maria, e onde viveu alguns anos, sem ser reconhecido, praticando os mais humildes serviços na Cerca e na Igreja do Convento, vindo a falecer após uma longa vida de sacrifício e santidade.

Um aspecto do Convento do Varatojo (Internet)

Assim desprezou as pompas do mundo, num raro gesto de renúncia, este nobre Senhor de Tavarede, fidalgo da Casa de El-Rei, Cavaleiro de Cristo e Comendador Hereditário de São Pedro das Alhadas, da mesma Ordem, brilhante homem da Corte, soldado ilustre das guerras do Ultramar e homem de muito e discreto saber”.

Caderno: Tavaredenses com História

Abílio Alves Fernandes Águas

Natural de Tavarede, onde nasceu a 17 de Outubro de 1841, faleceu na Figueira da Foz, no dia 20 de Janeiro de 1892. Contava, portanto, 82 anos de idade e era filho de Joaquim Alves Fernandes Águas e de Ana Ribeiro da Silva. Casou com Rosa Emília da Conceição.

Abastado proprietário e conceituado negociante, desenvolveu importante actividade comercial como exportador, principalmente de vinhos. Como armador, foi proprietário, só ou em sociedade, dos brigues Figueirense e Baía e da escuna Feiticeira, durante muitos anos matriculados na Capitania da Figueira.

Figurava nos primeiros lugares da lista dos 40 maiores contribuintes deste concelho.

Quinta da Borlateira (Ao Senhor da Arieira)

Militou, activamente, no Partido Regenerador que, pela sua morte, “lamentou a perda irreparável de um dos seus mais valiosos soldados”.

Foi venerável da Ordem Terceira de S. Francisco e mesário da Santa Casa da Misericórdia.

Em sua memória, a família, no dia 31 de Janeiro de 1892, fez a distribuição de esmolas aos pobres da Freguesia de Tavarede, “na sua Quinta da Borlateira”, aos Quatro Caminhos do Senhor da Arieira.

Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 62

Terminadas as festas comemorativas das ‘Bodas de Diamante’, que tanto êxito alcançaram, continuou a actividade teatral com a apresentação da peça ‘Ontem, Hoje e Amanhã’. Em Março, no jornal ‘A Voz da Figueira’, foi publicada a seguinte nota:

“Com o pé no estribo para uma curta viagem que não sei se será o prólogo de outra maior – a maior de todas as viagens – transmito ao teclado máquina de escrever o breve apontamento que se segue acerca do espectáculo a que há poucas horas assisti no bem reputado teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense, com a revista “Ontem, Hoje e Amanhã” desse excepcional homem de teatro e apóstolo da cultura popular, que é José da Silva Ribeiro. Dizer que nos surpreendeu a boa confecção do espectáculo, não seria exprimir a verdade. Mas que nos surpreende como um homem com a provecta idade de 84 anos foi capaz, não dizemos de ensaiar mas de escrever o texto, boa parte do qual em verso – género difícil em teatro – verso bem construído, vigoroso, com rimas naturais, sem artifício de martelo, que nos lembram os grandes clássico das nossas letras, isso, sim, isso surpreendeu-nos e levou-nos, no final, a exclamar: abençoados 84 anos!

Doseando a fantasia com a história de forma a que o espectador aceite a mistura sem enfado – eis outra vitória do autor. A música, parte da qual transportada de números antigos que foram êxito e consagraram compositores como António Simões e Anselmo Cardoso – valoriza sem dúvida o espectáculo. João Cascão Filho dá também com a sua intervenção musical, uma nota de ternura muito grata aos que conheceram seu saudoso pai em incontestáveis êxitos que o impuseram como amador teatral de excepcional craveira.

Dessa fornada notável de amadores, dá gosto ver actuar ainda José Luiz do Nascimento, Fernando Reis, João de Oliveira Júnior e João e José Medina. São os grandes trunfos de ontem. Os de hoje seguem as suas pisadas. E os de amanhã não desmerecerão certamente os créditos dos antecessores, se o espírito de José Ribeiro continuar a presidir à caminhada teatral da SIT. Tavarede foi sempre um alfobre de grandes amadores teatrais!’.



Embora já o tenhamos referido, não queremos deixar de publicar a pequena notícia que ‘Barca Nova’ publicou em Maio de 1979, a propósito do regresso ao palco de Violinda Medina. Deu-lhe o título: ‘Uma legenda do teatro de Tavarede regressa ao palco’: “Já lá vai, talvez, uma trintena de anos, era eu ainda uma criança de calção e bibe. Em Tavarede, onde fora ao teatro pela mão de meu pai, recordo que pouco faltou para a casa vir abaixo, tamanha foi a trovoada de aplausos que culminou a representação da peça então em cena. Uma amadora era especialmente distinguida: Violinda Medina e Silva.

Passaram os anos, tudo naturalmente envelheceu. Se D. Violinda levar hoje os dias agarrada a recordações, não me admiro. Eu próprio, bem mais novo, me tenho visto já a debruçar nos terraços do tempo, buscando na memória pessoas e coisas que a emoção gravou. Violinda Medina e Silva é, por exemplo, uma delas. Recordo o seu porte majestoso no papel de Madalena de Vilhena; a sua naturalidade exemplar em Os Velhos, de João da Câmara; o seu admirável desempenho em As Árvores Morrem de Pé, de Alejandro Casona. Recordo tudo isso. Mas poderia lembrar muitas outras representações em que interveio o seu talento invulgar.

Pois Violinda Medina e Silva – essa extraordinária mulher da cena portuguesa – vai regressar ao palco. Em Tavarede, pois onde havia de ser? É ali que ela tem levado toda uma vida de devoção pelo teatro; foi ali que ela conheceu os maiores êxitos da sua carreira; é ainda ali que, religiosamente arrecadadas, velhinhas tábuas de um antigo palco aguardam, sem pressas, o dia de serem a mortalha da actriz.

NOTA: Talvez que o leitor se surpreenda com o último parágrafo, ou melhor, não compreenda bem… Se estiver nesse caso é porque não sabe que Violinda Medina e Silva deseja ter por caixão… as tábuas do antigo palco do Teatro de Tavarede. As tábuas estão arrecadadas, e a sua vontade cumprir-se-á. Oxalá que daqui por muitos, muitos anos…”

Fotos - 1 e 2 - Ontem, Hoje e Amanhã; 3 - Violinda Medina e Silva

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

S. MARTINHO DE DUME

Bispo de Dume e arcebispo de Braga. Era natural de Panónia, como S. Martinho de Tours, e dirigia-se da Palestina em peregrinação ao túmulo do seu homónimo quando encontrou os delegados do rei suevo Charrarico, que invocara o santo bispo de Tours numa doença de seu filho Teodomiro e agora enviava os seus emissários à Gália em busca das relíquias do santo. S. Martinho encaminou-se para a Península com as relíquias e desembarcou num dos portos da costa ocidental, talvez Portucale.

Iniciou S. Martinho a sua evangelização e fundou em Dume um mosteiro. Em 556 Dume era elevada à dignidade episcopal e S. Martinho escolhido para seu primeiro bispo.

Em 569 vagou a sé de Braga por morte do arcebispo Lucrécio e S. Martinho foi elevado a prelado, da metrópole bracarense, sem todavia deixar de ser bispo de Dume. E, 569 Teodomiro criou a nova metrópole de Lugo. Os prelados das duas dioceses reuniram em Braga o II Concílio (572) e como complemento da obra deste concílio, S. Martinho encarregou-se de ordenar uma Colecção dos Cânones dos Concílios Orientais. Publicou ainda outros muitos, como Fórmula honestae e De correctione rusticorum. Atribuem-se-lhe também várias composições poéticas.

S. Martinho de Dume faleceu em 2o.111.579 e foi sepultado na catedral de Dume. Em 1606 foram as suas relíquias depositadas na Sé de Braga, onde se celebra e sua festa a 20 de Março
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OBRAS: Podem dividir-se em ascético-morais, vanónico-litúrgicas e poéticas. A) A Formula vitae honestae, dedicada ao rei Teodomiro, a cujo pedido foi escrita, é um excelente tratado de moral natural sobre as quatro virtudes cardeais, destinado à formação do rei e seus cortesãos. Esta espécie de “Espelho de príncipes” divulgou-se muito na Idade Média, mas atribuída, em geral, a Séneca, por ser muito influenciada pelo filósofo cordovês, denominando-se frequentemente De ( ou Liber de) quattuor virtutibus. De ira, obra de filos, moral, escrita a pedido de Vitimiro, bispo de Orense, é uma adaptação do livro homónimo de Séneca. Pro repellenda iactantia, De superbia e Exhortatio humilitatis, agrupados às vezes com o nome de Opus tripartitum, são três pequenos tratdos de inspiração evangélica sobre a moral cristã, a servir de remate à doutrina dos dois primeiros opúsculos. Sententiae patrum Aegyptiorum, colecção de apotegmas traduzida do grego para leitura espiritual e edificação dos monges. De correctione rusticorum, exortação pastoral, escrita a pedido de Polémio, bispo de Astorga, destinava-se a extirpar as práticas pagãs e superstições ainda vigentes sobretudo entre gente cristã dos campos, procurando levar os fiéis a cumprir as promessas feitas no baptismo. Um dos abusos condenados é a denominação pagã dos dias da semana. Esta obra é muito importante para conhecer os usos e costumes então vigentes entre nós. B) Além da epístola De trina mersione, enviada ao bispo Bonifácio, talvez de Itália, a defender o baptismo por tríplice imersão, temos no 2º. grupo os Capitula Martini ou Canones ex orientalium patrum synodis, colecção sistemática de 84 cânones em que Martinho de Dume adaptou a legislação de diversos concílios orientais e do I de Toledo às necessidades e circunstâncias peculiares da Igreja sueva, acrescentado-lhe algumas novas disposições. Por ter participado nos dois primeiros Concílios Bracarenses, atribui-se-lhe a redacção das respectivas actas. C) Restam dele três poesias, com um total de 38 exâmetros de sabor clássico: In basilica, na Igreja de S. Martinho de Tours, em Dume; In refectorio, gravada no refeitório do mosteiro, e o seu Epitaphium. Perdeu-se um Volumen Epistolarum de formação religiosa, que Santo Izidoro chegou a ler e também a correspondência trocada com Venâncio Fortunato, com a rainha Santa Radegundes e a superiora e religiosas do mosteiro de Santa Cruz de Poitiers, que poderia estar incluído no citado Volumen. Santo Isidoro atribui a Martinho de Dume outras obras, hoje desconhecidas: regulam fidei et sanctae religionis constituit (...) copiosaque praecepta piae institutionis composuit. A. Lambert atribui a Martinho de Dume o ofício da festa da ordenação de S. Martinho de Tours. Martinho de Dume escreveu um tratado de cômputo pascal, que se desconhece, não podendo aceitar-se como dele o De Pascha, que alguns lhe atribuem, porque este tratado defende doutrina priscilianista enèrgicamente combatida pelo nosso santo. São de autenticidade muito duvidosa os tratados senequistas De moribus e De paupertate. Martinho de Dume teve também influência na versão latina dos Aposphthegmata Patrum, feita a seu pedido por Pascásio de Dume, que, no prefácio, lhe pede para polir esta versão do grego: ut tuo polire sermone digneris exposco.