sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 65


Retomando uma tradição de cerca de cinquenta anos, a Sociedade de Instrução Tavaredense levou o seu teatro, uma vez mais, a Tomar. Foi no dia 5 de Junho de 1980 e a peça ‘Comédia da Vida e da Morte’ agradou em absoluto. ‘Houve um grande interregno, e há já muitos anos que a SIT se não deslocava a Tomar. No passado dia 5 os jovens amadores – jovens de todas as idades, onde permanece firme mestre José Ribeiro – foram recebidos com as manifestações de carinho de sempre’.

Antes de passarmos à peça seguinte, mais uma escrita pelo Mestre José Ribeiro, lembremos um pouco de uma entrevista que lhe foi feita, sobre o tema: “O elenco feminino da SIT através dos tempos”. ‘Durante 30 anos fizemos parte do grupo dramático da SIT (sempre sob a orientação de mestre José da Silva Ribeiro) e verificámos ao longo desses anos, que no naipe feminino (aliás também no masculino) havia sempre grandes revelações.

Quando se “perdia” uma figura de primeiro plano e se pensava que ficaria uma “brecha” incurável, logo aparecia outra senhora (ou menina) que “tapava” essa ferida por forma a que a unidade do grupo se mantivesse em bom nível. Para satisfazer a nossa curiosidade e no intuito de dar a conhecer ao público a opinião de José Ribeiro acerca deste facto curioso, resolvemos pedir-lhe para nos responder às seguintes perguntas, o que amavelmente fez este homem de teatro que apesar dos seus 85 anos continua a trabalhar incansavelmente:

- Tem o Grupo Cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense, ao longo da sua carreira artística, contado com “grandes” amadoras.
Acontece, nesta altura, Ana Paula Fadigas aparecer em primeiro plano. Pode José Ribeiro falar-nos desta revelação, e dizer-nos se realmente se trata de uma amadora de grandes recursos?
“Sem dúvida nenhuma a Ana Paula foi uma revelação. Dei por ela numa rábula de 4 palavras num quadrozito do “Cântico da Aldeia” que cozinhei para uma festa de aniversário da SIT. Deu belíssimas provas na peça de Shakespeare “Tudo está bem quando acaba bem”, depois da “Rosalinda”, também adaptação de outra peça de Shakespeare e, notavelmente, na “Comédia da Morte e da Vida”. Oxalá ela se dedique e continue a estudar para corrigir defeitos que ela conhece”.

Ana Paula Fadigas
‘Comédia da Morte e da Vida’

- Somos do tempo de Violinda Medina, Emília Monteiro de Lemos, Maria Teresa Ribeiro (sempre em papéis de velha), Guilhermina da Silva Ribeiro, Maria Isabel Medina, Maria do Saltadouro (a quem dedicou um dos seus livros), e tantas outras boas amadoras. Quer falar-nos sobre elas?
“A nossa Maria do Saltadouro, de quem guardo muita saudade, não teve tempo para se aperfeiçoar. Tinha intuição e era apaixonada pelo teatro. Pouco menos que analfabeta, mas que inteligência! Guardo as cartas que ela me escreveu para a cadeia da PIDE no Porto. Na dedicatória a que tu aludes eu escrevi: Maria do Saltadouro, “a inteligente e humilde rapariga que amanhava as suas terras, fazia o seu vinho e costurava as suas roupas”. Não eram palavras de retórica, era literalmente a verdade”.

- Antes destas senhoras, tivemos outras de boa craveira artística. Qual, de todas com quem trabalhou, foi a mais brilhante? Considera que alguma delas poderia ter sido uma boa actriz como profissional?
“Ah! Sim. Posso citar-te a Eugénia Tondela. A Eugénia Tondela, filha de Manuel Tondela, que foi professor da escola nocturna logo no começo da SIT, casou com o pintor António Piedade, de quem ficou viúva. Também ela já morreu, que começou ainda no tempo do João dos Santos e do velho José Maria Cordeiro. Excelente e regularmente culta amadora. Durante anos representei com ela – éramos ainda novos, e já lá vão quase 70 anos! Depois da Eugénia tivemos a Helena Medina, que foi primeira figura durante anos. Era uma figurinha agradável e tinha uma linda voz que a fazia brilhar na opereta.Não posso dizer, em consciência, qual foi a “mais brilhante”, como tu pedes. Cada uma teve o seu tempo. Mas posso citar-te uma de qualidades excepcionais: a Violinda Medina e Silva. Mas a Violinda é um caso excepcional, um caso à-parte, como só raramente aparece. Claro que sim. Algumas das nossas amadoras podiam vir a ser boas actrizes profissionais. Para isso teriam de alargar e aperfeiçoar a sua cultura geral e especial. Sem estas “ferramentas” não se é bom trabalhador no teatro”.


Helena de Figueiredo Medina
(bisavó de Ana Paula Fadigas)

Aqui fica o depoimento de um dos maiores ensaiadores do teatro amador do nosso País, que, através da sua competência e invulgares qualidades de trabalho, levou o Grupo de Teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense a ser considerado como um dos melhores agrupamentos de Portugal.

É chegada a ocasião de entrarmos no ano de 1981. A pedido da Direcção, e tendo em vista os êxitos que alcançavam as peças musicadas, Mestre José Ribeiro escreveu e ensaiou nova fantasia, na linha das anteriores. Chamou-lhe ‘Ecos da Terra do Limonete’.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tavarede - história

Tavarede é terra de larga senhoria. Seu nome é possível que descenda de Tavared - muito remota povoação da Arábia.

O senhor Rei D. Sancho e sua espôsa D. Dulce, em sua carta de doação do Couto de Tavarede à Igreja de Santa Maria de Coimbra, faz rezar: - povoação situada na borda do mar...

É velha a freguesia de S. Martinho, com 2.115 habitantes, sendo 1,039 varões e 1.76 fêmeas.

D. Manuel I deu-lhe foral em 1517.

Tavarede teve alfândega privativa.

Era por um vasto esteiro que passava ao lado do matadouro velho que se fazia a navegação.
A Casa de Tavarede usufruia privilégios vexatórios e violentos. Por exemplo: Nenhum morador dos coutos de Tavarede ou Figueira podia cozer pão ou assar carnes senão nos fornos da poia da mesma Casa, mediante retribuição respectiva.

Recebia tenças, galinhas, certas doses de colheitas e outros impostos.

E êste tributo da “colheita ou jantar” ao Deão da Sé de Coimbra!

Quando o presidente do Cabido adregava a visitar Tavarede, um dia por ano, “recebia dos moradores, para o seu jantar, 180 reais, de seis ceitis o real, e das heranças da Chã e de Cabanas, 2 carneiros, 2 cabritos, 6 almudes de vinho, 10 galinhas, um quarteiro (1/4 de moio) de cevada pela medida de Coimbra, cem pães, cinco soldos em dinheiro, meio alqueire de manteiga fresca, e lenha e vinagre que abonde para se poder cozinhar as dictas cousas na cozinha do Deão!”

O Dr. Santos Rocha, que com ser um grande homem de ciência e fôro, não deixava por vezes de comentar com um fio de cintilante espírito crítico as suas notas, termina assim:
“- Por onde poderia provar-se que o Deão nessas épocas também comia cevada!”.

Só para se descreverem as façanhas e crimes do famigerado 8º. Senhor do Morgadio de Tavarede - Fernando Gomes de Quadros - bisneto do instituidor do morgado - António Fernandes de Quadros, seria necessário largo espaço.

O brasão de armas dos Condes de Tavarede é: Escudo esquartelado: no primeiro quartel as armas dos Quadros: Escudo enxequetado de prata e azul, de quatro peças em faixa; no segundo as dos Barretos: Escudo em campo de prata semeado de arminhos negros, e assim os contrários. Timbre, meio leão azul tendo nas mãos um xadrez.

O solar dos Condes de Tavarede, que era um formoso palacete, reedificado em grande parte no século XIX, já pouco possue da primeira arquitectura, devido ao desinterêsse do actual proprietário.

Tavarede é das mais simpáticas e atraentes aldeias convizinhas da Figueira.

É a terra do limonete - como o vulgo chama à lúcia-lima.

Tôda ela é um mimo de hortejos frescos, de fôfas terras de fácil e airoso amanho.

Cada casa é uma roseira. Cada rapariga uma flor.

Da serra descem fios de água, que vêm sussurando pelo Saltadoiro, fazem mover azenhas cheias de idílicas frescuras - onde reverdecem avencas de esmeralda e alastram musgos doces em que apetece cair e rolar.

Não surgem no mercado da Figueira - nem haverá por essa bola do mundo - hortaliças e novidades mais apaladas e gostosas.

Que aquilo é campo bendito - que Deus fadou para regalo e gôzo de eleitos...

Tavarede é hoje um burgo esperto. É gentil. E marca, devido à Sociedade de Instrução Tavaredense, um acentuado destaque entre as suas congéneres do ramo cultural.

(Aspectos da Figueira da Foz - Turismo 1945)
Nota - 65 anos é muito para tamanha diferença?

A matança do porco

Não há muitos anos ainda, as famílias dos arredores da cidade criavam o seu porco, alimentado com as sobras das refeições e para o qual se cozinhava propositadamente a “lavagem”, com água, couves e farinha ou sêmea, o que permitia que o toucinho entremeado ficasse mais gostoso.

A matança, geralmente em Dezembro e escolhida a fase da lua conveniente, segundo a boa tradição popular, era pretexto para a reunião de toda a família. Faziam-se os bolos de sangue, as morcelas, as papas de moado, e conservavam-se na salgadeira os ossos e o toucinho.
Preparavam-se os negritos, os chouriços e os presuntos que haviam de chegar para todo o ano, sem falar na banha, nos rojões, no sal de unto e nos torresmos. Os lombos assados no forno eram conservados em banha e comiam-se parcimoniosamente nos dias de festa. Até a cabeça era aproveitada, juntamente com as queixadas, a língua, as orelhas e os miolos, de que se preparava um prato requintado com ovos, pedaços de carne e miolo de pão.

(Figueira do Passado ao Presente - Gastronomia e Culinária)

Recordo-me, nos meus tempos de criança, e, até, já de rapaz, os dias da matança do porco, quer em Tavarede, em casa dos meus avós paternos, quer em Reveles, em casa do meu tio Joaquim ou da minha tia Idalina.

Em Tavarede acabaram mais cedo. Minha avó morreu em 1946 e nunca mais houve aquela casa de trabalho, mas de fartura, que era apanágio das casas da aldeia dos que amanhavam as terras em maior ou menor dimensão.

Em Reveles, por muitos anos eu ia lá para assistir à matança do porco. Era, para mim, uma festa. Todos gostavam muito de lá me ter e faziam tudo para que eu me sentisse bem. E conseguiam-no, facilmente. Não sei em qual das casas eu me sentia melhor, com o tio Joaquim e a tia Palmira, se com a tia Idalina e o tio Cristino.

Acompanhava, passo a passo, todas as tarefas. Desde irem os homens buscar o animal ao curral, prendê-lo e sangrá-lo até ao amanhar. Depois ia com as mulheres até ao rio, onde lavavam as tripas.

O serrabulho e as febras eram uma farturinha. À noite faziam os “tortalhos”, que, mais tarde, eram comidos quentes, normalmente com o café.

No dia seguinte, lá estava eu a assistir ao desmanchar o animal, separando as carnes para a salgadeira, as banhas para derreter e a prepararem os enchidos, que iam para o fumeiro.E que saborosos eram!...

Sociedade de Instrução Tavaredense - 64


Em Março de 1980, o Lions Clube da Figueira da Foz prestou homenagem ao grupo de Tavarede. Vejamos o que, sobre o assunto, disse um jornal figueirense. ‘... a finalidade máxima desta reunião estava um tanto envolta em segredo, dado que os homenageados em questão se têm escusado, muito delicadamente, a este género de consagração pública, para isso evocando, como diria José Ribeiro no seu agradecimento, a sua falta de merecimento (?!), argumento que merece a nossa total discordância. Violinda Medina, retida inesperadamente no leito por súbita indisposição, seria representada por seu sobrinho sr. José Cordeiro, enquanto Mestre José Ribeiro, bem longe sequer de sonhar com o que seria a sessão, acedera gentilmente, como é seu timbre, a ir, uma vez mais, falar de Teatro ao Lions.

Como depois haveria de ser curiosamente referido pelo dr. Albarino Maia, na crítica da sessão, o teatro tavaredense fazia de tal maneira escola que os elementos do Lions que haviam convidado José Ribeiro o tinham feito com tal “arte”, que o mestre acreditou na representação! Aqui, mais do que nunca, os meios justificavam os fins. A apresentação dos convidados de honra esteve a cargo do engº. Jorge de Pinho que, para além das elogiosas, mas sempre justas referências feitas sobre a acção desenvolvida em prol do Teatro por tão ilustres figuras se encarregou de dar a conhecer a José da Silva Ribeiro dos verdadeiros intuitos do Clube, intenções que para a grande maioria dos presentes só naquele momento se aclararam: homenagear o Teatro nas pessoas de Violinda Medina e José Ribeiro.

Estrondosa salva de palmas abafou as últimas palavras do apresentador, enquanto os olhares interrogativos procuraram descobrir com segundos de antecedência a reacção do homenageado presente. E nós que conhecemos José Ribeiro há muitos anos, não conseguimos evitar uma tremenda e rápida sensação de felicidade perante a emoção que vimos estampada no rosto de esse Homem de Teatro, o qual, sentindo quanto de verdadeiro era a estima e calor humano que o rodeavam, acabaria por aceitar, visivelmente reconhecido, a homenagem que o Lions lhe prestava.

Pena foi que Violinda Medina não pudesse compartilhar daquele momento inolvidável, pois estamos cientes de que ele se integraria nas mais belas recordações da sua vida. Mas seriam para ela e por ela as primeiras e principais palavras de José Ribeiro no seu agradecimento. É que ele não é apenas Mestre de Teatro, também o é na oratória, como habilmente o demonstrou ao desviar para Violinda Medina as honras desta dupla homenagem.

Pelo presidente do Clube foram entregues placas comemorativas do acontecimento, nas quais se podia ler: “A José da Silva Ribeiro, Mestre de Teatro”, e “A Violinda Medina e Silva, uma vida dedicada ao Teatro” e em ambas “homenagem de Lions Clube da Figueira da Foz”. Ao sr. José Cordeiro foi entregue, além da placa que referimos, um vistoso ramo de flores destinado a sua tia, cuja ausência, repetimos, por todos foi lamentada.

E Mestre José Ribeiro falou depois sobre teatro. Não iremos aqui descrever aquilo que tantas vezes o nosso jornal já fez, em função de outros actos, nos quais o mesmo orador nos ensinou a compreender a arte de Talma. O nosso relato ficaria sempre aquém, sempre remotamente longe de todo o fulgor, brilhantismo, qualidade, vivacidade de expressão, enfim, de todo aquele somatório de predicados que fazem de José da Silva Ribeiro um Mestre de Teatro”.

Ainda vamos recordar um pouco do que foi escrito sobre a representação da peça ‘Comédia da Vida e da Morte’. “… Este texto dramático de Henrique Galvão, escrito em 1950, é uma comédia de costumes que foi sem dúvida o melhor apresentado durante estas IV Jornadas, que se caracterizaram precisamente pela sua baixa qualidade. Henrique Galvão nasceu no Barreiro em 1895 e escreveu as seguintes obras dramáticas: Revolução, 1931; Como se faz um Homem, 1935; O Velo de Oiro, 1936; Colonos, acto único, 1939; Farsa de Amor, em colaboração com Carlos Selvagem, 1951. Henrique Galvão, para além dum autor de dramas africanistas e de comédias de costumes, foi sobretudo um escritor de coisas coloniais e um fogoso homem político, que raptou um navio para chamar a atenção da opinião pública internacional para o regime de opressão e de falta de liberdades fundamentais que então existia em Portugal.

A encenação de Mestre José Ribeiro está dentro da linha e do nível a que nos habituou, apresentando uma leitura correcta e um bom equilíbrio entre todos os seus elementos: o estilo, o ritmo e o tempo, a distribuição, a implantação da cena e a marcação. A representação é homogénea, havendo uma boa construção de todas as personagens, apesar de algumas falhas nas personagens do Conde do Laranjeiro, do Pitó e de Valadas. Pensamos que actores como João Medina e João de Oliveira além dessa grande senhora que se chama Violinda Medina e Silva, têm garantida a sua sucessão com Ana Paula Fadigas e Ana Maria Bernardes. Fazemos votos para que o mesmo possa suceder com Mestre José Ribeiro para glória da Sociedade de Instrução Tavaredense e do teatro de amadores da região”.

Fotografias - 1 - Emblema do Lions Club; 2 - Comédia da Morte e da Vida

Sociedade de Instrução Tavaredense - 63


Para a récita do aniversário de 1980, o grupo cénico voltou a ensaiar uma peça Shakespeare, ‘Rosalinda’, adaptação de ‘As you like it’. No dia 26 de Janeiro foi a sua apresentação. “Um grande e belo espectáculo o que está em cena no Teatro de Tavarede. E o brilhante êxito alcançado – com lotações esgotadas – plenamente se justifica pela beleza, ternura e graça da peça, construída no riquíssimo e vigoroso estilo do imortal dramaturgo, recheada de situações de grande efeito teatral.

A montagem da peça honra a tradição tavaredense: interpretação excelente de um conjunto de 30 figuras, primorosamente vestido com rico e belo guarda-roupa histórico do grande artista Anahory e cenários de grande beleza nas 12 cenas em que se desenvolve a acção – fins do século XVI”. Para a participação do nosso grupo nas Jornadas de Teatro Amador, Mestre José Ribeiro escolheu e ensaiou um autor português ainda não representado em Tavarede: Henrique Galvão. Foi a peça ‘Comédia da Vida e da Morte’ e a representação ocorreu no Casino da Figueira. ‘… constituíu vigorosa sessão de teatro, levada a um nível e homogeneidade dificeis de atingir. Novos e velhos brilharam a grande altura…’, escreveu o crítico de ‘A Voz da Figueira’.


Entretanto, aquando do aniversário, havia sido convidado para orador oficial o nosso amigo Pastor Evangélico dr. João Severino Neto. Do seu discurso retiramos: ‘… Quando, como ontem, assisto a apresentações teatrais levadas a efeito pelas colectividades do concelho e penso no que a nível das escolas poderia ser feito na formação cultural da nossa juventude, lamento que se percam tantas oportunidades. Infelizmente toda a nossa vida, fruto da educação que recebemos, está compartimentada. É com dificuldade que nos abrimos aos outros. E essa triste situação começa nos serviços oficiais para terminar muitas vezes na relação entre as pessoas. Num país com tantas dificuldades, em que os recursos disponíveis são mínimos, em que mais do que nunca há necessidade de colaboração a todos os níveis, em que uns devem pôr ao serviço dos outros o que possuem, evitando quantas vezes gastos duplicáveis, mantemos uma mentalidade de ghetto e superioridade balofa.

Porque não levar as colectividades à escola e a escola às colectividades? Ao pensar no trabalho digno levado a efeito pela Sociedade de Instrução Tavaredense, não receio em afirmar se alguém tem a ganhar é precisamente a escola, seja ela primária ou secundária. Olhemos para as colectividades com o respeito e dignidade que merecem. Demos-lhes o valor e dignidade que merecem. Demos-lhes o valor a que têm direito e aproveitemos a cultura que nasce do povo, que na verdade é a verdadeira cultura… … Não quero terminar estas minhas palavras sem humildemente me dirigir ao meu caro amigo sr. José Ribeiro. Disse ele ontem à noite no momento de apresentação da peça que nos foi dado assistir, que era talvez a última vez que tomava a palavra numa sessão de estreia. A reacção do público foi clara, não deixando quaisquer dúvidas. Todos nós reconhecemos o trabalho extraordinário que ao longo de tantos anos realizou nesta bela terra de Tavarede. Não, a sua presença é imprescindível. A sua obra de formação e educação de gerações deve continuar. São homens como o caro amigo que a sociedade portuguesa precisa. Esperamos que daqui a um ano o possamos continuar a ver dirigindo os trabalhos de encenação e direcção do grupo teatral da Sociedade de Instrução Tavaredense. Quase que em nome de todos os presentes posso dizer: - Muito Obrigado”.

Fotografias - 1 - Rosalinda; 2 - Comédia da Morte e da Vida

sábado, 30 de outubro de 2010

Uma visita a Tavarede

Tavarede – terra do limonete, é uma legenda cuja origem se perde na bruma dos tempos.

Mas realmente, é ela que classifica da maneira mais exacta aquele pedacinho da Figueira, gracioso e acolhedor, um pouco além do Pinhal das Águas.

Escolhemo-lo para nossa visita, dispostos a contar os encantos e os motivos de pitoresco que lá encontrássemos.

O sol já tinha feito a sua aparição e ia aquecendo os tapetes verdejantes, que despertavam do seu letargo saudando aquela matutina fonte de calor.

Pela estrada a chiadeira dos pesados carros de bois, inibem-nos de poder escutar os acordes melodiosos da passarada, que do alto de seculares árvores, travam curioso desafio.

Ao longe, a amplidão, a serra em toda a sua magnitude. Uma vegetação cerrada, vasta e emaranhada cobre o dorso da serrania, enquanto que espalhados e como que alicerçados sobre o mundo vegetal, pontos brancos, de uma alvura divina, atestam a existência de seres humanos.

Perto de nós, nos campos vizinhos, flores de milhentos matizes e pétalas setinosas, dão-nos ideias de borrões numa tela esverdeada.

Pelo caminho passam, pressurosas mulheres com açafates à cabeça transportando os vegetais, a fruta, os animais, que lhes garantirão no mercado o pão do quotidiano.

A par delas, encontram-se dispersos pela estrada, homens simples que, ostentando orgulhosos os apetrechos da lavoura, vão sorvendo preso ao canto da boca o primeiro cigarro da manhã.

De tempos a tempos o barulho de um automóvel ou o ladrar agoirento de um cão vêm quebrar o silêncio angélico desta manhã estival.

Absortos na contemplação do mundo vegetal, quase que não damos pela entrada da povoação a dois passos, de onde nos encontramos.

O Solar dos Condes, onde páginas imorredoiras de história estão gravadas, serve de fronteira à ridente e sugestiva – Tavarede.

O ar que aqui respiramos sobressai a todos os perfumes, dominando um cheiro activo de invulgar sedução.

Visitámos a fonte, quadro que nos magnetiza, “écran” que a nossa retina contempla extasiada.

O barulhar das águas a cair na lage inferior produz um incomensurável número de notas da mais estranha musicalidade, assim como o falar vivo das moçoilas, que enchem pressurosas os seus potes para se encontrarem com o seu namorado.

A “Fonte dos Encontros” como é conhecida pela fala ingénua e pura do povo, traduz com verdade toda a magia desse ponto de reunião.

“Ó mãe eu vou à fonte” – é a frase esteriotipada, para um encontro furtivo com o conversado.

E então abafadas pelo ruído cadenciado das águas surgem promessas de amor, espiadas por olhos indiscretos, para conhecerem o par.

Tão enlevados ficámos que fixámos as quadras estampadas nas paredes humedecidas da fonte.

Tu sequioso que vens
À Fonte de Tavarede
Cuida na água e seus bens
Enquanto matas a sede.

É casta, límpida e pura
E assim deves ser também
É calada, e se murmura
Nunca diz mal de ninguém.

Continuamos a passeata.

Os nossos olhos enxergam gora na verdura veludosa do pasto, vacas muito pretas malhadas de branco, marchando pachorrentamente, enquanto que um pouco mais distante um rebanho de ovelhas fuscas e muito negras apascentam-se irrequietas, nas ervas abundantes.

O toque bronzeo, dos sinos da velha Igreja, despertou-nos do êxtase em que nos encontramos.

Passámos pelo Grupo Musical, onde em dias de festa, moças e rapazes, numa atracção encandeante, bailam sentindo o arfar dos peitos apaixonados.

Na outra colectividade onde a arte de Apolo tem soberana interpretação, tudo é sossêgo.

Mais tarde, ao mirarmos de alto a baixo a velha Sé, veio-nos à ideia o fervor religioso do povo de Tavarede, onde nos dias santificados e muito especialmente no do Sagrado Coração de Jesus, marcham respeitosamente com os olhos no céu, pedindo graças ao Criador.

Continuamos a encontrar calcurriando os paralelípedos os sers que já atrás fizemos referência.

No entanto agora predomina o ambiente feminino e muito principalmente as simpáticas e sorridentes costureirinhas que desfilam descontraídas, sem notarem que são observadas pelos olhos do repórter, disfarçado através de duas lentes esverdeadas.

Tudo trabalha, nesta terra. Todos mourejam nos campos, na cidade ou em qualquer outro mister para garantirem o sustento.

Estamos a chegar o fim da nossa visita, e agora percorrido o rincão retomamos o caminho que até lá nos conduziu passando a admirar os mesmos panoramas.

Somente o sol tem menos brilho, os seus reflexos já são menos nítidos, a fauna já não se enxerga, o mundo vegetal entrega-se ao recolhimento.

As aves dormem no cimo das árvores, o cenário vai perdendo luz e animação – é noite.

E só a brisa tosando o característico limonete, se faz ouvir em silvos agudos como que a soletrar T A V A R E D E .
Publicada em 'O Figueirense'

Silvestre Monteiro da Cunha

Faleceu em 25 de Fevereiro de 1914. Antigo capitão da marinha mercante, residia em Tavarede e exercia o cargo de piloto da barra da Figueira.

“Relativamente novo, o seu passamento foi muito sentido pelos seus muitos amigos que lhe apreciavam as excelentes qualidades de carácter. Muito trabalhador, passara toda a vida na labuta rude do mar.

Iniciando-se na costa, bem depressa se lançou em carreiras mais longínquas, percorrendo muitos portos do Brasil e fazendo ali estações demoradas.

Adquirindo alguns meios de fortuna e resolvendo fixar definitivamente residência na sua casa de Tavarede, não quer ainda deixar de empregar a sua actividade, ocupando assim o lugar de piloto da nossa barra, que desempenhou com energia, revelando sempre conhecimentos técnicos que inspiravam confiança aos que têm interesses ligados à navegação que demanda o nosso porto”.
Viúvo de Belmira Jorge Lé da Cunha, falecida em Março de 1913, deixou uma filha, Palmira Lé da Cunha, que veio a casar com Arménio dos Santos, da Quinta dos Condados.

Fez parte dos corpos directivos da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Por ocasião da morte de sua esposa, encontrámos a seguinte nota: “… apesar de esperado o triste desenlace, foi imenso o sentimento que se apossou de todas as pessoas que conheciam as belas qualidades da extinta. Sofrendo há anos da doença que dia a dia lhe minava a existência, ela compadecia-se mais ainda das dores alheias e a ocultas, sem alardes, sabia exercer actos de verdadeira caridade. É por isso que hoje muitos infelizes, a quem valeu em momentos aflitivos, pranteiam sinceramente o seu desaparecimento”.
Foto: Rua Direita ao Largo do Paço - A primeira casa à esquerda foi a residência de Silvestre Monteiro da Cunha
Caderno: Tavaredenses com História