sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 72


Mas o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense continuou na sua actividade, repondo, sob a direcção e encenação de João de Oliveira Júnior, alguns dos maiores êxitos já ali representados. ‘Alguém terá de morrer’, ‘Horizonte’, ‘Uma Noite de Teatro Português’, espectáculo composto por um trecho de Gil Vicente, ‘O Tio Simplício’, de Almeida Garrett e ‘O Dia seguinte’, de Luís Francisco Rebelo.

Outro enorme êxito foi levado à cena pelo aniversário de Janeiro de 1987. Tratou-se da reposição da famosa opereta-fantasia ‘O Sonho do Cavador’, talvez a peça que maior número de representações teve. E a sessão solene desse mesmo aniversário foi complementada com uma homenagem prestada à memória de José da Silva Ribeiro pelo Rotary Clube da Figueira da Foz. As comemorações também tiveram a apresentação de um ‘diaporama’, da autoria de António Tomás, preenchido com imagens de José Ribeiro na sua actividade teatral e uma actuação do Coral David de Sousa.

‘O Sonho do Cavador’ (Rosa, Manuel da Fonte e Ti João da Quinta)

Por ocasião da representação da peça ‘Horizonte’, em 1988, encontrámos em ‘O Dever’ uma notícia que não resistimos a transcrever. Ei-la: “ Para mim, ir a Tavarede é recordar idos tempos da década de 40 em que ali, dentro do perímetro da freguesia rural que já foi sede de concelho, situada bem nas abas desta buliçosa cidade da Figueira da Foz que, quatro décadas volvidas, perfurou por tudo quanto é sítio este remansoso ambiente. Iniciei todo um passado de doze frutuosos anos no ex-Colégio Liceu Figueirense, mais tarde transformado em Seminário Menor da Diocese de Coimbra...

Para mim, ir a Tavarede é lembrar essa figura ímpar de José Ribeiro, a quem tive a felicidade de conhecer, e evocar todo o apoio, a vários níveis, dele recebido quando, já homem feito, na década de 60, eu me viria a ocupar, também, na encenação de umas “pècitas” de que saliento “Casa de Pais” e “Luz de Fátima”... Para mim, ir a Tavarede é encontrar a amizade franca e permanente de alguns amigos de infância e de outros de mais recente data, colegas de profissão, alguns deles enfronhados, ao que vejo, de alma e coração, nas actividades e iniciativas culturais do bom povo da terra que os viu nascer e a que tanto se orgulham de pertencer...

Para mim, ir a Tavarede é... hoje, também e sobretudo, admirar o seu Teatro nas peças que com pendular regularidade ali vêm sendo postas em cena, com o carinho, o bairrismo e a competência em que a gente de Tavarede é exímia... De longe vem a tradição de fazer bom teatro em Tavarede e inúmeras foram as representações a que já assisti. Desta vez, se me descuidava, deixava, mesmo, de admirar todo o garbo e empenhamento que aquele núcleo de inimitáveis amadores, perdão... de artistas, colocou, mais uma vez, na encenação da bela peça rústica da autoria de Manuel Frederico Pressler, HORIZONTE, cuja primeira representação teve lugar no já recuado ano de 1945 e que, agora, foi a escolhida para as comemorações do 84º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro último.

‘Horizonte’

A acção decorre no Ribatejo e versa um tema do quotidiano de muitas famílias – o casamento da Rita, que acaba por ir com quem o seu coração muito bem escolhe e não com aquele que o pai queria que fosse -, tendo como personagens elementos das mais diversas ocupações. Licenciados e barbeiros, empregados de escritório, carpinteiros e electricistas, de tudo ali há sem quaisquer complexos ou discriminações e apenas com uma finalidade: “darem o melhor de si levando até ao público o BOM TEATRO num convívio de amizade e simpatia”...

Perdeu, caro leitor. Perdeu, se acaso não viu esta representação em Tavarede. Acredite que só terá a lucrar se se deslocar ali sempre que haja TEATRO. Ele é de... primeira água, creia! ... E deixa de passar essas tardes (ou noites) de insípida rotina em que costuma mergulhar. É uma boa OPÇÃO!

Sociedade de Instrução Tavaredense - 71

A idade e a doença de Mestre José Ribeiro impediram-no de continuar a sua tarefa de encenador. A direcção do grupo cénico passou para João de Oliveira Júnior, um dos mais antigos amadores tavaredenses que, com o apoio e indicações do Mestre, apresentou a conhecida peça ‘A Nossa Casa’, que já havia sido levada à cena no nosso palco em 1943. Foi com esta peça que participou nas IX Jornadas do Teatro Amador da Figueira da Foz.





‘A Nossa Casa’









Para as comemorações do aniversário da colectividade, em Janeiro de 1986, o grupo cénico ensaiou e repôs em cena a famosa peça de José Ribeiro ‘Chá de Limonete’, que havia sido representada em 1950. “Esgotando lotações, em sucessivos espectáculos, o público mostra que não está tão arredio do teatro como se diz e que de facto a fantasia musical concebida pelo talento genial de José Ribeiro sabe criar a comunicação ideal entre público e actores. De facto, quem já teve a oportunidade de assistir à representação de ‘Chá de Limonete’ só pode sentir-se orgulhoso por assistir a um bom momento de teatro de amadores e enriquecido por um bom espectáculo onde a cor e alegria são o complemento adequado de um texto escorreito e pedagogicamente pragmático”, escreveu o crítico do ‘Diário de Coimbra’.

E para as Jornadas do Teatro Amador de 1986, a Sociedade de Instrução Tavaredense recorreu, uma vez mais, a Molière, o grande clássico francês. Foi com a peça ‘As Artimanhas de Scapino’ que fez a sua participação. Mas este ano de 1986 foi bastante dramático para o nosso teatro. No dia 13 de Setembro desse ano faleceu Mestre José da Silva Ribeiro. Já em Maio e Agosto haviam falecido dois grandes amadores do grupo cénico: Fernando Severino dos Reis e António Jorge da Silva. “Foi ontem a sepultar, no Cemitério de Tavarede, José da Silva Ribeiro. Há já algum tempo de saúde muito abalada, José da Silva Ribeiro terminou os seus dias, quase da mesma maneira com que atravessou a vida: em pleno sofrimento.

Completaria em Novembro 93 anos de idade, este homem de regime de vida espartano mas de suculenta alimentação espiritual. A sua acção, e modo de ser, pertencerão para sempre à história de teatro em Tavarede, na Figueira da Foz e no Baixo Mondego, aliás como a sua vivência cívica. Agraciado com a Ordem da Liberdade, pelo ex-Presidente general Ramalho Eanes, José Ribeiro não foi apenas a figura emblemática e carismática da Sociedade de Instrução Tavaredense que amou, egoisticamente, como o já tinham feito os seus progenitores.


José Ribeiro Retrato de Zé Penicheiro e Ex-libris desenho de Moreira Júnior

Autodidacta, utilizou a sua pena na “Voz da Justiça” até que a mordaça da censura e da ignominia lhe determinaram a morte. Mesmo assim, José Ribeiro soube sempre distinguir os adversários dos inimigos e recusar as migalhas oferecidas pelos “amigos”, mesmo quando os proventos materiais roçavam o franciscanismo. À frente da Sociedade de Instrução Tavaredense fez escola. Sem ser este o local para a devida apreciação, mesmo assim diremos que soube interpretar (os seus amantíssimos clássicos) na pureza mais original. Ainda, recentemente, no I Encontro de Teatro da Figueira da Foz o seu nome foi apontado (e aprovado) para tutelar um centro de apoio aos agrupamentos teatrais. A sua saúde debilitada já não lhe permitiu compreender o alcance desta justa medida. Oxalá, que as autoridades incumbidas de materializar o projecto saibam, urgentemente, dar-lhe a concretização devida. Será, talvez, uma pequeníssima homenagem. Mas é, indubitavelmente, a que merece quem sempre lutou com independência e honra. Para a tumba vão muitos segredos da sua vida, mas para quem fica resta a certeza que o teatro amador português perdeu alguém que o serviu com amor, arte e desinteresse. E quase sempre tendo a angústia como companheira mais próxima”. Esta nota foi publicada no jornal ‘Diário de Coimbra’.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

MISSA DO GALO - NATAL


Foi extraordinario, muito grande, como nunca vimos, o numero de fieis que correram á nossa egreja para assistir á festividade que ali se fez na noite de 24 para 25, celebrando o nascimento do Menino-Deus.

Era meia noite quando, desvendado e throno do altar mór, disfructámos um espectaculo sublime: um pequenino presepio rodeado de dezenas de lumes que reluziam brilhantemente por entre aquelle bello quadro, que a todos os christãos inspira tanta fé e ardente commoção.

Echoou então por todo o templo a Gloria in excelsis Deo, e continuou em seguida a cantar se a missa, que findou ás 2 horas, sendo celebrante o revdº. vigario d’esta freguezia sr. Costa e Silva; serviram de acolytos os coadjuctores de Quiaios e das Alhadas.

Prégou o revdº. Pimenta, de Verride, versando o seu discurso sobre: o providencial nascimento do Redemptor, os feitos de Jesus e o martyrio a que foi condemnado, sofrendo sempre as mais crueis amarguras, sacrificado a isso pelas suas ideais alta e verdadeiramente sublimes.

A decoração dos altares mór e lateraes revelava bem o gosto artistico do sr. Bernardo da Cruz, que, em trabalhos d’aquelle genero, o tem já demonstrado, quer aqui, quer n’essa cidade. O effeito produzido pelo altar mór, visto a distancia, era deveras atrahente.

O côro estava bem organisado, tanto na parte insttrumental como vocal, e diga se a verdade (que não podemos occultar), se não fôra o estar n’uma festa d’aldeira, pelo que alguns musicos costumam desempenhar os seus papeis com bem pouco esmero, teria jus a ser geralmente apreciado.

Cremos bem que isto não deixa de lhes saltar aos olhos, como não deixa de saltar aos dos que assistem áquelles actos e tenham ouvido já, pelos mesmos musicos, córos e orchestras magnificas, merecedoras de incontestavel applauso.

Entendem-nos decerto.

O Menino foi beijado com fervor alvoroço, pois todos queriam ser os primeiros a depor-lhe o quente beijo d’amor.


(Gazeta da Figueira - 29.Dezembro.1900)

NATAL - PRESÉPIO

Houve tempos - e não vão elles muito longe! - em que aqui, n’esta minha terra querida, se representava o presépio na noite de Natal e n’outras da época que, de geração em geração, nos tem vindo a relembrar a Natividade de Christo. Era uma distracção simples, mas reunia ella muitas familias n’um convivio fraternal, alegre, que nos proporcionava umas horas de satisfação intima.

Ia-se ao presepio, revia-se a gente na garbosidade das moças tavaredenses, vestidas a capricho no traje de pastoras, e admiravamos-lhes tambem as habilidades scenicas, porque ellas quasi sempre debutavam n’estes espectaculos... E d’ali, os felizes da sorte, regressavam ao lar, e lá iam rodear a certã onde fervia o azeite com os tradicionaes filhós, ou onde o forno transbordava com dovces tortas!

Era assim que se passava por aqui esta feliz quadra do Natal. E hoje, se é certo que ao estomago dos afortunados não faltam as abundantes consoadas com que se celebra a data natalicia, há no entanto - triste é dizel-o - a falta de qualquer espectaculo que nos recreie o espirito e que venha quebrar um tanto a insipida monotonia d’estas longas noites de Dezembro.

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(Gazeta da Figueira - 12.Dezembro.1903)

Belmira Pinto dos Santos (Belmirinha)

Modista, com atelier de costura na Figueira da Foz, foi grande colaboradora do grupo cénico da Sociedade de Instrução.

Várias peças representadas, como O Grão-Ducado de Tavarede “… merece também referência especial o guarda-roupa, que é variado, luxuoso e tem algumas fantasias de belíssimo efeito, pelo que foi muito elogiada a srª. Belmira Pinto dos Santos, que revelou muito bom gosto na sua confecção”.

Outras operetas e fantasias, e citamos, por exemplo, O Sonho do Cavador, A Cigarra e a Formiga, Justiça de Sua Majestade, Entre Giestas e O Grande Industrial, tiveram guarda-roupa de sua autoria, muito do qual ainda se conserva entre o vasto espólio da colectividade.

Em 1928 foi distinguida com o diploma de sócia honorária, como reconhecimento dos serviços prestados.
Caderno: Tavaredenses com História

António Medina


Natural de Verride, nasceu no dia 20 de Janeiro de 1872, filho de Joaquim Medina e de Maria da Cruz.

Foi serralheiro na Companhia do Gás e Águas, onde se empregou muito novo. Depois do falecimento de seu pai, mudou a residência para o então chamado Casal do Rato e, casando com uma tavaredense, Otília Nunes, fixou-se em Tavarede.
Grande adepto do associativismo, como forma de cultura popular, começou a participar no grupo cénico e na filarmónica Verridense.

Quando estabeleceu residência em Tavarede, logo ingressou nos grupos dramáticos das Associações Velha e Nova, que funcionavam na Casa do Terreiro e no Palácio do Conde de Tavarede. Representou com os amadores dos grupos de João José da Costa e João dos Santos, na Casa do Terreiro, e do dr. Manuel Gomes Cruz, na Estudantina Tavaredense, onde também se integrou na sua tuna.

Foi um dos subscritores da lista que deu origem, em Janeiro de 1904, à fundação da Sociedade de Instrução Tavaredense. Foi director e amador dramático desta colectividade até meados de 1911, tendo saído, juntamente com seu irmão José, para fundar, em Agosto daquele ano, o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense.

Continuou a dedicar-se ao teatro e à música, na tuna tocava rabecão (violão baixo), mas foi como director que mais se destacou na vida desta associação.

Em 1931, devido às enormes dificuldades financeiras do Grupo Musical, que não conseguiram ultrapassar, esta colectividade teve de vender o edifício da sua sede e mudar-se para o palácio, à altura pertencente a Marcelino Duarte Pinto. Deu a sua colaboração à tuna do Grupo até à sua extinção no ano de 1938.

A partir de então abandonou, por completo, a sua actividade associativa. Além da sua profissão, também era um pequeno lavrador, possuindo e amanhando umas terras na Chã e na Matioa. O vinho que produzia, tinha muita fama e costumava vendê-lo ao copo, na sua adega, em cuja porta, na época própria, pendurava enorme ramada de loureiro.

Foi membro da 1ª. Comissão Paroquial Republicana, eleita em 1911. O Grupo Musical homenageou-o, em 1925, descerrando o seu retrato, o qual se encontra exposto no salão da colectividade.

Morreu no dia 8 de Maio de 1958, encontrando-se sepultado em Tavarede. “O extinto, que fixou residência em Tavarede, ainda muito novo e ali constituiu família, foi um honrado cidadão estimado por todos que com ele privaram mercê do seu excelente carácter, tendo sido um entusiasta amador do teatro e da música, pelo que fundou o Grupo Musical e de Instrução Tavaredense”.


Caderno: Tavaredenses com História

D. Maria Mendes Petite

Fidalga do século catorze, foi casada com Estêvão Coelho e mãe de Pêro Coelho, que foi um dos carrascos de D. Inês de Castro, ao qual o rei D. Pedro I mandou justiçar, arrancando-lhe o coração pelas costas.

“O convento das freiras Dominicas, fundado em 1345, à custa de D. Maria Mendes Petite, na própria casa da sua residência, e doado às Donas Pregaratas, da Ordem de S. Domingos de Santarém”.

Esta fidalga dotou o mencionado convento com diversas propriedades que possuía em Vila Nova de Gaia; umas casas e herdade em Leiria; um terço de outras herdades em Santarém; umas azenhas e marinhas de sal em Tavarede…”.

Não há qualquer indicação quanto à localização das azenhas e das marinhas doadas.
Caderno: Tavaredenses com História