sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sociedade de Instrução Tavaredense - 73

Pelo aniversário de Janeiro de 1990, o grupo cénico fez a reposição de uma peça que, no ano de 1958, havia sido representada no Teatro da Trindade, em Lisboa, no Concurso de Teatro das Colectividades Amadoras, tendo conseguido honrosas classificações. Do programa das festas comemorativas dos 86 anos da SIT, fez parte a representação, no nosso palco, da peça ‘O crime da Aldeia Velha’, pelo Grupo Experimental de Mortágua, que agradou plenamente ao público tavaredense. Igualmente a nossa terra recebeu, uma vez mais, a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, de Tomar, que gentilmente acedeu ao convite que lhe foi endereçado.

Estas comemorações tiveram um especial carácter, pois o Rotary Clube da Figueira da Foz resolveu editar, em homenagem à memória de José da Silva Ribeiro, cuja capa insere um desenho de Zé Penicheiro. E no dia em que completaria 96 anos de idade, foi prestada mais uma homenagem ao saudoso Mestre de Teatro, com a inauguração do seu busto no largo fronteiro à sede da Sociedade de Instrução Tavaredense.


João de Oliveira Júnior

Mas o ano de 1990 ainda traria um enorme desgosto à nossa Colectividade e a Tavarede. Num acidente em Coimbra o nosso ensaiador, João de Oliveira Júnior, foi atropelado mortalmente. Foi mais um rude golpe para o grupo cénico. ‘Mas o Teatro não podia acabar em Tavarede. Ele já fazia parte dos tavaredenses’. Coube, então, à nossa conterrânea Ana Maria Caetano a responsabilidade do grupo cénico que ‘com muita coragem e determinação e demonstrando o seu grande amor ao Teatro e dedicação à SIT, assumiu o cargo’.

E foi com uma peça de Mestre José Ribeiro que iniciou a sua tarefa. Foi posta em cena ‘Terra do Limonete’, fantasia escrita e representada para a inauguração das obras feitas na nossa sede em 1965. Também esta peça foi representada nas Jornadas do Teatro Amador de 1991.

“Morreu João de Oliveira. O teatro do nosso concelho está de luto. A vida tem destas coisas. Ainda não se esgotaram os “ecos” da homenagem a esse outro grande Tavaredense e homem do teatro José da Silva Ribeiro e morre o seu continuador João de Oliveira. João de Oliveira morreu no passado dia 6 atropelado por uma ambulância quando passava numa passadeira na Av. Sá da Bandeira.
‘Terra do Limonete’

Que ironia do destino! João de Oliveira homem rigoroso no seu trabalho e na sua vida, morre atropelado numa passadeira e por uma ambulância... O teatro está mais pobre. A cultura figueirense que cada vez está mais abandonada e pobre, mais pobre e abandonada ficou com esta morte. Tavarede terra de teatro amador de grande qualidade e tradição perdeu mais um vulto que mantinha a tradição e a qualidade de um teatro que o público reconhecia e se reconhecia nas obras levadas à cena. A Sociedade de Instrução Tavaredense perdeu uma personalidade com que contava para manter a sua obra de cultura e do teatro. Oxalá os Tavaredenses consigam recuperar desta perda e manter o seu teatro, porque a Figueira precisa dele como do “pão (da cultura) para a boca”.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Luís João Rosa

“Faleceu em Tavarede, no último sábado, sepultando-se no domingo, o nosso amigo e dedicado correligionário sr. Luís João Rosa, proprietário da Quinta do Paço e ali, onde residia há anos, gozando da estima e consideração da população.

Deploramos a sua morte porque o tínhamos na conta de um dos nossos mais dedicados amigos e porque ali prestou serviços ao Partido Republicano Português, ainda ultimamente presidindo à Junta de Paróquia local.

O saudoso extinto, que era natural de Lavos, viveu em África alguns anos e, adquirindo alguns meios de fortuna, regressou aqui, comprando a quinta e a Casa do Paço de Tavarede, dedicando-se à lavoura e ao comércio de gados, tendo sempre um talho no nosso mercado. Era muito activo, mas a doença, que ultimamente o minava, prostrou-o no leito e em poucos dias lançou-o no tumulo”. (Outubro de 1916)

Luís João Rosa havia feito a compra do solar e quinta que pertenciam ao Conde de Tavarede, por escritura de 24 de Fevereiro de 1898, pelo valor de 5.000$000.

Pertenceu à Comissão de Beneficência da Freguesia de Tavarede, à Junta de Paróquia local, foi regedor e membro eleito para a 1ª. Comissão Paroquial Republicana, em 1911.

No campo associativo, pertenceu à Estudantina Tavaredense, a quem cedeu o Teatro Duque de Saldanha, instalado no solar que adquirira, e à Sociedade de Instrução, da qual fez parte como membro da Assembleia Geral.
Caderno: Tavaredenses com História

Ezequiel Leite Coelho Fortes

Era filho de António Leite Amaral Teles e de Joaquina Cândida Coelho Fortes. Residia em Tavarede, na sua quinta no caminho da Chã (Simôa), onde hoje está instalada a Junta de Freguesia e a Escola Primária, além de outras moradias.

Morreu a 17 de Janeiro de 1953, com a idade de 98 anos.

Não dispomos de outras informações sobre a sua vida. Recordamo-lo porque era costume, no dia de quinta-feira Santa, a rapaziada ir a sua casa pedir a “esmola”, sendo sempre contemplados com um bom punhado de avelãs, que tinha em abundância, de produção de diversas aveleiras existentes à beira do ribeiro que limitava a sua propriedade.
Caderno: Tavaredenses com História

António Pedrosa de Oliveira

Conhecido por António de Lavos, de onde era natural, e comerciante na Figueira, resolveu, em Abril de 1901, abrir em Tavarede um estabelecimento de mercearias e vinhos, ao Largo do Paço.

Aqui fixou residência até ao seu falecimento, que ocorreu em 21 de Fevereiro de 1912. Tinha 63 anos de idade.

Participou activamente na Junta de Paróquia, tendo sido nomeado regedor em 1904.

Um dia, estando doente, o seu amigo Ernesto Tomás foi visitá-lo. “… felizmente que o achámos melhor, bem capaz de lá para o S. João, mimosear os rapazes daqui, com umas danças e descantes dum rancho catita, que costuma organizar no seu quintal. A mulher, a Rosita que em tempos se dedicava ao palco, e que nos deu uns exemplares traquinas, folgazões, cheios da vivacidade da idade dourada, parecia-nos a mesma, com o mesmo génio franco, risonho, endiabrado, somente modificado um pouco pela idade, que já se acompanha de uma filha, a Josefita, loura, brincalhona, viva como a mãe”. Esta Rosita chamava-se Rosa Pais Pedrosa, era natural de Tavarede e morreu em Abril de 1927, com 83 anos de idade.
Caderno: Tavaredenses com História

Adelino da Cruz Mariano

Tavaredense. Foi um dedicado associativista, exercendo cargos directivos na Sociedade de Instrução e no Grupo Musical. Na primeira, também foi professor da escola nocturna. Enveredou pela carreira militar, tendo falecido em Setúbal, onde residiu durante vários anos.



Deixou uma interessante história. Enquanto residente em Tavarede, o seu meio de transporte era a bicicleta. Quando, profissionalmente, se ausentou da nossa terra, deixou a sua bicicleta, devidamente arrumada, na loja da casa onde morava com sua mãe, na rua Direita, perto do Largo da Igreja.



Um dia, em Dezembro de 1955, já anoitecera havia muito, encontraram sua mãe a passear a bicicleta, à mão, na estrada da Chã. Estranhando o caso, alguém quis saber o que se passava e logo teve a resposta: O Adelino havia escrito à mãe a pedir para alguém dar ar à bicicleta, para as câmaras e pneus não ressequirem.



A boa senhora não quis incomodar ninguém e foi ela mesma passear a bicicleta para lhe dar ar…








Tavarede Futebol Clube – Guarda-redes (1946)

(Caderno: Tavaredenses com História)

Sociedade de Instrução Tavaredense - 72


Mas o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense continuou na sua actividade, repondo, sob a direcção e encenação de João de Oliveira Júnior, alguns dos maiores êxitos já ali representados. ‘Alguém terá de morrer’, ‘Horizonte’, ‘Uma Noite de Teatro Português’, espectáculo composto por um trecho de Gil Vicente, ‘O Tio Simplício’, de Almeida Garrett e ‘O Dia seguinte’, de Luís Francisco Rebelo.

Outro enorme êxito foi levado à cena pelo aniversário de Janeiro de 1987. Tratou-se da reposição da famosa opereta-fantasia ‘O Sonho do Cavador’, talvez a peça que maior número de representações teve. E a sessão solene desse mesmo aniversário foi complementada com uma homenagem prestada à memória de José da Silva Ribeiro pelo Rotary Clube da Figueira da Foz. As comemorações também tiveram a apresentação de um ‘diaporama’, da autoria de António Tomás, preenchido com imagens de José Ribeiro na sua actividade teatral e uma actuação do Coral David de Sousa.

‘O Sonho do Cavador’ (Rosa, Manuel da Fonte e Ti João da Quinta)

Por ocasião da representação da peça ‘Horizonte’, em 1988, encontrámos em ‘O Dever’ uma notícia que não resistimos a transcrever. Ei-la: “ Para mim, ir a Tavarede é recordar idos tempos da década de 40 em que ali, dentro do perímetro da freguesia rural que já foi sede de concelho, situada bem nas abas desta buliçosa cidade da Figueira da Foz que, quatro décadas volvidas, perfurou por tudo quanto é sítio este remansoso ambiente. Iniciei todo um passado de doze frutuosos anos no ex-Colégio Liceu Figueirense, mais tarde transformado em Seminário Menor da Diocese de Coimbra...

Para mim, ir a Tavarede é lembrar essa figura ímpar de José Ribeiro, a quem tive a felicidade de conhecer, e evocar todo o apoio, a vários níveis, dele recebido quando, já homem feito, na década de 60, eu me viria a ocupar, também, na encenação de umas “pècitas” de que saliento “Casa de Pais” e “Luz de Fátima”... Para mim, ir a Tavarede é encontrar a amizade franca e permanente de alguns amigos de infância e de outros de mais recente data, colegas de profissão, alguns deles enfronhados, ao que vejo, de alma e coração, nas actividades e iniciativas culturais do bom povo da terra que os viu nascer e a que tanto se orgulham de pertencer...

Para mim, ir a Tavarede é... hoje, também e sobretudo, admirar o seu Teatro nas peças que com pendular regularidade ali vêm sendo postas em cena, com o carinho, o bairrismo e a competência em que a gente de Tavarede é exímia... De longe vem a tradição de fazer bom teatro em Tavarede e inúmeras foram as representações a que já assisti. Desta vez, se me descuidava, deixava, mesmo, de admirar todo o garbo e empenhamento que aquele núcleo de inimitáveis amadores, perdão... de artistas, colocou, mais uma vez, na encenação da bela peça rústica da autoria de Manuel Frederico Pressler, HORIZONTE, cuja primeira representação teve lugar no já recuado ano de 1945 e que, agora, foi a escolhida para as comemorações do 84º aniversário da Sociedade de Instrução Tavaredense, em Janeiro último.

‘Horizonte’

A acção decorre no Ribatejo e versa um tema do quotidiano de muitas famílias – o casamento da Rita, que acaba por ir com quem o seu coração muito bem escolhe e não com aquele que o pai queria que fosse -, tendo como personagens elementos das mais diversas ocupações. Licenciados e barbeiros, empregados de escritório, carpinteiros e electricistas, de tudo ali há sem quaisquer complexos ou discriminações e apenas com uma finalidade: “darem o melhor de si levando até ao público o BOM TEATRO num convívio de amizade e simpatia”...

Perdeu, caro leitor. Perdeu, se acaso não viu esta representação em Tavarede. Acredite que só terá a lucrar se se deslocar ali sempre que haja TEATRO. Ele é de... primeira água, creia! ... E deixa de passar essas tardes (ou noites) de insípida rotina em que costuma mergulhar. É uma boa OPÇÃO!

Sociedade de Instrução Tavaredense - 71

A idade e a doença de Mestre José Ribeiro impediram-no de continuar a sua tarefa de encenador. A direcção do grupo cénico passou para João de Oliveira Júnior, um dos mais antigos amadores tavaredenses que, com o apoio e indicações do Mestre, apresentou a conhecida peça ‘A Nossa Casa’, que já havia sido levada à cena no nosso palco em 1943. Foi com esta peça que participou nas IX Jornadas do Teatro Amador da Figueira da Foz.





‘A Nossa Casa’









Para as comemorações do aniversário da colectividade, em Janeiro de 1986, o grupo cénico ensaiou e repôs em cena a famosa peça de José Ribeiro ‘Chá de Limonete’, que havia sido representada em 1950. “Esgotando lotações, em sucessivos espectáculos, o público mostra que não está tão arredio do teatro como se diz e que de facto a fantasia musical concebida pelo talento genial de José Ribeiro sabe criar a comunicação ideal entre público e actores. De facto, quem já teve a oportunidade de assistir à representação de ‘Chá de Limonete’ só pode sentir-se orgulhoso por assistir a um bom momento de teatro de amadores e enriquecido por um bom espectáculo onde a cor e alegria são o complemento adequado de um texto escorreito e pedagogicamente pragmático”, escreveu o crítico do ‘Diário de Coimbra’.

E para as Jornadas do Teatro Amador de 1986, a Sociedade de Instrução Tavaredense recorreu, uma vez mais, a Molière, o grande clássico francês. Foi com a peça ‘As Artimanhas de Scapino’ que fez a sua participação. Mas este ano de 1986 foi bastante dramático para o nosso teatro. No dia 13 de Setembro desse ano faleceu Mestre José da Silva Ribeiro. Já em Maio e Agosto haviam falecido dois grandes amadores do grupo cénico: Fernando Severino dos Reis e António Jorge da Silva. “Foi ontem a sepultar, no Cemitério de Tavarede, José da Silva Ribeiro. Há já algum tempo de saúde muito abalada, José da Silva Ribeiro terminou os seus dias, quase da mesma maneira com que atravessou a vida: em pleno sofrimento.

Completaria em Novembro 93 anos de idade, este homem de regime de vida espartano mas de suculenta alimentação espiritual. A sua acção, e modo de ser, pertencerão para sempre à história de teatro em Tavarede, na Figueira da Foz e no Baixo Mondego, aliás como a sua vivência cívica. Agraciado com a Ordem da Liberdade, pelo ex-Presidente general Ramalho Eanes, José Ribeiro não foi apenas a figura emblemática e carismática da Sociedade de Instrução Tavaredense que amou, egoisticamente, como o já tinham feito os seus progenitores.


José Ribeiro Retrato de Zé Penicheiro e Ex-libris desenho de Moreira Júnior

Autodidacta, utilizou a sua pena na “Voz da Justiça” até que a mordaça da censura e da ignominia lhe determinaram a morte. Mesmo assim, José Ribeiro soube sempre distinguir os adversários dos inimigos e recusar as migalhas oferecidas pelos “amigos”, mesmo quando os proventos materiais roçavam o franciscanismo. À frente da Sociedade de Instrução Tavaredense fez escola. Sem ser este o local para a devida apreciação, mesmo assim diremos que soube interpretar (os seus amantíssimos clássicos) na pureza mais original. Ainda, recentemente, no I Encontro de Teatro da Figueira da Foz o seu nome foi apontado (e aprovado) para tutelar um centro de apoio aos agrupamentos teatrais. A sua saúde debilitada já não lhe permitiu compreender o alcance desta justa medida. Oxalá, que as autoridades incumbidas de materializar o projecto saibam, urgentemente, dar-lhe a concretização devida. Será, talvez, uma pequeníssima homenagem. Mas é, indubitavelmente, a que merece quem sempre lutou com independência e honra. Para a tumba vão muitos segredos da sua vida, mas para quem fica resta a certeza que o teatro amador português perdeu alguém que o serviu com amor, arte e desinteresse. E quase sempre tendo a angústia como companheira mais próxima”. Esta nota foi publicada no jornal ‘Diário de Coimbra’.