quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sociedade de Instrução Tavaredense - 82


“Iniciada por “sinistro” cortejo sob o comando do Juiz seguido de luzido (muitas tochas) séquito a que a música fúnebre e muitos embuçados emprestavam um ambiente pesado através das ruas que levavam da SIT às ruínas do Paço, aí teve lugar a “prisão da Velha Malvada” que, após sumário exame (de grande comicidade brejeira), foi conduzida a tribunal (palco do Teatro da SIT)”. A tradição mantinha-se. Mais uma vez a “Serração da Velha” se cumpriu na data própria.

Em Maio de 1998 o então Ministro da Cultura, Dr. Manuel Maria Carrilho, visitou a sede da Sociedade, onde ouviu atentamente contar a história da nossa colectividade, bem como as necessidades mais prementes, na ocasião a instalação eléctrica. Depois de algumas palavras, ‘A cerimónia encerrou com breves palavras de Manuel Maria Carrilho que referiu ser preciso “manter vivos os anseios do povo”. Manifestou também conhecer o trabalho desenvolvido em Tavarede assim como no concelho figueirense, uma vez que a Figueira da Foz foi durante 18 anos a cidade das suas férias. Disse ser necessário “combinar esforços” e que o contributo que conferiu para o equipamento pode ser ampliado se tal o justificar”. O Ministro concedeu um subsídio de 4 mil contos para as obras referidas.

O 95º. aniversário foi festejado com um espectáculo com a representação da comédia ‘O Festim do Baltazar’ e uma parte com ‘História Cantada de Tavarede’, peça

que envolveu cerca de 50 pessoas. E foi anunciado que a SIT, a exemplo do que tem feito com outras figuras de relevo nacional, iria ‘assinalar o bi-centenário do nascimento de Almeida Garrett, um dos grandes vultos da literatura portuguesa’.


‘Na presença de Garrett’

“No ano em que se comemora o duplo centenário do nascimento do grande dramaturgo não podia a “Capital do teatro” do nosso concelho deixar passar em claro tal efeméride. Fê-lo de modo bem vincado e digno partindo de um texto adrede escrito, permitindo-se ilustrar a representação com diversas incursões por algumas obras do polígrafo, com especial realce para o Frei Luís de Sousa, de que nos apresentou o terceiro acto, completo. Teve esta encenação a particularidade de, em simultâneo, manter quase sempre em cena o próprio Garrett, o qual ia respondendo a curioso e bem elaborado questionário de uma arguta jornalista e, ao mesmo tempo, revendo-se, emocionado e feliz, na sua própria obra, a dois séculos de distância.


‘Na presença de Garrett’
‘Frei Luís de Sousa’

Confirmando o que alguém disse, muito justamente, ser Garrett “de entre todos os escritores do século XIX o mais lido, o mais estudado e o mais amado pelas novas gerações”, as autoras do texto, dras. Ilda Manuela Simões e Maria Clementina Reis Jorge Silva, tiveram a feliz ideia – como esclarecidas pedagogas que se orgulham de ser – de pôr em palco vários alunos das nossas escolas, os quais, além de breve troca de impressões com o presencial autor, declamaram alguns dos seus mais significativos poemas.

Também a História de Portugal, no que concerne à ligação ideológica do liberalismo defendido e vivido por Garrett no segundo quartel do século XIX, com a implantação da República em 1910, e, mais perto de nós, com a eclosão do 25 de Abril de 1974, foi feita uma abordagem oportuna e proficientemente pedagógica e digna de registo. Finalmente: ante os tão demorados agradecimentos expressos pela responsável a todo um ror de gente que contribuiram para tal realização, fica a todos a certeza de que o teatro mexe, verdadeiramente, em Tavarede. Parabéns!”.

O programa deste espectáculo refere ‘… procura dar uma visão da vida e da obra de Almeida Garrett. Uma jornalista convida o escritor para uma entrevista e à medida que esta se vai desenvolvendo irão surgindo no palco fragmentos de algumas obras de Garrett…’.

Soiedade de Instrução Tavaredense - 81


No ano de 1997, por motivos de ordem particular, a encenadora do grupo cénico, Ana Maria Bernardes, teve de abandonar a sua actividade teatral. E ‘com toda a sua boa vontade e dedicação, apesar disso implicar muito sacrifício da sua parte’, lê-se no relatório da Direcção desse ano, aceitou o convite feito para aquele cargo a amadora Ilda Manuela Duarte Simões.

Também nesse ano, e já não era a primeira vez que isso acontecia, houve grande dificuldade em constituir novo elenco directivo. Mas, felizmente, a crise foi ultrapassada. “… Ao ter, pela primeira vez na sua história, uma direcção totalmente composta por mulheres a Sociedade de Instrução Tavaredense não quer enveredar, obviamente, por uma qualquer guerra de sexos, mas sim dar continuidade a uma tradição que conta (e muito) com a participação do sector feminino.

Ainda que, de facto, esta situação resulte de uma acentuada crise directiva, a opção directiva acaba também, de forma indirecta, por prestar uma justa homenagem a todas as mulheres que, ao longo dos tempos e de uma forma por vezes heróica deram forma e fundo aos objectivos da Sociedade de Instrução Tavaredense. Decerto ela, “a mulher tavaredense” pelos exemplos cívicos e artísticos que soube dar, seria na verdade, a merecedora de algo que a perpetuasse publicamente e não algo que por natural e datado no tempo não vai além do que é efémero.

Mas, numa prova de que os exemplos recebidos não foram em vão, as novas gerações de mulheres, voluntária e decididamente, disseram não ter medo dos “papéis principais”, posição que tanto visa honrar o passado como criar condições para que os ideais do associativismo sejam comungados, efectivamente, pelas classes mais jovens e não sirvam apenas de motivo para verborreias fáceis e estéreis debitadas em ultraromânticas sessões solenes…”.

Nesse ano, as duas colectividades tavaredenses (Sociedade e Grupo) uniram-se para se apresentarem nas Marchas de S. João. “… Das nove marchas que desfilaram apenas quatro o fizeram para concurso. A primeira delas, da freguesia de Tavarede, envolveu o trabalho do Grupo Musical e Instrução Tavaredense e da Sociedade Instrução Tavaredense. Composta por cerca de 50 elementos, vestidos com as cores da cidade, amarelo e verde, a marcha de Tavarede fez uma alusão aos laranjais da localidade, famosos no século XVII.


‘Na Feira dos Malandrecos’

E porque as políticas já mexem, para não haver lugar a “interpretações erradas”, os organizadores distribuiram às pessoas um resumo descritivo da marcha. No panfleto podia ler-se que “a laranja de Tavarede teve fama no século XVII e chegou a ser exportada para Roma”. A marcha de Tavarede procurou, por isso, fazer referência aos laranjais, ao transporte do produto para vários pontos da Europa e ao “consumo das laranjas pelas entidades eclesiásticas romanas”. Cestas e caravelas cheias de laranjas e lampiões foram os elementos presentes na marcha que, com movimentos muito diversificados, encerrou o seu desfile com a abertura da laranja gigante. Lá dentro, uma jovem com uma pequena faixa identificava a origem da marcha…”.

Por sinal, a classificação das marchas deu muito barulho. O júri, que havia dado o primeiro prémio à nossa marcha, fez marcha atrás e classificou-nos em segundo, dando o primeiro a outra marcha concorrente.


Um estranho no Natal’

O aniversário seguinte, 1998, teve teatro juvenil e teatro adulto. Primeiro, os jovens apresentaram as peças “Na Feira dos Malandrecos” e “Um estranho no Natal”. Depois, e na primeira encenação de Ilda Simões, houve uma reposição. Foi com a peça ‘A Forja’, de Alves Redol, que já havia sido levada à cena 27 anos antes.



‘A Forja’

Facto curioso: o protagonista masculino, João Medina, representou o mesmo papel, o do ‘pai Malafaia’. E na sessão solene comemorativa do aniversário, foi prestada homenagem a este amador, que completava 50 anos de carreira no nosso grupo cénico. “… Vejo José Ribeiro por trás das cortinas”. Testemunho vivo de 50 anos de dedicação ao teatro, João Medina, no palco que fez parte da sua vida, não encontrou outra forma de agradecer que estas palavras: “Para aqui vim com 15 anos pela mão de José Ribeiro e ainda hoje o “pressinto” por trás daquelas cortinas a dar-me ânimo sempre que subo ao palco. E aqui andarei até cair nestas tábuas do “meu” teatro, como as árvores que morrem de pé”.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sociedade de Instrução Tavaredense - 80

“… Carpindo e choramingando a velha lá foi conduzida, à luz de archotes que teimavam em contrariar a chuva de “molha parvos”, até ao cadafalso, antecedida de um cómico julgamento, no palco da SIT. Não eram muitos os que acorreram à sala do Palácio da Justiça, e talvez por isso a velhota, de nome Ana Castanha Pilada, escutou o Juiz (que pelos vistos não saberá só de futebol…) declarar o corte como sentença final, talvez influenciado por uma bombástica testemunha. Claro que se ouviu o testamento, caseiro, para as pessoas da terra, a provocar alguns risos, não tantos quantos os necessários, o que parece vir a confirmar a falta de coragem… poética (só esta?) dos escribas”. Este apontamento vem a propósito do ‘Auto da Serração da Velha’ mais uma vez levado a efeito para cumprimento da tradição.
‘Auto da Serração da Velha’

Mas em 1996 cumpriam-se 10 anos da morte de José Ribeiro. Não esqueceu a data a Colectividade. “E José da Silva Ribeiro regressou a Tavarede na noite do passado sábado, tendo conseguido o milagre, cada vez mais inviável de concretizar, de esgotar a lotação possível da SIT, de tal forma que o nosso jornal (que se esquecera de marcar bilhete) passou a noite sentado (e bem) numa cadeira solta que, por simpatia da casa, conseguiu encostar a uma das paredes laterais da sala de espectáculos. Que bom seria que da próxima ida a Tavarede nos sucedesse o mesmo!

Como referimos na última edição de “O Figueirense”, no passado dia 13, sexta-feira, completavam-se dez anos sobre o falecimento de Mestre José da Silva Ribeiro, tavaredense que acreditamos ser o mais ilustre que a terra, dita do limonete, viu nascer. Dele não iremos ora traçar o bilhete de identidade de nobre cidadão, até porque, também no último jornal, já o fez – e com brilho – o dr. Pires de Azevedo. Apenas recordamos hoje que José da Silva Ribeiro tinha na Sociedade de Instrução Tavaredense o seu segundo lar, e que a sua gente (palavra para ele tão querida) era toda aquela que com ele criava e irradiava cultura através do Teatro, no palco e na plateia.

Pois bem, a sua gente, mesmo alguma que nunca viu o Mestre, marcou de forma extraordinariamente digna a saudade de 10 anos. E como o fez? Criando e divulgando cultura através do Teatro – tal como desde 1916 o fez Mestre José Ribeiro -. Pelas tábuas da SIT, num fim de semana super cultural, passaram os amadores de teatro da Chã, de Carritos e de Tavarede, prova provada que as sementes lançadas pelo homenageado, ao largo de uma vida, continuam a frutificar em agradável crescendo de vitalidade. Assistiu O Figueirense ao sarau inaugural deste ciclo de teatro e algumas notas, retiradas com certa emoção, terão certamente mais peso neste despretencioso apontamento de reportagem.




Cenas de ‘Lembranças’

E a primeira radica-se, desde logo, no facto da SIT não ter deixado passar em claro um evento que seria criminoso esquecer. Assinalou-o agregando à festa da gratidão mais duas colectividades teatrais da freguesia, numa divisão de honras que enobrece a SIT e, particularmente, a figura do evocado. Depois, já o escrevemos, não nos recordamos, mesmo olhando anos para trás, de encontrar na SIT uma casa tão repleta e tão participativa, verdadeiro oásis na desertificação que consome os campos da cultura.

Depois ainda, - reconfortante e esperançosa realidade – as nossas palmas ecoaram mais forte quando olhávamos para a quantidade de gente jovem – e talentosa – que os responsáveis da SIT tiveram a magia de apresentar em palco. Como Zé Ribeiro se sentiria feliz se pudesse (será que não pôde?!) aplaudir esta sua “nova gente”! Sem juventude não há futuro e de tal se aperceberam, até pedagogicamente, os continuadores do Mestre.

Uma palavra mais para os minutos “sofridos” pela plateia na primeira parte desta noite de evocação, quando em ecrã gigante se projectou parte de um filme no qual a personagem é o próprio José Ribeiro, falando de si, do Teatro, da SIT e “da minha gente”. O silêncio na sala durante a projecção da película e a bombástica ovação final… para bom entendedor. Mas, e o espectáculo?

Lembranças, de seu nome, ele é corporizado por um conjunto de curtas e variadas representações a que o Mestre em vida deu vida e que agora em palco (re)vivem com “gente velha e gente nova”, gente discípula directa do Mestre e gente (repetimos intencionalmente o termo) que José Ribeiro gostaria de ensinar. Também intencionalmente não falamos em nomes, pois tal não desejariam os amadores envolvidos nesta homenagem. Pensamos, finalmente, que este magnífico espectáculo, mesmo desatempadamente inserido na data que lhe deu razão de existir, necessitava de ser aplaudido uma outra vez, até porque certamente na SIT não esteve toda a “minha gente” de Zé Ribeiro”.

Sociedade de Instrução Tavaredense - 79

A 15 de Janeiro de 1904, um grupo de homens simples de Tavarede fundou a Sociedade de Instrução Tavaredense tendo como principais objectivos – instruir e educar. Os tempos eram dificeis, mas estes homens perceberam que sem instrução e cultura não seriam cidadãos de corpo e alma. Por outro lado, esta colectividade foi bafejada pela sorte de ter entre os seus associados José da Silva Ribeiro, o tavaredense responsável pelo notável desenvolvimento da cultura neste espaço. Através do teatro ele ajudou muitos daqueles que com ele trabalhavam ou que somente assistiram aos seus espectáculos a encontrarem o seu sentido de vida. Os textos por si escritos ou por si escolhidos entre os grandes autores literários mostravam mensagens diversas, onde cada um se podia encontrar e defender a sua dignidade social.

Passados dez anos da sua morte, a Sociedade de Instrução Tavaredense continua a manter-se fiel ao propósito dos seus fundadores, reforçado por José Ribeiro. Por isso o teatro continua: a preocupação com a cultura está mais viva do que nunca. Assim, no dia 20 de Janeiro junte-se aos tavaredenses, assista à representação da peça de Luís Francisco Rebelo “O Dia Seguinte”. Neste texto o autor elogia a vida, fala dela como uma maravilhosa aventura, única e digna de ser vivida. Nestes tempos de alguns desencontros dos homens com o mundo, vá a Tavarede e reafirme o valor da sua vida nas palavras de Luís Francisco Rebelo: “O teatro deve ajudar os homens a viver”.

‘O Dia Seguinte’

Foi com esta peça que comemorou o aniversário de Janeiro de 1996. E em Fevereiro coube a vez ao Kiwanis Clube da Figueira da Foz homenagear a nossa colectividade, o nosso Teatro e José da Silva Ribeiro. Na reunião efectuada num restaurante da Figueira, a que assistiram diversos elementos responsáveis da nossa terra e da SIT, foram vários os oradores que historiaram a nossa actividade ao longo de tantos anos de existência. “… Claro que, para falar de José da Silva Ribeiro, lá estava a drª Ana Maria Caetano, a “filha” que ele não teve mas foi confidente, menina dos seus olhos, repositório vivo de muitos segredos que José Ribeiro jamais revelara.





Placa da Medalha de
José da Silva Ribeiro
(Átrio da entrada da SIT)







E a sua intervenção, qual oração ao Homem que durante 91 anos fez da liberdade uma opção, deixou comovidamente absortos os presentes que viram passar “o Homem de Tavarede”, o “Amigo da Família”, o “Político Assumido”, o “Filantropo”, o “Jornalista”, o “Escritor” e… o “Vulto de Teatro”. Com citações, confidências, anotações, conselhos, desabafos, ensinamentos e muito humanismo teceu, primorosa e devotadamente, a drª Ana uma imagem sublime desse Homem bom que legou aos vindouros exemplos tão nobres como trabalho, tolerância, fraternidade, liberdade.

O lutador que considerou o irreverente jornal “Voz da Justiça” sua glória e seu Calvário, fez da arte a sua Política, do palco de Tavarede “cátedra” de prestigiados amadores cénicos que deixavam confundidos famosos profissionais e “morreu de bem com a sua consciência” jamais poderá ser esquecido, afirmou a drª Ana que para remate da sua intervenção não encontrou melhor expressão que esta: = Resta-me a consolação de ter visto morrer um Homem de grande verticalidade”.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Teatro em Tavarede - A minha teoria


Diz a tradição que foi Gil Vicente o “pai” do Teatro em Portugal.

Nascido em 1465, julga-se que em Guimarães, teve a sua primeira representação, como autor e actor teatral, no ano de 1502, com o Auto do Vaqueiro, em saudação à Rainha D. Maria, mulher do Rei D. Manuel I, pelo nascimento do seu primeiro filho varão, aquele que mais tarde seria o Rei D. João III de Portugal.

“Não foi infrutífera a semente lançada por Gil Vicente, representando os seus autos e monólogos no Paço da Ribeira, ante a Corte de D. Manuel. O gosto pela arte teatral ficou, sabendo-se que, logo no reinado de D. João III, se inaugurou em Lisboa um teatro nas “Fangas da Farinha”, nome porque era conhecido, na época, o local onde hoje estão instalados os tribunais da Boa-Hora”.

Não é o fim destas notas historiar o Teatro em Portugal. Interessa-nos, isso sim, procurar desvendar um pouco o mistério, porque, realmente, é um verdadeiro mistério, do gosto que, desde os tempos antigos, sempre houve em Tavarede por tão nobre Arte.
Lemos há dias, numa publicação de 1955, uma interessante notícia sobre o teatro amador português em que o seu autor se propunha acompanhar a esforço de “determinados grupos de amadores que representam um luz muito viva a pretender atravessar o nevoeiro que, desde há um certo tempo, caíu sobre alguns dos poucos palcos da nossa terra...”

E, então, escolheu para iniciar os seus trabalhos o grupo “duma modesta aldeia beirã, Tavarede...”, usando, a justificar a sua opção, um título, quanto a nós, felicíssimo: TAVAREDE - ALDEIA ESCOLA DE TEATRO.

É claro que, à data da notícia, só existia em Tavarede um grupo dramático, o da Sociedade de Instrução Tavaredense. Mas, na nossa terra, o teatro, embora tenha tido a sua maior actividade, nível e expansão, com esta colectividade, é bem anterior à fundação da S.I.T., conforme adiante se verá.

Pode considerar-se um atrevimento da nossa parte escrevermos a “nossa” história sobre o Teatro em Tavarede, depois de tudo quanto fez, nos ensinou e deixou escrito, o nosso ilustre e saudoso conterrâneo, Mestre José da Silva Ribeiro.

Mas, como já referimos anteriormente, a história da nossa terra ficaria incompleta se aqui não incluíssemos e procurássemos descrever com algum aprofundamento, as duas grandes tradições tavaredenses: o Teatro e a Música.

Certamente que poucas ou nenhumas novidades iremos dar àqueles que se têm dedicado a estes temas. As nossas buscas incidiram, forçosamente, sobre as mesmas fontes. Haverá, até, algumas repetições, mas não tendo nós encontrado em parte alguma uma teoria, pelo menos, que nos levasse às origens do Teatro em Tavarede, atrevemo-nos nós a formular uma. A memória daquele grande Homem de Teatro certamente nos perdoará a nossa ousadia.

Já no primeiro volume destas notas, e a propósito da história da nossa terra, fizemos algumas referências a um magnífico trabalho publicado no último decénio do século passado no jornal “Gazeta da Figueira” e a que deu o título de “Recordações de Tavarede”, o ilustre jornalista figueirense Ernesto Fernandes Thomaz, em que nos legou uma bela visão sobre a vida na nossa terra na última metade do século XIX.

Por agora temo-nos limitado a expurgar alguns retalhos que nos interessam para dar continuidade à nossa história. Mas, no volume quarto, tencionamos transcrever, integralmente, este e outros trabalhos que temos reunido e que se encontram dispersos em várias publicações, pois entendemos que serão de muito interesse.

Logo no início escreve:
“... Ahi pelos anos de 1865, tendo voltado d’umas voltas pela América, no primeiro domingo que tinha adiante, depois da chegada, ouvi falar uns rapazes amigos em uns theatros em Tavarede. Desde creança, um lamechas por por divertimentos de tal genero, acompanhei até lá os amigos e sem mais demora... a caminho de Tavarede”.

Mais adiante e sobre este assunto, deixou-nos escrito:
“... O José do Ignácio, havia sido também, em outro tempo, uma parte obrigatória em todas as sociedades dramáticas que vegetavam em Tavarede como tortulhos. Um pouco mais idoso de que os seus companheiros e procurado com o caracteristico, desempenhava os papeis de centro. A primeira vez que o vimos assim encadernado, foi em um theatrinho da rua Direita, que haviam encaixado em uma casa conhecida pela designação de - casa do Ferreira”.

Sabe-se, assim, de fonte segura, que em Tavarede, nos princípios da segunda metade do século passado, havia diversas sociedades dramáticas, que davam regularmente os seus espectáculos. E como eram estas sociedades dramáticas?

“... A plateia, que para o aproveitamento de maior número de espectadores havia sido construida em fórma de palanque, era engendrada por umas taboas manhosamente pregadas n’uns cunhos de madeira e estes por sua vez da mesma fórma ligados a uns postes de pinheiro inclinados contra a parede.

O pano de bocca, qualquer colcha, de chita, de padrão em labyryntho vermelho. A illuminação fazia-se por meio das classicas vellas de cebo espetádas em palmatórias de pau...”.

Como se adivinha, sendo mais que toscas, estas salas não ofereciam quaisquer condições. Tudo se improvisava. Os camarins, por exemplo, eram o quintal e os telheiros, nas trazeiras da casa, onde os actores e as actrizes se vestiam e caracterizavam no meio dos mais variados utensílios agrícolas, e que, nas noites frias do inverno, procurariam aquecer-se um pouco junto dos animais recolhidos nos seus estábulos, enquanto aguardavam a sua hora de entrada em cena.

No entanto apresentava-se teatro. Comédia e drama. E o povo assistia. Pateava ou aplaudia. Lemos algures que, em determinado ano e pelo Natal, se representaram em Tavarede, em simultâneo, seis presépios!...

Sabendo nós quantas pessoas são precisas para pôr em cena o Presépio, embora, admitamos, fossem um pouco resumidos em relação aos Autos Pastoris que ainda vimos representados em Tavarede, no palco da Sociedade de Instrução Tavaredense, cedido para o efeito ao Grupo Musical, fácil é calcular que toda a população de Tavarede estaria ligada ao teatro. Como amadores, como músicos e como pessoal do palco, ainda havia gente para esgotar a lotação das pequeninas salas de espectáculo. Muitos iam da Figueira e dos arredores, como vimos.

Ora, tudo isto, porém, nos leva aos inícios da segunda metade do século passado. E antes?

Com muita surpresa nossa, ao folhearmos um caderno de recortes de jornais velhos e relacionados com o teatro, encontrámos a seguinte notícia:

D. Francisco de Almada e Mendonça, marido de D. Antónia Madalerna de Quadros e Sousa - 10ª. senhora de Tavarede

Recuando até ao ano de 1771, data em que a Câmara de Tavarede foi mudada para a Figueira, conjuntamente com as suas justiças, lembrar-nos-emos que era então senhor de Tavarede, Fernando Gomes de Quadros. Rezam as crónicas que este fidalgo foi um verdadeiro tirano para com o seu povo, vivendo, praticamente, como um senhor feudal. Pelos escritos que nos deixou o ilustre investigador e historiador Dr. Rocha Madahil, e de que já publicámos alguns no primeiro volume, sabe-se que o povo vivia aterrorizado com tal fidalgo.

Não permitia as menores liberdades aos tavaredenses de então. Inclusivamente, basta recordar que ele e os seus lacaios não tinham pejo em invadir a casa dos pobres residentes, se desconfiasse que tivessem feito um simples forno para cozer o seu pão ou assar um pedaço de carne.
Será bastante difícil acreditar que, vivendo nessas condições, o povo tivesse qualquer disposição, ou liberdade, para teatros. Parece-nos, portanto, lógico admitir que o Teatro em Tavarede terá surgido entre 1771, data em que os fidalgos perderam o seu poderio, e 1865, ano em que Ernesto Fernandes Thomaz cá veio assistir a uns teatros...

Com muita surpresa nossa, ao folhearmos um velho caderno de recortes de jornais relacionados com o teatro, encontrámos a seguinte notícia:
“ A 13 de Maio de 1798 foi inaugurado o Teatro de S. João na cidade do Porto. Prestou este serviço à cidade o seu antigo corregedor Francisco de Almada e Mendonça”.

Este Francisco de Almada e Mendonça era “moço fidalgo do conselho de D. Maria I, senhor da Villa de Ponte da Barca, 1º. alcaide-mór de Marialva, commendador da ordem de Christo, desembargador do Paço, intendente geral das obras publicas das trez provincias do norte, superintendente do tabaco e saboaria do Porto, intendente da marinha da mesma cidade, corregedor perpétuo da sua comarca, juiz geral das coutadas do reino e havia nascido a 30(?) de Fevereiro de 1757, e fallecido em 1804”.

Deixou obra importantíssima na cidade do Porto, que o perpétuou dando o nome de Rua do Almada a umas das, actualmente, mais importantes ruas da cidade.

Mas... e o que tem, ou pode ter, tudo isto com o teatro em Tavarede?

Apenas isto: este poderoso fidalgo tinha casado, a 26 de Dezembro de 1791, com D. Antónia Magdalena de Quadros e Souza, 10ª. senhora de Tavarede.

Recordemos, parcialmente, o que, no Dicionário Portugal Antigo e Moderno, Pinho Leal escreve sobre Tavarede:
“... Tinha aqui o seu solar, o benemérito D. Francisco de Almada e Mendonça que, quando aqui residia. era a providência dos povos destes sítios. As senhoras da sua família deram muitos ornamentos para a igreja matriz, alguns dos quaes ainda existem, assim como a sua casa e quinta, hoje dos condes de Tavarede...”
Relacionando tudo isto, ocorreu-nos uma ideia:

Tendo sido um grande protector do teatro na cidade do Porto, aonde até mandou construir o Teatro de S. João, hoje Teatro Nacional de S. João, em edifício já reconstruído, pois o original foi destruído por um violento incêndio ocorrido na noite de 11 para 12 de Abril de 1918, não terá sido este ilustre fidalgo que, durante as suas longas estadias em Tavarede, tenha incutido no espírito dos tavaredenses o gosto pelo Teatro?

Ele, e a sua família, foram grandes amigos e beneméritos do pobre povo de Tavarede. Acreditamos que, tendo-os ajudado materialmente, terão, igualmente, promovido a sua cultura. E o teatro era, à época, um dos principais veículos culturais.

Aliás, os seus descendentes terão continuado a sua obra. Lembremo-nos que foi o seu bisneto, o terceiro conde de Tavarede, quem mandou construir no seu palácio um teatro. Deu-lhe o nome de outro dos seus avós: o Duque de Saldanha. Nos últimos dois decénios do século XIX e princípios do corrente, ali se representaram bastantes dramas e comédias. Por ali passaram grandes amadoras e amadores tavaredenses, dos quais basta recordar o nome ilustre de Almeida Cruz.

Será esta a realidade quanto ao aparecimento do teatro em Tavarede? Conforme dissemos é esta a nossa teoria. Errada ou verdadeira, a certeza que há é que também a chamada “Casa de Tavarede” teve um importante papel no desenvolvimento do teatro e da música na nossa terra.

Não foram somente tiranos ou déspotas, os fidalgos de Tavarede. Também, e até em grande maioria, foram figuras ilustres e honradas, amigas da nossa terra, donde alguns eram naturais. E esta ainda não deu qualquer prova de gratidão para com eles.Perpétuou, e com toda a justiça, outros nomes ilustres. Falta recordar para sempre o nome dos fidalgos de Tavarede numa qualquer rua, viela, praça, beco ou simples travessa.

Não é justo que a ilustre Casa de Tavarede seja somente recordada, e enquanto conseguirem resistir, pelas tristes ruínas do seu palácio. Quando estas ruírem totalmente, desaparecerá para sempre, nas gentes desta nossa terra, a memória daqueles que foram os senhores de Tavarede.

E terminemos este capítulo com uma frase do dr. Rocha Madahil e que bem simboliza a realidade: “mas a Figueira deve tudo o que é à velha torre de Tavarede”.

(Ao dar uma volta aos meus apontamentos mais antigos encontrei esta nota, e algumas outras, que julgo ter interesse. Aliás, este 'teoria' foi depois publicada no segundo livro de Tavarede - A Terra de meus Avós)

Joaquim Rodrigues

Nasceu no ano de 1902, filho de José Rodrigues e de Ana de Jesus, natural de Sernache dos Alhos, Condeixa, e faleceu em Tavarede a 12 de Novembro de 1994.

Vulgarmente, foi conhecido por “Joaquim do Padre”, pois havia sido o padre Manuel Vicente, seu padrinho, quem o trouxera para o seu serviço, ainda muito novo.

Em 1931 foi nomeado Guarda Campestre pela Câmara Municipal da Figueira, sob proposta da Comissão Administrativa Paroquial de Tavarede e, no ano seguinte, foi eleito membro da Junta de Freguesia, tendo, também, exercido funções de regedor.

Herdeiro do padre Vicente, descobriu, anos mais tarde, numa arca velha que se encontrava na adega de sua casa, diversos livros de registos de baptismos, casamentos e óbitos da paróquia, que estavam desaparecidos e que teve o cuidado de entregar ao professor Vítor Guerra, o qual se encarregou da sua conservação.

Casado com Estrela Melo Brandão Saraiva, tiveram a seguinte descendência: Armando, Sílvia, Maria e Ernesto.

Sua mãe, Ana de Jesus, morreu em sua casa, em Fevereiro de 1953, com a idade de 103 anos.
Caderno: Tavaredenses com História

António Francisco da Silva

Faleceu na Figueira da Foz, onde residia há bastantes anos, no dia 23 de Fevereiro de 1950. Era filho de Joaquim Francisco da Silva e de Ana da Costa, naturais da vizinha freguesia de Brenha, onde ele também nasceu.

Casou com Augusta Cruz, de Tavarede, para onde veio residir. Teve dois filhos: Adriano Augusto e José Francisco.

Exerceu actividade profissional de serralheiro, na Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, como montador de pontes do Serviço de Via e Obras.

Militou no Partido Republicano Evolucionista, sendo um dos responsáveis pela secção deste partido em Tavarede. Foi eleito, por diversas vezes, para a Junta de Paróquia, onde desempenhou os cargos de secretário, tesoureiro e presidente, assim como também foi nomeado regedor.

No campo associativo, fez parte da Sociedade de Instrução até ao ano de 1914. Por divergências, pediu a demissão e ingressou no Grupo Musical, no qual, como dirigente, teve importante desempenho, especialmente na compra e reconstrução da sede, em 1924.

Abandonou a actividade associativa quando esta colectividade foi forçada a vender a sua sede (1931) e acabou com a secção dramática.
Caderno: Tavaredenses com História