quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Manuel Frederico Pressler

Escritor e dramaturgo, nasceu em 1907 e faleceu em 1972. Autor da peça Horizonte, ofereceu a mesma para ser representada, sem quaisquer encargos, pelo grupo dramático da SIT. Assistiu a uma representação no Casino Peninsular, ficando bastante agradado da montagem e desempenho que elogiou muito.

A colectividade atribuiu-lhe o diploma de sócio honorário, recebendo, dias depois, uma carta onde se lê: “…Venho muito sensibilizado agradecer as palavras tão gentis exaradas no vosso relatório, e a grande honra que me fizeram nomeando-me sócio honorário dessa prestimosa colectividade. Mais uma vez quero afirmar o prazer que tive em que Horizonte fosse representado pelo vosso Grupo Dramático que, em todas as representações desta peça, actuou de maneira notável. Quanto à cedência dos direitos, nada há a agradecer-me. Servindo a Sociedade de Instrução Tavaredense mesmo modestamente como fiz, prestei um serviço ao Teatro Português; e, se o Teatro é vossa causa, é também a minha causa…”.
Caderno: Tavaredenses com História

Sociedade de Instrução Tavaredense - 88

No domingo seguinte, depois da tradicional arruada pela Tuna de Tavarede e de uma romagem ao cemitério, onde foi homenageada a memória dos fundadores, dos amadores e sócios já falecidos, teve lugar a Sessão Solene do Centenário, que foi presidida, honrosamente, pelo então secretário de Estado da Cultura, Dr. José Amaral Pais.

Sessão solene do Centenário

“A cuidada sala de espectáculos daquela casa, onde pareciam ainda pairar os aplausos e as emoções da noite anterior, voltou a encher. Encheu a sala, encheu o palco, onde não faltavam lindas flores (pode entender-se o duplo sentido), e enriqueceu a história desta meritória associação. Esta sessão comemorativa teve razões de sobra para se tornar inesquecível. O público aderiu quase como se fosse a um espectáculo fortemente publicitado; na plateia e na galeria, os tavaredenses estiveram bem acompanhados por amigos e admiradores da sua sociedade; as colectividades congéneres fizeram-se representar em força e, algumas delas, ornamentaram as coxias laterais com os seus estandartes; as autoridades oficiais estiveram presentes: do Governo à Junta de Freguesia, com a Câmara Municipal da Figueira da Foz multipresente – Presidentes da Assembleia e do Executivo, Vereadores com e sem pelouro – e a reforçar o reconhecimento do mérito e do crédito da Sociedade, para além das presenças, várias mensagens de felicitações de gente ilustre: do Presidente da República ao actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa – como se sabe recente ex-presidente da CMFF – entre outras, que foram lidas pela presidente cessante a abrir a sessão que veio a ser dirigida por Sua Excelência o Secretário de Estado da Cultura.

Antes da oratória propriamente dita – os discursos da praxe – e logo após a leitura da correspondência, foram ainda distinguidos consócios ligados à sociedade há 50 anos, foi apresentado um novo estandarte da SIT e destruído o cunho da medalha comemorativa do centenário na presença do autor, o conhecido Francisco Simões, e foram referidos os nomes da equipa de dirigentes recentemente eleitos, liderada por Vítor Medina, tendo a presidente cessante, Rosa Paz, feito uma breve intervenção em que manifestou a sua confiança nos novos dirigentes e aproveitado para agradecer a colaboração da equipa exclusivamente feminina que com ela trabalhou e aos que a apoiaram ao longo dos seus mandatos.

A seguir muitos foram os oradores que teceram justos elogios à continuada acção cultural desenvolvida pela colectividade, essencialmente com o teatro amador de qualidade e que há muitos anos extravasou o concelho, com actuações também além fronteiras. De entre os vários amigos da SIT, e para além daqueles (as) que são bem mais do que isso, usaram da palavra o Dr. Bernardes, um bem conceituado entendido na arte de Talma e conhecedor da carreira do grupo, e a Drª Teresa Coimbra, desde longa data muito ligada afectivamente aos tavaredenses que, com alguma emoção, se referiu ao inesquecível “sr. Zé Ribeiro” e aos seus conselhos”.

O que eles e elas disseram:

“Considero que o teatro é a forma de arte que mais nos interpela e nos confronta com os nossos valores. Quero deixar aqui a palavra “memória”, evocativa de todas as pessoas que tanto nos deram e nos enriqueceram ao longo de cem anos, com dedicação e esforço”. Ana Pires
“Abordar a história da SIT é recordar Mestre José Ribeiro autor do Hino do Limonete e Anselmo Cardoso, meu pai, que o musicou”. Carlos Cardoso
“Esta casa vive de muito trabalho, dedicação à cultura e ao teatro. A presença do secretário de Estado da Cultura é o mais forte incentivo para continuar”. José Paz
“Sublinho o apoio de Rosário Águas e de Teresa Machado, sempre disponíveis para nos ajudar. O que nos une nesta casa é o palco das emoções para além da razão”. Ana Maria Caetano
“Falei aqui há 50 anos com Cristina Torres e Lontro Mariano. Hoje, na comemoração do centenário, quero expressar a minha satisfação por estar aqui a agradecer o trabalho realizado ao longo de cem anos. Esta casa foi uma escola de educação, instrução, cultura, convívio, teatro, onde os conceitos de liberdade, solidariedade e cidadania estiveram sempre presentes. A obra iniciada há cem anos terá continuadores em vós”. Maria Teresa Coimbra
“Tavarede não era o que é, se esta casa não existisse. Por isso, Tavarede não entrou na onda da descaracterização, mantendo a sua identidade própria. A SIT e José Ribeiro foram, ao longo de cem anos, o emblema cultural da Figueira da Foz. O futuro há-de ser sempre o que quisermos fazer, se não quisermos atraiçoar a memória do passado”. José Bernardes
“A grande referência desta colectividade é o teatro, uma das vertentes de cultura, que nos leva a todos, a estar gratos à SIT. Que estas comemorações dêem frutos e sementes que germinem na mente e no coração dos mais jovens”. Daniel Santos
“É bom sentir uma casa viva, cheia, com cem anos de história e sempre apostada em construir um caminho de futuro”. Ricardo Alves, representante do Governo Civil
“Lembro-me o que há mais de 50 anos ouvi de José Ribeiro: A SIT estará sempre presente se a Câmara Municipal necessitar da nossa presença. Esta casa é uma escola. Bem hajam pelo trabalho desenvolvido”. Muñoz de Oliveira

As festas foram prosseguindo com actuações do Grupo Coral David de Sousa, com o ‘contador de ‘estórias’ José Craveiro, a que se seguiu, no dia 17 de Fevereiro, a comemoração do Centenário do Nascimento de Violinda Medina. A homenagem constou de uma exposição, no nosso salão nobre e de um sarau em que, com a colaboração do nosso grupo cénico, foi evocada a passagem de Violinda Medina pelo nosso teatro e contada, em resumo a sua história. Foi apresentada uma gravação, visual e sonora, da sua representação na peça “Mesa Redonda”, em 1975, onde interpretou o papel de “Velhinha”, da peça “O Processo de Jesus”, e uma gravação sonora da sua interpretação de “O Pranto de Maria Parda”, acompanhada pela projecção de diversas fotografias tiradas aquando da representação desta peça.



Bolo do centenário do nascimento de Violinda Medina e Silva

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

TAVAREDE - PERGAMINHOS

No cartório da Câmara deste Couto, não se acham livros antigos, acham-se, sim, vários pergaminhos escritos e selados com selos reais de diferentes armas, cuja letra não se pode ler por ser antiquíssima e escura, e por isso se não pode saber de que tratam, nem há livro nem tradução dos ditos pergaminhos.

Este Couto de Tavarede tem 90 fogos, com alguns casais circumvizinhos a este mesmo Couto, ao qual pertence o lugar da Figueira da foz do Mondego, que é sujeito a esta vara em todas as matérias cíveis, o qual lugar tem 157 fogos, e uns e outros fazem 247 fogos, e tudo é jurisdição cível da vara deste Couto.
Igreja de Tavarede - cenário da Sociedade de Instrução Tavaredense

Os direitos reais que lográra dos Senhores Reis, até ao tempo do Senhor Rei D. Sancho, foram dados ao Abade Pedro e Cónegos do Cabido da Sé de Coimbra, a qual doação foi confirmada pelo Senhor Rei D. Manuel, como melhor há-de constar dos papéis e doações que o mesmo Cabido tem em seu poder. E também consta do Foral deste dito Couto, dado pelo mesmo Rei D. Manuel, com declaração dos direitos que se pagam ao Cabido de Coimbra, que são dízimos, oitavas e portagens.

Não se acha memória nem há tradição alguma acerca da antiguidade deste Couto, nem seu princípio e primeiros habitantes, salvo se consta dos pergaminhos que se não sabem ler e estão no Cartório desta Câmara. E isto melhor constará do Cartório do Cabido de Coimbra.

Este Couto está situado ao redor do rio Mondego, distando de meio quarto de légua e dista do mar e praça de Buarcos um quarto de légua. O lugar da Figueira, sujeito a este Couto, está situado ao pé do mesmo rio, e no fim dele abre a barra do dito lugar. Neste Couto se costumam fazer cada ano três procissões públicas, que ordena a Justiça, as quais são a da Visitação de Nosso Senhor, a do Anjo da Guarda e a do Corpo de Deus.

(extraído dos livros manuscritos do Dr. Mesquita de Figueiredo)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Grupo Musical e de Instrução Tavaredense



O Grupo Musical e de Instrução Tavaredense comemora, em Agosto próximo, o seu primeiro Centenário. Já aqui publiquei um pouco da sua história, um pouco do seu passado brilhante e um pouco dos tempos menos bons. Ainda hoje o seu grupo cénico e a sua tuna são recordados com imensa saudade. Mas, de vez em quando, surgem coisas que vale a pena recordar. Por exemplo, a representação da peça 'Mãe Maria', da autoria de Raul Martins, versos de António Amargo e música de Herculano Rocha.


Vem isto a propósito do seguinte: Com as mudanças forçadas que o Grupo Musical teve de fazer ao longo destes 100 anos, perdeu-se muito material que nos contaria o passado da colectividade, especialmente do seu grupo cénico, desaparecido em 1930. Em especial fotografias. E é pena porque deveria ter um espólio bastante grande.


O meu caro amigo e primo Helder Oliveira, tavaredense entusiasta e associativista fervoroso, teve a gentileza de me oferecer quatro fotografias de uma representação teatral do grupo cénico do Grupo Musical, pedindo-me para tentar a sua identificação, não só quanto aos figurantes como, também, ao local onde foram tiradas.


E o caso acaba por ser bastante interessante. Depois de vasculhar os minhas notas, cheguei à conclusão que as mesmas diziam respeito a uma opereta, representada em 1929, com o título de 'Mãe Maria'. Adiante estarão referidos os autores e intérpretes. O curioso é que esta opereta, ensaiada por Raul Martins, também intérprete e autor, só foi representada uma única vez. E foi fora da colectividade, pois, segundo nota encontrada, as dimensões do palco não permitiam a sua representação na sede. Foi na Figueira, no Parque Cine, em Julho de 1929.


Não sei se o resultado terá sido proveitoso, tanto mais que o Grupo Musical atravessava uma das suas maiores crises financeiras. Mas isso é outra história. O facto de ser representada na Figueira e no Parque, levou-me a pensar que as fotografias não teriam sido tiradas na nossa terra. Não tenho ideia de alguma vez ter visto por cá uma palmeira. Pensando no caso, pareceu-me ter localizado o sítio: no quintal das 'Freirinhas', junto ao mercado. Lá está a palmeira e as escadas para o varandim. Estarei certo?


Entretanto, achei por bem transcrever as críticas que foram feitas a esta representação e a resposta que lhe foi dada por António Amargo. A primeira é uma pequena nota, a outra é que interessa.


Supômos que os autôres da Mãe-Maria pensavam fazer uma peçasinha ligeira e fácil, com motivos populares e simples.
Musica sob a regencia de Herculano Rocha, - e está dito tudo, que este musico distinto e habil, tem feito seus créditos. Violinda Medina, a excelente amadora de sempre. Córos fartos enchendo a scena. E vá sem favor, - formosas raparigas, de lindos rostos e garrido aspéto. A casa cheia.
E aplausos nos remates d’acto. Estas recitas são sempre um motivo de cultura – Por isso de elogiar os seus organisadores, o que fazemos com gôsto e justiça. (O Figueirense)


Conforme o nosso jornal noticiou, tivemos no domingo passado, no teatro Parque-Cine, a representação da opereta em 3 actos A Mãe Maria, original de Raul Martins, com versos de Antonio Amargo e musica de Herculano Rocha.
A acção é rasoavel, bem conduzida, e, para não fugir à tradição das peças do genero, é passada numa aldeia do verdejante Minho.
O enrêdo não é de todo vasio de intuitos. Consegue conquistar desde o começo a atenção do publico, mantendo-se o diálogo animado, natural e sugestivo, especialmente quando entra a Mãe Maria e o Prior.
Nota-se, contudo, uma sensivel falta de observação psicológica que embora não seja de gravidade, é deveras lamentavel.
O prior não desempenha ali o papel que aos padres está confiado na terra.
Anda na pandega, bebe rasoavelmente, e chega a sustentar conversas pouco correctas com uma caricata velhota, censurando-a ironicamente e troçando-a – o que não é, positivamente, o dever dum padre. E a mais rudimentar logica não permite aceitar como verosimil que o prior duma aldeia minhota ande a peitar este ou aquele para tirar um desforço violento do boticario e do sacristão, por estes terem tido o desplante de escreverem umas declarações d’amôr a uma sua irmã – como absurdo é alguns dos freguezes deste prior tratarem-no por tu, com uma familiaridade inadmissivel para quem conhece os usos e costumes das boas terras d’Entre-Douro-Minho.
Em suma: O sr. Raul Martins creando d’est’arte o prior da sua peça, deu-nos claramente a perceber a falta total de informação religiosa que domina o seu, aliás, inteligente espirito.
A missão do sacerdote não comporta, certamente, dentro dos fins da paz e amor que a orientam – o perfil moral do seu inverosimil prior que... apenas se sabe que o é por envergar em scena as vestes talares.
Apesar disso é “A Mãe Maria” uma peça interessante, devendo, contudo, dizer que esperavamos melhor, mesmo muito melhor – dada a impressão que nos deixou a representação da opereta dos mesmos auctores “A noite de Santo António” que tem sobre esta evidente superioridade de urdidura e de tecnica.
Não esperavamos, evidentemente, uma obra-prima, mas não previamos que, sobretudo, os versos de “A Mãe Maria”, - fossem duma tão manifesta inferioridade em relação aos da “Noite de Santo António”. Quasi que não parecem do mesmo auctor, poeta brilhante e de destra cultura.
Quanto ao desempenho, destacamos em primeiro logar, Violinda Medina, no papel de Mãe Maria que desempenhou com um á-vontade e uma perfeita correcção, que vieram confirmar os seus anteriores triunfos scenicos. A sua voz é como que um veio de agua cristalina, murmurando suavemente por entre fraguedos, modulando o canto com um raro e precioso sentimento que muitas artistas profissionais, certamente, invejariam. É, sem duvida, uma muito distincta amadora que honra, sobremaneira, Tavarede.
Adriano Silva no Bento Boticário satisfez-nos plenamente, como amador seguro, dizendo com graça e naturalidade. Egualmente Manuel Nogueira no Antonio Sacristão foi um comico impagavel, conquistando a simpatia do publico pela vida invulgar que imprimiu ao papel.
É sem a menor duvida um dos melhores elementos do seu grupo scenico.
Raul Martins, pela forma como se houve no Morgado, bastaria para, com Violinda Medina, salvarem a peça, se ela não tivesse outros méritos.
Foi o correcto galan de sempre, vincando com certeza e consciencia o seu logar.
Manuel Cordeiro, bem. É um novo nas lides de Talma, mas com marcada propensão para a scena e dotes muito apreciaveis.
De Jorge Medina, sómente diremos que “filho de peixe sabe nadar”... Recordámos com saudade seu pae, o malogrado José Medina, cuja boa tradição ele já sabe honrar, registando nós com aprazimento os seus constantes progressos.
Clarisse Cordeiro apesar das suas reaes aptidões para o teatro não poude brilhar no papel de Berta como poderia, pois a sua voz não lhe permitiu dar o relevo preciso. Tem, porem, uma boa dicção e pisa o palco com natural despreocupação.
Os restantes, João Nogueira no Ricardo; Antonio Medina no Mordomo e Helena Gomes na D. Ana, encarnaram bem os seus papeis, não desmanchando o conjuncto.
Os córos geralmente bons; homogeneos e com forte sonoridade tendo, por vezes, deslises sensiveis mas facilmente remediaveis para o futuro.
A musica, ligeira, viva e alegre, dispondo bem o publico. Os scenarios agradaram.
O que, porventura, não agradará é esta nossa critica aos distinctos amadores de Tavarede... Notámos deficiencias, aliás bem naturaes – mas se acharem o nosso juizo parcial ou incompetente – o melhor é recorrerem a qualquer critico amigo que lhes teça o panegirico na Pagina Teatral de “O Século”.
Já agora! Visto que entrou em moda.... (a) Vitalino Modesto (O Jornal da Figueira)

Exmo. Sr. Vitalino Modesto
Li a critica que V. escreveu em o numero passado de O Jornal da Figueira ácerca da opereta A Mãe Maria, da qual fui um dos colaboradores.
No geral, concordo com as opiniões que V. expôz com uma imparcialidade muito de louvar; a Mãe Maria não é felizmente uma obra levada nos motores da Fama – a Fama modernisou-se, já não tem azas, mas sim motores – aos pincaros da lua, nem conquistou para os seus auctores, modestos como V., um fauteuil académico ou algum hábito... nem mesmo o habito do auto elogio: é uma peçazita, sem pretensões e tambem modesta, com alguns defeitos que V. lhe apontou e outros mais passados em claro.
Só com duas afirmações não posso conformar-me:
1ª - V. não acha próprio que o Prior velhote seja um patusco, goste de alimentar a sua intrigazinha e mande sovar o sacristão e outro padecente. Eu entendo-o propriissimo: ministros de Deus tem havido, e dos bons, que nem em outros delegavam o encargo de desancar o proximo, serviço que eles mesmos faziam valentemente a varapau. Já ouviu falar no padre Domingos, de Cabeceiras de Basto, que varria feiras de cacete em punho? Ao pé dêste e de tantos outros o nosso Prior da Mãe Maria é um santo.
2ª - Pareceram-lhe muito inferiores os versos de Antonio Amargo – os versos meus – comparados com os de A Noite de Santo Antonio, outra opereta da mesma trempe, a tal ponto que dir-se-ia não serem do mesmo auctor. Evidentemente, quem anda a lidar com as caprichosas senhoras Musas faz versos melhores ou peores, dependendo o facto dum largo concurso de circunstâncias. E depois... gostos pessoaes não são discutiveis; mas com franqueza – e perdoe o sr. Modesto a minha imodéstia – não dei ainda por tão grande inferioridade, nem compreendo como conseguiu fazer de cór o cotejo dos versos das duas peças, quando eu, o seu auctor, não me atreviria a fazê-lo... sem ler uns e outros antes de escrever a critica. (a) Antonio C. Pinto d’Almeida (O Jornal da Figueira)
Da esquerda para a direita: Raul Martins, Clarice Cordeiro Oliveira, Violinda Medina, Manuel Cordeiro, Jorge Medina e José Silva. Atrás apercebemo-nos de mais figuras, só conseguindo distinguir o da direita, Fernando Reis.

Raul Martins, José Silva e Clarice Cordeiro Oliveira

Adriano Silva e Helena Gomes (?)

Manuel Nogueira e, a espreitar na janela, Manuel Cordeiro

Sociedade de Instrução Tavaredense - 87

No sábado seguinte, 17 de Janeiro, teve lugar o espectáculo de gala.

Programa do espectáculo 'Marcha do Centenário'


Chá de Limonete


O espectáculo foi encenado por Ana Maria Caetano e Ilda Manuela Simões. “A comemorar os cem anos (1904-2004), de intensas e prodigiosas actividades teatrais, recordam-se os seus fundadores e todos os obreiros do teatro da terra do limonete. Enaltece-se na efeméride o inesquecível José da Silva Ribeiro, que desapareceu fisicamente há 16 anos, mas vive na memória de todos quantos ainda se regem pelos ensinamentos, subsistindo a sua escola no trabalho artístico dos actores da Sociedade de Instrução Tavaredense. Diríamos que a arte e o sonho são uma constante neste grupo de jovens e menos jovens que aliam a sua arte à solidariedade, sendo eles próprios a seiva renovadora desta colectividade que se movimenta para o povo e dele terá, sempre, o seu carinho e aplausos merecidos.

A Marcha do Centenário de lotações esgotadas. É sobretudo poesia, através da qual nos é dado conhecer as raízes do povo de Tavarede, a sua simplicidade, o seu trabalho, sua espontaneidade e alegria. Também os trajes complementam o quadro, e a música que gentes simples cantavam, ao compasso da enxada, cavando a terra. No trabalho duro, mas honrado. Mas regista, também, ao longo da sua apresentação alguns confrontos interpretativos do melhor que os actores sabem assumir nos textos que lhes cabem, transmitindo à plateia o que o autor pretende em razão e emoção.

Provou-se nesta Marcha do Centenário não serem necessários os quadros estéticos das cenografias para contagiar as plateias, já que neste espectáculo se revitaliza a cor e a graciosidade, os tons (e o cheiro) da terra, face a uma plateia que ri, e se emociona até às lágrimas, batendo palmas sem fim numa apoteose inesquecível.

Porque se entende, e é necessário entender para sentir a arte e o sonho de um espectáculo riquíssimo de amor às tradições de uma terra que nos ensina a reviver a nobre cultura de gentes que são nossas, porque iguais nas alegrias e tristezas da vida, que caminha sempre para o nada. E neste constante marchar de cada um, saibamos marchar também com as nossas palmas, marcando presença e gratidão no sonho e por forma a vencer os nossos dramas. E de tudo isto, Fernando Romeiro, o anfitrião, nos deu conta, na boca da cena, que foram 15, num ritmo profissionalizado, envolvente, vigoroso e expressivo, convidando a plateia ao espectáculo da Marcha do Centenário, de cena em cena, para rir e pensar, pois então.

Ao palco da vida
Ao palco das emoções,
Cantemos!
Este é o nosso Teatro.
Cem anos de tradição.
Festejemos!
Ao nosso mundo,
Ao nosso sonho.
Brindemos!

O chá da terra do limonete, génio alegre, as árvores morrem de pé, brasão de Tavarede, pote florido nos jardins de Tavarede, os velhos, Maria Parda, na fonte de Tavarede, laranjas de Tavarede, a forja, a mãe do Processo de Jesus, a conspiradora, foguetes na terra do limonete e, por último, o centenário da SIT, em apoteose e com o Coro de Champanhe, a encerrar de forma magnífica pela qualidade dos sons e da movimentação em palco, com o público rendido e feliz de uma noite e uma marcha que nos obriga a voltar à Sociedade de Instrução Tavaredense.
Apoios à produção vieram da Câmara Municipal da Figueira da Foz, Junta de Freguesia de Tavarede, Escola Profissional da Figueira da Foz e Rancho do Saltadouro”.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Faustino Ferreira


Natural de Tavarede, aqui nasceu no dia 5 de Maio de 1889, filho de António Ferreira e de Margarida Ramos. Casou com Emília Gaspar da Silva. Teve um filho, Renato e três filhas, Maria de Lurdes, Gracinda e Alda..

Trabalhador nas Oficinas Mota, da Figueira, trabalhou depois, durante muitos anos, na quinta do Sotto Maior, como mecânico das máquinas que produziam a electricidade para o palácio e anexos, bem como era responsável pelo fornecimento e distribuição da água necessária aos consumos.

“… um dos bons amadores tavaredenses, há tempos desligado destas massadas por habitar na Figueira, veio de novo ligar-se aos seus companheiros de palco. É que concorda com a orientação do Grupo.

E como ainda está novo, entende dispensar-lhe todo o seu esforço, todo o seu valor”.

Desde a fundação do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, de que terá sido um dos primeiros sócios, fez parte do seu grupo cénico. Diversas críticas, aliás, referem-no como amador de muito boa qualidade.


Caderno: Tavaredenses com História

Eduardo Pinto de Almeida

Foi regente da Tuna do Grupo Musical e de Instrução Tavaredense, dirigindo também a orquestra que tocava com o grupo cénico.

Em Dezembro de 1924, o Grupo inaugurou as obras que executara na sua sede. Na primeira parte do sarau, “apresentou-se a Tuna no palco, que executou, sob a proficiente direcção do maestro sr. Pinto de Almeida, um reportório escolhido, que a numerosa assistência não se cansou de aplaudir”.

São de sua autoria as partituras das operetas, representadas pelo Grupo Musical, Ninotte e Amores no Campo. Foi nomeado sócio honorário desta colectividade.

No ano de 1925, o Grupo Musical efectuou uma deslocação à Marinha Grande, com o seu grupo cénico e a sua tuna. Esta, no segundo espectáculo, “fez a sua apresentação no palco, onde tocou várias peças, constituindo um acto”, que a assistência aplaudiu com entusiasmo.
Regressando a Tavarede na segunda-feira, 12 de Outubro, e como o maestro Pinto de Almeida fazia anos nesse dia, foi-lhe oferecido “um bonito objecto de vidro, com a seguinte gravação – Ao maestro Pinto de Almeida, no dia do seu aniversário natalício – 12-
Caderno: Tavaredenses com História