quarta-feira, 13 de abril de 2011

TERRAMOTO DE 1 DE NOVEMBRO DE 1755

Manda V.Exª. que individualmente dê eu conta do que nesta freguesia de Tavarede se observou nos terramotos passados. Respondendo distintamente aos interrogatórios de um papel, que da parte de V.Exª. me foi entregue, e deixando de expressar os movimentos do fluxo e refluxo do mar, pois neste ponto era V.Exª. informado pelo padre Teles, pároco da Figueira e Buarcos, terras a ele mais vizinhas, só dou conta a V.Exª. do que nesta freguesia se observou:

Ao 1º. – O terramoto sucedido em o primeiro de Novembro, teve o seu prinxcípio das 9 para as 10 horas da manhã, e sentiu-se lentamente tremer a terra, se foi aumentando o tremor com maior impeto, de sorte que abalando os edifícios, por forma que mostravam que iam arruinar-se, obrigaram a que seus habitantes se recolher à Igreja a orar a Deus, e chegando a maior parte deles à mesma, ainda dentro do tempo da duração do terramoto (cujo, pouco mais ou menos, existiria por espaço de um quarto de hora), se viu também tremer em tal forma, que as lâmpadas, com os seus vais e vens, chegavam quase a tocar as paredes, caindo a este mesmo algumas “esquírolas” de pedra do fecho do arco da capela-mor.

Ao 2º. - Quanto aos impulsos do dito terramoto, só se sentiram maiores do norte para o sul, ou pelo centro, nesta parte não houve pleno conhecimento, e só se viu que o tremor vinha da parte do sul.

Ao 3º. – Nesta dita freguesia não houve edifício que experimentasse ruína maior e só um em todos se divisam “vimolas”, mais ou menos, de sorte parecer que não ficaram necessitando ser especados, nem dão motivo aos seus habitadores se saiam deles a assistir no campo.

Ao 4º. – Não morreu nesta freguesia pessoa alguma nem tão pouco experimentou o menor dano.

Ao 5º. – Nas fontes não se viu mais do que turvação das águas.

Ao 7º. – Não rebentou fonte alguma de novo nem mesmo a terra abriu brechas e só se viu correr das mesmas fontes água em mais abundância.

Ao 8º. – Não houveram providências pelos militares e ministros por não haver necessidade que a tanto os obrigasse e da parte do culto só estive a intimar que o sucedido era ira do Altíssimo e provocar o povo a penitência e preces, que executaram e continuam.

Ao 9º. – No primeiro dia de Novembro, depois do terramoto já expressado, se sentiram mais dois de menos força. A 14 do mês de Janeiro, pela uma para as duas depois da meia noite, se sentiu um terramoto mais violento que o primeiro e obrigou auqse todo o povo a sair das casas para o monte, porém com menos duração, e finalmente, desde aquele primeiro dia de Novembro até ao presente tempo, não tem passado noite em que se não tenham percebido lentos terramotos, uns maiores outros menores e alguns deles quase imperceptíveis, por não terem dos mesmos conhecimento algumas pessoas, e não se tem experimentado dano em todos estes que ao primeiro se têm seguido.

Ao 10º. – A este não respondo por dizer respeito a lembrança de algum terramoto antigo e seu dano, do que não tenho notícia.

Ao 11º. – Há nesta freguesia 504 pessoas de um e outro sexo, sendo grandes e pequenos, a saber do sexo masculino 249 e do femínino 247, em cujo número se incluem 4 escravos e 4 escravas. Ao 12º. – Não se tem experimentado nesta freguesia falta alguma de mantimentos, antes com comodidade se têm comprado e compram.

Ao 13º. – Não houve incêndio algum.

É só o que se me oferece dizer a V.Exa. sobre os interrogatórios a que me preceitou responder e o faço dentro do tempo que me foi constituído. Deus guarde a V.Exa. como deseja e lhe com um que a Sua Graça para o bom regime dos seus súbditos.


Tavarede, 6 de Março de 1756. De V.Exa. muito atento e fiel súbdito. O cura, Manuel Gomes Chumbo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Virgínia Monteiro Fadigas

Filha de Joaquim Migueis Fadigas e de Mariana Fernandes Monteiro.

Nasceu no dia 19 de Junho de 1904 e faleceu a 13 de Novembro de 1998.

Amadora do grupo cénico da Sociedade de Instrução Tavaredense. Começou como figurante e teve o seu primeiro papel, em 1924, na opereta Os Amores de Mariana, a que se seguiram Noite de S. João, Em busca da Lúcia-Lima, Má Sina, Os Mentirosos, Pátria Livre, O Sol de Ouro, Uma Teima e Simão, Simões & Cª.

O seu papel mais destacado terá sido o de Capitolina, na opereta Em busca da Lúcia-Lima. “… é uma promessa. Tem vivacidade. Tem alegria. Se estudar e não se deixar tomar pela vaidade, pode vir a ser uma boa amadora”.

Terminou a sua carreira teatral em 1927.

Foi nomeada sócia honorária da colectividade.


Caderno: Tavaredenses com história

José Maria de Almeida Cruz

Natural da freguesia de Santa Cruz, Coimbra, “pintor, casado com Maria Guilhermina de Sousa Monteiro, governanta de sua casa e natural deste lugar e freguesia de Tavarede, aqui recebidos, aqui paroquianos e aqui moradores”.

Faleceu em 27 de Agosto de 1918. “Na idade avançada de 85 anos, finou-se na pretérita quarta-feira o nosso amigo sr. José Maria de Almeida Cruz, pai do nosso ilustre conterrâneo António de Almeida Cruz, actor-cantor da Companhia de Opereta do Teatro Avenida, de Lisboa.

O extinto, que foi durante largos anos empregado na Escola Industrial dessa cidade, gozava em Tavarede de geral estima, pelas excelentes qualidades de que era dotado, causando a sua morte a mais profunda consternação em todos que o conheceram e que com ele conviviam”.

No ano de 1897 havia sido nomeado regedor da paróquia de Tavarede. Foi dedicado e interessado associativista, presidente da assembleia geral da Estudantina Tavaredense, em 1900, colaborou com a Sociedade de Instrução e, desde a sua fundação, esteve ligado ao Grupo Musical e de Instrução, de que foi o primeiro presidente da assembleia geral eleito.

Possuidor de uma vasta colecção de peças de teatro, dramas e comédias, legou as mesmas à Sociedade de Instrução, onde se encontram guardadas na sua biblioteca.


Caderno: Tavaredenses com história

António da Silva Coelho

Amador dos mais antigos do grupo cénico da Sociedade de Instrução, já tinha representado sob a direcção de João dos Santos no antigo teatro do Terreiro. Em 1905 já o seu nome aparecia numa notícia como um dos amadores.

Na colecção de programas existente, aparece, pela primeira vez, no drama A Mãe dos Escravos, em 1912. Participou em João José, Os Amores de Mariana, Amor de Perdição, Entre duas Ave-Marias, no ano de 1922, e depois de uma longa ausência da terra, regressou em 1953, para participar em Chá de Limonete, Horizonte, Frei Luís de Sousa e Serão Homens Amanhã.


Por ocasião das Bodas de Ouro, em 1954, reviveu o seu papel de Zé Piteira, na opereta Os Amores de Mariana, que havia interpretado 40 anos antes, protagonizando esta opereta com Helena Figueiredo.


(Caderno: Tavaredenses com história)

Tavarede - Doações

Referimos atrás a possibilidade de Tavarede ter sido povoada pelos fenícios. Outros povos, posteriormente, conquistaram e dominaram a Lusitânia, até que, no ano de 711, se iniciou o domínio muçulmano na península ibérica. “ Poucos anos depois da invasão muçulmana, os cristãos (hispano-godos e lusitanos-suevos) acantonados nas serranias do norte e noroeste da península, iniciaram a reconquista do território, formando novos reinos que se foram estendendo sucessivamente para o sul.


O primeiro reino cristão foi o das Astúrias fundado por Pelágio (718-737) e depois denominado de Oviedo e mais tarde Reino de Leão. Nos princípios do século X a província de Navarra tornou-se independente, formando o Reino de Navarra. Os reis astur-leoneses foram alargando os domínios cristãos que atingiram o rio Mondego (Afonso III), e, ao mesmo tempo, iam repovoando terras e reconstruindo igrejas e mosteiros, ficando célebre na parte ocidental o Mosteiro de Guimarães - com grande propriedades rústicas e muitos castelos por todo o norte do país. Porém, (no século X) as discórdias entre os chefes cristãos enfraqueceram o reino, e Almançor tomou a ofensiva destruindo Leão, a capital, e reduzindo o reino cristão ao último extremo.


No século XI, Sancho, rei de Navarra, anexou o condado de Castela e por sua morte os seus estados foram divididos pelos três filhos, sendo nessa altura os condados de Aragão e Castela elevados à categoria de reinos. O reino de Castela coube a Fernando, mas este em breve se apoderou também do reino de Leão. Fernando I, o Magno, rei de Leão e Castela, notabilizou-se na luta contra os muçulmanos recuperando muitas terras, entre as quais Coimbra (1064), alargando assim definitivamente os limites da reconquista até ao Mondego. Este monarca desenvolveu o território entre Douro e Mondego, o qual aparece designado por Portucalle, separadamente da Galiza, com dois distritos ou condados - Portugal e Coimbra - gozando de autonomia administrativa com magistrados próprios”. (História da Civilização Portuguesa). Caída a cidade de Coimbra em poder dos cristãos, Fernando I, o Magno, entregou o seu governo ao moçárabe Sisnando Davidiz (chamavam-se moçárabes os cristãos que viviam entre os árabes muçulmanos e tomavam os seus usos e costumes), que havia nascido em Tentúgal, cerca do ano de 1025. “...Com o governo da cidade de Coimbra passou, então, a usar o título de conde. Casou com Ourovelido Nunes, filha do conde Nuno Mendes, ligando-se assim à mais alta nobreza do ocidente peninsular. O conde Sisnando teve intervenção importante na rendição de Toledo, depois da qual parece ter sido seu primeiro governador cristão. Morreu no ano de 1091 e o seu túmulo encontra-se no claustro da Sé de Coimbra. (elementos extraídos da Grande Enciclopédia Luso-Brasileira)


Esta breve resenha histórica parece-nos importante para este trabalho, pois, a primeira vez que, em documentos até hoje encontrados, aparece o nome de Tavarede, é numa doação que em 1092, D. Elvira, filha do conde Sisnando, e seu marido, o então governador de Coimbra, fazem “de loco sancti Martini in villa Tavaredi” ao prócer D. João Gosendis, opulento senhor que era especialmente herdado na Beira Alta (actual concelho de S. Pedro do Sul), mas que foi um dos magnates da corte do conde Sisnando.


Carta de doação


Em nome da Santa e indivisa Trindade, eu servo de Deus Martine Moniz, juntamente com minha mulher Gulvira Sesnandiz, poique desde remotos tempos é costume dos nonre paternos, levados pelo afecto do amor, distribuirem alguma parte dos seus próprios benefícios pelos seus amigos fieis cujos serviços lhes comprasem, porisso também nós benevolamente commovidos pelo favor da vontade, de bôa mente e de motu próprio fazemos carta de doação a ti João Gondesindiz do logar de S. Martinho na villa de Tavarede. Pelo oriente está aquella varzea que parte com a villa de Tavarede pela penna de Azambujeiro e d’ahi corta no Sovereiro Curvo em direcção à Mamõa; pelo occidente a villa de Emide; pelo sul estão as saLinas junto do rio Mondego; pelo norte a villa de Quiaios. Concedemos-te na mesma já mencionada villa de S. Martinho todos que outrora ahi recebem Cidel Paiz do Conde D. Sesnando, que Deus tenha, e estão situados no territorio de Montemor para o lado da praia occidental, para que tenhas e possuas estes bens que te damos n’essa villa tu e os teus filhos e toda a tua descendencia depois de ti, e d’elles faças tudo quanto te aprouver de pacifico direito por todos os seculos. Se contudo, o que não podemos acreditar venha a fazer-se, alguns dos nossos estranhos pu parentes tentar infringir este nosso acto, pela simples tentativa dos seus próprios recursos seja obrigado, em juizo legal, a dar-te outro tanto quanto a ti te tiver querido tirar e tu sempre destas coisas mantenhas a posse. Foi feita esta carta de doação no quarto dia dos idos de Fevereiro da era de 1130 (10 de Fevereiro de 1092). Nós os supraditos Martim Moniz e minha mulher Gulvira Sesnandiz, esta carta de doação, que voluntariamente mandámos fazer, firmando com a nossa própria mão roboramos com estes signaes + +. Belidi justiz esteve presente, Mitus david esteve presente, Garcia Paiz testemunha, Notarins Christoforis esteve presente, Guterre Menendes testemunha, Petrus Christoforis testemunha, Suarius Adefonsi testemunha, Pelagius escrevi.


“... Nesta doação dá-se um informe precioso: a dádiva compreende no perímetro referido tudo o que o conde Sisnando havia confiado a um Cidel Pais, cujo primeiro nome denota um moçárabe: “omni que ibi obtinuit Cidel Pelagiz in antondo de consule domno Sesnandus”, havia pouco falecido. Este Cidel Pais talvez tivesse sido o povoador e reedificador de Tavarede e sua igreja, por incumbência do “cônsul” que não deixou de ter aí a plena propriedade, ao que tudo indica - até porque os doadores, se assim não fosse, ao citarem Cidel Pais, diriam que dele tinham ganho o que doavam a D. João Gosendes. A este é permitido deixar Tavarede à própria progénie e de qualquer forma dar ao doado o destino que entendesse: “facies inde omne quod tibi placuerit”.



Ora nisto parece estar precisamente a origem dos direitos locais, desde o de padroado, da Sé de Coimbra, pois D. João Gosendes foi um dos maiores benfeitores dela, a favor da qual fez testamento nos princípios do século XII”. (Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira). Mais tarde, em 1191 da era de Cristo, nova doação é feita. Desta vez, foi o segundo rei de Portugal, D. Sancho I e sua mulher, a rainha D. Dulce, que coutaram e doaram à igreja de Santa Maria de Coimbra a “villa que se chama Tavarede e está situada na borda do mar.



(Chá de Limonete - cena da doação)


Doação do Couto de Tavarede


Em nome de Deus esta é a carta de doação e de perpétua duração que faço eu Sancho pela graça de Deus rei dos Portugueses com minha esposa, rainha dona Dulce e com meus filhos e filhas, à igreja de Santa Maria de Coimbra da vila chamada Tavarede, a qual fica situada na borda do mar. Assim damos à memorada igreja aquela vila e tudo quanto na mesma temos por tal condição que os cónegos de Santa Maria a tenham para sempre por direito hereditário com obrigação de um aniversário e finalmente mandamos que nunca mordomo nosso ou algum outro dos nossos vassalos tenham poder de morar nela ou alguma coisa ahi fazer que seja contra a vontade dos conegos mas os conegos ela tenham livremente sem alguma regia ou episcopal exacção. E isto fazemos por amor da beata e gloriosa sempre Virgem Maria e na esperança da futura remuneração portanto todo aquele que aguardava por inteiro e inviolado este nosso feito seja bendito de Deus amen. Mas aquele que o quizer infringir seja maldito e tudo quanto fizer fique por irrito. Feita esta carta de testemunho aos 6 dias dos idos de Novembro na era de 1229 (1191). Nós sobrenomeados reis, que mandámos fazer esta carta, perante testemunhas adiante assinadas, a ratificamos. Estiveram presentes: Conde D. Mendo, mordomo da corte, confirmo; D. João Fernandes, alcaide de Coimbra, confirmo; D. Pedro Mendes, védor da casa real, confirmo; Egas Pelagio, testemunha; D. Osório, testemunha; Martinho, arcebispo de Braga, confirmo; Martinho, arcebispo do Porto, confirmo; Soeiro, bispo de Lisboa, confirmo; Julião, notário do senhor rei escrevi.


Foi assim que, a partir do ano de 1191, a vila e couto de Tavarede ficaram na posse da igreja de Santa Maria de Coimbra. Esta posse foi, posteriormente, confirmada pelo rei D. Pedro I, no ano de 1358, em que, na sua carta de confirmação de Coutos e jurisdições da Sé de Coimbra, referia: “... mando que na vila de Tavarede tragam a jurisdição civil e que os feitos criminais os ouçam e livrem em Momtemor-o-Velho...”.


Como donatária, a Sé de Coimbra passou a usar do seu direito de dispôr dos bens doados, de que é exemplo a doação feita em 21 de Junho de 1309, mediante fôro, no reinado de D. Diniz, de um cortinhal em Tavarede: ( Cortinhal, segundo o elucidário das Palavras, de Viterbo, é terra lavradia, aproveitada, rôta e fructifera, mas pouco extensa; e cercada de paredes altas, a modo de horta, jardim ou pomar, a que tambem antigamente chamarão Côrte ou Almerinha.


Em nome de D.s amen Conhoscam quantos esta carta virem que nós Cabido da See de Coimbra damos e outorgamos para todo o sempre a vós Matheus Affonço, e a vossa molher Maria bertholameu, e a todos os vossos sussessores aquele nosso Cortinhal que nós avemos no nosso Logar de Tavarede, com sós casas o qual soya de nós em outro tempo teer vicente godyus, o qual cortinhal é apar da azenha damos ele a vós, e outorgamos, e a todos os vossos sussessores que o tenhades, e ajades em todolos dias da vossa vida e dos vossos sussessores, e façades del quequer que vos aproyver. E devedes ende a nós dar e fazer foro como feseram vossos vesinhos de tavarede a nós e a Eygreja de Coimbra das sas herdades e devedes a faser e refaser as ditas casas no que for meester, mantelas em seo bom stado e sacontecer que nos Cabido de suzo dito queyramos faser, ndita asenha que é do dito Logar de Tavarede, vós devedes a nós dar carreiro para aduzer agua pelo d.to Cortinhal para a d.ta asenha, E carreira pª. irem e virem aaquelles que queserem moer, e ir a d.ta asenha sem contenda nenhuma E nom devedes vender o d.to Cortinhal com sas casas a moesteiro, nem a cavaleiro, nem a dona nem a outro homem poderoso, nem a creligo mais devendolo a vender a tal homem vilão que faça a vós o foro que vós nos feserdes assim como feserem os moradores de tavarede A parte de nós q. contra esto veer preite a outra parte que os aguardar em nome de pêa quintandolos a dr.a da moeda usada em Portugal E eu davondito matheos affonso louvo e outorgo todas as cousas de suzo ditas, e para esto comprir obligo todos meos beens moves, e de raiz avidos e por aver. Em testimonio destas cousas mandamos ende serem feitas duas cartas partidas por A b c pormão de Stevão pires tabeliam de Coimbra. E eu devondito tabeliam, a estas cousas presentes fuy e rogo das ditas partes duas cartas partidas por A b c com minha mão propria screvi, e em cada huma delas meu sinal fugy e en testimonio de verdade que tal é. Esto foi feito no Cabidoo da see de Coimbra vinte e hum dia de Jynho Era mil tresentos quarenta e sete annos. E presentes forão João pires Prebendeiro Gonçalo eanes porteiro do Claustro da see francisco eanes scrivão do Vabido e outros. (José Jardim - Notas d’um figueirense - Documentos para a historia regional)(Gazeta da Figueira - 8.Agosto.1923)


Também o mesmo cabido tinha certos privilégios, alguns dos quais serão tratados noutros capítulos. Transcrevemos, aqui, o de cobrar portagens, conforme a provisão de 15 de Fevereiro de 1397: Provisão da Rainha D. Filipa de Lencastre, esposa do rei D. João I e Senhora de Montemor o Velho, auctorisando o cabido da sé de Coimbra a cobrar portagem no couto de Tavarede Saibam quantos este estromento virem como dez dias de Novembro da era de mil quatro centos quarenta e dous annos na Cidade de Coimbra no adro da see sendo hi o honrado Baram Pay Martins conego da dita See vigario geral do honrado Padre e Senhor Dom João Arcebispo de Santiago e Amenistrador da ditta Igraja e Bispado de Coimbra Outro sim estando hi Martim Martins Conego da ditta See e Procurador do Cabido da ditta see em presença de mim Pedraffonso publico tabalion por El Rey na dita cidade e das testemunhas que adeante som escritas pello dito Procurador foi logo hi mostrada huma carta de nossa Senhora a Rainha donna Phelipa Rainha de Portugal escrita em progaminho aberta e sellada nas costas do sello redondo e maior da ditta Senhora de cera vermelha e assinado no fundo por mam de Rodrigues Annes ouvidor da ditta Senhora e que nas costas da ditta carta andam feitos escritos dous estromentos da publicaçom dellas hum feito e assinado por mam de Lourenço Affonso tabaliom da ditta villa de Nontemor o Velho e outro feito e assinado por mão de Martim Esteves tabalion polla ditta Senhora na ditta villa segundo em nos ditos estromentos e carta paressia das quaes o theor he como se segue. Donna Phelipa pola graça de Deos Rainha de Portugal e do Algarve A vos nosso Almoxarife da nossa villa de Montemor o Velho e a quaesquer outros nossos Almoxarifese justiças a que esta carta for mostrada saude sabede que o Deám e o cabido da see da Cidade de Coimbra nos inviaram diser que estando elles em posse de grande tempo a aco de levar Portagens e mordomados do seu couto de Tavarede termo dessa Villa por bem de Doaçam que lhes do ditto lugar e direitos e pertenças del fora feito por El Rei Dom Sancho e a Rainha Donna Doçe que vos nosso mandado çhe tomarades as dittas portagens e mordomados esbulhando o delles sem ceendo elles a ella chamados nem ouvidos com seu direito e pedimentos por merçe que os mandassemos tomar à dita posse de que assim foram esbulhados como ante estavam e nos vendo o que nos pediam e por havermos certa informaçam se hera assim como elles desiam foi vos mandado por nossa carta que soubeçedes por verdadeiras informaçam e testemunhas antigas e dignas de fee se os dittos Deam e cabido estavam de posse de levar as dittas portagens e mordomado antigamente ou se a começaram de levar ora de nova como nos fora ditto; pela qual carta vos tirastes a ditta Inqueriçom a qual vista em Rallaçam por nos com os do concelho de meu Senhor El Rey acordamos que se provava por ella que os dittos Deam e Cabbido do tempo antigo levavam sempre e ouveram a ditta portagem e çordomado e que estavam elles em posse do tempo que por vos e vosso mandado foram esbulhados salvo da portagem do sal que sahir pela foz do Mondego, outro sim da disima do pescado que os moradores do ditto logo pescarem no Rio Mondego que pertençe a nós e que porem deviam ser tomados à posse da ditta portagem e mordomado pela guisa que ante estavam. Porem vos mandamos que logo vista esta carta os tornades a ditta sua posse como ante estavam e lhes façades entregar todo aquelle que lhes tendes tomado por nosso mandado do tempo que lhes asim foram tomadas por vós a ditta portagem e mordomado a tao tempo que por vertude desta nossa carta forem a posse delles restetuidos e deixadevos usar della assim e pella guisa que ante usavam recadando para nós a portagem do sal que sair pelo Mondego e a disima do pescado que os moradores do ditto logo pescarem em no ditto Rio; por quanto pella ditta inqueriçam se provava que pertencia a nós hende al nom façades. Dantes eu na Cidade de Evora quinze dias do mez de fevereiro, a Rainha Mandou por Rodrigue Annes scholar em leis vassalo del Rey e ouvidor do dito Senhor. Vasco Annes a fez. Era de mil quatro sentos e trinta e cinco annos. Rodericus Joanni (1397)(Gazeta da Figueira - 22.Agosto.1923) Saibam quantos este estromento virem como na Era de mil quatro sentos e trinta e cinco annos onze dias do mez de março em Montemor o Velho do arente da Igreja da Sam Martinho Pero Gonçalves chantre da see de Coimbra e Pay Martins conego da ditta see e Procuradores que desiam do Deam e Cabbido da ditta see que presentes estavam outro sim estando hi Joam Domingues Almoxarife da Rainha desta Villa, os sobreditos Procuradores mostaram e ler fiseram ao ditto Almoxarife esta carta desta outra parte escrita aqual vista pello ditto Almoxarife, o ditto Almoxarife obedecendo à dita carta disse que el aqueria comprir pella guisa que com ella era comtheudoe em comprimento della disse que el ditto Almoxarife mandava a Affonso Esteves Gago morador em o ditto logo de Tavarede que todolos dinheiros que el recebeo por seu mandado del ditto Almoxarife assim na ditta portagem e mordomado que os entregasse logo aos dittos Pero Gonçalves Chantre e Pay Martins pela guisa que em esta carta he contheudo E que outrosim que mandava e requeria da parte da Rainha ao juiz do ditto logo de Tavarede que cumpra esta carta como em ella he contheudo e leixe os dittos Deam e cabbido usar da ditta posse e haverem a ditta portagem e mordomado pella guisa que em a ditta carta he contheudo testemunhas Affonso Martins e Affonso Annes e João Gonçalves moradores em a ditta Villa e outros e eu Lourenço Affonso publico tabaliom por a ditta Senhora Rainha em a ditta Villa e termos que este estromento escrevi e em el meu sinal fiz que balhe sabbam os que este estromento virem como aos onze dias do mez de Março da Era de mil quatrocentos e trinta e cinco annos em Tavarede termo de Montemor o Velho ante as casas dalvaro vizente scendo hi Pero Gonçalves chantre da see de Coimbra e Pay Martins conego da mesma em presença de mim Martim Esteves Tabaliom de Nossa Cenhora a Raynha na ditta villa e termo e das testemunhas adeante escritas e estando hi outro sim Affonso Giraldez juiz do ditto logo e Affonso Esteves Gago morador outro sim no ditto logo os sobredittos Pero Gonçalves e Pay Martins mostraram e por mim ditto Tabaliom ler e publicar fiseram esta carta desta outra parte escrita outro sim este estromento suzo escrito so quaes lendos e publicados como ditto he logo por elles foi ditto e requerido ao ditto juiz e a Affonso Esteves Gago que lhe comprissem e aguardassem a ditta carta e estromento como em elles era comtheudo e mandou logo ao ditto Affonso Esteves que entregasse logo todolos dinheiros que elle tinha da ditta portagem e mordomado aos sobredittos e lhes defendeu que daqui em deante anontolhesse mais por mandado do ditto Almoxarife e aleixasse colher para o ditto cabbido como na ditta carta fora contheudo e o ditto Gago disse que lhe prasia e desto pediram os sobredittos Pero Gonçalves e Pay Martins este estromento feito dia, mez, era e logo suzo ditto testemunhas os dittos Alvaro Vicente e Francisco Matheus e outros e eu Tabaliom sobreditto que esto estromento escrevi e em el meu sinal fiz em testemunho da verdade. E logo pelo ditto Procurador do ditto Cabbido foi ainda mais mostradas duas cartas del Rey Dom Affonso que foi de Portugal escritas per latim em progaminhos abertas e seeladas de seu verdadeiro seelo das quinas de cera vermelha um colgado em cordam de retroz branco de fios brancos outro emtrena de retroz de fios pretos Segundo em ellas e em cada huma dellas parecia das taes o theor a tal he = (José Jardim - Notas d’um figueirense - Documentos para a historia regional)(Gazeta da Figueira - 25.Agosto.1923)


Mas, curiosamente, não foi só o cabido que fez doações. No ano de 1406, houve uma “doação de Marinha Affonso, de Tavarede, com autorização de seu marido, pela qual deu ao Mosteiro de Ceiça todos os seus bens moveis e de raiz, que tinha nesta freguezia e em outras partes, reservando para si o usufruto delas em vida, sob condição dos frades a receberem por familiaira, e façam participante de todas as boas obras que no mosteiro se fizerem, e seja sepultada com honra pelos monges, se no seu mosteiro eleger sepultura”.


O Mosteiro de Ceiça era, então, de grande devoção e respeito na região. Poucos anos depois surge nova doação pelo “testamento de Senhorinha Giraldes natural de Tavarede, e juntamente com o seu codicílio, pelo qual deixava a terceira de todos os seus bens à Virgem Maria de Seiça, sem dizer quais nem onde eram, com obrigação de a encomendarem a Deus e a seus Pais e marido”.(cadernos manuscritos do dr. Mesquita de Figueiredo).


Foi pouco depois que, com a instituição da casa de Tavarede, começaram as lutas pela posse de privilégios sobre o couto de Tavarede que a igreja de Coimbra, como donatária, queria manter, e de que os fidalgos, pelo seu poderio, se consideravam isentos. Como sempre acontece nestas situações, quem sofreu foi o povo. Mais lá para diante voltaremos, noutros capítulos, a estes assuntos.


(Tavarede - Terra de meus avós - 1º.)

sábado, 2 de abril de 2011

CASA SALGUEIRO - 100 ANOS




Não posso dizer que seja um caso de Tavarede. No entanto, sendo um estabelecimento comercial da Figueira da Foz, pertença de familiares tavaredenses, não podia deixar de aqui referir o facto desta casa de fazendas e atoalhados, comemorar ontem, dia 1 de Abril, o seu centésimo aniversário da sua fundação.


Não foram tavaredenses os seus fundadores. Mas eram da nossa terra os dois irmãos que, sendo empregados da casa, adquiriram o estabelecimento, quando do falecimento do seu fundador, José Antunes Salgueiro.


É, sem dúvida, caso raro na Figueira. Igualmente raro, mesmo raríssimo, o facto de um dos irmãos, José da Silva Cordeiro Júnior, começar a trabalhar da casa com 11 anos de idade, tendo falecido recentemente (30 de Dezembro do ano passado) com a idade de 88 anos. 77 anos de uma vida inteiramente dedicada ao mesmo estabelecimento, como empregado e como patrão.



Seu irmão, Raul da Silva Cordeiro, embora menos tempo, também ali trabalhou durante várias décadas.


Ao deixarmos aqui expressos os nossos parabéns e votos de que continue por muitos e bons anos, sob a gerência actual das herdeiros, Otília Maria e Cristina Maria, também queremos lembrar um caso curioso: tendo em conta a sua dedicação à nossa terra e às suas coletividades, aquele estabelecimento era conhecido como a sucursal na Figueira da Sociedade de Instrução Tavaredense.

Tavarede - Desde quando?


Como é costume dizer-se, perde-se na bruma dos tempos a origem de Tavarede.


No vale de S. Paio, junto ao caminho que atravessa o vale desde o Saltadouro até à estrada da Serra da Boa Viagem, existe um rochedo, na margem direita do ribeiro, que, habilidosamente, transformaram em mesa, tendo disposto em volta uns toscos assentos e que, nas tardes quentes do verão, proporcionam, sob a sombra da nespereira enorme, um aprazível local para uma saborosa merenda. É curioso verificar que aquele rochedo é, na verdade, um enorme conglomerado de fósseis marinhos, como certamente por ali haverá outros.


Quer isto dizer que em tempos remotos, todo o vale de S. Paio e a vasta bacia onde posteriormente nasceu Tavarede, se encontrava coberto pelas águas do mar. Certamente que em toda esta zona só estariam a descoberto os pontos mais altos, como a serra que se estende desde o Cabo Mondego até Maiorca, com relevos mais ou menos acentuados.


Outros montes haveria a descoberto. Sabe-se, de fonte segura, que o maciço da actual Serra da Boa Viagem foi zona habitada por animais pré-históricos, os dinossáurios, havendo vestígios das suas pegadas, em especial nas falésias do Cabo Mondego. Havendo animais, caça, é lógico, portanto, admitir que também aqui haveria, desde os mais remotos tempos, a presença do homem que, conforme o mar ia pondo a descoberto novas áreas, por aí se iria estabelecendo, sempre nos pontos mais altos.


“...Toda esta zona se achava integrada no território que constituia a Lusitânia, que primitivamente ficava compreendida entre o rio Tejo, ao sul, e o mar Cantábrico, ao norte. Em toda a Lusitânia há vestígios seguros da existência do homem pré-histórico desde o primeiro período da Idade da Pedra... ...O homem do Paleolítico vivia ao ar livre, em cavernas ou em cabanas de folhagem e ramos, revestia-se de peles de animais e usava instrumentos toscos de pedra lascada: machados, raspadores, furadores, pontas de zagaia, e arpéus feitos de osso ou chifre... ...Os homens do Neolítico, além de usarem instrumentos mais aperfeiçoados de pedra polida, constróem as primeiras habitações fortificadas - castros ou cercas - geralmente no cimo dos montes... ...Nos monumentos megalíticos, dolmens ou antas, e nas grutas neolíticas aparecem, entre os espólios encontrados, armas (machados, facas, pontas de setas), objectos de uso doméstico (agulhas e botões de osso), objectos de adorno (contas de colar de osso, de âmbar, etc.), peças de cerâmica, feitas à mão, por vezes ricas em ornatos decorativos, etc., etc., (História da Civilização Portuguesa).”


Na Gazeta da Figueira de 21 de Setembro de 1895 e a propósito das pesquizas e escavações arqueológicas levadas a cabo pelo ilustre historiador e arqueólogo figueirense, dr. António dos Santos Rocha, publicava-se: “Mais uma descoberta archeologica. No sitio do Crasto, freguesia de Tavarede, que tem sido objecto de várias pesquizas, sem resultados apreciaveis, começam a apparecer fragmentos de cerâmica muito interessantes. Uns apresentam os caracteres das louças Neolithicas da região; e outros assemelham-se ás louças pre-romanas das cividades do Minho. A existencia de toscas fortificações, cujos vestigios são manifestos, e sobretudo a tradição local de que em tempo os homens guerreavam ali á pedrada para a colina fronteira, ao nascente, dão um alto valor a esta descoberta, que vae proseguir-se com excavações regulares”, Posteriormente, no mesmo jornal, refere-se que, no chamado “monte crasto”, no Prazo, foram descobertas as ruinas de uma pequena povoação, toscamente fortificada, que se atribui aos princípios da dominação romana na península, ou seja, aos fins do século III antes de Cristo. Exumaram-se alicerces de habitações, numerosos rebotalhos de cozinha, instrumentos de trabalho e restos de adorno de utensílios domésticos. “...a sociedade fez novas sondagens na parapeito setenptrional do crasto, freguezia de Tavarede, descobrindo restos d’um muro de fortificação, feito de pedra secca, e por debaixo d’elle, alguns fragmentos de louça pintada, como a de Santa Olaya, e nas terras que formam o mesmo parapeito muitos outros fragmentos de louças semelhantes às já recolhidas nos fundos das cabanas do interior do recinto fortificado.


Estes factos indicam que a fortificação fôra levantada pelos proprios homens que deixaram alli os restos das suas habitações, em plena idade do ferro”. (Boletim da Sociedade Archeológica - 1903/1904). Este “monte crasto”, no Prazo, ainda hoje assim chamado, situa-se no limite norte da nossa freguesia, na vertente meridional da serra, e onde começa o vale de S. Paio. Um pouco acima do local onde se encontra o rochedo ao princípio referido. Vários objectos encontrados na região, e que se encontram no Museu Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz, como machados de pedra, atestam o povoamento da região nos longínquos tempos da pré-história. E depois?


Bom. Sabe-se que “a rica documentação neolítica da região e da abundância de dólmenes nas alturas que rodeiam Tavarede (serras de Buarcos - Brenha), onde as espécies dolménicas são numerosas” confirma, como atrás se refere, o povoamento deste território desde os tempos pré e proto-históricos. Um documento dos fins do século XI, situa o local de Tavarede no “Castro Laurelle prope civitas Sancte Eolalie juxta flumen Mondeco”.


Parece, portanto, que aquela zona do actual crasto, no Prazo, se estenderia pela serra até Quiaios e Brenha, e se denominava “castro Lourelhe”, assim chamado nos princípios da nacionalidade. Toda esta região, já antes do século XII, era dominada pelo “notável castelo medieval de Santa Eulália (ou Santa Ovaia), que assentava sobre um fortíssimo castro da idade do ferro” (pelo menos). Sobre Santa Eulália, achamos interessante a transcrição do seguinte apontamento: “foi assim chamado um castelo notável que existiu, com seu domínio, no litoral do Mondego”, situação que o cronista Frei A. Brandão assim descreve:


Este castelo de Santa Eulália... era fortíssimo pelo sítio e acomodado pela abundância da terra a se fazer guerra dele, e por este respeito mui estimado os anos passados, em que servia de freio aos mouros da Estremadura e de escudo à gente cristã. Para o que é de saber que, junto á vila de Montemor-o-Velho, para a parte do norte como um quarto de légua, se levanta uma serra não muito alta, a qual, correndo para o ocidente por algum espaço, fica cercada de campos fertilíssimos e terras mui abundantes. A ponta desta serra, dividida do mais corpo por espaço de cinquenta passos, faz um monte levantado em forma de ilha, rodeado de todas as partes dos mesmos campos. Terá de circuito seiscentos passos, e ficando pela parte do ocidente rocha talhada a pique e pelos outros subida dificultosa. (Grande Enciclopédia Luso-Brasileira).


Foi nesta zona que os Fenícios estabeleceram uma muito importante feitoria comercial, (Séculos XII a V a.C.). Será lógico, portanto, admitir-se que, sendo o local de Tavarede relativamente protegido do mar, embora ligado ao rio Mondego por um esteiro que subia até à povoação, fosse colonizado por aqueles povos, inclusivamente como ponto de vigia contra possíveis invasores vindos do oceano Atlântico, com pretensões de saquearem os seus ricos domínios em Santa Eulália e arredores.


Talvez, posteriormente, todos estes territórios fossem dominados por gregos e cartagineses. Os vestígios, até agora descobertos, ainda não permitem ter uma certeza absoluta de todos os povos que habitaram, durante séculos, a povoação de Tavarede.


Também se não encontra assegurada a origem do topónimo Tavarede. Descenderá o nome de “Tavared” uma muito remota povoação árabe, que existiria nas costas do mar Vermelho? Provirá do radical semita “Tavah” e da desinência latina “Etum” que, combinadas, levaram a “Tavahetum - Tavaretum - Tavarede” ? “Tavah” era o nome que os colonos fenícios e cartagineses, habitualmente famílias, davam aos limites das suas propriedades ou domínios, estabelecidos normalmente nos acidentes orográficos, dominando cada família os terrenos circumvizinhos. Nesta região, e segundo documentos antigos, havia abundantes “Tavahs” e, realmente, Tavarede está rodeada de muitos acidentes orográficos, uns mais elevados que outros. Talvez, por esse facto, tenham resolvido respeitar a designação, embora reunindo todos num só. O sufixo “Etum”, que em português deu “Ede”, era empregado pelos romanos nos substantivos colectivos, representando um determinado conjunto, como, por exemplo, vinhedo. Terá sido esta a origem do nome de Tavarede? A palavra de origem latina “Tabes” significa humedecer, apodrecer, decompor. Tavarede está situada em terras que foram pantanosas, húmidas e doentias. Porventura a antiga Malinária, de que nos falam os antigos e que a situam no território de Montemór-o-Velho (Album Figueirense - 1940).


Não podemos esquecer que o sufixo “Etum”, além de significar conjunto de vinhas, (razão porque a zona de Cantanhede, grande produtora de vinhos, tem tantas povoações igualmente terminadas em “ede”), também significava conjunto de mosquitos ou moscas. Terá sido “Tabes” (terra pantanosa) mais “Etum” (conjunto de mosquitos) a origem do nome de Tavarede?


Bem procurámos, mas não conseguimos encontrar nada sobre auela Malinária. A palavra, por corruptela, deverá derivar de maligna (febre). Será que a nossa terra era assim tão doentia ou insalubre? Também é possível que o topónimo “Tavaredvi”, do século XI, seja um locativo que se relacione com Távora “antigamente Távara” de que tenha derivado. O que se sabe é que a povoação é de origem antiquíssima, tendo sido despovoada pela acção dos muçulmanos que, presume-se, além de terem dado origem ao despovoamento, pela fuga das populações, terão destruido a mesma, incluindo a já então existente igreja de S. Martinho de Tavarede. S. Martinho, um bispo turonense que viveu no século IV d.C., era um dos santos mais populares, razão porque, talvez, tenha sido nomeado padroeiro de Tavarede, sendo já referido no século XI como o orago da vila de Tavarede. Sobre este Santo posteriormente nos debruçaremos e acabemos, por aqui, as nossas divagações.


(Tavarede - Terra de meus avós - 1º.)